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Viva a “Velha Guarda”! Abelão e Renato Gaúcho na liderança do Brasileiro
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André Rocha

Foto: Divulgação Grêmio.

São apenas duas rodadas e a última incompleta, ainda faltando São Paulo x Avaí no Morumbi. A história mostra que qualquer posicionamento inicial na tabela de classificação significa muito pouco. Em 2016, Internacional e Santa Cruz chegaram a disputar a liderança da Série A, para terminarem rebaixados.

Mas não deixa de ser simbólico que Fluminense e Grêmio, comandados por Abel Braga e Renato Gaúcho, exceções à renovação no mercado de treinadores do país, sejam os únicos com 100% de aproveitamento e, por isso, ocupem a liderança – vantagem para o tricolor gaúcho pelo saldo de gols.

E não foram vitórias fáceis, sobre equipes sem maiores aspirações na temporada. O Flu superou Santos no Maracanã e Atlético Mineiro no Independência; o Grêmio venceu o Botafogo em casa e o Atlético Paranaense na Arena da Baixada. Quatro times disputando Libertadores, todos classificados para as oitavas-de-final do torneio continental.

O fato de não pertencerem à escola “atualizada” de técnicos não impede que suas equipes apresentem um futebol moderno. Abel Braga não permite que suas equipes mudem a ideia de jogo quando atuam fora de casa. Em Belo Horizonte, o Fluminense nunca abdicou do ataque, mesmo diante do volume do time da casa.

Fez 2 a 0 no primeiro tempo com as armas de sempre: velocidade pelos flancos, troca de passes com bola no chão no meio-campo, que ganhou Gustavo Scarpa como ponta articulador para auxiliar Sornoza e Wendel, mais o trabalho de pivô de Henrique Dourado, autor do primeiro gol e artilheiro do campeonato com três e da assistência para Richarlison ampliar de cabeça.

Depois sofreu pressão na segunda etapa e resistiu com a bela atuação do jovem zagueiro Nogueira. Sem dinheiro para reforços, a diretoria tricolor convenceu Abel a usar a garotada e vem funcionando. A falta de um elenco mais robusto vem sendo compensando pelas surpresas oriundas de Xerém.

Já Renato Portaluppi fez o Grêmio ressurgir depois da frustração no Estadual, tratado como prioridade mesmo disputando Libertadores – motivado, é claro, pela fragilidade do grupo do time gaúcho no torneio continental.

Arthur foi um achado no meio-campo, com bons passes, poder de marcação e aparições no ataque com qualidade, como no golaço sobre o próprio Fluminense pela Copa do Brasil, após tabelar com Luan e Barrios. Dupla de ataque que vai se afinando no 4-2-3-1 que cada vez mais se trasforma em 4-4-2. Autores dos gols em Curitiba.

Com Ramiro mais meio-campista pela direita apoiando o redivivo Léo Moura e Pedro Rocha mais intenso e vertical, buscando as diagonais a partir do lado esquerdo. O sistema defensivo comandado por Geromel que faz marcação individual, mas novamente Renato consegue que seus comandados estejam tão preparados física e mentalmente que compensem com muito vigor físico.

No duelo pela Copa do Brasil, vantagem de Renato Gaúcho em Porto Alegre. 3 a 1 de virada na melhor partida da quarta-feira, porém um tanto eclipsada por outros confrontos do próprio torneio e, especialmente, pela Libertadores.

Não esperem dos dois treinadores discursos rebuscados, com os termos atualizados dentro da ciência esportiva. Talvez terminem bem longe da disputa pelo título nas 36 rodadas restantes. Em campo, porém, a resposta é mais que positiva no que o esporte tem de eterno: quem joga bem sempre estará mais perto da vitória, por mais caótico que seja o jogo em si.

A diversidade sempre é bem vinda, a experiência nunca deve ser desprezada. Ainda mais quando vem acoplada ao carisma que conquista e convence. Abelão e Renato na ponta de um Brasileiro no ano da graça de 2017. Viva a “Velha Guarda”!


Grêmio, o time da melhor atuação coletiva da primeira rodada da Série A
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André Rocha

Volume de jogo, controle no meio-campo, no ritmo de Arthur e Ramiro. Não fossem os gols perdidos, especialmente por Luan, e o Grêmio teria construído uma goleada histórica.

Diante de um adversário forte e organizado como o Botafogo, a atuação coletiva da equipe de Renato Gaúcho foi a melhor da primeira rodada da Série A. Também a mais consistente do tricolor gaúcho em 2017.

Luan circulando entre o meio e a defesa do Bota, Arthur distribuindo o jogo, Ramiro como o meia pela direita que ajuda os volantes, abre o corredor para Léo Moura e torna o ataque mais móvel, mesmo com a  presença de Lucas Barrios como a referência no ataque.

