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Low corta Sané, o “Douglas Costa alemão”. Tite é menos radical pelo sistema
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André Rocha

Quando o Manchester City contratou Leroy Sané para a temporada 2016/17, Pep Guardiola afirmou que buscava um jogador para fazer na sua nova equipe o que Douglas Costa realizava sob seu comando em sua melhor fase na carreira no Bayern de Munique.

Ou seja, o ponta canhoto dentro do jogo de posição que espera a bola bem aberto para driblar, cortar para o fundo e finalizar ou servir os companheiros. Ou à direita cortando para dentro e finalizando. Normalmente recebendo numa inversão para enfrentar apenas um marcador. Sem se incomodar de pegar pouco na bola, mas ser decisivo. O fator de desequilíbrio. Em 2015/16, o brasileiro marcou seis gols e serviu 12 assistências na Bundesliga e na Champions.

Na temporada seguinte, o encontro entre Guardiola e Sané em Manchester rendeu sete gols e cinco assistências, ainda se adaptando a um novo modelo de jogo. Na campanha do título nacional, a explosão com dez gols e 17 passes para os companheiros irem às redes. Totalmente adaptado e ciente de sua missão em campo.

Por isso a surpresa pela ausência do atacante entre os 23 convocados da atual campeã Alemanha para a Copa do Mundo na Rússia. Nem tanto pelo desempenho na seleção, mas pelo potencial que poderia ser desenvolvido e, principalmente, pelas características diferentes de Draxler, Reus e Brandt. Mesmo iniciando sempre no banco, seria uma possibilidade de mexer com a marcação adversária. Joachim Low preferiu os jogadores mais associativos, de tabelas e infiltrações. Preferiu a afirmação do sistema à alternativa de ruptura.

Exatamente a crítica que Tite recebeu por deixar no Brasil o meia do Grêmio, eleito melhor jogador da América do Sul. Porque é jogador de entrelinhas, centralizado num 4-2-3-1. No 4-1-4-1 da seleção, não rendeu aberto nem por dentro nos treinamentos.

Discordar da lista de convocados é mais que legítimo. É até saudável. Contestar Taison é compreensível por estar jogando na Ucrânia e Luan ainda por aqui. A questão é que o camisa sete gremista seria opção apenas para uma função. Na prática, a mesma que Roberto Firmino executa no Liverpool: busca espaços entre a defesa e o meio-campo do oponente e aciona os companheiros ou aparece para finalizar. Isto no mais alto nível do futebol mundial: Premier League e Liga dos Campeões. A Libertadores fica abaixo neste parâmetro de avaliação. Ou seja, se precisar de um Luan existe Firmino.

A prova de que Tite é menos radical na defesa de seu sistema é justamente Douglas Costa. Quase sempre lesionado quando o treinador precisou, mas sempre no radar. É ponteiro diferente de Willian, Coutinho e Neymar. Mais drible e força em direção ao fundo, ainda que na Juventus não guarde tanta posição no flanco como nos tempos de Guardiola em Munique. É o tal “cara para mudar o jogo”. A preocupação é que está novamente com problemas físicos, mas deve estar pronto para enfim dar sua contribuição a Tite.

Low justificou a ausência afirmando que Sané “não deu tudo que podia nos jogos da seleção”. Na Alemanha nem houve tanta contestação. Porque, de fato, nunca houve uma atuação memorável do ponteiro de 22 anos com a camisa tetracampeã mundial, como tantas fardando o uniforme azul de Manchester. Mas também pela moral do treinador no comando há 12 anos. Que confia em seu sistema e vai com ele até o fim.

Com apenas dois anos, ou meio ciclo de Copa, Tite também carrega suas convicções. Mas deixa uma brecha para novas possibilidades, ainda que quebrem o desenho tático e a proposta de jogo. Quem tem razão? Já sabemos qual será o único critério de avaliação geral, muito mais no Brasil que na Alemanha: o resultado final na Rússia.


Seis lições que o Real Madrid deixa para as seleções da Copa do Mundo
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André Rocha

Foto: Kai Pfaffenbach/Reuters

Sergio Ramos à parte – ou aproveitando apenas o melhor de um dos grandes zagueiros do futebol mundial -, o Real Madrid impõe com o tricampeonato e os quatro títulos nas últimas cinco edições uma supremacia única na Era Champions League do maior torneio de clubes do mundo. Tempos em que clubes são maiores que as seleções, ainda que a Copa do Mundo siga imbatível no tamanho e na repercussão, até por acontecer com menos frequência.

O time de Zinedine Zidane ganhou três Ligas dos Campeões e apenas uma liga espanhola. É de mata-mata. Ou só de “mata”, como provou nas finais que venceu. Como será para as seleções no Mundial da Rússia a partir das oitavas de final. Por isto o blog destaca seis lições que esta equipe deixa para os países envolvidos, especialmente o grupo de favoritos:

1 – Todo pecado será castigado

Errar contra o Real costuma ser letal. Até rimou. Mas tem sido assim. É um time que não perdoa vacilos. PSG, Juventus, Bayern de Munique e Liverpool. Todos tiveram períodos de domínio ou de equilíbrio e sucumbiram em falhas, individuais ou coletivas. Assim também nas outras duas conquistas. Já os equívocos dos merengues não foram aproveitados com a mesma competência. Em 180 minutos, imagine em, no máximo, 120 a importância de minimizar erros. A precisão, como sempre, será fundamental.

2 – A força da mente

O gigante de Madri se alimenta de confiança que proporciona conquistas que aumentam a força mental. Para sair de situações complicadas e também atropelar quando o oponente baixa a guarda. Tantas vezes a desorganização dos setores em campo foi compensada com uma autoridade que intimida. Até os árbitros, diga-se. Mas não deixa de ser um mérito. Tantas vitórias transmitem a certeza de que no fim tudo terminará bem e joga a insegurança natural em um jogo grande para o outro lado.

