Blog do André Rocha

Arquivo : leicestercity

Quartas da Champions: duelos de gigantes e entre semelhantes
Comentários Comente

André Rocha

ATLÉTICO DE MADRID x LEICESTER CITY – Dureza para os dois times. Para o Atlético porque entra como favorito absoluto, obrigado a propor jogo e dar o contragolpe. Para o Leicester também, já que será azarão, mas não tanto como se encarasse um gigante como Bayern, Barcelona e Real Madrid.

Interessante para ver essa versão do time de Simeone, que ocupa o campo de ataque e valoriza mais a posse de bola no ritmo de Saúl Ñíguez, mas sem deixar de ser compacto e concentrado, diante do campeão inglês que só joga em velocidade, vai entregar tudo no trabalho defensivo para definir em casa com o melhor de Vardy e Mahrez.

FAVORITO – Atlético de Madrid

BORUSSIA DORTMUND x MONACO – Duelo de intensidade máxima e vocação ofensiva, com times se arriscando dentro e fora de casa. Porém sem tanto controle de jogo. Ou seja, quem abrir vantagem na ida sofrerá se quiser administrá-la na volta.

Dembelé e Aubameyang contra Bernardo Silva e Mbappé. Thomas Tuchel versus Leonardo Jardim. Confronto sem a pompa dos duelos de gigantes, mas que promete demais. Muitos gols. Time alemão leva pequena vantagem pela cancha maior na competição.

FAVORITO – Borussia Dortmund

BAYERN DE MUNIQUE X REAL MADRID – Simplesmente 16 títulos em campo. Carlo Ancelotti, o mentor e campeão de “la decima”, contra Zidane, o aprendiz e atual vencedor. Dois times com camisa e experiência. Mas é difícil imaginar alguma novidade tática, já que são treinadores mais administradores que construtores.

Mesmo que a marcação individual tenha ficado para trás, é impossível não imaginar duelos como Bale x Alaba e a luta no meio-campo com Casemiro, Modric, Kroos de um lado; Xabi Alonso, Vidal e Thiago Alcântara do outro. Mais Robben contra Marcelo. Quem controlar a posse não leva vantagem necessariamente. Aposta na “sede” dos bávaros de recuperar o domínio europeu e no retrospecto positivo no confronto.

FAVORITO – Bayern de Munique

BARCELONA X JUVENTUS – A reedição da final da temporada 2014/15. Mas desta vez com o time catalão sem a consistência da última conquista e a equipe que domina a Itália há tempos mais cascuda e querendo revanche da decisão no Estádio Olímpico de Berlim.

A Juve parece ter uma formação mais equilibrada, com Mandzukic sendo o centroavante que infiltra pela esquerda para se juntar a Higuaín e Dybala no centro e receber as bolas de Cuadrado e Daniel Alves, que conhece muito bem o adversário. Mas o Barça, apesar das oscilações e dos problemas defensivos, tem o tridente genial e a sensação de que pode tudo depois dos 6 a 1 sobre o PSG.

FAVORITO – Barcelona

 

 


Futebol inglês: ou muda calendário e tradições, ou vira piada na Europa
Comentários Comente

André Rocha

Entre os oito classificados para as quartas-de-final da Liga dos Campeões, apenas um representado a Inglaterra: o Leicester City, atual campeão. Clube que teve como trunfo na temporada anterior estar totalmente focado na Premier League.

Agora, acusado de economizar suor na competição nacional por conta dos problemas de relacionamento com o ex-treinador, Claudio Ranieri, teve gás sobrando para a disputa do torneio continental e despachou o Sevilla no King Power Stadium.

O Chelsea, líder e virtual campeão inglês desta temporada, também leva vantagem na disputa da liga por não dividir atenções com nenhuma competição europeia. Segue vivo na Copa da Inglaterra depois de eliminar o Manchester United.

Time de José Mourinho que não deve ter reclamado muito. Campeão da Copa da Liga e o único do país ainda envolvido com a Liga Europa, luta para alcançar a zona de classificação para a próxima Champions League.

O campeonato inglês da primeira divisão é considerado o mais importante do planeta. Pelo equilíbrio de forças que passa fundamentalmente por uma divisão da receita mais justa e um aumento substancial das cotas de TV. Disputado em intensidade altíssima, num jogo físico que dura os noventa minutos e atrai os olhos do mundo pela imprevisibilidade.

