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Palmeiras é favorito, mas pode dar o que o Santos de Jair precisa: espaços
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André Rocha

Um terminou a fase de grupos com a melhor campanha e nas quartas-de-final enfiou 8 a 0 no placar agregado sobre o Novo Horizontino. Tem um dos elencos mais qualificados do país e o artilheiro da competição: Borja, com 6 gols, mas que vai ficar de fora das semifinais pelo absurdo no calendário brasileiro de se jogar em datas FIFA. Melhor ataque, time que mais finaliza, desarma certo e só fica atrás do Corinthians na efetividade dos passes.

O outro ficou com a terceira pior campanha entre os grandes paulistas, um ponto apenas à frente do São Paulo claudicante de Dorival Júnior e no primeiro mata-mata sofreu, não marcou gols sobre o Botafogo de Ribeirão Preto e precisou da disputa de pênaltis, com cobranças bizarras, para conseguir a classificação.

Agora Palmeiras e Santos se cruzam e, obviamente, há um claro favorito. Até por ter vencido por 2 a 1 no Allianz Parque no primeiro duelo de 2018. Mas há um detalhe que tem passado batido nas prévias do clássico: o contexto pode entregar uma arma ao Santos.

O time de Jair Ventura vem sendo criticado pela dificuldade de propor jogo e criar espaços em sistemas defensivos mais fechados. Mesmo com mais dinâmica no meio-campo com Léo Cittadini e Jean Mota nas vagas de Renato e Vecchio, a movimentação não cria jogo entre as linhas do adversário e a equipe fica engessada, previsível. Sem recursos, é a que mais levanta bolas no estadual.

Só que mesmo no Pacaembu com maioria santista no sábado, a tendência é que o Palmeiras busque a ocupação do campo de ataque no ritmo de Lucas Lima, com Marcos Rocha e Victor Luiz apoiando Bruno Henrique e mais o quarteto ofensivo que novamente terá Keno e Dudu pelos flancos e Willian mais centralizado, porém com constante movimentação. Como consequência, deve ceder o que Jair Ventura mais precisa: espaços.

É óbvio que o volume de jogo e a intensidade impostas pela equipe de Roger Machado podem criar muitos problemas para um time ainda buscando ajuste. Mas se conseguir compactar setores num 4-1-4-1 com um bom trabalho de recomposição pelos flancos de Eduardo Sasha e Rodrygo e entrega sem a bola do garoto Diogo Vítor, que deve entrar na vaga de Jean Mota, o Santos pode complicar a provável proposta alviverde.

Especialmente com Gabriel Barbosa, o “Gabigol”, que não estava em campo no jogo da fase de grupos, para cima de Antonio Carlos e Thiago Martins, mesmo com a proteção de Felipe Melo. É atacante inconstante e com dificuldades na leitura de jogo, mas com campo para explorar as costas da defesa adversária ou no um contra um para cortar e finalizar de canhota é um perigo. Já marcou seis gols na história do clássico.

Em tese, o Palmeiras tem tudo para se garantir em mais uma decisão do Paulistão. Mas o Santos de Jair Ventura tem uma chance e os espaços como trunfo. Ainda que não honre o DNA ofensivo do clube, o time merece respeito.

Palmeiras no 4-2-3-1 deve tomar a iniciativa, mesmo no Pacaembu com maioria santista. Mobilidade na frente, Lucas Lima articulando e apoio constante dos laterais Marcos Rocha e Victor Luiz que vai exigir concentração de Sasha e Rodrygo na recomposição. Mas com espaço para acelerar contragolpes, o Santos de Jair Ventura, provavelmente num 4-1-4-1, pode complicar a proposta alviverde com Gabigol para cima de Antonio Carlos e Thiago Martins. Roger Machado vai precisar da maior proteção de Felipe Melo para a sua zaga (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)


Garotada, torcida única e “Venturabol”. O Santos dos contrastes no Pacaembu
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André Rocha

Foi diferente ver o Pacaembu com torcida única do Santos contra o time mais popular de São Paulo. Não que o alvinegro praiano não possa desfrutar da vantagem que os rivais têm de mandar seus jogos na maior cidade da América Latina. Muito menos que sua gente não tenha capacidade de lotar estádios maiores que a Vila Belmiro. Foi apenas inusitado. Um contraste com os domingos de Morumbi dividido de outros tempos. Não exatamente melhores, mas diferentes.

