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Uma pena, Flamengo! Não por 1987, mas por se rebaixar tanto desde então
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André Rocha

O Flamengo fez tudo certo em 1987. Foi campeão da Copa União, principal torneio do futebol brasileiro daquele ano. Competição organizada e viável financeiramente, mostrando que quando os clubes se unem são capazes de fazer muito.

Time com Jorginho, Leonardo, Zinho e Bebeto que seriam campeões mundiais em 1994 pela seleção; com Leandro, Andrade e Zico do maior time que o clube já teve. Do goleiro Zé Carlos, terceiro goleiro na Copa de 1990. Do Edinho de três Copas do Mundo (1978, 1982 e 1986). De Renato Gaúcho, destaque maior do time comandado por Carlinhos, um dos grandes treinadores da história do Flamengo. Também selecionável. Mais Aílton, multicampeão pelo próprio Fla, mais Flu, Grêmio, Botafogo…

Depois enfrentou o status quo, não roeu a corda. Se a CBF admitiu que não tinha competência para organizar o campeonato brasileiro e os clubes assumiram a bronca, não fazia sentido devolver à entidade o bom produto que criaram. Muito menos se submeter às mudanças impostas no regulamento – antes da bola rolar, diga-se.

Grande também foi o Internacional, vice-campeão que poderia ter visto no cruzamento dos módulos uma chance de título e disputa da Libertadores, mas não recuou na fidelidade ao Clube dos Treze. Porque era a chance de tomar para si as decisões e minar as forças da estrutura federativa do nosso futebol.

Os clubes falharam. O Flamengo pecou ao se rebaixar com um comportamento de cordeirinho, suplicando e se humilhando diante da CBF para obter uma equiparação. Ou dividir o título nacional com o Sport, que ao longo do tempo passou a tratar a disputa legítima por seu direito conquistado como questão de honra, uma guerra regional contra o “eixo do mal”.

A Copa União foi uma das conquistas mais simbólicas do Flamengo. De virtualmente eliminado a campeão superando a equipe de melhor campanha, o Atlético Mineiro de Telê Santana, primeiro tirando a invencibilidade no Maracanã e depois vencendo no Mineirão em uma das maiores partidas já disputadas num estádio do país cinco vezes campeão do mundo. Um título com a marca do “Deixou chegar…”

A taça não precisa mudar de nome para ganhar valor. Pode continuar sendo Copa União para carregar suas lembranças. Não depende de uma das muitas canetadas que reescrevem a história de acordo com a conveniência de seus caciques.

O Flamengo apelou. Desceu ao nível dos dirigentes que ainda circulam por aí e na época garantiram unidade e o título do rubro-negro carioca, mas depois, por clubismo, bairrismo ou outros interesses, como uma ridícula Taça de Bolinhas, rasgaram os próprios princípios.

Não precisava. Que pena, Flamengo! Não por 1987, mas pela humilhação desde então. Até hoje, no  recurso derradeiro atrás de um título que já é seu. Que seja o último, para não ficar ainda mais feio. Porque há trinta anos foi tudo lindo.

 


“Poko” pressionado, Valdívia entra na máquina de moer do futebol brasileiro
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André Rocha

A história de Valdívia, ou Wanderson Ferreira de Oliveira, é daquelas que dá prazer de contar. Apareceu na Copa SP de 2012 pelo Rondonópolis de Mato Grosso, mostrando que a crítica de todo ano ao inchaço do torneio de base não se justifica por esses casos que parecem acaso.

Por causa dos oito gols e do bom futebol foi parar no Internacional. Logo se destacou pela bola jogada e pelo carisma. Usa o apelido do meia chileno pelo visual, digamos, inusitado a seu favor. Autoestima lá em cima do “Poko Pika”.

Até por ser um jogador raro. Atua pelas pontas, mas com mais drible e criatividade que só a correria típica dos velocistas.Também finaliza bem, com bola parada ou rolando. Em 2015 foi o meia atacante que mais marcou gols no país: 19 bolas na rede.

Convocação para a seleção olímpica e vaga quase certa no grupo de Rogério Micale para os Jogos do Rio de Janeiro. Não fosse uma ruptura no ligamento cruzado do joelho esquerdo que negou a chance da medalha de ouro no peito, ainda que na reserva.

