Blog do André Rocha

Arquivo : Internacional

De Flávio Costa a Tite, toda escolha é julgada pelo resultado final da Copa
Comentários Comente

André Rocha

Foto: CBF/Divulgação

Talvez não houvesse 7 a 1 em 2014 se doze anos antes o chute de Neuville no início do segundo tempo da final da Copa do Mundo, também entre Brasil e Alemanha, não tivesse parado em Marcos e na trave esquerda. Ou alguém imagina Luiz Felipe Scolari voltando tranquilo para seguir sua carreira no país depois de perder a decisão do Mundial na Ásia para uma Alemanha enfraquecida, sem o craque Ballack, e deixando Romário fora da lista final enfrentando um clamor popular poucas vezes visto?

O que seria de Carlos Alberto Parreira em 1994 sem o tetra? Talvez viajasse direto dos Estados Unidos para assumir o Valencia. Certamente lembrariam da falta de um meia criativo como plano B para a irregularidade de Raí. Ou não ter ousado enfiando mais um atacante, Viola ou o menino Ronaldinho, junto com Bebeto e Romário.

Por outro lado, quem lembraria da romaria de políticos em campanha por São Januário na véspera da final de 1950 no Maracanã ainda que o Brasil conquistasse seu primeiro título mundial com um suado empate contra os uruguaios? E quem criticaria Flávio Costa, considerado “carioca” demais pelos paulistas e “vascaíno” demais no Rio de Janeiro?

O mesmo vale para Telê Santana em 1982. Curioso lembrar que até a derrota para a Itália a seleção brasileira era a favorita absoluta ao título, jogando um futebol considerado de outro planeta. Mas bastou ser eliminada para que Waldir Peres, Luisinho, Júnior, Cerezo e Serginho Chulapa fossem contestados como titulares. Meio time. Se Zoff não segurasse sem rebote a cabeçada certeira de Oscar no ataque final e a caminhada fosse segura para o título, estes mesmos jogadores hoje seriam lembrados como os herois de 1970.

Até Zagallo poderia virar alvo se a considerada maior seleção de todos os tempos tivesse sido vencida pelo nervosismo ao sofrer o gol do uruguaio Cubilla que abriu o placar da semifinal no México. Talvez cobrassem Marco Antonio na lateral esquerda no lugar de um Everaldo que se limitava a defender. Ou Paulo César Caju na vaga de Rivelino ou Gérson. Quem sabe até o contestado Dadá Maravilha não seria uma “solução”?

Sem contar Vicente Feola, que apostou em Pelé e Garrincha, dupla que, segundo o psicólogo a serviço da CBD, não teria capacidade cognitiva e equilíbrio emocional para disputar uma Copa. Se a anfitriã Suécia fosse mais um país a usar o fator casa para conquistar um título mundial, algo perfeitamente plausível, é bem provável que por aqui a linha de quatro na defesa e a utilização de um ponta recuando para se juntar à dupla de meio-campistas demorassem bem mais tempo para acontecer. Viraram vanguarda porque o “escrete” voltou com a taça.

No Brasil é corriqueiro dizer que o “se” não entra em campo. Mas a partir do momento que o resultado final norteia toda a análise e surgem os “profetas do acontecido” para dizer o que devia ser feito pelos derrotados e apontar os “segredos” dos vencedores, vale o exercício de imaginar o que seria caso vencidos e campeões trocassem os papéis.

O resultado é consequência das escolhas, sim. Mas também de uma infinidade de fatores, inclusive a sorte. Ou o imponderável. Um detalhe. A bola que bate na trave e quica dentro ou fora da meta. A arbitragem que erra a favor ou contra. Escorregar para fazer ou salvar um gol.

Todas as decisões podem ser questionadas. Antes, durante e depois da competição. O problema está no parâmetro único para este julgamento dos treinadores da seleção brasileira: ganhar ou perder.

Tite pode e diz que aceita ser contestado por não ter levado Arthur e Luan. Ou porque incluiu na lista final Fagner, Taison, Fred…Assume a dificuldade que é escolher. Mas merece respeito por ter trabalhado como nenhum outro treinador na história da seleção brasileira. Ele e sua comissão técnica. Acompanhando jogos in loco, na TV e até treinamentos. Estudando, atualizando, aprimorando. Em menos de dois anos de trabalho. Para enriquecer a análise e embasar as decisões. Com desempenho e resultado em campo sinalizando que a rota está correta. Ao menos até aqui.

Só que nesta terra cinco vezes campeã do mundo a derrota sempre é para si mesmo. Não há mérito do adversário. Basta fazer tudo certo que ninguém nos supera. Ainda que a Alemanha seja campeã do mundo, a Espanha jogue o melhor futebol dos últimos tempos e um português e um argentino estejam fazendo história há uma década. Somos imbatíveis. Se perdermos foi porque alguém errou.

Então se o resultado esperado na Rússia não vier o discurso já estará pronto. Mesmo que Tite mande a campo Roberto Firmino e Douglas Costa, destaques da temporada em Liverpool e Juventus, e eles até saiam do banco para melhorar o desempenho, se vier a eliminação a culpa recairá sobre a presença de Taison entre os reservas.