O grande gargalo, porém, é o calendário, ainda fincado em tradições que fogem do contexto atual. Enquanto o mundo pára no final do ano, a bola rola no Boxing Day e em jogos encavalados. Tudo isso com o intuito de atrair os olhos do mundo, mas também garantir datas para as duas copas nacionais, enquanto a grande maioria dos países disputa uma só.

E ainda preservam o “replay”, jogo extra disputado em caso de empate na Copa da Inglaterra. O Manchester City perdeu tempo de preparação para a sequência da Premier League e da Liga dos Campeões para enfrentar o Huddersfield Town, da segunda divisão, pelas oitavas de final. Ao menos para esta temporada acabaram com os jogos extras nas quartas de final.

Mas é preciso rever ainda mais o calendário. Porque mais tradicional que as copas e os jogos na virada do ano é ver os times ingleses fortes na Liga dos Campeões. De 12 títulos, mas o último em 2012 com o Chelsea. Conquista improvável e baseada exatamente na prioridade dada ao torneio.

Desde 2008/09, quando colocou United, Chelsea e Arsenal nas semifinais, mas o título ficou com o Barcelona, só conseguiu emplacar um time entre os quatro primeiros: título com os Blues, vice dos Red Devils em 2011, o Chelsea de Mourinho entre os quatro em 2014 e o Manchester City na semifinal inédita na última edição contra o Real Madrid.

Para piorar, o Arsenal de Arsene Wenger leva um 10 a 2 no agregado do Bayern de Munique e é eliminado nas oitavas de final pela sétima vez consecutiva. Mesmo com alguns erros gritantes da arbitragem em Londres, não deixa de ser um vexame.

É muito pouco. Suscita dúvidas da real força da Premier League ver os espanhois dominando o continente há três temporadas com Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid, mais o Sevilla tricampeão da Liga Europa. A Alemanha colocando Bayern de Munique e Borussia Dortmund novamente entre os oitos melhores.

E a Inglaterra apenas com o Leicester City, maior azarão do sorteio das quartas. Inusitado, mas tragicômico. O perigo é o futebol jogado no país virar piada na Europa.


Classificação do Leicester é obra de Ranieri, não de Shakespeare
Comentários Comente

André Rocha

Mesmo com todo o discurso pé no chão da diretoria do Leicester City, focando apenas na manutenção na Premier League, a Liga dos Campeões foi tratada com sonho realizado no clube desde a confirmação da vaga na campanha do título.

A boa campanha na fase de grupos aumentou a sensação de que era possível. Reforçada pelo cruzamento com o Sevilla, que comparado com os gigantes europeus parecia acessível. E foi.

O atual campeão inglês, a rigor, perdeu apenas Kanté dos titulares na campanha vencedora. Desfalque seríssimo, mas que num torneio de mata-mata acaba sendo diluído pela capacidade de superação. Ainda mais pela entrega de Ndidi.

Logo, nada há de romântico nesta classificação do Leicester. Muito menos depois da nítida mudança de “humor” no campeonato inglês depois da demissão de Claudio Ranieri. Onde a gratidão e a lealdade se esvaneceram por um sanduíche de frango.

O time foi o de sempre no King Power Stadium. Duas linhas de quatro compactas, só teve posse de bola enquanto precisou construir o resultado. A partir do gol de Morgan recuou as linhas, abusou das ligações diretas, achou o segundo com Albrighton  e precisou do goleiro Kasper Schmeichel, inclusive na péssima cobrança de pênalti de N’Zonzi.

Também contou com a noite pouco feliz de Jorge Sampaoli na montagem do seu 3-4-2-1 e com a insanidade de Nasri, que se enroscou infantilmente com Vardy com a bola rolando, na frente do árbitro Daniele Orsato. Tola expulsão que merece multa e um chá de banco no Espanhol.

O Leicester sabe jogar como azarão, especulando. Vai entregar tudo contra qualquer um nas quartas da Liga dos Campeões e deve dar trabalho, mesmo aos gigantes.

A classificação é histórica, mas não épica – termo da moda na mídia histriônica que precisa gritar e superdimensionar tudo para chamar atenção. Porque tem como pano de fundo uma traição das mais torpes.