3 – O talento é fundamental

Zidane foi um dos maiores jogadores da história do esporte. Tinha um talento especial que quando foi potencializado pelo coletivo produziu maravilhas nos gramados do planeta. Como treinador manteve esta convicção e explora o melhor de seus atletas. Porque uma bicicleta de Cristiano Ronaldo, um voleio de Bale, uma assistência de Kroos e um drible de Marcelo podem desmoronar qualquer modelo de jogo. Ainda que nenhum país consiga reunir craques como os clubes bilionários, quem tem qualidade deve explorá-la muito bem.

4 – A melhor notícia é não ter novidades

Os mesmos onze titulares em duas finais de Liga dos Campeões. Só o Real Madrid conseguiu. E a base mudou bem pouco desde 2014. O entrosamento também foi um trunfo. Para jogar ao natural, “de memória”. No universo de seleções é ainda mais importante, pela impossibilidade do trabalho diário ao longo das temporadas. Não por acaso, Espanha e Alemanha venceram os últimos mundiais usando Barcelona e Bayern de Munique como bases. A renovação é inevitável, mas quanto menos mexer durante a Copa, melhor.

5 – Fase de grupos não diz muita coisa

Nas últimas duas conquistas, o Real não terminou na liderança do seu grupo na primeira etapa do torneio continental. Ficou atrás do Borussia Dortmund em 2016 e do Tottenham no ano passado. Ainda que a Copa não tenha a pausa de dois meses, nem sorteio de confrontos, a lógica segue a mesma: jogos eliminatórios são de outra natureza, envolvem outras valências e a tradição costuma contar muito. No universo das seleções, com seu grupo seleto de campeões mundiais, mais ainda. Fase de grupos é para se classificar.

6 – Serenidade e simplicidade no comando

Se há algo para Pep Guardiola, sempre pilhado demais na Champions, e outros treinadores pelo mundo devem aprender com Zidane é que num ambiente que já carrega pressão descomunal por envolver paixão e muito dinheiro, quanto mais calma o comando passar, melhor. E mesmo quando promove variações táticas ou na proposta de jogo, o treinador merengue faz com simplicidade, para que os atletas entendam e executem. Sem chamar para si os holofotes. Até porque não há revolução a ser feita numa Copa do Mundo. É jogar com calma e atenção nos detalhes.


Não é a derrota de Fernando Diniz, mas a vitória de Abel Braga
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André Rocha

Foto: Lucas Merçon/Fluminense FC

Quando se contrata Fernando Diniz você compra uma ideia. Que precisa de tempo. Para aperfeiçoar os métodos, adaptar melhor o elenco à proposta de jogo e trabalhar as divisões de base para que o jovem entre no time profissional já sabendo o que fazer. O próprio treinador também necessita de vivência para aprimorar sua visão, o feeling. Como em qualquer ofício. É da vida.

A mágica no futebol é raríssima. O Barcelona de Guardiola vinha de Johan Cruyff, mas também do antecessor Frank Rijkaard. A combinação das escolas holandesas e espanholas apenas ganhou atualização e novos elementos. E havia material humano para executá-la com excelência. O mesmo para a origem, a Holanda de 1974. Rinus Michels reuniu o que se fazia no Ajax e no Feyenoord e deu ênfase à intensidade e a um movimento radical: o “arrastão” com todos correndo na direção da bola ao mesmo tempo para roubar e partir com superioridade numérica ou deixar um ou mais adversários em impedimento.

Diniz só não pode entrar na roda viva do futebol brasileiro, condicionada apenas a resultados imediatos. Se for para ser assim é melhor nem contratar. Ou abraça o projeto acreditando ser possível criar uma identidade e lá na frente fazer história ou entra no bolo da tentativa e erro.

Mas há jogos e jogos. E os 2 a 0 aplicados pelo Fluminense no Maracanã sobre o Atlético Paranaense foi o do espetáculo através do contragolpe. Este movimento tão incompreendido. Ou visto de uma forma até contraditória. Se é praticado por um time sem estrelas ou de um treinador com discurso mais pragmático é tratado como único recurso para compensar as limitações técnicas.

Por outro lado,caso o time conte com craques ou venda uma imagem de “jogo bonito” eles entram no pacote do “espetáculo”. Como os muitos do Manchester City campeão inglês de Guardiola. Ou os vários do Brasil de 1970, no calor do México aproveitando a preparação física realizada com muita antecedência e métodos modernos para a época. Mas confundem com “magia”.

O time de Abel Braga empilhou contragolpes. Uma goleada não teria sido nenhum absurdo no universo de treze finalizações, seis no alvo. Duas nas redes com Jadson concluindo e Thiago Heleno fazendo contra e depois Marcos Júnior. O Atlético finalizou 16, mas apenas três na direção da meta de Julio César. Com 66% de posse.

O detalhe que passa despercebido por quem olha os números e interpreta como domínio do time visitante é que a proposta de negar espaços e aproveitar os cedidos pelo oponente visa dificultar as finalizações “limpas”. Com liberdade. E usar a velocidade na transição ofensiva para criar as chances cristalinas.

E nisto o Flu foi preciso, até pelo maior tempo de trabalho. Um 5-4-1 organizado, com linhas próximas e estreitando a marcação no setor em que estava a bola. Alternando marcação no próprio campo com a adiantada para dificultar a construção da equipe de Diniz desde a defesa.

Bola retomada, saída rápida e com muita gente. E o mérito de Abel no Flu é privilegiar quem sabe jogar. Jadson e Richard são volantes com passes rápidos e certos, os alas Gilberto e Marlon descem com vigor e confiança, mas também técnica. Sornoza é o organizador, Marcos Júnior é o típico ponteiro ligeirinho que corre mais que pensa, mas dá sequência aos ataques e tem momentos de lucidez. Assim como Pedro vai evoluindo e mostrando não ser apenas o tradicional centroavante rompedor.

Nada muito sofisticado, até porque o orçamento tricolor não permite. Mas a proposta é voltada para o ataque, sempre. Mesmo que seja reagindo à iniciativa do adversário. E fica mais fácil quando se sabe o que o oponente vai fazer. O grande risco das ideias de Diniz sem o modelo bem assimilado e jogadores capazes de surpreender na jogada individual é a previsibilidade. Não há surpresa. O time terá a bola, ocupará o campo de ataque e trocará passes até encontrar uma brecha.

