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Arquivo : Libertadores

Eles não podem errar! A dura transição do mercado de treinadores no Brasil
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André Rocha

Quando Zé Ricardo chamou Matheus Sávio para dar instruções enquanto a torcida do Flamengo no Serra Dourada pedia a entrada da joia Vinícius Júnior, o treinador sabia que corria riscos por suas convicções.

Afinal, se o time fosse eliminado da Copa do Brasil, independentemente do rendimento do jovem atacante, que entrou muito mal contra o San Lorenzo na traumática derrota na Libertadores, as chances de ser demitido cresceriam exponencialmente.

Mas Sávio, assim como contra o Atlético Mineiro no Maracanã, na estreia do Campeonato Brasileiro, colocou um cruzamento no fundo das redes do goleiro Felipe do Atlético-GO. O choro copioso do jogador foi sintomático. É muita pressão para quem ainda está no início de sua trajetória entre os profissionais.

O mesmo vale para os treinadores. No país do futebol de resultados, o comandante passa de “boa novidade” e “atualizado” para “estagiário” e “rolando lero” a cada semana. Mesmo que a sua equipe esteja organizada e o placar adverso tenha vindo por uma infelicidade na defesa ou chances perdidas na frente.

Ou até se eles se equivocarem, algo absolutamente natural. No mais imprevisível e caótico dos esportes, o que foi treinado baseado em observação e análise pode dar errado por uma noite ruim do atleta e aquela mudança aleatória, mais por conta da intuição, pode terminar em vitória. Para quem tem bagagem já é um desafio, imagine para novatos.

Eles simplesmente não podem errar. Seja Zé Ricardo, Roger Machado, Eduardo Baptista…Mesmo Jair Ventura, com enorme crédito no Botafogo, quando tentou mudar a maneira de jogar contra o Barcelona de Guayaquil no Estádio Nilton Santos e saiu derrotado as críticas vieram pesadas.

A transição no mercado de treinadores é dura. Depois dos 7 a 1 que mandaram Luiz Felipe Scolari para a China e da queda em desempenho e resultados de grifes como Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho e até Marcelo Oliveira, apesar dos títulos com Cruzeiro e Palmeiras, um buraco foi aberto para uma leva de profissionais com conceitos atualizados, vendo e pensando o futebol como é jogado nos grandes centros.

Um jogo mais coletivo e que trabalha com informações e gestão na comissão técnica. Menos com carisma e discursos motivacionais. Quando o resultado acontece, tudo isso é louvado. Se não, bate a saudade dos velhos nomes e de fórmulas antigas. Como se o que deu certo na década passada necessariamente dará em 2017.

O cenário é complexo. Dá para contar nos dedos de uma das mãos os treinadores do país que conseguem unir vivência como ex-jogador, conteúdo atual, sensibilidade na gestão de grupo e da comissão técnica. Ou seja, no auge da carreira. O melhor deles está na CBF.

Por conta de todas as dificuldades citadas, as experiências com estrangeiros não foram felizes – vide Diego Aguirre, Ricardo Gareca, Edgardo Bauza, Juan Carlos Osorio, entre outros. Quando estão começando a aprender o idioma para se comunicar já estão passando no RH e voltando para casa.

Simplesmente não há paciência, porque falta convicção para acreditar num projeto de longo prazo. Roger Machado e Zé Ricardo acharam que teriam um pouco mais de paz e respaldo para trabalhar por conta de conquistas nos estaduais. Mas basta uma sequência de resultados ruins e tudo é esquecido.

Ainda mais em clubes dos quais se espera muito. Pela capacidade de investimento e ilusão alimentada por departamentos de marketing e também por nós da imprensa, o torcedor passa a crer que seu time de coração conta com um elenco estelar e que basta o treinador distribuir certo as camisas e não atrapalhar para tudo acontecer.

Não é assim que funciona. Estar atualizado nas ideias e métodos ajuda a não ser surpreendido, a minimizar a aleatoriedade do jogo. Mas não garante nada. Muito menos onde não se valoriza filosofia e identidade, só o placar final e a conquista que vão gerar memes e zoações. Até tudo ser esquecido no próximo jogo.

Por ora, Dorival Júnior é o sobrevivente na Série A, comandando o Santos desde julho de 2015. Já Ney Franco foi demitido do Sport depois de perder a Copa do Nordeste para o Bahia com menos de dois meses de trabalho. Treinadores com rodagem de mais de uma década. Paulo Autuori, com mais de quarenta anos à beira do campo, cansou. “A rotina consome”, explicou. Vai ser gestor no Atlético-PR e abre espaço para Eduardo Baptista.