Tudo de melhor que este time puder construir não é obra de Shakespeare, o Craig, interino que assumiu o time. É de Claudio Ranieri.

 


Cinco razões para o fim do “conto de fadas” do Leicester City
Comentários Comente

André Rocha

A demissão de Claudio Ranieri passa fundamentalmente pelo risco real de rebaixamento do Leicester City na Premier League com as cinco derrotas seguidas. A última para o Swansea, rival direto pela permanência na primeira divisão, por 2 a 0. Na 17ª colocação, está apenas um ponto a frente do Hull City, primeiro na zona do descenso.

Na Liga dos Campeões a situação nem é tão desesperadora, já que a derrota fora de casa por 2 a 1 para o Sevilla, com boa atuação no segundo tempo, torna viável a classificação para as quartas-de-final. Mas o foco da direção do clube desde o início era o mesmo da temporada passada: continuar na elite.

A grande questão é: o que fez o campeão inglês cair tanto de produção e virar do avesso em desempenho e resultado? O blog lista cinco possíveis razões para o fim do “conto de fadas”:

1 – Acabou a surpresa

O que Kanté, Mahrez e Vardy fizeram em suas carreiras que pudesse ser destacado antes do mundo descobri-los no Leicester City?  Quando um grupo de jogadores consegue combinar tão bem suas características a ponto do jogo coletivo potencializar suas qualidades ao mesmo tempo é o momento mágico de qualquer equipe.

Mais ainda quando pega os adversários de surpresa. Era difícil segurar aquele 4-4-2 intenso, sólido defensivamente e letal nos contragolpes, com eficiência absurda nas finalizações, especialmente de Jamie Vardy – sem contar os 17 gols e as 11 assistências de Riyad Mahrez. Com os holofotes da conquista veio também o estudo minucioso dos adversários e aí faltou capacidade de treinador e jogadores para encontrar novas soluções.

2 – Reconstrução dos grandes ingleses

A temporada 2015/16 foi de entressafra no comando técnico dos grandes ingleses, com a exceção do “imortal” Arsene Wenger no Arsenal: Brendan Rodgers foi demitido no Liverpool para a chegada de Jurgen Klopp; Mourinho implodiu o próprio trabalho no Chelsea e deu lugar a Guus Hiddink; Manuel Pellegrini encerrava seu ciclo para a chegada de Guardiola no City e Van Gaal desgastava-se dia a dia no Manchester United. Foi nesse “vácuo” que o Leicester se infiltrou.

Com a chegada de Antonio Conte e Guardiola, a ida de Mourinho para o United e a sequência com pré-temporada de Klopp nos Reds, além da afirmação de Mauricio Pochettino no Tottenham, natural que o Leicester de Ranieri deixasse o protagonismo.

3 – Saída de Kanté

O meio-campista francês não é craque, longe disso. Mas a combinação de um impressionante vigor físico com notável leitura de jogo faz de Kanté um jogador especial, especialmente para o alucinante futebol jogado na Inglaterra. Atuando de área a área sem cansar durante os noventa minutos. Desarmando, interceptando, antecipando com velocidade. Com a bola joga simples, ciente de suas limitações, sendo um facilitador dos companheiros com incrível mobilidade para se apresentar como opção de passe.

No Leicester sua média de desarmes era ainda maior que a atual. Segundo o site Whoscored.com, o jogador contrato ao modesto Caen alcançou média de 4,7 desarmes contra 3,6 e 4,2 interceptações contra 2,4 no Chelsea. Sua saída ajudou a desmontar a proposta de jogo de Ranieri.

4 – Liga dos Campeões

Assim como o Chelsea nesta temporada, o Leicester não precisou dividir atenções com nenhum torneio continental e, com a chance de disputar na parte de cima da tabela, a Premier League se transformou na prioridade absoluta. Agora o clube viveu, e ainda vive, o sonho de participar da principal competição de clubes do planeta. Para aumentar as esperanças, caiu num grupo mais que acessível, com Porto, Copenhague e Club Brugge, e terminou na liderança.

Mesmo com o discurso pé no chão da diretoria do clube, impossível não se envolver emocionalmente com essa participação histórica e tratá-la com carinho e dedicação. Só que não há qualidade no elenco para manter o desempenho e a sequência desgastante, especialmente na virada do ano, minou as forças do grupo.

