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Iniesta, o melhor coadjuvante que um time pode querer, vai fazer falta
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André Rocha

Foto: Divulgação/Barcelona

34 anos, 22 no Barcelona. 32 títulos no clube, mais três pela seleção espanhola. O mais importante, da Copa do Mundo em 2010, fazendo o gol da conquista na prorrogação. Algo que já valeria respeito e reverência em toda Espanha, mesmo dos madridistas.

Mas Iniesta é muito mais que isto. Cidadão consciente. De seu tamanho e do que representa, mas também dos valores que são importantes. Foi o que se viu principalmente no campo de jogo. No clube ou na seleção, sempre foi o melhor coadjuvante que um time pode ter.

Conviveu tranquilamente com o protagonismo de Ronaldinho Gaúcho e Messi no Barça e de Xavi como símbolo maior do estilo da seleção espanhola. Nunca deu entrevistas cobrando Bola de Ouro, até quando mereceu em 2012. Total consciência de ser um facilitador.

Um gênio da simplicidade e do senso coletivo. Se o mais adequado é o passe curto, de lado, para manter o controle da bola e o time no campo de ataque sem riscos, ele não vai inventar algo diferente tentando ser mais do que o necessário.

Heroismo só quando for essencial. Como no gol sobre o Chelsea na semifinal da Liga dos Campeões 2008/09 ou no chute decisivo do Mundial da África do Sul. Ou liderando uma Espanha já iniciando a curva descendente na Eurocopa 2012. O grand finale da geração mais vitoriosa do país. Coletiva, sem uma estrela maior. E ainda tem a Copa da Rússia como uma possibilidade de cereja do bolo.

Iniesta é digno até na hora de se retirar. Ao perceber que o time precisa de mais intensidade e vigor abre espaço com humildade, sem deixar o clube na saia justa de manter mais pela história que por conta do desempenho. Sim, havia negócios para conciliar na China e agora podem surgir oportunidades também fora de campo no Japão.

Mas o camisa oito nos gestos e exemplos nunca simbolizou ganância. Pelo contrário, apenas generosidade. Como na passagem da braçadeira para Lionel Messi. Por isto vai fazer tanta falta ao futebol mundial no seu mais alto nível. Como lembrou a torcida no Camp Nou em camisas e bandeiras na vitória sobre a Real Sociedad por 1 a 0, golaço de Philippe Coutinho, jogadores e pessoas como ele são infinitos. Ou deveriam ser.


Real Madrid se sai melhor que o Liverpool nos clássicos antes de Kiev
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André Rocha

Havia muito em jogo para Real Madrid e Liverpool contra Barcelona e Chelsea, respectivamente, na reta final das ligas nacionais, impedindo que os times pudessem se dedicar exclusivamente à final da Liga dos Campeões no dia 26 em Kiev.

Para os Reds era a chance de confirmar a vaga na próxima edição do principal torneio do continente. No Stamford Bridge contra um adversário direto na Premier League. Já o time merengue entraria no Camp Nou com a missão de impedir o título espanhol invicto do rival Barcelona e ainda “carimbar” a despedida de Iniesta do clássico.

Tirando tudo que foi desnecessário no duelo entre os últimos campeões espanhois e europeus, desde o Real se recusando a recepcionar em campo o adversário que confirmou a conquista na rodada anterior até as brigas, chutes e pontapés que tiraram muito da beleza de um jogo sempre especial, não é absurdo dizer que a equipe de Zinedine Zidane deu mais uma demonstração de força.

Por iniciar pressionado pela dupla Messi-Suárez mais acesa que o habitual e pelo gol do uruguaio logo aos nove minutos em saída rápida bem engendrada com assistência de Sergi Roberto. Mas responder rapidamente com jogada coletiva ainda mais bela: calcanhar de Cristiano Ronaldo para Kroos, centro do alemão para Benzema preparar e o gênio português finalizar a obra que iniciou. O 25º do vice artilheiro da competição.