Tão estranho quanto a visão distorcida de que Jair Ventura é o José Mourinho da nova geração de treinadores no Brasil. O seu Botafogo não dava a bola para o adversário, mesmo jogando em casa, e abusava do pragmatismo se defendendo independentemente do contexto da partida.

A crítica ao jovem técnico é comum a tantos outros no país: suas equipes precisam de espaços para atacar. Quando é preciso criá-los se complica. E aí apela para o recurso mais simples: roda a bola de um lado para outro até cruzar na área. Uma espécie de “Venturabol”.

É preciso entender que não há nenhum preconceito contra as bolas levantadas. A questão é que quando elas não são consequência de uma ação ofensiva bem trabalhada na qual o jogador pelo flanco chega ao fundo em condições de servir seu companheiro. O cruzamento mais comum é aquele que quase sempre está mais para o zagueiro que para o atacante.

Daniel Guedes cruzou 20 bolas no empate em 1 a 1 com o Corinthians. Acertou duas. Jean Mota foi mais eficiente: de 12 no total acertou três. Total de 47, com nove acertos. Números comuns, na média brasileira de quem precisa atacar. Mas que refletem a opção por uma jogada que, da forma com que é executada, não tem eficiência, nem eficácia. Mesmo quando a equipe termina a partida com 53% de posse de bola.

Só quando Cássio largou nos pés do jovem Diogo Vítor, 21 anos. Que entrara na vaga de Rodrygo, de 17, em sua estreia como titular substituindo o suspenso Gabigol. Para empatar e salvar o time da derrota que parecia encaminhada pelo chute de Renê Júnior ainda no primeiro tempo.

Revés que poderia ter sido decretado na segunda etapa com oportunidades desperdiçadas pelo time de Fabio Carille, novamente com Jadson e Rodriguinho mais soltos, alternando na função de “falso nove”. Inicialmente parecia que a queda de energia no estádio, a terceira em três meses, tinha beneficiado os visitantes.

Mas os garotos salvaram o time da derrota. Que poderia ter se transformado em virada se aos 45 minutos o árbitro Luiz Flávio de Oliveira marcasse dentro da área, como de fato aconteceu, a falta de Balbuena em Léo Cittadini anotada fora. Cittadini, outro que chegou menino ao Santos e no clássico, substituindo Renato, tornou o meio-campo mais dinâmico e o time mais agressivo. Foram 15 finalizações, três a mais que o Corinthians – seis para cada lado no alvo. Mesmo sem Gabigol, suspenso.

O Santos sempre parece mais forte quando usa a garotada. Mesmo se não abrir a defesa adversária respeitando a tradição do clube, com bola no chão, técnica e habilidade. Mais um contraste histórico no domingo de Pacaembu com jeito de Vila Belmiro.

(Estatísticas: Footstats)


Livre, leve e solto. Gabigol encontra no Santos o que lhe negaram na Europa
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André Rocha

Foto: Rafael Arbex/Estadão

Gabriel Barbosa já foi às redes três vezes no seu retorno ao Santos. Uma por partida. Mais que as duas em um ano e meio da frustrada experiência no futebol europeu – um gol pela Internazionale em dez jogos e outro pelo Benfica nas cinco vezes em que esteve em campo.

O encaixe praticamente imediato no time de Jair Ventura na volta ao Brasil tem pouco ou nada a ver com a tradicional “saudade do feijão”. O fato é que ele reencontrou na Vila Belmiro o que lhe foi negado no Velho Continente, mesmo em ligas que não estão entre as mais qualificadas e competitivas: uma equipe que jogue em função dele.

Além de não lidar bem com a reserva, outra crítica, velada ou não, que o “Gabigol” recebia de treinadores e até companheiros era a deficiência na leitura de jogo. Sem contar a pouca dedicação no trabalho sem bola. Algo já notado nos Jogos Olímpicos, quando o atacante fazia o lado direito e falhava na recomposição. Não comprometeu na conquista da sonhada medalha de ouro, mas foi o que menos se destacou no quarteto com Gabriel Jesus, Neymar e Luan.