5 – Gestão de grupo

É incrível como os italianos começam e terminam tudo com comida. Nas muitas entrevistas celebrando o título inglês, Ranieri contou que a arrancada para o título iniciou com os jogadores preparando a massa e comendo pizza depois da vitória por 1 a 0 sobre o Crystal Palace, a primeira sem sofrer gols. Segundo o treinador, após essa reunião que uniu treinador e atletas o time decolou.

Agora o veto de Ranieri aos sanduíches de frango que eram servidos aos atletas depois dos jogos, segundo os jornais e sites ingleses, teria sido o grande agente catalisador da crise de relacionamento que tornou inviável a permanência do técnico que entrou para a história do futebol mundial com a conquista improvável no ano passado. Coisas que só o futebol é capaz de construir e desmanchar.


Hala Madrid! Mas futebol não é, nunca foi e jamais será apenas dinheiro
Comentários Comente

André Rocha

O futebol não é só dinheiro.

O Real Madrid confundiu jogar naturalmente, controlar e dosar o ritmo com a perda da competitividade depois do gol de Benzema logo aos nove minutos da final do Mundial Interclubes.

Veio então o bom e organizado Kashima Antlers e seu grande talento Shibasaki para lembrar que abismo técnico, financeiro e midiático só se concretiza no campo se atrelado à competência. Empate no final do primeiro tempo, virada no início da segunda etapa com gols de seu camisa dez – meio-campista de área a área que jogaria em pelo menos metade da Série A brasileira – e alimentou o sonho.

Às vezes a camisa pesa mais que o poder financeiro e o árbitro Janny Sizakwe pipocou quando deveria ter punido Sergio Ramos com o segundo cartão amarelo e, consequentemente, a expulsão do zagueiro. Poderia ter mudado a história da decisão.

Então Cristiano Ronaldo apareceu, embora nunca tenha se escondido. Tropeçou na bola em um contragolpe, perdeu gol à frente do bom goleiro Sogahata. No momento em que o time merengue mais precisava, porém, converteu o pênalti sobre Lucas Vázquez que garantiu a prorrogação, se Endo não tivesse perdido uma grande chance no lance final do tempo normal.

Em 15 minutos, o português resolveu a final com mais dois gols, desta vez com bola rolando. Para fechar um ano espetacular nas conquistas. Talvez nem tanto no desempenho. Minimalista, Cristiano não participa tanto na construção das jogadas, mas está inteiro durante os noventa minutos e mais uma prorrogação, se for necessário, para estar preparado para a finalização.

Desta vez protagonista na decisão. Três gols em finais de Mundial, só ele e Pelé, no duelo do Santos contra o Benfica em 1962.

Real cinco vezes campeão mundial.  Gigante, máquina de fazer dinheiro. Mas existe também a competência no uso dos recursos. Os três últimos campeões são Barcelona, Real Madrid duas vezes e Bayern de Munique. Times da primeira prateleira do futebol mundial, incluindo o universo das seleções.

Equipes entre as maiores, mais vencedoras e melhores da história. Sintonizadas e artífices da evolução recente do esporte. Com a qualidade que o dinheiro compra, mas também intensidade e setores bem coordenados. O mais alto nível.

Porque futebol nunca foi só dinheiro.

Se fosse, o Manchester United, das marcas mais valiosas do planeta, não estaria fora da Liga dos Campeões e, mesmo com Mourinho no comando, não sentiria tanta falta de Sir Alex Ferguson.

Se fosse, o Atlético de Madrid não teria surpreendido o mundo em 2014 com título espanhol e final de Champions e o Leicester City não viveria o conto de fadas na última temporada. Orçamentos bem mais modestos, mas rara excelência.

No mesmo Mundial com chancela da FIFA, quando o Barcelona já vivia a queda de Ronaldinho Gaúcho pós Copa de 2006, o Internacional de Gabiru não perdoou. Quando Liverpool e Chelsea ganharam a Europa sem a condição de melhores times do continente de fato, São Paulo e Corinthians conseguiram surpreender.

O próprio Real já viveu na pele o revés pela força do dinheiro. Em 2003 dispensou o operário Makelele que fazia o time funcionar e contratou a superestrela David Beckham para se juntar a Figo, Zidane, Ronaldo e Raúl. Contratação que disparou a venda de camisas, mas não rendeu títulos com todos os astros reunidos.

