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Chelsea pode eliminar Barça porque Messi é senhor e escravo das entrelinhas
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André Rocha

Difícil imaginar em dezembro um confronto previsto para fevereiro. Mas ainda que o Chelsea não seja o mesmo da temporada passada, o sorteio das oitavas de final da Liga dos Campeões não foi nada generoso com o Barcelona.

Porque o time de Antonio Conte, com linha de cinco homens na defesa e meio-campo com Kanté e Bakayoko, vai negar os espaços que o Barcelona precisa e cada vez cria menos.

Sem uma opção de drible pela ponta como Neymar e o lesionado Dembelé, o jogo está todo concentrado em Messi. O argentino precisa armar e finalizar como nunca. O único escape é Jordi Alba pela esquerda ou as eventuais infiltrações de Paulinho.

Só que Messi vive um paradoxo. É o mestre das entrelinhas. Embora a bola nos pés do gênio seja poesia pura, o conceito não é subjetivo, nem romântico. É física pura.

Antes um ponta habilidoso e goleador que virou gênio quando Guardiola o chamou no seu quarto em 2009 para mostrar os espaços entre a defesa e o meio-campo do Real Madrid e pediu para que ele jogasse exatamente ali. Entre as linhas de marcação. Para receber com liberdade e acelerar em direção ao gol. O Barça enfiou 6 a 2 no maior rival dentro do Santiago Bernabéu. Nascia o Messi “falso nove”.

Mas mesmo quando ele voltou para o lado direito com a chegada de Suárez e Neymar e agora como um autêntico “ponta de lança” moderno no 4-4-1-1 montado por Ernesto Valverde, o espaço do camisa dez genial não muda. Ele procura as brechas entre os setores.

O problema é quando o adversário não as cede. O primeiro a fazer esta leitura foi José Mourinho. Primeiro com o ônibus da Internazionale em 2010, depois no Real Madrid colocando um homem entre essas linhas – primeiro Pepe, depois Xabi Alonso – não para marcar individualmente, mas preencher o vazio. Só com a expulsão do zagueiro luso-brasileiro o time de Guardiola se impôs e Messi, no auge do auge, fez a diferença na lendária semifinal da Liga dos Campeões 2010/2011.

Com o tempo, as equipes passaram a utilizar como “antídoto” quase sempre o 4-1-4-1, como o Villareal que plantou o volante português Rúben Semedo entre as linhas e foi um duro adversário na 15ª rodada do Campeonato Espanhol. A vitória por 2 a 0 só foi construída no segundo tempo, depois da expulsão do ponteiro Raba por falta duríssima em Sergio Busquets. Messi marcou seu 14º gol numa saída de bola errada, com o adversário escancarado.

É óbvio que o argentino continua genial e desequilibrante, com números estupendos. Para este que escreve o melhor que viu jogar. Mas repare como ele costuma crescer quando o adversário cansa ou está desarticulado. No cenário ideal, recebendo com liberdade entre as linhas, da meia direita para o centro, é imparável.

Flagrante do cenário ideal para Messi: recebendo entre a defesa e o meio-campo adversário, partindo da meia direita para o centro. Serve ou finaliza. É o jogo entrelinhas (reprodução ESPN Brasil).

A questão é que os adversários já sabem disso, ficou “manjado”. E nos jogos grandes, mais parelhos, os espaços somem. Até pela cultura de ter a bola do Barcelona. O oponente se recolhe, compacta as linhas. E Messi não joga.

Na última temporada, as partidas contra PSG e Juventus foram didáticas. Para eliminar os franceses o time catalão precisou do brilho de Neymar. Diante dos italianos não teve jeito. Porque Messi simplesmente se entrega. Ou espera a entrelinha. Se ela não vem…

Repare no argentino em campo. Ele só compete com a bola. Trota, por vezes caminha. Espera a bola chegar. Só dispara se perceber a chance de recebê-la em boas condições. Se o adversário não permite, ele costuma recuar. Com as principais linhas de passe fechadas, toca de lado. Ou se enfia no centro do ataque ou em uma das pontas. Os lançamentos dos companheiros não o encontram pela desvantagem física, inclusive na estatura. Ou seja, está morto no jogo.

Contra o Villareal, um exemplo de um cenário complicado para Messi: recebe de frente para as linhas compactas e fechando as linhas de passe, com um adversário cercando. No Barcelona atual, só há escape com Jordi Alba pela esquerda (reprodução ESPN Brasil).

Por isso a desvantagem nos últimos anos no duelo com Cristiano Ronaldo pelos prêmios individuais. O português é mais adaptável, já entendeu que precisa ser mais atacante, tocar menos na bola. Passa o jogo buscando a melhor chance de finalizar. Ora entrando como centroavante, ora buscando as infiltrações em diagonal. Contra retaguardas mais ou menos fechadas. Não desiste.

Messi fraqueja. Se a concentração do rival durar noventa minutos, ele só vai aparecer na bola parada – falta ou pênalti, como nos 6 a 1 sobre o PSG. Se já era pouco antes, agora que o Barcelona depende mais de sua estrela maior pode ser bem dramático.

O Chelsea não atua no 4-1-4-1, mas o 5-4-1 bem executado, com dois leões franceses na proteção, deve complicar bastante a vida do Barcelona, mesmo com o retorno de Dembelé. Porque Messi é senhor, mas também escravo das entrelinhas. Já está mais que subentendido.


Real Madrid, a “Lei de Guardiola” e o risco de repetir fiasco com Mourinho
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André Rocha

Foto: Getty Images

Pep Guardiola teve sua primeira experiência em um time de primeira divisão com o Barcelona na temporada 2008/2009. De lá para cá disputou oito ligas nacionais: quatro na Espanha, três na Alemanha e uma na Inglaterra. Mais um ano sabático em 2012/13. Venceu seis. Ou três quartos.

Mesmo que seus detratores relativizem tudo que o treinador venceu pela qualidade dos jogadores – talentos que ele ajudou a desenvolver ou evoluir e o maior exemplo é Lionel Messi – é um retrospecto impressionante para um profissional que ainda não completou dez anos de rodagem.

