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Empate é o retrato do Atlético Mineiro na temporada. Na hora de decolar…
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André Rocha

Roger Machado seguiu o planejamento traçado para o jogo contra o Botafogo no Nílton Santos: deixou Cazares e Fred, desgastados pela viagem a Cochabamba, no banco de reservas. Também Alex Silva, titular na Libertadores, mas permitindo o retorno do titular Marcos Rocha.

No entanto, com a rodada favorável que poderia dar oportunidade de subir da oitava para a quinta posição, com a mesma pontuação do Palmeiras, e a proposta do Botafogo de, mesmo em casa e com a maioria dos titulares, manter a ideia de jogar reagindo à iniciativa do adversário, tomou conta da partida.

Com Elias ao lado de Rafael Carioca à frente da defesa, Yago e Marlone nas pontas e Robinho solto como atacante circulando pelos flancos e se aproximando de Rafael Moura, o Atlético Mineiro teve a chance de definir o jogo no primeiro tempo com o gol de Marlone em chute que desviou em Emerson Silva e no pênalti desperdiçado por Rafael Moura.

Ou defendido por Jefferson, ídolo alvinegro vindo de inatividade de 14 meses substituindo Gatito Fernández. Melhor em campo e protagonista de um Botafogo sem ideias quando ficou em desvantagem no placar. Ficou com a posse de bola, teve Camilo no início do segundo tempo e depois Guilherme na vaga do extenuado Pimpão e Marcos Vinicius no lugar de Lindoso, mantendo a estrutura tática, porém com jogadores mais ofensivos que se aproximavam de Roger.

Mas criou muito pouco. Se limitou ao abafa com lançamentos e cruzamentos a esmo, rebatidos pela defesa atleticana, que ganhou consistência com Adilson no lugar de Yago – Elias voltou para o lado direito – e desafogo com a dupla Cazares e Fred saindo do banco para qualificar os contragolpes. Só que desta vez o equatoriano entrou descansado fechando o setor esquerdo e mantendo Robinho livre na frente.

Exatamente os dois que desperdiçaram contragolpes no final e consagraram o nome de Jefferson. Também deram a sensação de que o Galo havia dado chances demais ao time da casa, que não costuma desistir. No pênalti sobre Marcos Vinicius, Victor ainda fez a defesa na cobrança de Roger, mas nada pôde fazer no rebote que sua retaguarda não conseguiu afastar. Outro vacilo. Nos acréscimos.

Foi a terceira finalização no alvo do Bota em dez tentativas. O Galo chutou seis que fizeram Jefferson brilhar, num total de nove. Claro que houve muitos méritos do arqueiro veterano, ainda mais retornando depois de tanto tempo. Mas é impressionante como o Galo de Roger perde oportunidades de se afirmar na temporada.

Mesmo com título estadual, melhor campanha na fase de grupos da Libertadores e com vantagem para a volta das quartas da Copa do Brasil contra o próprio Botafogo (se repetir o 1 a 1 estará classificado), não desperta confiança no desempenho. É capaz de oscilar dentro das partidas. A combinação técnico promissor + elenco qualificado ainda não conseguiu dar a liga que prometia.

O Atlético podia entrar no G-6 – o Santos venceu o São Paulo na Vila Belmiro e subiu para quarto. Ficou em oitavo com o gosto amargo de dois pontos perdidos pelas circunstâncias da disputa em Engenho de Dentro. Um retrato da equipe em 2017.

(Estatísticas: Footstats)


“O problema é quando se tem a bola” – Futebol atual é jogo de espaços
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André Rocha

A frase entre aspas do título deste post é de um treinador campeão brasileiro, cujo nome não será revelado para não criar qualquer estigma ou rótulo. Até porque havia um contexto dentro da entrevista. Mas a ideia era clara.

Ter a posse de bola é aumentar a probabilidade de errar e dar chances ao adversário. Na saída de bola, com zagueiros que não foram ensinados a iniciar a construção das jogadas e acabaram na posição pela estatura e vigor físico. Em um centro futebolístico que predomina financeiramente no continente, mas não conta com excelência técnica na maioria das posições e funções.

No qual a torcida não tem paciência para jogadas trabalhadas, vaia bola recuada para o goleiro com a proposta de criar espaços e, na ansiedade e imediatismo típicos da nossa cultura, exige que a ação ofensiva seja finalizada o quanto antes.

Por isso a bola de segurança pelos lados. Porque se há a perda, o contragolpe do oponente não se inicia em uma zona perigosa. O ataque só passa pelo centro para virar o lado saindo da pressão ou procurando um pivô, mas já no último terço do campo. Muitos cruzamentos, com bola parada ou rolando. A margem de erro é menor.