Paciência não significa ser permissivo e deixar de cobrar o desempenho que chega ao resultado. Os profissionais são bem remunerados para isso. O ponto nevrálgico é o imediatismo, a incapacidade de observar um lastro de evolução, vislumbrar um futuro melhor. Tudo ainda se resume à tentativa e erro. Até acertar. Para ontem.

Enquanto isso, segue a roda vida, a máquina de moer técnicos. Zé Ricardo escapou no gol de Matheus Sávio. Quem será o próximo?


Viva a “Velha Guarda”! Abelão e Renato Gaúcho na liderança do Brasileiro
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André Rocha

Foto: Divulgação Grêmio.

São apenas duas rodadas e a última incompleta, ainda faltando São Paulo x Avaí no Morumbi. A história mostra que qualquer posicionamento inicial na tabela de classificação significa muito pouco. Em 2016, Internacional e Santa Cruz chegaram a disputar a liderança da Série A, para terminarem rebaixados.

Mas não deixa de ser simbólico que Fluminense e Grêmio, comandados por Abel Braga e Renato Gaúcho, exceções à renovação no mercado de treinadores do país, sejam os únicos com 100% de aproveitamento e, por isso, ocupem a liderança – vantagem para o tricolor gaúcho pelo saldo de gols.

E não foram vitórias fáceis, sobre equipes sem maiores aspirações na temporada. O Flu superou Santos no Maracanã e Atlético Mineiro no Independência; o Grêmio venceu o Botafogo em casa e o Atlético Paranaense na Arena da Baixada. Quatro times disputando Libertadores, todos classificados para as oitavas-de-final do torneio continental.

O fato de não pertencerem à escola “atualizada” de técnicos não impede que suas equipes apresentem um futebol moderno. Abel Braga não permite que suas equipes mudem a ideia de jogo quando atuam fora de casa. Em Belo Horizonte, o Fluminense nunca abdicou do ataque, mesmo diante do volume do time da casa.

Fez 2 a 0 no primeiro tempo com as armas de sempre: velocidade pelos flancos, troca de passes com bola no chão no meio-campo, que ganhou Gustavo Scarpa como ponta articulador para auxiliar Sornoza e Wendel, mais o trabalho de pivô de Henrique Dourado, autor do primeiro gol e artilheiro do campeonato com três e da assistência para Richarlison ampliar de cabeça.

Depois sofreu pressão na segunda etapa e resistiu com a bela atuação do jovem zagueiro Nogueira. Sem dinheiro para reforços, a diretoria tricolor convenceu Abel a usar a garotada e vem funcionando. A falta de um elenco mais robusto vem sendo compensando pelas surpresas oriundas de Xerém.

Já Renato Portaluppi fez o Grêmio ressurgir depois da frustração no Estadual, tratado como prioridade mesmo disputando Libertadores – motivado, é claro, pela fragilidade do grupo do time gaúcho no torneio continental.

Arthur foi um achado no meio-campo, com bons passes, poder de marcação e aparições no ataque com qualidade, como no golaço sobre o próprio Fluminense pela Copa do Brasil, após tabelar com Luan e Barrios. Dupla de ataque que vai se afinando no 4-2-3-1 que cada vez mais se trasforma em 4-4-2. Autores dos gols em Curitiba.

Com Ramiro mais meio-campista pela direita apoiando o redivivo Léo Moura e Pedro Rocha mais intenso e vertical, buscando as diagonais a partir do lado esquerdo. O sistema defensivo comandado por Geromel que faz marcação individual, mas novamente Renato consegue que seus comandados estejam tão preparados física e mentalmente que compensem com muito vigor físico.

No duelo pela Copa do Brasil, vantagem de Renato Gaúcho em Porto Alegre. 3 a 1 de virada na melhor partida da quarta-feira, porém um tanto eclipsada por outros confrontos do próprio torneio e, especialmente, pela Libertadores.

Não esperem dos dois treinadores discursos rebuscados, com os termos atualizados dentro da ciência esportiva. Talvez terminem bem longe da disputa pelo título nas 36 rodadas restantes. Em campo, porém, a resposta é mais que positiva no que o esporte tem de eterno: quem joga bem sempre estará mais perto da vitória, por mais caótico que seja o jogo em si.

A diversidade sempre é bem vinda, a experiência nunca deve ser desprezada. Ainda mais quando vem acoplada ao carisma que conquista e convence. Abelão e Renato na ponta de um Brasileiro no ano da graça de 2017. Viva a “Velha Guarda”!


Pimpão é o símbolo do Botafogo no limite, mas classificado
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André Rocha

Botafogo novamente no 4-3-1-2 variando para as duas linhas de quatro que sacrifica Pimpão pela esquerda, mas é forte nos contragolpes exatamente com a referência de velocidade. Faltou contundência ao Atlético Nacional que rondou a área adversária e forçou pelos flancos com Quiñonez e Ibargüen (Tactical Pad).