Hala Madrid! Mas o futebol jamais será apenas dinheiro. Porque sempre haverá um Kashima Antlers, a melhor história do Mundial de Clubes de 2016, para nos lembrar por que amamos tanto este jogo.

 

 

 

 

 


O primeiro título de Mourinho e Ibra em Manchester. O United será forte
Comentários Comente

André Rocha

Manchester United de José Mourinho no 4-2-3-1 com mobilidade no quarteto ofensivo e velocidade para explorar os espaços cedidos pelo Leicester City que teve mais a bola que o habitual por Claudio Ranieri contar com uma equipe já pronta, apenas com King no lugar de Kanté (Tactical Pad).

Manchester United de José Mourinho no 4-2-3-1 com mobilidade no quarteto ofensivo e velocidade para explorar os espaços cedidos pelo Leicester City que teve mais a bola que o habitual por Claudio Ranieri contar com uma equipe já pronta, apenas com King no lugar de Kanté (Tactical Pad).

Foi a 21ª conquista da Supercopa da Inglaterra. Mas o Manchester United sofreu em Wembley contra o Leicester City com a base do título inglês – apenas King no lugar de Kanté, negociado com o Chelsea, no meio do 4-4-2 habitual.

Um time montado, com a proposta de jogo de Claudio Ranieri mais que assimilada. Só que exatamente pela moral da conquista improvável e o maior entrosamento foi induzido a mudar as características. O time da transição em velocidade com passes verticais e nenhuma preocupação em valorizar a posse ficou mais com a bola que o habitual.

Porque o novo time de Mourinho está naturalmente em construção. Com Ibrahimovic em campo, Mkhitaryan no banco e Pogba a caminho. O técnico português usou a base de Van Gaal num 4-2-3-1 com pitadas da filosofia do treinador. Linhas próximas, compactação defensiva, saída rápida.

O quarteto ofensivo formado por Lingard, Rooney e Martial como o trio atrás de Ibrahimovic mostrou uma característica muito cobrada pelo novo treinador: mobilidade e circulação nos espaços entre a defesa e o meio-campo adversário. Ibra já ensaiou seus movimentos de “falso nove” muito comuns no PSG, recuando para colaborar na articulação.

Mas os Red Devils só foram às redes no primeiro tempo em arrancada de Lingard pelo meio, conduzindo para cima da última linha do Leicester, que seguiu com volume de jogo e empatou na falha de Fellaini, que deve deixar o time com todos disponíveis e em forma. O incrível Vardy não perdoou à frente de De Gea.

Muitas substituições, chances para os dois lados ainda em ritmo de pré-temporada. Gol da vitória e do título no centro de Valencia que encontrou Ibrahimovic. Impedido por centímetros, sem falta na disputa no alto com Morgan. Golpe certeiro no canto de Schmeichel.

Conquista para transferir confiança na montagem de um time que será forte e competitivo. Sem Liga dos Campeões para disputar e por conta do investimento insano é favorito para retomar a hegemonia na Premier League.

Mourinho e Ibra venceram juntos o campeonato nacional com a Internazionale na temporada 2008/09. Mais maduros, podem repetir o feito na Inglaterra.


Argel e Muricy: futebol de resultados pouco oferece além do placar final
Comentários Comente

André Rocha

O Internacional de Argel Fucks saiu vaiado do Beira-Rio depois do pênalti perdido por Paulão – ou defendido pelo goleiro Danilo, o melhor da Chapecoense – até deixar o campo. Pouco ou nada valeram os 61% de posse de bola e as onze finalizações.

Porque na necessidade de propor o jogo e diante de uma resistência maior que as equipes de menor investimento do Rio Grande do Sul, a bola circulou mais entre os jogadores da última linha de defesa e o volante Fernando Bob. Time jovem, campeão gaúcho, promissor. Mas sem ideias, sem gols. À imagem e semelhança de seu treinador. Sem vitória na estreia do Brasileiro.

Muricy Ramalho foi taxativo no Raulino de Oliveira depois do triunfo sobre o Sport: “Nós fomos ousados em muitos jogos e perdemos todos. Todo mundo acha bonito como o Flamengo joga, e jogam nos nossos erros. Agora não. Agora vamos jogar para ganhar.”