Como cobrar mais de treinadores trocados a cada três meses, ameaçados a cada três derrotas? Responsabilizados por problemas técnicos de seus atletas desde a base e sem tempo para treiná-los com jogos a cada três dias? Neste cenário pragmático é melhor mesmo não ter a bola e esperar o vacilo do outro lado.

A vitória do Botafogo sobre o Nacional uruguaio no Parque Central foi simbólica. Porque a equipe da casa, que também se sente mais confortável jogando em transições velozes, precisava trabalhar as ações ofensivas para infiltrar, construir o resultado para administrar na partida de volta.

Encontrou, porém, uma equipe brasileira novamente bem coordenada defensivamente, com concentração e entrega. Também sorte, já que no toque de Victor Luís na própria área com o braço muito aberto, em lance duvidoso para as novas recomendações da FIFA, a arbitragem não se deixou levar pelo mando de campo. Sem contar a falha grotesca do zagueiro Emerson Silva que Silveira não aproveitou à frente de Gatito Fernández. O erro quando teve a bola.

No contragolpe, inversão de Pimpão para Bruno Silva e bola na rede com o toque meio sem querer de João Paulo, meia que deixou Camilo no banco pelo maior poder de marcação e dinâmica mais alinhada à proposta do treinador Jair Ventura. Triunfo com 40% de posse e oito finalizações, quatro no alvo. Contra 17 do Nacional, mas só duas na direção da meta de Gatito. Sem ideias, os uruguaios efetuaram 41 cruzamentos. O Bota cometeu 26 faltas contra 14 e acertou 17 desarmes, o Nacional só 12. Espírito de competição.

O resultado facilita o trabalho para a volta no Estádio Nílton Santos. Porque o Botafogo, mesmo em casa e provavelmente com a torcida apoiando, deve manter sua ideia pragmática de jogo. O questionamento inevitável é: como será quando a equipe precisar sair para o jogo por necessidade? As derrotas para Barcelona de Guayaquil e Avaí no Rio de Janeiro entregam respostas preocupantes.

Jogar como “azarão” é mais simples. O discurso motivacional do treinador vai na linha do “Davi x Golias”, os comandados entram mais concentrados e nenhuma pressão. Há espaços para atacar e menor cobrança sobre o erro.

Não só no Brasil. Nos grandes centros a lógica é a mesma. Com Leicester City e Chelsea vencendo as últimas edições da Premier League sem dar muita importância para a posse de bola. O Barcelona eliminado na Liga dos Campeões por Atlético de Madri e Juventus e ainda levando 4 a 0 do PSG. Os rivais sempre jogando a isca: “Me ataque, fique com a bola e te golpeio em seus pontos fracos”. Pep Guardiola no Manchester City também sofreu e vai tentando aprender e se adequar à dinâmica do futebol jogado na Inglaterra.

Na final da Liga Europa, José Mourinho armou seu Manchester United para aproveitar os espaços deixados pelo Ajax com seu ataque posicional típico do futebol holandês. Marcação encaixada, bote no zagueiro colombiano Davinson Sánchez, elo fraco nos passes, e contragolpe rápido. Força no jogo aéreo e mais uma taça continental para o treinador português.

O mundo é do Real Madrid comandado por Zidane porque é um time talentoso e inteligente. Sabe jogar com a bola pela qualidade individual que possui. Por ser um gigante, em 90% das partidas na temporada entra como favorito e precisa se arriscar. Mas faz por necessidade, não filosofia ou convicção. E se abre o placar o jogo reativo volta a ser a ideia principal. Assim como a Juventus, finalista derrotada na Champions, é um time “camaleão”, que muda de acordo com o que se apresenta. Para isso precisa de jogadores completos, inclusive na leitura de jogo. Saber acelerar e cadenciar, dosar a intensidade.

Não por acaso o predomínio recente de Cristiano Ronaldo sobre Messi nas premiações individuais. Consequência das conquistas coletivas. O português é mais prático, simples e vertical. Decide com um toque. Para brilhar, o argentino precisa construir em um Barcelona cada vez mais mapeado e estudado. Missão complicada.

Porque quem trata a posse como obsessão ou filosofia, dentro ou fora de casa e independentemente do contexto está sendo obrigado a mudar. No futebol tão estudado de hoje, a equipe abre mão do fator surpresa. Instala-se no campo de ataque, gira a bola em busca de espaços e os cede atrás, por consequência. Cabe ao rival negar as brechas para infiltrações, com o cada vez mais utilizado sistema com cinco homens na última linha de defesa, e explorar os pontos falhos, que sempre existem.

Na costumeira variação do 4-3-1-2 para duas linhas de quatro bem compactas, o Botafogo venceu em Montevidéu. Mais uma vez sem fazer questão da posse. No futebol, ela cada vez mais vai perdendo sua importância. A referência é o espaço. O “jogar sem bola” aproxima das vitórias.  Paradoxal, não?