Pior ainda com uma recomposição lenta e sem defensores rápidos nas coberturas. Se transforma num convite aos rivais. Não por acaso as cinco derrotas seguidas. Ajustes imediatos são necessários, sem abrir mão dos princípios. Insistir apenas por “filosofia inegociável” será pouco inteligente, para dizer o mínimo.

Assim como é obtuso não reconhecer os méritos de quem faz um jogo potencializando virtudes e explorando as deficiências do adversário. Questão de lógica pura e simples. Porque o objetivo deste esporte que tanto amamos não mudou: colocar a bola na rede e vencer fazendo mais gols que o outro time. Há maneiras e maneiras de conseguir este intuito. Tolo é quem acredita nos que vendem a ideia de que só há uma. Ou a mais “nobre”.

Até Guardiola, ícone e referência dos defensores do jogo de posse como o “Santo Graal” do esporte,  já entendeu que é preciso ser “camaleão”, jogar por demanda, de acordo com o que pede o confronto. A especialidade do Real Madrid de Zinedine Zidane que pode ser tricampeão europeu e do mundo. Que também não surgiu por mágica. Veio da semente de Carlo Ancelotti e da manutenção de uma base.

Diniz é jovem na função e vai aprender. Pode e deve tirar lições, inclusive de Abel Braga.  O veterano treinador é que foi o grande vencedor na noite da beleza do contra-ataque no Maracanã.

(Estatísticas: Footstats)

 


Messi, CR7 e Champions são “culpados” pela disparidade nas ligas europeias
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André Rocha

Foto: Sergio Perez / Agência Reuters

O Bayern de Munique garantiu o sexto título consecutivo da Bundesliga, conquista inédita, com cinco rodadas de antecedência. Na França, o Paris Saint-Germain retomou do Monaco a hegemonia também disparando e confirmando matematicamente faltando cinco rodadas. A Juventus na Itália teve mais dificuldades, porém superou o Napoli e faturou o heptacampeonato nacional.

Na Premier League há maior alternância de poder, mas o Manchester City de Pep Guardiola liderou de ponta a ponta e empilhou recordes: chegou aos 100 pontos em 38 jogos e ainda fez história com mais vitórias (32), triunfos consecutivos (18), gols marcados (105), saldo (+79) e os 19 pontos de vantagem sobre o segundo colocado.

Se somarmos tudo isso ao domínio do Barcelona nesta edição da liga espanhola, com a invencibilidade perdida apenas na penúltima rodada com vários reservas e uma atuação desastrosa do colombiano Yerri Mina nos 5 a 4 do Levante. mas título confirmado faltando quatro jogos, temos um cenário em que as principais ligas da Europa não reservaram disputas mais acirradas.

A senha para os disseminadores do “ódio ao futebol moderno”, muitos confundindo equilíbrio com qualidade, protestassem contra este cenário em que, para eles, apenas a disparidade econômica justifica essa vantagem dos campeões.

O grande equívoco é desprezar a enorme competência e know-how desses clubes. O Bayern ostenta a melhor geração de sua história ao lado da de Beckenbauer, Gerd Muller e Sepp Maier nos anos 1970. O mesmo vale para a Juventus. O PSG nem há como comparar e no caso do Manchester City há um retrospecto de conquistas na década, mas principalmente a presença do “rei das ligas” Guardiola, com sete conquistas em nove temporadas por três clubes e países diferentes.

Sem contar Barcelona e Real Madrid com os grandes times de sua história. E os maiores jogadores de todos os tempos nos dois clubes. Competindo na mesma época. Eis a chave para todo este cenário.

Messi e Cristiano Ronaldo venceram as quatro últimas edições da Liga dos Campeões. Se considerarmos desde 2007/08, dez anos, são sete: Manchester United com uma, Barcelona e Real Madrid com três. E os merengues em mais uma decisão podendo ampliar este retrospecto.

Em tempos recentes nunca houve nada parecido. Um fenômeno que subiu o patamar da Champions para níveis estratosféricos. De interesse, inclusive, pela sedução de se medir entre grandes da história. Com isso, o sarrafo foi parar no topo. Para desafiá-los é preciso estar em um nível de excelência em desempenho. Em todos os aspectos – físico, técnico, tático, mental, logística…

Resta aos desafiantes investir. Em elenco, comissões técnicas, estrutura…Internazionale, Chelsea e Bayern de Munique conseguiram superá-los, com os alemães ainda acumulando dois vices e os ingleses um. Manchester United, ainda com CR7, Borussia Dortmund, Juventus e Atlético de Madri chegaram às decisões, mas não conseguiram equilibrar forças em jogo único. PSG e City seguem lutando para furar a casca e entrar no grupo de clubes mais tradicionais. O Liverpool, finalista depois de onze anos, tenta voltar à elite. Mas não é fácil.

Com esse nível tão alto, quem não consegue acompanhar vai perdendo o bonde da história. E os gigantes trabalham para ficar cada vez melhores de olho no principal torneio de clubes, dominado por Messi e Cristiano Ronaldo com seus históricos Barcelona e Real Madrid, mesmo com o time blaugrana de fora das últimas três semifinais.

Como consequência sobram em seus países. Elenco numerosos, estruturas fantásticas, ótimas comissões técnicas. Nos casos específicos de Bayern de Munique e Juventus, os títulos consecutivos acontecem também porque não há como se acomodar com as conquistas nacionais. Não são a prioridade. Então mesmo sobrando os processos são revistos e aprimorados, o elenco ainda mais qualificado. O time que está ganhando se mexe e fica ainda melhor. Pensando em Barça e Real Madrid.