Dominou a posse de bola no primeiro tempo com 60% e acabou superado no final (51% x 49%), mas aproveitou os espaços cedidos pelo avanço do rival para os contragolpes. Abriu o placar na persistência de Ramiro depois de uma “blitz” com Gatito Fernández salvando, ampliou na segunda etapa com gol de Luan -irregular pelo toque na mão. Mas foram 19 finalizações contra oito – nove a um no alvo.

Triunfo incontestável, também pela atuação fraca do Botafogo que sofre com as improvisações na lateral direita – Emerson Santos desta vez. Camilo reclamou por ser deslocado no meio-campo para encaixar Montillo. Mas agora, atuando na função em que se destacou no ano passado, jogando com liberdade, produz muito pouco.

De novo Rodrigo Pimpão foi sacrificado pela esquerda, voltando na recomposição formando a segunda linha de quatro e sendo a referência de velocidade para os contragolpes. Como precisou ser competitivo no início da temporada pelas etapas eliminatórias da Libertadores antes da fase de grupos, agora o alvinegro oscila.

Mas o mérito é gremista. Renato aproveitou o período sem jogos para ajustes e seu time soube dosar posse e transição ofensiva em velocidade. O primeiro ato no Brasileiro foi promissor.

(Estatísticas: Footstats)

[Em tempo: sim, ainda falta um jogo para finalizar a rodada 1. Mas pelo tamanho do confronto, entre dois times envolvidos em Libertadores, e considerando a solidez gremista, nem Coritiba, nem Atlético-GO tem condições de superar, mesmo que goleie e dê espetáculo. Questão de contexto]


Um Grenal divertido, mas preocupante para Renato e Zago
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André Rocha

Por incrível que pareça, desta vez se viu mais futebol e menos rivalidade exacerbada e violenta do que em outras edições do clássico gaúcho com os times mais qualificados e em melhor momento.

O Grêmio aproveitou o mando de campo e a baixa autoestima do rival pelo inferno da Série B no Brasileiro para se impor no primeiro tempo. Mesmo com o meio-campo dilacerado sem Walace, Maicon e Douglas, o time de Renato Gaúcho teve mais fluência pela mobilidade de Miller Bolaños e Luan na frente. Mas pouco mais que isso.

O Internacional penou com uma formação engessada e muito dependente de D’Alessandro, bem vigiado por Jailton e Michel. Rodrigo Dourado e Charles pouco contribuíam na construção das jogadas e ainda deixavam espaços às costas para a dupla de “falsos noves” gremistas.

Numa transição rápida, Bolaños fez o gol único de um primeiro tempo de posse de bola equilibrada, mas com o Grêmio finalizando nove vezes contra quatro dos colorados, que fizeram mais faltas (nove a cinco) e acertou mais desarmes (13 a sete). Mas não jogou.

O cenário mudou bastante na segunda etapa com Roberson e Nico López nas vagas de Charles e Carlos. Os substitutos formaram um tridente no ataque com Brenner. Uendel recuou no meio com Dourado protegendo D’Alessandro.

Mas a chave foi a movimentação de Nico saindo da direita e infiltrando às costas dos volantes gremistas. O maior volume de jogo fez efeito rápido com a virada em 13 minutos nos gols de Roberson e Brenner, envolvendo com facilidade o sistema defensivo do time da casa.

Renato trocou Pedro Rocha e Michel por Barrios e Fernandinho e mandou o time para o ataque praticamente num 4-2-4. E aí faltou confiança a Antonio Carlos Zago tirando Brenner e colocando o volante Anselmo, voltando a adiantar Uendel para fazer dupla com Carlinhos à esquerda.

Nico López seguiu bem no jogo, mas perdeu o fator surpresa. O contexto voltou a favorecer o Grêmio, que empatou no chute de Fernandinho que Danilo Fernandes aceitou e cresceu ainda mais com o jovem Lincoln no lugar de Jailson. Debaixo de forte chuva, terminou com 17 finalizações contra nove do Inter. Mas o recorte do período de domínio do rival visitante expôs as fragilidades da equipe de Renato.

O Colorado sofreu mais ao longo da partida. Mesmo com ótimos 15 minutos na segunda etapa, ficou claro que a reconstrução precisa ser ampla para formar um time consistente. O trabalho de Zago está no início e a insegurança pode ser encarada com natural.

Mas não deixa de ser preocupante. Para os dois. Mesmo num Grenal divertido, exatamente pelas falhas de ambos.

(Estatísticas: Footstats)

 


Flamengo é 100% em resultado, mas não evoluiu o desempenho em jogos grandes
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André Rocha

Os três primeiros jogos oficiais contra equipes de menor expressão no Carioca deixaram a impressão de que o objetivo maior de Zé Ricardo na temporada começava a ser alcançado: tornar o Flamengo mais criativo, imprevisível.

