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Eles não podem errar! A dura transição do mercado de treinadores no Brasil
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André Rocha

Quando Zé Ricardo chamou Matheus Sávio para dar instruções enquanto a torcida do Flamengo no Serra Dourada pedia a entrada da joia Vinícius Júnior, o treinador sabia que corria riscos por suas convicções.

Afinal, se o time fosse eliminado da Copa do Brasil, independentemente do rendimento do jovem atacante, que entrou muito mal contra o San Lorenzo na traumática derrota na Libertadores, as chances de ser demitido cresceriam exponencialmente.

Mas Sávio, assim como contra o Atlético Mineiro no Maracanã, na estreia do Campeonato Brasileiro, colocou um cruzamento no fundo das redes do goleiro Felipe do Atlético-GO. O choro copioso do jogador foi sintomático. É muita pressão para quem ainda está no início de sua trajetória entre os profissionais.

O mesmo vale para os treinadores. No país do futebol de resultados, o comandante passa de “boa novidade” e “atualizado” para “estagiário” e “rolando lero” a cada semana. Mesmo que a sua equipe esteja organizada e o placar adverso tenha vindo por uma infelicidade na defesa ou chances perdidas na frente.

Ou até se eles se equivocarem, algo absolutamente natural. No mais imprevisível e caótico dos esportes, o que foi treinado baseado em observação e análise pode dar errado por uma noite ruim do atleta e aquela mudança aleatória, mais por conta da intuição, pode terminar em vitória. Para quem tem bagagem já é um desafio, imagine para novatos.

Eles simplesmente não podem errar. Seja Zé Ricardo, Roger Machado, Eduardo Baptista…Mesmo Jair Ventura, com enorme crédito no Botafogo, quando tentou mudar a maneira de jogar contra o Barcelona de Guayaquil no Estádio Nilton Santos e saiu derrotado as críticas vieram pesadas.

A transição no mercado de treinadores é dura. Depois dos 7 a 1 que mandaram Luiz Felipe Scolari para a China e da queda em desempenho e resultados de grifes como Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho e até Marcelo Oliveira, apesar dos títulos com Cruzeiro e Palmeiras, um buraco foi aberto para uma leva de profissionais com conceitos atualizados, vendo e pensando o futebol como é jogado nos grandes centros.

Um jogo mais coletivo e que trabalha com informações e gestão na comissão técnica. Menos com carisma e discursos motivacionais. Quando o resultado acontece, tudo isso é louvado. Se não, bate a saudade dos velhos nomes e de fórmulas antigas. Como se o que deu certo na década passada necessariamente dará em 2017.

O cenário é complexo. Dá para contar nos dedos de uma das mãos os treinadores do país que conseguem unir vivência como ex-jogador, conteúdo atual, sensibilidade na gestão de grupo e da comissão técnica. Ou seja, no auge da carreira. O melhor deles está na CBF.

Por conta de todas as dificuldades citadas, as experiências com estrangeiros não foram felizes – vide Diego Aguirre, Ricardo Gareca, Edgardo Bauza, Juan Carlos Osorio, entre outros. Quando estão começando a aprender o idioma para se comunicar já estão passando no RH e voltando para casa.

Simplesmente não há paciência, porque falta convicção para acreditar num projeto de longo prazo. Roger Machado e Zé Ricardo acharam que teriam um pouco mais de paz e respaldo para trabalhar por conta de conquistas nos estaduais. Mas basta uma sequência de resultados ruins e tudo é esquecido.

Ainda mais em clubes dos quais se espera muito. Pela capacidade de investimento e ilusão alimentada por departamentos de marketing e também por nós da imprensa, o torcedor passa a crer que seu time de coração conta com um elenco estelar e que basta o treinador distribuir certo as camisas e não atrapalhar para tudo acontecer.

Não é assim que funciona. Estar atualizado nas ideias e métodos ajuda a não ser surpreendido, a minimizar a aleatoriedade do jogo. Mas não garante nada. Muito menos onde não se valoriza filosofia e identidade, só o placar final e a conquista que vão gerar memes e zoações. Até tudo ser esquecido no próximo jogo.

