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Os clichês do papelão do Real Madrid na derrota histórica em Girona
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André Rocha

Algumas explicações no futebol viram clichês porque passam a ser utilizadas para justificar qualquer contexto. Mas se transformaram num senso comum exatamente pela frequência com que acontecem. Devemos sempre evitar o simplismo, mas às vezes é tão nítido que se torna inevitável.

O Real Madrid entrou de “salto alto” em Girona, na Catalunha. Ou seja, com a fé de que construiria a vitória naturalmente, quando bem entendesse diante de um debutante na primeira divisão e já lutando para não ser rebaixado. Com titulares em campo, a melhor formação – exceto Casilla no lugar de Navas e Achraf no lugar de Carvajal. Pensando, porém, na viagem a Londres para encarar o Tottenham pela Liga dos Campeões, a grande meta na temporada.

A ponto de arriscar uma saída de bola inédita, com Isco se juntando a Modric e Kroos no auxílio aos zagueiros Varane e Sergio Ramos e mandando os laterais Achraf e Marcelo e também Casemiro ao campo de ataque. Quem qualifica o passe desde a defesa recua, os jogadores com mais força e velocidade se projetam.

Mas bastava um passe errado para o time da casa encontrar uma retaguarda totalmente desorganizada. Carimbou a trave duas vezes nos primeiros 45 minutos. Na primeira, enquanto o time lamentava, o contragolpe merengue encontrou Cristiano Ronaldo para a jogada característica pela esquerda: corte para dentro e chute forte. No rebote, gol de Isco.

Parecia que mais um clichê entraria em campo: time pequeno joga como nunca e perde como sempre para o grande, que sai com os três pontos mesmo sem tanto esforço. Foi a impressão do primeiro tempo.

O intervalo, porém, fez mal ao bicampeão europeu. Talvez pela orientação de administrar o resultado mantendo a baixa intensidade, dosando energias. Também a retaguarda mais mexida no lado direito pela saída de Varane para a entrada de Nacho.

Principalmente porque o Girona acreditou. A mudança significativa foi a eficiência no acabamento das jogadas. Primeiro com Stuani, após bela jogada individual de Pons. Depois com Portu, aparentemente impedido na conclusão de letra do chute cruzado do goleador uruguaio. Aos oito e 13 minutos. Virada em cinco minutos.

A senha para Zidane, na primeira partida depois de ser premiado pela FIFA como melhor treinador da temporada 2016/2017, arriscar substituições inusitadas: Lucas Vázquez e Asensio nas vagas de Achraf e Marcelo. Como alas, recuando Casemiro como um terceiro defensor.

Então entrou em campo o último chavão: a retranca do Gironi, recuando ainda mais as linhas da variação do 3-4-3 para o 5-4-1 de Pablo Machín, claramente inspirado em Antonio Conte no Chelsea. Mas defendendo mal, pela tensão de confirmar um feito outrora improvável.

O resultado: pressão descoordenada do favorito, a fibra e a entrega absoluta da “zebra” para administrar o triunfo histórico no primeiro confronto com o maior campeão espanhol. Logo no ápice da tensão na Catalunha. Por isso a festa de título no apito final.

Um vexame do Real Madrid, que relaxou após a sequência de conquistas. Principalmente no Espanhol. Contra o Tottenham é bem provável que seja bem diferente, pela cultura do clube de valorizar mais o torneio continental. Natural, humano. Não é a primeira nem a última equipe que perde um pouco da “fome” e passa a acreditar que as vitórias virão no “piloto automático e sofrem com isso.

Por isso virou clichê.

 

 


A Espanha está na Copa do Mundo da Rússia e é bom ficar de olho nela
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André Rocha

A Espanha enfrentou a Albânia em Alicante no meio de uma turbulência política com a Catalunha e Piqué no olho do furacão. Entrou em campo sem Carvajal, Busquets, Iniesta e Morata. Mais Diego Costa, sem ritmo de jogo. O adversário é o terceiro colocado do Grupo G e chegou à penúltima rodada das eliminatórias ainda com chances de superar a Itália, a outra favorita. Disputou a fase final da Eurocopa 2016, um feito inédito.

