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Arquivo : Libertadores

Raniel errou mais que Dedé. Cruzeiro fora, mas Boca só se segura na camisa
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André Rocha

De novo a expulsão de Dedé condicionou o jogo. A primeira absurda e, por isso, anulada; a segunda bem discutível. Aliás, os dois cartões que o zagueiro levou no Mineirão. A questão é simples: será que na Bombonera um zagueiro do Boca Juniors seria advertido da mesma forma?

De qualquer forma, um jogador experiente e ciente de uma certa má vontade da arbitragem com times brasileiros deveria ter sido mais prudente. Depois do “indulto” da Conmebol, natural que ficasse visado. Errou.

Mais ainda Raniel, que entrou na vaga de Barcos e perdeu duas chances cristalinas por pura afobação. A última sem goleiro, com 1 a 0 no placar. É atacante promissor, mas precisa de mais equilíbrio emocional. Como esquecer de sua saída de campo logo nos primeiros minutos da final da Copa do Brasil no ano passada contra o Flamengo no Mineirão por dores musculares causadas por uma tensão descomunal?

O Cruzeiro teve dificuldades no primeiro tempo mais “racional”, tentando criar espaços com a movimentação de Thiago Neves e De Arrascaeta às costas do volante Barrios. Guillermo Schelotto armou um 4-3-3 com Zárate como “falso nove” e os pontas Villa e Pavón alternando pelos flancos. Jogou para congelar a bola e a torcida gastando tempo. Faltou ao time mineiro pressionar mais no campo de ataque.

O cenário poderia ter mudado no final do primeiro tempo com o gol de Barcos. Mas Dedé, de novo ele, fez falta no hesitante goleiro Rossi e o lance já estava anulado no momento do toque final. A arbitragem comandada por Andrés Cunha acertou também ao assinalar impedimento de Barcos no lance que terminou no pênalti sobre De Arrascaeta. O erro capital foi mesmo no jogo de ida, com ajuda do VAR. A expulsão foi anulada, mas não o segundo gol do time xeneize que foi consequência.

O Cruzeiro cresceu no abafa com Raniel e também Sassá, que substituiu Lucas Silva e marcou o gol no seu primeiro toque na bola. Mano Menezes ainda colocou Rafinha na vaga de Arrascaeta, mas com um zagueiro a menos depois de três substituições para deixar a equipe mais ofensiva a equipe ficou fragilizada.

Com o passar do tempo veio a pressa e depois o desânimo pelos gols perdidos. Até Léo falhar ficando entre a disputa no alto com Ábila e fechar a passagem de Pavón, que não errou à frente de Fabio. Boca na semifinal, mas contra o Palmeiras de Felipão, se não melhorar muito o desempenho, esse time só se segura na camisa que impõe respeito demais em jogos decisivos. Ou se cair no colo novamente os benefícios dos erros da arbitragem.

Teve apenas 42% de posse e sete finalizações, mas seis no alvo. Foi mais eficiente que o Cruzeiro que concluiu na direção da meta de Rossi apenas três de um total de 17. O time brasileiro levantou 29 bolas na área e tentou 36 lançamentos. Mais uma vez faltou calma. Também criatividade de uma equipe que rende mais negando espaços e aproveitando os cedidos pelo adversário.

Ainda assim era possível estar na semifinal. Vai o Boca Juniors em busca de seu sétimo título. Mas desta vez não como favorito. Bem longe disto.

(Estatísticas: Footstats)

 


Grêmio x River deveria ter sido a final de 2017. Agora será duelo gigante
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André Rocha

Renato Gaúcho repetiu na Arena do Grêmio o trio ofensivo do jogo de ida com Alisson e Everton nas pontas e Luan como falso nove. Mas sem Ramiro e Maicon mudou o desenho tático. Alinhou Matheus Henrique e Cícero à frente da defesa e deu liberdade a Thaciano num 4-2-3-1.

