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Eduardo Baptista começa a entender na prática o Palmeiras que tem nas mãos
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André Rocha

No automobilismo, a combinação do melhor carro com o melhor piloto costuma terminar em provas e campeonatos vencidos de ponta a ponta – talvez com a trágica exceção da parceria Senna-Williams em 1994.

Mas a melhor máquina também pode fazer a diferença, mesmo numa disputa parelha. Mais velocidade na reta, estabilidade nas curvas. Mesmo para um piloto inexperiente, mas com potencial.

Eduardo Baptista assumiu o Palmeiras como o maior desafio de sua carreira. Com a sombra incômoda de Cuca, que não foi para outro clube e sempre haverá a fé de que a qualquer momento ele pode mudar de ideia e voltar à labuta.

Ganhou de presente o elenco mais forte da América do Sul, ao menos no papel. Mas também a obrigação de montar rapidamente uma equipe difícil de ser batida, com autoridade diante de adversários mais frágeis.

O técnico podia manter a ideia de Cuca inicialmente e inserir aos poucos os novos jogadores e só mais tarde acrescentar sua visão de futebol. Mas teve a coragem de fazer tudo ao mesmo tempo.

Não é fácil. Não seria para qualquer treinador. Mesmo Tite, o nosso melhor “piloto” que está na CBF. Mas o jovem técnico encarou o desafio. Com apenas três anos de carreira e só cinco meses e 26 partidas pelo Fluminense, único time do eixo Rio-São Paulo que comandou. Em um ambiente caótico nas Laranjeiras.

Com conhecimento e convicções colocou em prática uma transformação no modelo de jogo que não é simples. O time de Cuca fazia marcação individual, não prezava a posse de bola e definia rápido a jogada, de preferência roubando no campo de ataque.

Baptista quer o bloqueio por zona e jogadas mais trabalhadas, com inversão de jogo e aceleração no último terço do campo. Tudo isso com uma pré-temporada ainda curta e exigência de resultados já no estadual, que devia servir como laboratório.

O resultado prático é um time “híbrido”. Num 4-1-4-1 que marca por zona, coloca a bola no chão. Mas quando precisa do gol para construir o resultado num cenário de grande pressão, parte instintivamente para os cruzamentos e consegue ser mais efetivo quando rouba a bola no campo adversário.

As oscilações são naturais. Mas com tempo e o respaldo de Alexandre Mattos e da diretoria, vai descobrindo que tem um grupo de atletas não só qualificado, mas também versátil.

Já trabalhou com Dudu, o grande destaque individual até aqui, nas pontas e também atrás do centroavante numa variação para o 4-2-3-1. Zé Roberto pode ser lateral ou meia. Willian “Bigode” já jogou como referência, mas foi na ponta esquerda que marcou o gol da virada sobre o Santos na Vila Belmiro. Jean, autor do primeiro gol, é volante já adaptado à lateral direita.

Há o mérito também de manter todos motivados. Roger Guedes perdeu espaço para Michel Bastos e Keno, mas quando entra é capaz de mudar o jogo aberto pela direita. Egídio também aceita a reserva de um jogador de quase 43 anos porque sabe que vai entrar em campo muitas vezes. O mesmo com Edu Dracena, que vai dando conta de substituir Vitor Hugo, também pode entrar na vaga de Mina quando este estiver na seleção colombiana e agrega experiência.

Eduardo segue no fio da navalha. As vitórias na semana não terminaram por detalhes em empate com Jorge Wilstermann e derrota para o Santos. A vibração do técnico nos gols transmite mais alívio que alegria.

Por ora os resultados vão avalizando o desempenho que não precisa chegar ao auge agora – e ainda não tirou o melhor de Felipe Melo, Guerra e Borja, as principais contratações. Ainda assim, é líder do grupo 5 da Libertadores e melhor campanha do Paulista.

Porque o técnico começa a entender, na prática, o Palmeiras que tem nas mãos. Nem o “Real Madrid dos trópicos”, nem uma máquina voadora da F-1. Mas o melhor “carro” dos campeonatos que disputa e só precisa de ajustes para ser imponente na hora certa.