E a frase do técnico, que soou absurda há alguns anos, mostra-se visionária. Mas qual será o impacto no futuro do esporte? Felizmente ele é cíclico, por isso tão apaixonante. Logo virá uma resposta. Tomara…

(Estatísticas: Footstats)

 


Botafogo: a eficiência volta ao G-6 do Brasileiro. Emblemático
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André Rocha

O Botafogo saiu do “favoritismo” ao rebaixamento para a vaga na Libertadores em 2016 com as alterações no torneio sul-americano. Um marco de mudança de patamar com Jair Ventura.

Em 2017, por necessidade, teve que praticamente descartar o estadual para se dedicar às fases preliminares da Libertadores contra Colo Colo e Olimpia e depois a uma disputa duríssima no Grupo 1 com o campeão Atlético Nacional, mais Barcelona de Guayaquil e Estudiantes. Sem refresco.

Em junho ainda não comemorou títulos, mas segue vivo na competição continental, na Copa do Brasil e agora volta ao G-6 da Série A, onde tudo começou.

Com 3 a 1 sobre o Vasco no Nilton Santos. Construído no primeiro tempo com 44% de posse de bola, três finalizações contra dez do adversário. Duas no alvo. As de Roger e Victor Luis que venceram Martín Silva. No primeiro, passe precioso de canhota do destro Bruno Silva. De novo o volante-meia pela direita, chave tática do modelo de jogo que vai se afirmando sem maiores variações.

Explorando com o lateral Arnaldo o setor esquerdo vascaíno que ficou mais frágil sem a bola com a entrada de Nenê. Mas com o camisa dez também criou problemas para a retaguarda alvinegra, que cedeu apenas uma chance clara a Luis Fabiano.

Botafogo forte pela direita com Bruno Silva ocupando o setor e contando com auxílio do lateral Arnaldo para cima de Henrique que não teve o devido suporte de Nenê. Time de Jair Ventura novamente foi eficiente (Tactical Pad).

No segundo tempo, Milton Mendes trocou Pikachu pelo jovem Paulo Vítor e inverteu o lado de Nenê para melhorar a dinâmica da equipe com e sem a bola. O Botafogo respondeu invertendo o lado forte. Aproximou Victor Luis, Pimpão e João Paulo e seguiu explorando o setor vascaíno em que Nenê colabora menos na recomposição.

Mas foi novamente pela direita que o Botafogo criou uma jogada de gol: passe por cima de João Paulo, Bruno Silva infiltrou, a zaga rebateu e Roger marcou o seu segundo batendo de primeira. Na sequência, bastou administrar controlando os espaços sem a bola, com um ou outro susto e o gol de Caio Monteiro, que entrou na vaga de Mateus Vital.

Sem sofrimento, porém. Mesmo terminando com 40% de posse, seis finalizações contra 16. Três no alvo, mantendo o aproveitamento da primeira etapa. Nada menos que 26 desarmes certos do alvinegro e 11 do Vasco. Uma típica vitória da equipe de Jair Ventura.

Depois de quatro anos sem enfrentar o Vasco pelo sobe e desce dos clubes, mais do cruzmaltino, o Botafogo vai mostrando que trabalhou certo para transformar suas aspirações. Com gestão no clube, no futebol e em seu estádio. Lembrando as glórias do passado, como na homenagem aos campeões cariocas de 1989, encerrando um jejum de 21 anos sem conquistas.

No presente, um time eficiente que de novo está na zona de classificação para a Libertadores. Mais emblemático impossível.

(Estatísticas: Footstats)

 


Pelas circunstâncias, Botafogo ganha um ponto contra Flamengo “arame liso”
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André Rocha

A intensidade do Botafogo no primeiro tempo em Volta Redonda parecia uma clara tentativa de buscar o gol no início, aproveitando um Flamengo improvisado e com mais qualidade no banco que em campo, para depois administrar a vantagem dosando as energias e compensando o desgaste de viagem e jogo eliminatório no meio de semana pela Copa do Brasil.

Mesmo sem Camilo, Jair Ventura manteve a estrutura tática e a ideia de jogo com João Paulo mais adiantado e Matheus Fernandes no meio-campo. A equipe dobrava e pressionava a marcação pelos flancos e saía em velocidade.

O Flamengo sofria com Willian Arão totalmente perdido atuando aberto pela direita e Cuéllar responsável pela saída de bola com os zagueiros – Juan na vaga de Rafael Vaz – errando passes. Só melhorou um pouco a fluência quando Ederson, o meia central do 4-2-3-1, procurou o lado direito e deu opções de passe.