Ou seja, toda a filosofia inspirada no Barcelona vendida pelo técnico depois de voltar da Europa e comprada pelo Flamengo como solução não existe mais. O 4-3-3 com posse de bola e busca de protagonismo e uma nova estética deu lugar a um time mais reativo e pragmático.

Decisão legítima. Nos casos de Leicester City na Premier League e Atlético de Madri na Liga dos Campeões, por exemplo, a proposta é totalmente compreensível pelo contexto, enfrentando gigantes com orçamentos quase ilimitados. Aí é preciso se doar até a última gota de suor, além das forças. Vencer é o grande feito. Sem complexo de vira-latas. Se fosse a Chapecoense ou o Audax por aqui a lógica seria a mesma.

Para dois gigantes brasileiros, na disputa nacional é pouco. Uma opção do jogo, sim. Só perde o direito de pedir tempo para implementar um modelo, um padrão. O futebol de resultados é fast-food, imediatista. Precisa aceitar, como efeito colateral, a roda viva e a avaliação jogo a jogo do trabalho do treinador. Tem que lidar com as vaias no empate e na derrota. Sem ideologia ou algo mais subjetivo.

Exatamente porque tem pouco a oferecer além do placar final.

(Estatísticas: Footstats)


Modelo não, exceção! Por que o Leicester pode fazer mal ao nosso futebol
Comentários Comente

André Rocha

Leicester-lideranca-Campeonato-Ingles-Tottenham_ACRIMA20160321_0006_15

Na liga mais valiosa do mundo, um candidato ao rebaixamento antes da primeira rodada ocupa o topo da tabela a seis jogos do final, com cinco pontos de vantagem. Jogadores desacreditados e um treinador ridicularizado em incrível simbiose.

O Leicester City 2015/16 já é histórico. Mesmo se permitir uma reação do Tottenham, outra surpresa da temporada. A esta altura, vencer ou perder o título da Premier League causará comoção no planeta bola. Porque o impossível agora é provável. A virada na confiança foi nos 3 a 1 sobre o City em Manchester. Com autoridade.

Com Mahrez, 16 gols e 11 assistências, conseguindo atuações de melhor “winger” do mundo, Vardy com incrível felicidade nas finalizações – 19 bolas nas redes, duas a menos que o goleador máximo Harry Kane. Kanté se multiplicando no meio-campo. Especialmente Cláudio Ranieri dando uma aula de fazer mais com menos.

Eis o ponto. O Leicester encanta pela imprevisibilidade, pelo mito Davi x Golias. Por aproveitar o vácuo dos times de Manchester em transição, o tempo perdido do Chelsea com José Mourinho, a chegada tardia de Jurgen Klopp no Liverpool e a hesitação costumeira do Arsenal de Wenger.

O estilo, porém, é pragmático até a medula. Não quer a posse, só o erro do rival, a transição rápida e arriscada com passes verticais até acertar o contragolpe perfeito. Sim, soa uma heresia no calor da campanha lendária. Mas o Leicester joga feio. Não tem mais o ataque mais positivo, nem a defesa menos vazada. É o que mais pontua, porém.

Estratégia legítima pelo contexto do clube e dos concorrentes. O problema é se transformar em referência. Um duelo entre dois exemplares da equipe de Ranieri pode até ser eletrizante. Mas quem erraria na tentativa de propor o jogo, com linhas avançadas, para viabilizar as transições rápidas? Uma força anularia outra semelhante?

Se considerarmos que o Barcelona do trio MSN, Pep Guardiola e mesmo o Real de Cristiano Ronaldo, com todas as suas oscilações, são exceções na história do esporte, o Leicester é um modelo mais viável.

E já habita o imaginário popular do brasileiro que desde 1982 fala em vencer feio e perder bonito como se fossem as únicas opções. Injustiça com 1994, mais ainda com 2002.

A história mostra que os vencedores ditam as regras. No passado ainda mais pelo acesso restrito à informação. A Itália campeão na Espanha há quase 34 anos, até por ter a liga mais competitiva do mundo à época, fez o futebol mais prático e menos plástico. O líbero Scirea foi influência para o 3-5-2 que viria com a Dinamarca e a Argentina. A proposta de Carlos Bilardo era garantir solidez defensiva, saída em velocidade e bola para Maradona.