Com o meio-campo tão mexido, o time gaúcho sofreu um pouco no início contra um Atlético Tucumán obrigado a adiantar as linhas, porém mais organizado que no jogo em casa. Os argentinos terminaram o primeiro tempo dividindo a posse de bola e finalizando oito vezes, mas apenas duas no alvo.

O Grêmio foi mais eficiente: concluiu nove, quatro no alvo. Duas nas redes. Com Léo Moura como protagonista. Cruzamento na segunda trave, toque de Thaciano e gol de Luan. Depois iniciando a jogada que terminou no passe de Luan para Alisson disparar e sofrer pênalti do goleiro Lucchetti, que acabou expulso com auxílio do VAR. A cobrança precisa de Cícero resolveu o jogo e, dobrando a vantagem conquistada na ida, definiu o confronto já no primeiro tempo.

Na segunda etapa, com um homem a mais foi um passeio em ritmo de treino, com gol contra de Sánchez em finalização de Alisson e o time perdendo outras boas chances até marcar no último ataque em outro pênalti sofrido e convertido por Jael.

Quatro a zero para impor ainda mais respeito. Como esperado desde a definição do confronto, o Grêmio sobrou. Ataque mais positivo com 22 gols, apenas cinco sofridos. Líder do torneio na posse, na troca de passes e nas finalizações. 100% de aproveitamento em casa nesta edição. Encontra equilíbrio na hora de decidir.

Semifinal contra o River Plate. Equipe forte com trabalho consolidado do treinador Marcelo Gallardo. Desde 2014, com títulos da Sul-Americana e Libertadores. Também semifinalista no ano passado. Domínio absoluto no Monumental de Nuñez diante do Lanús: 59% de posse, 12 finalizações contra apenas duas. Nenhuma no alvo do time visitante. Mas só 1 a 0 no placar. Na volta, o Lanús dominou a posse, com 62%, mas novamente finalizou menos – 11 a 8 para o River, cinco no alvo para cada lado. Quatro gols contra apenas dois do então finalista inédito.

A equipe de Gallardo foi superior nos 180 minutos, mas pagou pela falta de contundência, especialmente em seus domínios. O Grêmio nada tinha com isso, dominou a decisão vencendo os dois jogos com autoridade e garantiu o tricampeonato sul-americano.

Vai buscar o tetra enfrentando outro gigante três vezes campeão. Definindo em Porto Alegre a vaga na decisão. Duelo saturado de tradição. O Estudiantes eliminado nas oitavas tem quatro taças no currículo, mas vive fase de transição. O River, não. Comprovou sua força eliminando o Independiente “Rei de Copas” e campeão da Sul-Americana. Parece mais maduro desta vez. Time de Scocco, Pratto, Quintero, Ponzo, Nacho Fernández…

Na teoria, o maior desafio da jornada épica do time de Renato Gaúcho, digna de roteiro de filme, desde setembro de 2016. Devia ter sido a final do ano passado, agora é confronto de difícil prognóstico. Mas com um favorito: o atual campeão.

(Estatísticas: Footstats)


Palmeiras B campeão será a “experiência de quase-morte” do Brasileirão
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André Rocha

Você consegue imaginar um Real Madrid valorizando mais a Copa do Rei do que La Liga ou o Bayern de Munique lamentando mais a eliminação da Copa da Alemanha do que ficar para trás na disputa pela salva de prata da Bundesliga?

Improvável, não? No Brasil, porém, funciona diferente. Além da Libertadores, a Copa do Brasil é tratada como prioridade pelos grandes clubes. Não só pelo alto valor da premiação, mas por uma simples questão de cultura. Se contarmos desde 1959, foram 43 anos de disputa do Brasileiro no mata-mata. Apenas 16 nos pontos corridos. De 1989 a 2002, as duas principais competições nacionais eram definidas em jogos eliminatórios e parecia ok pra todo mundo.

Os pontos corridos, mesmo com os lamentos de muita gente, chegaram a pegar por aqui. Assim como a visão de que a regularidade, valorizando todos os jogos, normalmente era a grande virtude do campeão.