Muito pouco em um primeiro tempo muito fraco e contaminado pela rivalidade nada saudável fora de campo entre os clubes. O time alvinegro foi recuando as linhas, até por conta das lesões de Victor Luís e Aírton em lances com Arão, mas sem maldade do rubro-negro na do volante, bem mais séria. Entraram Gilson e Dudu Cearense, atrapalhando os planos do treinador.

Estava claro que o segundo tempo seria complicado para o Bota. E foi. O time foi definhando fisicamente com o calor e um Flamengo que ganhou qualidade e intensidade com Diego e Vinicius Jr. nas vagas de Cuéllar e Ederson. Arão, o pior do primeiro tempo, melhorou um pouco voltando à sua função no meio.

No entanto, os comandados de Zé Ricardo esbarraram em um velho problema: a dificuldade em transformar oportunidades em gols. Guerrero duas vezes e Everton perderam chances cristalinas. Vinicius Júnior acertou o travessão em bela conclusão. Foram 17 finalizações rubro-negras, mas apenas três no alvo.

O Bota concluiu quatro, uma na direção da meta de Muralha. E podia ter saído com a vitória se Roger não perdesse gol feito. No final, o time “cascudo” fez tudo para ganhar tempo e conter a pressão do rival que foi para o abafa no final com Leandro Damião na vaga de Arão. Pelas circunstâncias, ponto ganho no Raulino de Oliveira.

O Flamengo tem lastro de evolução com Diego recuperando ritmo de competição e Vinicius Júnior ainda mais confiante – teve sua melhor atuação entre os profissionais. Ainda tem Conca para estrear e as peças que podem chegar. Mas é urgente ser mais eficiente e contundente no ataque.

Porque time “arame liso”, que cerca mas não fura, não pontua. Uma invencibilidade de três empates em quatro partidas é prejuízo.

(Estatísticas: Footstats)


Na estreia de Luxemburgo, a clara divisão entre jogo tático e o aleatório
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André Rocha

Vanderlei Luxemburgo comandou um treino no Sport para o jogo de volta, em casa, pela Copa do Brasil. Na prática, a única contribuição seria na motivação natural pela mudança no comando técnico. Não há como alterar o modelo de jogo em dois dias.

Por isso a nítida superioridade do Botafogo enquanto o jogo se desenvolveu mais no aspecto tático e estratégico que no psicológico. Mesmo com o sentido desfalque do suspenso Bruno Silva no meio-campo, Jair Ventura manteve a estrutura tática com João Paulo no lado direito e Aírton e Lindoso no centro da segunda linha.

Velocidade nos contragolpes. Até com Roger mais rápido que a lenta dupla Matheus Ferraz e Durval. Assim marcou o golaço no toque por cobertura. Também acelerou e passou para Pimpão marcar o gol absurdamente mal anulado, que podia ter definido a partida e o confronto. Nitidamente atrás da linha da bola.

O Sport adiantava as linhas num 4-2-3-1 que sofreu com um problema que vem desde os tempos de Eduardo Baptista: os ponteiros, no caso Everton Felipe e Rogério, recuam muito para fechar os flancos e deixam Diego Souza e André na frente, que não conseguem fazer a transição ofensiva ganhar velocidade. O time rubro-negro não tem fluência.

Piorou com a tola expulsão de Rogerio, repetindo a final da Copa do Nordeste. Luxemburgo, que tirou Everton Felipe e colocou Lenis ainda no primeiro tempo, preparava Marquinhos para a vaga do ponteiro e precisou esperar e mudar a substituição, tirando Fabricio, improvisado na lateral direita.

E aí veio o erro do Botafogo. Com vantagem no placar e um homem a mais, desconcentrou. Perdeu intensidade e vontade de contra-atacar. O Sport tentava pela obrigação, mas sem nenhuma coordenação. Até achar o gol com Durval na jogada aérea.

O jogo resolvido virou drama por entrar na aleatoriedade. O time visitante recuou demais, trocou Roger por Guilherme, que pecou pelo individualismo em dois contragolpes. O Sport, no grito da torcida, despejou bolas na área – foram 34 cruzamentos no total. Fez o goleiro Gatito Fernández trabalhar.

O Botafogo viveu no fio da navalha e só respirou nos acréscimos, com o nítido cansaço no gramado encharcado da equipe de Luxemburgo, que já notou que vai precisar subir a ladeira para tornar o Sport competitivo. Na disputa tática, o Botafogo sobrou. Mas deixou o jogo ser arrastado para a “loucura” e quase volta para casa sem a vaga nas quartas da Copa do Brasil.

Impressionante como acontece em todo mundo essa virada de chave na reta final das partidas. No Manchester United era chamado de “Fergie Time”. Quando a organização vai para o espaço e tudo fica na base da emoção. E aí não basta ser bem treinado.

Jogo dividido. Um a um. Obra do futebol tão plural e imprevisível.