Por isso merece respeito sua tese de que “o título (da liga) se ganha nas oito últimas rodadas e se perde nas oito primeiras”.  Ainda que em várias delas, especialmente com o Bayern de Munique, seu time tenha vencido praticamente de ponta a ponta.

O Real Madrid de Zinedine  Zidane iniciou a temporada de forma primorosa, vencendo Barcelona e Manchester United e conquistando as Supercopas da Espanha e da Europa com sobras e jogando um futebol que conciliou arte e competitividade. Teve a bola contra os ingleses e no superclássico em Madrid e matou o time catalão nos contragolpes no Camp Nou. Sinalizava uma manutenção do domínio do país e no continente.

No entanto, os resultados nas cinco primeiras rodadas do Espanhol são decepcionantes: duas vitórias, dois empates e uma derrota, para o Real Betis de Quique Setién no Santiago Bernabéu. Em termos de desempenho, ao menos no único revés com a equipe mais completa, não houve queda acentuada. Faltou eficiência nas finalizações – foram 27, 12 de Cristiano Ronaldo e pelo menos três chances que o português não costuma desperdiçar.

Certamente Zidane não contava com tantos pontos perdidos, mas talvez o início menos intenso para voar no final da temporada faça parte do planejamento, com em 2016/17. Ou na recuperação em sua temporada de estreia, quando ficou a um mísero ponto do campeão Barça. A diferença é que quando assumiu sucedendo Rafa Benítez estava apenas dois pontos atrás dos blaugranas e a quatro do então líder Atlético de Madrid.

Agora são sete pontos. Distância considerável, ainda que com um ponto a menos em relação à fatídica jornada de 2012/2013. O ano do fiasco por conta do desgaste de José Mourinho com o elenco merengue que fez a equipe derrapar e o Barcelona, comandado por Tito Vilanova depois da saída de Guardiola, aproveitou para disparar e não perder mais. Terminou com 100 pontos, 15 a mais que o Real.

Os mesmos 100% de aproveitamento em cinco partidas, com gols de Messi em profusão. A mesma fome culé depois de perder o título na temporada anterior. Agora talvez pese um certo relaxamento madridista após tantas conquistas. Ou o foco, até pela cultura do clube, no tricampeonato inédito da Liga dos Campeões.

Seja como for, o inicio é preocupante e precisa de recuperação já a partir do jogo contra o Alavés fora de casa neste sábado. Para não valer a “Lei de Guardiola” e o Barcelona nem precise das oito últimas rodadas para confirmar seu 25º título nacional e se aproximar mais do grande rival, que ostenta a marca de 33 troféus. A conferir.


Campeonato inglês com cheiro de volta para Manchester. Pep ou Mou?
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André Rocha

Fica claro a cada partida do campeão Chelsea, inclusive no empate sem gols contra o Arsenal no Stamford Bridge, que Antonio Conte não encontrou em Morata uma reposição para Diego Costa no que o brasileiro naturalizado espanhol fazia de melhor, além dos gols: a capacidade de reter na frente as ligações diretas e passes longos.

O 5-4-1 esvazia o meio-campo e não sustenta construção de jogo com posse de bola. Sem Hazard, que volta para ajudar na articulação, fica ainda mais complicado. Por isso a superioridade do Arsenal de Arsene Wenger, que emulou o desenho tático do rival londrino e teve em Xhaka e Ramsey meio-campistas que combinaram qualidade técnica e dinâmica melhor que Kanté e Fábregas – apesar do passe precioso do espanhol para o compatriota Pedro perder à frente de Cech na melhor chance do jogo, ainda no primeiro tempo.

Com Liverpool e Tottenham oscilando mais que o esperado e o Newcastle não mostrando força até aqui para repetir a surpresa do Leicester em 2016, a Premier League começa a ganhar um aroma bem conhecido da Premier League nos últimos dez anos. Mesmo com apenas cinco rodadas.

Desde 2007, quando o Chelsea não foi campeão a taça rumou para Manchester. O United de Alex Ferguson faturou cinco, o City conquistou dois. Agora, não é exatamente a tradição que parece pesar a favor das equipes da cidade, mas a força de seus elencos e, principalmente, a capacidade de seus treinadores.

Pep Guardiola já sinaliza que o “curso” de um ano de campeonato inglês foi útil para o aprendizado. Entender o ritmo, o jogo físico, o “bate-volta” e tentar se adaptar. Jogo a jogo, demanda a demanda. Por isso a variação no desenho tático com linha de quatro ou cinco defensores, porém mantendo a ideia de jogo.

Abrir o campo com os novos laterais/alas Walker e Mendy, controlar o jogo no meio-campo alternando posse e aceleração com De Bruyne e David Silva e garantindo presença de área e poder de finalização mantendo Aguero e Gabriel Jesus no ataque, ainda que o brasileiro parta da ponta para dentro.

Como nos 6 a 0 sobre o Watford fora de casa, mas protagonista em campo atacando com volume, mas sabendo usar as jogadas aéreas com bola parada ou rolando e também explorar os espaços às costas da retaguarda adversária. Um City híbrido e inteligente. Um Guardiola mais conectado à lógica da liga mais forte do mundo.

Algo que o tricampeão Mourinho conhece tão bem. Por isso os Red Devils sob seu comando iguala a campanha do rival local: quatro vitórias e um empate, dezesseis gols marcados e dois sofridos. Mas trajetória construída de maneira bem diferente.

Um estilo baseado na força física e nas jogadas aéreas, ao menos até abrir vantagem. Depois muita velocidade nas transições e fôlego nos minutos finais, como nos 3 a 0 sobre o Everton no reencontro com Wayne Rooney dentro do Old Trafford, matando o jogo com os gols de Mkhitaryan e Lukaku depois do golaço de Valencia logo no início da partida.

Sem grande preocupação com a posse de bola, apostando sempre nos ataques verticais. Na ausência de Pogba, lesionado, Fellaini é mais um para cortar ou completar cruzamentos. Juan Mata é o ponta articulador que garante mobilidade e criação de espaços diante de adversários fechados. Um 4-2-3-1 compacto, rápido, intenso.