Pois a equipe de Julen Lopetegui não tomou conhecimento e impôs seu estilo que mantém a valorização da posse de bola, mas ganha volume e aceleração quando entra na área do oponente. E a contundência na frente que faltou em vários momentos, mesmo na equipe bicampeão europeia e campeã do mundo.

Num 4-1-4-1 com o ótimo Saúl Níguez no lugar de Busquets, Rodrigo – brasileiro naturalizado, filho de Adalberto, ex-lateral do Flamengo nos anos 1980 e campeão mundial sub-20 em 1983, como único atacante. Intensa movimentação do quarteto Koke-Thiago Alcântara-David Silva-Isco. Com direito a recital dos dois últimos.

A Roja que deu espetáculo contra a Itália atuando sem uma referência no ataque também sabe jogar com pivô. Abre o campo com os laterais. Jordi Alba pela esquerda e o jovem Odriozola da Real Sociedad à direita. Autor do cruzamento para Thiago Alcântara marcar o último gol dos 3 a 0 ainda no primeiro tempo.

Com o empate da Itália em 1 a 1 com a Macedônia, a confirmação matemática da classificação em primeiro lugar. Invicta. Oito vitórias, um empate fora de casa com a Itália. 35 gols marcados, três sofridos. A Espanha tem renovação e maturidade, tem Isco vivendo o auge da carreira. País dos clubes que dominam o futebol mundial nos últimos anos, mesmo considerando o “fator” Messi e Cristiano Ronaldo, além dos outros estrangeiros das seleções mundiais que são Real Madrid e Barcelona.

O grupo parece mais vivido e homogêneo, com mais opções confiáveis para uma realidade de Copa do Mundo que o da Alemanha. Tem mais tempo de trabalho que o Brasil de Tite e conquistas recentes que transferem mais respeito que a França, vice em casa da Eurocopa, pode conseguir. É bom ficar de olho nesta Espanha.


Se é momento para testes, por que não um Brasil à la Real Madrid?
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André Rocha

Foto: Ricardo Botelho (FolhaPress)

Para o jogo contra a Bolívia em La Paz na quinta-feira, Tite confirma a mudança forçada – Alex Sandro no lugar dos lesionados Marcelo e Filipe Luís na lateral esquerda – e uma por opção: Thiago Silva na vaga de Marquinhos, formando a zaga com Miranda.

A outra alteração em relação à última rodada das Eliminatórias é o retorno de Philippe Coutinho ao lado direito da linha de meias do 4-1-4-1 à frente de Casemiro. Com a saída de Willian, a mudança de perfil, como afirma o próprio treinador: “Tenho um mais vertical e agudo, que ataca os espaços (Willian), e outro mais construtor (Coutinho)”.

Coutinho constroi porque é meia. Dos bons. Mas costuma render melhor partindo da esquerda ou do centro. Na própria seleção, seus grandes momentos, incluindo o golaço sobre a Argentina, foi saindo do lado direito para circular às costas dos volantes adversários. Quando abre ainda fica desconfortável, não tem o timing para as combinações com Daniel Alves.

Tite deixa claro que sua convicção é na qualificação deste 4-1-4-1 até a Copa, com a variação do desenho tático para o 4-2-3-1 com Coutinho por dentro e Willian pela direita. Legítimo, até pelo pouco tempo de trabalho até aqui e menos ainda até o Mundial da Rússia.

Mas por que não um teste para ter um coelho na cartola, algo para surpreender os rivais que certamente depois de confirmarem suas vagas na Copa vão dissecar um dos candidatos ao título? E isto é possível sem mexer na formação titular.

O Real Madrid conquistou Espanhol e Liga dos Campeões na temporada europeia passada e cresceu na reta final quando Zinedine Zidane, sem o lesionado Gareth Bale, colocou Isco em seu lugar. Com isso mudou também o sistema: de um 4-3-3 rígido, com Casemiro na proteção e dois meio-campistas mais organizadores – Modric e Kroos – e o trio “BBC” na frente. para um 4-3-1-2 mais flexível, com ou sem a bola.

Porque Isco ganhou liberdade para circular e também permitiu que Cristiano Ronaldo não fosse nem centroavante, nem ponteiro, mas atacante numa dupla com Benzema. Trocando de lado, buscando as diagonais, tabelando. A  troca deu liberdade aos laterais Carvajal e Marcelo para apoiarem ao mesmo tempo, abrindo o sistema defensivo adversário.