Por isso a escalação de Mancuello como ponta articulador para tornar o 4-2-3-1 mais móvel e criar espaços dentro de uma ideia de propor o jogo, ocupando o campo de ataque com posse de bola.

Foram 11 gols marcados e um sofrido em três partidas. Protagonismo, trocas de passes, mobilidade, pressão na saída de bola dos adversários. Mancuello saindo da ponta e Pará, Arão, Diego e até Guerrero aparecendo pela direita. Um repertório mais amplo.

Mas bastou enfrentar dois times grandes, com elencos mais qualificados e com postura defensiva por conta do contexto para o time rubro-negro repetir um equívoco dos momentos mais complicados do Brasileiro de 2016: a insistência em tocar a bola até abrir o jogo e levantar na área.

Foram 25 cruzamentos diante do Grêmio nos 2 a 0 pela estreia na Primeira Liga no Mane Garrincha e mais 31 nos 2 a 1 sobre o Botafogo no Engenhão que garantiram classificação para as semifinais da Taça Guanabara e os 100% de aproveitamento na temporada.

Mesmo considerando que é um reinício de trabalho com pouco mais de um mês e jogos seguidos, sem muito tempo para treinamentos, não deixa de ser algo a ser observado e corrigido. Principalmente porque sem espaços e diante de oponentes mais atentos e bem posicionados, Mancuello apareceu pouco.

Porque o time, na dificuldade, ainda procura o flanco para efetuar o cruzamento. Usando pouco as diagonais, as tabelas no centro. Sem ideias. Toca, toca, toca e joga na área. Neste cenário, a função de Mancuello perde o sentido e a equipe uma peça para as combinações com Pará e Arão.

Não por acaso, o argentino deu lugar a Berrío no segundo tempo das duas partidas e Everton seguiu em campo. Confortável com a proposta antiga, o ponta velocista foi destaque com dois gols e boas jogadas.

Diego segue com liderança, inteligência, presença de área e bons passes. Mas o toque de primeira para fazer o jogo fluir, furar as linhas de marcação e acionar o companheiro que se desloca em situação mais confortável não acontece. Na proposta de Zé Ricardo é fundamental para criar a brecha na retaguarda postada. Missão para o meia criativo.

Há também falhas defensivas de quem joga com a última linha adiantada e não consegue ter intensidade para manter a pressão sobre o adversário com a bola em boa parte do tempo. Contra o Bota, erros de posicionamento em cruzamentos que ocasionaram duas finalizações no travessão de Leandrinho poderiam custar o empate com os reservas do rival que só pensa em Libertadores.

As cinco vitórias transmitem confiança e tranqüilidade para o trabalho seguir. Mas a seqüência precisa de evolução. Nos dois jogos maiores até aqui o Flamengo que se viu foi o estagnado, que sofreu e, na reta final, deixou de disputar o título nacional do ano passado. O que Zé Ricardo não quer ver em 2017.


Por um debate mais tolerante, plural e com conteúdo em 2017
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André Rocha

No ano em que os resultados premiaram o desempenho das equipes dos estudiosos Micale e Tite na seleção brasileira, veio Renato Gaúcho no final com a conquista da Copa do Brasil e seu discurso de exaltação ao talento que minimiza o esforço.

No meio termo, Cuca foi campeão brasileiro fiel às suas convicções, como marcação individual e jogadas aéreas ensaiadas até em cobranças de lateral, mas adaptando conceitos atuais como pressão no campo de ataque e meio-campo mais qualificado. E o melhor: admitindo mesmo depois da conquista que precisa estudar e se aprimorar.

Tudo para lembrar que no Brasil e em qualquer canto que se jogue futebol é possível vencer de várias maneiras. “O futebol é generoso” costuma dizer Paulo Autuori, outro técnico com saldo positivo em 2016.

Mas o resultado deve mesmo encerrar qualquer discussão? O líder ou o campeão não pode ser questionado? Tem sempre razão? Em um jogo tão aleatório e imprevisível, o desempenho nem sempre tem relação direta com o placar final.

É preciso entender o papel do analista, que é chamado todo o tempo a opinar e trabalha com fotografias instantâneas da temporada. Afirmar que um time está jogando melhor naquele momento não significa que levará a taça, nem que será justo pelo desempenho em toda a competição.

Ao mesmo tempo, este que escreve reconhece que exagerou ao dizer que o Palmeiras poderia ser um campeão “pela porta dos fundos”. Melhor seria substituir por “sem brilho e sem números”. Àquela altura o time corria risco de perder a condição de melhor ataque, maior número de vitórias e outras estatísticas. Mas “porta dos fundos” foi demais, talvez pela aversão ao resultadismo precoce de Cuca e seus comandados, alimentado por 22 anos sem títulos brasileiros.