Usando apenas um exemplo no universo dos clubes, chega a ser engraçado ouvir ou ler que hoje”falta gente no banco para mudar o jogo” e lembrar que em 2006 os torcedores do Internacional explodiram no Orkut, a grande rede social da época, quando Abel Braga chamou o contestado Adriano Gabiru para entrar em campo. Numa final de Mundial de Clubes contra o poderoso Barcelona de Ronaldinho Gaúcho. Podia ter dado bem errado…

Como pode acontecer de tudo na trajetória brasileira em mais uma Copa do Mundo. Só uma coisa não vai mudar. Desde Flávio Costa até Tite. O julgamento será pelo resultado final. E só. Pouco, mas é o que tem para hoje. E ontem. Sempre.


Grêmio e Atlético-PR: um zero a zero para só se falar de futebol
Comentários Comente

André Rocha

A maior prova de respeito do Renato Gaúcho campeão da América por Fernando Diniz e seu Atlético Paranaense foi o Grêmio completo, concentrado e repetindo a marcação implacável no campo de ataque da final da Libertadores contra o Lanús.

Só assim para impor a superioridade de quase dois anos de trabalho do atual treinador. Mais de três se pensarmos em um estilo que veio com Roger Machado e ganhou polimento, consciência e objetividade com Renato. Não porque Diniz seja um gênio ou mago. Apenas quer seu time jogando futebol durante noventa minutos, em qualquer estádio.

A atuação mais consistente do time que pratica o melhor futebol do país terminou sem gols, apesar das 20 finalizações – apenas seis na direção da meta do goleiro Santos. O Atlético Paranaense se recuperou na segunda etapa e só não impôs mais dificuldades pela expulsão de Camacho.

Com inferioridade numérica e atletas já desgastados por uma disputa intensa, Diniz não foi romântico nem suicida. Priorizou o ponto na Arena do Grêmio. Porque isso faz parte do futebol competitivo. Assim como a revolta pela primeira etapa de domínio absoluto do adversário. E certamente o discurso de Renato exaltando o grande jogo seria bem diferente se fosse numa partida de ida de um mata-mata sem gol qualificado, por exemplo. O pragmatismo também faz parte do jogo. Só não precisa ser o elemento único.

Algumas ideias básicas precisam ser resgatadas no Brasil. A primeira é de que a busca por um futebol ofensivo, capaz de envolver o adversário e chegar à meta do oponente nada tem de romântico ou idealista. Muito menos é algo condicionado a quanto o clube pode gastar contratando os mais valiosos jogadores. Ou seja, um privilégio das potências europeias. É apenas uma das muitas formas de se praticar o esporte bretão e buscar o objetivo final que é a vitória. Com suas virtudes, defeitos e riscos.

Diniz vai um pouco além, quer seus jogadores resgatando aquele prazer original de ter a bola e se divertir dentro da responsabilidade de um trabalho. Algo que tantos fazem nas mais diversas atividades humanas em todo o planeta. E está provado que o rendimento aumenta exatamente quando no exercício profissional o indivíduo nem lembra que é pago para fazer aquilo. Faria até de graça se não tivesse contas para quitar.

Um contraponto nesse ambiente em que parece que tudo tem que ser sofrido. Nesta mesma segunda rodada do Brasileirão tivemos um clássico nacional entre Palmeiras e Internacional no Pacaembu. Gol único de Dudu no primeiro tempo. Celebração? Para o jogador não havia clima para isto diante de tanta tensão e cobrança. O momento máximo do mais emocionante dos esportes não passava de uma obrigação. Onde estava o prazer?

A mentalidade imediatista e que trata o resultado como um fim em si mesmo dificulta o entendimento de que o jogo é um processo. Eventualmente acontece num clique, na reunião e identificação imediata dos talentos. Também é possível vencer trabalhando mal e na base do sofrimento. Mas o que o Grêmio consegue fazer não se constroi de uma hora para outra. O Atlético está no início de sua trajetória.

Precisa ter margem de erro para o aprendizado e a correção. No Brasil parece um pecado mortal. A urgência é tão grande que se o time gaúcho tivesse vencido por um a zero com o chute de Luan no primeiro tempo que parou no travessão depois de um equívoco na saída de bola atleticana para muitos já seria motivo para demitir Diniz. A perda de um ponto dentro de um campeonato com 38 rodadas é mais importante que a consolidação de um modelo de jogo que pode render mais vitórias e pontos lá na frente. Que já conquistou quatro em duas rodadas.

Talvez por isso o zero a zero. Para que seja lembrado apenas pelo futebol praticado. Sem a arbitragem ou qualquer outra questão periférica como protagonista. Onde os desenhos táticos foram quase irrelevantes diante da dinâmica, da mobilidade e também da simplicidade de alguns movimentos que mostraram o óbvio: se um companheiro dá opção, o passe fica mais fácil. E passando o time progride em direção à meta adversária de forma mais coordenada. Não precisa ser gênio, nem craque. Apenas querer e saber fazer.