A pré-temporada apressada e intensa para quem precisa passar pelas fases iniciais da Libertadores sempre cobra o preço em algum momento do ano. Precisa ser competitivo muito rapidamente e tem jogos duríssimos no momento em que o ideal é ganhar força gradativamente.

O Botafogo foi de entrega total diante de Colo Colo e Olimpia. Depois um grupo duro, com o atual campeão Atlético Nacional, mais Estudiantes e Barcelona de Guayaquil. Sem respiro.

Natural oscilar em desempenho. Quando tentou propor jogo se complicou no Engenhão contra o Barcelona. Era preciso vencer para não ter que pontuar na rodada final contra os argentinos. O desafio era encarar o time colombiano em recuperação, de bela atuação na volta da decisão da Recopa Sul-Americana atropelando a Chapecoense.

Era preciso sacrifício. E jogar no limite é com Rodrigo Pimpão. No 4-3-1-2 armado por Jair Ventura, é o atacante de velocidade com piques seguidos. Só que também precisa voltar pela esquerda para compor a segunda linha do 4-4-2 que é a variação tática para bloquear os flancos.

Primeiro tempo sofrido. Gol perdido por Roger em contragolpe puxado por Pimpão logo no início. Atlético Nacional no habitual 4-2-3-1 que dá liberdade a Macnelly Torres na articulação e força pelos flancos, desta vez com Quiñonez e Ibargüen.

60% de posse, sete finalizações a cinco de quem precisava dos três pontos para sobreviver. O Botafogo tentava controlar o jogo sem a bola para acelerar a transição ofensiva. Mas pecava nos passes. Muitas bolas longas e inversões. Ficou menos com a bola e errou mais: 23 a 20.

Quando trabalhou no chão com passe mais curto que permitiu descer em bloco, Lindoso encontrou Pimpão em seu primeiro deslocamento saindo do lado esquerdo. Arranque e finalização precisa. O quarto no torneio continental.

O gol no início da segunda etapa para afirmar a maneira de jogar e minar as forças dos colombianos, que seguiram insistindo pelos lados, mas sem contundência. Até pela atuação impecável do jovem zagueiro Igor Rabello. Reinaldo Rueda arriscou um 4-4-2 com o atacante Luis Carlos Ruiz na vaga do volante Aldo. Jair respondeu com velocidade: Guilherme no lugar de Roger.

Mas sem poupar as energias de Pimpão, que seguia indo e voltando pela esquerda. Até sair exausto para entrar Gilson. Guilherme perdeu a chance de ampliar, assim como Carli desviando cobrança de escanteio. Foram 12 finalizações, uma a menos que os visitantes. Nada menos que 23 desarmes certos contra dez. Seguiu errando mais passes, porém compensou com fibra e a eficiência na conclusão.

O símbolo de todas as virtudes é Pimpão. Deixando 100% no campo. O prêmio veio em forma de vaga nas oitavas-de-final na Libertadores. A competição mais importante que foi priorizada. Desde o início, com todos os sacrifícios. Um exemplo.

(Estatísticas: Footstats)


A incrível capacidade do Flamengo de passar vergonha na Libertadores
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André Rocha

Aconteceu de novo. Em 2007 e 2008, eliminações vexatórias nas oitavas-de-final. Contra o Defensor pela fragilidade do time uruguaio, apesar da terrível arbitragem de Hector Baldassi no Maracanã. No ano seguinte, o provincianismo patético de usar um jogo eliminatório de Libertadores para comemorar título estadual e se despedir de Joel Santana. Cabañas não perdoou.

Em 2012 e 2014, nem isso. Despedidas ainda na fase de grupos, com adversários acessíveis. Sempre fraquejando em jogos decisivos. Exceto em 2012, o Fla foi campeão estadual. Como nesta temporada.

Entre as nove combinações de resultados, apenas uma eliminava o então líder do Grupo 4. Exatamente a vitória do Atlético Paranaense no Chile sobre a Universidad Católica e a derrota em Buenos Aires para o redivivo San Lorenzo.

Aconteceu pela fé inabalável do time argentino, que teve 58% de posse, efetuou 50 cruzamentos e finalizou 13 vezes. Empatou com gol do zagueiro Angeleri, virou no ataque derradeiro com Belluschi. No “abafa” que só conseguira impor no início do jogo. Depois o Fla controlou sem posse de bola, fechando os espaços.

Abriu o placar com Rodinei. Com o gol de Santiago Silva em Santiago, tudo parecia sereno. Até entrar em campo o maior pecado rubro-negro na temporada, ou desde o ano passado: a fragilidade ofensiva.

