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Plano “alemão” da Inglaterra impede clima de final antecipada do outro lado
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André Rocha

Inglaterra e Bélgica viveram um cenário único na fase de grupos da Copa do Mundo na Rússia. Eram favoritas destacadas contra Tunísia e Panamá e cumpriram a missão matematicamente com duas vitórias. O confronto da última rodada, no penúltimo dia de disputa, permitiu que se olhasse para os chaveamentos a partir das oitavas de final e projetasse um caminho no torneio.

O Grupo H não apresentava nenhum favorito destacado, até porque a cabeça de chave Polônia já estava eliminada. O resultado prático foi um duelo entre ingleses e belgas repleto de jogadores reservas. Compreensível pela oportunidade de rodar o grupo, descansar titulares e evitar suspensões. Mas a partida mostrou claramente que nenhum dos dois fazia muita questão de vencer.

O golaço de Januzaj deu a liderança com 100% de aproveitamento aos belgas. Para as oitavas, um duelo teoricamente mais tranquilo contra o Japão. Mas depois Portugal de Cristiano Ronaldo e os campeões Argentina, França, Uruguai e Brasil poderiam cruzar o caminho até a grande decisão.

Já para os ingleses a tarefa era mais complicada por enfrentar a Colômbia, líder do grupo e que chegou às quartas de final em 2014 com o artilheiro James Rodríguez. Se conseguisse a vaga nas quartas, porém, na sequências os possíveis adversários seriam Suíça, Suécia, Rússia, Croácia, Dinamarca e a Espanha como única campeã mundial e, em tese, favorita.

Ambas estão nas semifinais. Com sofrimento e desgaste, ainda que a Bélgica não tenha disputado prorrogação, enquanto a Inglaterra viveu um drama até a disputa por penalidades contra os colombianos. Nas quartas, como esperado, triunfo mais tranquilo sobre a Suécia por 2 a 0.

Confirmando a força do jogo físico e a eficiência nas jogadas aéreas. São cinco gols neste tipo de ação dos 11 marcados até aqui. Com os zagueiros Stones e Maguire aparecendo na área adversária aproveitando a estatura. Mas também iniciando a construção desde a defesa, auxiliando Henderson e fazendo a bola chegar a Trippier e Ashley Young, os alas do 5-3-2 inglês. Ou diretamente a Dele Alli, Lingard e Sterling. O trio que se movimenta com rapidez e intensidade em torno de Harry Kane, artilheiro da Copa com seis gols, mas também um centroavante que recua para trabalhar com os meias e abre espaços para as infiltrações dos companheiros.

Chegou como candidata ao título, mas no segundo pelotão. Agora está a um jogo da final que não disputa desde a conquista do título em 1966 como anfitriã. Pegando um “atalho” que lembrou o pragmatismo alemão. Em 1974, mesmo jogando em casa e contando com a fantástica geração de Maier, Beckenbauer, Overath e Gerd Muller, preferiu ser derrotada pela Alemanha Oriental, num duelo com vários significados naqueles tempos de Muro de Berlim. Tudo para fugir de um grupo com o então campeão Brasil, a Argentina e a sensação Holanda, o Carrossel de Rinus Michels e Cruyff. Na disputa em outro grupo com Polônia, Suécia e Iugoslávia se classificou para a grande decisão. Com mais moral e em jogo único e decisivo, a vitória por 2 a 1 sobre os holandeses e a festa em casa.

A Inglaterra disputa a semifinal como favorita não pela tradição, que contou bem pouco nesta edição da Copa. Mas principalmente por chegar mais inteira que a Croácia sofrida e exaurida por duas prorrogações e disputas de pênaltis contra Dinamarca e Rússia que exigiram demais física e mentalmente. A maneira de jogar da seleção de Gareth Southgate exige concentração e vigor do oponente e, mesmo com a experiência e a capacidade de controlar o tempo e o espaço de Modric e Rakitic, os croatas devem sofrer. E se vencerem mais este obstáculo chegarão fortalecidos demais à decisão.

Por isso tratar o duelo entre França e Bélgica como uma espécie de final antecipada por serem os sobreviventes de uma disputa entre gigantes parece um tanto irreal. Até pelo cenário imprevisível desta semifinal, que pode se definir apenas nos penais e exaurir as equipes para a decisão.

A ausência do suspenso Meunier certamente será sentida por Roberto Martínez, mas o treinador espanhol pode transformar o desfalque numa chance de novamente surpreender o adversário. Pode enviar Chadli para o lado direito, fazer Carrasco retornar à ala esquerda e voltar ao 3-4-3 da primeira fase ou simplesmente deslocar Alderweireld para a lateral e colocar Vermaelen na zaga ao lado de Kompany mantendo o 4-3-3 da vitória sobre o Brasil.

