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Grêmio muda time, esquema, modelo…só não perde a “casca” na Libertadores
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André Rocha

Sem centroavante disponível para o jogo de ida pelas quartas de final da Libertadores, Renato Gaúcho decidiu resgatar a ideia de Luan como “falso nove”, abandonada desde a grave lesão de Douglas em 2017. Armou um 4-3-3 com Ramiro no meio-campo, abrindo vaga pela direita para Alisson. Com Everton na esquerda, o ataque tinha pontas para acelerar e buscar as infiltrações em diagonal.

No entanto, mesmo para o atual campeão sul-americano e com trabalho de dois anos consolidado, não é simples mudar um padrão. O Grêmio sofreu no primeiro tempo do Monumental José Fierro contra um Atlético Tucumán intenso e que atacava como se não houvesse amanhã e nem a partida de volta. Trunfo de uma equipe fortíssima em seus domínios – não perdia desde março.

Tanto volume que impôs superioridade na posse sobre um time que preza o controle da bola. Mas a equipe gaúcha não se perdeu. Controlou espaços e esperou a hora de acelerar as transições ofensivas. O primeiro gol em mais um momento inusitado para o Grêmio: bola longa de Maicon, toque de Cícero vencendo a disputa pelo alto para servir Alisson.

A expulsão de Gervásio Núñez com auxílio do VAR por pisar em Alisson caído no gramado esfriou time e torcida. O Grêmio até avançou as linhas, mas definiu mesmo no passe longo de Léo Gomes para Alisson dar assistência e Everton marcar seu quinto gol no torneio continental.

O tricolor gaúcho, criticado tantas vezes na temporada pela posse de bola estéril, terminou com 48% e finalizou menos que o oponente, mesmo com um a mais durante boa parte do segundo tempo: oito contra treze, mas cinco no alvo. Duas nas redes.

A objetividade também tem sua beleza. E o Grêmio venceu bonito na Argentina. Encaminha bem demais a classificação para a nona semifinal. Porque pode mudar escalação, sistema, até o modelo de jogo. O time de Renato Gaúcho só não perde a “casca” na Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)


Internacional e Palmeiras vencem clássicos “típicos” e ganham uma rodada
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André Rocha

Beira-Rio e Allianz Parque foram os palcos dos grandes clássicos da 24ª rodada do Brasileiro. Mesmo prejudicados pelo Grêmio muito desfalcado e o Palmeiras seguindo seu roteiro de colocar mais reservas em campo no fim de semana quando tem jogo de mata-mata em seguida.

Duelos que seguiram o roteiro da maioria dos clássicos e jogos decisivos no país: muita concentração defensiva, jogo simples para minimizar erros e não correr riscos, disputa física com jogadores pilhados para mostrar aos torcedores que estão ligados e, claro, pressão nas arbitragens. Ou seja, seguindo velhos discursos: “clássico não é para jogar, mas para vencer” e “será decidido nos detalhes, quem errar menos sairá com os três pontos”.

Em ambos, times sem muita ambição e mais preocupados com o trabalho defensivo no primeiro tempo. Mesmo para quem tomava a iniciativa e ficava com a bola – inicialmente os times da casa. Compreensível para o Corinthians que estreava Jair Ventura na casa do rival e buscava um reequilíbrio. Ou, no popular, “fechar a casinha”.

Vitórias dos mandantes que souberam se impor. O líder Internacional manteve sua proposta de jogo, alternando Nico López e William Pottker pelas pontas no 4-1-4-1 habitual, ora ocupando o campo de ataque, ora negando espaços ao maior rival. Até Uendel, substituto do suspenso Iago, colocar na cabeça de Edenilson e decidir.

Porque faltou ao Grêmio de Renato Gaúcho o “punch” de outros momentos. Muito pelas ausências de Kannemann, na seleção argentina, e Maicon por lesão. Também da velocidade e do drible de Everton, a serviço de Tite. Sobraram a fibra do campeão da Libertadores e a boa surpresa do meia Jean Pyerre, que entrou na vaga de Luan deu trabalho a Rodrigo Dourado e Marcelo Lomba. Foram 55% de posse e 12 finalizações contra nove do Colorado, três para cada lado.

Triunfo simbólico para comprovar a força da equipe de Odair Hellmann e tirar a má impressão do empate sem gols com os reservas do Palmeiras na primeira partida em casa contra os times na ponta da tabela.