Por ora, Dorival Júnior é o sobrevivente na Série A, comandando o Santos desde julho de 2015. Já Ney Franco foi demitido do Sport depois de perder a Copa do Nordeste para o Bahia com menos de dois meses de trabalho. Treinadores com rodagem de mais de uma década. Paulo Autuori, com mais de quarenta anos à beira do campo, cansou. “A rotina consome”, explicou. Vai ser gestor no Atlético-PR e abre espaço para Eduardo Baptista.

Paciência não significa ser permissivo e deixar de cobrar o desempenho que chega ao resultado. Os profissionais são bem remunerados para isso. O ponto nevrálgico é o imediatismo, a incapacidade de observar um lastro de evolução, vislumbrar um futuro melhor. Tudo ainda se resume à tentativa e erro. Até acertar. Para ontem.

Enquanto isso, segue a roda vida, a máquina de moer técnicos. Zé Ricardo escapou no gol de Matheus Sávio. Quem será o próximo?


“Três volantes”, “retranca”? Vitória do Flamengo chuta longe os clichês
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André Rocha

O 4-1-4-1 montado por Zé Ricardo sem Diego: Márcio Araújo na proteção da defesa e força pelas laterais com triangulações. Mais efetivo pela esquerda, atacando o lado fragilizado do Botafogo no habitual 4-3-1-2 que se desmembra em duas linhas de quatro sem a bola (Tactical Pad).

A semana inteira de preparação do Flamengo foi de expectativa para a solução que Zé Ricardo encontraria para repor o lesionado Diego. Ao sinalizar a entrada de Rômulo, surgiu a velha confusão de conceitos. Misturando função e posição.

“Três volantes”, “Flamengo vai jogar pelo empate”, “técnico retranqueiro”. Foi o debate que se viu e ouviu sobre o time rubro-negro antes da bola rolar. Até pela vantagem de empate na semifinal do Carioca por conta da melhor campanha.

No Maracanã molhado pela chuva, o que se viu foi o time “cauteloso” propondo o jogo. No 4-1-4-1, desenho tático “de cabeceira” de Zé Ricardo, desmanchado pela presença de Diego, típico meia central de um 4-2-3-1.

Trabalhando a bola, adiantando as linhas e apertando a marcação no campo adversário. Se não tinha o meia criativo, fazia as jogadas pelos flancos com triangulações. À direita, Pará, Arão e Gabriel; pela esquerda, Trauco, Romulo e Everton.

Guerrero voltava para fazer o pivô e distribuir as jogadas. Complicando um Botafogo que nitidamente buscou dosar energias no primeiro tempo para compensar o desgaste da viagem ao Equador e apenas um dia de treinamento para o clássico.

Só que tinha problemas além do cansaço, em função dos desfalques. Especialmente no meio-campo: Aírton, ainda lesionado, e Bruno Silva, suspenso pela estúpida expulsão depois do apito final da inútil decisão da Taça Rio. Fora Montillo.

Na lateral direita, mais uma improvisação: o volante Fernandes, que se juntava a João Paulo, o volante-meia do 4-3-1-2 armado por Jair Ventura que abria à direita para formar a linha de quatro no meio. Deixando Rodrigo Pimpão pela esquerda. Pelo contexto, parecia mais razoável inverter seu melhor ponteiro e atacar o setor mais forte do Fla, o esquerdo.

Acabou defendendo mal e o Flamengo teve o controle do jogo. Nem tanto nos números do primeiro tempo – 51% de posse e as mesmas cinco finalizações do rival, três a zero no alvo. Mas principalmente por sempre parecer mais próximo do gol.

Mas bolas nas redes só na segunda etapa. Com Guerrero, chegando aos nove no Carioca. Participando da construção pela esquerda e aparecendo para completar o corte errado de Victor Luís e abrir o placar. Depois a cobrança de pênalti segura e forte no meio do gol com o campo molhado.