(Estatísticas: Footstats)

 


Eles não podem errar! A dura transição do mercado de treinadores no Brasil
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André Rocha

Quando Zé Ricardo chamou Matheus Sávio para dar instruções enquanto a torcida do Flamengo no Serra Dourada pedia a entrada da joia Vinícius Júnior, o treinador sabia que corria riscos por suas convicções.

Afinal, se o time fosse eliminado da Copa do Brasil, independentemente do rendimento do jovem atacante, que entrou muito mal contra o San Lorenzo na traumática derrota na Libertadores, as chances de ser demitido cresceriam exponencialmente.

Mas Sávio, assim como contra o Atlético Mineiro no Maracanã, na estreia do Campeonato Brasileiro, colocou um cruzamento no fundo das redes do goleiro Felipe do Atlético-GO. O choro copioso do jogador foi sintomático. É muita pressão para quem ainda está no início de sua trajetória entre os profissionais.

O mesmo vale para os treinadores. No país do futebol de resultados, o comandante passa de “boa novidade” e “atualizado” para “estagiário” e “rolando lero” a cada semana. Mesmo que a sua equipe esteja organizada e o placar adverso tenha vindo por uma infelicidade na defesa ou chances perdidas na frente.

Ou até se eles se equivocarem, algo absolutamente natural. No mais imprevisível e caótico dos esportes, o que foi treinado baseado em observação e análise pode dar errado por uma noite ruim do atleta e aquela mudança aleatória, mais por conta da intuição, pode terminar em vitória. Para quem tem bagagem já é um desafio, imagine para novatos.

Eles simplesmente não podem errar. Seja Zé Ricardo, Roger Machado, Eduardo Baptista…Mesmo Jair Ventura, com enorme crédito no Botafogo, quando tentou mudar a maneira de jogar contra o Barcelona de Guayaquil no Estádio Nilton Santos e saiu derrotado as críticas vieram pesadas.

A transição no mercado de treinadores é dura. Depois dos 7 a 1 que mandaram Luiz Felipe Scolari para a China e da queda em desempenho e resultados de grifes como Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho e até Marcelo Oliveira, apesar dos títulos com Cruzeiro e Palmeiras, um buraco foi aberto para uma leva de profissionais com conceitos atualizados, vendo e pensando o futebol como é jogado nos grandes centros.

Um jogo mais coletivo e que trabalha com informações e gestão na comissão técnica. Menos com carisma e discursos motivacionais. Quando o resultado acontece, tudo isso é louvado. Se não, bate a saudade dos velhos nomes e de fórmulas antigas. Como se o que deu certo na década passada necessariamente dará em 2017.

O cenário é complexo. Dá para contar nos dedos de uma das mãos os treinadores do país que conseguem unir vivência como ex-jogador, conteúdo atual, sensibilidade na gestão de grupo e da comissão técnica. Ou seja, no auge da carreira. O melhor deles está na CBF.

Por conta de todas as dificuldades citadas, as experiências com estrangeiros não foram felizes – vide Diego Aguirre, Ricardo Gareca, Edgardo Bauza, Juan Carlos Osorio, entre outros. Quando estão começando a aprender o idioma para se comunicar já estão passando no RH e voltando para casa.

Simplesmente não há paciência, porque falta convicção para acreditar num projeto de longo prazo. Roger Machado e Zé Ricardo acharam que teriam um pouco mais de paz e respaldo para trabalhar por conta de conquistas nos estaduais. Mas basta uma sequência de resultados ruins e tudo é esquecido.

Ainda mais em clubes dos quais se espera muito. Pela capacidade de investimento e ilusão alimentada por departamentos de marketing e também por nós da imprensa, o torcedor passa a crer que seu time de coração conta com um elenco estelar e que basta o treinador distribuir certo as camisas e não atrapalhar para tudo acontecer.

Não é assim que funciona. Estar atualizado nas ideias e métodos ajuda a não ser surpreendido, a minimizar a aleatoriedade do jogo. Mas não garante nada. Muito menos onde não se valoriza filosofia e identidade, só o placar final e a conquista que vão gerar memes e zoações. Até tudo ser esquecido no próximo jogo.

Por ora, Dorival Júnior é o sobrevivente na Série A, comandando o Santos desde julho de 2015. Já Ney Franco foi demitido do Sport depois de perder a Copa do Nordeste para o Bahia com menos de dois meses de trabalho. Treinadores com rodagem de mais de uma década. Paulo Autuori, com mais de quarenta anos à beira do campo, cansou. “A rotina consome”, explicou. Vai ser gestor no Atlético-PR e abre espaço para Eduardo Baptista.

