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Há 40 anos, a paciência foi de ouro para o Flamengo. Vale o mesmo agora
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André Rocha

Foto: Acervo O Globo

Em 1977, o estadual tinha o mesmo peso, ou até maior, que o campeonato brasileiro na temporada. O Flamengo tinha nova diretoria, com Márcio Braga em seu primeiro mandato no clube. Liderando a FAF – Frente Ampla pelo Flamengo. Na época vista por muitos rubro-negros como pessoas que entendiam muito de Direito, Televisão e Marketing, mas nada de futebol.

Contava também com uma geração promissora e um jovem treinador: Claudio Coutinho, em sua primeira experiência no comando de um time profissional. Mas que não conseguia um título desde o Carioca de 1974. Na final da Taça Guanabara de 1976, derrota nos pênaltis. Com Zico desperdiçando sua cobrança.

Bicampeonato da máquina do Fluminense armada por Francisco Horta. No ano seguinte, nova derrota na disputa das penalidades. No segundo turno. Como o Vasco vencera também o primeiro, ficou com o título. Desta vez, o vilão foi Tita, então um garoto com potencial que entrara exatamente para participar da disputa de pênaltis.

Depois da partida, o grupo se encontrou em um bar para demonstrar união, apoiar Tita e firmar um pacto de vitórias. Os conselheiros que tomaram conhecimento da reunião criticaram os jogadores, como se eles fossem indiferentes ao sofrimento da torcida, que pressionou por mudanças.

Agora é simples imaginar que era mais fácil apoiar aqueles jogadores talentosos. Na época, só Zico e alguns poucos foram poupados. Talvez hoje fossem lançados à fogueira como “amarelões”, “pipoqueiros” ou “time sem vergonha”. E lembre-se: o clube na época não tinha sequer um título nacional, mesmo antes de 1971.

A diretoria manteve elenco e treinador, avaliou o trabalho como bom e que era questão de tempo, tranquilidade para trabalhar e reforços pontuais para que os resultados aparecessem. O resto está na história como a fase mais vencedora e marcante do time mais popular do país.

Corte para 2017. Não há um Zico vestindo a camisa dez. Nem uma geração vinda da base tão talentosa. Mas está lá uma diretoria que revolucionou o clube, saneando finanças e mudando a imagem de mau pagador. Que pecou por decisões no futebol, algumas intempestivas, seguindo os humores da torcida.

Massa que hoje tem vários canais para se manifestar. Mas continua resultadista, imediatista, instável. Com três vitórias seguidas é o melhor time da galáxia; em caso de derrota, todos devem ser demitidos, do presidente ao funcionário mais humilde. Os surtos foram para as redes sociais. Do “cheirinho” ao “Fora todo mundo!”

A eliminação na Libertadores instaurou um clima de caos, logo depois da conquista estadual que criou uma ilusão de “melhor elenco do Brasil”, favoritíssimo a todos os títulos. A confiança se dissolveu e jogadores marcados, como Muralha, Rafael Vaz e Márcio Araújo passaram a errar demais.

O time segue organizado, mas não tem coragem para arriscar. Pior, joga com medo. De errar, de ser perseguido por uma turba insana. Isso tudo com desfalques, os últimos Trauco e Guerrero, a serviço da seleção peruana. Não há relativização de mais nada.

A derrota para o Sport com má atuação foi tratada como o fim dos tempos. A diferença em relação a do ano passado, na abertura do returno, foi um gol a mais do time pernambucano. Talvez com desempenho abaixo daquela vez. Mas o time disputava a liderança, então foi logo esquecida.

Agora há Donatti para voltar, Conca e Everton Ribeiro e Rhodolfo para estrear e ainda a possibilidade de contratar Geuvânio. Rafael Vaz foi barrado, agora Muralha perdeu a vaga para Thiago. Sobra Márcio Araújo, que segue jogando para compensar com velocidade as suas próprias limitações e a lentidão dos zagueiros e dos concorrentes na função.

Contra o Avaí, novamente faltou confiança. Mas mesmo na casa do adversário a equipe teve mais posse de bola (55%) e as mesmas dez finalizações do adversário na Ressacada. Uma a mais no alvo. Novamente sofreu um gol por falhas individuais – Leandro Damião que perdeu a bola, Juan que errou na tática de impedimento e deu condições a Romulo para abrir o placa.

Podia ter saído derrotado por conta do pênalti absurdo de Everton em Diego Tavares que a arbitragem confirmou, depois voltou atrás – mais um caso de acerto que deixou a nítida impressão de ter sido influenciado por uma interferência externa, de quem viu a imagem e notou que não houve a infração. Novo erro em uma regra que já devia ter sido alterada para minimizar os equívocos.

O Flamengo teve chances com Mancuello e Vinicius Júnior para ir às redes. Empatou com um golaço de bicicleta do mesmo Damião, que deixou a equipe em um dilema: se habituou, na ausência de Diego, a trabalhar ofensivamente a partir do pivô de Guerrero. Agora teve a volta do meia, que já mostrou mais desenvoltura, mas Damião tem dificuldades para dar sequência às jogadas. É atacante do último toque.

Zé Ricardo foi infeliz na troca de Vinicius Júnior, irregular entrando de início, por Filipe Vizeu. A equipe perdeu o lado direito, com e sem a bola. Tentou corrigir no final com Ederson na vaga de Damião. Mas teve a chance de uma vitória fora de casa. Com uma sequência que está por vir no Rio de Janeiro e um elenco mais encorpado em breve.

Ou seja, há lastro de evolução. O Flamengo de Zé Ricardo continua sendo uma equipe que perde pouco. Precisa de mais criatividade e efetividade na frente e segurança atrás. Questão de ajuste, algum tempo para treinar – inviável em junho, com rodadas de três em três dias – e peças mais qualificadas.

