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Vitória do Corinthians no dérbi é o triunfo do presente sobre o passado
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André Rocha

Antes do início da 13ª rodada da Série A, o líder Corinthians era o segundo ataque mais positivo, a equipe que mais acerta passes e a quarta em posse de bola. Mas no Allianz Parque aproveitou a estatística que lidera e, na prática, é a mais importante: só precisa de seis finalizações, na média, para fazer um gol.

Na casa do Palmeiras esta eficiência foi ainda maior: dois gols em três conclusões. Jadson no pênalti sobre Guilherme Arana, que marcou o da vitória na segunda etapa. Ambos iniciados com passes espetaculares de Romero, o destaque absoluto do triunfo de uma ideia de jogar.

Atual, que se adapta de acordo com o que pede o jogo. Diante de um mandante tão forte, como o Grêmio há três rodadas, não fazia sentido partir de peito aberto. Principalmente pela consciência de que o rival viria no desespero para buscar a vitória e descontar os 13 pontos de desvantagem.

Organizou duas linhas de quatro compactas, executou com concentração absoluta seu modelo de jogo que baseia o trabalho defensivo na marcação por zona e no controle dos espaços. Fagner, Balbuena, Pablo e Arana parecem chegar à perfeição dos movimentos de corpo para tirar as opções do atacante que está com a bola. E quando o oponente consegue ultrapassá-los, aparece Cássio novamente no ápice físico e técnico.

Na transição ofensiva, inteligência para triangular e atacar os espaços na hora certa. Mesmo sem o brilho de Jô e de Jadson, que só apareceu na cobrança de pênalti. O forte é o coletivo, com eficiência absurda. Um relógio preciso.

Bem diferente do Palmeiras de Cuca, que diante das dificuldades impostas pelo Corinthians apelou para o que se convencionou chamar de “Cucabol” e nunca foi bem entendido. Na necessidade de criar os espaços em uma retaguarda bem posicionada, o time desde o ano passado apela para os cruzamentos sucessivos. Não há ideias.

Antes da partida, a média era de 22 bolas levantadas. Só no primeiro tempo foram 28. Chegou a 47 no final. No desespero, Cuca empilhou atacantes tirando volantes, adiantou o zagueiro Mina com centroavante e…tome bola na área! Teve 61% de posse, finalizou 18 vezes, mas faltou a chance cristalina, a ação ofensiva bem trabalhada.

Cuca tem razão ao lamentar as ausência de Vitor Hugo, Moisés e Gabriel Jesus em relação ao time campeão brasileiro do ano passado. O zagueiro que compensava todos os problemas ocasionados pelos ultrapassados encaixes individuais com velocidade, concentração e vigor físico. O meio-campista que acertava passes, chutes e as cobranças de lateral na área. E o melhor atacante atuando no país em 2016. Sem as individualidades resta muito pouco de uma ideia de jogo pobre e anacrônica.

Por isso o Corinthians sobra. Não é exemplo de gestão nem ostenta patrocínio forte, mas tem identidade dentro do campo. Uma ideia que vai sendo aprimorada por Fabio Carille, auxiliar dos “construtores” Mano Menezes e Tite. 35 pontos em 39 possíveis. Invicto, não sofre gols há sete partidas. Ataca quando precisa e chega a 23 gols marcados, igualando o Grêmio que ainda joga na rodada.

Campanha histórica em 13 rodadas. É o grande favorito ao título. Mas mesmo que a taça não venha, que o modelo de jogo alinhado ao que de mais atual se pratica nos principais centros e base de ideias da seleção brasileira líder das eliminatórias sul-americanas seja a referência para um futebol mais bem jogado no país.

No dérbi, o presente venceu o passado.

(Estatísticas: Footstats) 


Concentração e cultura da vitória: o Corinthians de Tite volta com Carille
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André Rocha

Foto: Instagram de Fabio Carille

O Corinthians é o time brasileiro desta década – para não deixar dúvidas, de 2011 até agora. Tem dois títulos brasileiros como o Cruzeiro, uma Libertadores como Santos e Atlético Mineiro. Um Mundial como nenhum outro desde 2006. Mais dois paulistas de lambuja.

Acima de tudo, criou uma identidade futebolística, com Mano Menezes e Tite. Uma marca. Organização, solidez defensiva. Tudo executado com um mantra do atual treinador da seleção brasileira: concentração. Leia mais AQUI.