Voltou sete meses depois, mas num ambiente caótico. Vindo de longa inatividade e inserido em equipes desorganizadas, não conseguiu impedir o rebaixamento do Internacional. Acabou entrando no balaio da caça às bruxas que devia mirar muito mais a incompetência dos dirigentes do clube. Na prática, um recomeço para quem perdeu valor de mercado, mas não a alegria e o potencial.

Por isso despertou o interesse do Corinthians e de repente se viu alvo de especulações também em Palmeiras e São Paulo. Bastou para virar o centro das atenções e entrar na máquina de moer corpos e mentes do futebol brasileiro.

Assédio, pressão e a imagem de “ingrato” para a torcida colorada. Como assim sair na hora de roer o osso na Série B? E logo para o Corinthians, o grande rival fora do Rio Grande do Sul na última década?

Só não aconteceu porque Giovanni Augusto, envolvido na troca, recusou a transferência. Algo que devia ser visto como natural no futebol profissional – ainda mais no brasileiro, que tem o mercado aberto praticamente o ano todo – provocou a ira da massa vermelha de Porto Alegre que anda carente de boas notícias e resolveu descarregar no jovem de 22 anos.

Vaias ao entrar no lugar de Nico López aos 26 minutos do segundo tempo do jogo de ida das quartas-de-final do Campeonato Gaúcho contra o Cruzeiro. Jogo duro no Beira-Rio, vitória apertada por 2 a 1 que deixaria a partida de volta ainda mais complicada. Mas Valdívia, como disse o técnico Antonio Carlos Zago, tirou um “coelho da cartola” nos acréscimos e cobrou direto uma falta lateral um tanto longe da meta adversária.

Terceiro gol de alívio para o Inter e de lágrimas para camisa 29. Como quem tira toneladas das costas. Que de ídolo passa a “bichado”, “mercenário” e “traidor”. Uma montanha russa. De amor incondicional ao ódio tão presente em nossas redes não tão sociais. “Quando se está num momento ruim ninguém te abraça”, resumiu o próprio meia depois do jogo.

“Poka” pressão para quem merece mais carinho por ser um jogador diferente. Dentro e fora de campo. Daqueles personagens folclóricos capazes de alegrar um futebol cada vez mais sisudo. Se Valdívia for mais um talento moído todos perdem. Injusto para um vencedor da vida.


Para que servem mesmo os estaduais?
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André Rocha

Um dos argumentos em defesa dos estaduais é que dá a chance ao time de menor investimento de receber os grandes em seus estádios, movimentar a cidade e renovar as gerações de torcedores locais.

O Linense, com problemas no “Gilbertão”, aceitou jogar as duas partidas das quartas de final contra o São Paulo no Morumbi para faturar com a divisão da renda líquida das duas partidas. Também pensando no segundo semestre sem a certeza de ter uma competição para disputar.

Fruto exatamente da nossa estrutura federativa que incha os torneios regionais e não se preocupa em permitir que todos os clubes tenham uma divisão a disputar, ainda que regionalizada numa fase inicial.

Uma escolha que abre um precedente perigoso. Se o jogo tiver apelo para o grande e certeza de estádio cheio, o clube de menor investimento pode fazer barganha com algo que faz parte da essência da competição:  a chance de vencer em seus domínios.

Outro argumento para a manutenção desse elefante branco no calendário nacional é a emoção dos clássicos, reforçando as rivalidades e garantindo confrontos que podem não acontecer nos campeonatos nacionais.

Pois o esdrúxulo regulamento do Carioca pode fazer com que as semifinais da Taça Rio signifiquem absolutamente nada para os clubes, sem influenciar na classificação final que define os semifinalistas do campeonato. Basta que Vasco e Botafogo confirmem suas vagas no fim de semana. Inclusive a ordem das equipes não seria alterada.

Isso sem contar o absurdo do Fluminense vencer também o segundo turno e não ser declarado o campeão. O tricolor já declarou que a Copa Sul-Americana é prioridade, Flamengo e Botafogo estão envolvidos com Libertadores e o Vasco só não tem outra competição para dar mais importância porque foi eliminado da Copa do Brasil pelo Vitória. Só resta a busca do tricampeonato como prêmio de consolação.