Quem é obrigado a se posicionar o tempo todo sobre algo que muda a cada instante invariavelmente vai dizer alguma bobagem. Sempre, porém, com imenso respeito à instituição. Sem clubismo, pelo menos deste blogueiro. Acredite: com o tempo, é mais fácil o jornalista se trair torcendo por suas convicções do que pelo time que fez com que ele se apaixonasse pelo esporte. É da vaidade humana.

Uma tolice, pois o futebol está aí sempre para dar uma rasteira nas nossas idealizações. Por isso é tão inútil esse Fla-Flu estudiosos x boleiros. Porque não adianta falar a língua dos jogadores sem conteúdo nos treinos, assim como o técnico que prefere os livros ao contato pessoal dificilmente terá a confiança dos seus comandados.

O mesmo vale para o comentarista que trata o futebol como um mero jogo de xadrez. Tão equivocado quanto alguns geradores de obviedades que menosprezam a inteligência de quem está ouvindo. Ou só dizem o que o torcedor quer ouvir, numa relação fornecedor-cliente. Pior ainda os que confundem leveza e humor com piadas grotescas que sempre acabam ofendendo alguém.

O torcedor não tem as obrigações do jornalista. Mas é importante entender que se ele quer interferir na vida do clube, seja como sócio-torcedor ou através dos muitos canais de comunicação que existem hoje, é preciso saber mais. Não dá para colocar tudo na conta do técnico “burro” ou do time “sem vergonha”.

Se assistir apenas aos jogos do seu time, sem entender minimamente a evolução do esporte em todas as áreas, a crítica será sempre rasa. Ou saturada de saudosismo, dos tempos em que o time era o melhor. A velha visão de que tudo no passado era mais bonito. Basta pesquisar na internet, com jogos na íntegra disponíveis, para perceber que felizmente tudo evolui. Por isso fica mais complexo.

Que no ano que chega sejamos mais tolerantes e plurais, respeitando e aprendendo com quem tem algo a transmitir. Com rivalidade, mas sem antagonismos radicais no debate. Sempre valorizando o conteúdo, que é ouro em tempos de tanta informação circulando.

Que o torcedor não seja tratado como uma criança mimada, que não pode ser contrariada. Que os profissionais de futebol lidem melhor com críticas construtivas. Que nós, analistas, estejamos atentos ao que o esporte oferece de objetivo, matemático, mas também ao lúdico e ao imponderável. Não é vergonha dizer que uma bola que bateu no travessão e não entrou por centímetros foi apenas sorte de quem deixou de sofrer o gol. Simples assim.

Por isso estamos aqui falando dessa parte importante de nossas vidas. Imprevisível como cada dia de cada semana de cada mês. De cada bola que rola. Do ano que vira no calendário para lembrar que podemos fazer melhor, mesmo sem garantia de vitória no final dos 90 minutos.

Até 2017!


Por que Marinho é o “Dudu” do futebol brasileiro para 2017
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André Rocha

Marinho_Vitoria

No início de 2015, a pauta era a disputa entre São Paulo, Corinthians e Palmeiras por Dudu, que acabou indo para o alviverde e foi decisivo nas conquistas da Copa do Brasil e do Brasileiro.

Na época a questão era se a disputa pelo atacante do Dínamo de Kiev emprestado ao Grêmio não era exagerada, a ponto do “chapéu” do Palmeiras nos rivais ser comemorado como um título.

Dudu respondeu em campo com personalidade e, principalmente, por suas características: ponteiro de velocidade, que funciona também como um atacante circulando atrás do centroavante. Chama lançamento, arrisca o drible, infiltra em diagonal e finaliza.

Certamente o atual campeão brasileiro não se arrepende do negócio. O encaixe na equipe e a sintonia com Gabriel Jesus foram perfeitas e o rendimento médio de altíssimo nível para o futebol praticado no país. Não é o craque do time, mas facilita o trabalho de todos.

Agora em 2017 o alvo é Marinho. Cria da base do Fluminense em Xerém, rodou até se destacar no Ceará. Pela bola jogada e por uma entrevista folclórica. Passou pelo Cruzeiro e amadureceu de vez no Vitória, aos 26 anos.

Salvou o rubro-negro baiano do rebaixamento no Brasileiro com 12 gols e seis assistências, líder nos dribles certos e nas faltas sofridos. Um dos principais finalizadores da competição. Decisivo partindo da ponta para a jogada pessoal e a conclusão.

Ponteiro forte na jogada individual e preciso nos chutes. Artigo raríssimo. Por isso Santos, Flamengo, Grêmio e agora o futebol chinês querem contar com o atacante mais desequilibrante das últimas cinco rodadas do Brasileiro.