Outra dúvida é se manterá o posicionamento de Lukaku pela direita e De Bruyne como “falso nove” fazendo companhia a Hazard no tridente ofensivo sem participar do trabalho sem a bola e apostar tudo no talento e na capacidade de desequilibrar na frente. Mesmo defendendo com apenas sete homens, cedendo espaços e obrigando o fantástico goleiro Courtois a trabalhar.

Um risco diante de uma França que se encontrou no 4-2-3-1 com um “ponta volante” pela esquerda. Aliás, é a única dúvida de Didier Deschamps: mantém Tolisso, que cumpriu bela atuação nos 2 a 0 sobre o Uruguai, ou faz Matuidi retornar naturalmente depois da suspensão. Quem entrar será a “liga” entre a dupla Kanté e Pogba e os três jogadores mais adiantados.

A “exterminadora de sul-americanos” vem mostrando maturidade no Mundial. Com a “casca” da derrota em casa para Portugal na final da Eurocopa há dois anos. Contra os uruguaios aproveitou bem os erros do adversário para se impor. Com Giroud atuando mais coletivamente, como um elemento a prender a defesa adversária, fazer pivô e abrir espaços para Mbappé e Griezmann, os grandes destaques individuais da nova favorita ao título. Um perigo nesta edição da Copa do Mundo.

Teremos uma final inédita e europeia. Emblemática. E justamente pelo equilíbrio é que não se pode garantir nada. Apenas alguma vantagem física da Inglaterra. Que executou seu plano “alemão” e encarou um chaveamento menos exigente. Pelo desempenho coletivo e de nomes surpreendentes como Trippier e o goleiro Pickford vem sendo consistente. Mesmo acusada de simular faltas e escolher adversários, algo distante da imagem ligada à fidalguia e elegância. Ao fair play.

Desta vez o English Team quer ganhar ou chegar o mais longe possível. A Croácia que se prepare e franceses ou belgas não celebrem tanto assim o triunfo amanhã. A final será dura.


A bola escolheu punir a Colômbia em um jogo lamentável. Inglaterra vive
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André Rocha

A Inglaterra escalou reservas e não fez a mínima força para vencer a Bélgica e terminar na liderança do Grupo G. Com isso fugiu do cruzamento com seleções mais tradicionais a partir das quartas de final. Olhou o cruzamento por cima da Colômbia. A bola costuma punir esse tipo de petulância.

Mas também pune quem não quer jogar. Na arena do Spartak, José Pekerman se preocupou mais em se defender em função do adversário e armou uma marcação por encaixe. Laterais Arias e Mujica batendo com os alas ingleses Ashley Young e Trippier; Cuadrado e Falcao García saindo para pressionar o trio de zagueiros formado por Walker, Stones e Maguire; Mina e Davidson Sánchez cuidando de Harry Kane; Sánchez vigiava Dele Alli, Barrios pegava Sterling e Lerma seguia Lingard; Quitero tentava dificultar Henderson, volante que coordena a saída de bola inglesa.

Colômbia marcou a Inglaterra por encaixe, com duelos bem definidos. A solução tirou força ofensiva da seleção de José Pekerman e deu campo para o adversário (Tactical Pad).

Estratégia legítima, ainda mais sem o talento do lesionado James Rodríguez, maas que cria alguns efeitos colaterais: como trabalha com perseguições, normalmente na recuperação da bola o time está desorganizado para atacar. A solução intuitiva é apelar para a ligação direta e, por consequência, chegar com poucos jogadores na frente.

Carlos Sánchez cometeu pênalti e foi expulso na derrota para o Japão na estreia da Copa do Mundo que podia ter custado a vaga nas oitavas. Lance involuntário do volante essencialmente defensivo. Cumpriu suspensão e voltou à equipe na vitória contra Senegal. Seguiu titular e, na bola parada, agarrou Kane em um pênalti tolo e tosco. Para o artilheiro inglês marcar seu sexto gol no Mundial.

Até sofrer o gol, a Colômbia errava mais e dava chance para a falta de sorte. Mas a Inglaterra começou a equilibrar as coisas ao sentar em cima da vantagem, recuar demais e apelar para simulações bizarras. Tentando tirar proveito de uma das piores arbitragens da Copa: Mark Geiger. Um dos responsáveis pelo baixo nível do duelo.

A Colômbia foi avançando de forma aleatória. Pekerman trocou Sánchez, Lerma e Quintero por Muriel, Bacca e Uribe, que arriscou um chute surpreendente que Pickford salvou num defesaço. Mas no escanteio, Mina usou sua combinação de impulsão, estatura e tempo de bola para salvar sua seleção.