Em 2017 o estadual não tem servido nem para dar uma ilusão de força ao time grande rebaixado à Série B. O Internacional conseguiu a “proeza” de se classificar em sétimo na primeira fase do campeonato gaúcho.

Pode até conquistar o hepta no mata-mata, até porque o Grêmio prioriza a Libertadores, mas a equipe de Antonio Carlos Zago comandada em campo por D’Alessandro não transmite a mínima confiança para seu torcedor. Nem forçando muito a barra dá para se enganar.

Para que servem mesmo os estaduais?


Um Grenal divertido, mas preocupante para Renato e Zago
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André Rocha

Por incrível que pareça, desta vez se viu mais futebol e menos rivalidade exacerbada e violenta do que em outras edições do clássico gaúcho com os times mais qualificados e em melhor momento.

O Grêmio aproveitou o mando de campo e a baixa autoestima do rival pelo inferno da Série B no Brasileiro para se impor no primeiro tempo. Mesmo com o meio-campo dilacerado sem Walace, Maicon e Douglas, o time de Renato Gaúcho teve mais fluência pela mobilidade de Miller Bolaños e Luan na frente. Mas pouco mais que isso.

O Internacional penou com uma formação engessada e muito dependente de D’Alessandro, bem vigiado por Jailton e Michel. Rodrigo Dourado e Charles pouco contribuíam na construção das jogadas e ainda deixavam espaços às costas para a dupla de “falsos noves” gremistas.

Numa transição rápida, Bolaños fez o gol único de um primeiro tempo de posse de bola equilibrada, mas com o Grêmio finalizando nove vezes contra quatro dos colorados, que fizeram mais faltas (nove a cinco) e acertou mais desarmes (13 a sete). Mas não jogou.

O cenário mudou bastante na segunda etapa com Roberson e Nico López nas vagas de Charles e Carlos. Os substitutos formaram um tridente no ataque com Brenner. Uendel recuou no meio com Dourado protegendo D’Alessandro.

Mas a chave foi a movimentação de Nico saindo da direita e infiltrando às costas dos volantes gremistas. O maior volume de jogo fez efeito rápido com a virada em 13 minutos nos gols de Roberson e Brenner, envolvendo com facilidade o sistema defensivo do time da casa.

Renato trocou Pedro Rocha e Michel por Barrios e Fernandinho e mandou o time para o ataque praticamente num 4-2-4. E aí faltou confiança a Antonio Carlos Zago tirando Brenner e colocando o volante Anselmo, voltando a adiantar Uendel para fazer dupla com Carlinhos à esquerda.

Nico López seguiu bem no jogo, mas perdeu o fator surpresa. O contexto voltou a favorecer o Grêmio, que empatou no chute de Fernandinho que Danilo Fernandes aceitou e cresceu ainda mais com o jovem Lincoln no lugar de Jailson. Debaixo de forte chuva, terminou com 17 finalizações contra nove do Inter. Mas o recorte do período de domínio do rival visitante expôs as fragilidades da equipe de Renato.

O Colorado sofreu mais ao longo da partida. Mesmo com ótimos 15 minutos na segunda etapa, ficou claro que a reconstrução precisa ser ampla para formar um time consistente. O trabalho de Zago está no início e a insegurança pode ser encarada com natural.

Mas não deixa de ser preocupante. Para os dois. Mesmo num Grenal divertido, exatamente pelas falhas de ambos.

(Estatísticas: Footstats)

 


Alexandre Pato no futebol chinês confirma falta de ambição no campo
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André Rocha

Pato China

Alexandre Pato surgiu no Internacional em 2006 aos 17 anos como um fenômeno, a ponto do técnico Abel Braga esconder os treinos com o objetivo de prepará-lo para entrar voando nos profissionais, surpreender os adversários e também evitar uma negociação precoce.

Campeão mundial de clubes e da Recopa Sul-Americana, foi parar no Milan em 2007 e no ano seguinte estreou com gol na seleção brasileira principal. A impressão era que com a depressão de Adriano pela perda do pai, o talentoso atacante seria o herdeiro genuíno da linhagem Careca-Romário-Ronaldo.