A maior contratação para o ataque, Orlando Berrío, foi um enorme erro de avaliação de diretoria e comissão técnica. Porque não é driblador, nem finalizador como desejava o clube. Pior: tropeça na bola, comete erros técnicos grosseiros e não consegue levar vantagem no um contra um. Desperdiçou contragolpes simples. Assim como Everton, Gabriel. Antes Cirino…

Por último, Matheus Sávio, que entrou na vaga de Gabriel e foi frágil nas divididas nos lances dos dois gols. O jogo ficou grande demais para o jovem da base. Uma prova de que o elenco tem carências e desta vez a organização e a concentração defensiva não compensaram.

Zé Ricardo foi corajoso na formação inicial, mas a entrada de Romulo também foi profundamente infeliz. A troca de Everton por Juan um recado a Diego Aguirre que o Flamengo temia o que só não aconteceu um minuto antes por causa de uma grande defesa de Muralha em cabeçada de Caruzzo.

Mas no lance final foi inevitável. Com a virada atleticana por 3 a 2 com o gol do heroi improvável Carlos Alberto veio a punição ao clube que novamente superdimensionou um título estadual, desgastou o elenco na competição que não era prioritária.

San Lorenzo e Atlético conseguiram vencer fora de seus domínios. O Flamengo somou os nove pontos disputados no Maracanã. Não foi suficiente. Em 2017, porém, não foi o pecado capital. Sem qualidade para transformar oportunidades em gols, o Flamengo que podia ter chegado a Buenos Aires classificado ficou sujeito às aleatoriedades no futebol.

E, claro, à sua incrível capacidade de passar vergonha na Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)


Calça vinho, marcação individual, lateral na área… Lá vem o Cuca de novo!
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André Rocha

(Foto: Cesar Greco / Fotoarena)

Este blogueiro não aprecia superstições. Nunca repetiu roupa porque o time de coração venceu ou algo na vida pessoal ou profissional deu muito certo. Para quem tem fé é uma tremenda incoerência, porque nada mais é do que uma forma de se sentir no controle dos acontecimentos. Do próprio destino.

Também abomino cobrança de lateral diretamente na área. Só entendo se for um dos poucos recursos de um time sem qualidade técnica para atacar de outra forma, trabalhando mais a bola. Apelar para isso com o elenco mais qualificado do país é de uma pobreza ímpar.

Marcação individual é algo que deveria ter ficado no passado. Lá em 1982, com Gentile colado em Zico e Maradona. Cada um pega o seu e um zagueiro sobra lá atrás. Ou seja, um drible, uma movimentação, um desmarque e tudo se desequilibra e estoura na defesa.

Sem contar que a equipe marca correndo, se desgasta mais e, se o adversário é muito móvel, os jogadores estão fora de suas posições para iniciar o ataque. Normalmente apelam para a ligação direta, o chutão, para que voltem aos pontos de origem.

Unhas roídas até a pele me dão nos nervos. Beijo na santinha é outra superstição, embora eu respeite a religiosidade de quem quer que seja. A meu ver, comandantes tensos e instáveis, em qualquer área de atuação, contaminam o ambiente. Tudo fica muito à flor da pele e o pavio  sempre aceso.

Ou seja, Cuca é praticamente a antítese do que acho que deve ser um técnico de futebol. Ainda acredita na velha escola gaúcha de futebol, inspirada na argentina e uruguaia. Aprecia Felipão e Rubens Minelli. Um jogo que ficou no passado.

Só que dá certo. Porque Alexi Stival é um homem inteligente e observador. Entende as características de seus atletas e vê o futebol atual com atenção. E vai adaptando suas convicções. No Palmeiras campeão brasileiro, Moisés e Tchê Tchê qualificavam a saída de bola. Não mais volantes como Pierre e Leandro Donizete e mais um lateral-zagueiro para liberar o ala do lado oposto e os meias criativos.

O perfil obsessivo e inseguro também faz ensaiar jogadas à exaustão. Desde a saída da bola até o ponto em que ela tem que encontrar o atacante. Coloca pilha nos comandados, que entram nervosos, porém concentrados. Se preciso for, correm o dobro para executar o plano de jogo que cobra intensidade máxima.

É tudo isso que o palmeirense queria de volta. E atleticanos têm saudades. E tricolores, de São Paulo e do Rio de Janeiro, uma gratidão eterna. Impossível não reconhecer os méritos.

Só não me peçam para apreciar ou aprovar. Os palmeirenses no último Brasileiro atacaram este blog e quem escreve nele por uma suposta perseguição ao clube ou torcida pelo Flamengo, o rival na disputa pela liderança na maioria das rodadas.