Tudo mudou com Libertadores e Copa do Brasil passando a ser disputadas durante toda a temporada, como acontece na Europa. A possibilidade de ser campeão disputando menos partidas se transformou numa sedução quase irresistível. Os clubes com maior capacidade de investimento e elencos mais robustos agora disputam o Brasileiro utilizando várias vezes seus times reservas.

O que deveria ser a principal competição nacional virou, na prática, prêmio de consolação. Só passa a ser prioridade quando não há mais nada em disputa. Dependendo do clube, até a disputa da Sul-Americana pode ser colocada na frente. Também por conta do aumento de vagas para a Libertadores. Um G-6 que pode virar até G-9. Quase metade dos participantes…

Tudo isso cria um cenário de desvalorização que pode ganhar um capítulo dramático se o atual líder Palmeiras confirmar o título nas últimas onze rodadas. Desde a chegada de Luiz Felipe Scolari disputando a maioria das partidas com reservas. O experiente treinador usa a retórica para não admitir que é um time B e valorizar todos os jogadores. Mais que legítimo.

E vem dando certo. Usando três ou quatro titulares, normalmente no meio-campo e ataque, está invicto há onze rodadas: oito vitórias e três empates. Incríveis 82% de aproveitamento. Com Gustavo Gómez, Marcos Rocha, Lucas Lima, Hyoran e Deyverson se destacando, além de Felipe Melo e Dudu, tantas vezes pinçados do time A.

Todos os méritos para Felipão, comissão técnica e atletas. Mas um claro sintoma do achatamento técnico da competição. Não só pelo momento do futebol brasileiro já analisado tantas vezes neste blog, com equipes cada vez mais organizadas para defender e sem ideias quando precisam criar espaços diante de times compactos. E ainda tensas com a responsabilidade do favoritismo.

Incrível como o São Paulo caiu de rendimento depois que passou a ser de fato candidato ao título que não conquista há dez anos. Mesmo com desfalques importantes, a queda dos comandados de Diego Aguirre foi brusca. É possível notar em campo uma equipe travada pelos próprios nervos. Precisa vencer e não sabe bem como. A torcida fica ainda mais pilhada ao ver os grandes rivais da cidade em um momento tão bom em termos de resultados – Corinthians e Palmeiras são os últimos campeões brasileiros e seguem fortes no mata-mata.

O mesmo com o Internacional vindo da Série B e que de repente se viu disputando o topo da tabela. Outro time que precisa dar respostas diante da força do grande rival, o Grêmio campeão sul-americano e praticamente garantido nas semifinais do torneio continental em 2018. Mais uma equipe que sem brechas para infiltrar entra em parafuso e sofre mais do que devia, mesmo em jogos relativamente tranquilos contra times tentando se afastar do Z-4.

Por enquanto o Palmeiras está leve. Disputa as partidas sem maiores cobranças. Não só pelo crédito histórico de seu treinador, mas principalmente por também estar com a classificação bem encaminhada para as semifinais do principal torneio sul-americano. Buscando o bi com Felipão. A eliminação na Copa do Brasil teve seu impacto em um clube ávido por taças, mas sem gerar crise.

Esta tranquilidade somada ao desempenho com notável regularidade pode, sim, acabar em título. Ainda que a tabela reserve o clássico contra o São Paulo no Morumbi já na próxima rodada e depois duelos fora de casa contra Flamengo e Atlético Mineiro.

Se acontecer será uma espécie de “experiência de quase-morte” do Brasileirão. Um duro atestado de desvalorização. A dança com a prima no final da festa. Algo para CBF, clubes e até a TV Globo repensarem. Ainda que a audiência siga com bons números e até a média de público esteja mais alta, turbinada pelos programas de sócio-torcedor que estimulam a fidelidade. Mas fica cada vez mais cristalino que o foco é mata-mata.

As quartas estão mais nobres que os fins de semana. Sinal dos tempos.