Sem a bola, duas linhas de quatro. A do meio-campo bastante móvel,em função do posicionamento de Isco no retorno. Se ele volta pela direita, Casemiro e Modric fecham o meio e Kroos abre à esquerda; se retorna pela esquerda é Modric quem abre pela direita e Kroos se junta ao volante brasileiro no centro. Quando Isco recompõe centralizado, Casemiro se adianta na compactação e Modric e Kroos fecham os flancos.

O 4-3-1-2 com Isco se aproximando da dupla Cristiano Ronaldo-Benzema e voltando na recomposição formando uma linha de quatro móvel com Casemiro, Modric e Kroos, de acordo com o posicionamento do camisa 22 na recomposição (Tactical Pad).

Tudo executado com naturalidade e inteligência, como atua o time merengue, especialmente nos jogos grandes, decisivos. É uma equipe que se adapta às necessidades da disputa e sabe jogar com posse, instalado no campo de ataque, ou em transições ofensivas rápidas, aproveitando os espaços às costas da defesa do oponente.

Na seleção, Coutinho pode ser Isco, jogando solto, sem a obrigação de ficar ou partir do setor direito. Com isso se aproximaria mais da dupla Gabriel Jesus-Neymar, todos com autonomia para circular e procurar espaços para surpreender as retaguardas com tabelas, triangulações, infiltrações em diagonal dos atacantes.

Tite não gosta de tirar Neymar do setor esquerdo. De fato, é onde a estrela brasileira mais rende. Mas a liberdade para o talento nunca é improdutiva e as trocas com Gabriel Jesus, as diagonais mais curtas, mesmo saindo da esquerda, podem tornar o camisa dez ainda mais letal. Mais próximo da meta adversária.

Sem a bola, a lógica seria a mesma do atual bicampeão europeu: Coutinho se juntaria a Casemiro, Paulinho e Renato Augusto e a distribuição dos quatro na linha à frente da defesa se daria de acordo com o camisa onze, No caso da seleção poderia haver outra referência: o posicionamento de Paulinho e Renato Augusto, que costumam trocar muito. De lado e de função. Paulinho recua para usar seu poder de marcação. Já com Renato mais atrás o objetivo é ganhar um organizador e qualificar a saída de bola.

O meio-campo em losango na seleção teria a mesma dinâmica do Real Madrid, com Philippe Coutinho como meia de ligação e referência para a composição da segunda linha de quatro no momento defensivo. Na frente, Gabriel Jesus e Neymar com liberdade e nas laterais Daniel Alves e Marcelo aproveitando os corredores abertos (Tactical Pad).

Tite tem Casemiro e Marcelo, quando este voltar, para obter ainda mais detalhes sobre a execução. Sem contar que a referência continua sendo o seu amigo Carlo Ancelotti, já que a base do modelo de jogo, ainda que tenha amadurecido e se aprimorado, vem do italiano, que tinha Zidane como auxiliar em sua passagem pelo clube, de 2013 a 2015. Ou seja, não seria algo a surgir “do nada”.

Até porque o sistema não seria algo inédito para o comandante canarinho. Com outra dinâmica, o 4-4-2 com o meio-campo em losango já foi utilizado. O mais marcante no Internacional campeão da Copa Sul-Americana em 2008 e vice da Copa do Brasil no ano seguinte. Com Sandro ou Edinho plantado à frente da defesa, Magrão e Guiñazu pelos lados e D’Alessandro como “enganche”, articulando para a dupla Taison-Nilmar. Tempos de menos compactação e mais encaixes e perseguições individuais, mas ainda um 4-3-1-2.

Uma possibilidade, nada complexa. Algo para sair um pouco do plano original e da sua variação mais conhecida. Sem mudar a escalação ou afetar o entrosamento. Porém mexendo nas peças para ter uma alternativa. Por que não um Brasil à la Real Madrid?