Até porque a formação que Luiz Felipe Scolari manda a campo no Brasileiro também vai se impondo na autoridade da transformação anímica no clube com a chegada do treinador ídolo e multicampeão. Com Weverton no gol, Felipe Melo no meio e Dudu na frente. Mas usando o fator campo para acuar o rival.

Thiago Santos e Felipe Melo mais fixos liberando Lucas Lima e os laterais Marcos Rocha e Victor Luís. Passes longos, Deyverson no pivô retendo a bola ou partindo para a conclusão. Dudu e Hyoran alternando pelos flancos e buscando as infiltrações em diagonal. Jogo direto, eficiente e que vai desgastando o adversário.

Ainda mais o Corinthians em transição, abalado e que só queria retomar a solidez sem a bola. No 4-2-3-1, com Romero pela esquerda tentando acompanhar Marcos Rocha, que aparecia nas ultrapassagens e também nas cobranças de lateral diretamente na área adversária. Na segunda etapa, a entrada de Moisés no lugar de Thiago Santos deu ainda mais volume ao Alviverde.

Até o passe de Marcos Rocha para a finalização de Deyverson. A mais precisa das 12 do Palmeiras contra apenas quatro do atual campeão brasileiro – nenhuma no alvo. Mesmo verticalizando o jogo quase o tempo todo, o time da casa terminou com 54% de posse. Controlou bem a partida dentro do contexto.

Dudu foi o destaque, com cinco finalizações, um chute no travessão em bela jogada individual e levando vantagem principalmente quando aparecia pela esquerda contra o inseguro Mantuan. Muito diferente do jogador inconstante dos tempos de Roger Machado. Mais um ponto para Felipão.

Mais três para Inter e Palmeiras. Em jogos mais pegados que jogados. Clássicos “típicos”. Vencidos pelas equipes em alta que souberam aproveitar o mando de campo para não deixar o São Paulo retomar a liderança. Ganham uma rodada na busca do título.

(Estatísticas: Footstats)


Bruno Henrique é o “faz-tudo” da vez de Felipão no meio-campo do Palmeiras
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André Rocha

Foto: César Greco/Agência Palmeiras

O Palmeiras começou a descomplicar o jogo contra o Atlético Paranaense no Allianz Parque na volta do intervalo. Luiz Felipe Scolari notou que a dupla Thiago Santos e Felipe Melo à frente da defesa não funcionava tão bem dentro de casa como na vitória como visitante sobre a Chapecoense por 2 a 1 utilizando time praticamente reserva.

Recompôs a dupla de volantes com a entrada de Bruno Henrique na vaga de Thiago Santos. Saindo de um 4-2-3-1 clássico para um 4-1-4-1 mais dinâmico, o time paulista criou volume de jogo e dominou a partida. Subiu a posse de bola de 50% para 53%, finalizou seis vezes, quatro no alvo, contra apenas duas nos primeiros 45 minutos. O Atlético que se recuperou com Tiago Nunes no comando técnico concluiu apenas duas vezes na segunda etapa, nenhuma na direção da meta de Fernando Prass. Foram cinco no primeiro tempo.

O Alviverde construiu os 2 a 0 em duas saídas rápidas dentro da filosofia de um jogo mais direto de Felipão. Na primeira, Dudu pela direita acionou Deyverson, que entrara na vaga de Borja. Belo passe do centroavante em profundidade para Willian tocar na saída de Santos. No final, o “Bigode” sofreria pênalti do goleiro atleticano que Moisés converteu.

Os 17 pontos em 21 possíveis desde a chegada de Scolari alçou o Palmeiras à terceira colocação, ultrapassando um Flamengo em queda livre. Está a três pontos do Internacional, o novo líder. Nas quartas da Libertadores e na semifinal da Copa do Brasil. O sonho de uma inédita tríplice coroa clássica – duas principais competições nacionais e a principal do continente – está mais que vivo.

Muito pela presença de Bruno Henrique. O volante-meia que é fundamental no time de Felipão pela capacidade de auxiliar o volante mais fixo sem bola e se juntar ao meio-campista de articulação para criar as jogadas e também aparecer para a finalização. Função que exige técnica e também vigor para preencher um espaço grande entre as intermediárias.

Uma tradição nas equipes do treinador veterano. Desde Roberto Cavalo no Criciúma campeão da Copa do Brasil 1991, primeira grande conquista de Scolari. Depois Luis Carlos Goiano no Grêmio que venceu a Libertadores em 1995. César Sampaio, quando jogava com Galeano, ou Rogério no Palmeiras em mais uma Copa do Brasil vencida por Felipão. No título de 2012, a função era de Wesley até o volante se contundir. Na final contra o Coritiba, Henrique, zagueiro hoje no Corinthians foi adiantado para o meio e Marcos Assunção ganhou mais liberdade para chegar à frente.