Diante de adversários com linhas compactas fechando a área, Gabriel não conseguia ler os espaços para atacar nem buscar o jogo associativo fazendo parede para seus companheiros. Seu estilo é de receber e já partir para a conclusão. Sem muito trabalho coletivo. Ou só da equipe para serví-lo.

Para isto precisa de liberdade total. Como é talentoso, mas não um fora de série, na Itália e em Portugal não aceitaram conceder a ele este “mimo”.  Mas por aqui pode fazer a diferença. Não por acaso, Jair Ventura deixa Gabriel solto na frente. Na vitória sobre o São Paulo por 1 a 0 no Morumbi, com Eduardo Sasha pela direita, Copete à esquerda e Vecchio centralizado na linha de meias do 4-2-3-1.  Para marcar o gol único do clássico em chute preciso no canto direito de Sidão.

São dez finalizações até agora. Oito dentro da área e duas fora. Todas com a canhota que ainda pode ficar mais calibrada com a sequência de jogos. Confiança do comandante não falta: “É o jogador que salva a vida do treinador”, exaltou Jair depois do “San-São”.  No  futebol brasileiro a tendência é desequilibrar mesmo.

Porque Gabriel está como quer. Livre, leve e solto.

 

 


Há um “atalho” para Jair Ventura vencer respeitando o DNA do Santos
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André Rocha

Imagem: Divulgação Santos

Joel Santana adora citar em entrevistas, programas de TV e rádio e eventos dos quais participa o Vasco que comandou em 1987, num período curto mas marcante, como exemplo de time ofensivo que armou para contestar a fama de “retranqueiro”.

De fato era uma equipe com vocação para o ataque. Apesar de ter durado apenas uma Taça Guanabara, a escalação ficou na memória deste blogueiro que viu este time ao vivo, algumas vezes no estádio: Acácio; Paulo Roberto, Donato, Fernando e Mazinho; Dunga, Geovani e Tita; Mauricinho, Roberto Dinamite e Romário.

Mas havia um segredo típico do treinador, já malandro e “matreiro” aos 39 anos em sua primeira chance como treinador no Brasil. Mesmo contra times pequenos em São Januário, a equipe cruzmaltina recuava as linhas cinicamente, Dinamite voltava atraindo a atração dos zagueiros e Geovani ou o próprio centroavante lançava os ponteiros Mauricinho e Romário em velocidade com a chegada rápida de Tita. Assim marcou 24 gols em 13 partidas.

Joel tem razão ao dizer que seu Vasco campeão do primeiro turno e que depois, treinado por Sebastião Lazaroni, conquistaria o estadual tinha, na prática, quatro atacantes. Mas a maneira de jogar era baseada em organização defensiva e contragolpes. Quando precisou sair para o jogo contra o Fluminense ainda com a base tri carioca e campeã brasileira, levou um contundente 3 a 0 em contra-ataques.

A mesma dificuldade que fez penar o Botafogo de Jair Ventura desde que o jovem treinador de 38 anos sucedeu Ricardo Gomes em 2016, na primeira oportunidade no comando de um time profissional. Quase sempre que adiantou suas linhas, tentou trocar mais passes e não definir a jogada mais rapidamente, o desempenho teve uma queda significativa.

O melhor cenário no Estádio Nilton Santos, especialmente na Libertadores, era quando o “abafa” inicial com marcação no campo adversário fazia o alvinegro abrir o placar e depois ficar confortável atraindo o oponente e aproveitando as transições ofensivas em velocidade.

Mesmo sem títulos e a vaga no torneio continental para 2018, o bom trabalho em uma avaliação geral deu visibilidade a Jair. Também despertou o interesse do Santos, agora presidido por José Carlos Peres. Novo mandatário que afirmou várias vezes que o perfil do novo treinador deveria ser de respeito ao DNA ofensivo do clube e trabalho com os jovens oriundos das divisões de base.

A segunda exigência de Peres não é problema para Jair, que, até pelas limitações orçamentárias do Botafogo, deu chances à garotada e obteve boas respostas. No Santos é empreitada que costuma dar certo com quem tem sensibilidade para mandar a campo no momento certo. Mas quanto ao DNA…

O trabalho de Jair não o credencia a armar um Santos que crie espaços nas defesas rivais através de troca de passes com paciência e mobilidade. O treinador sempre afirmou que não mudava sua proposta no Botafogo porque as características dos jogadores não casavam com o estilo. Argumento legítimo, mas quando tentou mudar faltou repertório. Não só do time, mas também do comandante.