Dois falsos 9, laterais pontas, show de Isco. O “caos ordenado” da Espanha
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André Rocha

A Itália de Gianpiero Ventura resolveu encarar de peito aberto a Espanha no Santiago Bernabéu. De Rossi plantado à frente da retaguarda, Verratti na armação; Candreva e Insigne pelas pontas, Belotti e Immobile na frente. Bem diferente do sistema com três zagueiros, linhas próximas, rapidez e objetividade nas transições ofensivas dos tempos de Antonio Conte que acabaram na grande vitória por 2 a 0 sobre os espanhois nas oitavas de final da Eurocopa 2016.

A Espanha de Julen Lopetegui respondeu com a radicalização da fórmula da vitória na final continental de 2012. Se há cinco anos Cesc Fábregas era o falso nove nos 4 a 0 em Kiev que deram o bicampeonato para a “Roja”, desta vez havia dois: Iniesta e David Silva, os mais veteranos do setor ofensivo, ficavam mais adiantados quando a equipe perdia a bola e se transformavam nos articuladores quando a recuperava.

A dupla era ultrapassada por Asensio e Isco, os pontas que se alternavam pelos lados e voltavam para formar a segunda linha de quatro com Busquets e Koke. Na retomada, buscavam as diagonais ou os espaços entre as linhas. Carvajal e Jordi Alba também passavam voando pelos flancos. Abrindo o campo e confundindo ainda mais a espaçada marcação da Azzurra.

O resultado foi um espetáculo de posse de bola com verticalidade, mobilidade, tabelas e triangulações efetivas. Qualidade ocupando o campo de ataque ou jogando nos contragolpes. Mesmo que o conceito de “falso nove” moderno seja do Barcelona de Pep Guardiola com Messi, ficou clara a mudança de bastão para o Real Madrid de Zinedine Zidane no modelo de jogo da seleção.

Especialmente por causa de Isco, o melhor jogador em atividade no planeta entre os “terráqueos” – ou seja, tirando Messi e Cristiano Ronaldo do debate. Impressionante a evolução técnica e tática do meia. A naturalidade com que circula às costas dos volantes adversários, sai da ponta para dentro servindo os companheiros ou finalizando. Com bola parada ou rolando. Golaços em cobrança de falta e jogada individual.

O destaque absoluto dos 3 a 0 – com Morata, que entrou na vaga de Iniesta e o time voltou a ter uma referência na frente – que encaminham a vaga direta para o Mundial na Rússia e podem sinalizar o futuro da Espanha que domina o cenário entre os clubes e tem potencial para voltar a ser protagonista entre as seleções. O “caos ordenado” atacando por todos os lados e tirando a referência da retaguarda do oponente. A Itália não faz a mínima ideia do que a atropelou.


Real Madrid campeão! A revolução de simplicidade e discrição de Zidane
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André Rocha

Zinedine Zidane assumiu o Real Madrid no início de 2016, salvando a pele de Florentino Pérez, que emendou duas decisões para lá de controversas: demitir Carlo Ancelotti mais pela frustração de ver o Barcelona faturar a tríplice coroa do que propriamente por uma avaliação do trabalho do treinador italiano que comandou o time que conquistou a sonhada “La Decima”.

Pior ainda foi trazer Rafa Benítez, em baixa na carreira, para liderar seu elenco estelar. Não podia dar certo, até por não se identificar com o clube e ter a petulância de tentar ensinar jogadores como Cristiano Ronaldo e Toni Kroos a bater na bola, se intrometendo até nos gestos técnicos dos atletas.

Algo que Zidane, um dos maiores e mais técnicos jogadores da história, poderia se aventurar a impor. Pelo contrário. Transmitiu confiança, usou o respeito que desperta sem fazer força para deixar o ambiente mais leve, trouxe as lideranças para perto. Na gestão do grupo, também manteve todos motivados, mudou de patamar jogadores como Lucas Vázquez. Investiu no condicionamento físico.

Na parte tática e estratégica, começou resgatando as ideias de Ancelotti, de quem era auxiliar. Variação do 4-3-3 para o 4-4-2 sem a bola. Com a má fase de James Rodríguez e a dificuldade de encontrar o meia para atacar centralizado, na articulação, e voltar pela esquerda, além dos problemas defensivos, fez o simples mais uma vez: plantou Casemiro na proteção da defesa e deu liberdade a Kroos.