A chance mais cristalina para o peruano acabou sendo desperdiçada em jogada de Pará para Berrío, substituto de Romulo, e passe para o chute fraco de Guerrero. De novo faltou ao Flamengo em um jogo grande a contundência no ataque para construir a vitória com mais autoridade.

O pênalti tolo de Rever sofrido e bem cobrado por Sassá, que entrara na vaga de Roger, transferiu uma emoção ao final do jogo, com o Botafogo, mesmo exausto, se lançando ao ataque, que não reflete o que foi a semifinal.

Posse de bola praticamente dividida, Flamengo finalizando 13 vezes, uma a mais que o Bota. Seis, porém, na direção da meta de Gatito Fernández contra apenas duas do alvinegro. O time de Zé Ricardo não foi brilhante, mas também não era com Diego em campo na maioria dos jogos. Em nenhum momento, porém, jogou fechado, especulando, dando a bola ao rival.

Com três volantes de ofício, mas na prática apenas um: Márcio Araújo, que cumpriu boa atuação. A tendência é manter o desenho tático e a proposta para a decisão. Um Fla-Flu que não valia o título regional desde 1995. Numa final em dois jogos como agora, desde 1991.

Pelo desempenho na temporada, o tricolor parece mais forte. E o Flamengo ainda tem um jogo decisivo contra o Atlético-PR na quarta, antes da primeira decisão. Favorito ou não, é improvável que o time de Zé Ricardo se acovarde no clássico. Com ou sem volantes, chutando pra longe os clichês.

(Estatísticas: Footstats)


Vitória histórica para afirmar o Botafogo como um time pronto e maduro
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André Rocha

Eram 44 anos sem uma vitória fora de casa na Libertadores. Era o quarto adversário tradicional nesta edição, depois de Colo Colo, Olimpia e Estudiantes. O Atlético Nacional, atual campeão, no Atanasio Girardot.

Sem o bom zagueiro Marcelo, sem Aírton e Montillo. A ausência do argentino, ao menos, fez o Botafogo de Jair Ventura voltar ao 4-3-1-2 que varia para o 4-4-2 sem a bola do Brasileiro, dando liberdade a Camilo.

Linhas compactas para negar espaços e controlar o jogo sem a bola. A trinca de volantes formada por Lindoso, Bruno Silva e João Paulo marcando por zona e tirando espaços de Macnelly Torres, o meia criativo do 4-3-3 armado por Reinaldo Rueda.

A chave novamente era Pimpão, que voltava pela esquerda na segunda linha de quatro e ainda era a referência de velocidade para os contragolpes. Depois de um impedimento inexistente, o atacante acelerou a transição ofensiva, mas soube aguardar a chegada dos companheiros para atacar em bloco e João Paulo, pela direita, colocar na cabeça de Camilo.

Uma das três finalizações alvinegras, duas no alvo. Contra os 62% de posse e as cinco finalizações do time da casa. Pouco, mais pelo mérito alvinegro na organização ofensiva que só tinha dificuldades contra os dribles do ponteiro Ibargüen pela esquerda.

Segundo tempo com Rueda trocando Bernal por Aldo Ramírez para melhorar a produção do meio-campo. Jair Ventura perdeu Pimpão que, sacrificado com função tão exaustiva, estourou o músculo. Entrou Guilherme.

Jovem atacante enviado para o lado direito e Camilo recuou à esquerda num 4-1-4-1 com Lindoso mais plantado entre a defesa e o meio. O time sentiu a falta de seu atacante mais incisivo e recuou. Rueda fez a leitura e abriu Cristian Dájome como ala pela direita e mandou Daryo Moreno para o centro do ataque. O zagueiro Nájera saiu e o lateral Bocanegra ficou um pouco mais fixo.

A pressão aumentou, o time colombiano rondou mais a área e finalizou nove vezes em 45 minutos. Mas sem a chance cristalina. Jair reoxigenou o time com juventude: Fernandes e Sassá nas vagas de Camilo e Roger. Era se defender e esperar a chance do contra-ataque letal.