Na seleção brasileira, a troca de Juninho Paulista por Kléberson arredondou o time do título mundial em 2002 na Ásia. Ainda que, na prática, muitas vezes o volante mais fixo tenha sido Edmilson e Gilberto Silva o segundo, na variação do sistema de três zagueiros para linha de quatro. Kléberson, porém, preenchia bem o espaço entre os cinco jogadores mais defensivos e o trio de talentos formado por Rivaldo e os Ronaldos. Dava a “liga”.

Já na Copa das Confederações de 2013, Paulinho foi um dos destaques atuando à frente de Luiz Gustavo e se aproximando do quarteto Hulk-Oscar-Neymar-Fred. No Mundial no Brasil, o volante havia perdido muito rendimento com a troca do Corinthians pelo Tottenham, saiu para a entrada de Fernandinho, que não manteve o nível e os 7 a 1 foram o final trágico para uma equipe desequilibrada. Felipão reencontraria Paulinho nas várias conquistas no futebol chinês com o Guangzhou Evergrande. Com o camisa oito exercendo a mesma função essencial.

Não é por acaso que Bruno Henrique é o melhor passador e o meio-campista que mais finaliza da equipe no Brasileiro. Curiosamente, com Felipão ainda não marcou gols. Talvez pelas maiores atribuições defensivas e por conta do estilo de jogo com menos trocas de passe que dão tempo do volante aparecer na área adversária. A bola chega mais rapidamente e a finalização acaba ficando por conta dos atacantes.

Mas com cinco no Brasileiro e onze na temporada, o capitão foi destaque solitário na fase oscilante, ainda com Roger Machado. Seria o jogador do Palmeiras convocado por Tite para os amistosos contra Estados Unidos e El Salvador para ter um de cada equipe envolvida com a semifinal da Copa do Brasil. O treinador da seleção, porém, optou por dar oportunidades a Fred, Arthur e Fabinho. Não deixa, porém, de ser um reconhecimento ao ótimo momento do camisa 19.

Ainda mais importante pelas características e pelo posicionamento dos companheiros. Moisés na maior parte do tempo se adianta para se juntar ao centroavante buscando a primeira ou segunda bola nas muitas ligações diretas – foram 61 lançamentos contra o Atlético-PR! Já os ponteiros Willian e Dudu ficam mais abertos e buscam as infiltrações em diagonal, aparecendo pouco no meio para colaborar. Cenário diferente dos tempos de Zé Roberto no Criciúma, Carlos Miguel no Grêmio e Zinho no Palmeiras, pontas “falsos” que auxiliavam os meio-campistas. Agora é Bruno Henrique quem cobre os eventuais buracos.

A dúvida está na reposição. O recuo de Moisés com a entrada de Lucas Lima parece a mais viável, embora perca em marcação no meio. Pode ser a opção para partidas em que o jogo exija uma proposta mais ofensiva e de circulação da bola. Se a ideia for se fechar e negar espaços, Thiago Santos e Felipe Melo voltam a ser úteis protegendo a última linha de defesa.

Por enquanto tem funcionado e o Palmeiras ganha força. Muito pela eficiência de Bruno Henrique, o “faz-tudo” da vez de Felipão.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Onde você estava no dia 24 de janeiro?
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André Rocha

Atlético-MG x São Paulo. Internacional x Flamengo. Palmeiras x Atlético-PR. Ainda Santos x Grêmio na quinta-feira. Jogos grandes e importantes para o Brasileiro. Todos os envolvidos são campeões nacionais. A 23ª rodada é daquelas que num campeonato por pontos corridos podem definir muita coisa. Ainda mais no meio da semana, sem mata-mata e times poupando seus atletas.

Mas será disputada em meio à data FIFA. Muita reclamação dos clubes com jogadores convocados por Tite, porém desfalcados também pelos estrangeiros que servem suas seleções. Everton, Kannemann, Arboleda, Paquetá, Cuellar, Trauco, Chará. Mais as ausências comuns por cartões e lesões. Neste último caso, também pelo acúmulo de jogos na temporada.

As principais ligas paradas para as seleções jogarem e a gente aqui descascando batata no porão. De novo. Por quê?

A resposta genérica é o calendário inchado. Mas podemos ser mais específicos. Onde você estava no dia 24 de janeiro deste ano?