Cruzeiro peca, mas arbitragem é que decide para o Boca. Parabéns, CBF!
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André Rocha

O Cruzeiro pecou na Bombonera por não aproveitar o período de superioridade nos primeiros 15 minutos, até surpreendendo o Boca Juniors pela personalidade com que ditou um ritmo mais lento para “congelar” o adversário e a torcida. Thiago Neves teve a chance e não aproveitou.

No início da segunda etapa também, com Mano Menezes surpreendendo ao desmontar o 4-2-3-1 habitual e se rearrumar num 4-3-3 com Robinho recuando, Rafinha, o substituto de Arrascaeta, indo para o lado direito e Thiago Neves e Barcos alternando no centro do ataque e à esquerda. Robinho e novamente Thiago Neves perderam chances cristalinas.

Não pode perdoar diante de um oponente tão tradicional, embora a equipe atual comandada por Guillermo Schelotto esteja longe em desempenho dos grandes times da história do clube xeneize. Começou com Pavón à direita, mas depois o ponteiro invertou o lado com Nández no 4-2-3-1 que tinha o colombiano Barrios incansável na proteção da defesa e Pablo Pérez articulando de trás.

Também aparecendo no ataque para aproveitar erro de Lucas Silva na tomada de decisão que provocou um “efeito dominó”: o volante cruzeirense fechou um espaço morto e não acompanhou o deslocamento de Pérez para receber a bola. Para em seguida estar mal posicionado e não conseguir bloquear o passe para Zárate, o meia central que infiltrou pela direita para tirar do alcance de Fábio.

O período entre o gol do Boca e o final do primeiro tempo foi o único em que o time da casa conseguiu aquela sintonia com a massa que intimida os rivais. Ataca, perde e logo pressiona, o adversário apela para o chutão, o time recupera a bola e segue atacando com volume. A torcida cresce junto e o adversário não respira.

O Cruzeiro saiu vivo e o jogo seguiu equilibrado na segunda etapa. Até o absurdo da expulsão de Dedé. Um choque acidental com o goleiro Andrada. O zagueiro foi o primeiro a pedir atendimento ao adversário. Nenhum jogador do Boca responsabilizou o brasileiro e pressionou a arbitragem. Mas Eber Aquino resolveu consultar o VAR e apresentou cartão vermelho.

Um erro que mudou a história do jogo e o gol de Pérez em falha da retaguarda justamente no setor de Dedé foi mera consequência. Mas pode definir a vaga na semifinal da Libertadores. Nenhuma surpresa. A Conmebol, comandada por um argentino, é mais que suspeita, como sempre foi. Nada de “nova”.

A culpa, porém, é da CBF. Sem força política, com dirigentes bizarros, credibilidade zero. Os clubes brasileiros também têm responsabilidade por aceitarem esse cenário grotesco. Mais uma vez parecem desconhecer a força que têm.

De qualquer forma, o Cruzeiro pode reverter os 2 a 0. O Boca já havia mostrado estar longe de ser temível na derrota em casa para o Palmeiras na fase de grupos. Só que o time mineiro desta vez terá que se impor em casa, algo que não conseguiu até aqui no mata-mata, inclusive pela Copa do Brasil. Também porque não precisou.

Sem Dedé será bem mais complicado. Parabéns aos envolvidos!


Grêmio muda time, esquema, modelo…só não perde a “casca” na Libertadores
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André Rocha

Sem centroavante disponível para o jogo de ida pelas quartas de final da Libertadores, Renato Gaúcho decidiu resgatar a ideia de Luan como “falso nove”, abandonada desde a grave lesão de Douglas em 2017. Armou um 4-3-3 com Ramiro no meio-campo, abrindo vaga pela direita para Alisson. Com Everton na esquerda, o ataque tinha pontas para acelerar e buscar as infiltrações em diagonal.

No entanto, mesmo para o atual campeão sul-americano e com trabalho de dois anos consolidado, não é simples mudar um padrão. O Grêmio sofreu no primeiro tempo do Monumental José Fierro contra um Atlético Tucumán intenso e que atacava como se não houvesse amanhã e nem a partida de volta. Trunfo de uma equipe fortíssima em seus domínios – não perdia desde março.