A partida parou pouco e o tempo passou rápido para quem assistiu com olhos de ver. Sem a ânsia do gol. Do “jogaço” em que não há uma bola na rede como consequência de jogada construída. Para muitos, se houver oito gols, quatro para cada lado, marcados de forma aleatória, na ligação direta ou na furada grotesca do zagueiro é o que vale. Legítimo apreciar apenas a emoção instantânea do futebol. Extrair só a adrenalina.

O que se pede aqui não é unanimidade nem ditadura de uma maneira de jogar. Há várias e todas com seu valor. O post só espera respeito à essência do esporte que é o jogo. O que Grêmio e Atlético Paranaense praticaram com excelência em Porto Alegre. Mesmo sem os maiores orçamentos do país. Mesmo sem bolas nas redes.

(Estatísticas: Footstats)


São Paulo e Internacional: gigantes ancorados no passado precisam despertar
Comentários Comente

André Rocha

Em 2006, Internacional e São Paulo decidiram a Libertadores. Dois anos depois, o tricolor paulista era tricampeão brasileiro e o Colorado vencia uma Copa Sul-Americana com Tite no comando técnico.

Uma década se passou desde então e a eliminação da dupla na Copa do Brasil antes das oitavas de final, quando entram os times envolvidos com Libertadores, é emblemática. Ainda que os méritos de Atlético Paranaense e Vitória sejam enormes.

Simbolizam clubes que depois de um período muito vitorioso acreditaram na utopia de ostentarem uma fórmula vencedora no cíclico futebol brasileiro. Confundiram manutenção da linha de trabalho com “continuismo”. Hoje se veem dando voltas em torno do próprio rabo.

No Internacional, de 2002 a 2016 orbitaram no comando Fernando Carvalho, Giovanni Luigi e Vitório Piffero, culminando com a página mais triste da história do clube: o rebaixamento. Só assim para vingar uma candidatura de oposição. Mas nem tanto assim, já que Marcelo Medeiros, o atual presidente, trabalhou na direção das categorias de base na gestão de Fernando Carvalho.

É claro que a década não pode ser considerada perdida. Além do bem sucedido plano de sócio-torcedor e a modernização do Beira-Rio, o Inter conquistou outra Libertadores em 2010 e impôs um domínio estadual com oito conquistas, seis consecutivas. A importância dada ao Gauchão até se entende pela rivalidade com o Grêmio.

O período sem conquistas relevantes do tricolor, incluindo um rebaixamento em 2005, talvez tenha acomodado ainda mais o Colorado. Só com a virada na “Era Renato Gaúcho” desde a Copa do Brasil em 2016, coincidindo com o próprio rebaixamento,  para a constatação do mau momento vir forte. Mas mudar a direção do olhar não é fácil. Mais simples continuar tratando o passado como referência e ainda depender do talento de Andrés D’Alessandro aos 37 anos.

O mesmo vale para o São Paulo. De 2006 a 2014 com Juvenal Juvêncio. Depois Carlos Miguel Aidar até a renúncia e a chegada de Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco. Sempre os mesmos cardeais no poder, blindados por um estatuto antiquado e protecionista.

Ultrapassado por Corinthians e Palmeiras com suas arenas e pelo Santos na Era Neymar. Sem o poder do Morumbi como único grande palco na cidade para jogos e espetáculos. Mas principalmente pela fé de que bastava seguir a mesma receita de bolo para tudo voltar aos “bons tempos”.

Nestes dez anos, apenas a Sul-Americana de 2012 como conquista com alguma relevância. Nenhum estadual. Ainda a seca histórica na Copa do Brasil, que em 2019 completa 30 anos. Pior é a sensação de que um gigante de seis títulos brasileiros, três Libertadores e três Mundiais está, na prática, se tornando um time médio.

As trocas seguidas de treinadores e jogadores demonstram uma incerteza quanto ao futuro. Paradoxalmente, o clube sempre parece mirar o passado atrás de um porto seguro. Contar com Raí, Ricardo Rocha e Lugano na diretoria é um exemplo claro. Só que eles não entram mais em campo. E as decisões nestes primeiros meses não parecem muito diferentes das práticas dos antecessores.

É preciso despertar. Também ter a humildade de aprender com os rivais. Se Corinthians e Grêmio hoje possuem uma identidade no futebol, São Paulo e Internacional continuam sem face. Ou com um rosto envelhecido desejando o vigor do passado. Sem ruptura ou reinvenção.

Só ficou a grandeza da história. Mas de gigantes ancorados, que ainda não se convenceram que o tempo não pára e é preciso seguir em frente, sem o olhar fixo no retrovisor.


Qualquer projeção para o Brasileirão é chute, puro e simples
Comentários Comente

André Rocha

Todo ano era a mesma tortura. Fim dos estaduais e logo aparecia alguém pedindo projeções para o Brasileirão. Título, vagas na Libertadores, rebaixados. Em maio. Para um campeonato que acaba no fim de novembro. Com uma janela de transferências que parece nunca fechar. Agora Libertadores, Sul-Americana e Copa do Brasil durando o ano todo.