Paciência não significa ser permissivo e deixar de cobrar o desempenho que chega ao resultado. Os profissionais são bem remunerados para isso. O ponto nevrálgico é o imediatismo, a incapacidade de observar um lastro de evolução, vislumbrar um futuro melhor. Tudo ainda se resume à tentativa e erro. Até acertar. Para ontem.

Enquanto isso, segue a roda vida, a máquina de moer técnicos. Zé Ricardo escapou no gol de Matheus Sávio. Quem será o próximo?


“Três volantes”, “retranca”? Vitória do Flamengo chuta longe os clichês
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André Rocha

O 4-1-4-1 montado por Zé Ricardo sem Diego: Márcio Araújo na proteção da defesa e força pelas laterais com triangulações. Mais efetivo pela esquerda, atacando o lado fragilizado do Botafogo no habitual 4-3-1-2 que se desmembra em duas linhas de quatro sem a bola (Tactical Pad).

A semana inteira de preparação do Flamengo foi de expectativa para a solução que Zé Ricardo encontraria para repor o lesionado Diego. Ao sinalizar a entrada de Rômulo, surgiu a velha confusão de conceitos. Misturando função e posição.

“Três volantes”, “Flamengo vai jogar pelo empate”, “técnico retranqueiro”. Foi o debate que se viu e ouviu sobre o time rubro-negro antes da bola rolar. Até pela vantagem de empate na semifinal do Carioca por conta da melhor campanha.

No Maracanã molhado pela chuva, o que se viu foi o time “cauteloso” propondo o jogo. No 4-1-4-1, desenho tático “de cabeceira” de Zé Ricardo, desmanchado pela presença de Diego, típico meia central de um 4-2-3-1.

Trabalhando a bola, adiantando as linhas e apertando a marcação no campo adversário. Se não tinha o meia criativo, fazia as jogadas pelos flancos com triangulações. À direita, Pará, Arão e Gabriel; pela esquerda, Trauco, Romulo e Everton.

Guerrero voltava para fazer o pivô e distribuir as jogadas. Complicando um Botafogo que nitidamente buscou dosar energias no primeiro tempo para compensar o desgaste da viagem ao Equador e apenas um dia de treinamento para o clássico.

Só que tinha problemas além do cansaço, em função dos desfalques. Especialmente no meio-campo: Aírton, ainda lesionado, e Bruno Silva, suspenso pela estúpida expulsão depois do apito final da inútil decisão da Taça Rio. Fora Montillo.

Na lateral direita, mais uma improvisação: o volante Fernandes, que se juntava a João Paulo, o volante-meia do 4-3-1-2 armado por Jair Ventura que abria à direita para formar a linha de quatro no meio. Deixando Rodrigo Pimpão pela esquerda. Pelo contexto, parecia mais razoável inverter seu melhor ponteiro e atacar o setor mais forte do Fla, o esquerdo.

Acabou defendendo mal e o Flamengo teve o controle do jogo. Nem tanto nos números do primeiro tempo – 51% de posse e as mesmas cinco finalizações do rival, três a zero no alvo. Mas principalmente por sempre parecer mais próximo do gol.

Mas bolas nas redes só na segunda etapa. Com Guerrero, chegando aos nove no Carioca. Participando da construção pela esquerda e aparecendo para completar o corte errado de Victor Luís e abrir o placar. Depois a cobrança de pênalti segura e forte no meio do gol com o campo molhado.

A chance mais cristalina para o peruano acabou sendo desperdiçada em jogada de Pará para Berrío, substituto de Romulo, e passe para o chute fraco de Guerrero. De novo faltou ao Flamengo em um jogo grande a contundência no ataque para construir a vitória com mais autoridade.

O pênalti tolo de Rever sofrido e bem cobrado por Sassá, que entrara na vaga de Roger, transferiu uma emoção ao final do jogo, com o Botafogo, mesmo exausto, se lançando ao ataque, que não reflete o que foi a semifinal.

Posse de bola praticamente dividida, Flamengo finalizando 13 vezes, uma a mais que o Bota. Seis, porém, na direção da meta de Gatito Fernández contra apenas duas do alvinegro. O time de Zé Ricardo não foi brilhante, mas também não era com Diego em campo na maioria dos jogos. Em nenhum momento, porém, jogou fechado, especulando, dando a bola ao rival.

Com três volantes de ofício, mas na prática apenas um: Márcio Araújo, que cumpriu boa atuação. A tendência é manter o desenho tático e a proposta para a decisão. Um Fla-Flu que não valia o título regional desde 1995. Numa final em dois jogos como agora, desde 1991.

Pelo desempenho na temporada, o tricolor parece mais forte. E o Flamengo ainda tem um jogo decisivo contra o Atlético-PR na quarta, antes da primeira decisão. Favorito ou não, é improvável que o time de Zé Ricardo se acovarde no clássico. Com ou sem volantes, chutando pra longe os clichês.