Real com uma “velha novidade” de Zidane: o trio “BBC”, fazendo a variação do 4-3-3 para as duas linhas de quatro sem a bola com o recuo de Gareth Bale pela direita. Na transição ofensiva, muita movimentação dos três, enchendo mais a área adversária. Ao menos por 45 minutos, já que Cristiano Ronaldo, por precaução, teve que sair no intervalo, substituído por Asensio.

Não só porque sentiu uma entrada dura, aparentemente maldosa, de Piqué justamente no lance do gol que empatou a disputa. Também por conta da pancadaria que tomou conta do jogo, muito mal conduzido pelo árbitro Alejandro José Hernandez, que culminou na expulsão de Sergi Roberto, que ingenuamente agrediu Marcelo na frente do juiz.

Desta vez o Real pode reclamar muito das decisões da arbitragem. Principalmente pela falta clara de Suárez na disputa com Varane que terminou no golaço de Messi quanto na falta dentro da área do Barça não menos nítida de Jordi Alba em Marcelo. Podia ter mudado o clássico e complicado a vida e a invencibilidade do time da casa muito mais que o golaço de Bale, completando assistência de Asensio. Foram 17 finalizações contra 11 do time blaugrana.

Mesmo com os 2 a 2, a força mental e a cultura de vitória se fizeram presentes. O desempenho geral também foi satisfatório. Confirmando algo que já virou senso comum: é difícil superar este Real Madrid em jogo grande.

O Liverpool também costuma crescer neste tipo de confronto, mas não foi o caso do duelo em Londres. Porque o time de Jurgen Klopp, ainda que mantenha a proposta ofensiva longe do Anfield Road, não consegue reproduzir o “arrastão” num ciclo de pressão pós-perda, acelerar a circulação da bola e acionar o seu trio de ataque.

Salah, Firmino e Mané também pagam um pouco o preço do sucesso e da visibilidade. Estão mais estudados e, consequentemente, vigiados em campo. Ainda mais contra o time de Antonio Conte com sua linha de cinco defensores e mais Kanté e Bakayoko na proteção.

Deram algum trabalho ao goleiro Courtois na primeira etapa, mas nos minutos finais apelaram para os muitos cruzamentos procurando Solanke, que entrou na vaga do lateral esquerdo Robertson, e o zagueiro Van Dijk, que se transformou em um segundo centroavante. Sem ideias, sem brilho. Os torcedores podem até desdenhar, mas quando os espaços diminuem o fato é que Philippe Coutinho faz muita falta aos Reds.

Assim como a equipe se ressente de uma maior solidez defensiva, especialmente pelo alto. No centro da direita, Giroud subiu mais que Lovren para marcar o gol único do duelo, ainda no primeiro tempo. Na ausência do lesionado Oxlade-Chamberlain, Klopp deixou Henderson no banco e arriscou uma formação com Alexander-Arnold formando o meio-campo com Wijnaldum e Milner e Clyne entrando na lateral direita. Podia ter sido melhor.

Apesar dos 68% de posse, foram apenas dez finalizações dos visitantes contra 12 dos Blues, que também foram superiores em desarmes e no jogo aéreo. Resultado coerente com o que foi a partida disputada com a intensidade típica do Campeonato Inglês.

Agora é obrigatório vencer o Brighton em Anfield para chegar aos 75 pontos e garantir ao menos a quarta colocação. A menos que venha a apoteose na Ucrânia com o sexto título da Champions. Depois de onze anos sem chegar a uma decisão e treze da última conquista.

Missão que já era complicada por enfrentar o atual bicampeão e maior vencedor da história. Depois dos clássicos fica a impressão de que a tarefa ficou ainda mais difícil.

(Estatísticas: Whoscored.com)

 


Goleada na última final de Iniesta também sinaliza Barcelona do futuro
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André Rocha

O Barcelona vencer a Copa do Rei não é nenhuma novidade, nem título a celebrar tanto assim, considerando o nível que o clube alcançou na década. Nas últimas dez edições foram seis conquistas, quatro consecutivas em um total de trinta. O maior vencedor do torneio.