E quem é pago para analisar tinha que recorrer ao tiro no escuro. Para ser cobrado depois porque para muita gente quem trabalha com futebol tem que ser adivinho e cravar o que vai acontecer, mesmo com tantas variáveis possíveis. Como se jornalistas de Economia ou Política tivessem que prever todas as oscilações de mercado ou diplomáticas e traçar um cenário preciso até o fim do ano para serem considerados minimamente competentes.

Na era dos memes e da zoeira que sempre carrega um pouco de covardia, mas dá para tirar de letra, o que é dito ou escrito tem que valer por seis meses. Se errar logo vêm os mantras “tá fácil ser jornalista”, “por isso não exigem diploma” e outras pérolas dos “jênios” da internet. Os profetas do acontecido que ficam calados no conforto do anonimato para garantirem que sabiam lá atrás e quem é pago para isso tinha que carregar a mesma certeza.

Mas como imaginar o que virá? Mesmo descontando toda a imprevisibilidade do esporte, no Brasil é ainda mais complicado. Imaginem os guias da competição já furados com as prováveis saídas de Everton do Flamengo para o São Paulo, de Maycon do Corinthians para o Shakhtar Donetsk e de Roger do Internacional para o Corinthians.

Sem contar que o time que joga o melhor futebol do país, o Grêmio, até por sua cultura copeira, deve novamente poupar jogadores na competição por pontos corridos e priorizar Libertadores e Copa do Brasil. E o Corinthians, atual campeão e favorito natural, desta vez não terá o respiro do ano passado e também dividirá esforços. Com elencos mexidos o tempo todo.

E os grandes orçamentos, como Flamengo e Palmeiras, regidos pelos humores e arroubos de dirigentes-torcedores, embalados por redes sociais? Com escolhas mais políticas que técnicas. Sem ideias ou norte, ao menos por enquanto. Só agora começam a entender a importância de ter uma identidade, como o Cruzeiro de Mano Menezes vai tentando implementar, mas também muito condicionado a resultados, até pelo alto investimento na formação do elenco.

São Paulo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Internacional, Atlético Mineiro, Bahia, Chapecoense, Vitória e o Atlético Paranaense de Fernando Diniz formam um “blocão” de incógnitas que podem circular entre zona de Libertadores e Z-4. Como de costume, Ceará, Paraná e América-MG, os times que subiram além do “gigante redimido”, são cantados como bolas da vez para cair pela famosa dificuldade de se manter depois do acesso. Ainda que Enderson Moreira e Marcelo Chamusca tenham trabalhos consolidados em seus clubes e possam, sim, tornar suas equipes competitivas. Quem vai saber?

Para completar, um campeonato com seus desequilíbrios por forças das circunstâncias. Como um time encarar os reservas do Grêmio e outro sofrer diante da equipe principal de Renato Gaúcho focada naquela rodada específica. Ou o time beneficiado pela perda do mando de campo do adversário. Três pontos que podem fazer toda diferença. Na tabela ou no estado de ânimo de uma equipe.

Por isso o equilíbrio que gera a emoção que muitos confundem como qualidade ou virtude. Será que nossos times vão usar a concentração e a organização não só para defender e teremos times atacando melhor? Ou será novamente o campeonato do futebol reativo, de contragolpe? Nenhum time vive e viverá mais este dilema do que o Santos do DNA ofensivo, mas agora comandado pelo pragmático Jair Ventura.

Com pressão por resultados, viagens e mais viagens e pouco tempo em campo para treinar é difícil imaginar algo mais elaborado. Por mais que os treinadores da nova safra tentem. E ainda tem o vestiário, ambiente sempre espinhoso e que diz muito da verdade do campo. Por isto a lacuna ainda não preenchida pelos jovens comandantes buscando afirmação para substituírem de vez os da “Velha Guarda”.

A sorte está lançada. Vejamos quem será o mais competente, contando também com a proteção tão bem-vinda do acaso. Palpites? Ainda bem que desta vez ninguém pediu nada ao blogueiro. Projeção a esta altura é chute, puro e simples. Melhor analisar rodada a rodada. Até porque quem pensa jogo a jogo sempre está mais perto da taça nesta loucura que é o Brasileirão.

 


Na melhor atuação no ano, Grêmio repete estratégia da final da Libertadores
Comentários Comente

André Rocha

Em 2018, o Grêmio repete a oscilação no início da temporada de 2017. Campanha irregular no estadual, início sem vitória na Libertadores. Mas o time de Renato Gaúcho se acostumou a crescer em jogos grandes. Na conquista da Recopa Sul-Americana contra o Independiente foi mais na luta e no brilho de Marcelo Grohe que na técnica ou tática.

Já no primeiro Grenal do ano no Beira-Rio, a bela atuação do primeiro tempo que construiu a vantagem de 2 a 0 foi a melhor deste ano até aqui. Mesmo administrada com sofrimento na segunda etapa depois do gol de Rodrigo Dourado no primeiro ataque colorado.

Triunfo que teve muito de estratégia. Exatamente a mesma da final da Libertadores contra o Lanús. Diante de um time que aposta mais na posse de bola que na velocidade, marcação adiantada e por pressão, com rápida reação após a perda da bola. Ao retomar, transição rápida, movimentação das peças, especialmente Everton e Luan.