O melhor que você, torcedor consciente, pode fazer pelo seu time de coração
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André Rocha

Este texto não é para quem se relaciona com seu clube apenas no momento de alta, fica sabendo do resultado pela internet e só quer espalhar memes nas redes sociais e zoar o vizinho ou o colega de trabalho no dia seguinte, mas mal sabe a escalação.

É para você que consome futebol, ainda que priorize o time de coração. Que paga TV por assinatura, pay-per-view, é sócio-torcedor, interage nas redes sociais e tenta participar da vida do clube, mesmo que à distância.

No ano da graça de 2017, o melhor que o torcedor pode fazer por sua paixão é mais do que alimentar os cofres do clube.

Durante anos, décadas, você foi ensinado que o torcedor de verdade é aquele apaixonado, irracional, de amor incondicional. Que sofre, berra, pede a saida do técnico “burro” e, se preciso, patrulha até o que o craque do seu time faz na folga. Também foi passado ao fanático um “manual” de explicações para a boa e a má fase do seu time.

Do “time sem vergonha” ao “time de guerreiros”. Do “técnico retranqueiro” ao “paizão da família”. Do “apagão” à “torcida que carregou nas costas”. Do “grupo na mão do treinador” aos “vagabundos que quebram na noite”.

Nada lhe ensinaram sobre tática e estratégia. Ou apenas o superficial, como “time que não tem craques só ganha na tática”, mas nunca explicaram muito bem o que seria isso. Porque sabem que é mais fácil capturar pelo emocional. Convencer que se você gritar o time vai correr e vencer. Mas se perde em casa com estádio lotado explicam que a equipe “sentiu o peso do jogo” ou “caiu no oba oba da torcida”.

Por isso, se você quer cobrar de dirigente, treinador ou atleta é preciso algo fundamental em qualquer área da vida: conhecimento.

Para não cair na fácil tentação, por exemplo, de exigir uma goleada do Palmeiras sobre o Jorge Wilstermann no Allianz Parque. Porque sim. Porque o Palmeiras gastou muito e é obrigado a atropelar o pobre boliviano na Libertadores.

Sem compreender que o time de Eduardo Baptista passa por uma transição de modelo de jogo e que se acostumou com Cuca a definir rapidamente a jogada. E contra uma linha de cinco bem treinada, o que não necessita de grandes craques ou um técnico de ponta da Europa, é preciso rodar a bola, trabalhar as jogadas.

Inclusive recuar para o goleiro com o intuito de abrir espaços, tirar um pouco o 5-4-1 do oponente do próprio campo. Mas te ensinaram a vaiar essa prática porque “é anti-jogo”, “coisa de time pequeno que não quer jogar”. Então que fique tentando a esmo, despejando bolas na área até conseguir com o gol de Mina nos acréscimos. Esmurrando a ponta da faca “porque sofrido é mais gostoso”. Será?

Vivemos outros tempos, felizmente. Antes os bolivianos chegavam aqui ingênuos, sem informação de nada. Para perder de pouco. Agora na internet você acha todos os movimentos que uma linha de cinco atrás precisa fazer para fechar os espaços. É óbvio que o técnico Roberto Mosquera conhecia as virtudes e defeitos de Dudu, Borja, Felipe Melo, Guerra, Mina, Tchê Tchê…

Assim como Zé Ricardo sabia que o Flamengo precisava da velocidade e da boa leitura defensiva de Marcio Araújo para limitar os movimentos de Diego Buonanotte, o meia argentino que faz a Universidad Católica jogar.

Escalou três volantes de ofício, sim. Mas só o contestado camisa oito à frente da defesa, com Romulo quase na linha de Diego e Willian Arão mais aberto pela direita. A velha confusão entre posição e função. Foi “covarde”, “jogou com medo”? Como, se finalizou 15 vezes contra 11 dos donos da casa.

O problema foi a eficiência nas finalizações. Paolo Guerrero, centroavante e artilheiro rubro-negro na temporada, teve seis chances. Três dentro da área. Nenhuma nas redes em um jogo parelho de Libertadores fora de casa.

Santiago “El Tanque” Silva teve duas. Uma na bola mal recuada por Rafael Vaz que parou em Muralha. Na segunda, aproveitou um erro de marcação coletiva – Pará não podia estar com o centroavante bem mais alto – e definiu o jogo.