Sem chance. Sou fã do Palmeiras “rolo compressor” de 1996 e até chorei com Denis em 1986 quando o Palmeiras, na época em um jejum de dez anos, perdeu a final do Paulista para a Internacional de Limeira. Adorava o futebol do ponta Jorginho, achava Mirandinha e Vagner Bacharel carismáticos. Impossível não gostar do time de Luxemburgo bicampeão brasileiro e paulista de 1993/94.

A questão deste que escreve é com o Cuca. Nada pessoal, nem o conheço. Só que é impossível não criticar alguém que pratica quase tudo que você desaprova. É humano preferir que ele não vença. Mas tenham certeza: não persigo, não tento plantar crise aqui neste pequeno espaço. E se houver mérito não recolho o elogio.

O jogo é limpo, como este post é absolutamente sincero. Mesmo sabendo que os idiotas que existem em todas as torcidas não entenderão nada e destilarão seu ódio aqui e nas redes sociais.

Lá vem o Cuca de novo! Com sua calça vinho e o tradicional sinal mandando jogar a bola na área. Cinco meses depois do título brasileiro que tanto queria. Que os palmeirenses tanto sonhavam após 22 anos. Difícil compreender os motivos da recusa em dezembro e do retorno agora. Mas eu nunca tentei entender Alexi Stival.

Não serei hipócrita de desejar boa sorte. Mas fica aqui a promessa renovada do respeito habitual, sabendo identificar pontos positivos e reconhecer que o jogo “maluco”, o “Porco Doido” funciona e agrada o torcedor que adora fazer de seu estádio um caldeirão temido pelos adversários. E nisto o Cuca é muito bom.

E não dá para negar o óbvio: com ele, o Palmeiras fica ainda mais favorito a tudo que disputar na temporada.


Flamengo passa com louvor por seu “batismo de fogo” na Libertadores
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André Rocha

O futebol é dinâmico. O Botafogo, que conseguiu sua classificação para a fase de grupos da Libertadores em duas etapas, foi considerado um time com vantagem por ter passado por disputas eliminatórias bem duras.

Mas no momento de confirmar a classificação no Grupo 1, hesitou no Engenhão contra o Barcelona de Guayaquil. A derrota por 2 a 0 não é nenhuma tragédia, mas abalou a imagem de time sólido mentalmente e fortíssimo em casa.

Já o Flamengo vem sendo consistente em desempenho dentro de casa e fora. Mas só pontua no Maracanã. A terceira partida com estádio lotado, porém, era decisiva. Com os surpreendentes 3 a 0 do San Lorenzo sobre o Atlético Paranaense na Arena da Baixada, não conseguir os três pontos significaria levar a decisão para a última rodada exatamente contra os argentinos. Fora de casa.

Foi o “batismo de fogo” do Flamengo, que nas últimas edições do torneio continental costumava se complicar em jogos com estas características. Também se dispersava quando as partidas se alternavam com decisões estaduais, priorizando a disputa regional.

Não desta vez. Torcida e time sintonizados no clima de final. Cientes da dificuldade diante da Universidad Católica que era organizada no 4-2-3-1 e com bons valores individuais, como Fuenzalida, Buonanotte, Kalinski. Mais Santiago “El Taque” Silva na frente.

Cabia ao Flamengo atacar com paciência e sem perder a concentração defensiva, grande virtude na vitória sobre o Fluminense na primeira final estadual. No primeiro tempo, alguma afobação e um dilema na execução do 4-1-4-1 proposto por Zé Ricardo: Guerrero era o único jogador capaz de um passe diferente quando recuava para articular. Mas também é o finalizador mais eficiente do quinteto ofensivo.

Sacrificado, o peruano não se escondeu. Pelo contrário. Das 23 finalizações, tentou nada menos que 13. Na primeira etapa, porém, a única oportunidade cristalina foi completando passe de Willian Arão e chutou em cima do goleiro Toselli. A mais clara, no entanto, foi de Fuenzalida infiltrando livre entre Rafael Vaz e Trauco.

No segundo tempo, a surpresa com Rodinei na vaga do apagado Mancuello, que desta vez não tem desculpa pelo mau rendimento. Foi escalado na função para a qual foi contratado no início de 2016 e não deu sequência às jogadas.

Com cinco minutos, golaço de canhota do lateral reserva transformado em ponteiro. Rodinei seguiu voando pela direita, fazendo dupla com Pará. Gabriel, centralizado, mesmo com todas as suas limitações, confundiu a marcação adversária circulando às costas dos volantes. Mas novamente faltou contundência para matar o jogo.

Pagou com a única finalização de Santiago Silva no jogo. Cabeceando entre Rever e Vaz. Em três conclusões do centroavante nas duas partidas entre as equipes, dois gols. Silêncio no Maracanã, massa preocupada, time tenso.