As seguidas lesões na Itália reforçavam a imagem de uma vitima de problemas físicos ou simplesmente falta de sorte. Mas com a plena recuperação no Corinthians em 2013 e a tão sonhada sequência de jogos, ficou claro o maior obstáculo para Pato se tornar o que se esperava dele: a falta de ambição no campo, competindo.

Saiu escorraçado do Corinthians e, no São Paulo, quando vivia o melhor momento sob o comando de Juan Carlos Osorio, a insatisfação e o desejo de retornar ao futebol europeu. A ideia era coerente: se antes o problema eram as contusões, agora, inteiro e mais maduro, chegava a hora de brilhar.

Conseguiu a volta no Chelsea de Guus Hiddink, numa fase de transição e pouco tempo para mostrar seu trabalho. Não passou de um reserva conformado. Volta frustrante ao Corinthians, sabendo que não entraria em campo. Então caiu do céu a oportunidade: o forte Villareal, que disputa vaga na Champions e tenta complicar a vida dos favoritos Barcelona e Real Madrid no Espanhol.

Mesmo coadjuvante do companheiro de ataque Sansone, o desempenho era satisfatório numa grande liga. Em 23 jogos, seis gols e quatro assistências. Com 27 anos era o momento de evoluir e se afirmar de vez, ainda que um retorno à seleção com Tite no comando parecesse improvável.

E Pato vai para China, atrás de uma proposta milionária…Legítimo. Cada profissional sabe de seus projetos e padrões de vida. Talvez haja mesmo preconceito deste que escreve com a liga asiática emergente, ainda que as contratações sejam cada vez mais respeitáveis.

Mas para quem afirmava a vontade de jogar entre os melhores e havia recusado, ainda no Corinthians, proposta semelhante do mesmo Tianjin Quianjian no ano passado, a decisão não deixa de ser contraditória.

Indecifrável como o próprio Pato. Sempre feliz e tranquilo nas declarações, mas de carreira errante, incerta. Ou com a certeza de que ele suas ambições não estão no campo de jogo. Só aumenta a decepção de quem imaginava surgir uma estrela em 2007.

Talvez o espanto (e o erro) esteja nos olhos de quem não viu um grande monstro do nosso futebol se criar. Pena.

 


Hala Madrid! Mas futebol não é, nunca foi e jamais será apenas dinheiro
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André Rocha

O futebol não é só dinheiro.

O Real Madrid confundiu jogar naturalmente, controlar e dosar o ritmo com a perda da competitividade depois do gol de Benzema logo aos nove minutos da final do Mundial Interclubes.

Veio então o bom e organizado Kashima Antlers e seu grande talento Shibasaki para lembrar que abismo técnico, financeiro e midiático só se concretiza no campo se atrelado à competência. Empate no final do primeiro tempo, virada no início da segunda etapa com gols de seu camisa dez – meio-campista de área a área que jogaria em pelo menos metade da Série A brasileira – e alimentou o sonho.

Às vezes a camisa pesa mais que o poder financeiro e o árbitro Janny Sizakwe pipocou quando deveria ter punido Sergio Ramos com o segundo cartão amarelo e, consequentemente, a expulsão do zagueiro. Poderia ter mudado a história da decisão.

Então Cristiano Ronaldo apareceu, embora nunca tenha se escondido. Tropeçou na bola em um contragolpe, perdeu gol à frente do bom goleiro Sogahata. No momento em que o time merengue mais precisava, porém, converteu o pênalti sobre Lucas Vázquez que garantiu a prorrogação, se Endo não tivesse perdido uma grande chance no lance final do tempo normal.

Em 15 minutos, o português resolveu a final com mais dois gols, desta vez com bola rolando. Para fechar um ano espetacular nas conquistas. Talvez nem tanto no desempenho. Minimalista, Cristiano não participa tanto na construção das jogadas, mas está inteiro durante os noventa minutos e mais uma prorrogação, se for necessário, para estar preparado para a finalização.

Desta vez protagonista na decisão. Três gols em finais de Mundial, só ele e Pelé, no duelo do Santos contra o Benfica em 1962.

Real cinco vezes campeão mundial.  Gigante, máquina de fazer dinheiro. Mas existe também a competência no uso dos recursos. Os três últimos campeões são Barcelona, Real Madrid duas vezes e Bayern de Munique. Times da primeira prateleira do futebol mundial, incluindo o universo das seleções.