Tanto volume que impôs superioridade na posse sobre um time que preza o controle da bola. Mas a equipe gaúcha não se perdeu. Controlou espaços e esperou a hora de acelerar as transições ofensivas. O primeiro gol em mais um momento inusitado para o Grêmio: bola longa de Maicon, toque de Cícero vencendo a disputa pelo alto para servir Alisson.

A expulsão de Gervásio Núñez com auxílio do VAR por pisar em Alisson caído no gramado esfriou time e torcida. O Grêmio até avançou as linhas, mas definiu mesmo no passe longo de Léo Gomes para Alisson dar assistência e Everton marcar seu quinto gol no torneio continental.

O tricolor gaúcho, criticado tantas vezes na temporada pela posse de bola estéril, terminou com 48% e finalizou menos que o oponente, mesmo com um a mais durante boa parte do segundo tempo: oito contra treze, mas cinco no alvo. Duas nas redes.

A objetividade também tem sua beleza. E o Grêmio venceu bonito na Argentina. Encaminha bem demais a classificação para a nona semifinal. Porque pode mudar escalação, sistema, até o modelo de jogo. O time de Renato Gaúcho só não perde a “casca” na Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)


Felipe Melo, o “gatilho” para os clichês de Libertadores. Menos um
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André Rocha

“É jogo de Libertadores!”

Eis o pai de todos os clichês do maior torneio da América do Sul. Uma espécie de senha ou licença para todo tipo de recurso para vencer. Mesmo a barbárie dentro e fora das quatro linhas. Vale quase tudo, porque ao contrário de tempos remotos hoje existe as muitas câmeras de TV para registrar as situações mais absurdas.

O ápice do “futebol testosterona”. O jogo pra macho! O templo da virilidade. Pancadaria, ligação direta, lateral na área, torcida hostil, pressão na arbitragem…Vence o mais forte, o mais raçudo ou o mais esperto e não o melhor. É o não-jogar. Posse de bola, conceitos, jogo coletivo e mais pensado que sentido? Tudo frescura…

No Allianz Parque, outros clichês que são derivados do primeiro se fizeram presentes. “Se o resultado é favorável faz catimba!” O Palmeiras de Luiz Felipe Scolari, com vantagem de dois gols fora de casa e um homem a menos, trocou apenas 140 passes. Poderia ter gastado o tempo ficando com a bola e envolvendo um Cerro Porteño frágil tecnicamente e envelhecido. Preferiu “congelar” o jogo ganhando cada segundo possível. No final, só sofreu um gol, o primeiro sob o comando de Felipão, e se classificou. Mesmo correndo mais riscos que o recomendável.

Mas para que jogar se “é guerra”? Melhor dizer no final que foram mais experientes e malandros, não melhores. É um mundo paralelo que envolve torcida, dirigentes, boa parte da imprensa…como discutir? Ainda mais com Felipão, que chegou ao Palmeiras para entregar resultado. Cru. A exigência por um jogo mais agradável ao olhos se foi com Roger Machado. Sai a estética, fica o pragmatismo puro.

“Felipe Melo é isso!” De fato, o Palmeiras sabia quem estava contratando e isto ficou claro desde a coletiva de apresentação. Tudo pode acontecer. Tanto um bom desempenho do volante inteligente, de senso coletivo, posicionamento correto e passe preciso quanto o ocorrido aos três minutos de jogo.

Porque o árbitro argentino Germán Delfino não seguiu o clichê “juiz não expulsa na primeira pancada”. A entrada de Felipe Melo em Vítor Cáceres era mesmo passível de vermelho direto. Talvez outro não tivesse coragem para expulsar um atleta do time da casa tão cedo. Mas certamente o volante pagou pelos antecedentes. Faz parte do jogo.