Com as conquistas vem uma cultura de vitória. Aquela confiança no modelo e nos métodos que faz a equipe forte e fragiliza o oponente. Uma certeza de que se o trabalho for feito com correção tudo vai dar certo. Um temor do outro lado quando percebe a competência do adversário.

Foi este o Corinthians que venceu o Grêmio em Porto Alegre e abriu quatro pontos na liderança do Brasileiro. Se o Botafogo vencer o Avaí a distância para o terceiro colocado cairá para oito. Ainda assim, vantagem considerável.

Ainda mais consistente e importante porque o time comandado por Fabio Carille não perde. Já são 23 partidas consecutivas sem derrota. Muitos jogos sem brilho, coletivo ou individual, mas na maioria deles também com pouquíssimos erros.

Foi o que minou aos poucos a confiança gremista e foi calando a Arena. O time de Renato Gaúcho rondava a área, mas não conseguia infiltrar, nem criar a chance cristalina. Por isso os 32 cruzamentos de uma equipe acostumada a jogar com bola no chão.

Luan teve sua área de atuação bem reduzida pela compactação e por um dos “segredos” corintianos há alguns anos: a última linha de defesa com movimentos praticamente perfeitos, jogando próximos e atentos, guardando a região central. É difícil furar.

Mas quando vem a rara chance, é obrigação matar. E aí falhou Geromel na primeira etapa em jogada ensaiada. Depois Luan. Na oportunidade dentro da pequena área com chute fraco e, pouco depois, na cobrança de pênalti mais que hesitante. Uma paradinha insegura e o chute fraco para defesa de Cássio. O destaque do jogo, ainda que não tenha feito nenhuma intervenção espetacular.

Porque o Corinthians tem o foco no erro zero e não perdoa o equívoco ou a infelicidade. Como quando Luan, o personagem do duelo como os gremistas não desejavam e esperavam, facilitou com um toque a infiltração de Paulo Roberto. O substituto de Gabriel de atuação correta atrás e corajosa nas descidas ao ataque, com incrível chance perdida na primeira etapa. O centro da esquerda que Jô não dominou, mas Jadson completou entre as pernas de Marcelo Grohe. Outro trunfo a falhar do desafiante ao líder.

Força coletiva que potencializa o talento, outro lema de Tite. Por mais méritos que Carille demonstre, especialmente na flexibilidade do sistema tático que varia do 4-2-3-1 para o 4-1-4-1 conforme a necessidade e na utilização de jovens da base, é impossível não lembrar de quem aprimorou as ideias de Mano, formou um Corinthians sólido e depois, em 2015, acrescentou criatividade. Continua bem sucedido a serviço da CBF, com a mesma filosofia.

Carille segue a receita e acrescenta os toques pessoais. A vitória em Porto Alegre é simbólica. Com uma competição paralela a menos que Grêmio, Flamengo, Botafogo e Palmeiras para disputar, não é absurdo dizer que já temos um forte candidato ao título. Ou o mesmo dos últimos seis anos.

(Estatísticas: Footstats)


Início do Corinthians é de quem pode terminar muito bem
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André Rocha

Os 13 pontos em quinze possíveis no início do Brasileiro, igualando a campanha do título de 2011, podem funcionar como curiosidade e um agente motivador.

Mas o que vale mesmo para o Corinthians é que o roteiro deste começo vem sendo o melhor possível. As circunstâncias colocaram no caminho cinco adversários acessíveis. O melhor deles na abertura do campeonato, quando não há muita noção do que está por vir.

Depois do duro empate em Itaquera com a Chapecoense, líder até o início da quinta rodada, triunfos sobre Vitória, Atlético-GO, Santos e agora os 5 a 2 sobre o Vasco em São Januário. 100% de aproveitamento como visitante. Três times que vão lutar para se manter na Série A e o clássico com um rival combalido, na despedida de Dorival Júnior.

Oponentes que permitem uma evolução gradual, sem abalo na confiança depois de um título paulista contrastando com a eliminação precoce na Copa do Brasil para o Internacional. Fabio Carille trabalha para acrescentar criatividade e contundência à equipe organizada defensivamente, identidade construída por Mano Menezes e Tite.