Mas não basta só dinheiro. Ou o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp não seria bicampeonato alemão de 2010 a 2012, o Atlético de Madri não teria superado os gigantes na Espanha em 2014. O mesmo com o Monaco contra o PSG na temporada passada e, caso a Juve não tivesse deixado a Champions ainda nas quartas eliminada pelo Real Madrid e dividisse esforços por mais tempo, o Napoli poderia ter fôlego para terminar na frente. Sem contar o fenômeno Leicester City na liga mais valiosa do mundo em 2015/16. Se não jogar muito não vence. A tese do “piloto automático” é furada.

Mais do que nunca o futebol no mais alto nível exige superação constante. Com regularidade, consistência. “Culpa” de Messi, Cristiano Ronaldo e da Liga dos Campeões que levam o esporte para outra galáxia. Ainda bem que estamos vivos para ver a história sendo escrita. E até os que hoje reclamam vão sentir saudades, mesmo que não admitam.

 

 


A noite simbólica dos fracassos de Guardiola e Messi na Champions
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André Rocha

O Barcelona e o Manchester City serão campeões na Espanha e na Inglaterra. Por isso seria exagero falar em “morte” da escola que valoriza a posse de bola e jogadores mais ágeis, técnicos e de menos imposição física. Ainda que Pep Guardiola e Ernesto Valverde venham buscando adaptar e adicionar intensidade e pragmatismo em suas propostas de jogo.

Mas na Liga dos Campeões as eliminações para Roma e Liverpool são duras e simbólicas demais para os dois. Principalmente pelos contextos e pelo que fizeram os vencedores.

Jogos eliminatórios são naturalmente tensos e exigem força mental, concentração e precisão. Principalmente porque quando os nervos estão à flor da pele, quanto mais naturalidade e “jogar de memória” melhor. Mas ligado, firme. Não é por acaso que o Real Madrid vem se impondo nos últimos anos no torneio. O time merengue se adapta a qualquer cenário. Com o feeling de Ancelotti e agora Zidane.

Guardiola pecou por novamente “ousar” na formação do City. Um 3-1-4-2 com Walker e Laporte como zagueiros-laterais, Fernandinho alternando como zagueiro e volante, De Bruyne mais recuado adiantando David Silva, Bernardo Silva pela direita e Sterling mais próximo de Gabriel Jesus. Até surpreendeu o Liverpool no primeiro tempo pela pressão logo após a perda da bola e a capacidade de ocupar o campo de ataque com oito ou nove homens.

Mas de novo falhou ao não transformar 66% de posse e 13 finalizações em um placar maior que o 1 a 0 no gol de Gabriel Jesus logo aos dois minutos. Arbitragem à parte no polêmico gol anulado de Sané que custou a expulsão do treinador catalão pelo “piti” na saída para o intervalo.

A pausa fez Jurgen Klopp acalmar e reagrupar seu time. Com Mané pela direita ajudando Alexander-Arnold para fechar as incursões de Sané, Salah no centro e Firmino à esquerda, além de serenidade para conter a pressão e ficar um pouco mais com a bola. Mas o gol que definiu a vaga saiu no jogo direto, vertical. Liberdade de Chamberlain para acionar Salah e deste para Mané. Disputa com a zaga e sobra para o toque com categoria do egípcio. No final, Firmino apenas selou a classificação dos Reds para a semifinal da Liga dos Campeões depois de dez anos.

O City construiu sua campanha quase perfeita na Premier League com um 4-3-3 executado com todos os conceitos aplicados por Guardiola. Laterais Walker e Delph ora apoiando por dentro, ora por fora se juntando aos ponteiros Sterling e Sané que são abastecidos por De Bruyne e David Silva e acionam Aguero ou Gabriel Jesus. Ideia bem assimilada, movimentos bem coordenados.

O obsessivo Guardiola desconstruiu tudo nos dois jogos das quartas-de-final e pela quinta temporada consecutiva sequer chega à decisão da Champions. Desta vez com duas derrotas. Sinal de que é preciso rever algumas ideias e práticas para suas equipes se tornarem mais competitivas nessas disputas mais imprevisíveis, condicionadas a mando de campo e definidos no placar agregado. Cenário bem diferente das ligas nacionais das quais o treinador caminha para o sétimo título em nove anos de carreira. Com jogos menos complicados de planejar e controlar.

Controle que foi o que o Barcelona não teve no Estádio Olímpico de Roma. Permitiu o jogo físico do time italiano bloqueando Messi e Suárez e forçando pelos lados e nos passes longos para Dzeko e Patrik Schick contra Piqué e Umtiti, sobrecarregado na cobertura de Jordi Alba. Duas esticadas para Dzeko, gol do bósnio no primeiro pênalti e pênalti sofrido e convertido por De Rossi. No “abafa”, o gol de Manolas no escanteio.

No final, Piqué de centroavante. Desde 2010 é a solução quando o time de jogadores mais baixos, técnicos e velozes não consegue jogar ao natural e criar espaços. A Roma travou as infiltrações com Manolas, Fazio e Juan Jesus mais De Rossi na proteção e Florenzi negou as ultrapassagens de Alba. O Barça parou. De novo. Foi assim contra Atlético de Madri e Juventus.

Foram 15 finalizações a seis, oito na direção da meta de Ter Stegen e apenas duas que fizeram Alisson trabalhar. Domínio absoluto de quem parecia eliminado por conta dos 4 a 1 no Camp Nou.

E Messi? De novo flanando em campo como se jogasse uma partida qualquer da liga espanhola, que o argentino conquistou seis vezes nos últimos nove anos. Natural até demais…Mais uma vez não se viu a indignação com a derrota. Ou a noção de que é a Liga dos Campeões que vem definindo o melhor do mundo e, por isso, Cristiano Ronaldo transformou um 4 a 2 em 5 a 5. Agora caminhando para o desempate a favor do português. A terceira eliminação sem gols de Messi nos confrontos. Sintomático.

Noites históricas para Liverpool e Roma, com muito a comemorar. Feitos memoráveis também por superarem o treinador e o jogador mais talentosos desta era. Que construíram juntos uma trajetória vencedora lá no início da década e, fora a epopeia do Barça em 2015 com o trio MSN sob o comando de Luis Enrique, ficaram devendo em conquistas na competição mais importante.