(Estatísticas: Footstats)


Vitória histórica para afirmar o Botafogo como um time pronto e maduro
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André Rocha

Eram 44 anos sem uma vitória fora de casa na Libertadores. Era o quarto adversário tradicional nesta edição, depois de Colo Colo, Olimpia e Estudiantes. O Atlético Nacional, atual campeão, no Atanasio Girardot.

Sem o bom zagueiro Marcelo, sem Aírton e Montillo. A ausência do argentino, ao menos, fez o Botafogo de Jair Ventura voltar ao 4-3-1-2 que varia para o 4-4-2 sem a bola do Brasileiro, dando liberdade a Camilo.

Linhas compactas para negar espaços e controlar o jogo sem a bola. A trinca de volantes formada por Lindoso, Bruno Silva e João Paulo marcando por zona e tirando espaços de Macnelly Torres, o meia criativo do 4-3-3 armado por Reinaldo Rueda.

A chave novamente era Pimpão, que voltava pela esquerda na segunda linha de quatro e ainda era a referência de velocidade para os contragolpes. Depois de um impedimento inexistente, o atacante acelerou a transição ofensiva, mas soube aguardar a chegada dos companheiros para atacar em bloco e João Paulo, pela direita, colocar na cabeça de Camilo.

Uma das três finalizações alvinegras, duas no alvo. Contra os 62% de posse e as cinco finalizações do time da casa. Pouco, mais pelo mérito alvinegro na organização ofensiva que só tinha dificuldades contra os dribles do ponteiro Ibargüen pela esquerda.

Segundo tempo com Rueda trocando Bernal por Aldo Ramírez para melhorar a produção do meio-campo. Jair Ventura perdeu Pimpão que, sacrificado com função tão exaustiva, estourou o músculo. Entrou Guilherme.

Jovem atacante enviado para o lado direito e Camilo recuou à esquerda num 4-1-4-1 com Lindoso mais plantado entre a defesa e o meio. O time sentiu a falta de seu atacante mais incisivo e recuou. Rueda fez a leitura e abriu Cristian Dájome como ala pela direita e mandou Daryo Moreno para o centro do ataque. O zagueiro Nájera saiu e o lateral Bocanegra ficou um pouco mais fixo.

A pressão aumentou, o time colombiano rondou mais a área e finalizou nove vezes em 45 minutos. Mas sem a chance cristalina. Jair reoxigenou o time com juventude: Fernandes e Sassá nas vagas de Camilo e Roger. Era se defender e esperar a chance do contra-ataque letal.

Plano executado com perfeição. Nos acréscimos, a arrancada de Guilherme e a finalização precisa no canto esquerdo de Armani. O Atlético estava invicto em casa em 2017 e não perdia para equipes estrangeiras há dois anos em seu estádio.

Mas o Botafogo foi maduro, ganhou casca com o poder de superação desde o ano passado. De candidato ao rebaixamento no Brasileiro a classificado para as fases eliminatórias. Depois só pedreiras e vagas conquistadas no limite. Agora um grupo duríssimo.

Até aqui, nada foi um obstáculo capaz de conter o Botafogo que parece pronto para tudo nesta Libertadores. Depois da vitória histórica, o próximo desafio é o Barcelona. Não o espanhol, mas o colíder do grupo com a mesma campanha em todos os critérios. Em Guayaquil. Quem pode duvidar do time de Jair Ventura?

(Estatísticas: Footstats)

 


Pimpão, sacrificado e iluminado no Botafogo 100% no Engenhão
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André Rocha

Os confrontos eliminatórios para entrar na fase de grupos da Libertadores sacrificou o primeiro turno do Botafogo no Carioca e também queimou etapas de preparação da equipe, que precisava se apresentar competitiva logo no início da temporada.

Por isso também o técnico Jair Ventura não teve tanto tempo para testar, experimentar e ensaiar o encaixe da principal contratação que mexeria na estrutura tática: Montillo entrou centralizado atrás do atacante mais enfiado.

Camilo foi jogado para o lado do campo. Inicialmente mais recuado. Contra o Estudiantes na abertura do Grupo 1, pela direita e mais liberado. Porque o lado forte do time argentino era o direito, com as descidas de Facundo Sánchez apoiando Solari, o meia aberto no 4-4-2 armado por Nelson Vivas.

A dupla na ala, mais o grande destaque do time, o colombiano Otero. Circulando às costas dos volantes Aírton e Bruno Silva e aparecendo também no setor de Victor Luis. Para ajudar o lateral esquerdo, Jair posicionou Rodrigo Pimpão no setor. Com responsabilidade de defender, mas também acelerar, procurar a diagonal, se juntar a Roger.