Ainda difícil quando é preciso criar espaços, mas que já flui melhor quando o adversário os cede. Como o Vasco, que criou problemas e aproveitou a desconcentração geral no início da segunda etapa e a fragilidade de Pablo nas disputas com Luis Fabiano para empatar o jogo.

Na maior parte do jogo, porém, assumiu o papel de dono da casa, adiantou as linhas e sofreu com a rapidez na transição ofensiva deste incrível Jô e mais Clayson, Jadson e Marquinhos Gabriel, com suporte de Maycon. Depois Clayton, autor dos dois últimos gols. Compensando as ausências de Fagner, Rodriguinho e Romero no absurdo que é jogar em datas FIFA.

Corinthians que já varia naturalmente do 4-1-4-1 para o 4-2-3-1 com o movimento do meia mais adiantado, ora se aproximando de Jô, ora se alinhando a Maycon na construção. Com saída pelos dois lados, por Fagner e Guilherme Arana. Que triangula, movimenta Jadson. Cria e finaliza mais e melhor. Ganha opções, que entram no time em alta, sem pressão.

Em um campeonato equilibrado, no qual a trinca de favoritos antes da bola rolar ocupam as três posições logo acima da zona de rebaixamento – Flamengo, Atlético-MG e Palmeiras -, pontuar nas primeiras rodadas sempre é melhor. Aumenta a confiança, dá leveza ao ambiente.

Nada garante em 38 rodadas e falar em junho do título no final do ano, ainda com Copa Sul-Americana a disputar, é utopia. Mas avaliando potencial e margem de evolução, um começo forte pode, sim, terminar muito bem para a equipe de Fabio Carille.

 


Solta o Jadson, Carille! Corinthians cria pouco porque não mexe as peças
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André Rocha

Quando este blogueiro entrevistou Tite em 2015, logo após a conquista do título brasileiro, o treinador concordou com a tese de que sua grande evolução em termos ofensivos era que antes o seu time mexia nas peças apenas com a bola parada.

Ou seja, num lateral ou tiro de meta um jogador saía de seu posicionamento original e trocava com um colega. Como Danilo e Emerson Sheik na final da Libertadores, com o meia que atuava como uma espécie de “falso nove” se transferindo para o lado esquerdo e o atacante saindo da ponta e indo para o comando do ataque para fazer os dois gols decisivos sobre o Boca Juniors no Pacaembu.

Depois do ano sabático do técnico, a mobilidade dos jogadores passou a se dar com a bola em movimento. Deslocamentos na ação de ataque para criar espaços, sem respeitar tanto o sistema. Jadson saía da ponta direita e era visto do lado oposto, com Elias ou mesmo Vagner Love infiltrando no espaço deixado. Sempre alguém se apresentando para o passe curto ou a bola longa. Na perda, pressão para quebrar o passe e retomar ou se reorganizar no próprio campo.

Mesmo com a volta de Jadson, é o que vem faltando ao Corinthians de Fabio Carille em 2017. O ex-auxiliar de Tite, embora tenha trabalhado com o atual técnico da seleção brasileira em 2015, tem a visão anterior.

Seu time já teve Jadson no meio, Maycon na ponta esquerda, Romero na direita. Mas sempre no mesmo 4-1-4-1 com Jô na referência. Não “bagunça” as peças quando ataca porque quer seu time organizado na recomposição. Cada um no seu pedaço.

Por isso a dificuldade quando é preciso criar espaços diante de um sistema defensivo bem fechado. Não é só questão de talento, das peças tecnicamente inferiores às de dois anos atrás. O problema está na dinâmica. Não se mexe, cria pouco.

Porque o jogo é coletivo. Se o atleta se desloca e oferece opção, o passe do companheiro com a bola não precisa ser tão complexo. Se uma peça sai do seu “quadrado” e outra se projeta no espaço deixado quando a jogada acontece, as chances de surpreender o adversário aumentam exponencialmente.

Mas se Jadson só sai da direita para o meio quando a bola está parada e Romero vai para o seu lugar com Maycon ocupando o lado esquerdo, onde está a surpresa? A marcação adversária continuará distribuída esperando os quatro meias e mais o centroavante. Não gira, não quebra.