Entrou em cena Guerrero, para marcar exatamente na finalização mais complicada: com o marcador em cima, o chute cruzado entre as pernas do defensor e no canto de Toselli. Depois de onze tentativas. Haveria mais uma, no final, bloqueada.

Mas a vitória a esta altura já estava definida pelo gol de Trauco. Lateral que virou meia de novo, com a entrada de Renê no lugar de Gabriel. Mas centralizado, porque aparentava cansaço e Everton seguiu recompondo no setor esquerdo que a Católica atacava seguidamente.

Gol de perseverança, na sequência de chutes que podia ter virado um passe para Arão livre. Mas a conclusão de direita entrou e resolveu a questão da penúltima rodada. Não garante a classificação e envolve até um certo risco, já que a derrota na Argentina combinada com a vitória atleticana no Chile elimina o time carioca.

A rigor, um time que finalizou 40 vezes no campeonato, média de oito por jogo, já deveria estar com a vaga garantida, 100% de aproveitamento. Ainda falta contundência, que pode fazer falta mais à frente na temporada.

Mas valeu pela liderança do Grupo 4 e, principalmente, por seu simbolismo. Por não se entregar nem se desesperar depois do empate. Por manter o foco na competição que é prioridade em 2017.

Pelas mudanças do treinador que, mesmo questionáveis para quem não entende a diferença entre posição e função, deram certo na prática. Sem Diego, Donatti, Romulo e Berrío. Fora Conca. Com bela atuação de Marcio Araújo na proteção da retaguarda.

Na prova mais difícil até aqui, o Flamengo passou com louvor.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Atendendo ao pedido de Eduardo Baptista, uma pergunta sobre futebol
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André Rocha

Isolando todas as polêmicas dentro e fora do campo, antes e depois da partida em Montevidéu, Eduardo Baptista, mais que nas substituições depois do intervalo da virada por 3 a 2 sobre o Peñarol, acertou ao dizer que no Brasil se fala pouco de futebol.

O que desgraçadamente alguns colegas tratam, com desdém, como “apenas campo e bola”. Exatamente o que condiciona e pauta todo o resto. O jogo em si.

Por isso, em homenagem ao técnico corajoso que tende a ser mais respeitado por uns e ainda mais perseguido por outros, e atendendo ao seu pedido de questionamentos sobre futebol, o blog deixa uma pergunta ao Eduardo:

Se desde 21 de dezembro do ano passado o Palmeiras sabia que enfrentaria o Peñarol e obviamente havia a possibilidade de ao longo do torneio cruzar com equipes fortes no jogo aéreo e direto, na “primeira” e “segunda” bola como ele mesmo disse na coletiva…por que não houve nenhum teste anterior, durante a fase de grupos do Paulista, por exemplo, utilizando três zagueiros de ofício?

Porque o que se viu em campo foi um time completamente descoordenado nos movimentos coletivos. Perdido. Jean e Egídio não sabiam se comportar como alas, os jogadores ficaram espaçados e sem encontrar os companheiros. Erros seguidos de passes, sem chances de Guerra acionar Roger Guedes e Michel Bastos nas pontas, muito menos Borja isolado.

Tudo para evitar os cruzamentos e sofrer dois gols de bolas cruzadas.Um horror em 45 minutos. Treinado apenas no dia anterior. Com pelo menos nove partidas – vá lá, tirando os clássicos locais – para testar em um grupo que o Palmeiras nadou de braçadas, terminou dez pontos à frente.

Não dava para experimentar o sistema com três zagueiros – mesmo que não tivesse Dracena, Vitor Hugo e Mina disponíveis ao mesmo tempo – ao menos uma vez? Em dois treinamentos numa semana livre?

Uma experiência numa partida importante de Libertadores fora de casa. De tudo que aconteceu na intrépida quarta-feira e no tenso início da quinta palmeirense, foi o mais difícil de entender.

Mas isso é o menos importante, claro. O resultado aconteceu, virada com sofrimento “é mais gostoso” e na pauta vem primeiro a pancadaria, depois os gritos do treinador na coletiva, mais as polêmicas com Felipe Melo, Roger Guedes, Alexandre Mattos.

Por último, o “campo e bola”. Ou seja, só o que vai definir até onde vai o Palmeiras na Libertadores. Bobagem…


Vitória histórica para afirmar o Botafogo como um time pronto e maduro
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André Rocha

Eram 44 anos sem uma vitória fora de casa na Libertadores. Era o quarto adversário tradicional nesta edição, depois de Colo Colo, Olimpia e Estudiantes. O Atlético Nacional, atual campeão, no Atanasio Girardot.

Sem o bom zagueiro Marcelo, sem Aírton e Montillo. A ausência do argentino, ao menos, fez o Botafogo de Jair Ventura voltar ao 4-3-1-2 que varia para o 4-4-2 sem a bola do Brasileiro, dando liberdade a Camilo.