A retaguarda ainda não inspira confiança, mas foi vazada apenas no empate contra o Southampton. Graças às intervenções do goleiro De Gea. A do City também precisa de ajustes e sofre menos porque consegue manter a bola mais longe da meta de Ederson.

É muito cedo para qualquer prognóstico, ainda mais com tanto equilíbrio de forças e as equipes mais poderosas envolvidas em torneios continentais, fora as copas nacionais sempre desgastantes. Mas já é possível sentir um cheiro de Manchester voltando ao domínio na Inglaterra.

Ou um novo duelo Pep x Mou para atrair os olhos do mundo.


Real Madrid, Zidane e a nova era do futebol por demanda
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André Rocha

O Barcelona sofre tentando criar alternativas ao seu estilo de posse de bola após encontrar algumas boas respostas no auge do trio Messi-Suárez-Neymar em 2015, mas agora vivendo uma queda brusca. Pep Guardiola quebra a cabeça para adequar seus princípios de jogo outrora inegociáveis ao futebol jogado na Inglaterra. O Atlético de Madri de Simeone e José Mourinho com o Manchester United buscam alternativas para os momentos em que suas equipes precisam criar espaços porque têm a posse diante de equipes de menor investimento.

Jurgen Klopp e seu sucessor no Borussia Dortmund Thomas Tuchel tentaram encontrar a saída na intensidade máxima, nas transições contínuas baseadas no “gegenpressing”, mas penam com o mesmo problema que Marcelo Bielsa convive há pelo menos uma década: seus comandados não suportam tamanha a exigência física e mental.

O “futebol líquido”, conceito de Paco Seirul lo que consta no livro “Guardiola, a Metamorfose”, de Marti Perarnau e traduzido pela Editora Grande Área, ainda é algo fascinante no campo das ideias e provavelmente o veremos no futuro, com times fluidos, atacando e defendendo por todos os lados com ações mecanizadas, jogando de memória. Como alguém nascido no século 20, este que escreve ainda acredita que o talento é e será sempre fundamental.

Jupp Heynckes, em seu último ato como treinador, iniciou um processo de combinação de estilos com o Bayern de Munique campeão de tudo em 2013. Segunda equipe com mais posse de bola na Europa que pulverizou a primeira, o Barcelona, com 7 a 0 no placar agregado da semifinal da Liga dos Campeões com média de 40% de tempo com a bola.

No ano seguinte, Carlo Ancelotti ensaiou a melhor solução com o Real Madrid campeão de “La Decima”: um time híbrido, que se adapta bem ao ataque posicional, mas se for preciso acelera e é letal nos contragolpes. Mas naquele momento faltava entrosamento e um pouco de flexibilidade do trio BBC – Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo – um tanto duro, rígido, com a única variação do sistema tático: do 4-3-3 para o 4-4-2 com o recuo de Bale pela direita.

Zinedine Zidane assumiu em sua primeira oportunidade como treinador do time principal dos merengues resgatando as ideias do italiano, de quem era auxiliar técnico. Com a conquista da Liga dos Campeões e a possibilidade de planejar a temporada, foi amadurecendo, consolidando e aprimorando conceitos e agora parece chegar a algo novo. Mas não tanto assim.

Desde sempre times como Real Madrid jogam no campo de ataque na maioria das partidas. Cultura do clube, exigência da torcida, expectativa do adversário, da mídia, de todos. Apenas em alguns jogos, em contextos especiais, ou só quando constroi a vantagem no placar é permitido recuar linhas e jogar em contragolpes.

Só que dentro da dicotomia do futebol mundial nos últimos oito anos ou você era propositivo e ficava com a bola, ou reativo e explorava os espaços cedidos por quem decidia controlar o jogo com a posse. Com os estilos cada vez mais estudados, quem apresentava uma das ideias como filosofia quase imutável sofria quando precisava variar a proposta ou era surpreendido.

Como equipes pressionando a saída de bola do Barça e explorando os espaços às costas das retaguardas de Guardiola. Ou times dando a bola aos comandados de Mourinho e Simeone e explorando suas dificuldades.

O Real Madrid atual é mutante, “camaleão”. Se adapta ao que quer para o jogo ou ao que o adversário propõe. E pode mudar durante o jogo. Porque tem jogadores capazes de virar a chave sem que o treinador precise fazer alterações.

Carvajal e Marcelo podem jogar abertos no campo de ataque ou posicionados numa linha de quatro com Varane e Sergio Ramos, atentos na cobertura e no confronto direto com os atacantes do oponente se expostos ou fixos atrás, prontos também para o jogo aéreo, ofensivo ou defensivo.

No meio, Casemiro, Modric e Kroos. Se é preciso de requinte na saída de bola pressionada, o alemão recua para qualificar os passes, curtos ou longos. Se a necessidade é de proteção e imposição física lá está Casemiro, outra peça importante nas jogadas pelo alto. E se o jogo requer dinâmica, presença de área a área, acelerando ou cadenciando, Modric é completo. Versátil.

Isco foi o toque de Zidane para tornar tudo ainda mais fluido e mutável. É meia no 4-3-1-2, mas também é ponta fazendo dupla com o lateral. Indo e voltando. Se recua pela direita, Modric e Casemiro centralizam e Kroos fecha o lado esquerdo. Se volta à esquerda, Modric abre e Kroos fecha. Sempre em duas linhas de quatro.

Para liberar Cristiano Ronaldo e Benzema, que circulam por todos os setores do ataque. Ou Bale, que parece aceitar a reserva porque sabe que vai jogar muitas vezes. Zidane roda o elenco com naturalidade. Na temporada passada definindo titulares e reservas e mandando a campo dentro de um planejamento. De olho na meritocracia. Assim Isco virou titular.

Desta forma já começou a temporada 2017/2018 com dois títulos, num total de sete desde o início de 2016. Matando o Manchester United na Supercopa da Europa ficando com a bola. Depois encaminhou a Supercopa da Espanha com os 3 a 1 sobre o rival Barcelona jogando em transições rápidas e definiu o confronto com 2 a 0 no primeiro tempo e maior posse de bola que o time blaugrana pela primeira vez em nove anos.