Quando roda funciona bem melhor. Como no primeiro gol sobre a Universidad de Chile, “La U”, pela Copa Sul-Americana. Jô chegou um pouco para a esquerda, abriu o corredor para Guilherme Arana e estavam na área Romero, Jadson, Maycon e Rodriguinho, o autor do gol na sequência do lance após uma balbúrdia na frente do goleiro Johnny Herrera. Nada tão revolucionário, mas o suficiente para desestabilizar a retaguarda.

Jô sai da referência, abre espaço pela esquerda para o apoio de Arana e deixa a área para os quatro meias infiltrarem para desestabilizar a defesa da Universidad de Chile no gol de Rodriguinho na estreia da Copa Sul-Americana (reprodução Fox Sports).

No gol sobre o Botafogo, todos nas suas posições. Ou quase, já que Arana estava mais adiantado pela esquerda que Romero na saída para o contragolpe. Então foi necessária uma inversão de jogo rápida para Jadson à direita e o cruzamento para o desvio de Rodriguinho que tirou do alcance do goleiro Neneca. Aí, sim, vai precisar mais da técnica e do talento que hoje é mais escasso.

No gol contra o Botafogo de Ribeirão Preto, Jadson teve que ser preciso no centro para Rodriguinho desviar porque a única projeção no espaço vazio foi a do meia entrando na área adversária (reprodução Premiere).

Por isso fica um conselho a Fabio Carille: solte o Jadson! Deixe ele circular mais, sem tanta preocupação com a perda da bola. É o mais criativo do setor ofensivo e já mostrou que faz com perfeição a função de ponta articulador que entra nas costas dos volantes, cria superioridade numérica, fura as linhas de marcação. Se ele girar, os demais vão procurar os espaços naturalmente.

Com Fagner, Balbuena, Pablo e Arana cada vez mais entrosados na defesa, mais o suporte de Gabriel, não é preciso tanto rigor na organização da linha de quatro no meio. Com mais rotação não é obrigatório ter Elias, Renato Augusto, Love e Malcom para criar mais e, consequentemente, fazer mais gols.

Vale o risco para melhorar o desempenho e os números no ataque. O torcedor corintiano adora dizer que gosta de vencer com sofrimento, mas certamente se lembra com mais carinho das goleadas em 2015 do que da fileira de vitórias por 1 a 0 de 2011 a 2013. Como os sete triunfos pelo placar mínimo nas onze vezes em que o Corinthians saiu de campo com os três pontos em 2017.

É pouco, pode melhorar. Ainda que Carille não seja Tite, nem Rodriguinho um Renato Augusto.


O “segredo” de Tite que Carille retoma com sucesso no Corinthians
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André Rocha

A vitória por 2 a 0 sobre o Luverdense na Arena Pantanal encaminha a classificação do Corinthians para a quarta fase da Copa do Brasil. Também dá a chance do técnico Fabio Carille rodar o elenco no jogo da volta.

Se o desempenho ofensivo vai aos poucos ganhando criatividade e fluência com o encaixe de Jadson pelo lado direito na linha de meias no 4-1-4-1, salta aos olhos os números defensivos.

Nas três partidas pelo torneio nacional, nenhum gol sofrido. Sim, adversários frágeis. Mas a retaguarda também não foi vazada nos clássicos contra Palmeiras, Santos e São Paulo, este no torneio amistoso na Flórida. No Paulista, só quatro gols sofridos. Contra Santo André e Mirassol. Cinco partidas sem Cássio ser batido.

A solidez dos tempos de Tite, mesmo em 2013, ano do declínio antes do período sabático, voltou depois de fortes oscilações sob o comando de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira. Porque Carille resgatou uma solução que ajudou o atual técnico da seleção brasileira a se destacar no cenário nacional.

É o que o próprio chama de “última linha posicional”. Ou seja, a defesa com os zagueiros mais próximos dos laterais. Marcando por zona, tendo a bola e o espaço como as referências, não o jogador.

A grande sacada é criar uma espécie de cinturão à frente do goleiro. Uma adaptação da escola italiana, que Tite foi estudar na década passada. Nem tão adiantada, exposta e espaçada como a da escola espanhola, que depende demais da pressão sobre o jogador com a bola para “quebrar” o passe. Muito menos semelhante à brasileira, com marcação individual e zagueiros afundados, muito próximos da própria área e que precisam do desarme salvador ou da cobertura do zagueiro de sobra.