Ainda na ressaca da surpreendente e até vexatória eliminação na Liga dos Campeões para a Roma, considerando as prateleiras bem separadas entre os clubes no cenário europeu, a conquista vale mais pelo simbolismo de ser a última decisão de Iniesta com a camisa blaugrana antes da mais que provável partida em direção ao futebol chinês.

Mas se os 5 a 0 sobre o Sevilla no Wanda Metropolitano, em Madri, reverenciam o passado com um dos últimos atos de seu camisa oito histórico, chegando a 31 títulos pelo clube, também sinalizam o futuro.

O primeiro gol foi simbólico. Com o adversário adiantando a marcação desde a área do Barça, o goleiro Cillessen, titular no torneio enquanto Ter Stegen joga nas outras competições, não fez a bola circular desde a defesa dentro da proposta tradicional do jogo de posição. Sem trocas de passes até o time se instalar no campo do oponente.

Lançamento direto para Philippe Coutinho, novamente pela direita, explorando os espaços às costas da defesa avançada do rival para arrancar e servir Luis Suárez. Jogada simples, objetiva e inteligente. Para que aumentar a margem de erro perto da sua própria meta se é possível chegar ao gol na mesma ação?

O resto foi consequência, com o Sevilla deixando um verdadeiro latifúndio às costas de Banega e N’Zonzi que Messi, Coutinho e Iniesta aproveitaram, cada um com um gol. Do argentino completando linda assistência de calcanhar de Jordi Alba, do brasileiro cobrando pênalti que sofreu e Messi cedeu generosamente. O mais belo do meia veterano, tabelando com Messi. Lembrando o “velho” Barça lá da Era Guardiola. Mas que precisa se adaptar aos novos tempos.

Para isso conta com Suárez, o centroavante que  dá profundidade aos ataques. Chama lançamentos e está sempre pronto para receber as “pifadas” de Messi. Intenso até a medula. Dois gols que encaminharam a goleada.

Agora a missão é confirmar o “doblete”, fazer um bom superclássico contra o Real Madrid e tentar o título espanhol invicto. Para o treinador Ernesto Valverde é a chance de deixar a impressão de uma primeira temporada positiva no clube, apesar das críticas justas ao comportamento coletivo ao longo da temporada, especialmente na noite trágica na capital italiana.

Sem Iniesta e com Coutinho, em sua primeira conquista no novo clube, resta montar um Barcelona mais parecido com o rival Real Madrid que vem sobrando na Europa: adaptável, mutante. Capaz de se impor dentro de uma disputa que privilegie a técnica ou mais física ou de velocidade. Com Messi cada vez mais passador e “ritmista” na reta final da carreira, necessitando de jogadores rápidos e fortes ao redor como contraponto.

Vale a comemoração de mais um título numa era vencedora. Especialmente pela imagem de Iniesta erguendo a taça. Mas é preciso refletir, porque a régua criada pela própria excelência não aceita apenas a supremacia no país. Para voltar a vencer a Champions a velha escola não é mais suficiente. Deve ir com o eterno camisa oito.

O primeiro gol na final da Copa do Rei é um bom indício do que o futuro reserva ao Barça.


Coutinho pela direita, um dos problemas do Barcelona em virada dramática
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André Rocha

Ernesto Valverde deve ter feito duas anotações sobre o primeiro tempo da virada por 2 a 1 no Camp Nou sobre o Alavés:

A primeira e a mais definitiva: nunca mais reunir numa partida em casa quatro típicos jogadores de meio-campo como Rakitic, Paulinho, o estreante na liga espanhola Philippe Coutinho e Iniesta, sem um ponteiro mais agudo como Dembelé e utilizando laterais que não abrem o campo e pouco buscam o fundo do campo, como Semedo e Digne.

Por isso as trocas nas laterais já no intervalo: Sergi Roberto e Jordi Alba entraram e esgarçaram a marcação do adversário. O equívoco da formação inicial criou uma limitação nas ações de ataque e abriu o time no lance do gol de Guidetti. Porque ao perceber que ninguém acelerava buscando o fundo do campo, Umtiti resolveu se aventurar na frente, mas com o Barça instalado no campo do oponente. Bola perdida, contragolpe letal no passe de Ibai Goméz e finalização atrapalhada, porém feliz do camisa dez.