Acabou na Copa de 1990 com as seleções, inclusive a Alemanha, invertendo o 2-3-5 dos primórdios para cinco na defesa, três no meio e dois no ataque. Ou apenas um. Era de sombras, apesar do Milan de Arrigo Sacchi. Uma exceção como os times dominantes de agora.

O Leicester é mais palpável. Em terra brasilis, sem tempo para treinar, com exigência de resultados imediatos e jogadores que não foram preparados para jogar coletivamente em benefício do talento e não dependente dele, os modelos Barcelona e Bayern, construídos com paciência e outra cultura tática, são realidades distantes. Mas adaptáveis, como o Corinthians de Tite, o melhor exemplo.

O perigo é a equipe de Ranieri virar moda por aqui. Inclusive ressuscitando treinadores obsoletos, como era o caso do italiano. Mas podem voltar ao mercado colocando em prática uma maneira de jogar que não é totalmente estranha, só precisaria de uma atualização em compactação e marcação por zona. Nada muito complexo. Mas um retrocesso que faria mal ao nosso futebol.

Porque o que ocorre na Inglaterra não é revolução, mas uma conjunção de astros. A exceção que confirma a regra. Lindo de ver e, talvez, torcer. Nem tanto de copiar.


Não deu pro Leicester! Arsenal vira e faz valer a história e o equilíbrio
Comentários Comente

André Rocha

O Leicester City não vencia o Arsenal desde 1994. Em Londres, o último triunfo foi em 1973. No turno, 5 a 2 para os Gunners. Junto com o Liverpool, os únicos a vencer o “líder-zebra” que teria que lutar contra a história e o melhor dos grandes na temporada.

Fez o que pôde até a expulsão do lateral Simpson. No primeiro tempo, mostrou a sua essência: duas linhas de quatro compactas, Okazaki e Vardy colaborando na marcação e o impressionante Kanté onipresente no meio-campo. Apenas duas faltas cometidas e nenhuma finalização na direção da meta de Schmeichel, fruto do posicionamento defensivo quase perfeito.

Bola roubada, saída rápida também em bloco. A equipe de Cláudio Ranieri fez Petr Cech trabalhar em cabeçada de Vardy e chute de Kanté. Finalizou cinco vezes contra quatro do Arsenal que teve 67% de posse. Na última, o pênalti discutível sofrido e convertido por Vardy – o 19º gol do artilheiro da Premier League.

Primeira etapa com Leicester compacto e eficiente na execução do plano de jogo de Ranieri; Arsenal teve a bola, mas criou pouco e não finalizou na direção da meta de Schmeichel (Tactical Pad).

Primeira etapa com Leicester compacto e eficiente na execução do plano de jogo de Ranieri; Arsenal teve a bola, mas criou pouco e não finalizou na direção da meta de Schmeichel (Tactical Pad).

E Mahrez? O franco-argelino foi marcado como o melhor jogador do campeonato e rendeu pouco. Só apareceu ao tentar cavar um pênalti. Pior: muitas vezes vacilava na recomposição deixava Simpson no mano a mano contra Monreal e Alexis Sánchez.

O árbitro Martin Atkinson, pressionado pelos jogadores do Arsenal também pelo toque no braço de Kanté dentro da área do Leicester na etapa inicial, forçou a barra na expulsão. Não era falta para o segundo amarelo.

Ranieri fez o óbvio: duas linhas de quatro e Vardy solitário na frente. É possível questionar a ordem nas substituições de Okazaki e Mahrez, mas os dois teriam mesmo que sair, até pela exaustão do japonês. Depois Albrighton também sentiu o desgaste. Wasilewski, King e Gray não mantiveram o nível dos titulares.

Impossível resistir ao Arsenal intenso e com ímpeto inesgotável para fazer valer em casa o peso da camisa e da história. Depois de trocar Koscienly por Chambers na volta do intervalo para evitar expulsão do titular no duelo com Vardy, Arsene Wenger aumentou a presença física na área do oponente com Walcott e Welbeck nas vagas de Coquelin e Chamberlain.

Leicester não resistiu com um homem a menos e Walcott e Welbeck a mais no ataque do Arsenal. Abafa e virada (Tactical Pad).