Plano executado com perfeição. Nos acréscimos, a arrancada de Guilherme e a finalização precisa no canto esquerdo de Armani. O Atlético estava invicto em casa em 2017 e não perdia para equipes estrangeiras há dois anos em seu estádio.

Mas o Botafogo foi maduro, ganhou casca com o poder de superação desde o ano passado. De candidato ao rebaixamento no Brasileiro a classificado para as fases eliminatórias. Depois só pedreiras e vagas conquistadas no limite. Agora um grupo duríssimo.

Até aqui, nada foi um obstáculo capaz de conter o Botafogo que parece pronto para tudo nesta Libertadores. Depois da vitória histórica, o próximo desafio é o Barcelona. Não o espanhol, mas o colíder do grupo com a mesma campanha em todos os critérios. Em Guayaquil. Quem pode duvidar do time de Jair Ventura?

(Estatísticas: Footstats)

 


Pimpão, sacrificado e iluminado no Botafogo 100% no Engenhão
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André Rocha

Os confrontos eliminatórios para entrar na fase de grupos da Libertadores sacrificou o primeiro turno do Botafogo no Carioca e também queimou etapas de preparação da equipe, que precisava se apresentar competitiva logo no início da temporada.

Por isso também o técnico Jair Ventura não teve tanto tempo para testar, experimentar e ensaiar o encaixe da principal contratação que mexeria na estrutura tática: Montillo entrou centralizado atrás do atacante mais enfiado.

Camilo foi jogado para o lado do campo. Inicialmente mais recuado. Contra o Estudiantes na abertura do Grupo 1, pela direita e mais liberado. Porque o lado forte do time argentino era o direito, com as descidas de Facundo Sánchez apoiando Solari, o meia aberto no 4-4-2 armado por Nelson Vivas.

A dupla na ala, mais o grande destaque do time, o colombiano Otero. Circulando às costas dos volantes Aírton e Bruno Silva e aparecendo também no setor de Victor Luis. Para ajudar o lateral esquerdo, Jair posicionou Rodrigo Pimpão no setor. Com responsabilidade de defender, mas também acelerar, procurar a diagonal, se juntar a Roger.

O Bota controlou a posse com 62%, mas finalizou três vezes, duas no alvo. Um chute de Camilo no final da primeira etapa e o golaço de Roger, completando de voleio outro voleio de Bruno Silva. O Estudiantes concluiu o dobro, três na direção da meta de Gatito Fernandez. Jogo duríssimo.

Porque Montillo não justificou o sacrifício dos colegas para que ele tivesse liberdade. Criou pouco. O time argentino foi se instalando no campo do ataque e, numa falta boba de Marcelo Conceição, zagueiro novamente improvisado na lateral direita que acertou o cruzamento para o primeiro gol, a cobrança perfeita de Otero.

Até Jair perder a paciência com Montillo, que também cansou. Entrou Sassá. Inicialmente com Camilo mantendo o posicionamento aberto, depois centralizado. Com Pimpão voltando ainda mais para realizar o trabalho defensivo.

Mas sem deixar de aparecer na área do oponente, como foi decisivo contra Colo Colo e Olimpia. Foi às redes novamente. O terceiro dele no torneio. Incansável em todo o campo. Sacrificado e iluminado.

Símbolo da entrega e do espírito competitivo de um Botafogo com 100% de aproveitamento no Engenhão e que será duro em qualquer campo, num grupo que já se mostra equilibrado na primeira rodada.

(Estatísticas: Footstats)


Botafogo sofre sem Aírton, mas vitória é alívio para a volta no Chile
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André Rocha

Jogo decisivo em fevereiro é sempre cruel. O clima de final no Engenhão lotado transferia tensão ao Botafogo pela responsabilidade de construir vantagem com um time remontado para abrigar Montillo.