Berrío, tão aclamado pelo torcedor pela velocidade de “The Flash”, entrou para deixar a equipe, em tese, mais ofensiva antes mesmo do gol sofrido. Errou tudo que tentou e ainda foi expulso por uma bobagem. Será que a culpa foi mesmo do técnico Zé Ricardo?

Para criticar é preciso conhecer, entender. O ex-jogador e colunista Tostão costuma dizer que o futebol é tão caótico e imprevisível que você pode falar a maior bobagem do mundo e ela acontecer no campo. Sem dúvida. E por isso estamos aqui refletindo sobre o esporte mais arrebatador desde sempre.

Não há dono da verdade neste jogo, mas há tendências. E a análise mais coerente dos fatos. O que é bem diferente de opinião. Não é tão simples dizer que jogou bem ou mal sem o mínimo de base. E o resultado não pode definir a questão e ser o norte da análise, que por aqui quase sempre é feita de trás para frente. Perdeu? Quem é o culpado, por que errou? Se venceu vão achar o heroi, as explicações para a boa fase. Mesmo que tenha conquistado os três pontos jogando muito mal.

Quer ver sua visão respeitada? Tente observar e entender melhor o que acontece em campo. Porque é ele que norteia todo o resto. Bastidores, gestão financeira, política. Tudo. Para reclamar é preciso saber.

Outro dia este blogueiro entrou num Uber e foi reconhecido pelo motorista. Vascaíno, logo começou a reclamar do trabalho de Cristóvão Borges. Mas chamando o treinador de “muito retranqueiro”. Como havia escrito sobre no dia anterior, expliquei que o problema era exatamente o contrário: o time se adianta, não pressiona quem está com a bola e deixa a retaguarda totalmente exposta. Lembrei um ou dois lances do empate com o Macaé no Engenhão e ele me deu razão. Continuou protestando, mas agora por um motivo mais justo.

Torcedor, estamos na era da informação. Não deixe mais colocarem você numa redoma de ignorância voluntária reclamando e cobrando da mesma forma que seu pai e avô. Procure bons canais de informação, mas também de análise. Que mostre o que acontece realmente nas quatro linhas. Temos ótimas referências no assunto que, felizmente, são as exceções à regra.

O bom técnico se recicla, o jogador se atualiza, mesmo que na marra, por necessidade. O formador de opinião também precisa. Por que não o torcedor que quer ser parte do processo?

Sem populismo, apelação. Também sem essa relação cliente/fornecedor muito presente hoje no jornalismo esportivo: o comentarista diz o que o torcedor quer ouvir. Elogio na vitória e crítica na derrota. Sem contexto. Até para ter paz nas redes sociais cada vez mais bélicas. Exatamente por causa do desconhecimento incentivado por quem deveria esclarecer.

Fuja dessa cilada secular. Não se deixe enganar por quem acha que você não sabe pensar, só sentir. Entenda para cobrar e ajudar seu time de verdade. É bom tirar sarro do rival e explodir de alegria no estádio. Mas melhor ainda é quando se sabe o que está dizendo.

 

 


Pimpão, sacrificado e iluminado no Botafogo 100% no Engenhão
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André Rocha

Os confrontos eliminatórios para entrar na fase de grupos da Libertadores sacrificou o primeiro turno do Botafogo no Carioca e também queimou etapas de preparação da equipe, que precisava se apresentar competitiva logo no início da temporada.

Por isso também o técnico Jair Ventura não teve tanto tempo para testar, experimentar e ensaiar o encaixe da principal contratação que mexeria na estrutura tática: Montillo entrou centralizado atrás do atacante mais enfiado.

Camilo foi jogado para o lado do campo. Inicialmente mais recuado. Contra o Estudiantes na abertura do Grupo 1, pela direita e mais liberado. Porque o lado forte do time argentino era o direito, com as descidas de Facundo Sánchez apoiando Solari, o meia aberto no 4-4-2 armado por Nelson Vivas.

A dupla na ala, mais o grande destaque do time, o colombiano Otero. Circulando às costas dos volantes Aírton e Bruno Silva e aparecendo também no setor de Victor Luis. Para ajudar o lateral esquerdo, Jair posicionou Rodrigo Pimpão no setor. Com responsabilidade de defender, mas também acelerar, procurar a diagonal, se juntar a Roger.