Linhas compactas para negar espaços e controlar o jogo sem a bola. A trinca de volantes formada por Lindoso, Bruno Silva e João Paulo marcando por zona e tirando espaços de Macnelly Torres, o meia criativo do 4-3-3 armado por Reinaldo Rueda.

A chave novamente era Pimpão, que voltava pela esquerda na segunda linha de quatro e ainda era a referência de velocidade para os contragolpes. Depois de um impedimento inexistente, o atacante acelerou a transição ofensiva, mas soube aguardar a chegada dos companheiros para atacar em bloco e João Paulo, pela direita, colocar na cabeça de Camilo.

Uma das três finalizações alvinegras, duas no alvo. Contra os 62% de posse e as cinco finalizações do time da casa. Pouco, mais pelo mérito alvinegro na organização ofensiva que só tinha dificuldades contra os dribles do ponteiro Ibargüen pela esquerda.

Segundo tempo com Rueda trocando Bernal por Aldo Ramírez para melhorar a produção do meio-campo. Jair Ventura perdeu Pimpão que, sacrificado com função tão exaustiva, estourou o músculo. Entrou Guilherme.

Jovem atacante enviado para o lado direito e Camilo recuou à esquerda num 4-1-4-1 com Lindoso mais plantado entre a defesa e o meio. O time sentiu a falta de seu atacante mais incisivo e recuou. Rueda fez a leitura e abriu Cristian Dájome como ala pela direita e mandou Daryo Moreno para o centro do ataque. O zagueiro Nájera saiu e o lateral Bocanegra ficou um pouco mais fixo.

A pressão aumentou, o time colombiano rondou mais a área e finalizou nove vezes em 45 minutos. Mas sem a chance cristalina. Jair reoxigenou o time com juventude: Fernandes e Sassá nas vagas de Camilo e Roger. Era se defender e esperar a chance do contra-ataque letal.

Plano executado com perfeição. Nos acréscimos, a arrancada de Guilherme e a finalização precisa no canto esquerdo de Armani. O Atlético estava invicto em casa em 2017 e não perdia para equipes estrangeiras há dois anos em seu estádio.

Mas o Botafogo foi maduro, ganhou casca com o poder de superação desde o ano passado. De candidato ao rebaixamento no Brasileiro a classificado para as fases eliminatórias. Depois só pedreiras e vagas conquistadas no limite. Agora um grupo duríssimo.

Até aqui, nada foi um obstáculo capaz de conter o Botafogo que parece pronto para tudo nesta Libertadores. Depois da vitória histórica, o próximo desafio é o Barcelona. Não o espanhol, mas o colíder do grupo com a mesma campanha em todos os critérios. Em Guayaquil. Quem pode duvidar do time de Jair Ventura?

(Estatísticas: Footstats)

 


Maracanã elétrico de Libertadores faz a diferença para o Flamengo
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André Rocha

Torcida não ganha jogo sem resposta do time em campo. Mas a atmosfera criada pela massa rubro-negra no Maracanã lotado por mais de sessenta mil pagantes, desde o mosaico simulando o gol de Zico na final da Libertadores em 1981, nitidamente desestabilizou o Atlético Paranaense no início da partida.

O Flamengo sentiu a ausência de Everton e Mancuello nem tanto pela improvisação no meio-campo de Trauco pela esquerda no 4-2-3-1. O peruano cumpriu bem a missão pelo lado e fechando o meio e encaixou lindo lançamento para Guerrero ir às redes logo aos seis minutos e subir ainda mais o tom das arquibancadas.

O problema era Renê na lateral esquerda, claramente sentindo o peso do jogo e sofrendo ora com Nikão, ora com Douglas Coutinho em uma equipe paranaense igualmente desfalcada, sem Otávio e Felipe Gedoz no meio-campo, mas compensando com bom desempenho com Matheus Rossetto.

Instintivamente o Fla buscava mais o lado direito, mas Gabriel não conseguia dar o melhor acabamento às jogadas. Mas quando Arão infiltrou no tempo certo, o cruzamento, mesmo com desvios, encontrou Diego para a finalização perfeita do segundo gol. Aos 15 minutos, para deixar o adversário ainda mais zonzo. O camisa dez ainda acertou o travessão e um bom passe vertical para Guerrero.

Por isso aumenta a preocupação com sua lesão no joelho. Sem ele e com Matheus Sávio, a equipe penou para acertar as transições ofensivas em velocidade na segunda etapa e surpreendentemente encontrou em Marcelo Cirino, substituto de Gabriel, uma válvula de escape para cima do frágil Sidcley.