O Barcelona também travou pelo desentrosamento, mas principalmente pelo desconforto de Coutinho atuando pela direita. A impressão é de que Valverde não viu um jogo do brasileiro na seleção comandada por Tite. Em tese, ele é o ponta direita em um 4-1-4-1, mas sempre se sai melhor quando deixa o setor para circular às costas dos volantes adversários e seu futebol explode quando parte da esquerda para dentro buscando a finalização ou o passe.

Por isso Tite já testou Willian aberto na ponta e Coutinho por dentro, algo que deve ser pensado com carinho principalmente para a primeira fase da Copa do Mundo na Rússia contra adversários bem fechados. Ainda mais com Neymar conduzindo cada vez mais a bola e muitas vezes buscando o jogo por dentro.

Considerando que Valverde já disse algumas vezes que Messi tem liberdade para jogar onde bem entender é possível concluir que o gênio argentino, ao notar os problemas do novo companheiro para ocupar o setor, passou a circular mais pela direita, lembrando seus tempos de ponta articulador no auge do trio MSN. Tudo para consertar uma escalação bastante infeliz.

Na segunda etapa, com outros laterais e depois Paco Alcacer na vaga de Coutinho, que jogou 65 minutos como planejado, o time blaugrana pressionou e virou com gols de seus artilheiros: Suárez completando jogada fantástica de Iniesta pela esquerda e Messi cobrando falta. Bela vitória também pela boa atuação do Alavés, que teve a chance de sair para o intervalo com vantagem mais ampla.

É natural oscilar coletivamente e ficou claro que Busquets faz falta na proteção da retaguarda, mais pelo posicionamento do que pela capacidade de desarmar. Mas atacar sem abrir o campo e insistir com Coutinho pela direita provavelmente foram opções que Valverde riscou de seu caderno. Rodar o elenco é saudável se as características dos jogadores combinarem e eles estiverem bem posicionados.

Não foi o caso da noite em Barcelona que era de festa e virou drama, mas com final feliz.


O futebol não tem culpa de ter envelhecido melhor do que nós
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André Rocha

Sim, este texto é sobre saudosismo. Esta sensação que sempre volta a cada derrota do futebol brasileiro, ainda mais quando a superioridade de quem vence é clara e incontestável. No caso, do Real Madrid no sábado pelo Mundial de Clubes.

O saudosismo no Brasil com o esporte bretão é aquele eterno “se eu não for o dono da bola e ganhar o jogo, não quero mais brincar!” Para muitos não é a saudade daquele futebol, mas das vitórias mais frequentes. O mau perdedor que não aceita que outro leve o troféu para casa, mesmo sendo melhor. Não quer voltar a superá-lo, mas que ele seja ruim como antes para ser batido com facilidade.

Mas na grande maioria dos casos, o saudosista tem mesmo é saudade de si mesmo e da vida que levava nos “bons tempos”. Ou seja, tem saudade de ir ao estádio com o pai que não está mais entre nós, de passar a semana só pensando no jogo e não nas contas para pagar ou onde estacionar o carro. Do seu vigor físico, da liberdade de namorar quem quisesse e de sair com os amigos sem hora para voltar para casa. Do olhar encantado do menino entrando no estádio pela primeira vez e na relação com o ídolo sem a maldade do mundo.

Dificilmente a saudade é do jogo em si. Até porque ele era mais ouvido do que visto, no caso dos que veneram o futebol da considerada “era de ouro” brasileira, nos 1960 e 1970. Talvez até 1982. Os jogos transmitidos ao vivo para a mesma cidade em que eram realizados passaram a ser mais frequentes no final dos anos 1980. Antes o ouvinte era escravo da descrição do narrador e sua equipe. E como eles mentiram para nós!

Não por maldade, mas necessidade. Se a partida estivesse desinteressante, sem emoção, o consumidor trocava de estação ou desligava o aparelho para só mais tarde se informar sobre o resultado. Então tome narração acelerada com a bola ainda na intermediária, chute que passou longe tratado como perigoso entre outras fantasias para dourar a pílula e manter os ouvidos atentos.