O Bota controlou a posse com 62%, mas finalizou três vezes, duas no alvo. Um chute de Camilo no final da primeira etapa e o golaço de Roger, completando de voleio outro voleio de Bruno Silva. O Estudiantes concluiu o dobro, três na direção da meta de Gatito Fernandez. Jogo duríssimo.

Porque Montillo não justificou o sacrifício dos colegas para que ele tivesse liberdade. Criou pouco. O time argentino foi se instalando no campo do ataque e, numa falta boba de Marcelo Conceição, zagueiro novamente improvisado na lateral direita que acertou o cruzamento para o primeiro gol, a cobrança perfeita de Otero.

Até Jair perder a paciência com Montillo, que também cansou. Entrou Sassá. Inicialmente com Camilo mantendo o posicionamento aberto, depois centralizado. Com Pimpão voltando ainda mais para realizar o trabalho defensivo.

Mas sem deixar de aparecer na área do oponente, como foi decisivo contra Colo Colo e Olimpia. Foi às redes novamente. O terceiro dele no torneio. Incansável em todo o campo. Sacrificado e iluminado.

Símbolo da entrega e do espírito competitivo de um Botafogo com 100% de aproveitamento no Engenhão e que será duro em qualquer campo, num grupo que já se mostra equilibrado na primeira rodada.

(Estatísticas: Footstats)


Quem no Brasil está jogando mais que Dudu?
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André Rocha

Não é de hoje. O Palmeiras do segundo turno do título brasileiro – mais pragmático e focado no resultado, não conseguiria os incríveis 44 pontos, melhor campanha em um turno na era dos pontos corridos, sem o brilho e a consistência de Dudu.

Com a ausência de Gabriel Jesus pelas seguidas convocações para as seleções olímpica e principal, e a queda de produção de Roger Guedes, assumiu a faixa de capitão e o protagonismo depois de brigar e se reconciliar com o técnico Cuca.

Foram dez passes para gols do ponteiro que atuava pela esquerda num 4-3-3. Jogador da bola parada em momentos de pressão e da velocidade nos contragolpes. Fundamental.

Em 2015 já havia sido importante na conquista da Copa do Brasil. Atuando mais solto e próximo da zona de decisão como um meia atrás do centroavante, foi o artilheiro alviverde na temporada com 16 gols.

Dudu é ponta e meia. Serve, faz gols e tem liderança. Por isso precisamos falar mais dele.

Nos 3 a 0 sobre o São Paulo no Allianz Parque ganhou os holofotes com o golaço de cobertura sobre o goleiro Denis. O segundo ele na temporada. Talvez o camisa sete nem tenha sido o grande destaque do time agora comandado por Eduardo Baptista, já que Tchê Tchê foi onipresente no meio-campo. O trabalho coletivo também merece atenção, com seguidas bolas roubadas no campo de ataque.

Mas Dudu sempre está presente, como peça chave. Em 2017 já são seis assistências, um pênalti sofrido e o cruzamento que Thiago Santos desviou e Keno completou no gol de empate contra o Tucumán na estreia da Libertadores.

O novo treinador só tem elogios para seu atacante: “Tenho falado para ele do grande potencial que tem. Um grande jogador. O cara que pensa em jogar na Europa e seleção tem que jogar em todos os lugares. E foi muito bem”, exaltou Baptista na coletiva depois do clássico “Choque Rei”.

Um alto investimento do clube na contratação ao Dinamo de Kiev que na época gerou polêmica pelo “chapéu” nos rivais, mas que em campo se paga a cada jogo. Um caso raro de quem evoluiu quando voltou da experiência na Europa.

Dudu tem intensidade para pressionar no campo de ataque ou voltar até a própria linha de fundo se for preciso. Sabe dar profundidade aos ataques, mas também procura a diagonal. Tem visão de jogo para um passe de meia, mas chama lançamento em contragolpe.

Tem também a postura que agrada o torcedor mais fanático: “tudo pelo time”. Mesmo que às vezes esbarre na ética, algo que se espera de um grande ídolo. Como no episódio da expulsão de Gabriel no dérbi. Para sua equipe conseguir vantagem, mesmo baseada em um absurdo, Dudu tentou até impedir que o árbitro tivesse acesso à informação correta.