O Bota controlou a posse com 62%, mas finalizou três vezes, duas no alvo. Um chute de Camilo no final da primeira etapa e o golaço de Roger, completando de voleio outro voleio de Bruno Silva. O Estudiantes concluiu o dobro, três na direção da meta de Gatito Fernandez. Jogo duríssimo.

Porque Montillo não justificou o sacrifício dos colegas para que ele tivesse liberdade. Criou pouco. O time argentino foi se instalando no campo do ataque e, numa falta boba de Marcelo Conceição, zagueiro novamente improvisado na lateral direita que acertou o cruzamento para o primeiro gol, a cobrança perfeita de Otero.

Até Jair perder a paciência com Montillo, que também cansou. Entrou Sassá. Inicialmente com Camilo mantendo o posicionamento aberto, depois centralizado. Com Pimpão voltando ainda mais para realizar o trabalho defensivo.

Mas sem deixar de aparecer na área do oponente, como foi decisivo contra Colo Colo e Olimpia. Foi às redes novamente. O terceiro dele no torneio. Incansável em todo o campo. Sacrificado e iluminado.

Símbolo da entrega e do espírito competitivo de um Botafogo com 100% de aproveitamento no Engenhão e que será duro em qualquer campo, num grupo que já se mostra equilibrado na primeira rodada.

(Estatísticas: Footstats)


Botafogo sofre sem Aírton, mas vitória é alívio para a volta no Chile
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André Rocha

Jogo decisivo em fevereiro é sempre cruel. O clima de final no Engenhão lotado transferia tensão ao Botafogo pela responsabilidade de construir vantagem com um time remontado para abrigar Montillo.

Jair Ventura solucionou mantendo o desenho tático com a mesma variação de 2016: um 4-3-1-2 com Camilo mais atrás em relação a Montillo, que ficava liberado com Roger sem a bola, à frente de duas linhas de quatro. Na de meio-campo, Bruno Silva à direita, Aírton e Camilo centralizados e Rodrigo Pimpão pela esquerda.

Mas se adaptar às peças novas com a obrigação de buscar o ataque num início de temporada é bem complexo. Mais ainda com o bom desempenho do Colo-Colo nos primeiros minutos, com o ala Brayan Véjar e o meia Ramón Fernández levando vantagem pela esquerda seguidamente sobre Bruno Silva  e Jonas.

Até Camilo e Montillo se aproximarem, o alvinegro ganhar confiança e avançar as linhas. Mas ainda pilhado, e já perigosamente com faltas seguidas e reclamações junto ao árbitro Juan Soto. O Colo-Colo já se fragilizou com a saída por contusão de Zaldivia para a entrada de Fierro – aquele mesmo, ex-Flamengo –  como um dos três zagueiros da equipe chilena montada pelo técnico Pablo Guede.

O golpe que mudou o jogo veio de Aírton. Não uma entrada violenta, marca do volante ao longo da carreira, mas o chute forte e preciso do meio-campista que se reinventou e agora marca, joga e finaliza para marcar seu primeiro gol com a camisa do Botafogo.

Com a atmosfera favorável e a retaguarda desarrumada do Colo-Colo, o segundo gol veio naturalmente, mesmo contra de Esteban Padez. Contragolpe bem trabalhado por Montillo e Pimpão. Parecia a senha para uma vitória confortável a ser administrada no jogo de volta.

Mas Aírton saiu sentindo muitas dores no cotovelo e não voltou. Entrou João Paulo, outra peça nova, também precisando de ajuste. Foi para o lado direito e Bruno Silva ficou mais fixo à frente da defesa. Mudanças demais para uma decisão tão prematura. E logo uma peça tão importante…

O Bota cedeu espaços e na jogada trabalhada sobre a defesa exposta, Paredes encontrou o gol “qualificado” que o time chileno precisava para transformar a euforia no estádio na mesma tensão do início da partida. O Colo-Colo cresceu com Pedro Morález na articulação e Cristofer González à esquerda nas vagas de Fernández e Véjar e passou a acionar com mais frequência Rivero e Paredes.

O Bota foi cansando e com dificuldades para trabalhar com um típico pivô como Roger. O centroavante deu lugar a Joel no final para acelerar os contragolpes, sem muito sucesso. Antes, Jair Ventura tirou o extenuado Camilo e colocou Matheus Fernandes, volante formado no clube, para encorpar o meio-campo. Mas Montillo também havia cansado. Podia ter mantido o camisa dez.

Menos mal que o jovem zagueiro Marcelo Conceição se agigantou na retaguarda, apesar do toque com o braço na área alvinegra no final que a arbitragem ignorou. No apito derradeiro, um misto de alívio e preocupação.

Quem diria há uns cinco anos que um time brasileiro sentiria tanta falta de Aírton em um jogo de Libertadores. Aconteceu com o Botafogo, mas há vida e vantagem para a volta no Chile.