Porque o jogo pedia. Basta ter leitura e inteligência e serenidade para tomar as melhores decisões, individuais ou coletivas. Capacidade de resolver problemas. Com bola rolando ou parada. Por baixo ou pelo alto. Entender a lógica da disputa e a melhor forma de superar o rival e construir vitórias e títulos com naturalidade.

Tudo sem abrir mão de conceitos atuais: compactação, pressão, preenchimento e ataque de espaços, jogo posicional, profundidade, amplitude, mobilidade. Temperados com mentalidade vencedora e confiança. Zidane não nasceu sabendo, nem é mágico. Mas sempre privilegiando a precisão técnica e em alguns momentos até deixando o adversário jogar. Como era num tempo distante que às vezes retorna em insights nesse vai e volta na linha do tempo.

Este é o Real Madrid de Zidane. O bicampeão europeu, líder de uma nova era do esporte que volta um pouco atrás para ser pragmático sem perder a leveza. Ofensivo e reativo, de acordo com o “freguês”. Dentro ou fora de casa. Nada mais simples e moderno, como ver a sua série favorita ou o time de coração na TV de casa ou em um dispositivo móvel. Como quiser e quando for possível.

Jogo de ataque e defesa descarnado de idealizações ou romantismos. É o futebol por demanda.


A pobreza do “Mourinhobol” e a mentalidade vencedora do Real de Zidane
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André Rocha

Zinedine Zidane deixou no banco Cristiano Ronaldo, voltando de férias depois da participação na Copa das Confederações. Colocou Bale em seu lugar e manteve a equipe campeã espanhola e da Liga dos Campeões para a disputa da Supercopa da Europa na Macedônia. Com Isco novamente fazendo a ligação do meio com o ataque.

Com Casemiro, Modric e Kroos ajudaram o Real Madrid a jogar fácil. Nada revolucionário nos conceitos. Zidane quer aproximação, troca de passes, movimentação e simplicidade. E explora a grande virtude da equipe merengue: a qualidade na execução das jogadas. Precisão. Mesmo com erros incomuns, mas compreensíveis para um início de temporada. Como Kroos errar feio numa saída de bola.

Contra o Manchester United de José Mourinho assumiu naturalmente o protagonismo, ocupou o campo de ataque e com os avanços de Carvajal, que busca mais o fundo em velocidade que Marcelo do lado oposto, fez Lingard recuar como lateral formando com Valencia, Lindelof, Smalling e Darmian uma linha de cinco na defesa.

Acabou superado pela infiltração de Casemiro, impedido por centímetros ao receber passe de Carvajal para abrir o placar. Ampliou na bela combinação de Bale e Isco, que tocou na saída do goleiro De Gea. Toques rápidos e objetivos.

O United permitia que o Real tivesse a bola, mas as transições em velocidade criaram problema para o sistema defensivo espaçado do time espanhol por conta da proposta ofensiva e do condicionamento físico ainda em evolução no fim da pré-temporada.

Rashford, que entrou na vaga de Lingard, e Lukaku, grande contratação da temporada, perderam chances cristalinas. O atacante belga ao menos aproveitou o rebote de Keylor Navas para diminuir e ao menos criar a expectativa de reação.

Mas um time com tamanho poder de investimento não pode recorrer a Fellaini e um jogo físico e limitado às bolas aéreas em um jogo grande. Um “Mourinhobol” que pode até funcionar, mas é um enorme desperdício.

O Real, mesmo cansado, teve chances de matar o jogo nos contragolpes com Lucas Vázquez, Cristiano Ronaldo e Asensio. Mas nem foi preciso, porque controlou a partida aproveitando a pobreza do repertório dos Red Devils.

Também usando algo subjetivo, mas que no caso da equipe de Zidane fica bem nítido, quase palpável: a mentalidade vencedora. A certeza de que é melhor e pode ganhar. Por isso soma mais um título, sua quarta Supercopa europeia. O primeiro ato de um time pronto para seguir fazendo história.

 


Falta de senso coletivo faz nosso futebol ser mais Mourinho que Guardiola
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André Rocha

O debate atual do futebol brasileiro é a dificuldade dos times que ficam com a bola para furar as defesas. A posse normalmente é inócua, não há infiltração e resta tocar, tocar e levantar a bola na área. Ou compensar a falta de criatividade com marcação pressão no campo de ataque e com a bola roubada com a defesa saindo surpreender o rival.

Mas para furar tem que abrir primeiro. E historicamente o nosso jogador aprendeu a escancarar as defesas através do drible. Da vitória pessoal. Do “pra cima deles!” Só que os melhores estão na Europa: Neymar, Douglas Costa, Willian, Philippe Coutinho…Exatamente porque os treinadores do Velho Continente, especialmente Pep Guardiola, perceberam que para fazer o jogo posicional e desmontar a defesa rival precisam do talento que ao se livrar de um ou dois oponentes mata a coordenação da marcação por zona.

No tempo certo, dentro de um trabalho coletivo. Normalmente com a jogada iniciando de um lado e a bola sendo invertida para o driblador ficar no mano a mano, com a cobertura atrasada para ou driblar na direção da linha de fundo ou cortar para dentro e finalizar.

No Brasil normalmente ficam (ou voltam) os ligeirinhos. Aqueles que sabem driblar, mas em velocidade. Com espaço para correr. O dilema é que, pela necessidade de resultados imediatos, são os conceitos atuais na fase defensiva os mais utilizados.

Compactação, pressão no adversário que tem a bola, coberturas, posicionamento. Tudo isso já aprendemos. Porque basta olhar nossa história vencedora para notarmos a repetição de um mantra: “Se defendermos bem, na frente nosso talento decide”. Desde a implantação da linha de quatro na retaguarda em 1958 e 1962, passando por Zagallo e todos atrás da linha da bola em 1970, o “fecha a casinha e bola para Bebeto e Romário” em 1994 e os três zagueiros, Gilberto Silva e Kléberson com Felipão em 2002 para Rivaldo e os Ronaldos definirem o último título mundial canarinho.