Trabalhando jogo a jogo, descansando quem precisava e valorizando os substitutos sem lamentar as ausências foi arrumando a casa. Realista, jogou a toalha na liga na derrota para o Atlético de Madrid no Santiago Bernabéu. Paradoxalmente, o foco na Champions e a sensação de “o que vier é lucro” ajudou a construir um retrospecto de 12 vitórias seguidas, inclusive os 2 a 1 sobre o Barcelona no Camp Nou.

Campanha que manteve a confiança alta e ajudou a pavimentar o 11º título da Liga dos Campeões. Conquista que pode ser atribuída um tanto à sorte por conta dos cruzamentos menos complicados que os rivais e superar o Atlético novamente, desta vez nos pênaltis. Sem muito brilho, mas fazendo história.

Para a temporada 2016/17, o aprimoramento das virtudes: elenco mais forte, com Morata e Asensio formando uma equipe reserva capaz de manter a competitividade enquanto descansa os titulares. E atento ao desempenho para fazer ajustes por meritocracia.

Isco foi o beneficiado pelo senso de justiça na reta final. Voando nas vitórias dos reservas e entrando bem quando solicitado, virou titular na vaga de Bale, em uma nova alteração tática. Do 4-3-3 para o 4-3-1-2, com o meia atuando como “enganche” à frente de Modric e Kroos e deixando Cristiano Ronaldo praticamente como um atacante próximo à área adversária, com liberdade de movimentação.

Poupado em nove partidas na liga, o português estava pronto para ser decisivo na reta final do campeonato nacional e do torneio continental. Se antes o genial finalizador tentava duelar com Messi nos números, agora entendeu que as taças são mais importantes que as bolas na rede. Até porque ele sempre será o artilheiro e a estrela da equipe, mesmo sem jogar todas.

O resultado prático é uma campanha memorável no Espanhol: 29 vitórias, seis empates, apenas três derrotas. 82% de aproveitamento. O ataque mais positivo e a defesa menos vazada são do Barcelona. Mas nos pontos foi soberano durante toda a liga.

Futebol prático e simples, respeitando as características dos jogadores. Os laterais Carvajal e Marcelo abrem o campo, ainda que o brasileiro infiltre muito por dentro, quase como meia. O meio-campo marca e joga, com Kroos e Modric alternando passes longos e curtos e qualificando a saída desde a defesa auxiliando Casemiro. Na frente, o trabalho de coadjuvante de Benzema e o poder de decisão de Cristiano Ronaldo. Se necessário, há a qualidade na reposição para manter desempenho e a média na conquista de pontos.

Um time “camaleão”, que joga com posse de bola ou nas transições velozes, sem deixar de valorizar o momento das jogadas aéreas com bola parada. Algo lógico quando se tem a precisão de Kroos e a fantástica presença na área adversária do já lendário Sergio Ramos.

Acima de tudo, respeitando a história do clube. Porque o torcedor madridista não quer exatamente espetáculo. Exige vitórias, mas que de preferência sejam construídas com futebol ofensivo e liberdade para os craques “galácticos” contratados a peso de ouro colocarem o talento a serviço da equipe. Sem amarras táticas. Com mentalidade vencedora.

Título confirmado fora de casa nos 2 a 0 sobre o Málaga. Um gol de Cristiano Ronaldo em contragolpe letal, outro de Benzema na bola parada sempre tão eficiente. Mais simbólico, impossível. Completando 64 partidas consecutivas fazendo gols. Pela primeira vez com campanha mais efetiva em pontos fora de casa do que no Bernabéu: 47 x 46.

Nada muito inovador, embora moderno. Zidane respeita as características e as qualidades dos jogadores. Não tenta ser a estrela mais reluzente e midiática. Valoriza o jogo, o futebol em todas as suas vertentes. Se Zidane revolucionou o Real Madrid, foi pela discrição e simplicidade.

Agora parte para o ato final e mais importante: nova final de Champions, desta vez contra a Juventus em Cardiff. Decisão sem favoritos, até pelo tempo que ambos terão para se preparar e com a confiança das ligas conquistadas. Agora com o Real enfrentando os cruzamentos mais complicados: Napoli, Bayern de Munique e Atlético de Madrid.

A Juventus tem mais “fome”, já que o título europeu não vem desde 1996. Já o Real carrega a “casca” de uma base que disputou duas finais recentes. Se vier a décima segunda, todos os holofotes estarão sobre Cristiano Ronaldo e sua quinta Bola de Ouro.