Exatamente o que faltou ao Fla de Gabriel, Everton, Cirino, Fernandinho e Emerson durante toda a temporada e ao Santos depois da saída de Gabigol. O Grêmio teve Pedro Rocha e Everton fundamentais na conquista da Copa do Brasil, mas Marinho seria uma mudança de patamar.

A tendência, porém, é que o novo centro milionário o seduza. Até porque a multa de 17 milhões de reais é praticamente inviável por estas bandas. Deve rolar um chapéu da China.

Assim como Dudu, Marinho não é um extra classe, um craque para atuar nos grandes centros da Europa. Mas para o futebol jogado aqui, por suas valências, vale o sacrifício, sem irresponsabilidades, dos clubes brasileiros.

(Estatísticas: Footstats)


David Luiz não é líbero, nem sobra no Chelsea e pode voltar à seleção
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André Rocha

David Luiz Chelsea

Bastou o técnico Antonio Conte utilizar o esquema com três defensores e encaixar David Luiz na zaga do Chelsea para começar a surgir aqui e ali a tese de que o brasileiro está rendendo porque atua protegido como líbero ou zagueiro de sobra.

Nem uma coisa, nem outra. Os Blues se defendem no 5-4-1, com a linha de cinco atrás formada por Moses, Azpilicueta, David Luiz, Cahill e Alonso. Marcam por zona, posicionados. Não é raro observar a equipe ser atacada pelo seu lado esquerdo e Alonso sair no combate, Cahill ficar na cobertura, Azpilicueta e David Luiz guardarem a área e Moses, o ala/ponta aparecer como lateral na diagonal de cobertura. Ou seja, a sobra naquela ação defensiva. O último homem a bloquear o ataque adversário.

De fato, David Luiz vem atuando mais protegido. Inclusive por ele mesmo, sem as saídas tresloucadas da defesa e um sistema de cobertura, tanto para armar o jogo quanto caçar os atacantes na intermediária. Conte usa a rapidez do zagueiro nas recuperações e coberturas e aproveita seu passe longo para acionar os atacantes de forma mais direta e prática.

Mas não é líbero. Para entender melhor é preciso resgatar os conceitos e a história desta função.

O primeiro time que se tem notícia de usar um jogador atrás da linha defensiva foi a Suíça do austríaco Karl Rappan na Copa de 1938, que eliminou a Alemanha de Hitler com seu “ferrolho”, espécie de 5-4-1. A estratégia, junto aos aspectos táticos do “Metodo” de Vittorio Pozzo nos títulos mundiais italianos de 1934 e 1938, formou a base do “Catenaccio” que Nereo Rocco implantou na Triestina, depois Milan nos anos 1940, e Helenio Herrera consagrou na Internazionale bicampeã europeia nos anos 1960.

O raciocínio era simples: em tempos de marcação individual e WM (3-2-2-3), três defensores cuidavam do trio de ataque. Pela direita, o “terzino destro” cuidava do ponta-esquerda, no centro o “stopper” marcava o centroavante e o “terzino sinistro” pegava o ponta-direita. Ou seja, uma vitória pessoal do atacante e só sobrava o goleiro.

O “libero” jogava na sobra da retaguarda. Mas com uma função primordial: aproveitar essa liberdade na construção do jogo. Se cada um pegasse o seu, quem marcaria esse jogador de trás? Era a chance de quebrar o sistema defensivo do adversário.

Apesar da origem italiana e a excelência de nomes como Giovani Trapattoni, Ivano Blason, Armando Picchi, Gaetano Scirea e Franco Baresi, ninguém exerceu melhor a função que um alemão: Franz Beckenbauer. Saiu do meio para estar em todo o campo, na seleção e no Bayern de Munique. Mas inspirado em um outro jogador da Azzurra: Giacinto Facchetti, lateral esquerdo da Internazionale e vice-campeão mundial em 1970.

“Ele marcava bem e atacava ainda melhor quando se projetava à frente, pela lateral. Pensei, então, que atuando atrás dos zagueiros, saindo para o jogo, eu teria a vantagem de atacar pelos dois lados”, lembra o Kaiser (trecho do livro “As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempos”, de Mauro Beting).

David Luiz também não é zagueiro de sobra. Função que se confunde com o líbero no Brasil, especialmente depois da criação do sistema com três zagueiros nos anos 1980. Tempos também de marcação individual. Já que quase todos atuavam com dois atacantes, cada um era vigiado por um defensor e outro sobrava.

Brown na Argentina de Bilardo jogava atrás de Cuciuffo e Ruggeri, só aparecia no ataque em bolas paradas – como no gol da final da Copa de 1986 sobre a Alemanha. Já Morten Olsen na Dinamarca de Sepp Piontek, era o primeiro articulador, iniciando a saída de bola e aparecendo na frente.