O que não significa que não possa se reinventar. Ou entregar um time competitivo, bem coordenado atrás para não fazer o goleiro Vanderlei trabalhar tanto. Mas também é possível ser forte no ataque. Ou no contragolpe. Acionando Bruno Henrique pelos flancos. Mesmo sem os passes de Lucas Lima e a presença de área de Ricardo Oliveira.

No Paulista pode aproveitar o status de “zebra” – já estão chamando de “quarta força”, o que pode ser um bom presságio – por conta da menor capacidade de investimento em comparação com os rivais. Mas na falta de recursos é preciso ter criatividade para repor ausências importantes. Inclusive de Zeca, que interessa ao Flamengo.

Se alcançar vitórias, alguma conquista relevante e muitos gols, mesmo nos contra-ataques, quem vai se importar na Vila Belmiro com uma mera questão filosófica? Nem o novo presidente…

Jair Ventura não conta neste início de trabalho com o talento que sobrava no Vasco de Joel Santana há mais de três décadas, mas pode usar o mesmo “atalho”, com uma dose de pragmatismo, para se adequar respeitando a tradição santista de marcar muitos gols. Com ou sem estrelas.


Fred no Flamengo, Diego Souza no São Paulo? A mesma praça, o mesmo banco…
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André Rocha

Férias coletivas no futebol brasileiro, menos das especulações. O famoso “vai e vem” do mercado.

Fred no Flamengo…Segundo o noticiário, com salários de um milhão de reais. Para jogar num time reconhecidamente lento na articulação das jogadas. Que na última vez que venceu utilizando os contragolpes – 2 a 0 no Junior em Barranquilla pela semifinal da Sul-Americana – precisou da velocidade do seu centroavante, Filipe Vizeu. Mas quer um atacante de 34 anos que em 2017 demonstrou nítido declínio.

O Galo quer se livrar do alto salário do camisa nove para contratar…Ricardo Oliveira, 37 anos. Do Santos que pensa em repatriar Gabriel Barbosa, o Gabigol. Para oferecer a ele no retorno os mimos e paparicos que ajudaram o atacante imaturo a não vingar no futebol europeu. Alvinegro praiano, que se autointitula com “DNA ofensivo”, pensando em Jair Ventura como treinador. Pelo que fez no Botafogo…armando um time forte sem a bola, mas carente de ideias quando precisava atacar.

De novo a moda das negociações atuais: tudo certo entre jogador e clube, mas não com o time detentor dos direitos federativos e com contrato em vigor até o fim de 2018. Ou seja, nada certo. Desta vez a “novela” é entre São Paulo e Diego Souza, com o Sport como o suposto “marido traído”. Diego tem 32 anos.

Leilão por Gustavo Scarpa, do Fluminense. Líder em assistências do último Brasileiro, mas criticado por parte da torcida do Fluminense. É tratado por muitos como um camisa dez, sendo que em praticamente toda temporada atuou como um ponta articulador partindo da direita para criar ou finalizar usando o pé esquerdo. Com intensidade baixa, mesmo para os padrões do futebol jogado aqui. Será que viram  ou estão interessados apenas pelo hype criado?

Sorteio da Libertadores e os brasileiros preocupados apenas com os argentinos. Mais uma vez apontados como favoritos absolutos ao título e à liderança dos grupos. Talvez por isso o desdém ao mercado sul-americano, sem mapear contratações mais baratas de jogadores mais jovens e com potencial para entregar mais do que as grifes de sempre.

As negociações aventadas podem  dar certo na prática? Claro! O “fator Renato Gaúcho” está aí para contrariar previsões. Mas contar sempre com a sorte nessas contratações caras e feitas muito mais para jogar para a galera e dar satisfação para a torcida, que parece gostar de se iludir com medalhões,  é um risco desnecessário se houvesse um planejamento real para o ano todo. Mas pelo visto as decepções e derrotas ensinam pouco.