Mas quem se importa? A resposta no campo compensa e muito. Só não leva à seleção brasileira, mesmo com boa atuação e gol no amistoso contra a Colômbia, porque a concorrência nas pontas do 4-1-4-1 é duríssima, a mais forte no grupo de Tite: Coutinho, Willian, Neymar e Douglas Costa.

Melhor para o Palmeiras, que conta por mais tempo com seu melhor jogador. E cabe a pergunta: quem no Brasil está jogando mais que Dudu?

 

 


Segundo tempo no Maracanã deixa claro: Flamengo é o time dos pontas
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André Rocha

Flamengo no 4-2-3-1 com Berrío na vaga de Mancuello. Com ponteiros rápidos, time fica mais previsível, porém ganha volume de jogo. Com gol logo aos três minutos e o desgaste do San Lorenzo que abriu brechas no 4-1-4-1 armado por Aguirre, o time construiu a goleada (Tactical Pad).

O gol de falta de Diego logo aos três minutos e o fato do San Lorenzo não estar em plena competição na Argentina por conta da greve no país condicionaram a disputa no segundo tempo e ajudam a explicar os 4 a 0 na estreia da Libertadores no Maracanã.

Mas ficou claro desde a entrada de Berrío na vaga de Mancuello que o jogo rubro-negro flui melhor quando o 4-2-3-1 tem jogadores rápidos pelos flancos. Zé Ricardo até tentou encaixar o meia argentino como um ponta articulador, mas a experiência em jogos mais parelhos não deu certo.

Muito pela falta de mobilidade em progressão do quarteto ofensivo. Ou seja, quando o time tem a bola e ataca. Esse meia na ponta vem para o centro, alguém se desloca e ocupa o espaço, o lateral faz a ultrapassagem no corredor. Não funciona pelas características de Diego e Mancuello, que são jogadores que correm mais em direção à bola que atacam os espaços à frente.

O primeiro tempo foi de erros de passe, falta de intensidade e alguns sustos do San Lorenzo de Diego Aguirre armado no 4-1-4-1 e atacando pela direita com Cerutti e o suporte de Belluschi. Ainda assim, Everton teve chance clara e carimbou a trave de Torrico.

Com os velocistas se projetando, os jogadores do meio e Guerrero têm opções mais fáceis de passe. O jogo fica mais previsível e isso é um problema diante de times mais organizados e compactos. Algo que poderia melhorar com Diego tocando de primeira e arriscando passes mais verticais e os pontas buscando as diagonais. Mas é inegável que a equipe ganha volume.

Foi às redes ainda com um chutaço de Trauco, que voltou a se aventurar pelo centro. Depois Rômulo em mais uma jogada de bola parada – escanteio cobrado por Diego – e finalizou com Gabriel, que sofreu pênalti que Guerrero desperdiçou, mas depois o ponta que substituiu Everton acertou o ângulo, quando o time argentino estava entregue.

Foram 15 finalizações contra seis apesar da posse de bola praticamente igual. Também quinze cruzamentos, número bem inferior ao das partidas anteriores. Muito porque o time não precisou partir para o “abafa” na segunda etapa.

A goleada é importante pelo reencontro com o Maracanã para resgatar confiança depois da má atuação e do revés nos pênaltis na final da Taça Guanabara. O time, porém, ainda precisa de ajustes. Mesmo com a sequência invicta de 18 partidas, a maior do país entre os clubes da Série A. Com Everton e, bem provável, Berrío na vaga de Mancuello.

Pelo que se viu até aqui na temporada, Zé Ricardo não terá como aguardar Conca com um “dublê” fazendo a função que  espera do argentino. Porque o Flamengo é o time dos pontas.

(Estatísticas: Footstats)


Botafogo e Atlético sobrevivem na noite do controle e do sofrimento
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André Rocha

O Botafogo controlou mais o jogo do que sofreu em Assunção. Compactou linhas de quatro, usou Marcelo como lateral zagueiro para encaixar Carli com Emerson no centro da defesa, deu liberdade a Camilo para acionar Pimpão buscando as diagonais nos contragolpes.