Sem contar a invenção de craques. Qualquer um que fizesse dois ou três bons jogos já era alçado a candidato a  convocação para a seleção brasileira. Para isto também havia um contexto: tirando os ídolos “nacionais”, como Pelé, Rivelino, Zico, Sócrates ou Falcão, normalmente os jogadores concediam mais entrevistas, em tempos sem coletivas definidas por assessores de imprensa, para os veículos que conheciam, para os repórteres que estavam acostumados a conversar. Então quanto mais convocados do Rio de Janeiro, melhor para as rádios da cidade. O mesmo valia para as paulistas, mineiras, gaúchas…

Hoje, com vários jogos antigos na íntegra espalhados pela internet, só é saudosista quem quer. Ou quem realmente acha que aquele jogo lento, violento, com bolas seguidas recuadas para o goleiro quando era permitido que eles segurassem com as mãos e com verdadeiros latifúndios para conduzir a bola era atraente.

Este que escreve tem 44 anos. Já viu e viveu muita coisa. E, obviamente, já foi um saudosista por todos estes motivos citados anteriormente. Mas que assim que pôde assistir aos jogos que apenas imaginou pelo rádio e viu os melhores momentos nos programas esportivos no dia seguinte simplesmente não teve como esconder a decepção.

Felizmente o futebol evoluiu e segue evoluindo. Como tudo no mundo. Mas como tudo que evolui fica mais complexo, multifacetado. Se aprimora em todos os aspectos e muitas vezes podem anular as forças por haver tanto conhecimento e preparo envolvidos.

Ainda assim, pode acreditar: ele nunca foi tão bom tecnicamente. Porque jogar sem espaços não é fácil. Dominar e passar rapidamente requer uma enorme destreza. Nunca saberemos se os craques geniais do passado conseguiriam brilhar hoje, até porque eles também seriam diferentes, mais bem preparados se quisessem ser atletas e não apenas jogadores.

O brasileiro ficou com essa imagem romântica da seleção de 1970, dos artistas que se reuniram para ensinar como se joga. Os cinco camisas dez aprumados por Zagallo que se entenderam como mágica, porque “craque se entende no olhar”.

A realidade, porém, foi bem diferente. Depois do fiasco em 1966, sendo engolidos física, técnica e taticamente pelos europeus – duvida? tem os jogos na Grande Rede! – a constatação era de que a seleção precisava se preparar melhor e se adequar ao novo ritmo do futebol mundial. Nascia a velha máxima “se igualarmos nos outros aspectos, venceremos na técnica e na habilidade”.

O Brasil de 1970 viajou com enorme antecedência, trabalhou muito e atropelou os adversários no segundo tempo sobrando fisicamente e matando nos contragolpes. A beleza dos lances nascia dos espaços gerados pela superioridade física no calor do México. Como dizia Johan Cruyff, “com espaços qualquer um joga futebol”. Com talento então…

Criou-se a mística do Brasil invencível apenas pela técnica e habilidade, esquecendo também que já fomos vanguarda na linha de quatro na defesa, na marcação por zona, no ponteiro que volta para defender…Fomos a referência.

Não somos mais, mesmo com a reabilitação da seleção com Tite. E não é porque Guardiola aprendeu a nos imitar – outra falácia que virou verdade por ser tão repetida. Simplesmente ficamos para trás, especialmente na leitura de jogo e no senso coletivo.

Isto, porém, não tornou o jogo pior, pelo contrário. É impressionante ver o goleiro brasileiro Ederson participando da construção de jogadas do Manchester City. Os movimentos dos laterais e pontas, alternando o ataque abertos ou por dentro. Meio-campistas como Iniesta, De Bruyne e Modric furando linhas compactas com passes precisos e verticais. Atacantes como Messi, Neymar, Hazard, Mbappé destruindo defesas com uma habilidade surreal. Ou Cristiano Ronaldo e sua quase perfeição nas finalizações. Todos fazendo melhor e mais rápido o que os craques de outrora faziam.