O bloqueio é estreito. Quando o adversário ataca por um lado, a linha faz uma espécie de diagonal. O lateral se adianta para marcar, o zagueiro fica atento na cobertura, o do outro lado fica pronto para cortar o cruzamento e o lateral do lado oposto recua e faz a diagonal de cobertura ou espera uma possível inversão da jogada.

Flagrante da linha de quatro do Corinthians no dérbi guardando a própria área: Arana fecha o lado atacado, Pablo fica ligado numa possível cobertura, Balbuena guarda a área e Fagner espera uma eventual inversão ou faz a diagonal de cobertura (reprodução TV Globo).

A ideia é evitar a bola longa pelo centro ou na diagonal que proporciona a conclusão. Assim induz o lançamento mais aberto e o lateral tem tempo para bloquear a ação ofensiva menos perigosa. O posicionamento compensa também eventuais erros de compactação dos homens do meio-campo.

O atacante brasileiro, mesmo o sul-americano, fica desconfortável com o cerco que espera o momento do bote. Na tomada de decisão costuma se atrapalhar e facilitar o defensor. Não é receita infalível, mas minimiza os gols sofridos e as chances criadas pelos adversários.

Na final da Libertadores de 2012 contra o Boca Juniors, a linha formada por Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fabio Santos mantém o posicionamento, mesmo com o buraco deixado pelos volantes permitindo o jogo entre as linhas do time argentino (Reprodução TV Globo).

Desde Alessandro, Chicão, Leandro Castán (depois Paulo André) e Fabio Santos em 2012, passando por Fagner, Felipe, Gil e Uendel no ano passado. Agora, Fagner, Balbuena, Pablo e Arana vão ganhando entrosamento, assimilando os movimentos que não são simples. Exigem inteligência, noção de espaços e concentração. Até aqui a resposta tem sido positiva. Também pelas orientações de Cássio, que conhece toda a mecânica defensiva.

Tite foi estudar e se reciclar em 2014. Voltou apostando em criatividade, movimentação e triangulações para criar superioridade numérica no setor em que está a bola. Uma mudança notável de conceitos ofensivos. Mas o trabalho sem a bola não muda. Nem no Corinthians campeão brasileiro de 2015, nem na seleção brasileira líder das Eliminatórias.

Setores compactos, “perde e pressiona”…e a última linha de defesa posicionada. O “segredo” de Tite que Carille, ex-auxilar que colaborava exatamente na montagem da retaguarda, retoma com sucesso neste início de temporada.


Por pouco Jadson não paga o pato. Não é, nem pode ser Sassá Mutema
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André Rocha

Jadson perdeu a sua cobrança na decisão por pênaltis e podia ter sido o vilão de uma eliminação precoce na Copa do Brasil. Mesmo com o bom momento em resultados e a busca da evolução no desempenho do Corinthians de Fabio Carille, o tratamento dado ao meia veterano, de volta ao clube depois da fantástica jornada no Brasileiro de 2015, é do mágico que vai resolver.

O raciocínio é óbvio – eu diria simplista: Se o time vence apertado e sofre para criar jogadas, coloca lá o “dez” e…SHAZAN! Tudo resolvido.

Não vai solucionar todos os problemas ofensivos. Porque Carille tem o perfil do Tite antes do ano sabático de estudos, observações e reflexões. Ou seja, um treinador que quer seu time organizado (ou engessado) com a bola para, na perda da posse, estar ordenado na recomposição.

Tite notou que era melhor ganhar mobilidade e criatividade, mesmo que isso provocasse mais riscos atrás, que podem ser minimizados com pressão na perda e trabalho coletivo. Mas isso é conquista de um treinador experiente e antenado. Carille está no início do voo solo. Vai aprender.

Menos mal para ele que não foi com um vexame que seria a eliminação para o Brusque na segunda fase da Copa do Brasil. Como o Tolima foi para Tite em 2011. O Corinthians jogou mal, sofreu atrás e foi previsível nas ações ofensivas. Melhorou um pouco com a entrada do camisa 77 na segunda etapa.

Mas não é justo cobrar de Jadson a criatividade de meia central e único responsável pela articulação se seu melhor momento foi pela direita, com liberdade de movimentação e companheiros mais qualificados dando opções.