No banco, aplaudindo os protagonistas, o grande mentor. O Zidane que em campo fazia tudo parecer tão trivial e agora, na beira do gramado, trabalha com o mesmo semblante tranquilo de quem sabe o que quer.


Melhor atuação coletiva do Real Madrid, um presente para Cristiano Ronaldo
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André Rocha

Os primeiros 30 minutos da primeira semifinal da Liga dos Campeões no Bernabéu apresentaram o que se espera de eficiência e beleza do Real Madrid desde que Zinedine Zidane assumiu e armou uma equipe competitiva, porém sem brilho.

Atuação consistente que passa fundamentalmente pela movimentação de Isco na ponta do losango do 4-3-1-2 que surpreendeu Simeone e seu Atlético de Madrid. O meia circulava entre as duas linhas de quatro e ninguém sabia como parar.

O desequilíbrio no meio, com superioridade numérica em vários momentos de quatro homens contra dois, produziu um volume de jogo impressionante. Foram nada menos que dez finalizações e 66% de posse de bola. Podia ter saído, pelo menos, mais dois gols além do marcado por Cristiano Ronaldo completando centro de Casemiro.

Até o final da primeira etapa, o time de Zidane finalizou mais uma vez. Seis na direção da meta de Oblak. Contra uma dos colchoneros, para fora. Depois do gol sofrido o Atlético nitidamente se desmanchou mentalmente. Depois de três vitórias e um empate na casa do rival. Deu espaços generosos, o que não é comum, e praticamente não atacou. Gameiro cumpriu atuação pluripatética.

Real Madrid no 4-3-1-2 com Isco circulando entre as linhas de quatro do Atlético. Superioridade numérica no meio-campo fez o time de Zidane construir volume de jogo impressionante, principalmente nos primeiros 30 minutos (Tactical Pad).

Disputa mais equilibrada na segunda etapa, com o Real guardando mais o setor direito, que tinha Nacho na vaga de Carvajal, que saiu lesionado no intervalo. A equipe merengue esperava o momento para matar o jogo diante de um Atlético mais agressivo com Fernando Torres e Nico Gaitán na frente.

Isco cansou e Zidane mandou a campo Asensio, voltando para compor no meio, mas atacando em velocidade pela esquerda, para cima do frágil Lucas Hernández, o substituto de Juanfran. O Real recuperou volume e o rival voltou a murchar.

Time colchonero equilibrou um pouco as ações no segundo tempo com Gaitán e Fernando Torres. Mas Zidane foi preciso na entrada de Asensio no lugar de Isco. Acelerando os contragolpes pela esquerda e fechando espaços pelo meio, ajudou o time a se impor no final e matar o jogo – e provavelmente o confronto pela semifinal da Champions – com mais dois gols de Cristiano Ronaldo (Tactical Pad).

Mortal contra o maior finalizador da história. Mais dois de Cristiano Ronaldo. Era possível prever o gol quando o português dominou a bola antes de marcar o segundo. Depois, como o fantástico centroavante que vem se transformando nos últimos anos, foi implacável à frente de Oblak completando centro da direita de Lucas Vázquez, que entrou no lugar de Benzema.

Nada menos que oito gols nas últimas três partidas. Decisivas no principal torneio de clubes do mundo. Contra Bayern de Munique e Atlético de Madrid, potências europeias nas últimas temporadas. Uma máquina de colocar bolas nas redes. Agora 103 na Liga dos Campeões. Fenômeno.

Maior candidato à Bola de Ouro. Messi só tem alguma chance de evitar o empate em cinco premiações para cada se Cristiano não ganhar nenhum título e o Barcelona conseguir a virada no Espanhol, além da Copa do Rei. Aí valeria a grande atuação do gênio argentino no Bernabéu.

Parece improvável. Até porque encaminhando a vaga na final da Champions com os 3 a 0 é possível mirar os últimos quatro jogos no campeonato nacional. Tudo parece luzir para Zidane.

E para Cristiano Ronaldo, que depende tanto do time para brilhar nas conclusões. Ganhou de presente a melhor atuação coletiva do Real Madrid na temporada para fazer ainda mais história.

(Estatísticas: UEFA)

 


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