Assim como é do repertório de todas as torcidas o “se não for sofrido perde a graça”. Um jogo de volta que parecia protocolar para garantir a vaga nas quartas de final se transformou numa batalha épica. No final, todos saíram vibrando e até criou-se um clima de “contra tudo e contra todos” por conta da arbitragem. Nada mais emblemático.

Felipe Melo foi o “gatilho” de um combo de clichês de Libertadores. Mas quem se importa? O Palmeiras segue vivo. E “os anti pira”.


Jogaço no Mineirão deixa lições importantes para Cruzeiro e Flamengo
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André Rocha

Ao escalar titulares no empate com o América no Brasileiro parecia que o Flamengo tinha jogado a toalha na Libertadores, estabelecido as outras competições como prioridades e poderia até poupar titulares no Mineirão.

Engano. A única mudança de Maurício Barbieri foi uma experiência para tentar compensar a grave carência no centro do ataque: Marlos Moreno na vaga de Henrique Dourado, mas com Vitinho atuando mais adiantado no 4-1-4-1. Complicado testar em uma partida decisiva, mas o jogo mostrou ser absolutamente compreensível.

O fato é que mesmo com a vitória por 1 a 0 e a bela atuação coletiva, falta “punch” ao time rubro-negro. Termo que vem do boxe que significa a capacidade de encaixar golpes e derrubar o oponente. É uma equipe que precisa de muito volume de jogo e posse de bola para finalizar e muitas conclusões para ir às redes.

Tentou com Vitinho na frente e no final com Dourado e mais Lincoln e Geuvânio. Foram nove finalizações, mesmo com 58% de posse. Apenas duas no alvo. Gol só na bola parada, com Léo Duarte. Novamente o ataque ficou devendo. Foi o que pesou.

Melhor para o Cruzeiro, que deve lamentar a derrota mais pelas chances cristalinas perdidas. Especialmente de Barcos e Thiago Neves. Pararam em Diego Alves. Difícil entender a opção por Barcos deixando Raniel na reserva. Foram apenas oito finalizações, três no alvo. Mesmo considerando o contexto da vantagem obtida no Maracanã, a atuação no aspecto ofensivo ficou devendo.

Já defensivamente, no 4-2-3-1 habitual, mais uma vez foi sólido e organizado. Principalmente pela estratégia de pressionar Diego e Lucas Paquetá, meio-campistas que notoriamente prendem a bola e quase sempre precisam dominar e girar para decidir a jogada, assim que a bola chegava. Vários botes certos sobre os dois entre os 25 desarmes corretos do time celeste.

O desempenho geral, porém, é preocupante se pensarmos na reta final da temporada se o time precisar reverter desvantagem em casa. Mano Menezes é pragmático e tem a conquista da Copa do Brasil no ano passado como crédito, mas aconteceu também contra o Santos no torneio nacional, só decidindo nos pênaltis. Flertar com o perigo constantemente pode terminar bem mal.

Já a trajetória do Fla na competição sul-americana termina sem grandes traumas, mas deixando claro novamente que depende demais dos titulares. Faltou Paquetá no Maracanã e o desempenho caiu vertiginosamente. O elenco não consegue encontrar respostas no mais alto nível.

O saldo final é de copo meio cheio para ambos. O Cruzeiro pelo resultado, o Flamengo pelo desempenho considerando que a expectativa por classificação era baixa. Mas o jogaço deixa lições e exige atenção para tentar finalizar 2018 com algum título.

(Estatísticas: Footstats)


Santos é só mais um clube brasileiro preso na bolha de vitimismo e cinismo
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André Rocha

O Santos fez vergonha no Pacaembu. Porque é um clube com imagem a zelar. Da Conmebol não se espera nada.

Do Alvinegro Praiano aguardamos até hoje as providências necessárias. Dele e dos outros grandes. Que rompam com federações, CBF e até Conmebol. Todas elas precisam dos clubes brasileiros. Os que têm torcida, camisa, representatividade, força comercial…e parece que não sabem.