Leicester não resistiu com um homem a menos e Walcott e Welbeck a mais no ataque do Arsenal. Abafa e virada (Tactical Pad).

Cirúrgico. Abafa, 73% de posse, 23 finalizações – cinco no alvo. Gols dos substitutos em jogadas aéreas. A virada com Welbeck no último lance. Festa de final no estádio. Uma prova do respeito ao ainda líder Leicester, agora só dois pontos à frente.

Mais ainda, de fé no Arsenal que soube se comportar como grande e candidato ao título da liga que segue com o equilíbrio como tônica. Deve durar até o ato final.


Mahrez, o winger perfeito que desequilibra para o fenômeno Leicester City
Comentários Comente

André Rocha

Mahrez_Leicester

“Winger” é o meia aberto do 4-4-2 tipicamente britânico. De “wing”: asa. Atua na segunda linha, do meio-campo.

O que se espera dele? Que jogue de uma intermediária à outra, marcando e atacando, acompanhando o movimento dos meias centrais, ou volantes. Se o lateral adversário for até à linha de fundo é dever acompanhar. Difere do típico ponta pelas atribuições mais de meio-campista que de atacante. Trabalho exaustivo, porém fundamental. Ainda mais se consegue ser decisivo na frente.

Hoje, ninguém executa mellhor as funções de winger na Inglaterra que Riyad Mahrez, o franco-argelino do Leicester City. 24 anos, contratado em 2014 ao Le Havre da segunda divisão francesa. Veio ao Brasil para a Copa do Mundo pela Argélia.

Até explodir no time de Cláudio Ranieri. O fenômeno que lidera a parelha e competitiva Premier League, o principal campeonato nacional do planeta. Depois de lutar para não cair na última jornada. Do técnico italiano subestimado e até ridicularizado.

De Jamie Vardy, artilheiro com 18 gols aos 29 anos e passagens em times minúsculos. De Robert Huth dispensado pelo Chelsea. De Kasper Schmeichel, que nunca havia feito uma temporada digna do sobrenome de melhor goleiro do mundo.

De Mahrez, que sem a bola ajuda a garantir a compactação das linhas de quatro e o posicionamento mais próximo dos defensores na última linha. Os laterais Simpson e Fuchs podem fechar os espaços mais no centro porque sabem que Mahrez e Albrighton, se necessário, voltam até a própria linha de fundo.

Flagrante de Mahrez atrás da linha de quatro na defesa, cobrindo seu setor e pronto para a saída em velocidade no contragolpe. Típico winger (Reprodução Fox Sports).

Flagrante de Mahrez atrás da linha de quatro na defesa, cobrindo seu setor e pronto para a saída em velocidade no contragolpe. Típico winger (Reprodução Fox Sports).

Ofensivamente, o franco-argelino voa. Circula por todo o ataque, inverte o lado. Pela direita, corta para dentro e finaliza com a canhota calibradíssima ou serve os companheiros. Intensidade, rapidez, eficiência e arte a serviço do melhor ataque da competição, com 47 gols em 25 jogos.

Dez assistências e 14 gols de Mahrez, o último aparecendo pelo centro para desequilibrar novamente, pulverizando a defesa do Manchester City ao deixar Otamendi no chão nos 3 a 1 no Etihad Stadium que definitivamente colocam a grande surpresa da temporada europeia na rota do título.

Feito histórico que só encontraria paralelo no título italiano do Hellas Verona na temporada 1984/85. Então o campeonato dos melhores do mundo – Maradona, Platini, Zico, Rummenigge, Boniek. O líder do Inglês não encara Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar. Mas também não conta com estrelas como Briegel e Elkjaer, protagonistas naquela conquista há 31 anos.

Sem grandes craques, o Leicester conta com um enorme trunfo: o winger perfeito. Pode ser um cometa, pode sumir em breve. Mas na temporada 2015/16 ninguém joga mais na Inglaterra que Riyad Mahrez.

Leicester de Ranieri se fecha com duas linhas de quatro e abusa das transições ofensivas em altíssima velocidade com Mahrez partindo da direita para desequilibrar (Tactical Pad).

Leicester de Ranieri se fecha com duas linhas de quatro e abusa das transições ofensivas em altíssima velocidade com Mahrez partindo da direita para desequilibrar (Tactical Pad).