Nesta quarta feira, na qual os times poderiam estar fazendo sua pré-temporada com tranquilidade – em especial o Grêmio, que entrou de férias depois dos demais porque disputou o Mundial de Clubes -, o São Paulo venceu em casa o Mirassol por 2 a 0, o Corinthians fez 2 a 1 sobre a Ferroviária. Mesmo placar da vitória do Palmeiras sobre o Red Bull Brasil no dia seguinte, enquanto o Santos perdia por 1 a o para o São Bento.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro o Flamengo vencia o Bangu por 1 a 0, o Vasco era derrotado pela Cabofriense por 2 a 1 e o Fluminense empatava sem gols com a Portuguesa da Ilha. Na quinta, vitória do Botafogo sobre o Macaé por 2 a 1. No Rio Grande do Sul, o Grêmio perdeu para o Avenida por 3 a 2 e o Internacional foi superado pelo Caxias por 2 a 1. Em Minas, o Cruzeiro enfiava 5 a 0 no Uberlândia e o Atlético, na quinta, perdia para o Villa Nova por 1 a 0.

Você lembra dessas partidas? Com todo o respeito que as equipes de menor investimento merecem, não dá para dizer que foi uma rodada de meio de semana perdida? A maioria de jogos deficitários, alguns com os grandes utilizando reservas e resultados que pouco interferiram no destino dos clubes dentro da temporada. Mesmo para quem valoriza os estaduais, até pelas boas cotas de TV, não dá para negar que foram datas jogadas no lixo.

Pois é…Se o seu time vai jogar hoje ou amanhã dentro de uma data FIFA, na qual poderia estar recuperando e treinando para se fortalecer e apresentar um desempenho melhor na volta do campeonato, é por causa desse 24 (e 25) de janeiro que só alimenta uma estrutura federativa ultrapassada, pouco eficiente e eficaz na gestão do futebol brasileiro.

É chato bater sempre na mesma tecla. Mas enquanto os mesmos erros forem cometidos pelos clubes que aceitam ser explorados e exauridos, nada fazem pensando no todo e só reclamam quando se sentem prejudicados será inevitável. Mais do mesmo. Uma pena.


Volta do Grêmio titular salva mais um Brasileiro “água de salsicha”
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André Rocha

Sim, o São Paulo foi heroico sem Nenê e Everton no quarteto ofensivo e perdendo Diego Souza expulso ainda no primeiro tempo contra o Fluminense no Morumbi. Na fibra conseguiu o empate com Tréllez, o reserva que já descomplicou outras partidas e é mais um recurso de Diego Aguirre.

Está com jeito de campeão e Internacional e Flamengo, os concorrentes principais no momento, aumentam essa impressão deixando pontos pelo caminho e falhando em partidas em que deviam confirmar a força na disputa. Mais Palmeiras e Cruzeiro ainda envolvidos com Copa do Brasil e Libertadores.

Para os são-paulinos, o cenário é maravilhoso. E há muitos méritos do time em um clube gigante sem conquistas relevantes há tanto tempo. Especialmente na personalidade e na força mental. Se protagonizar o sétimo título do tricolor do Morumbi não é justo colocar ressalvas ou asteriscos – a menos que algo excepcional aconteça neste returno.

Mas o rendimento é o mais do mesmo da “água de salsicha” que tem sido as últimas edições do Brasileiro. Ainda mais com as competições mata-mata sendo disputadas o ano todo. Calendário inchado, pouco tempo para treinar, pressão por resultados imediatos, torcidas insanas nos estádios e redes sociais. É pensar no próximo jogo da competição tratada como prioridade. Fazer o simples sem muita margem de evolução.

A exceção é o Grêmio. Mesmo com oscilações ao longo da temporada e a dura adaptação à perda de Arthur para o Barcelona, o time de Renato Gaúcho continua jogando, na média, o melhor futebol do país. Trabalho menos longevo que o de Mano Menezes no Cruzeiro, porém mais assimilado e conseguindo manter o rendimento acima dos demais.

É o único capaz de proporcionar espetáculos como os 4 a 0 sobre o Botafogo. Sim, adversário frágil em Porto Alegre. Mas quantas vezes os demais concorrentes envolveram com tanta facilidade os oponentes mais fracos e ainda brindando o público com belas tabelas, triangulações e dribles?