Jair Ventura solucionou mantendo o desenho tático com a mesma variação de 2016: um 4-3-1-2 com Camilo mais atrás em relação a Montillo, que ficava liberado com Roger sem a bola, à frente de duas linhas de quatro. Na de meio-campo, Bruno Silva à direita, Aírton e Camilo centralizados e Rodrigo Pimpão pela esquerda.

Mas se adaptar às peças novas com a obrigação de buscar o ataque num início de temporada é bem complexo. Mais ainda com o bom desempenho do Colo-Colo nos primeiros minutos, com o ala Brayan Véjar e o meia Ramón Fernández levando vantagem pela esquerda seguidamente sobre Bruno Silva  e Jonas.

Até Camilo e Montillo se aproximarem, o alvinegro ganhar confiança e avançar as linhas. Mas ainda pilhado, e já perigosamente com faltas seguidas e reclamações junto ao árbitro Juan Soto. O Colo-Colo já se fragilizou com a saída por contusão de Zaldivia para a entrada de Fierro – aquele mesmo, ex-Flamengo –  como um dos três zagueiros da equipe chilena montada pelo técnico Pablo Guede.

O golpe que mudou o jogo veio de Aírton. Não uma entrada violenta, marca do volante ao longo da carreira, mas o chute forte e preciso do meio-campista que se reinventou e agora marca, joga e finaliza para marcar seu primeiro gol com a camisa do Botafogo.

Com a atmosfera favorável e a retaguarda desarrumada do Colo-Colo, o segundo gol veio naturalmente, mesmo contra de Esteban Padez. Contragolpe bem trabalhado por Montillo e Pimpão. Parecia a senha para uma vitória confortável a ser administrada no jogo de volta.

Mas Aírton saiu sentindo muitas dores no cotovelo e não voltou. Entrou João Paulo, outra peça nova, também precisando de ajuste. Foi para o lado direito e Bruno Silva ficou mais fixo à frente da defesa. Mudanças demais para uma decisão tão prematura. E logo uma peça tão importante…

O Bota cedeu espaços e na jogada trabalhada sobre a defesa exposta, Paredes encontrou o gol “qualificado” que o time chileno precisava para transformar a euforia no estádio na mesma tensão do início da partida. O Colo-Colo cresceu com Pedro Morález na articulação e Cristofer González à esquerda nas vagas de Fernández e Véjar e passou a acionar com mais frequência Rivero e Paredes.

O Bota foi cansando e com dificuldades para trabalhar com um típico pivô como Roger. O centroavante deu lugar a Joel no final para acelerar os contragolpes, sem muito sucesso. Antes, Jair Ventura tirou o extenuado Camilo e colocou Matheus Fernandes, volante formado no clube, para encorpar o meio-campo. Mas Montillo também havia cansado. Podia ter mantido o camisa dez.

Menos mal que o jovem zagueiro Marcelo Conceição se agigantou na retaguarda, apesar do toque com o braço na área alvinegra no final que a arbitragem ignorou. No apito derradeiro, um misto de alívio e preocupação.

Quem diria há uns cinco anos que um time brasileiro sentiria tanta falta de Aírton em um jogo de Libertadores. Aconteceu com o Botafogo, mas há vida e vantagem para a volta no Chile.


Jair Ventura, exclusivo: Simeone é modelo, Montillo um mistério
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André Rocha

Jair Ventura Botafogo

Agora com pré-temporada, o jovem técnico do Botafogo pode consolidar seus conceitos que apareceram já no Brasileiro de 2016. Sucedeu Ricardo Gomes, manteve a estrutura inicial e depois acrescentou suas convicções ao time que surpreendeu se firmando no G-6.

Com a cabeça fervilhando de ideias, o filho de Jairzinho atendeu ao blog por telefone e falou sobre os planos para 2017.

BLOG – Você assumiu o time na saída de Ricardo Gomes para o São Paulo, manteve a estrutura da equipe e depois foi mudando. O que você planeja taticamente para a temporada?