Organização sem posse de bola – apenas 38%. Jair Ventura preparou o time para fechar a própria área e não permitir a chance cristalina do Olimpia, com a infiltração depois da troca de passes.Mesmo cedendo 13 finalizações, cinco no alvo, o plano no geral foi bem executado até cometer o pecado inevitável pelo cansaço: recuar demais e ficar sem transição ofensiva.

No lance do gol de Montenegro, o time brasileiro se fechava com os quatro defensores bem centralizados, mais João Paulo e Gilson muito recuados, quase como laterais. Linha de seis afundada, muito perto da meta de Gatito Fernández.

O personagem nos pênaltis que entrou na vaga do lesionado Helton Leite e foi celebrar com o colega substituído depois de pegar três cobranças e garantir o Botafogo na fase de grupos. Na prática, o plano certo deu errado e precisou do goleiro que começou no banco.

Já o Atlético Paranaense penou em Capiatá. Porque só podia vencer e partiu para uma disputa mais aberta, até porque Carlos Alberto e Grafite não funcionam em contragolpes. Mas o time “cascudo” de Paulo Autuori foi às redes logo aos 11 minutos com Lucho González.

Exatamente na jogada aérea com bola parada, a arma do adversário nos 3 a 3 em Curitiba e que foi praticamente o único recurso da equipe comandada por Gavilán: nada menos que 45 cruzamentos do Capiatá que obrigaram Autuori a montar no segundo tempo uma linha de cinco atrás com Jonathan e Sidcley nas laterais, Wanderson, Paulo André e Thiago Heleno no centro da defesa.

O jogo ficou aleatório, com bolas levantadas em profusão e contragolpes desperdiçados, já com Luis Henrique no lugar de Grafite e Felipe Gedoz na vaga de Carlos Alberto. Mas foi Nikão quem aumentou o drama errando na tomada de decisão quando era hora de resolver o jogo e o confronto.

Weverton garantiu com boas defesas e ganhando tempo. Os números até sugerem disputa mais equilibrada: posse de bola praticamente igual e 10 finalizações do Capiatá contra nove da equipe rubro-negra. Mas a história do jogo foi mais sofrida para os paranaenses, ainda que em pouco mais de noventa minutos.

O Bota precisou dos pênaltis, mas o Brasil conquista mais duas vagas na fase de grupos. O time carioca no Grupo 1, do campeão Atlético Nacional, mais Estudiantes e Barcelona de Guayaquil. O Atlético com San Lorenzo, Flamengo e Universidad Católica no Grupo 4.

Chaveamentos duros, mas se começar a competir tão cedo pode queimar etapas na temporada, também dá “casca” e uma bagagem que os demais ainda precisam conquistar. Os dois brasileiros já têm histórias para contar na Libertadores 2017. Especialmente a sobrevivência na noite do controle e do sofrimento.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Palmeiras quer e pode tudo em 2017. Por isso precisa de mais tempo
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André Rocha

Quando se tem um elenco na conta apenas de montar um bom time e a temporada pode ser considerada positiva se terminar com um título, mesmo que estadual, o trabalho do técnico e dos atletas tende a ser mais simples, com o jogo coletivo potencializando o talento que não oferece tantas possibilidades.

Mas quando se monta o elenco mais qualificado e homogêneo do continente com altíssimo investimento e a proposta é afirmar uma maneira de jogar impondo o ritmo como protagonista, a equação fica bem mais complexa.

É o caso do Palmeiras. Com o fator complicador do técnico vencedor da temporada passada ter partido, mas não para outro time. A rigor, Cuca está no mercado. Mesmo que recuse todas as ofertas. E seu sucessor não tem o mesmo currículo, nem foi a primeira opção da diretoria.

A cada contratação confirmada a pressão sobre Eduardo Baptista só aumenta. Na exigente torcida alviverde ecoa a tese de que colocaram um piloto mediano para conduzir o melhor carro. A sombra de Cuca sempre vai rondar.

E ainda o paradoxo: o técnico rodado e vencedor precisava de menos recursos para alcançar os resultados: marcação individual, cobranças de lateral diretamente na área adversária, jogadas aéreas com bola parada ou rolando, contragolpes em velocidade quando o time tinha vantagem no placar.