Na seleção brasileira da Copa de 1990, com Sebastião Lazaroni, Mauro Galvão era chamado de líbero e, no ano anterior, chegou a ser comparado a Baresi pelas ótimas atuações com a camisa canarinho. Mas atuava na sobra.

“Era uma função diferente. Eu e os outros dois zagueiros tínhamos que cobrir os laterais, então eu não saía muito, ficava mais fixo”, explica o ex-defensor e agora técnico.

Valdir Espinosa, treinador de Galvão no Botafogo, lembra que no time campeão carioca de 1989, depois de 21 anos de jejum, o zagueiro cumpria mais a função de líbero: “No Botafogo ele armava o time de trás e tinha a cobertura do volante Carlos Alberto Santos. Eu repeti naquela equipe o que fiz no Grêmio campeão da Libertadores e Mundial em 1983: Hugo De Leon subia e o volante China ficava. Isso, sim, é ser líbero”.

Outros brasileiros atuaram desta forma, como Marinho Peres, no Barcelona de Rinus Michels e no Internacional de Rubens Minelli nos anos 1970, e Luis Pereira no Palmeiras no mesmo período e no início dos anos 1980. Todos inspirados em Beckenbauer. Marcando e armando o jogo.

David Luiz até cumpre as duas funções, mas em outro sistema, outra dinâmica. Atuando com mesma seriedade e simplicidade, pode voltar à seleção brasileira. Como opção, claro. Se até Thiago Silva precisa esperar sua vez por conta do ótimo momento de Marquinhos e Miranda sob o comando de Tite, imagine quem tem no currículo atuações pluripatéticas, como nos 7 a 1, tentando bancar o heroi, e no empate contra o Uruguai pelas eliminatórias, sofrendo como quase sempre contra Luis Suárez.

No 4-1-4-1 bem executado e com Casemiro na proteção, David Luiz pode simplesmente ser um defensor. Que cresce quando não se arrisca. Como no Chelsea das 12 vitórias seguidas e apenas dois gols sofridos nesta sequência de triunfos. Como sempre deveria ter sido.


Alguém ainda acredita em moleza ou “grupo da morte” em Libertadores?
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André Rocha

Libertadores sorteio 2017

Flamengo e Grêmio foram os brasileiros que mais chamaram atenção no sorteio da nova Libertadores. O primeiro por enfrentar no Grupo 4 o San Lorenzo, campeão de 2014, o Universidad Católica e, possivelmente o Atlético Paranaense. O segundo caiu na chave de Guarani do Paraguai, Zamora e Iquique.

Pronto. “Grupo da morte” para os rubro-negros, moleza para o tricolor gaúcho. De novo o pecado de analisar apenas os nomes dos clubes e seu histórico. Como se o Independiente del Valle não fosse o atual vice-campeão da Libertadores e o Nacional do Paraguai não tivesse alcançado o mesmo feito há dois anos.

No mesmo 2014, o Grêmio encarou Atlético Nacional, Newell’s Old Boys e o Nacional uruguaio. Tanto alarde para o grupo dificílimo na teoria e o time gaúcho sobrou fazendo a segunda melhor campanha geral. Para ser eliminado nas oitavas pelo San Lorenzo, segundo pior desempenho entre os classificados que arrancou para o título inédito.

Já o Flamengo entrou numa chave com León, Bolívar e Emelec. Considerada mais que acessível, apesar do trauma da eliminação para os equatorianos em 2012. Pois os dois favoritos terminaram nas últimas posições, fora do mata-mata e o time boliviano na liderança.

Alguém ainda acredita em “carne assada”? Há como prever o momento dos times mais tradicionais ou a fase dos menos famosos quando começar a fase de grupos daqui a quase quatro meses? Como garantir sucesso dos brasileiros que não chegam à decisão desde 2013?

Sem contar o “fator estadual”, que na reta final costuma desviar o foco por conta das rivalidades regionais e desta vez ficará mais sedutor pois não baterá mais com as oitavas do torneio continental. Um convite para o deslize.

É claro que o analista é chamado agora para opinar sobre algo que começa em março, depois de duas fases preliminares. Mas convém um pouco de cautela. Ou muita. O equilíbrio vem sendo a tônica das últimas edições. Nada é impossível ou muito fácil antes da bola rolar. Ao contrário da Liga dos Campeões, com os gigantes de quase sempre e pouquíssimas surpresas.

Colocar brasileiros como favoritos e incluir os argentinos e o Atlético Nacional por ser o atual campeão é um clichê perigoso e desconectado da realidade da competição. Na prática, o River Plate, campeão do ano passado, merece o mesmo respeito que o Carabobo, possível adversário do Palmeiras no Grupo 5.