JAIR VENTURA – Eu trabalhei com vários sistemas. De fato, no início mantive o losango no meio-campo que varia para duas linhas de quatro sem a bola – um volante abre, o externo recua do outro lado e deixa o meia e o centroavante na frente. Mas joguei com meio no quadrado (4-2-2-2), 4-2-3-1, 4-3-3 com um e dois volantes. Tudo depende da necessidade e da disponibilidade do elenco. Jogo a jogo.

BLOG – A estratégia do adversário também influi, certo?

JAIR VENTURA – É claro, por isso estudamos tão minuciosamente quem vamos enfrentar. O jogo pode pedir dois centroavantes ou dois meias, por exemplo, se o rival fecha bem as laterais. Já terminei jogo com o Camilo mais recuado ou só o Lindoso de volante, ele que era camisa dez do Madureira. Mas primeiro dependo do elenco disponível. Quando perdi Aírton e Bruno Silva não havia razão para escalar três médios atrás do Camilo.

BLOG – Haverá rodízio no elenco?

JAIR VENTURA – Ele acontece naturalmente, por lesões e, principalmente, pelo desgaste. O jogo está muito intenso, são cada vez mais ações de alta intensidade no campo. Antes o jogador perdia a bola e voltava para o próprio campo para depois marcar. Hoje ele perde e tem que pressionar. É exigência do futebol atual o atacante se dedicar sem a bola. Amadurecemos isso e os números mostram que deu certo, fomos a melhor defesa do returno do Brasileiro.

BLOG – Como o Montillo vai funcionar nesta engrenagem?

JAIR VENTURA – Desculpe, mas isso não vou abrir porque gosto de criar dúvida e tentar surpreender os adversários. De qualquer forma, ainda vou sentar com ele, colocar um quadro e conversar sobre o melhor posicionamento.

BLOG – A ideia do ponta articulador, o meia que sai do flanco para articular as jogadas, te agrada?

JAIR VENTURA – Não é o ideal, mas pode acontecer. Por exemplo, se o lateral do adversário não desce tanto para fazer dupla contra o meu lateral. Se o jogo pedir ele pode ser meia com o Camilo. Não tenho medo de correr riscos se houver a possibilidade.

BLOG – A ideia de aproveitar os jovens da base no elenco permanece?

JAIR VENTURA  – Sem dúvida. Está no meu DNA, eu trabalhei na base. Em 2015 comandei o time como interino e contra o Bahia usei sete jogadores criados no clube. O Canales chegou para ser titular, mas o Sassá mostrou mais desempenho. Eu só não vou usar por usar. A avaliação precisa ser cuidadosa. Por exemplo, hoje eu não tenho um externo de velocidade dentro do clube pronto para entrar e repor a saída do Neílton. Tenho que ir ao mercado e não forçar uma barra só porque minha filosofia é lançar jovens.

BLOG – Para terminar, quais são suas referências como treinador, no Brasil e no mundo?

JAIR VENTURA – Posso dizer que sou um privilegiado, pois nos oito anos em que trabalhei como assistente técnico convivi com grandes treinadores aqui no Botafogo. Aprendi muito com cada um deles e sigo aprendendo, sou um eterno aprendiz. Mas lá fora meu espelho é o Simeone, do Atlético de Madrid. Sem grandes estrelas venceu Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique. O poder de persuasão dele é impressionante. Ninguém gosta de correr, o jogador prefere estar com a bola. Convencê-los a jogar sem ela nunca é fácil.


Diego e Conca no Fla, Montillo e Camilo no Bota. Há espaço para dois “dez”
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André Rocha

Primeiro o Botafogo anunciou Montillo. Agora o Flamengo confirma a contratação de Conca. Argentinos acima dos 30 anos, com experiência de Libertadores.

Com Camilo no alvinegro e Diego vestindo vermelho e preto, a questão é como abrigar dois meias criativos no time. Surgem as perguntas de sempre: “Quem é que marca?”, “Um não vai tomar o espaço do outro?”, “O time não fica mais lento?”