É preciso mais que regularidade e foco na qualidade do jogo. E o paradoxo: enquanto Guardiola fica pilhado demais e acaba “inventando”, Messi parece indiferente, serenidade que se transforma em letargia. Mais uma noite de fracasso para rever convicções e prioridades.

(Estatísticas: UEFA)

 

 


Virada do United é para Guardiola repensar muita coisa, assim como Mourinho
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André Rocha

A escalação inicial do City para o dérbi de Manchester deixava claro que o planejamento de Pep Guardiola era dividir esforços para garantir o título da Premier League e buscar a recuperação contra o Liverpool na Liga dos Campeões.

Bernardo Silva como “falso nove” com a clara intenção de buscar espaços entre a defesa e o meio-campo do United. Kun Aguero e Gabriel Jesus no banco, assim como Kevin De Bruyne descansando para Gundogan seguir no meio, com Fernandinho e David Silva.

A proposta funcionou por méritos na execução de seu modelo de jogo. Posse de bola e movimentação. Com o tempo, Bernardo foi para o lado direito e Sterling ficou mais adiantado no centro do ataque. Placar aberto na bola parada com Kompany e jogada bem trabalhada até Gundogan girar e tirar do alcance do goleiro De Gea.

O City pode reclamar de um pênalti no toque no braço de Ashley Young no início do jogo. Mas principalmente lamentar as quatro chances claras desperdiçadas por Sterling ao longo do jogo. Em especial as duas à frente do goleiro que poderia ter transformado os 2 a 0 no primeiro tempo em uma goleada que faria José Mourinho jogar a toalha em 45 minutos.

Período sem nenhuma agressividade dos Red Devils. Era assustadora a falta de intensidade três dias depois do Liverpool de Jurgen Klopp atropelar os citizens em 30 minutos com pressão absurda. O time de Mourinho esperava posicionado no 4-1-4-1, mas assistindo à troca de passes do rival. Permitiu nove finalizações, cinco no alvo. Não concluiu nenhuma vez. Zero. City sobrou com 66% de posse.

Não mudou muito no início do segundo tempo. Talvez tenha sido o que desligou o time de Guardiola do jogo. Relaxado, permitiu a bela articulação que terminou no gol de Pogba. E o jogo com 2 a 1 se transformou. Quem já deveria estar entregue com uma goleada se agigantou e a equipe que parecia absoluta e com título garantido se viu ameaçada. E aí a derrota na quarta-feira talvez tenha pesado na falta de confiança.

Outro de Pogba, o da virada com Smalling. Três das quatro conclusões na direção da meta de Ederson entraram, num total de cinco. Em 30 minutos o clássico de Manchester virou do avesso e só aí Guardiola mandou a campo Jesus, Aguero e De Bruyne. Mas mentalmente o cenário ficou adverso demais. No “abafa”, Aguero cabeceou para defesaça do goleiro espanhol do United e Sterling perdeu sua última chance, desviando na trave. Que tarde infeliz do atacante inglês!

E aí cabe a maior reflexão de Pep Guardiola: em dois jogos grandes, seu time pecou, entre outras coisas, pela falta de contundência na frente. Muito porque o treinador monta elenco e escala em função de sua visão de futebol. Prefere jogadores ágeis, rápidos, que façam a bola girar. No Bayern de Munique, até pela cultura do clube e da Alemanha, trabalhou com Lewandowski e Muller, dois goleadores mais típicos.

Mas, paradoxalmente, embora seus times marquem muitos gols, não são matadores. Daqueles que em quatro chances colocam duas nas redes. É preciso muito volume de jogo para aplicar goleadas. Foi a diferença que impediu o triunfo no Etihad Stadium.

Talvez por isso só tenha vencido a Liga dos Campeões com Messi, o jogador perfeito para Guardiola: rápido, habilidoso, adaptado ao jogo de posição…e um goleador implacável. Em duelos mais equilibrados é fundamental. Uma das explicações para a hegemonia europeia do Real Madrid de Cristiano Ronaldo.

Obviamente o City não é um time “arame liso” – cerca, mas não fura. Mas foi no dérbi, com 20 finalizações, seis no alvo e apenas dois gols. Não poderá ser na terça-feira de novo em Manchester. Guardiola que busque as soluções, inclusive para resgatar o ânimo de seus comandados depois de dois reveses doídos.

Grande virada do time de José Mourinho. Ficou a impressão de que não houve lá muita interferência do treinador na recuperação do United. Mas não deixa de trazer reflexões também para o treinador português.

Porque ficou provado que com uma postura mais agressiva sua equipe pode fazer suas estrelas desequilibrarem. Menos pragmatismo, mais coragem. Precisava acontecer com 2 a 0 contra? Com o título inglês praticamente perdido? Eliminado da Liga dos Campeões exatamente pelo excesso de cautela no confronto com um Sevilla, em tese, inferior? Algo a ser revisto.

Guardiola e Mourinho estão na história do esporte como responsáveis diretos pela enorme evolução do jogo. Cada um com sua contribuição. Mas o jogo segue e é preciso aprender sempre sem se escravizar às próprias convicções. O pecado do português há alguns anos.

Pep parece com a mente mais aberta,. Há, porém, o que pensar. Mesmo confirmando o título nacional daqui a duas rodadas e até virando as quartas do torneio continental contra os Reds.  Não há fórmula perfeita, por mais que se busque.

(Estatísticas: BBC)


Será que Guardiola “pirou” de novo em um jogo grande de Champions?
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André Rocha

Nos livros “Guardiola Confidencial” e ” A Evolução”, o autor espanhol Martí Perarnau descreve o trabalho de Pep Guardiola na preparação do Bayern de Munique para os jogos ao longo das temporadas. Observação, estudo, reuniões com auxiliares.

Nesta descrição um detalhe chamou a atenção nas duas obras: nos jogos em que foi eliminado na Liga dos Campeões, o treinador ficou obsessivo pelos adversários em busca de soluções para surpreendê-lo. Pilhado demais, como ele mesmo admitiu,  mudou sistema, time e/ou proposta.