São submissos. Por uma migalha aqui e ali. O Santos aplaudiu a canetada de Ricardo Teixeira unificando os títulos nacionais desde 1959. O Palmeiras suplica à FIFA o reconhecimento da Copa Rio como Mundial. O Flamengo ficou mendigando o título brasileiro de 1987.

E a culpa é sempre dos outros. Certamente vão xingar este que escreve pelo que disse no parágrafo acima. No caso dos mais preguiçosos, só pelo título do post. É sempre contra tudo e todos. Uma paixão cega e, por isso, quase sempre pouco inteligente. Porque iniciativas consistentes para se livrar dos obstáculos não existem.

Transferir responsabilidade é cômodo, uma boa bengala. A bolha do vitimismo é um lugar seguro e quentinho. Assim como a do cinismo de quem debochou do Santos, mas pode ser punido pela fraqueza política da CBF no continente daqui a pouco. Hoje ainda. Assim como muitos santistas riram, por exemplo, da arbitragem mais que questionável de Carlos Amarilla contra o Corinthians pela Libertadores 2013.

A ira de parte da torcida pela punição já era esperada. Mas não pode ser relativizada porque a Conmebol é tendenciosa e corrupta. Sempre foi e não vai mudar enquanto os clubes não agirem. Só que esperar união é utopia em um cenário no qual cada um só está preocupado em resolver o seu problema. E só “não tem sangue de barata” para quebrar estádio. Romper com o status quo? Para quê?

Quem lê este blog há pelo menos dois anos sabe das minhas ressalvas a Cuca. Como treinador, gestor de pessoas e figura pública. Mas ontem foi perfeito na entrevista, assumindo enquanto profissional do clube a cota de responsabilidade deste. Cuca que foi vitimista tantas vezes ontem surpreendeu. Ponto para ele. Que não seja punido pela sinceridade.

Foi só mais uma noite no Pacaembu. Tão lamentável quanto o pensamento minúsculo de quem dirige gigantes que hibernam enquanto os ratos fazem a festa.


Não precisava ser tão sofrido, mas é assim que o Grêmio ama na Libertadores
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André Rocha

Os primeiros minutos em Quilmes dos 180 disputados entre Grêmio e Estudiantes pelas oitavas de final sinalizavam uma classificação tranquila do atual campeão da Libertadores. Posse de bola, personalidade e proposta ofensiva. Chance clara desperdiçada por André. Mas golaço de Apaloaza na sequência.

No final do primeiro tempo, Kannemann diminuiu para 2 a 1  – Campi havia ampliado no melhor momento da equipe argentina na partida e no confronto. Segundo tempo de pressão gremista, ainda maior depois da expulsão de Zuqui. Não veio o empate, mas trouxe esperança para a volta em Porto Alegre.

Fé que virou certeza com o golaço de Everton aos seis minutos completando bela assistência de Jael. De novo um ótimo início do time de Renato Gaúcho, envolvendo e criando espaços entre os setores do 5-3-2 montado por Leandro Benítez. Mas dois minutos depois Jailson errou, o sempre seguro Geromel falhou no “pé de ferro” e Lucas Rodriguez avançou para tocar na saída de Marcelo Grohe.

Um time sem experiência e confiança de títulos teria desmanchado mentalmente com um anticlimax tão pesado. Parecia que era noite para tudo dar errado. Uma impressão crescente de que a ventura estava ao lado dos argentinos.

Não para o Grêmio. Time, Renato e torcida. Mesmo com tensão, o Grêmio seguiu atacando. Com Alisson na vaga de Ramiro, que talvez tenha cumprido sua pior atuação com a camisa tricolor. Depois André e Pepê substituindo Leo Moura e Jailson. Empilhou atacantes no 3-1-4-2 com Cortez como terceiro zagueiro e dois centroavantes enfiados. Kannemann correndo, gritando e lutando por todos. O melhor em campo.