O futebol mudou. Fla e Bota tem jovens treinadores, antenados e estudiosos. Depois de uma temporada estafante, de mudanças radicais na vida de ambos, estavam no curso de técnicos da CBF. Zé Ricardo e Jair Ventura trabalham com marcação por zona, sabem que o jogo hoje se baseia muito mais em ocupação de espaços que na capacidade de desarmar.

Poucos times no mundo podem se comparar individualmente ao Barcelona do trio MSN, mas em termos de dinâmica ofensiva a equipe catalã virou referência usando Messi como um ponta articulador partindo da direita e Neymar mais agudo no lado oposto.

Tite adaptou a ideia ao Corinthians no título brasileiro de 2015 usando Jadson, um típico camisa dez, aberto à direita e se juntando aos meias para armar as jogadas e o jovem Malcom pela esquerda infiltrando em diagonal e se aproximando de Vagner Love no ataque. Virou tendência que o técnico levou para a seleção brasileira, com Coutinho de um lado e Neymar do outro.

Zé Ricardo tentou encontrar esse elemento no elenco montado por Muricy Ramalho para ajudar Diego, que é um “dez” de condução de bola e finalização. Não encontrou em Mancuello, Ederson e Alan Patrick, por isso seguiu com os ponteiros velocistas até o final da temporada.

Conca chega como um meia mais passador. Já atuou pelos flancos ao longo da carreira, mas por conta dos seus 33 anos e dos problemas no joelho que devem adiar sua estreia para março ou abril, a tendência é que jogue mais centralizado e sem tantas responsabilidades sem a bola. O time fecha em duas linhas de quatro e o argentino ficaria à frente, mais próximo de Guerrero.

Em tese, Diego seria o sacrificado sem a bola, voltando pelo lado. Não acompanhando lateral, mas guardando seu posicionamento. Já jogou assim pelo Atlético de Madrid com Simeone e com a pré-temporada pode ganhar resistência para a função.

Com a chegada de Conca, Diego pode fazer a função de ponta articulador, cortando para dentro e ajudando o meia central na armação, deixando para o ponteiro do lado oposto a missão de acelerar e infiltrar em diagonal. Sem a bola, os jogadores de flanco voltam e liberam o argentino a ficar mais próximo de Guerrero (Tactical Pad).

Com a chegada de Conca, Diego pode fazer a função de ponta articulador, cortando para dentro e ajudando o meia central na armação, deixando para o ponteiro do lado oposto a missão de acelerar e infiltrar em diagonal. Sem a bola, os jogadores de flanco voltam e liberam o argentino a ficar mais próximo de Guerrero (Tactical Pad).

Já no Bota, até por característica, a tendência é que o próprio Montillo exerça esta função pelo flanco, deixando o centro para Camilo. A grande sacada desse armador pela ponta é a liberdade para circular por todos os setores, criando superioridade numérica no meio e abrindo o corredor para o lateral ou outro companheiro atacar e buscar o fundo.

Na recomposição não é preciso acompanhar o lateral até a linha de fundo. O jogador fecha o setor, o lateral do próprio time não é arrastado pelo adversário e deixa o espaço livre. É ele quem vai tentar bloquear o cruzamento. O meia mais aberto ou o ponteiro tem como função primordial sem a bola evitar que a virada de jogo encontre um oponente livre ou fazer pressão no campo de ataque, de acordo com a proposta de jogo.

Quanto à velocidade na transição ofensiva, reparem que os dois clubes cariocas estão no mercado atrás de atacantes mais agudos. O Fla busca Marinho do Vitória, o Bota tentou Osvaldo e agora mira Lucca – reserva de Malcom no Corinthians de 2015. Não é por acaso. De um lado o meia para organizar, do outro o atacante para ser a referência de velocidade para os contragolpes e uma companhia para a referência na frente.

Se no Fla não mudaria tanto a execução do 4-2-3-1, no Bota a tendência é de uma postura mais ofensiva, desmontando o losango no meio que varia para duas linhas de quatro sem a bola. A menos que Jair pense numa dupla de armadores atrás de um centroavante rápido que ainda pode ser William Pottker da Ponte Preta.