Contra o Real Madrid em Munique armou o time bávaro praticamente num 4-2-4 e deixou espaços generosos para os contragolpes da equipe merengue; diante do Barcelona do trio MSN no auge, iniciou com três defensores atentos aos atacantes adversários em busca de superioridade no meio-campo; contra o Atlético de Madri, a aposta em um time de posse de bola fora de casa para controlar o jogo, mas sem contundência na frente. Três derrotas que custaram caro. Uma passagem sem concretizar o grande sonho do clube: voltar a vencer o maior torneio de clubes do mundo e encerrar o domínio espanhol.

Agora no Manchester City. Na temporada passada, período de adaptação e a eliminação para o Monaco nas oitavas de final. Surpresa e decepção para os citizens, mas não exatamente um confronto que tirasse o sono do treinador catalão. Já na edição 2017/18, um duelo inglês contra o Liverpool pelas quartas de final depois de despachar o Basel na fase anterior.

Mais um embate com Jurgen Klopp, que quase sempre impõe dificuldades aos times de Guardiola com a intensidade máxima e a marcação obsessiva no campo de ataque, tão logo perde a bola. Era óbvio que no Anfield Road o treinador alemão repetiria a fórmula, até pelo sucesso na última partida entre as equipes: 4 a 3 em Liverpool. A única derrota do City na Premier League.

O que fez Guardiola? Nem Sterling, nem Bernardo pela direita. A opção por Gundogan, armando um losango no meio-campo com Fernandinho plantado e David Silva mais adiantado. Deixando Walker isolado pela lateral, na defesa e no apoio. Entregue à própria sorte. Do lado oposto, a escalação do fzagueiro francês Laporte mais fixo no setor por onde circulava Salah, o grande destaque individual dos Reds na temporada. Um defensor mais lento, sem muitos minutos como titular e rodagem.

Alguém entendeu? Talvez tenha sido a obsessão de gerar superioridade numérica no meio-campo para controlar o jogo através da posse de bola e sofrer menos. Mas em um jogo naturalmente tenso, com um componente emocional muito forte e fora de casa, tirar a naturalidade do time na execução do seu modelo de jogo não parecia uma boa solução.

Não foi. Até pela competência do Liverpool no “perde-pressiona”. Poucos times no mundo viram a chave tão rapidamente e mudam o comportamento coletivo de construção de jogadas para a busca do desarme ou interceptação no campo de ataque. Sem contar a movimentação de Roberto Firmino às costas de Fernandinho, como um autêntico “falso nove” no 4-3-3 do time da casa.

Com o lateral Robertson voando com Mané para cima de Walker e Salah buscando o centro do ataque em movimentos precisos complicando Laporte, o Liverpool abriu 3 a 0 em 30 minutos. Salah, Oxlade-Chamberlain e Mané. Três das quatro finalizações na direção da meta de Ederson, num total de oito contra três do City, que teve 56% de posse e 79% de efetividade nos passes. Mas não finalizou no alvo em 45 minutos.

Faltou contundência na segunda etapa quando impôs seu estilo aproveitando o cansaço do oponente e a lesão de Salah. Guardiola demorou, mas corrigiu ao menos o problema pela direita com a óbvia entrada de Sterling na vaga de Gundogan. Seguiu forçando demais o jogo pela esquerda com Sané e criou algumas situações, mas o virtual campeão inglês parecia sem confiança. Jogadores errando mais que o habitual.

Talvez fosse o tamanho da partida. Ou a insegurança de Guardiola na montagem da equipe. Será que o treinador “pirou” de novo em um jogo grande de Champions? Só saberemos se Pep contar a Perarnau ou a outro jornalista os seus conflitos antes da partida.

Seja como for, o Liverpool vai a Manchester com vantagem considerável. Mas não definitiva. Porque o City jogando ao natural em seu estádio tem qualidade e volume de jogo para reverter. A dúvida é se outra novidade pode surgir da mente do inventivo comandante para tirar o próprio time do eixo. Quem vai saber?

(Estatísticas: UEFA)

 


Quartas de final da Champions só não têm favorito no duelo inglês
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André Rocha

Barcelona x Roma  – Confronto com favoritismo claro. O Barcelona invicto no Espanhol e na Liga dos Campeões, com Messi voando, pega o adversário em tese mais frágil. Mas que merece respeito por ter fechado a fase de grupos na liderança de um grupo com Chelsea e Atlético de Madri e eliminando este último. O jogo na capital italiana terá que ser bem controlado pelo time catalão se quiser voltar à semifinal depois dos fracassos nas duas últimas disputas nesta etapa contra Atlético e Juventus. Mas são equipes em prateleiras diferentes no futebol mundial.

Palpite: Barcelona

Sevilla x Bayern de Munique – Desde o título em 2013, com Jupp Heynckes, o Bayern de Munique foi eliminado nas últimas quatro temporadas por espanhois. Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madri. Agora o adversário é o Sevilla, cinco vezes campeão da Liga Europa, mas longe de ter o mesmo peso na Champions. Merece respeito por ter eliminado o Manchester United e, pela disparidade na Bundesliga, é sempre complicado avaliar o poderio do time bávaro. Mas é impossível não tratar o gigante alemão como favorito.

Palpite: Bayern de Munique

Juventus x Real Madrid – Reedição da final da temporada passada. Com os dois times crescendo em desempenho e resultados. O atual bicampeão europeu carrega uma vantagem inegável: a força mental. Confiança pelas conquistas recentes e também a chance de priorizar o torneio continental, já que a Juventus tomou há pouco do Napoli a liderança da Série A do Calcio. Favoritismo merengue, mas é bom lembrar: no último confronto em dois jogos deu Juventus, na semifinal de 2014/15.  Justamente a única eliminação do Real nas últimas quatro edições.

