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Real Madrid campeão! A revolução de simplicidade e discrição de Zidane
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André Rocha

Zinedine Zidane assumiu o Real Madrid no início de 2016, salvando a pele de Florentino Pérez, que emendou duas decisões para lá de controversas: demitir Carlo Ancelotti mais pela frustração de ver o Barcelona faturar a tríplice coroa do que propriamente por uma avaliação do trabalho do treinador italiano que comandou o time que conquistou a sonhada “La Decima”.

Pior ainda foi trazer Rafa Benítez, em baixa na carreira, para liderar seu elenco estelar. Não podia dar certo, até por não se identificar com o clube e ter a petulância de tentar ensinar jogadores como Cristiano Ronaldo e Toni Kroos a bater na bola, se intrometendo até nos gestos técnicos dos atletas.

Algo que Zidane, um dos maiores e mais técnicos jogadores da história, poderia se aventurar a impor. Pelo contrário. Transmitiu confiança, usou o respeito que desperta sem fazer força para deixar o ambiente mais leve, trouxe as lideranças para perto. Na gestão do grupo, também manteve todos motivados, mudou de patamar jogadores como Lucas Vázquez. Investiu no condicionamento físico.

Na parte tática e estratégica, começou resgatando as ideias de Ancelotti, de quem era auxiliar. Variação do 4-3-3 para o 4-4-2 sem a bola. Com a má fase de James Rodríguez e a dificuldade de encontrar o meia para atacar centralizado, na articulação, e voltar pela esquerda, além dos problemas defensivos, fez o simples mais uma vez: plantou Casemiro na proteção da defesa e deu liberdade a Kroos.

Trabalhando jogo a jogo, descansando quem precisava e valorizando os substitutos sem lamentar as ausências foi arrumando a casa. Realista, jogou a toalha na liga na derrota para o Atlético de Madrid no Santiago Bernabéu. Paradoxalmente, o foco na Champions e a sensação de “o que vier é lucro” ajudou a construir um retrospecto de 12 vitórias seguidas, inclusive os 2 a 1 sobre o Barcelona no Camp Nou.

Campanha que manteve a confiança alta e ajudou a pavimentar o 11º título da Liga dos Campeões. Conquista que pode ser atribuída um tanto à sorte por conta dos cruzamentos menos complicados que os rivais e superar o Atlético novamente, desta vez nos pênaltis. Sem muito brilho, mas fazendo história.

Para a temporada 2016/17, o aprimoramento das virtudes: elenco mais forte, com Morata e Asensio formando uma equipe reserva capaz de manter a competitividade enquanto descansa os titulares. E atento ao desempenho para fazer ajustes por meritocracia.

Isco foi o beneficiado pelo senso de justiça na reta final. Voando nas vitórias dos reservas e entrando bem quando solicitado, virou titular na vaga de Bale, em uma nova alteração tática. Do 4-3-3 para o 4-3-1-2, com o meia atuando como “enganche” à frente de Modric e Kroos e deixando Cristiano Ronaldo praticamente como um atacante próximo à área adversária, com liberdade de movimentação.

Poupado em nove partidas na liga, o português estava pronto para ser decisivo na reta final do campeonato nacional e do torneio continental. Se antes o genial finalizador tentava duelar com Messi nos números, agora entendeu que as taças são mais importantes que as bolas na rede. Até porque ele sempre será o artilheiro e a estrela da equipe, mesmo sem jogar todas.

O resultado prático é uma campanha memorável no Espanhol: 29 vitórias, seis empates, apenas três derrotas. 82% de aproveitamento. O ataque mais positivo e a defesa menos vazada são do Barcelona. Mas nos pontos foi soberano durante toda a liga.

Futebol prático e simples, respeitando as características dos jogadores. Os laterais Carvajal e Marcelo abrem o campo, ainda que o brasileiro infiltre muito por dentro, quase como meia. O meio-campo marca e joga, com Kroos e Modric alternando passes longos e curtos e qualificando a saída desde a defesa auxiliando Casemiro. Na frente, o trabalho de coadjuvante de Benzema e o poder de decisão de Cristiano Ronaldo. Se necessário, há a qualidade na reposição para manter desempenho e a média na conquista de pontos.

Um time “camaleão”, que joga com posse de bola ou nas transições velozes, sem deixar de valorizar o momento das jogadas aéreas com bola parada. Algo lógico quando se tem a precisão de Kroos e a fantástica presença na área adversária do já lendário Sergio Ramos.

Acima de tudo, respeitando a história do clube. Porque o torcedor madridista não quer exatamente espetáculo. Exige vitórias, mas que de preferência sejam construídas com futebol ofensivo e liberdade para os craques “galácticos” contratados a peso de ouro colocarem o talento a serviço da equipe. Sem amarras táticas. Com mentalidade vencedora.

Título confirmado fora de casa nos 2 a 0 sobre o Málaga. Um gol de Cristiano Ronaldo em contragolpe letal, outro de Benzema na bola parada sempre tão eficiente. Mais simbólico, impossível. Completando 64 partidas consecutivas fazendo gols. Pela primeira vez com campanha mais efetiva em pontos fora de casa do que no Bernabéu: 47 x 46.