Jair Ventura pode optar pela manutenção da estrutura tática de 2016 e encaixar Montillo numa função parecida com a de Neilton, ficando mais solto com Camilo para pensar o jogo e deixando a velocidade para o atacante de referência (Tactical Pad).

Jair Ventura pode optar pela manutenção da estrutura tática de 2016 e encaixar Montillo numa função parecida com a de Neilton, ficando mais solto com Camilo para pensar o jogo e deixando a velocidade para o atacante de referência (Tactical Pad).

Tudo com muita movimentação, sem posições fixas. O “caos” na frente e a organização atrás, com linhas compactas e jogadores mais próximos. Como manda o futebol atual. Como pensam Zé Ricardo e Jair Ventura nos cariocas que disputam a Libertadores. O filho de Jairzinho com um pouco mais de urgência porque o torneio continental começa mais cedo.

Impossível garantir que dará certo, pois é uma questão que envolve entrosamento, sintonia, sequência de jogos sem lesões, gestão de vestiário…A boa notícia fora de campo é que são contratações dentro da realidade do orçamento dos clubes, sem loucuras.

Dentro das quatro linhas, a opção de reunir dois meias criativos, ou “camisas dez”, é mais que viável no futebol atual. Podem e devem jogar juntos.


A montanha russa de emoções do Botafogo até o “título” do G-6
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André Rocha

Sassa e Jair Ventura Botafogo

O Botafogo garantiu a vaga na fase preliminar da Libertadores com a vitória sobre os reservas do Grêmio de ressaca em Porto Alegre. Com Aírton sendo expulso após briga com Sassá, alvo da ira do técnico Jair Ventura por ter provocado o companheiro. Difícil de entender, surreal até.

Símbolo da montanha russa de emoções do time alvinegro no Brasileiro. De virtual rebaixado no retorno à Série A, muito por conta da situação financeira caótica do clube, passando por uma recuperação surpreendente depois da saída de Ricardo Gomes e a efetivação de um jovem treinador, filho do ídolo Jairzinho.

Até a queda de produção e nos resultados nas últimas rodadas antes da derradeira. Foram três empates e duas derrotas até o triunfo do alívio na Arena do Grêmio com gol do Bruno Silva.

Alívio. Por estar na Libertadores. Quem diria que o ano do Bota terminaria assim? Do time organizado, mas sem criatividade e poder de fogo no início da competição, depois os muitos desfalques e a seqüência de resultados ruins que pareciam condenar a equipe ao destino anunciado antes da bola rolar.

Até a estreia arrebatadora de Camilo nos 3 a 2 sobre o Internacional no Beira-Rio, o elenco novamente completo e Jair Ventura aproveitando a coordenação dos setores que já existia e adicionando velocidade nas transições defensiva e ofensiva dentro da mesma variação do 4-3-1-2 para as duas linhas de quatro que aproximava os setores e dava liberdade a Camilo.

Mudança de patamar a ponto de sonhar com G-4 antes das mudanças da Conmebol que aumentaram o número de vagas. Com a classificação encaminhada e a distância de Palmeiras, Santos e Flamengo, uma certa acomodação.

Princípio de crise com a derrota em casa por 2 a 0 para a Chapecoense e torcida gritando “Time sem vergonha!” Depois o perigo de ser ultrapassado e no fim a garantia da nova meta. Mas já com preocupações para a montagem do elenco em 2017 que precisa ser rápida porque já tera jogo decisivo em fevereiro para garantir vaga na fase de grupos do torneio continental.

Porque as pretensões mudaram nesta incrível virada. Em maio, terminar na primeira página da tabela era previsão mais que otimista. Com esta visão do todo, o G-6 foi um “título”, mas, na prática, com sorriso amarelo na última partida. Com jogadores tensos e saindo no braço.

O futebol é dinâmico mesmo.


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