Palpite: Real Madrid

Liverpool x Manchester City – A campanha fantástica do time de Pep Guardiola na Premier League só não é invicta em 30 jogos por causa de uma derrota: os 4 a 3 impostos pelo Liverpool no Anfield Road, talvez no melhor jogo da temporada 2017/18 na Europa. Adicione a isso a camisa cinco vezes campeã da Liga dos Campeões de volta ao mata-mata e Jurgen Klopp, treinador que quase sempre proporciona duelos equilibrados com os times de Guardiola, e temos o único confronto das quartas sem favorito. Apesar dos 21 pontos de vantagem na liga nacional que refletem o abismo de desempenho e da maior experiência dos jogadores do time azul de Manchester na Champions.

Palpite: Manchester City


Champions: é justo avaliar a temporada por um torneio que envolve sorteio?
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André Rocha

Foto: UEFA

Amanhã acontecerá em Nyon o sorteio das quartas-de-final da Liga dos Campeões. Real Madrid, Barcelona, Sevilla, Juventus, Roma, Manchester City, Liverpool e Bayern de Munique estarão nas bolinhas que definirão o destino de cada um.

Imaginemos um hipotético confronto Barcelona x Manchester City. Se o time de Messi ficar pelo caminho diante da ótima equipe de Pep Guardiola em confrontos parelhos e o Real Madrid, por exemplo, encarar a Roma ou o Sevilla e seguir adiante até a conquista do inédito tricampeonato na Era Champions, a temporada do argentino, mesmo com o provável título espanhol e a conquista da Copa do Rei, poderá ser tachada de fracassada? De novo as premiações individuais irão para Cristiano Ronaldo pelo simples fato de ter vencido o principal torneio de clubes do planeta?

E se Guardiola novamente for derrotado pelo time catalão, como aconteceu em 2015, sua jornada fantástica nos citizens com o título da Copa da Liga Inglesa e a conquista cada vez mais próxima da Premier League com uma campanha histórica carregará essa mancha? Por ter sido superado pela equipe que tem apenas uma derrota na temporada?

No jogo em si, o “se” é parte apenas da imaginação e sempre envolve competência no gol perdido, na falha do goleiro. Até a lesão muscular do craque do time, em tese, poderia ser evitada com uma avaliação melhor do departamento de fisiologia do clube. O sorteio, não. É sorte apenas. Ou a falta dela.

Voltemos à 2016. Um Real Madrid ainda hesitante no desempenho na transição de Rafa Benítez para o estreante Zinedine Zidane enfrentou Roma, Wolfsburg e Manchester City até a repetição da final de 2014 contra o Atlético, rival de Madri. Venceu e ganhou confiança e moral para no ano seguinte ganhar o espanhol e a Champions passando por Napoli, Bayern de Munique e Atlético de Madri até a decisão contra a Juventus.

Imaginemos que o roteiro fosse o inverso. aquele Real de 2016 encarando o Bayern de Guardiola nas quartas-de-final. Com o time alemão mais maduro no comando do treinador catalão e sedento por vingança da surra que levou na semifinal de 2014?

Será que passaria? Nunca saberemos. Mas é certo que o caminho diante de adversários menos tradicionais foram obstáculos menores à chegada à decisão. E olha que contra o time alemão foi preciso virar um 2 a 0 e contra o City foram duelos parelhos definidos no detalhe e com a vantagem mínima.

Nesta mesma temporada, se as bolinhas colocassem o City e não o Atlético de Madri no caminho de Guardiola e seu Bayern de Munique, haveria, sim, a saia justa do treinador enfrentar a equipe com que estava acertado para trabalhar a partir da temporada seguinte. Mas as chances de chegar à decisão e buscar o título que faltou na passagem pela Baviera aumentariam exponencialmente.

Todos esses exercícios de mexer com as bolinhas e tentar adivinhar o desfecho podem ser estendidos a todas as temporadas. A partir das quartas, já que nas oitavas ao menos a colocação na fase de grupos é levada em campo. Continua sendo imaginação. O que aconteceu, obviamente, é o que está na história.

A questão é: ainda que seja o torneio que reúne o melhor do futebol mundial é justo ganhar um peso tão grande, ultimamente maior do que a Copa do Mundo, para avaliar equipes e jogadores? A impossibilidade de todos se enfrentarem em ida e volta não deveria ser levada em conta na hora de avaliar os desempenhos coletivo e individual?

Apenas uma reflexão. Pois, na prática, quem quiser terminar a temporada no topo do planeta bola terá que superar o que aparecer pela frente. Cristiano Ronaldo, Messi, Ben Yedder, Buffon, Dzeko, Salah, De Bruyne e Lewandowski. Os treinadores. Todos à expectativa do sopro da ventura na Suíça.

O amanhã pode sinalizar com força o caminho até 26 de maio no Estádio Olímpico de Kiev.


O jeito brasileiro de ver o futebol está ultrapassado
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André Rocha

Foto: Arquivo Estado de São Paulo

Convocação de seleção brasileira sempre terá contestação de um ou outro nome. Imagine 1970 com redes sociais na polêmica convocação do Dadá Maravilha. Ou em 1958 Vicente Feola levando para Suécia um jogador com pernas tortas, outro de 17 anos que o futebol pouco ouvira falar. Ambos com problemas cognitivos e psicológicos, segundo um estudo da própria CBD. Outros tempos.

A lista de Tite merece críticas como qualquer outra. Aqui neste blog ela também teve seus alvos. Tudo legítimo e, na maioria, de críticas construtivas. O problema é o argumento de muita gente.

“Talisca joga no possante futebol turco”. Ora bolas, perguntem ao mundo que liga é mais atraente aos olhos pelo futebol jogado: aqui ou lá? Sem contar que o meia joga hoje contra o Bayern de Munique pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Muito provavelmente a trajetória do Besiktas termina nesta partida, mas ultrapassou a fase de grupos como líder de uma chave com Porto e Monaco. Será que algum time brasileiro conseguiria?

“Willian José, aquele do São Paulo? Não pode vestir a camisa da seleção!” Talvez o do São Paulo não pudesse mesmo. Mas estamos em 2018 e o atacante joga na Real Sociedad, da primeira divisão da liga que conta com os dois times que venceram as últimas quatro edições da Liga dos Campeões. Com outro que foi tricampeão da Liga Europa e outro finalista da Champions por duas vezes. Sim, Willian enfrenta Barcelona, Real Madrid, Sevilla e Atlético de Madri. E marca gols contra eles.