Mas é difícil de aceitar. Eles não são da época de menino ou jovem do senhor de hoje, que sabe dos esquemas e falcatruas que sempre existiram, mas em cifras menores que as atuais. Que não se conforma por ter estudado tanto e hoje trabalhar mais do que deveria para receber uma migalha perto dos salários milionários dos superastros. Que declara ódio ao futebol moderno, mas esquece que para o seu avô o jogo que ele venerava já não era como o de antigamente.

Quem viveu o amadorismo reclamou da virada para o profissionalismo. Quem viu Zizinho não achou graça em Pelé. Os súditos do Rei criticaram a geração “perdedora” de 1982, que desdenham até hoje da conquista de 1994 e os integrantes desta geração criticam os craques atuais por usarem chuteiras coloridas, tirarem selfies e ficarem conectados em seus celulares nos vestiários.

A tese de que se não fosse o êxodo teríamos esquadrões no país e dominaríamos como no passado também é questionável. É duro, mas quem dá as cartas hoje e nos últimos dez anos são um argentino e um português. Neymar é o terceiro, ainda bem distante. A arte também está mais lá do que cá. E temos que agradecer pelo avanço na tecnologia nos permitir assistir tudo isso semanalmente. A evolução…

O tempo passou. E o futebol não tem culpa de ter envelhecido melhor que nós. Se reinventando, encontrando novas soluções para driblar novos problemas e seguir como o esporte mais apaixonante do planeta. Sem traumas, sem olhar para trás com amargura ou arrependimento. Vivendo e curtindo o hoje, que sempre é melhor que ontem. Que tenhamos maturidade para aprender com eles. O futebol e o tempo.


Dois falsos 9, laterais pontas, show de Isco. O “caos ordenado” da Espanha
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André Rocha

A Itália de Gianpiero Ventura resolveu encarar de peito aberto a Espanha no Santiago Bernabéu. De Rossi plantado à frente da retaguarda, Verratti na armação; Candreva e Insigne pelas pontas, Belotti e Immobile na frente. Bem diferente do sistema com três zagueiros, linhas próximas, rapidez e objetividade nas transições ofensivas dos tempos de Antonio Conte que acabaram na grande vitória por 2 a 0 sobre os espanhois nas oitavas de final da Eurocopa 2016.

A Espanha de Julen Lopetegui respondeu com a radicalização da fórmula da vitória na final continental de 2012. Se há cinco anos Cesc Fábregas era o falso nove nos 4 a 0 em Kiev que deram o bicampeonato para a “Roja”, desta vez havia dois: Iniesta e David Silva, os mais veteranos do setor ofensivo, ficavam mais adiantados quando a equipe perdia a bola e se transformavam nos articuladores quando a recuperava.

A dupla era ultrapassada por Asensio e Isco, os pontas que se alternavam pelos lados e voltavam para formar a segunda linha de quatro com Busquets e Koke. Na retomada, buscavam as diagonais ou os espaços entre as linhas. Carvajal e Jordi Alba também passavam voando pelos flancos. Abrindo o campo e confundindo ainda mais a espaçada marcação da Azzurra.

O resultado foi um espetáculo de posse de bola com verticalidade, mobilidade, tabelas e triangulações efetivas. Qualidade ocupando o campo de ataque ou jogando nos contragolpes. Mesmo que o conceito de “falso nove” moderno seja do Barcelona de Pep Guardiola com Messi, ficou clara a mudança de bastão para o Real Madrid de Zinedine Zidane no modelo de jogo da seleção.

Especialmente por causa de Isco, o melhor jogador em atividade no planeta entre os “terráqueos” – ou seja, tirando Messi e Cristiano Ronaldo do debate. Impressionante a evolução técnica e tática do meia. A naturalidade com que circula às costas dos volantes adversários, sai da ponta para dentro servindo os companheiros ou finalizando. Com bola parada ou rolando. Golaços em cobrança de falta e jogada individual.