Destaque para o camisa sete. Não só pelos dois gols, um de pênalti, mas pela perfeita circulação às costas de Rodrigo Dourado e Edenílson na execução do 4-2-3-1 habitual do tricolor. No último ataque do primeiro tempo, serviu Everton, que podia ter decidido o clássico novamente no setor do lateral Dudu, o “mapa da mina” gremista. A sétima finalização contra quatro do rival. Duas contra uma no alvo. Nas redes de Marcelo Lomba.

Não fez o terceiro e sofreu na segunda etapa. Renato tirou Madson, boa opção na primeira etapa cada vez mais adaptado e aproveitando o corredor deixado pela movimentação de Ramiro, que foi para a lateral. Entrou Alisson pela esquerda. Everton trocou de lado. Apesar de contar com mais jogadores rápidos, o Grêmio perdeu velocidade nos contragolpes. Para garantir os 2 a 1, entraram Michel e Marcelo Oliveira nas vagas de Jael e Everton.

O Inter foi na direção contrária. Com sua equipe ocupando o campo de ataque e precisando criar espaços, Odair Hellmann mandou a campo jogadores mais rápidos: Márcio, Gabriel e Wellington Silva. Acertou na saída de Dudu e no deslocamento de Edenilson para a lateral direita. No entanto, abusou dos cruzamentos: foram apenas quatro nos primeiros 45 minutos e nada menos que 32 no segundo tempo.

Dez de D’Alessandro. São muitas compensações para o que o ídolo e camisa dez esteja em campo. Na primeira etapa, com duas linhas de quatro pressionadas e o argentino e Roger na frente, o Inter ficou encaixotado. Sem saída. Em um jogo mais aleatório, de “abafa”, o meia veterano aparece mais, mas sem grande produtividade. Em abril faz 37 anos. Merece todas as homenagens pelos 400 jogos pelo clube. Mas está pesando para o coletivo.

Já o Grêmio teve mais uma vez Geromel sobrando na defesa. Inteligência, posicionamento, vibração. Não perdeu uma disputa. Mais um trunfo para Renato Gaúcho fazer seu time forte em momentos importantes. Vêm aí mais dois clássicos pelas quartas-de-final do Gaúcho. O rival que corra atrás para desafiar o campeão sul-americano.

 


Pressionar qualquer time brasileiro agora é covardia. Cenário é dramático!
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Marcello Zambrana/AGIF

O ano virou com a constatação de que nossos times estavam atualizando seus conceitos no trabalho defensivo. Sem a bola vemos compactação, coordenação dos setores, concentração e preocupação em negar espaços ao adversário. Algo já ficando parecido com o que se vê pela TV nos grandes campeonatos do mundo.

Mas é nítido que falta organização para atacar. Tudo ainda fica entregue à intuição e ao talento. Vemos pouco jogo associativo, deslocamentos para dar opção ao companheiro, ultrapassagens apenas para atrair a marcação. Trabalho coletivo, fundamental exatamente para criar espaços em retaguardas sólidas e bem fechadas.

Começa 2018 com suas não mais que duas semanas de pré-temporada e já temos times pressionados. Por torcida, imprensa, dirigentes… Ainda que a maioria dos adversários nos estaduais não joguem a Série A do Brasileiro e muitos sequer tenham divisão para disputar no segundo semestre, os treinadores também têm acesso às informações para qualificar o trabalho sem a bola. Aproximar setores ou mesmo estacionar um ônibus na frente da própria área.

Em 15, 20 dias de treinos e jogos não foi possível resolver os problemas de 2017. Ainda mais para quem trocou de treinador e mudou a base titular. Logo, o sofrimento para abrir defesas está lá. Muitas vezes em gramados ruins, com o calor do verão, etc.

É covardia cobrar demais agora. Não é passar pano ou blindar. Apenas ser razoável. Qualidade com regularidade neste início é utopia. Quem conseguir agora tem que se preocupar, porque pode faltar nos momentos mais importantes. Ainda que se trate como relevante a reta final dos estaduais.

Agora é o momento de testar, oscilar. Errar. Pedir a cabeça de Dorival Júnior no São Paulo pela estreia com derrota utilizando reservas no Paulista contra o São Bento só porque o time flertou com o Z-4 em 2017 e não ganha um título desde 2012 beira a insanidade. Ganhar do Novorizontino no Morumbi virou obrigação. Com o empate sem gols, vaias e mais cobranças. Dorival já sinaliza uma mudança no planejamento. Como questionar alguém que já se sente ameaçado em um ambiente já conturbado por conflitos políticos e outras particularidades?

O mesmo vale para todos os clubes, uns mais e outros nem tanto. Palmeiras, Flamengo e Internacional começaram com duas vitórias. Cada um com seu contexto. Mas também não estão isentos das mazelas de um calendário inchado, irresponsável. Inclusive podem pagar mais à frente pelo sucesso inicial. Porque não há tempo.