A articulação não pode ficar por conta de um só jogador. O tempo de Alex e Riquelme, os típicos meias centrais jogando à frente dos volantes “carimbando” todas as bolas, passou. Em 2017 o trabalho precisa ser dividido.

Jadson não é, nem pode ser Sassá Mutema, personagem de Lima Duarte na novela “O Salvador da Pátria”. Por pouco ele não pagou o pato em Brusque.


Por enquanto, organização do 4-1-4-1 é a boa notícia no Corinthians
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André Rocha

Estreia no Paulista, gramado molhado e difícil em Sorocaba, elenco incompleto. Muito a relativizar na análise do desempenho do Corinthians, agora comandado por Fabio Carille.

Mas se ainda falta criatividade, algo a ser resolvido com o retorno de Jadson, a organização baseada nos princípios de Tite é uma boa notícia. Um 4-1-4-1 com setores bem coordenados, reforçando a impressão da pré-temporada nos Estados Unidos e do amistoso contra a Ferroviária.

Defensivamente, o posicionamento está bem mais cuidadoso do que nos tempos de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira. Gabriel na proteção da última linha de quatro, os quatro meias acompanhando os movimentos. Precisando de um ou outro ajuste na compactação, mas normal pelo início de trabalho.

Na transição ofensiva ainda falta mais mobilidade em progressão, com os ponteiros buscando o jogo por dentro, o apoio dos meias interiores Fellipe Bastos e Rodriguinho, a passagem dos laterais Fagner e Moisés, abertos ou por dentro para desarticular a marcação.

Jô também colaborou pouco abrindo espaços e se colocando em condições de finalizar. O centroavante só apareceu cavando e cobrando o pênalti que definiu a vitória sobre o São Bento por 1 a 0.  Marlone também podia entregar mais nas infiltrações em diagonal para dar opções.

É cedo, mas os progressos não podem tardar. Se a ideia de efetivar Carille é trazer um pouco de Tite de volta, a organização defensiva é necessária, mas também a criatividade e a mobilidade na frente. Por ora ainda lembra mais o Corinthians do treinador da seleção brasileira antes da reciclagem de 2015.

Uma equipe ainda engessada, mas com lastro de evolução em todos os aspectos. Mesmo sem o elenco estelar de outros tempos pode ser forte na temporada. De qualquer forma, já é melhor que o tempo perdido em 2016.

 


A “função Jadson” pode estar de volta ao futebol brasileiro
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André Rocha

Everton Ribeiro foi o melhor jogador dos Brasileiros de 2013 e 2014 como o meia canhoto jogando aberto pela direita no Cruzeiro bicampeão. Partia da ponta para articular no centro, circulando às costas do volante e sendo um homem a mais no meio-campo para desarticular a marcação adversária.

Jadson dividiu com Renato Augusto os elogios e os prêmios de destaque da principal competição nacional em 2015 executando praticamente a mesma função do cruzeirense. Mas com um adicional tático imposto por Tite: as transições mais longas.

Basicamente, jogar de uma linha de fundo à outra. Mas sem a corrida desenfreada dos pontas que voltam com os laterais adversários marcando individualmente. Na marcação por zona do Corinthians campeão, o ponta recompõe posicionado, fecha espaços e só volta até a linha de fundo quando está bem perto dela, com o lateral (Fagner) mais centralizado, próximo aos zagueiros.

A transição defensiva mais longa de Jadson, fechando o corredor direito para o lateral Fagner ficar mais próximo do zagueiro guardando o setor (reprodução TV Globo).

A transição defensiva mais longa de Jadson, fechando o corredor direito para o lateral Fagner ficar mais próximo do zagueiro guardando o setor (reprodução TV Band).

Com a bola, mobilidade para circular, criando superioridade numérica e aparecendo na área para finalizar. Ainda abre o corredor para o lateral passar e buscar o fundo. Sem contar a eficiência nas bolas paradas, em cobranças diretas ou servindo os companheiros. Dentro de um 4-1-4-1 rígido, a “função Jadson” era a peça solta para surpreender o oponente. Líder de assistências no Brasileiro com 12. Na temporada 2015 foram 22, mais 16 gols.

Flagrante do Corinthians no ataque em 2015 com Jadson saindo da ponta e abrindo o corredor para a descida de Fagner e servindo Elias em profundidade atacando a brecha deixada no flanco (reprodução TV Globo).