Maicon assumindo a organização, Luan encontrando espaços entre a defesa e o meio-campo adversários – mesmo sem a fase de melhor da América em 2017. Na frente, enfim Jael se firmando como titular e Everton Cebolinha como o elemento desequilibrante partindo da esquerda para criar e finalizar. Alta posse de bola, ocupação do campo de ataque, mas também com solidez defensiva. Subiu para o quinto ataque mais positivo e segue como a equipe menos vazada.

Caiu na Copa do Brasil para o Flamengo, sim. Sendo inferior aos rubro-negros nos 180 minutos, mas tendo períodos de domínio e colocando o adversário em risco. Sem abrir mão da sua maneira de jogar que nos melhores momentos combina beleza e eficiência como nenhum outro no Brasil.

É claro que há outros times em ascensão e que merecem ser lembrados, como o Atlético Paranaense de Tiago Nunes e o Santos de Cuca. Mas com outros objetivos no campeonato. Há pouco ficar longe do Z-4, agora alcançar o G-6. Difícil sonhar mais alto que isso.

O Grêmio está a seis pontos do São Paulo faltando 16 rodadas. Diferença perfeitamente reversível, mas com a Libertadores como obsessão do clube e  boas possibilidades de eliminar o Tucumán para chegar às semifinais, a falta de foco e a utilização de reservas em jogos importantes devem tirar o fôlego para uma arrancada. Só se os suplentes encaixarem bons jogos nesses hiatos. Fica mais difícil com a competição afunilando, momento em que times lutando para não cair dão a vida por pontos.

Tudo é risco e a competição tratada como prioridade não é fácil de vencer. Pode até terminar o ano apenas com as conquistas do Gaúcho e da Recopa Sul-Americana e ver um Cruzeiro ou Palmeiras como o time do ano faturando as taças no mata-mata. No país do futebol de resultados talvez falem até em “fracasso”.

Ainda assim, seguirá ostentando o futebol mais agradável às retinas. A salvação até aqui de mais um Brasileiro achatado por baixo em técnica e tática.


Não precisava ser tão sofrido, mas é assim que o Grêmio ama na Libertadores
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André Rocha

Os primeiros minutos em Quilmes dos 180 disputados entre Grêmio e Estudiantes pelas oitavas de final sinalizavam uma classificação tranquila do atual campeão da Libertadores. Posse de bola, personalidade e proposta ofensiva. Chance clara desperdiçada por André. Mas golaço de Apaloaza na sequência.

No final do primeiro tempo, Kannemann diminuiu para 2 a 1  – Campi havia ampliado no melhor momento da equipe argentina na partida e no confronto. Segundo tempo de pressão gremista, ainda maior depois da expulsão de Zuqui. Não veio o empate, mas trouxe esperança para a volta em Porto Alegre.

Fé que virou certeza com o golaço de Everton aos seis minutos completando bela assistência de Jael. De novo um ótimo início do time de Renato Gaúcho, envolvendo e criando espaços entre os setores do 5-3-2 montado por Leandro Benítez. Mas dois minutos depois Jailson errou, o sempre seguro Geromel falhou no “pé de ferro” e Lucas Rodriguez avançou para tocar na saída de Marcelo Grohe.

Um time sem experiência e confiança de títulos teria desmanchado mentalmente com um anticlimax tão pesado. Parecia que era noite para tudo dar errado. Uma impressão crescente de que a ventura estava ao lado dos argentinos.

Não para o Grêmio. Time, Renato e torcida. Mesmo com tensão, o Grêmio seguiu atacando. Com Alisson na vaga de Ramiro, que talvez tenha cumprido sua pior atuação com a camisa tricolor. Depois André e Pepê substituindo Leo Moura e Jailson. Empilhou atacantes no 3-1-4-2 com Cortez como terceiro zagueiro e dois centroavantes enfiados. Kannemann correndo, gritando e lutando por todos. O melhor em campo.

O time da casa manteve a média de 70% de posse de bola e teve boas oportunidades no universo de 23 finalizações, oito no alvo. Mas exagerou nos cruzamentos: 45 no total, 27 na segunda etapa. Diante de um adversário exausto e inexperiente, não era para sofrer tanto e só conseguir o gol nos acréscimos para levar para a decisão por pênaltis. Na bola parada com Luan colocando na cabeça de Alisson. Uma falta boba de Facundo Sánchez.

Mas quem se importou na Arena? A explosão e a atmosfera perfeita para ser 100% na disputa. Depois de apenas o acerto de Cícero contra o Atlético Paranaense no sábado nas últimas cinco cobranças. Campi isolou, nem foi necessária a intervenção de Grohe. Cinco a três.