É obrigação vencer o pequeno. No clássico não pode perder. No Brasileiro todo jogo é importante. Libertadores é prioridade, Copa do Brasil é mata-mata, tiro curto, tem que dar tudo. Por mais que se alegue que na elite do futebol do país os salários estão muito acima da média do trabalhador comum e que muitos dariam a vida para ter como ofício algo tão prazeroso como jogar bola, a exigência é desproporcional. Massacrante.

Com o problema para criar espaços tudo fica ainda mais complexo. Então tome cruzamentos, na bola parada ou com ela rolando (ou voando)! Resultadismo para atender o imediatismo e seguir empregado, poder sair na rua, viver em paz.

Muitos dirão “quem não quer pressão que vá trabalhar em outra coisa”. Não estão de todo errados, é o ônus de tantas vantagens e privilégios. O que se questiona é a pouca inteligência de não entender os processos, exigir soluções mágicas e duradouras. Vencer sempre. Sem trégua. Se não atender, troca. E troca até “dar certo”.

Sem tempo não há trabalho, entrosamento e o produto final que pode resolver essa carência de ideias quando se está com a bola. A pressão por mudanças é o veneno tratado como remédio. Treinadores e jogadores não precisam de salvo conduto, cabide de emprego ou estabilidade de serviço público. Só de um pouco de paz. Sem gente histérica perseguindo, com ou sem microfone – ou teclado do computador ou celular com acesso às redes sociais.

O cenário já é dramático no final de janeiro! Pelo visto, serão mais onze meses no mesmo dilema.


Você rejeitaria Tite depois da Copa do Mundo ou só vale para os “gringos”?
Comentários Comente

André Rocha

Reinaldo Rueda conduziu mal a saída do Flamengo para comandar a seleção chilena. Agora não vem mais ao caso, mas, observando à distância, havia várias maneiras, em tese, de ser mais transparente com o clube brasileiro.

Só que o caso de mais um treinador sul-americano deixando o país para aceitar uma proposta de seleção, se juntando a Osório, que saiu do São Paulo para o México, e Bauza, do mesmo clube para a Argentina, está construindo uma imagem de que os técnicos estrangeiros não cumprem  contratos e usam o Brasil como “trampolim”.

O nome disso, sem meias palavras, é xenofobia. Um pouco de reserva de mercado por parte dos treinadores daqui, tema que volta sempre que surge uma oportunidade. No caso de Rueda, na chegada e na saída – será por ter “tomado” um emprego tão cobiçado como ser o treinador do time de maior torcida do país?

Muito também pela visão de que treinadores de outros países do continente nada tem a acrescentar por aqui, enfrentam a barreira do idioma e não apresentam grande vantagem nos aspectos táticos e estratégicos. Talvez pela falta de tempo para trabalhar num calendário inchado, com imediatismo, resultadismo e pressão desproporcional. Os que já estão aqui se acostumaram com o ciclo. Para o “forasteiro” requer mais tempo.

Simplesmente não faz sentido. Principalmente a acusação de não cumprirem contrato. Quem cumpre? Os clubes, que demitem por qualquer sequência de resultados ruins? Como esquecer da demissão de Jorge Fossati do Internacional classificado para a semifinal da Libertadores de 2010? Ou Ricardo Gareca do Palmeiras, Diego Aguirre do Atlético Mineiro e Paulo Bento do Cruzeiro? Nem é questão de discutir cada caso, mas os clubes não hesitaram na hora de descartar os profissionais.

Os treinadores brasileiros, que cansados de levar um pé no traseiro agora deixam os clubes por qualquer proposta mais vantajosa estão errados também? Como Guto Ferreira, da Chapecoense para o Bahia e deste para o Internacional? Ou Fernando Diniz, sem disputar um jogo sequer pelo Guarani e partindo para o Atlético Paranaense?

Sem contar os casos dos brasileiros que saíram para seleções. Como Joel Santana em 2008, deixando o Flamengo para comandar a África do Sul que seria anfitriã da Copa do Mundo dois anos depois. Se pensarmos em “seleções” mundiais como o Real Madrid, como esquecer Vanderlei Luxemburgo abandonando o Santos campeão brasileiro em 2004 para comandar o Real Madrid?

E Tite? Ele mesmo admite e pede perdão ao Corinthians por ter “deixado o clube na mão” no ano passado para comandar a seleção brasileira. Não deixa de ser o mesmo caso: treinador que encerra seu contrato com um clube para acertar com uma federação. No caso, a CBF, entidade que o próprio Tite via com reservas e assinou manifesto de repúdio às suas práticas. E como ficou o ano do então campeão brasileiro, que já havia sofrido um desmanche no início da temporada?

Questão de ponto de vista. Este que escreve até discordou na época da decisão do melhor treinador brasileiro, mas depois compreendeu que era a realização de um sonho. O contexto também mostrou que acabou sendo melhor para a seleção, já que o risco de ficar de fora do Mundial era real.

Mas se ele deixar a CBF ao final da Copa da Rússia você ficaria com um pé atrás ou mesmo rejeitaria no caso do seu time de coração fechar contrato com Tite por ele não ter cumprido o acordo com o Corinthians? Foi exatamente o mesmo caso de Bauza, que foi servir ao futebol do seu país. Ou a crítica só vale para os “gringos”?