Equipes entre as maiores, mais vencedoras e melhores da história. Sintonizadas e artífices da evolução recente do esporte. Com a qualidade que o dinheiro compra, mas também intensidade e setores bem coordenados. O mais alto nível.

Porque futebol nunca foi só dinheiro.

Se fosse, o Manchester United, das marcas mais valiosas do planeta, não estaria fora da Liga dos Campeões e, mesmo com Mourinho no comando, não sentiria tanta falta de Sir Alex Ferguson.

Se fosse, o Atlético de Madrid não teria surpreendido o mundo em 2014 com título espanhol e final de Champions e o Leicester City não viveria o conto de fadas na última temporada. Orçamentos bem mais modestos, mas rara excelência.

No mesmo Mundial com chancela da FIFA, quando o Barcelona já vivia a queda de Ronaldinho Gaúcho pós Copa de 2006, o Internacional de Gabiru não perdoou. Quando Liverpool e Chelsea ganharam a Europa sem a condição de melhores times do continente de fato, São Paulo e Corinthians conseguiram surpreender.

O próprio Real já viveu na pele o revés pela força do dinheiro. Em 2003 dispensou o operário Makelele que fazia o time funcionar e contratou a superestrela David Beckham para se juntar a Figo, Zidane, Ronaldo e Raúl. Contratação que disparou a venda de camisas, mas não rendeu títulos com todos os astros reunidos.

Hala Madrid! Mas o futebol jamais será apenas dinheiro. Porque sempre haverá um Kashima Antlers, a melhor história do Mundial de Clubes de 2016, para nos lembrar por que amamos tanto este jogo.

 

 

 

 

 


As muitas quedas no rebaixamento do Internacional
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André Rocha

O Internacional começou a cair em 2015.

Quando dispensou Diego Aguirre após boa campanha na Libertadores em busca de um “fato novo” para o Gre-Nal e levou históricos 5 a 0;

Quando com o mesmo raciocínio imediatista contratou Argel Fucks mais pelo perfil “sangúineo” e pela história do treinador no clube do que por qualquer convicção em um trabalho a médio/longo prazo;

Quando depois de bons números no returno do Brasileiro – a segunda melhor campanha, só atrás do campeão Corinthians – e, mesmo sem atuações muito consistentes, resolveu manter Argel. A velha “gratidão” que pouco contribui e costuma comprometer o planejamento para o ano seguinte;

Também quando não preparou ou contratou uma liderança para suceder D’Alessandro, que voltou para o River Plate em fevereiro, e o time ficou um tanto órfão dentro de campo;

Quando depois de mais uma conquista estadual e o bom início no Brasileiro, uma oscilação tirou o emprego de Argel. Como se ninguém soubesse que os trabalhos do técnico se desgastam ao longo do tempo pela personalidade de difícil convívio. Faltou convicção na contratação e também na dispensa;

Quando tratou o maior ídolo do clube como um qualquer, condicionado a resultados imediatos. Falcão foi demitido com depois de cinco partidas, dois dias após assinar o contrato. De novo o pensamento mágico de que um mito dentro de campo resolveria no comando;

Quando seguiu com crenças e trouxe de volta Celso Roth, campeão da Libertadores em 2010 disputando apenas semifinal e final. Depois de outra demissão intempestiva, do uruguaio Jorge Fossati. Mas desta vez confiando pelo passado em um técnico que entregou a Jorginho o Vasco condenado ao rebaixamento em 2015. O que esperar?

A repetição do “milagre” do Lisca Doido, que salvou o Ceará do rebaixamento para a Série C. Faltando três rodadas para o fim do campeonato. Como podia dar certo?

Não deu. No campo, mais uma atuação pluripatética, salva pelo chute de Ferrareis que Marcos Felipe, jovem terceiro goleiro do Flu, aceitou e ao menos impediu a derrota na despedida. O último vexame. Ou não.

Porque o clube deve seguir na luta contra o Vitória nos tribunais para punir um suposto erro na negociação com o zagueiro Victor Ramos. Pior ainda se a CBF provar a utilização de documentação falsa por parte dos colorados. Tão lamentável quanto as declarações de Fernando Carvalho logo após a tragédia com a Chapecoense na Colômbia.