Já era sofrido o suficiente. O Grêmio é favorito contra o Atlético Tucumán nas quartas, também pelo jogo de volta em casa. Talvez a trajetória seja menos tensa. Se acontecer, time e torcida certamente guardarão na memória a noite da adrenalina e da apoteose que alimentou o mito do “Imortal Tricolor” nas oitavas. Porque os erros e acertos construíram o cenário tão amado pelo campeão da América.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Flamengo volta a se aproximar do topo, mas ainda faz força demais pra jogar
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André Rocha

Era jogo para goleada. Um Vitória sem confiança, agora sob o comando de Paulo César Carpegiani, no Maracanã com ótimo público mais uma vez. Time completo, Vitinho mais à vontade. Muito volume de jogo na maior parte do tempo.

Posse de bola de 68%, 25 desarmes corretos, quatro interceptações certas. Total de 15 finalizações, sete corretas. Mas apenas 1 a 0 no placar, gol de Diego no final do primeiro tempo. Meia que sempre rende mais atuando adiantado, entrando na área adversária. Mas no 4-1-4-1 montado por Mauricio Barbieri, o jogador de 33 anos participa da articulação, recua, pressiona a saída de bola do oponente. Ocupa um espaço grande de campo e se desgasta muito. Ainda mais quando prende a bola, conduz, gira. Ou seja, faz muita força para jogar.

Assim como todo a equipe. Em várias partidas precisa de um domínio muito amplo para vencer. A relação gol/finalização nem é tão ruim, só fica atrás de São Paulo, Atlético Mineiro e Palmeiras no Brasileiro. São oito conclusões para ir às redes. Mas para concluir tem que rodar muito a bola. Não por acaso é o segundo em posse, com média de 55%, atrás apenas do Grêmio.

Em jogos mais parelhos, especialmente fora de casa, nem sempre será possível impor esse domínio absoluto. Aconteceu no segundo tempo contra o Grêmio em Porto Alegre na Copa do Brasil. E mesmo lá, não fosse a finalização precisa de Lincoln no último ataque o Fla teria saído com derrota. Ou seja, falta contundência.

Mais uma vez o ataque não foi eficiente para abrir uma vantagem de dois ou três gols e depois administrar, dosando as energias. Henrique Dourado e Lucas Paquetá perderam chances cristalinas, uma em cada tempo. O Vitória finalizou quatro vezes, uma na direção da meta de Diego Alves. A de Lucas Fernandes, infiltrando no setor de Renê, normalmente o mais frágil defensivamente. Chute cruzado que o goleiro salvou. Podia ter sido o empate.

Final tenso, desgaste emocional e físico que se acumula na temporada. Quase nunca o jogo é tranquilo. Mesmo com Everton Ribeiro jogando muito bem, saindo da direita para pensar e articular, tocando fácil. Falta a fluência com começo, meio e fim das ações ofensivas com a bola terminando nas redes.

Uma solução seria adiantar Diego. Ideia deixada de lado logo no início do Brasileiro para que Paquetá tivesse mais liberdade e Cuéllar atuasse mais fixo à frente da defesa. Mas na falta de um exímio finalizador, ter um meia que conclui bem mais perto do centroavante pode ser um detalhe que muda um jogo ou mesmo um campeonato.

O Flamengo só não pode seguir correndo riscos desnecessários em jogos controlados. Nem ser presa fácil quando o adversário não permite um domínio tão grande. A conta vem sendo alta na volta da parada para a Copa do Mundo. Ainda que os três pontos façam a equipe voltar a se aproximar do líder São Paulo.

(Estatísticas: Footstats)


Grêmio 1×1 Cruzeiro- melhor jogo da quarta, salvo pela semana sem mata-mata
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André Rocha

Ainda que Mano Menezes tenha poupado Dedé, Henrique e Edilson e guardado Lucas Silva, Robinho e Thiago Neves no banco para o segundo tempo, o Cruzeiro foi para a Arena do Grêmio com uma formação competitiva. Eliminado da Copa do Brasil , o Grêmio de Renato Gaúcho entrou com todos os titulares.

Fosse num final de semana de Brasileiro com mata-mata no meio e muito provavelmente teríamos uma disputa morna, com equipes formadas apenas por suplentes e sem tanto interesse assim. A tabela salvou o melhor jogo desta quarta-feira pela abertura do returno do Brasileirão.

Equipes com os trabalhos mais longevos na Série A e propostas bem definidas: Grêmio com a bola instalado no campo de ataque buscando os espaços entrelinhas que o Cruzeiro tentava negar com marcação compacta e muita concentração sem a bola esperando a chance de espetar nas transições ofensivas em velocidade.