Sem chute ou pretensão de bola de cristal. A Libertadores está cada vez mais imprevisível e isso é ótimo.

 

 


O campeão tem sempre razão?
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André Rocha

Renato Gaucho Gremio campeao

Final da Copa do Mundo de 1954 no Estádio Wankdorf em Berna, Suíça. 43 minutos do segundo tempo. A lenda húngara, Ferenc Puskas, mesmo com o tornozelo inchado que quase o tirou da final por uma pancada na goleada por 8 a 3 sobre a mesma Alemanha da decisão, marca o gol que seria do empate.

A arbitragem marca impedimento. Para muitos inexistente, inclusive o saudoso jornalista Luiz Mendes, presente no estádio como único locutor brasileiro. Podia ter evitado o “Milagre de Berna” e quem sabe o que aconteceria depois?

Estádio Sarriá, Barcelona. Último lance de Itália 3×2 Brasil. Jogando pelo empate, a seleção de Telê Santana parte para o abafa derradeiro. Cobrança de falta de Eder, o zagueiro Oscar sobe mais que todos e acerta um golpe de cabeça no canto. Seria o gol da classificação da equipe que encantou o mundo na Copa de 1982.

Não foi por uma das mais impressionantes defesas da história das Copas. A mais incrível sem rebote. Dino Zoff pegou de um jeito inusitado, parando a bola num movimento de cima para baixo e evitou que ela cruzasse a linha e também a chegada de Sócrates e Zico.

Stamford Bridge, maio de 2009. O Chelsea vencia o Barcelona por 1 a 0 e, com o empate sem gols no Camp Nou, se classificaria para a final da Liga dos Campeões não fosse um golaço de Iniesta já nos acréscimos.

Jogo com uma das arbitragens mais polêmicas de todos os tempos, com pelo menos três pênaltis claros não marcados para os Blues, que colocou o time de Guardiola e Messi na decisão do torneio continental que garantiria a tríplice coroa e o início da trajetória de um dos maiores times de todos os tempos.

Três entre tantos exemplos de partidas definidas em detalhes, em fatos aleatórios. Uma bola que separou campeões e derrotados. Que criou ou destruiu legados, fez heróis, mudou a história do esporte.

Corte para 2016. O Grêmio de Renato Gaúcho conquista a Copa do Brasil e encerra um duro período de 15 anos sem títulos nacionais. Campanha sólida, especialmente fora de casa na reta final. Melhor equipe da competição. Incontestável.

Na comemoração, o sempre bravateiro Renato Gaúcho chamou para si todas as atenções ao afirmar: “quem sabe, sabe; quem não sabe vai para a Europa estudar”. Gerou enorme polêmica, mas nem ele deve acreditar nisso. Sem contar que o propósito de estudar e se aperfeiçoar é algo pessoal, de foro íntimo. Uma escolha.

O blog prefere um outro recorte da fala do maior ídolo gremista: “Disseram que estavam trazendo um treinador que estava jogando futevôlei. E agora? E aí?”

Eis o ponto: a taça encerra qualquer discussão? O campeão tem sempre razão? Renato é um fanfarrão desde os tempos de jogador, um personagem sensacional que nunca se levou muito a sério nem devemos dissecar o que ele diz, ainda mais no calor da conquista. Mas vale a reflexão.

E o contexto da base montada pelo trabalho de Roger? E a importância de Valdir Espinosa e outros profissionais? E a prioridade que o Palmeiras deu ao Brasileiro tornando a disputa nas quartas-de-final menos complicada? E a desorganização do Atlético Mineiro com Marcelo Oliveira no jogo de ida da decisão em Belo Horizonte?

Aliás, cabe um parêntese: o técnico mais vencedor do futebol brasileiro nos últimos quatro anos, com dois títulos brasileiros e uma Copa do Brasil, deixou o Galo coberto de críticas e com cinco minutos de jogo em Porto Alegre já foi possível perceber uma equipe com setores mais bem coordenados pelo jovem técnico Diogo Giacomini.

Em um esporte absolutamente imprevisível, por isso tão arrebatador, no qual vitórias e glórias se definem numa bola que bate no travessão e cruza ou não a linha, numa decisão da arbitragem em fração de segundos e em tantos outros mínimos detalhes, o troféu, ainda que seja o objetivo final de qualquer competição, é sempre um argumento sem resposta?

A história mostra que alguns derrotados no placar final colaboraram mais com a evolução do futebol e são mais lembrados que os campeões. Alguns vencedores são até hoje questionados por seus métodos. Multicampeões pragmáticos quando citados nada mais têm a oferecer do que as conquistas. É suficiente?

Renato merece respeito por sua história e faz mesmo jus a uma estátua na Arena do Grêmio. Que vá comemorar com amigos, a filha Carol e curtir as férias. O torcedor mais motivos ainda tem para celebrar, zoar os rivais. Vencer é delicioso e fundamental na formação de novos torcedores. Sem contar a visibilidade, novas receitas e tantas outras coisas.