Para complicar, boa parte da mídia não questiona a intenção dos clubes porque os furos de reportagem nessas negociações atraem audiência e mantêm o torcedor conectado neste período sem jogos. Tudo como antes. Como sempre.

“A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim…”


2017 foi cruel com o Botafogo. Começou e terminou antes da hora
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André Rocha

É legítimo e compreensível que os botafoguenses descarreguem suas frustrações sobre Jair Ventura, jogadores e diretoria do Botafogo pela décima colocação no Brasileiro que deixa de fora da Libertadores em 2018. Depois de trafegar em boa parte do campeonato na zona de classificação. Mesmo com as vagas cedidas por Grêmio e Cruzeiro e ainda a que o Flamengo pode deixar para o nono colocado com o título da Copa Sul-Americana. Ficou no quase.

O “quase”, aliás, foi a tônica do Botafogo na temporada. No Carioca, mesmo priorizando a Libertadores, chegou à semifinal e só foi superado pelo campeão invicto Flamengo. Algoz na Copa do Brasil já nas semifinais, com o gol de Diego na jogada improvável de Orlando Berrío. Na Libertadores só caiu para o campeão Grêmio em dois duelos parelhos. Duros reveses, mas todos diante de equipes superiores.

Porque o time de Jair Ventura jogou sempre no limite. Perdendo peças e, por conta das muitas limitações no orçamento, recorrendo às divisões de base e a reforços que quase nunca mantiveram o nível dos que saíam. Por isso sempre precisando estabelecer prioridades.

Abandonando o estadual em alguns momentos porque jogava a vida no torneio continental. Como sobreviveu até as quartas de final e ainda havia a Copa do Brasil o Brasileiro sempre ficou um pouco de lado. Quando Jair forçou a barra e colocou todos os titulares para encarar a maratona o time penou e sofreu reveses inacreditáveis, como as viradas de São Paulo e Vitória nos últimos minutos no Estádio Nilton Santos.

O Botafogo teve que queimar etapas de preparação no início. Precisava estar definido e competitivo para as fases anteriores à de grupos na Libertadores. A vitória contra o Colo Colo no Nilton Santos foi no primeiro dia de fevereiro. O Atlético Paranaense também viveu esta realidade, mas não foi tão longe nas demais competições de mata-mata.

O Botafogo pagou pela própria competência. Que não foi suficiente para buscar os títulos contra equipes mais fortes, mas levou até onde foi possível. Com dignidade e honrando as cores durante a maior parte do tempo.

Só que o gás acabou antes. Como um carro de F-1 mais modesto que tenta duelar com os das construtoras mais poderosas e cobra demais do motor e da estrutura. Ou quebra ou acaba o combustível. O Botafogo morreu nas últimas cinco rodadas do Brasileiro. O rendimento individual e coletivo despencou e os resultados foram mera consequência: três derrotas – uma em casa para o lanterna e rebaixado Atlético-GO –  e dois empates.  O derradeiro na despedida em Engenho de Dentro contra o Cruzeiro em clima de férias. Se vencesse cumpriria sua meta no campeonato.

Não deu. Que o Botafogo mantenha a ideia de continuidade refletida pela vitória do candidato da situação, Nelson Mufarrej, com o atual presidente Carlos Eduardo Pereira como vice. Não há razão para demitir Jair Ventura e sua comissão. Os erros aconteceram, sim. Talvez um melhor planejamento na questão física ou um pouco mais de coragem contra o Flamengo na Copa do Brasil. Quem sabe uma proposta mais consistente na necessidade de atacar e propor o jogo.

Mas a impressão mais forte é de que 2017 foi mesmo cruel por ter começado e terminado antes da hora. É humano que a torcida procure um responsável ou bode expiatório. Mas desta vez, mais do que em qualquer outra, o alvinegro quase sempre supersticioso e pessimista tem razão para culpar a sorte. Ou a falta dela.

 


Virada do Flu na contramão do Brasileiro. Bota não soube jogar sem a bola
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André Rocha

Quando o Botafogo abriu o placar no Nilton Santos logo no primeiro minuto do clássico, a impressão seria de que o Fluminense sairia goleado. Primeiro pelo abalo de uma eliminação doída na Sul-Americana para o Flamengo, maior rival.