Rueda foi mal no fim do ciclo do Flamengo, mas daí a generalizar e rotular o caráter de profissionais estrangeiros vai uma distância enorme. Do tamanho do preconceito de tantas vozes que estão gritando desde o anúncio da saída do colombiano. Tudo muito conveniente.


Pachuca na semifinal! Mas o grande adversário do Grêmio segue o mesmo
Comentários Comente

André Rocha

Sem meias palavras: foram 120 minutos duros de assistir. No primeiro tempo de Pachuca x Wydad Casablanca em Abu Dhabi, a FIFA teve que inventar uma finalização que, a rigor, foi um cruzamento na direção do gol. O time mexicano não conseguia criar espaços, apesar de propor o jogo. O time ainda sente muita falta do jovem meia Hirving Lozano, negociado com o PSV Eindhoven. O marroquino, campeão africano, tinha espaços, mas não conseguia concatenar contragolpes, muito menos acionar a estrela Bencharki na frente.

Mesmo com o Wydad contando com apenas dez homens desde os 24 minutos da segunda etapa, após a expulsão do volante Nakach, o gol do Pachuca só saiu aos seis do segundo tempo da prorrogação. Quando, enfim, o uruguaio Urretaviscaya chegou ao fundo pela direita com liberdade para colocar na cabeça de Victor Guzmán.

Subindo por trás de Franco Jara, o centroavante de referência que entrou no segundo tempo na vaga de Ángelo Sagal, o chileno que foi o atacante móvel à frente do japonês Keisuke Honda no 4-2-3-1 montado pelo treinador Diego Alonso na formação inicial.

Nada demais. Mas os times que chegam às semifinais contra os campeões europeu e sul-americano dificilmente impressionam. Só que nos últimos tempos, no caso do confronto com o campeão da Libertadores, isto vem contando a favor.

Porque já passou pela estreia e o que podia restar de tensão vai embora com o confortável status de “zebra”. E se havia alguma obrigação de vencer no primeiro jogo, agora a condição é de franco atirador. Nada a perder.

Ou seja, a responsabilidade estará toda com o Grêmio. Desde a criação do Mundial de Clubes da FIFA, todos os brasileiros encontraram dificuldades na semifinal. Mesmo o Santos nos 3 a 1 sobre o Kashima Reysol em 2011 não atropelou, teve períodos de jogo controlado pelo adversário. Internacional e Atlético Mineiro ficaram pelo caminho em 2010 e 2013. Na última edição, o Atlético Nacional sequer conseguiu se classificar contra o Real Madrid. Atropelamento do Kashima Antlers por 3 a 0.

Para o Grêmio não correr riscos de vexame é importante manter a força mental e encarar como um jogo decisivo, sem assumir mais responsabilidades do que o contexto exige. Entrar com personalidade e foco no jogo. Renato Gaúcho deve exigir de seus comandados que sequer passe pela cabeça a intenção de poupar energias e evitar contusões pensando na grande decisão. É semifinal e deve ser tratada com esse peso, mesmo com todo favoritismo.

O campeão da CONCACAF  entra na rota do tricampeão da América. Mas para seguir no sonho de fazer o planeta azul pela segunda vez, o grande adversário do Grêmio segue o mesmo: os próprios nervos.

Pachuca no 4-2-3-1 com dificuldades para criar espaços, tentando acionar Urretaviscaya para acelerar pela direita. Mesmo com a expulsão no segundo tempo de Nakach, volante do 4-2-3-1 do Wydad Casablanca. Mas contra o Grêmio o time mexicano deve encontrar mais espaços para jogar (Tactical Pad).


Uma pena, Flamengo! Não por 1987, mas por se rebaixar tanto desde então
Comentários Comente

André Rocha

O Flamengo fez tudo certo em 1987. Foi campeão da Copa União, principal torneio do futebol brasileiro daquele ano. Competição organizada e viável financeiramente, mostrando que quando os clubes se unem são capazes de fazer muito.

Time com Jorginho, Leonardo, Zinho e Bebeto que seriam campeões mundiais em 1994 pela seleção; com Leandro, Andrade e Zico do maior time que o clube já teve. Do goleiro Zé Carlos, terceiro goleiro na Copa de 1990. Do Edinho de três Copas do Mundo (1978, 1982 e 1986). De Renato Gaúcho, destaque maior do time comandado por Carlinhos, um dos grandes treinadores da história do Flamengo. Também selecionável. Mais Aílton, multicampeão pelo próprio Fla, mais Flu, Grêmio, Botafogo…

Depois enfrentou o status quo, não roeu a corda. Se a CBF admitiu que não tinha competência para organizar o campeonato brasileiro e os clubes assumiram a bronca, não fazia sentido devolver à entidade o bom produto que criaram. Muito menos se submeter às mudanças impostas no regulamento – antes da bola rolar, diga-se.

Grande também foi o Internacional, vice-campeão que poderia ter visto no cruzamento dos módulos uma chance de título e disputa da Libertadores, mas não recuou na fidelidade ao Clube dos Treze. Porque era a chance de tomar para si as decisões e minar as forças da estrutura federativa do nosso futebol.