Faltou qualidade aos colombianos para aproveitar a nítida queda anímica da Inglaterra na prorrogação, mais do que a física. Gareth Southgate tentou aumentar a presença física na frente com Vardy ao lado de Kane na frente. Mas a Inglaterra viveu de ligações diretas e de tentar achar o gigante Maguire nas bolas paradas. Muito pouco.

Ninguém fez muito por merecer a classificação para enfrentar a Suécia. Nos pênaltis, a bola resolveu punir a Colômbia e consagrar o goleiro Pickford, que defendeu as cobranças de Uribe e Bacca e salvou Henderson, que bateu mal para defesa de Ospina. Definindo 120 minutos de um jogo lamentável. A Inglaterra vive.


Real Madrid é o novo gigante estudado e parado. Pochettino achou a fórmula
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André Rocha

O 5-3-1-1 do Tottenham que bloqueou as principais virtudes e explorou as deficiências de um Real Madrid no pior momento da temporada. Especialmente Dele Alli circulando às costas de Casemiro e se aproximando de Harry Kane (Tactical Pad).

Só os próximos jogos dirão se o Real Madrid teve sua confiança abalada pela derrota em Girona no Espanhol. Apenas o tempo é capaz de mostrar ou ao menos sugerir um ponto de virada quando uma grande equipe entra em seu ocaso, ou ao menos um período de oscilação.

Mas o fato é que o bicampeão europeu vive seu pior momento na temporada 2017/2018. Não só por ver o Barcelona disparar na liderança da liga nacional e a grande chance de terminar em segundo no Grupo H da Liga dos Campeões, mas principalmente pela queda de desempenho. Muito pela ausência de Carvajal que tirou força ofensiva pela direita.

Nada, porém, que tire o grande mérito do Tottenham na vitória por 3 a 1 sobre os merengues em Wembley. Porque o treinador argentino Mauricio Pochettino parece ter encontrado a fórmula para superar a equipe de Zidane. Acontece com todos os grandes times: são mapeados, dissecados e vencidos. É o ciclo do futebol. Inevitável com tantas informações disponíveis e profissionais competentes analisando e planejando.

Pochettino não abriu mão da marcação por zona. Nem impediu que o Real terminasse com 57% de posse, 84% de efetividade nos passes e dez finalizações na direção da meta de Hugo Lloris. Mas a distribuição de seus jogadores em campo e a boa execução do plano de jogo criaram muitos problemas para os espanhois.

A começar pela linha de cinco na defesa que virou “moda” na Inglaterra com o sucesso do Chelsea de Antonio Conte. Com os laterais Trippier e Davies bem abertos fechando as descidas dos laterais Achraf e Marcelo, as opções de Zidane no 4-3-1-2 habitual para esgarçar a retaguarda adversária. Também aproveitando o corredor às costas dos oponentes, especialmente Trippier contra Marcelo, como no lance do primeiro gol da partida – com o jogador da equipe inglesa impedido antes se servir Dele Alli.

Davinson Sánchez, Eric Dier, que recuou para a zaga com a saída de Alderweireld, lesionado, logo aos 23 minutos para a entrada de Sissoko, e Vertonghen no centro fechando as diagonais e infiltrações de Cristiano Ronaldo e Benzema, a dupla de ataque bem entrosada com o francês trabalhando para o atual melhor do mundo brilhar.

No meio, um losango não para espelhar o do Real, mas para frear a fluência no setor mais forte do Real Madrid. Harry Winks plantado à frente da defesa negando espaços para a flutuação de Isco. Sissoko marcava pela direita, na zona de Toni Kroos, e Eriksen bloqueava pela esquerda, por onde normalmente circula Luka Modric. Jogadores bem próximos para não deixar brechas.

O jovem e talentoso Dele Alli era a chave para transformar o trabalho sem a bola em transições ofensivas ultravelozes e letais. Porque o meia inglês dificultava a saída de bola rival e circulava às costas de Casemiro para se juntar a Harry Kane, o atacante único do 5-3-1-1 do time londrino. Procurando os lados para abrir espaços e infiltrar em diagonal. Levando vantagem seguida sobre Nacho e Sergio Ramos, a frágil e exposta dupla de zaga merengue.

Sete finalizações no alvo. Duas infiltrações de Alli, uma de Eriksen construíram os 3 a 0 que Cristiano Ronaldo diminuiu. Lloris fez boas defesas, até porque é difícil não ser ameaçado pelo (ainda) melhor time do mundo. Mas o Tottenham mostra para o mundo como bloquear as principais virtudes e explorar as dificuldades do gigante de Madrid.

Com a assinatura de Mauricio Pochettino. Para o Tottenham garantir a classificação e buscar pela principal competição de clubes do planeta o reconhecimento do bom trabalho a longo prazo realizado em Londres.

(Estatísticas: UEFA)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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