Impressionante como em 2018 ainda há quem acredite que se o jogador mostra limitações no início da carreira ele não possa se desenvolver ao longo do tempo e funcionar melhor coletivamente. A tese muito brasileira de que no domínio de bola já é possível saber se um jogador é bom e vai vingar ou não é cada vez mais furada.

Assim como a de que o treinador é o que não atrapalha e tem que deixar os craques se entenderem em campo. Por isso Luan tem que ser convocado. Porque sim. Pelo que joga no Grêmio. Não importa se na seleção o sistema, o modelo e a dinâmica são completamente diferentes. Sem contar a possibilidade de uma equipe com Neymar, Coutinho, Willian, Gabriel Jesus e outros jogando em alto nível na Europa ter que se adequar ao melhor jogador da América do Sul. O mesmo que não rendeu absolutamente nada contra um Real Madrid em ritmo de treino na final do Mundial de Clubes. Este tempo já passou, convenhamos.

Antes de falar de futebol é preciso entender o contexto atual. O futebol nas ligas europeias, as melhores do mundo, tirou tempo e espaço do jogo. Tudo que o brasileiro sempre precisou para brilhar. Dois times em campo, jogando e deixando jogar. O mais talentoso ou com sorte vencia. Retranca era um amontoado de jogadores no próprio campo guardando a própria meta e o jeito de parar o craque era o pontapé muito tolerado nos campos em tempos remotos.

Hoje graças a treinadores como Guardiola, Mourinho, Klopp, Heynckes, Ancelotti e outros se joga em 30 metros de campo, com pressão no jogador que está com a bola e outros fazendo movimentos coletivos para fechar as linhas de passe. Tudo com intensidade máxima. Se antes o jogador era a referência da marcação, agora são bola e espaço.

“Ah, somos pentacampeões do mundo, não temos que aprender nada com ninguém”. Tem certeza? O futebol de 1958, 1962, 1970, 1994 e até 2002 é passado, uma boa lembrança. Mas não muito diferente de um item de museu. Se Guardiola trata o seu Barcelona que deixou há seis anos como algo que hoje não é mais referência para o seu Manchester City, imagine o que aconteceu há décadas!

Não somos os atuais campeões do mundo. Nem de seleções, nem de clubes. Os maiores craques há dez anos são um português e um argentino. Dois times espanhois e um treinador catalão mandam no planeta bola. Temos a oferecer Neymar e outros talentos jogando na Europa e um campeonato pouco atraente por não durar o ano todo que só serve para observadores pescarem os jovens promissores e, palavras deles, transformá-los em jogadores. Ensiná-los a jogar. É ou não uma vergonha para nós?

O jeito brasileiro de olhar o futebol está ultrapassado e temos uma bela chance, com Tite, de atualizarmos os conceitos. Não gosta de como é praticado hoje e prefere os tempos dos times espaçados, campos gigantescos como Mineirão e Serra Dourado e um futebol mais lento e com espaço para o jogador dominar, pensar, respirar e então decidir o que fazer com a bola? Ótimo! Direito seu, legítimo. Mas vá para o Youtube, não falar sobre o que não conhece. Sobre um futebol que só existe no fantástico mundo da sua cabeça.

Nelson Rodrigues, este da foto que ilustra o post, foi um gênio. Da dramaturgia e da crônica, inclusive esportiva. Mas de um tempo em que o compromisso com o fato praticamente inexistia. Ele oferecia uma versão deliciosa dos acontecimentos. Alimentava o imaginário popular. Mas também inventava monstros como a truculência dos crueis alemães, italianos, ingleses; a catimba dos desonestos argentinos e uruguaios. O Brasil que no futebol só perdia para si mesmo e quando reconhecia o valor no outro era por “complexo de vira-latas”. Mas do jogo Nelson sabia bem pouco. Ou quase nada. Não dá para resgatar esse espírito quase meio século depois. Já passou, como sua inseparável máquina de escrever.

Se o futebol brasileiro quer ser competitivo tem que criar a sua versão dentro do contexto atual. Não precisa copiar, mas entender como funciona e buscar saídas. Imaginar que temos que voltar ao estilo dos 1970 e doutrinar o resto do planeta é delírio. O mesmo para “soluções” como tirar um jogador de cada lado u aumentar a dimensão dos gramados para abrir espaços. Como se o mundo todo, inclusive Alemanha e Espanha, os últimos vencedores das Copas, estivessem sentido falta de alguma coisa. Ou seja, se não estamos vencendo vamos mudar as regras do jogo. Por favor, né?

Quer um exemplo prático do nosso atraso? O Atlético Mineiro de Cuca ganhou a Libertadores em 2013 sofrendo e dependendo de Victor nos pênaltis bem mais do que deveria pela qualidade de seus jogadores, especialmente Ronaldinho Gaúcho. Mas era um time anacrônico: espaçado, com perseguições individuais, dois volantes marcadores e dependente do talento de seu quarteto ofensivo e de jogadas ensaiadas.

Às duras penas conseguiu o título do continente, mas quando chegou ao Mundial de Clubes a realidade veio com requintes de crueldade: passeio do Raja Casablanca deitando e rolando na lentidão e nos espaços entre os setores da equipe brasileira que achou que venceria na camisa e na presença do Bola de Ouro 2004/2005. O campeão de Marrocos, país sede do torneio, atropelou jogando futebol atual. Depois todos foram pedir fotos do camisa dez derrotado em campo. Que deve ter agradecido a Deus por não encarar o Bayern de Munique comandado por Guardiola.

Nossos dogmas, crendices e análises focando apenas o individual do jogo não cabem mais. O jogo evoluiu, ficou mais complexo. O melhor jeito de avançar é reconhecer que ficamos para trás. A Copa do Mundo será um bom exercício de humildade. Ainda que o Brasil de Tite volte com o hexa.