O destaque absoluto dos 3 a 0 – com Morata, que entrou na vaga de Iniesta e o time voltou a ter uma referência na frente – que encaminham a vaga direta para o Mundial na Rússia e podem sinalizar o futuro da Espanha que domina o cenário entre os clubes e tem potencial para voltar a ser protagonista entre as seleções. O “caos ordenado” atacando por todos os lados e tirando a referência da retaguarda do oponente. A Itália não faz a mínima ideia do que a atropelou.


O recital de Iniesta e a irresponsabilidade de Benítez na goleada do Barça
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André Rocha

A escalação de Rafa Benítez foi uma irresponsabilidade. Ponto. Não é uma análise no calor do pós-jogo.

Você leu AQUI que o técnico do Real Madrid no início da temporada testou um 4-2-3-1 que posicionava James Rodríguez à direita  e centralizava Bale na linha de três meias. Com Cristiano Ronaldo aberto pela esquerda, criava um problema defensivo: o português não volta para auxiliar Marcelo e provoca um “efeito dominó”, porque Kroos ou Modric e Sergio Ramos precisam abrir e auxiliar na cobertura e deixam espaços no meio.

As lesões obrigaram Benítez a mudar. Com todos disponíveis, o treinador arriscou o quarteto ofensivo contra o Barcelona no Santiago Bernabéu, com três que não vinham atuando recentemente, por lesão: Bale, Benzema e James. Um risco pelo ritmo de jogo. Só há três leituras para esta formação: plena convicção, o que seria loucura, interferência externa (leia-se Florentino Pérez) ou transferência de responsabilidade – “escalei os melhores, está aí o time ofensivo que o torcedor quer”. De qualquer forma, um erro. Ou tragédia anunciada.

O plano era adiantar a marcação, sufocar a transição ofensiva do rival e isolar Suárez e Neymar. Com cinco minutos, Bale foi para a esquerda e Ronaldo se juntou a Benzema na frente. Durou exatos dez minutos, com boa jogada de Ronaldo pela direita. Até Sergi Roberto, o substituto de Messi no 4-3-3 culé, aproveitar o buraco entre Modric e Sergio Ramos e, infiltrar em diagonal para acionar Luís Suárez no espaço deixado pela saída de Ramos.

Sergi Roberto entra em diagonal entre Ramos e Modric e acionando Suárez no espaço criado para abrir o placar (Reprodução Fox Sports).

Sergi Roberto entra em diagonal entre Ramos e Modric e acionando Suárez no espaço criado para abrir o placar (Reprodução Fox Sports).

Acabou a disputa, começou o espetáculo de Iniesta. Ditando o ritmo com passes curtos e longos, trabalhando com Jordi Alba à esquerda e permitindo que Neymar procurasse Suárez, como na tabela que Varane salvou sobre a linha. Por lesão, Luis Enrique foi obrigado a trocar Mascherano por Mathieu.

O time merengue seguiu adiantando a marcação e até fazendo Bravo trabalhar. O problema era quando o Barça, com bola no chão, ultrapassava essa pressão. Sobravam espaços entre o meio e a defesa madridista. Impedido por muito pouco, Neymar ampliou ainda no primeiro tempo. Passe de Iniesta. Na segunda etapa, o artilheiro do Espanhol com 12 gols participou da jogada espetacular que terminou no golaço do camisa oito, o melhor em campo.

A senha para Luis Enrique mandar Messi a campo, muito mais para ganhar ritmo. Ainda houve mais um de Suárez, fechando os 4 a 0. A terceira goleada em apenas seis anos, se juntando aos 6 a 2 de 2009, também no Bernabéu, e 5 a 0 no Camp Nou. É a história do maior clássico do planeta sendo escrita diante dos nossos olhos.

Desta vez com as tintas do pecado letal de Benítez e do recital de Iniesta.

Com Sergi Roberto aberto à direita no 4-3-3, o Barcelona aproveitou os espaços cedidos pelo Real Madrid exposto pela formação irresponsável de Rafa Benítez.

Com Sergi Roberto aberto à direita no 4-3-3, o Barcelona aproveitou os espaços cedidos pelo Real Madrid exposto pela formação irresponsável de Rafa Benítez.

 


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