Depois porque o jogo ficava à feição para a equipe de Jair Ventura. Bastava recuar linhas, controlar fechando espaços e aproveitar os espaços cedidos por um adversário que normalmente não se caracteriza pela organização defensiva. Também falha individualmente, como no erro de Renato Chaves que gerou o contra-ataque que passou por Brenner e terminou na assistência de Rodrigo Pimpão para Marcos Vinícius ir ás redes.

Ou seja, seria mais um jogo típico deste Brasileirão: uma equipe faz o gol no erro do oponente, adota postura reativa e aproveita as transições ofensivas em velocidade. O Flu seria a vítima da vez. Time jovem, com confiança abalada.

Mas o alvinegro confundiu tranquilidade com passividade. Perdeu intensidade e passou a se defender mal, deixando brechas entre os setores. O tricolor só não aproveitou antes do intervalo porque faltou efetividade na frente: 63% de posse e dez finalizações, mas só uma no alvo. O Bota teve chances mais claras de ampliar. Duas conclusões na direção da meta de Diego Cavalieri num total de quatro.

Com o intervalo, a expectativa de que Jair Ventura fizessem os jogadores retomarem a concentração, mas a impressão era de que havia uma certeza de que o adversário não teria forças para reagir. Pulverizada com o chute no travessão de Gustavo Scarpa logo no primeiro minuto da segunda etapa.

O Flu seguiu ocupando o campo de ataque, rondando a área, mas sem criar espaços. Pois o Botafogo disperso e apático tratou de cedê-los. Primeiro num erro na saída para o ataque que permitiu que Henrique Dourado servisse Marcos Júnior para, enfim, a finalização precisa.

Depois, com as substituições, o Botafogo até ganhou mais fôlego e vigor físico com as entradas de Guilherme, Gilson e Vinicius Tanque nas vagas de Marcos Vinícius, Pimpão e Brenner. No melhor contragolpe, porém, faltou leitura de jogo a Guilherme para aproveitar a igualdade numérica contra a defesa adversária – quatro contra quatro.

Scarpa não desperdiçou quando recebeu livre à direita, arrancou em diagonal e, quando todos imaginavam a finalização de canhota, o camisa dez serviu com inteligência para o jovem Matheus Alessandro virar heroi. Revelado em um torneio de favelas, entrando na vaga de Richard para ocupar a lateral direita, com Mateus Norton, improvisado pelo lado, voltando ao meio-campo.

As entradas de Wellington Silva e Wendel nas vagas dos exaustos Marcos Júnior e Sornoza mantiveram a qualidade e o ritmo na transição ofensiva do Flu. O que falta em coordenação dos setores sobrou em coragem e capacidade de recuperação. A primeira virada do time no campeonato. Para aliviar a pressão e dar tranquilidade a Abel, que, por tudo que viveu, merece um final de ano ao menos com serenidade.

O Botafogo, que finalizou só uma vez na segunda etapa, sofre mais uma virada em casa nos últimos minutos. Contra São Paulo e Vitória pareceu mais desconcentração e cansaço depois de bons momentos na partida. Desta vez foi apenas a consequência de uma atuação que beirou o ridículo na maior parte do jogo.

Faltou competência para jogar sem bola. Uma raridade na competição.

(Estatísticas: Footstats)


Zé Ricardo sendo Mannarino no Vasco que já pensa em “G-7”
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André Rocha

José Ricardo Mannarino sempre que pode assume o italiano do sobrenome no futebol. Na visão mais clichê da escola tetracampeã mundial: privilegia a defesa.

Não que despreze o futebol bem jogado. No Flamengo campeão da Copinha em 2016 posicionava o técnico volante Ronaldo solitário à frente da defesa, quatro meias com características ofensivas se aproximando de Filipe Vizeu. Mas todos com função sem a bola. No fundo, o que o treinador preza é a organização.

A marca do Vasco que venceu o Botafogo no Maracanã e alcança o segundo triunfo consecutivo. Em seis jogos, 61% de aproveitamento e derrota apenas para o Corinthians com o gol polêmico de Jô. Um dos quatro sofridos. Dois empates, vitórias com vantagem mínima que fazem a equipe dormir na oitava posição. Com o G-6 podendo ganhar mais uma vaga pelo Brasileiro por conta da boa campanha do Cruzeiro campeão da Copa do Brasil, é possível sonhar.