Sempre na individualidade, no lampejo, na jogada genial. Na vitória sobre os marcadores. Tempos de encaixes individuais, marcação tendo o jogador como referência. Hoje o que vale é fechar o espaço onde está a bola. Conceito radicalizado por José Mourinho para se defender contra o Barcelona de Pep Guardiola. Ocupação inteligente do campo para negar brechas e vencer no erro do oponente.

Tite foi o treinador brasileiro mais atento. Primeiro para trazer para cá o que de mais moderno se praticava no mundo na marcação por zona. Com as conquistas do Corinthians mudando o patamar e passando a atuar como favorito na maioria das partidas, sentiu necessidade de se reciclar ofensivamente.

Viajou, estudou e acrescentou as triangulações e a movimentação das peças para abrir as defesas e o talento definir no último terço. Assim ganhou o Brasileiro de 2015 no retorno ao Corinthians e colocou a seleção brasileira na Copa da Rússia com desempenho e resultados nas Eliminatórias.

Qualidade em função do coletivo. Um senso que nos falta no dia a dia. Dentro de uma cultura individualista distorcida, na base do “salve-se quem puder” ou só os mais fortes ou os mais “espertos” sobrevivem. Não a ideia de que se todos brilharem o todo será mais forte. No futebol, o estereótipo do garoto que se destaca na peneira pelos dribles e gols. Porque foi fominha e não deu a bola para ninguém. “Primeiro eu”.

Vale para estourar na base e parar no profissional. Ou ser exportado precocemente. Porque se destacou no meio da multidão. O menino é estimulado a pensar em si desde cedo: “quer dar uma vida melhor para sua família? então pega a bola e vai para cima”. Trabalhar para a equipe? Só com vida resolvida. Dele, da família, do empresário…

Como convencê-lo a se movimentar para facilitar o trabalho do companheiro? Como pedir ao centroavante para ser pivô ou arrastar os zagueiros para um lado e outro fazer o gol se ele aprendeu que para estar na capa dos jornais e sites tem que botar a bola nas redes? Como ensinar a tocar e se deslocar quem ouviu a vida toda “para cima deles!”?

Há também a transferência de responsabilidade. O “tirar da reta” para não ser o vilão de torcidas cada vez mais histéricas, nos estádios e nas redes sociais. Quando se observa um time trocar passes, abrir no lateral e todo mundo correr para a área, há várias mensagens possíveis. A do jogador que vai levantar na área, mesmo com todos marcados, para se livrar de um problema. Os que entraram na área esperam receber o passe preciso para fazer o gol e levar os méritos. Se a zaga cortar, não foi culpa deles.

O futebol atual exige manobras em equipe. O atacante central que recua para o ponteiro entrar em diagonal. A movimentação trazendo todos os marcadores adversários para um setor e inverter o lado rapidamente para encontrar alguém livre. Complementa a jogada quem estiver melhor posicionado. Ação de ataque otimizada para ser eficiente.

Não fomos educados para isso. Por isso batemos no muro e voltamos. E seguimos tentando da mesma forma esperando que o adversário erre de tanto insistirmos. Eis a explicação para tantas vitórias de visitantes, de quem não faz questão de ter a bola. Exatamente para vencer nos contragolpes. Com espaços para os ligeirinhos acelerarem e consagrarem os centroavantes. O meia não precisa do toque mais criativo. O passe só tem que ser preciso.

A vida moderna nos fez desaprender a alternar os ritmos. É pisar no acelerador até o fim. Sentir mais do que pensar. É “raça, disposição, fé em Deus”. Mas Johan Cruyff e tantos outros mais lúcidos disseram que o jogo começa na cabeça e os pés apenas executam. Raciocinamos pouco. Por isso esse jogo mais físico que cerebral.

A inteligência se limita a encontrar maneiras de não sofrer gols. O futebol jogado no Brasil é mais Mourinho que Guardiola. Tite encontrou em Carlo Ancelotti um meio termo, bebendo nas duas fontes. Assim como Zidane, Allegri e até os outrora radicais da intensidade Klopp e Simeone. Buscando times que jogam com posse ou em transição. Inteligentes.

Por isso o comandante da seleção brasileira segue como carro-chefe puxando os demais treinadores. O segredo é a capacidade de convencer a compartilhar o sucesso quem sempre aprendeu a se virar sozinho.

 


LIberdade e protagonismo: as ofertas do Barça em campo para seduzir Neymar
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André Rocha

Na vitória por 1 a 0 sobre o Manchester United no FedEx Field, o Barcelona marcou seu terceiro gol pela Champions Cup. O terceiro de Neymar, o grande destaque do primeiro tempo com as equipes utilizando os titulares e colocando intensidade máxima, mesmo num torneio de pré-temporada. Exatamente por saber que no segundo tempo os reservas seriam utilizados.

Ao menos pelo novo comandante blaugrana, Ernesto Valverde. José Mourinho, sempre atento ao resultado, mexeu menos para buscar a virada e viu os titulares mantidos em campo sofrerem com o desgaste natural em um início de trabalho. Os Red Devils ameaçaram pouco a meta do goleiro Jasper Cillessen.

Assim como nos 2 a 1 sobre a Juventus, o que ficou claro em campo é que Neymar ganhou mais liberdade para circular por todo ataque, embora parta quase sempre do lado esquerdo. O trabalho defensivo também está mais brando, sem voltar tanto na recomposição. A linha de três no meio teve o jovem Carles Aleñá, produto de La Masia, correndo bastante para articular no meio e auxiliar o lateral Jordi Alba.

Com isso, Messi funciona mais como armador. Ou o antigo “ponta-de-lança”, atuando na área que domina: da meia direita carregando a bola em diagonal para passar ou finalizar. Suárez girou na frente abrindo espaços e o trio está menos previsível. A equipe, porém depende mais deles, já que todos trabalham para que os atacantes sul-americanos fiquem mais soltos.