Nada muito inovador, embora moderno. Zidane respeita as características e as qualidades dos jogadores. Não tenta ser a estrela mais reluzente e midiática. Valoriza o jogo, o futebol em todas as suas vertentes. Se Zidane revolucionou o Real Madrid, foi pela discrição e simplicidade.

Agora parte para o ato final e mais importante: nova final de Champions, desta vez contra a Juventus em Cardiff. Decisão sem favoritos, até pelo tempo que ambos terão para se preparar e com a confiança das ligas conquistadas. Agora com o Real enfrentando os cruzamentos mais complicados: Napoli, Bayern de Munique e Atlético de Madrid.

A Juventus tem mais “fome”, já que o título europeu não vem desde 1996. Já o Real carrega a “casca” de uma base que disputou duas finais recentes. Se vier a décima segunda, todos os holofotes estarão sobre Cristiano Ronaldo e sua quinta Bola de Ouro.

No banco, aplaudindo os protagonistas, o grande mentor. O Zidane que em campo fazia tudo parecer tão trivial e agora, na beira do gramado, trabalha com o mesmo semblante tranquilo de quem sabe o que quer.


Melhor atuação coletiva do Real Madrid, um presente para Cristiano Ronaldo
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André Rocha

Os primeiros 30 minutos da primeira semifinal da Liga dos Campeões no Bernabéu apresentaram o que se espera de eficiência e beleza do Real Madrid desde que Zinedine Zidane assumiu e armou uma equipe competitiva, porém sem brilho.

Atuação consistente que passa fundamentalmente pela movimentação de Isco na ponta do losango do 4-3-1-2 que surpreendeu Simeone e seu Atlético de Madrid. O meia circulava entre as duas linhas de quatro e ninguém sabia como parar.

O desequilíbrio no meio, com superioridade numérica em vários momentos de quatro homens contra dois, produziu um volume de jogo impressionante. Foram nada menos que dez finalizações e 66% de posse de bola. Podia ter saído, pelo menos, mais dois gols além do marcado por Cristiano Ronaldo completando centro de Casemiro.

Até o final da primeira etapa, o time de Zidane finalizou mais uma vez. Seis na direção da meta de Oblak. Contra uma dos colchoneros, para fora. Depois do gol sofrido o Atlético nitidamente se desmanchou mentalmente. Depois de três vitórias e um empate na casa do rival. Deu espaços generosos, o que não é comum, e praticamente não atacou. Gameiro cumpriu atuação pluripatética.

Real Madrid no 4-3-1-2 com Isco circulando entre as linhas de quatro do Atlético. Superioridade numérica no meio-campo fez o time de Zidane construir volume de jogo impressionante, principalmente nos primeiros 30 minutos (Tactical Pad).

Disputa mais equilibrada na segunda etapa, com o Real guardando mais o setor direito, que tinha Nacho na vaga de Carvajal, que saiu lesionado no intervalo. A equipe merengue esperava o momento para matar o jogo diante de um Atlético mais agressivo com Fernando Torres e Nico Gaitán na frente.

Isco cansou e Zidane mandou a campo Asensio, voltando para compor no meio, mas atacando em velocidade pela esquerda, para cima do frágil Lucas Hernández, o substituto de Juanfran. O Real recuperou volume e o rival voltou a murchar.

Time colchonero equilibrou um pouco as ações no segundo tempo com Gaitán e Fernando Torres. Mas Zidane foi preciso na entrada de Asensio no lugar de Isco. Acelerando os contragolpes pela esquerda e fechando espaços pelo meio, ajudou o time a se impor no final e matar o jogo – e provavelmente o confronto pela semifinal da Champions – com mais dois gols de Cristiano Ronaldo (Tactical Pad).

Mortal contra o maior finalizador da história. Mais dois de Cristiano Ronaldo. Era possível prever o gol quando o português dominou a bola antes de marcar o segundo. Depois, como o fantástico centroavante que vem se transformando nos últimos anos, foi implacável à frente de Oblak completando centro da direita de Lucas Vázquez, que entrou no lugar de Benzema.

Nada menos que oito gols nas últimas três partidas. Decisivas no principal torneio de clubes do mundo. Contra Bayern de Munique e Atlético de Madrid, potências europeias nas últimas temporadas. Uma máquina de colocar bolas nas redes. Agora 103 na Liga dos Campeões. Fenômeno.

Maior candidato à Bola de Ouro. Messi só tem alguma chance de evitar o empate em cinco premiações para cada se Cristiano não ganhar nenhum título e o Barcelona conseguir a virada no Espanhol, além da Copa do Rei. Aí valeria a grande atuação do gênio argentino no Bernabéu.

Parece improvável. Até porque encaminhando a vaga na final da Champions com os 3 a 0 é possível mirar os últimos quatro jogos no campeonato nacional. Tudo parece luzir para Zidane.

E para Cristiano Ronaldo, que depende tanto do time para brilhar nas conclusões. Ganhou de presente a melhor atuação coletiva do Real Madrid na temporada para fazer ainda mais história.

(Estatísticas: UEFA)

 


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