Foi o clássico em que pela primeira vez o time comandado por Zé Ricardo teve menos posse de bola que o Botafogo de Jair Ventura – terminou com 39%. Sem a obrigação de protagonismo que carregava no Flamengo. Cedeu espaços, compactou setores na execução do 4-2-3-1 que dá liberdade a Nenê mais próximo de Thalles, substituto do argentino Andrés Rios, suspenso pela expulsão contra o Avaí.

Mais uma vez, destaque para o surpreendente Wellington. Volante tratado inicialmente como o “Márcio Araújo do Vasco”, apresenta dinâmica bem diferente. Participa da construção das jogadas com passes simples, porém certos, e ainda aparece na frente para finalizar. Como no chute na trave direita de Gatito Fernández no primeiro tempo.

Zé Ricardo perdeu Wagner, que com Nenê e Mateus Vital garantem mobilidade no trio de meias. Mas como todos tendem a procurar o setor esquerdo, o corredor do lado oposto fica aberto para o apoio de Madson. O lateral ganhou companhia com a entrada de Yago Pikachu. Na esquerda, Ramon guarda mais sua posição e só desce com segurança.

Concentração e coordenação dos setores para controlar espaços e equilibrar as ações contra qualquer equipe. Jogo definido no detalhe, em lances discutíveis na sequência e que geraram polêmica depois de Nenê colocar nas redes e explodir a massa vascaína. Este que escreve não viu pênalti no toque de Madson que pegou na coxa antes de acertar o braço na disputa com Pimpão. No gol, a impressão depois de rever é de que o toque do meia foi no peito. Dificil para a arbitragem.

De novo faltou contundência ao Botafogo. Das 16 finalizações, apenas duas no alvo. Também criatividade, mesmo com João Paulo e Marcus Vinicius se juntando a Bruno Silva na articulação. O Vasco contribuiu com desempenho coletivo sem a bola e boas atuações de Breno, Anderson Martins e Jean. Defesa forte, como quer seu treinador.

Porque no Vasco, Zé Ricardo pode ser Zé Ricardo. Na essência. Mais Mannarino do que nunca.

(Estatísticas: Footstats)

 


Botafogo: melhor história da Libertadores desta vez não pecou pela covardia
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André Rocha

O time que parecia fadado ao rebaixamento em 2016 depois de voltar da Série B invadiu o G-6 do Brasileiro, tomou a vaga na fase de grupos da Libertadores dos campeões Colo Colo e Olimpia. Encarou e terminou na liderança de um grupo com mais dois vencedores sul-americanos: Atlético Nacional, o atual, e o tradicional Estudiantes.

Ainda o Barcelona de Guayaquil, semifinalista desta edição após tirar a invencibilidade e eliminar o Santos na Vila Belmiro. Nas oitavas de final, a sina persistiu. O gigante Nacional foi outro a ficar pelo caminho. Duas vitórias que fizeram a torcida acreditar até em título.

Não foi possível. Mas, ainda assim, o Botafogo é a melhor história da edição 2017 da Libertadores – só será superada em caso de título do impressionante Jorge Wilstermann. A equipe de Jair Ventura. Organizada, forte mentalmente, jogando sempre no limite. Sem um grande destaque individual, um craque midiático. O clichê é inevitável: time de operários.

Caiu diante do Grêmio que, na média da temporada, joga o melhor futebol do país. E dentro da arena do favorito, o alvinegro fez sofrer. Obrigou Renato Gaúcho a fazer uma substituição ainda no primeiro tempo, tirando Leonardo Moura inócuo pela direita e colocando Everton para ganhar intensidade na frente.

Também mandar um recado ao oponente: posso estar desorganizado, mas não tenho medo. O mesmo que o Botafogo fez na ida no Estádio Nilton Santos. Com Leo Valencia no lugar de Rodrigo Lindoso deixou mais espaços para o Grêmio controlar o meio-campo com o ótimo Arthur. Deixava, porém, o Grêmio alerta. Na prática, uma formação é sempre uma espécie de carta de intenções. Nela estava escrita que o Botafogo não se acovardaria em nenhum momento.