Os clubes falharam. O Flamengo pecou ao se rebaixar com um comportamento de cordeirinho, suplicando e se humilhando diante da CBF para obter uma equiparação. Ou dividir o título nacional com o Sport, que ao longo do tempo passou a tratar a disputa legítima por seu direito conquistado como questão de honra, uma guerra regional contra o “eixo do mal”.

A Copa União foi uma das conquistas mais simbólicas do Flamengo. De virtualmente eliminado a campeão superando a equipe de melhor campanha, o Atlético Mineiro de Telê Santana, primeiro tirando a invencibilidade no Maracanã e depois vencendo no Mineirão em uma das maiores partidas já disputadas num estádio do país cinco vezes campeão do mundo. Um título com a marca do “Deixou chegar…”

A taça não precisa mudar de nome para ganhar valor. Pode continuar sendo Copa União para carregar suas lembranças. Não depende de uma das muitas canetadas que reescrevem a história de acordo com a conveniência de seus caciques.

O Flamengo apelou. Desceu ao nível dos dirigentes que ainda circulam por aí e na época garantiram unidade e o título do rubro-negro carioca, mas depois, por clubismo, bairrismo ou outros interesses, como uma ridícula Taça de Bolinhas, rasgaram os próprios princípios.

Não precisava. Que pena, Flamengo! Não por 1987, mas pela humilhação desde então. Até hoje, no  recurso derradeiro atrás de um título que já é seu. Que seja o último, para não ficar ainda mais feio. Porque há trinta anos foi tudo lindo.

 


“Poko” pressionado, Valdívia entra na máquina de moer do futebol brasileiro
Comentários Comente

André Rocha

A história de Valdívia, ou Wanderson Ferreira de Oliveira, é daquelas que dá prazer de contar. Apareceu na Copa SP de 2012 pelo Rondonópolis de Mato Grosso, mostrando que a crítica de todo ano ao inchaço do torneio de base não se justifica por esses casos que parecem acaso.

Por causa dos oito gols e do bom futebol foi parar no Internacional. Logo se destacou pela bola jogada e pelo carisma. Usa o apelido do meia chileno pelo visual, digamos, inusitado a seu favor. Autoestima lá em cima do “Poko Pika”.

Até por ser um jogador raro. Atua pelas pontas, mas com mais drible e criatividade que só a correria típica dos velocistas.Também finaliza bem, com bola parada ou rolando. Em 2015 foi o meia atacante que mais marcou gols no país: 19 bolas na rede.

Convocação para a seleção olímpica e vaga quase certa no grupo de Rogério Micale para os Jogos do Rio de Janeiro. Não fosse uma ruptura no ligamento cruzado do joelho esquerdo que negou a chance da medalha de ouro no peito, ainda que na reserva.

Voltou sete meses depois, mas num ambiente caótico. Vindo de longa inatividade e inserido em equipes desorganizadas, não conseguiu impedir o rebaixamento do Internacional. Acabou entrando no balaio da caça às bruxas que devia mirar muito mais a incompetência dos dirigentes do clube. Na prática, um recomeço para quem perdeu valor de mercado, mas não a alegria e o potencial.

Por isso despertou o interesse do Corinthians e de repente se viu alvo de especulações também em Palmeiras e São Paulo. Bastou para virar o centro das atenções e entrar na máquina de moer corpos e mentes do futebol brasileiro.

Assédio, pressão e a imagem de “ingrato” para a torcida colorada. Como assim sair na hora de roer o osso na Série B? E logo para o Corinthians, o grande rival fora do Rio Grande do Sul na última década?

Só não aconteceu porque Giovanni Augusto, envolvido na troca, recusou a transferência. Algo que devia ser visto como natural no futebol profissional – ainda mais no brasileiro, que tem o mercado aberto praticamente o ano todo – provocou a ira da massa vermelha de Porto Alegre que anda carente de boas notícias e resolveu descarregar no jovem de 22 anos.

Vaias ao entrar no lugar de Nico López aos 26 minutos do segundo tempo do jogo de ida das quartas-de-final do Campeonato Gaúcho contra o Cruzeiro. Jogo duro no Beira-Rio, vitória apertada por 2 a 1 que deixaria a partida de volta ainda mais complicada. Mas Valdívia, como disse o técnico Antonio Carlos Zago, tirou um “coelho da cartola” nos acréscimos e cobrou direto uma falta lateral um tanto longe da meta adversária.

Terceiro gol de alívio para o Inter e de lágrimas para camisa 29. Como quem tira toneladas das costas. Que de ídolo passa a “bichado”, “mercenário” e “traidor”. Uma montanha russa. De amor incondicional ao ódio tão presente em nossas redes não tão sociais. “Quando se está num momento ruim ninguém te abraça”, resumiu o próprio meia depois do jogo.

“Poka” pressão para quem merece mais carinho por ser um jogador diferente. Dentro e fora de campo. Daqueles personagens folclóricos capazes de alegrar um futebol cada vez mais sisudo. Se Valdívia for mais um talento moído todos perdem. Injusto para um vencedor da vida.