Seria a “cereja do bolo” de uma seqüência de equívocos de uma diretoria ultrapassada e incompetente. O desempenho em campo foi mera consequência. Duro golpe no torcedor que na semana do primeiro título importante do rival Grêmio em 15 anos vive a vergonha inédita do rebaixamento. A maior de todas.

A massa colorada não merecia. Mas foram muitas quedas nessa vagarosa descida até o inferno. Agora é pensar em 2017, com nova direção, provavelmente Antonio Carlos Zago no comando técnico.

Para superar 2016, independentemente da divisão, sem esquecer as várias lições deste ano negro. Para voltar a construir um futuro do qual se orgulhar. Sem deixar de ser um gigante.


É no sofrimento que se vê quem é quem
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André Rocha

Mensagens de apoio do mundo todo, solidariedade de jogadores e torcedores de outros clubes do Brasil, a avalanche de solicitações para a campanha de sócio-torcedor da Chapecoense, as lágrimas de Renato Gaúcho e todo o altruísmo do Atlético Nacional em Medellín e junto à Conmebol, abrindo mão de um título internacional.

Tantos outros movimentos para amparar e oferecer o ombro aos atingidos pela tragédia que ficaram, em memória aos que se foram. Atos que mostram que não podemos generalizar na descrença na humanidade. O que dói é que também não foi preciso um dia para termos os primeiros sinais do quanto temos de pequenos e mesquinhos.

Como Marco Polo Del Nero pressionando a Chapecoense nas entrelinhas a colocar um time em campo na rodada final do Brasileiro contra o Atlético Mineiro na Arena Condá. Semana que vem. No mundo ideal não haveria mais futebol no país em 2016. Para Del Nero a dor é um detalhe menor. Não surpreende vindo de quem tem a frieza de seguir a vida e não abdicar do comando do futebol brasileiro, mesmo com o risco de ser preso caso se aventure numa viagem internacional.

Quase tão cruel, mas igualmente infeliz foi Fernando Carvalho, vice de futebol do Internacional. Na espontaneidade da afirmação sem pensar na repercussão, ao falar o que pensa e sente, revelou a indiferença à dor humana e a preocupação apenas com seu quintal. E desta vez nem a rivalidade com o eixo Rio-São Paulo estava em jogo, era um par do sul do país.

Lamentar o adiamento da rodada e falar em “tragédia particular” chega a ser ridículo, porque o Inter convive com o Z-4 por sua própria incompetência. Nenhuma fatalidade. Falar que “como a consternação é geral, como a solidariedade é unânime de todo mundo, não é hora de reclamar” faz entender que se houvesse uma brecha, se não pegasse tão mal, se não desgastasse tanto a imagem do clube, Fernando Carvalho pensaria em protestar.

Sem contar o nosso Congresso Nacional, que aproveitou nossa dor para, na calada da noite, aprovar o que não teria coragem de fazê-lo no centro das atenções. Ou até teriam, tamanha a desfaçatez. Enquanto chorávamos veio a facada pelas costas.

É triste, mas não assusta. Porque quem vive no próprio mundinho é incapaz de se colocar no lugar do outro. Até quando esse outro está ferido de morte. Se entrar na frente dos próprios interesses se transforma num obstáculo a ser ultrapassado. Nem que seja com hipocrisia.

Porque não somos todos bondade, mas felizmente a dor ainda nos une. Não a todos. Porque é no sofrimento que se vê quem é quem.

 


O patrão ficou maluco! E não é Black Friday
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André Rocha

Daniel Nepomuceno Galo

Primeiro foi Levir Culpi, demitido do Fluminense faltando quatro rodadas para o final do campeonato.  Entrou o eterno interino Marcão. Todos imaginavam que seria a última dispensa de treinador do Brasileiro 2016.

Mas na rodada seguinte o Internacional trocou Celso Roth por “Lisca Doido”. Para ter a primeira finalização contra o Corinthians em Itaquera aos 15 minutos do segundo tempo. Precisando da vitória.

Agora o São Paulo, depois de garantir Ricardo Gomes no cargo com os 4 a 0 sobre o Corinthians no Morumbi, muda os planos e demite o treinador para dar a primeira oportunidade a Rogério Ceni. Uma clara decisão política porque não há como imaginar o desempenho do ídolo na nova função.