Paulo Autuori tentou dar agilidade na frente com Grafite e João Paulo e volume no meio com Luiz Otávio. Faltou contundência ao time que teve 54% de posse, porém finalizou apenas três vezes, duas no alvo. Incluindo o gol de Nikão, completando, impedindo, jogada pela direita que iniciou com falha de Renê na saída de bola.

O Fla foi eficiente, acertou na direção da meta de Weverton sete das dez conclusões. Nos minutos finais, incluindo cinco de acréscimo, a calma para tocar a bola mesmo com a improvisação de Márcio Araújo no lugar do lesionado Pará, que deu lugar a Cuéllar e deixou o time ainda mais desfigurado.

A torcida jogou junto e o apito final foi celebrado com alívio e do tamanho da importância da vitória que alça o time à liderança do Grupo 4 com o empate entre Universidad Católica e San Lorenzo.

Em disputa tão parelha no jogo e no grupo, o Maracanã elétrico de Libertadores fez a diferença para o Flamengo.

(Estatísticas: Footstats)


Vasco pode buscar tri carioca no “vácuo” do calendário dos rivais
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André Rocha

A imagem de Milton Mendes gritando e discutindo com Nenê à beira do campo em Moça Bonita na vitória por 2 a 0 sobre o Nova Iguaçu reflete a tensão do treinador que já percebeu que será complicado impor suas ideias, como pressão na saída de bola e muita velocidade na transição ofensiva.

Pelas características e por conta da faixa etária das duas estrelas do elenco, o Vasco tende a ser uma equipe que se recolhe em duas linhas de quatro, deixa Nenê solto circulando atrás de Luís Fabiano. Mas tem soluções interessantes, como Kelvin ou Yago Pikachu fazendo dupla com Gilberto pela direita – ainda que o melhor ponteiro seja o jovem Guilherme Costa, voltando de lesão.

Outro garoto que entrou e tomou conta do meio-campo é Douglas Luiz. Joga de área a área e viabiliza a execução do 4-4-1-1. Até pela presença de Andrezinho, poupado nesta última rodada, como um ponteiro articulador. O Vasco de hoje circula mais a bola que o dos tempos de Jorginho.

Mas ainda depende muito da criatividade e da precisão nos cruzamentos, com bola parada ou rolando, de Nenê. Assistências para Rafael Marques e Pikachu nos gols da vitória. O camisa dez reclama de Douglas, discute com Milton Mendes…mas resolve.

Seja como for, o Vasco pode crescer no Carioca, única competição a disputar até o início do Brasileiro. Buscando um tricampeonato. Importante para o presidente Eurico Miranda, que contratou Milton Mendes exatamente para obter uma resposta rápida do time.

Ainda mais pelo fato dos rivais estarem envolvidos em competições sul-americanas. A semifinal da Taça Rio nada vale objetivamente, mas pode transferir confiança em caso de vitória sobre o Flamengo – ou empate, já que a primeira colocação no grupo deu a vantagem que foi do rival na mesma semifinal da Taça Guanabara. O rubro-negro também terá semana livre, mas com atenções voltadas para o jogo contra o Atlético-PR no dia 12 de abril no Maracanã. Zé Ricardo novamente poupará titulares?

Na outra semifinal, o Botafogo encara um Fluminense que enfrenta na quarta o Liverpool do Uruguai pela Copa Sul-Americana, também no Maracanã. O alvinegro terá semana livre e vantagem do empate. Mas caso chegue à final no dia 16 terá um problema logístico: enfrenta Atlético Nacional e Barcelona de Guayaquil fora de casa na Libertadores nos dias 13 e 20 de abril. Poderia chegar ao Equador com antecedência para se preparar, mas terá que voltar ao Rio. Ou jogar com os reservas que não viajarem e estão inscritos no Carioca.

O título do segundo turno para o Vasco pode ter o simbolismo de uma recuperação na temporada. E ganhar moral para a semifinal da fase final do estadual. O duelo é com o Fluminense, no dia 23. Aí, sim, com o tricolor livre, sem compromissos pela Sul-Americana, já que o jogo de volta é só no dia 10 de maio. Confronto dificílimo, até pela vantagem do empate do Flu em jogo único.

Mas se chegar à decisão contra Flamengo ou Botafogo, nos dias 30 de abril e 7 de maio, novamente terá semanas livres para treinar enquanto o rubro-negro encara o Atlético-PR fora de casa no dia 26 e o Universidad Católica no Rio de Janeiro no dia 3. Já o Botafogo tem confronto com o Barcelona de Guayaquil no dia 2 de maio. Exatamente no meio das finais.

Milton Mendes trabalha para o Vasco evoluir e buscar o tri carioca por seus próprios méritos. Mas no vácuo do calendário dos rivais “continentais” o cruzmaltino pode se fortalecer na disputa pelo título.