Porque o medo, ou a cautela excessiva, foi o grande pecado da doída eliminação para o Flamengo na Copa do Brasil. Mesmo descontando tudo que envolvia um clássico estadual valendo vaga num torneio nacional e o abismo de poder de investimento entre os clubes, foi incompreensível a postura diante de um rival que já havia demonstrado insegurança em outros momentos da temporada, especialmente na eliminação na fase de grupos da Libertadores.

A grande chance de vencer seria levar o duelo para o psicológico. Pressionar, acuar. Ainda que fosse em momentos chaves. Jair Ventura preferiu esperar. No Engenho de Dentro e no Maracanã. Aguardou tanto que o imponderável chegou no drible mágico de Berrío e no chute fraco de Diego que venceu Gatito Fernández.

Escaldado, não repetiu a atitude no torneio continental. Mesmo contra uma equipe superior à rubro-negra. A eliminação veio em gol único. Bola parada que é o ponto mais frágil de um sistema defensivo sólido. Mas em nenhum momento houve massacre do time mais forte. Segundo o Footstats, foram 57% de posse gremista e 15 finalizações, um terço no alvo. O Bota, porém, respondeu com 11, quatro na direção da meta de Marcelo Grohe. Barrios foi a diferença.

Mas desta vez não há do que se arrepender. A lamentar, talvez, a falta de contundência no ataque. O chute na trave de Bruno Silva. Podia ter vindo outro “milagre”. Mas Jair Ventura e seus comandados deixaram 100% em campo. Com a coragem dos grandes.

Agora é reunir forças para voltar ao G-6 no Brasileiro para quem sabe reescrever a história. Desta vez mais forte e respeitado. Mais glorioso. Mais Botafogo.

 


Botafogo 0x0 Grêmio: empate no conflito entre o possível e o desejado
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André Rocha

O Botafogo de Jair Ventura sabia que precisava adicionar um pouco de coragem e presença no campo de ataque no Nílton Santos para não repetir o erro da semifinal da Copa do Brasil contra o Flamengo e também pelos desfalques importantes do adversário que aumentavam as chances de vitória para levar vantagem para a volta. Mas também tinha noção de quem um jogo de controle de espaços seria viável pensando nos 180 minutos.

O Grêmio tinha noção de que precisava ter mais cuidados defensivos por não contar com Geromel, Michel e Luan, porém a ideia de ir às redes no Estádio Nilton Santos e encaminhar a classificação era sedutora, até pela proposta de jogo que automatiza movimentos independentemente da escalação. Trabalhar a bola, triangular, deslocar, atacar em bloco.

O resultado foi um conflito entre o possível e o esperado. Uma incerteza que até deu algum tempero à disputa.

Porque o jogo teve mais espaços entre as linhas de marcação, mais “trocação” que o esperado. Jair Ventura trocou Lindoso por Leo Valencia. Manteve a estrutura do 4-3-1-2 desmembrado em duas linhas de quatro sem a bola, porém bloqueando menos a entrada da área e chegando na frente com mais gente. O problema, novamente, foi a falta de criatividade e da eficiência nas conclusões – apenas cinco, nenhuma na direção da meta de Marcelo Grohe. Apesar da entrega de sempre de Rodrigo Pimpão e Roger.

O Grêmio com Bressan na zaga, Jailson à frente da defesa e Leonardo Moura, aos 39 anos, como meia central. No entanto, quem dominou o meio-campo foi Arthur. Marcando, jogando, apoiando e aparecendo sempre livre. O melhor em campo, embora Fernandinho também tenha desequilibrado o sistema defensivo do oponente com dribles e velocidade. Protagonistas de um domínio com 54% de posse e 11 finalizações, quatro no alvo. Consequentemente fazendo de Gatito Fernández mais uma vez o grande destaque da equipe carioca.

Faltou o básico, mas previsível pelo contexto: mais qualidade para a jogada diferente e a finalização precisa. Empate sem gols que inverte a lógica, ou a restabelece para os 90 minutos finais em Porto Alegre: Grêmio provavelmente completo e se instalando no campo do Botafogo, que vai fazer seu jogo de compactação, concentração absoluta e transições em velocidade em busca do golpe letal.

Um cenário mais confortável para os dois, mas que também trará mais armadilhas e menos tempo de recuperação. Nenhuma certeza, só a esperança de mais futebol por uma vaga na semifinal da Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)