Time visitante fechado em duas linhas, com De Arrascaeta mais próximo de Barcos e Bruno Silva e Rafinha pelos flancos acompanhando Bruno Cortez e Léo Moura. Principalmente para que Ezequiel pudesse acompanhar Everton quando ele infiltrasse da esquerda para dentro. Luan buscava brechas às costas de Lucas Romero e Ariel Cabral, mas nunca encontrava boa conexão com André, injustificável insistência de Renato. Jailson saía para pressionar os meio-campistas adversários e Maicon organizava.

Primeiro tempo com o jogo mais à feição do Cruzeiro. Controle de espaços, o Grêmio com 67% de posse, mas apenas três finalizações, uma no alvo. Time mineiro concluiu seis, cinco na direção da meta de Paulo Victor. A mais eficiente e bela de Bruno Silva, em típica ação que executava no Botafogo ano passado, vindo da direita para concluir.

Na segunda etapa a partida cresceu muito com o time gaúcho buscando ser mais objetivo. E foi como costuma ser nos últimos tempos: com Everton Cebolinha infiltrando ou conduzindo da esquerda para dentro e finalizando com precisão. O atacante convocado por Tite pode não ser o jogador mais talentoso em atividade no Brasil, mas sem dúvida vem sendo o mais desequilibrante. Sétimo gol no campeonato.

Foram seis finalizações gremistas, nenhuma do Cruzeiro, mesmo com a entrada dos três titulares. A virada poderia ter saído no pênalti de Egídio em Alisson, que entrou na vaga de Leo Moura com Ramiro fazendo a ala pela direita. Mas Luan bateu mal e Fabio pegou. De novo a estrela do tricolor gaúcho desperdiçando a cobrança – desde 2017 são 13, com seis acertos apenas. Um problema para Renato Gaúcho, já que o aproveitamento em pênaltis durante os noventa minutos vem sendo sofrível – foi a quarta cobrança seguida sem bola na rede.

O empate acabou refletindo o equilíbrio de forças. Clubes com forte cultura copeira que ainda podem se cruzar na Libertadores. Felizmente o calendário, por coincidência, permitiu na semana sem mata-mata mais um belo confronto entre dois dos times mais competitivos do Brasil.

(Estatísticas: Footstats)


São Paulo é “campeão” do turno porque lidera estatísticas mais importantes
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André Rocha

Foto: Luciano Belford/AGIF

Ser líder em passes certos e posse de bola é importante e o Grêmio pode celebrar o feito em 19 rodadas do Brasileiro, até porque não utilizou os titulares em todas as 19 rodadas. Sinal de que o modelo de jogo da equipe de Renato Gaúcho está mais que assimilado.

Ostentar o ataque mais positivo e finalizar mais que os concorrentes também são boas notícias, como no Atlético Mineiro. Comprova em números que a proposta ofensiva do jovem treinador Thiago Larghi consegue ser efetiva, como nos 3 a 0 sobre o Botafogo no Estádio Nílton Santos. Só precisa equilibrar melhor a relação com o número de gols sofridos (36 a 26).

Por isso o São Paulo é o líder do campeonato e termina como “campeão” do turno. Não marcou mais gols, nem foi a defesa menos vazada, que continua sendo a do Grêmio com oito gols. Mas com 32 marcados e 16 sofridos é o time mais equilibrado. O tricolor gaúcho anotou apenas 23. O vice-líder Internacional, não por acaso, é o segundo neste balanço: 27 a favor, 12 contra. O outrora líder Flamengo perdeu terreno com os 3 a 0 sofridos em Curitiba para o Atlético Paranaense. Agora tem 15 gols sofridos e 29 marcados.

Tão fundamental quanto é outra estatística que o time do Morumbi também lidera: o número de finalizações necessárias para fazer um gol. Quanto menor, melhor. A equipe de Diego Aguirre precisa de apenas seis – o número exato na média é 6.2. O Atlético Mineiro está mais perto de sete (6.9), Internacional de nove (8,6) e Grêmio das dez (9,9).

Em uma disputa tão equilibrada, não desperdiçar tantas chances faz diferença. Principalmente se for a primeira, como na vitória são-paulina por 2 a 0 sobre a Chapecoense no Morumbi. Passe de Edimar, gol de Shaylon. Dois reservas, mas com a eficiência dos titulares. Descomplicaram o jogo transferindo confiança e baqueando o oponente. Quando perde a oportunidade o efeito é inverso.