Já o Galo dispensa Marcelo Oliveira antes do segundo jogo da decisão da Copa do Brasil e com o time ainda com chances de G-3 no Brasileiro. Assume Diego Giacomini, da base. Precisou levar um gol “de rachão” de Pedro Rocha e cair a mística de imbatível em Belo Horizonte para acordar.

O que mais impressiona é que, com exceção de Rogério Ceni, nenhum dos substitutos foi escolhido já pensando no planejamento de 2017, o que seria o mais lógico. No caso do Colorado é desespero mesmo.

A visão imediatista de dirigentes, torcedores e jornalistas já é notória, até virou clichê. Mas desta vez os clubes se superaram. Talvez o sucesso de Renato Gaúcho, contratado por apenas três meses e muito próximo de conquistar o título que o Grêmio busca há 15 anos, esteja influenciando nessas decisões intempestivas de contratar a curto prazo. Mas é uma exceção à regra, com todos as suas particularidades.

De tudo que foi dito sobre estas demissões, o que mais chamou a atenção foi a declaração de Daniel Nepomuceno, presidente do Galo: “A gente está vendo o processo. Ah, demitiu, mas demitiu tarde, ah, mas demitiu cedo. Não é simples assim. Nunca é 100%. Para quem acompanha futebol há tantos anos como vocês não é fácil.”

Alguém entendeu?

O patrão ficou maluco! E não é Black Friday…

 


Arbitragem à parte, Inter sofre com a síndrome da incompetência aguda
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André Rocha

Aos exatos 60 minutos na Arena em Itaquera o Internacional finalizou pela primeira vez. Anderson, chute fraco, nas mãos de Walter. E um pensamento foi inevitável: para tamanha cautela , mesmo com formação teoricamente ofensiva com Sasha, Vitinho e Aylon na frente, o Celso Roth não seria suficiente?

A contratação do técnico Lisca “Doido”, que nunca comandou uma equipe na Série A, por crer na repetição do “milagre” com o Ceará na Série B no ano passado, é só mais um sintoma da doença do Colorado em 2016: a síndrome da incompetência aguda.

Desde a manutenção de Argel Fucks por conta do bom returno do Brasileiro no ano passado, mas sem muita convicção. Passando pela demissão depois do título gaúcho e um bom início nesta edição. A chegada de Falcão, a troca por Celso Roth e agora Lisca. Perfis completamente diferentes no comando técnico de um clube perdido e turbulento, em ano eleitoral. Não pode dar certo. A manutenção no Z-4 é mera consequência.

Mesmo descontando o pênalti discutível de Ernando sobre Romero que Marlone converteu, o Corinthians foi inegavelmente superior no clássico nacional saturado de rivalidade recente. Apesar dos seus problemas, também por conta de más escolhas – a última, na base do velho pensamento mágico “se Oswaldo de Oliveira deu certo em 1999/2000, também dará agora”. Com 16 anos de diferença.

Mesmo no 4-1-4-1 que Tite utilizou nos melhores momentos desta última passagem antes de assumir a seleção, a execução deixa a desejar. A ponto de recorrer ao lateral Uendel por dentro na linha de meias para tentar criar algo. Também porque Fagner caiu de produção e deixou de ser o desafogo à direita.

Mas foram 57% de posse de bola, 15 finalizações a seis – sete a dois no alvo. Vitória para seguir buscando o G-6. Domínio com alguns sustos quando o Inter enfim se arriscou mais com Seijas, Nico López e Valdívia em campo. No desespero final, com o goleiro Danilo Fernandes na área corintiana. No modo aleatório.

Na loucura de uma temporada perdida mesmo com a salvação, restam os duelos com Cruzeiro no Beira-Rio e Fluminense no Maracanã. É legítimo reclamar da arbitragem, mas transferir responsabilidades agora parece covardia.

Ainda é possível evitar a tragédia, mas o tricampeão brasileiro, bi da Libertadores, o time que fez o planeta vermelho há dez anos abusa do direito de errar. Está doente. E parece tarde para um tratamento de emergência.

(Estatísticas: Footstats)