O time da casa manteve a média de 70% de posse de bola e teve boas oportunidades no universo de 23 finalizações, oito no alvo. Mas exagerou nos cruzamentos: 45 no total, 27 na segunda etapa. Diante de um adversário exausto e inexperiente, não era para sofrer tanto e só conseguir o gol nos acréscimos para levar para a decisão por pênaltis. Na bola parada com Luan colocando na cabeça de Alisson. Uma falta boba de Facundo Sánchez.

Mas quem se importou na Arena? A explosão e a atmosfera perfeita para ser 100% na disputa. Depois de apenas o acerto de Cícero contra o Atlético Paranaense no sábado nas últimas cinco cobranças. Campi isolou, nem foi necessária a intervenção de Grohe. Cinco a três.

Já era sofrido o suficiente. O Grêmio é favorito contra o Atlético Tucumán nas quartas, também pelo jogo de volta em casa. Talvez a trajetória seja menos tensa. Se acontecer, time e torcida certamente guardarão na memória a noite da adrenalina e da apoteose que alimentou o mito do “Imortal Tricolor” nas oitavas. Porque os erros e acertos construíram o cenário tão amado pelo campeão da América.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Corinthians precisa estabelecer metas realistas para salvar temporada
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André Rocha

Foto: Marcos Ribolli /Globoesporte.com

Há uma crise no Corinthians e é bobagem negá-la. Problemas de gestão financeira combinados com visibilidade de triunfos recentes enfraqueceram o time com baixas importantes – Carille, Rodriguinho e Balbuena, principalmente. O sucessor no comando técnico, Osmar Loss, é a prova de que estar inserido na estrutura e conhecer por dentro a mecânica do time em campo não significa sucesso imediato por “piloto automático”.

É estranho ver o clube que faturou três títulos brasileiros nos últimos oito anos mais próximo da zona de rebaixamento do que da liderança – são oito pontos de distância do G-6 e sete do Z-4.  Fica cada vez mais claro que regularidade está longe de ser o forte da equipe atual. A solidez defensiva e a precisão cirúrgica nos ataques ficaram pelo caminho.

Mas a temporada não está perdida. Longe disso. É possível salvá-la com mais um título para a vasta coleção dos últimos anos e fechar 2018 com duas conquistas. Sim, a Copa do Brasil. Semifinal contra o Flamengo com a volta em São Paulo. Ainda que os rubro-negros tenham vencido os dois últimos encontros, o retrospecto recente é mais que favorável. Até em 2016, ano complicado pela perda de Tite e as escolhas infelizes de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira como sucessores, foram quatro pontos conquistados no Brasileiro contra o time de Zé Ricardo que à época perseguia o Palmeiras na liderança.

Se conseguir a vaga na final há 50% de chances de um clássico paulista contra o Palmeiras. Rivalidade à flor da pele, ainda a discussão da final do Paulista na Justiça. Uma disputa mais mental do que técnica ou tática. Agora há Felipão do outro lado, mas a moral dos triunfos recentes está com o Corinthians. Contra um Cruzeiro que pode ainda estar envolvido com Libertadores também há chances, ainda mais se decidir novamente em casa.

No Brasileiro é preciso ser realista e administrar uma campanha de manutenção na Série A.  Basta entender com humildade que desta vez os adversários importantes são os que estão na segunda metade da tabela e não no topo. Já na Libertadores, o que vier é lucro, a partir da volta contra o Colo Colo em São Paulo. Improvável que num ano tão conturbado o Corinthians arranque para um bicampeonato enfrentando os clubes mais fortes do país e do continente.

Respaldado pela diretoria, ao menos por enquanto, Loss precisa de calma e discernimento para pensar num time mais pragmático e forte no mata-mata. Jogando simples, retomando a concentração defensiva, especialmente nas jogadas aéreas da bola parada e sendo pragmático no ataque. No mais é dar confiança para os pilares Cássio, Fagner, Ralf, Jadson e Romero. Atletas experientes e com mentalidade vencedora.

Ou seja, resgatar a essência da identidade corintiana. Um ano caótico ainda pode terminar bem para o time brasileiro mais vencedor desta década.