Solução que cria incoerências, como o lateral português Nelson Semedo, contratado para suceder Daniel Alves exatamente por sua força no apoio, guardar mais sua posição pela direita e praticamente não descer, mesmo com o corredor cedido por Messi. Rakitic aproveitou mais o espaço, mas nem tanto. Exatamente pelas maiores atribuições defensivas.

De qualquer forma, a impressão que fica é que o Barcelona, ou talvez apenas o grupo de jogadores, tenha encontrado uma forma de seduzir Neymar a ficar, mesmo com a sombra de Messi, inclusive na hierarquia midiática, os problemas com a justiça espanhola e a resistência do clube em aumentar seu salário: liberdade e protagonismo.

Não mais o ponteiro do tridente a se sacrificar taticamente, mas um membro do melhor ataque do mundo em potencial com os mesmos direitos de visibilidade. Também de ir às redes e aproveitar a sua sanha de goleador que andava um tanto ofuscada pela missão de ser mais assistente que finalizador.

Como na lógica dos boleiros tudo se resolve no campo, o plano pode funcionar e Neymar seguir na Catalunha.

Neymar no PSG? Veja detalhes da negociação


“O problema é quando se tem a bola” – Futebol atual é jogo de espaços
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André Rocha

A frase entre aspas do título deste post é de um treinador campeão brasileiro, cujo nome não será revelado para não criar qualquer estigma ou rótulo. Até porque havia um contexto dentro da entrevista. Mas a ideia era clara.

Ter a posse de bola é aumentar a probabilidade de errar e dar chances ao adversário. Na saída de bola, com zagueiros que não foram ensinados a iniciar a construção das jogadas e acabaram na posição pela estatura e vigor físico. Em um centro futebolístico que predomina financeiramente no continente, mas não conta com excelência técnica na maioria das posições e funções.

No qual a torcida não tem paciência para jogadas trabalhadas, vaia bola recuada para o goleiro com a proposta de criar espaços e, na ansiedade e imediatismo típicos da nossa cultura, exige que a ação ofensiva seja finalizada o quanto antes.

Por isso a bola de segurança pelos lados. Porque se há a perda, o contragolpe do oponente não se inicia em uma zona perigosa. O ataque só passa pelo centro para virar o lado saindo da pressão ou procurando um pivô, mas já no último terço do campo. Muitos cruzamentos, com bola parada ou rolando. A margem de erro é menor.

Como cobrar mais de treinadores trocados a cada três meses, ameaçados a cada três derrotas? Responsabilizados por problemas técnicos de seus atletas desde a base e sem tempo para treiná-los com jogos a cada três dias? Neste cenário pragmático é melhor mesmo não ter a bola e esperar o vacilo do outro lado.

A vitória do Botafogo sobre o Nacional uruguaio no Parque Central foi simbólica. Porque a equipe da casa, que também se sente mais confortável jogando em transições velozes, precisava trabalhar as ações ofensivas para infiltrar, construir o resultado para administrar na partida de volta.

Encontrou, porém, uma equipe brasileira novamente bem coordenada defensivamente, com concentração e entrega. Também sorte, já que no toque de Victor Luís na própria área com o braço muito aberto, em lance duvidoso para as novas recomendações da FIFA, a arbitragem não se deixou levar pelo mando de campo. Sem contar a falha grotesca do zagueiro Emerson Silva que Silveira não aproveitou à frente de Gatito Fernández. O erro quando teve a bola.

No contragolpe, inversão de Pimpão para Bruno Silva e bola na rede com o toque meio sem querer de João Paulo, meia que deixou Camilo no banco pelo maior poder de marcação e dinâmica mais alinhada à proposta do treinador Jair Ventura. Triunfo com 40% de posse e oito finalizações, quatro no alvo. Contra 17 do Nacional, mas só duas na direção da meta de Gatito. Sem ideias, os uruguaios efetuaram 41 cruzamentos. O Bota cometeu 26 faltas contra 14 e acertou 17 desarmes, o Nacional só 12. Espírito de competição.

O resultado facilita o trabalho para a volta no Estádio Nílton Santos. Porque o Botafogo, mesmo em casa e provavelmente com a torcida apoiando, deve manter sua ideia pragmática de jogo. O questionamento inevitável é: como será quando a equipe precisar sair para o jogo por necessidade? As derrotas para Barcelona de Guayaquil e Avaí no Rio de Janeiro entregam respostas preocupantes.

Jogar como “azarão” é mais simples. O discurso motivacional do treinador vai na linha do “Davi x Golias”, os comandados entram mais concentrados e nenhuma pressão. Há espaços para atacar e menor cobrança sobre o erro.

Não só no Brasil. Nos grandes centros a lógica é a mesma. Com Leicester City e Chelsea vencendo as últimas edições da Premier League sem dar muita importância para a posse de bola. O Barcelona eliminado na Liga dos Campeões por Atlético de Madri e Juventus e ainda levando 4 a 0 do PSG. Os rivais sempre jogando a isca: “Me ataque, fique com a bola e te golpeio em seus pontos fracos”. Pep Guardiola no Manchester City também sofreu e vai tentando aprender e se adequar à dinâmica do futebol jogado na Inglaterra.

Na final da Liga Europa, José Mourinho armou seu Manchester United para aproveitar os espaços deixados pelo Ajax com seu ataque posicional típico do futebol holandês. Marcação encaixada, bote no zagueiro colombiano Davinson Sánchez, elo fraco nos passes, e contragolpe rápido. Força no jogo aéreo e mais uma taça continental para o treinador português.

O mundo é do Real Madrid comandado por Zidane porque é um time talentoso e inteligente. Sabe jogar com a bola pela qualidade individual que possui. Por ser um gigante, em 90% das partidas na temporada entra como favorito e precisa se arriscar. Mas faz por necessidade, não filosofia ou convicção. E se abre o placar o jogo reativo volta a ser a ideia principal. Assim como a Juventus, finalista derrotada na Champions, é um time “camaleão”, que muda de acordo com o que se apresenta. Para isso precisa de jogadores completos, inclusive na leitura de jogo. Saber acelerar e cadenciar, dosar a intensidade.