Mas futebol não é só isso. Nem pode ser. Por isso o post se encerra com trecho de uma reflexão de Marcelo Bielsa no livro “Los 11 caminos ao gol”, de Eduardo Rojas, muito bem resgatada pelo colega Gustavo Carratte no perfil do seu ótimo Conexão Fut no Twitter. Um técnico com um currículo mais recheado de ensinamentos que títulos.

“Na vida há muito mais derrotas que vitórias e é preciso entender isso. Portanto, endeusar alguém que acaba de triunfar, alçando-o a um patamar acima dos demais acaba confundindo quem o vê fazendo isso. As pessoas são indecisas sobre as coisas e quando forem questionadas sobre como alcançar os êxitos elas só saberão que é preciso vencer, sendo incapazes de dizer quais valores cultivar e o que fazer para chegar até lá”.


O que é de Roger, o que é de Renato. O que não é de Marcelo Oliveira
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André Rocha

Era difícil acreditar na redenção de Renato Gaúcho em um trabalho de três meses. Sem estudo e maiores atualizações para comandar uma equipe trabalhada por Roger Machado em conceitos modernos.

O futebol é espetacular porque não tem verdades absolutas. Foi exatamente na combinação do que o antecessor deixou com o polimento do olhar mais vivido do maior ídolo da história do clube que o Grêmio se arrumou para buscar o título nacional que não vinha há quinze anos.

De Roger, os movimentos já memorizados de apoio ao jogador com a bola, criação de linhas de passe, profundidade, abrir o jogo para espaçar a marcação adversária. De Renato, a gestão de grupo, o carisma que mobiliza, o ajuste defensivo com soluções mais simples, embora se note a compactação dos melhores momentos da campanha surpreendente no ano passado. As correções nas jogadas aéreas. O que era preciso.

Por isso não é justo tirar méritos do atual treinador, mas seria cruel não lembrar da semente plantada por Roger. O resultado prático é um time bem coordenado, com Walace e Maicon qualificando a saída e negando espaços à frente da defesa. Volantes passadores e eficientes.

As linhas de quatro sem a bola deixando Douglas e Luan participando sem a bola mais na pressão sobre os defensores. Ramiro é muito mais um volante que atua aberto e ajuda Edilson a bloquear pelo setor direito e deixou o time um pouco mais equilibrado, sem esvaziar o meio-campo. Já Pedro Rocha é o ponta agudo na transição ofensiva, partindo em diagonal a partir da esquerda para finalizar.

O ponteiro foi o personagem dos 3 a 1 sobre o Atlético no Mineirão que encaminha a conquista tão esperada. Dois gols aproveitando a bagunça defensiva do oponente, uma chance cristalina perdida à frente de Victor e a tola expulsão que trouxe o Galo de volta ao jogo na segunda etapa.

Porque só o acaso, os eventos aleatórios que tornam o futebol tão previsível e apaixonante poderiam recolocar a equipe de Marcelo Oliveira na disputa. O treinador vencedor, bom gestor de grupo, que incentiva o talento e a improvisação de seus jogadores. Mas que não consegue organizar minimamente um sistema defensivo nem fazer seu time controlar o jogo.

Não é raro ver o Galo se defendendo com apenas seis jogadores, setores distantes, sem pressão, com erros graves de posicionamento. Capaz de levar numa decisão de torneio nacional um gol de fim de pelada, o segundo de Pedro Rocha arrancando sozinho e com incrível facilidade.

Aí não há garra de Leandro Donizete, talento de Robinho, presença de área de Pratto, o apoio de Júnior Urso e defesas de Victor que resolvam sempre. Nem o belo gol do zagueiro Gabriel que alimentou uma esperança de novo “milagre”. É claro que Luan, Otero e Fred fizeram falta, mas a facilidade com que o Grêmio atuou, especialmente no primeiro tempo, é inviável no futebol atual. Ainda mais numa final.

O terceiro gol, num contragolpe no final do jogo em bela jogada do ótimo Geromel que encontrou Everton livre é aceitável pelo contexto. Ainda que o time mineiro contasse com um homem a mais. Mas para a volta na Arena do Grêmio parece a pá de cal. Só não dá para garantir a quinta Copa do Brasil do tricolor gaúcho porque isso é futebol.

Até a capacidade de reação do Galo nas conquistas recentes precisa ser relativizada, porque as viradas sempre aconteceram em Belo Horizonte. Como visitante fica quase impossível. Também por conta do que faltou taticamente à equipe de Marcelo Oliveira.

Sobrou o Grêmio. De Renato e de Roger. Moderno e com alma. Com jeito de campeão.