Pode parecer simplismo, mas quando as equipes no pelotão de frente são parecidas taticamente e niveladas na técnica, a precisão é elemento fundamental. O São Paulo não tem o artilheiro da competição – Pedro, do Fluminense, com dez gols. Mas tem Diego Souza e Nenê com sete e é o único time que conta com dois jogadores entre os cinco primeiros nas assistências: Everton com seis e Joao Rojas com quatro. Retrato da eficiência do quarteto ofensivo do 4-2-3-1 de Aguirre, cada um em sua função.

O melhor para o são-paulino é que é possível vislumbrar uma evolução com apenas o Brasileiro para se dedicar. Aguirre rodou o elenco e resposta foi boa. Mesmo sem o desgaste de competições paralelas é bom ganhar opções para entrar no time e manter o desempenho.

O returno é uma incógnita com o Palmeiras de Felipão conseguindo ser competitivo mesmo utilizando time reserva, Grêmio e, muito provavelmente, o Flamengo se dedicando apenas a um campeonato em paralelo, o Galo consolidando uma reconstrução depois de muitas mudanças no elenco. Principalmente, o Internacional com a tabela indicando todos os duelos com os principais concorrentes no Beira-Rio e também totalmente focado na principal competição nacional.

Seja como for, o São Paulo segue um roteiro vencedor. As estatísticas apenas ilustram a superioridade em 19 jogos, especialmente os sete depois da Copa do Mundo. Os 18 pontos em 21 possíveis mudaram o eixo do campeonato. Méritos de quem encontrou primeiro o equilíbrio.

(Estatísticas: Footstats)

 


Desta vez o Grêmio foi o “arame liso”. Flamengo passa no limite das forças
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André Rocha

O gol de Everton Ribeiro logo aos cinco minutos no Maracanã, completando assistência meio no susto de Lucas Paquetá, após falha do lateral Bruno Cortez, acabou decidindo o duelo parelho nas quartas de final. Mandou para casa o atual campeão da Libertadores e um dos maiores vencedores da Copa do Brasil.

Mas acabou condicionando o jogo e criando problemas para os dois times. O Flamengo recuou as linhas de seu 4-1-4-1, recuando demais os ponteiros Everton Ribeiro e Vitinho e ficando sem desafogo, já que Henrique Dourado continua com dificuldades para reter a bola na frente e dar sequências às jogadas. Quando não parava em Paquetá a bola batia e voltava.

Para o Grêmio tocar, tocar, tocar… até inverter da direita para esquerda, com Everton atraindo Rodinei para dentro e abrir para Cortez às costas de Everton Ribeiro. Mas foi pela direita a chance mais cristalina, mas concluída para fora por Everton, impedido. O time de Renato Gaúcho teve 60% de posse de bola. Finalizou oito vezes, duas no alvo. Faltou a chance cristalina.

Também por méritos do Fla. Na segunda etapa, coordenou melhor a proteção do setor direito. Rodinei subiu de produção, Paquetá passou a alternar com Everton Ribeiro na volta e negou os espaços. Com Luan sem inspiração, mesmo às vezes encontrando espaços às costas de Cuéllar, o Grêmio foi o autêntico “arame liso”, um problema recorrente do Fla nos últimos tempos. Cercou, cercou e não conseguiu furar o sistema defensivo rubro-negro que teve como principal virtude o resgate da concentração nos movimentos da última linha.

Foi o que sustentou a equipe de Maurício Barbieri, que parece estar no seu limite físico e mental. Por disputar a liderança do Brasileiro, o elenco está rodando pouco. Mas o maior problema é que o time faz muita força para jogar. Os ataques não fluem com facilidade, não há uma bola de segurança para os contragolpes – Vitinho voltou ao Brasil com uma lentidão incomum, a ponto de Marlos Moreno entrar e funcionar melhor como escape. Também não há um goleador que descomplica a disputa.

É um time sem respiro. Se desgasta para defender porque precisa da colaboração de todos para não sobrecarregar Cuéllar. Também cansa para atacar, porque normalmente precisa de muitas finalizações para ir às redes.

Desta vez conseguiu na primeira tentativa. Para “saber sofrer” por mais quase noventa em um jogo interessante em termos técnicos e táticos, porém muito tenso. Há muito a comemorar pelo valor do oponente, historicamente um rival duríssimo. Mas a questão é saber até quando o Fla vai suportar a luta como o único brasileiro com 100% de entrega em todas as frentes.

(Estatísticas: Footstats)