Não por acaso o predomínio recente de Cristiano Ronaldo sobre Messi nas premiações individuais. Consequência das conquistas coletivas. O português é mais prático, simples e vertical. Decide com um toque. Para brilhar, o argentino precisa construir em um Barcelona cada vez mais mapeado e estudado. Missão complicada.

Porque quem trata a posse como obsessão ou filosofia, dentro ou fora de casa e independentemente do contexto está sendo obrigado a mudar. No futebol tão estudado de hoje, a equipe abre mão do fator surpresa. Instala-se no campo de ataque, gira a bola em busca de espaços e os cede atrás, por consequência. Cabe ao rival negar as brechas para infiltrações, com o cada vez mais utilizado sistema com cinco homens na última linha de defesa, e explorar os pontos falhos, que sempre existem.

Na costumeira variação do 4-3-1-2 para duas linhas de quatro bem compactas, o Botafogo venceu em Montevidéu. Mais uma vez sem fazer questão da posse. No futebol, ela cada vez mais vai perdendo sua importância. A referência é o espaço. O “jogar sem bola” aproxima das vitórias.  Paradoxal, não?

E a frase do técnico, que soou absurda há alguns anos, mostra-se visionária. Mas qual será o impacto no futuro do esporte? Felizmente ele é cíclico, por isso tão apaixonante. Logo virá uma resposta. Tomara…

(Estatísticas: Footstats)

 


Liga Europa, vamos! Ao seu estilo, Mourinho volta a ganhar o continente
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André Rocha

Foto: Darren Staples, Reuters

O garoto-propaganda do patrocinador da Liga dos Campeões estará de volta ao maior torneio de clubes do planeta. Se não conseguiu a vaga para o Manchester United via Premier League, o título da Liga Europa aumenta a lista de taças conquistadas por José Mourinho.

No continente é a quarta, se juntando à antiga Copa da UEFA e às duas Champions Leagues, com Porto e Internazionale. Com os Red Devils, na primeira temporada, o terceiro título, se juntando às Supercopa da Inglaterra e Copa da Liga Inglesa.

Vitória sobre o Ajax em Estocolmo bem ao seu estilo. Diante de um time jovem e sem vivência em jogos grandes, aproveitou a pior faceta da atual escola holandesa: a falta de mobilidade e variações do tradicional 4-3-3 de manual.

Mourinho sabia que a fluência da equipe do treinador Peter Bosz partia do trio de meio-campistas acionando os ponteiros Traoré e Younes para buscar Dolberg, centroavante dinamarquês de 19 anos. A solução foi encaixar o 4-2-3-1 no engessado desenho tático do adversário.

Resultado: o meio-campo não jogou. Ander Herrera pegava Ziyech, Pobga grudava em Klaassen e Fellaini impedia a saída limpa do volante Schone. Os pontas Mata e Mkhitaryan acompanhavam os laterais Veltman e Riedewald, que não davam profundidade e Rashford dificultava a saída do zagueiro De Ligt.

Sobrava o zagueiro colombiano Davinson Sánchez, que entristeceria Johan Cruyff se ainda estivesse entre nós. Para este, o defensor é o primeiro construtor das jogadas. Sánchez conduzia a bola…e entregava ao adversário, que saía em transição rápida.

Assim o United controlou o jogo sem posse, com apenas 34%. A armadilha visava acelerar os contragolpes com o jovem Rashford e aproveitar a chegada forte pela direita de Valencia, descendo pelo corredor deixado pela movimentação de Mata.

No entanto, o gol saiu no vacilo de Klaassen, que deixou Pogba livre para bater de fora e contar com o desvio para deixar o jovem time holandês ainda mais tenso. Só Traoré saía do lado direito e buscava o centro ou a infiltração em diagonal para tentar quebrar a marcação na vitória pessoal.

O encaixe do 4-2-3-1 do Manchester United sobre o engessado 4-3-3 do Ajax que sofria na saída de bola com o zagueiro colombiano Sánchez. Bola roubada, contragolpe e eficiência nas finalizações (Tactical Pad).

O Ajax finalizou seis vezes contra quatro do United, mas apenas uma no alvo contra duas. Os números importantes dos primeiros 45 minutos, porém, foram os de bolas recuperadas: 32 da equipe inglesa contra 19 dos holandeses. Emblemático.

O caminho para o primeiro título da Liga Europa, a primeira taça internacional depois da saída de Alex Ferguson, foi pavimentado pelo gol de Mkhitaryan completando desvio de Smalling em mais uma falha defensiva do adversário. Na bola parada. Bosz tentou mexer com a marcação adversária, inclusive com o brasileiro David Neres. Um pouco mais de mobilidade, com Traoré circulando. Muito pouco.

O United deixou a marcação individual, compactou duas linhas de quatro com Herrera entre elas e deixou Lingard e Martial abertos para a saída dos contragolpes. Podia ter ampliado com Lingard, mas nem foi necessário. Valeu para Rooney sair do banco para substituir Mata, comemorar mais um título com a camisa do clube e levantar a taça como capitão.

Um mimo de Mourinho, campeão mais uma vez à sua maneira. O United terminou com 33% de posse e seis finalizações contra 15 do Ajax. Eficiência com quatro na direção da meta de André Onana e apenas duas que deram trabalho ao goleiro Romero.

Assim como o cãozinho Salsicha, a Liga Europa também vai com José Mourinho. Título importante para afirmar o português no comando do maior campeão inglês. Apesar dos problemas, em especial o sentido desfalque de Ibrahimovic, que celebrou de muletas em sua Estocolmo. Para amenizar a dor da tragédia em Manchester.

Na próxima temporada, Mourinho voltará a sentir o gostinho de “Match Day” na UEFA Champions League. Não só na propaganda.

(Estatísticas: UEFA)


O handebol nunca esteve tão presente no futebol. Por causa de José Mourinho
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André Rocha

O Brasil venceu a Alemanha no handebol masculino por 33 a 30 na Arena do Futuro e, ao superar um favorito à medalha de ouro, confirma a ascensão do país no esporte que já vem desde a conquista do Mundial com a seleção feminina em 2013. As chances de medalha no Rio de Janeiro são reais.