Flagrante do Corinthians no ataque em 2015 com Jadson saindo da ponta e abrindo o corredor para a descida de Fagner e servindo Elias em profundidade atacando a brecha deixada no flanco (reprodução TV Globo).

O jogador de 33 anos volta de sua aventura milionária na China e planeja o retorno ao Brasil. Estuda proposta oficial do Corinthians, o Atlético-MG também está de olho. Para quem tem mais de 30, qualquer ano a mais influi no condicionamento físico. Mas com experiência e domínio da função, o desempenho pode ser semelhante para equilibrar a própria equipe e desestabilizar o outro lado.

Para executar a “função Jadson” ninguém melhor que o próprio meia.


Num papo tático, Tite explica importância de Jadson – não será fácil repor!
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André Rocha

Jadson está de saída para o Tiajin Quanjian, de Vanderlei Luxemburgo e Luís Fabiano. O clube, da segunda divisão chinesa, pagou a multa rescisória e acertou salários que devem chegar ao triplo do que o craque do Brasileiro, para este que escreve, recebia no Corinthians. Perda inevitável, sentida e, o pior, de difícil reposição.

Há exatos nove dias, Tite não sabia dessa negociação e nos recebeu para um “Papo Tático”. Sem ser perguntado especificamente sobre seu camisa dez, ele explicou com detalhes a importância de Jadson na dinâmica do 4-1-4-1 que fez a melhor equipe do país em 2015 voar no Brasileiro:

“A mobilidade do Jadson foi fundamental, flutuando da direita para dentro. E eu te confesso que não pensei que ele pudesse exercer com tamanha qualidade”, exalta o treinador.

A primeira ideia de Tite para o meia criativo pelo lado, inspirado em Valbuena no 4-1-4-1 da França na Copa do Mundo de 2014, foi Renato Augusto. Pelas impressões de um jogo na Libertadores 2013:

“Contra o Tijuana (3 a 0 no Pacaembu) nós jogamos com duas linhas de quatro, com Renato pela direita e dois atacantes  – Guerrero e Pato – enfiados. E ele jogou muito! Mas já no primeiro jogo do Jadson nessa função eu tive que mudar”, explica.

O meia que quase parou no Flamengo no início de 2015 e parecia descartado virou a diferença a favor do Corinthians pela inteligência.

“Quando a bola está pela esquerda, mesmo numa primeira transição ofensiva, o Jadson sai e flutua às costas dos meio-campistas adversários. Muitas vezes até aparecendo no lado oposto para criar superioridade numérica. Ou voltando para buscar a bola com nosso volante, atraindo a marcação e permitindo a infiltração do companheiro”, detalha Tite.

Jadson sai da direita, circula por todo o ataque às costas dos volantes adversários e cria superioridade numérica - movimentação que fazia a diferença para o Corinthians campeão brasileiro em 2015 (Tactical Pad).

Jadson sai da direita, circula por todo o ataque às costas dos volantes adversários e cria superioridade numérica – movimentação que fazia a diferença para o Corinthians campeão brasileiro em 2015 (Tactical Pad).

Mesmo com tamanha perda, o técnico não pretende mudar sua estrutura tática. Tite tem convicção na eficiência do 4-1-4-1. “Ganha mais um jogador de criação no meio-campo”, revela. E na execução, a distinção da função dos jogadores pelas pontas é nítida.

“Um dá apoio à profundidade, atacar espaço, é agressivo, pisa a área e vai para o gol dando opção de lançamento. Malcom. O outro é de criação. Não consigo ver dois de velocidade pelo lado. No último jogo contra o Avaí, com Malcom e Lucca abertos, a equipe sentiu falta. Só se recompôs quando entrou Danilo”, lembra.

E agora, sem Jadson? Marlone, contratação que deve ser oficializada nos próximos dias, não parece ter características, nem bagagem, para cumprir função tão importante. Com Danilo há técnica, mas perde movimentação. Partir para o mercado? Buscar na base?

Um problema que Tite não contava na projeção da equipe para 2016. Ele também fala sobre isso e outros temas – inclusive como o Barcelona de Luis Enrique tem influência nas suas ideias para o Corinthians – na entrevista exclusiva que você pode conferir hoje, às 16h15, no Esporte Interativo (canal EI MAXX).

 

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