Acima de tudo, uma questão de paciência. Sem se deixar seduzir pela solução mais fácil: o “fato novo” que sempre é demitir o treinador. Às vezes funciona, como em 2007 na troca de Ney Franco por Joel Santana. Da zona de rebaixamento à vaga na Libertadores. Na maioria das vezes, porém, é uma solução de curtíssimo prazo. Dura o tempo da “chacoalhada” no elenco.

É a chance de fazer diferente. Não com conformismo, mas cobrando no tom certo. Sem apocalipse ou megalomania. Avaliando o trabalho e acertando internamente. Sem alarde, nem populismo. Há quatro décadas, a paciência foi de ouro para o Flamengo. Vale o mesmo agora.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Damião e Diego: obsoletos na Europa, mas ainda podem funcionar no Brasil
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André Rocha

Leandro Damião já se apresentou e vestiu a camisa rubro-negra. Diego Ribas negocia saída do Fenerbahçe e, no Brasil, quer jogar no Flamengo.

Investimentos de um clube que ganha fôlego com austeridade financeira, mas não vem sendo feliz nas decisões tomadas no departamento de futebol. Embora a efetivação de Zé Ricardo como treinador, mesmo tardia, tenha sido um acerto.

A contratação confirmada e a possível aquisição são apostas. Caras, mas dentro do orçamento do clube. Se Emerson Sheik e Guerrero deixarem o elenco, o custo da folha segue praticamente o mesmo. Dois tiros considerados certos, no vácuo do atraso de salários no Corinthians, foram na água.

Agora a crença em Damião. Centroavante formado na várzea, sem o burilamento das divisões de base. Explosão no Internacional, artilharia nas Olimpíadas, aval de Ronaldo Fenômeno como sucessor na seleção. Lambreta no Clássico das Américas. Ficou valioso no mercado, quase foi parar no Tottenham, virou contratação milionária no Santos quando já estava em queda no time gaúcho.

Caiu de produção porque passou a ser estudado e marcado como um atacante com seu status. Aí faltaram os recursos que deviam ter sido trabalhados na base. A técnica, o desmarque, a leitura de jogo, o ataque no espaço vazio. Por isso o fracasso no Real Betis. No mais alto nível, camisas nove como Damião estão em extinção.

A Eurocopa mostrou que o típico centroavante, como Mario Gomez e Giroud, precisa ter mobilidade. Usar o corpo na proteção e no pivô, mas girar rápido, sair para os lados, chamar lançamento às costas da defesa adversária mais adiantada. Ser inteligente e adaptável.

No Brasil que vai caminhando como pode no jogo de compactação e marcação por zona, Damião ainda pode funcionar. No Flamengo, como o finalizador de no máximo dois toques. Completando as jogadas pelos flancos – Rodinei e Cirino à direita, Jorge e Everton ou Fernandinho do lado oposto – ou fazendo parede para as chegadas de Arão e Alan Patrick ou Mancuello.

No Flamengo, Leandro Damião pode ser o centroavante de, no máximo, dois toques na bola. Finaliza as jogadas pelos flancos ou prepara para quem chega de trás (Tactical Pad).

No Flamengo, Leandro Damião pode ser o centroavante de, no máximo, dois toques na bola. Finaliza as jogadas pelos flancos ou prepara para quem chega de trás (Tactical Pad).

Ou Diego Ribas. DNA do típico camisa dez brasileiro do início dos anos 2000. O meia central no 4-2-3-1 do Santos campeão brasileiro que nem Emerson Leão sabia explicar o funcionamento. Mas deu liga e às vezes fez mágica. Também funcional como a ligação com o ataque na ponta de um losango. O que os italianos chamam de “trequartista”.

No Santos campeão brasileiro de 2002, Diego, com 17 anos, era o meia central do 4-2-3-1. Talentoso, mas nunca vingou na Europa pela inconstância e por conta da falta de senso coletivo (Tactical Pad).

No Santos campeão brasileiro de 2002, Diego, com 17 anos, era o meia central do 4-2-3-1. Talentoso, mas nunca vingou na Europa pela inconstância e por conta da falta de senso coletivo (Tactical Pad).

Não foi na Juventus. Nem conseguiu responder como esperado na Alemanha, Espanha, Turquia e seleção brasileira. Primeiro pela irregularidade combinada com as altas expectativas. Talentoso, viveu de lampejos, alguns golaços. Sem consistência, porém.

Quando o futebol mudou, seu estilo de dominar e girar para, de frente para a marcação, conduzir e só depois pensar perdeu tempo e espaço. Diego não soube se reinventar circulando pelos flancos como, por exemplo, Ozil e James Rodríguez. Nem recuou como Toni Kroos. No Fenerbahçe perdeu espaço e a paciência da torcida. É visto como individualista, exatamente porque precisa de muitos toques na bola antes de fazê-la circular como um facilitador, exigência dos meias atuais. Ficou obsoleto.

No Brasil, o jogo tem intensidade. Mas a ocupação dos espaços ainda é um tanto descoordenada. Os zagueiros recuam instintivamente e deixam brechas às costas dos volantes. No primeiro gol de Filipe Vizeu contra o Atlético-MG no Mané Garrincha, Mancuello teve liberdade para receber entre as linhas e, nas costas do zagueiro que saiu vendido, servir o centroavante. Buraco que Diego pode aproveitar muito bem. Em qualquer time brasileiro.

O Flamengo quer seus serviços, para abastecer Damião. Futuro incerto de uma dupla que falhou na Europa, mas que pode funcionar no retorno ao país de origem. A conferir.

 


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