Ao contrário do futebol, o gol nesta modalidade não é raro. Saem às dezenas porque a própria dinâmica propicia isso. Seis para cada lado, mais o goleiro, precisando cobrir espaços e impedir, ou ao menos dificultar a finalização da jogada. Com as mãos, muito mais fáceis de coordenar. Tudo para tentar sair da quadra sofrendo menos gols que o oponente. Minimizar os danos.

Seleção brasileira de handebol masculino em momento defensivo na vitória sobre a Alemanha: barreira de seis para evitar ou dificultar a finalização (reprodução Sportv).

Seleção brasileira de handebol masculino em momento defensivo na vitória sobre a Alemanha: barreira de seis para evitar ou dificultar a finalização (reprodução Sportv).

Foi o que José Mourinho fez no Camp Nou em 28 de abril de 2010. Barcelona x Internazionale, jogo da volta da semifinal da Liga dos Campeões após a vitória dos neroazzurri em Milão por 3 a 1. Aos 28 minutos do primeiro tempo, Thiago Motta fez falta em Busquets e levou cartão vermelho.

Mourinho contestou muito a decisão da arbitragem com todo seu jogo de cena costumeiro. Sem admitir sair de Barcelona desclassificado pelo time de Pep Guardiola, à época seu desafiante no duelo pelo posto de melhor técnico do mundo, o português apelou.

Consciente de que o rival trocaria passes com técnica e paciência até encontrar brechas, que seriam mais frequentes com a vantagem numérica, alinhou seus nove jogadores de linha à frente da meta de Julio César quase como um time de handebol. Duas linhas chapadas. Ora duas de quatro, ora uma de cinco e outra de quatro.

Em alguns momentos com seis atrás: os quatro defensores mais centralizados e os dois ponteiros recuados como laterais. Um deles era Samuel Eto’o, campeão da tríplice coroa com o Barça um ano antes. Como centroavante e artilheiro do time na temporada. Humildade absoluta.

Flagrante da Internazionale com seus nove homens guardando a própria área, sete deles quase alinhados. Em 2010, José Mourinho organizou a retranca e o jogo virou handebol (reprodução ESPN).

Flagrante da Internazionale com seus nove homens guardando a própria área, sete deles quase alinhados. À esquerda, Samuel Eto’o como lateral. Em 2010, José Mourinho organizou a retranca e o jogo virou handebol (reprodução ESPN Brasil).

Mourinho diz que pensou apenas em evitar uma goleada. Na prática, o feito histórico de sair derrotado apenas por 1 a 0, com o gol em impedimento de Piqué, mudou os rumos do esporte. Nunca o handebol esteve tão presente.

Porque tirou a vergonha e organizou a retranca da forma mais pragmática já vista. Ferrolhos sempre existiram. Na própria Internazionale bicampeã europeia nos anos 1960 com o técnico argentino Helenio Herrera. Mas eram tempos de líbero e marcação individual. A própria Grécia campeã da Euro em 2004, já com marcação por zona. Mas não tão radical.

A ideia de Mourinho era tirar espaços, ter corpos formando uma barreira. Porque se a lógica do jogo posicional de Guardiola é trocar passes até encontrar uma fresta para a infiltração, se não há a brecha sobra só a posse de bola. Inócua.

Nascia ali a grande dicotomia do futebol atual: jogo de posse versus jogo de transição. Caça e caçador, gato e rato. Treinadores escolheram seus lados, outros tentam transitar entre esses dois universos, conforme a necessidade. Como Carlo Ancelotti, que impôs a Guardiola sua pior derrota, nos 4 a 0 do Real Madrid sobre o Bayern em Munique na semifinal da Liga dos Campeões em 2014.

Porque adicionou o contragolpe letal à fórmula de Mourinho. Sempre um problema para quem prefere controlar a pelota. Linhas compactas, saída rápida para o ataque em toques rápidos e objetivos. Ainda a jogada aérea, especialmente na bola parada.

Nos 4 a 0 sobre o Bayern de Munique comandado por Guardiola, o Real Madrid de Carlo Ancelotti se fechou com linhas de quatro muito próximas, mas adicionou contragolpes letais aproveitando os espaços deixados pelo adversário que ocupava o campo de ataque (reprodução ESPN Brasil).

Nos 4 a 0 sobre o Bayern de Munique comandado por Guardiola, o Real Madrid de Carlo Ancelotti se fechou com linhas de quatro muito próximas, mas adicionou contragolpes letais aproveitando os espaços deixados pelo adversário que ocupava o campo de ataque (reprodução ESPN Brasil).

A última Eurocopa, inchada com 24 seleções, proporcionou diversos duelos de estilos. Seleções sem técnica e tradição alinhando nove, às vezes dez jogadores num espaço de não mais que vinte metros para evitar o gol. Sem os confrontos individuais. Marcação por zona na essência. Corpos impedindo que o adversário ocupe os espaços importantes.

Para muitos é a antítese do futebol. Este que escreve também aprecia o futebol mais ofensivo, que busca o gol. Ainda o mais vencedor se considerarmos que a Alemanha é a atual campeã mundial e Barcelona e o Bayern de Munique de Guardiola empilharam títulos nas últimas temporadas.

Mas não é por acaso que exemplos de equipes menos talentosas faturando taças antes inimagináveis se tornem mais frequentes. Atlético de Madrid, Leicester, Portugal. Porque é necessário mais treino que talento para fazer uma marcação bem coordenada e atacar os espaços deixados pelos oponentes com toques rápidos e em progressão. Ou nas jogadas aéreas exaustivamente treinadas.

Se Guardiola mexe com estruturas e conceitos do futebol desde 2008, não é absurdo dizer que a resposta de Mourinho deixou um legado mais abrangente. Para os românticos, a culpa é dele. Pelo simples fato de que construir é mais complexo. Em qualquer área da vida.

Inclusive no handebol, ainda que o gol seja ordinário. Por isso a defesa é de ouro.