Já o novato quer algo mais atual: um 4-1-4-1 com posse de bola, mobilidade, troca de passes até a infiltração. Controlar dentro ou fora de casa. Não é simples de conseguir. E o torcedor sempre vai achar que a fórmula anterior era mais eficiente. A curto prazo, no imediatismo típico da nossa mentalidade. Mas em termos de qualidade na execução do plano de jogo é um desperdício não buscar uma evolução.

Por isso Eduardo Baptista precisa de tempo, mais que qualquer outro treinador no país. O Palmeiras quer e pode tudo na temporada. Investiu para isso. E com tantas opções é preciso testar para definir uma base titular e mexer por necessidade ou para surpreender um adversário. Saber que combinações podem ser utilizadas e entrosá-las.

Como a linha de quatro com Keno, Michel Bastos, Raphael Veiga e Dudu atrás de Willian nos 4 a 0 sobre o Linense em Araraquara. Com revezamento de meias e pontas, mais o apoio dos laterais, especialmente Egídio à esquerda. Envolvendo o adversário com relativa facilidade e ainda mandando a campo Thiago Santos e Barrios, autor do último gol em bela jogada trabalhada e assistência de Dudu, o melhor em campo e o destaque absoluto até aqui.

Superando a ausência de Moisés, que se lesionou ainda no primeiro tempo e, pela gravidade aparente na entorse do joelho esquerdo, pode ficar fora por um longo período. E ainda tem Guerra. E Borja para estrear. E Mina voltando para liderar a retaguarda que tem Fernando Prass de volta. É muito potencial a ser explorado.

A melhor notícia é que há um plano e uma ideia para alcançar os objetivos que focam em resultado, mas através do desempenho. O desafio é ter paciência e entender que há um processo, sem a mágica de “soltar as feras em campo que elas se entendem”.

Para quem vai disputar Libertadores atrás do título, o Paulista tem que ser tratado como laboratório. Mesmo o clássico diante do Corinthians na quarta-feira. Porque experiências dão errado para terminarem nas melhores soluções. A história mostra, dentro ou fora do futebol. A pressa só pode atrapalhar o Palmeiras.


Se vale a superstição, vitória sofrida é bom presságio para o Botafogo
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André Rocha

Sem Montillo, lesionado, Camilo voltou a jogar na ponta do losango do meio-campo do Botafogo que varia para as duas linhas de quatro sem a bola, espelhando o 4-4-2 do Olimpia que buscava acionar a dupla Mouche e Montenegro, porém sem contundência (Tactical Pad).

Domínio inicial, lesão de ídolo da torcida, sofrimento na segunda etapa, heroi de gol decisivo. O roteiro da vitória sobre o Olimpia no Engenhão só teve uma vantagem em relação ao triunfo contra o Colo Colo: não sofrer gol em casa.

Jair Ventura também fez diferente. Em vez de recuar Camilo como um volante-meia como na estreia no torneio continental, posicionou o camisa dez pela direita num 4-2-3-1. O bom início só nao teve sequência porque Montillo sentiu e saiu com 15 minutos.

Entrou João Paulo e o desenho voltou ao losango, com Camilo retornando à função do ano passado. A mesma variação para duas linhas de quatro, com Bruno Silva abrindo à direita e Pimpão voltando pela esquerda.

E aparecendo na área para completar com lindo voleio a cobrança de lateral direta na área paraguaia de Jonas. O mesmo heroi da classificação no Chile. O Olimpia adiantou as linhas e tentou acionar Mouche e Montenegro.

Ao Bota faltava rapidez, agilidade e precisão de Roger no comando de ataque, embora sobrasse fibra ao camisa nove. Ainda assim, superioridade com 54% de posse e seis finalizações contra apenas duas dos visitantes.

Segunda etapa de sufoco, apreensão no estádio lotado e alguns bons contragolpes do time brasileiro, com Guilherme na vaga do também lesionado Bruno Silva. O técnico Pablo Repetto partiu para o jogo físico com o veterano Roque Santa Cruz e acelerou pela direita com Jonathan González. Rondou a área, finalizou seis vezes contra apenas três, terminou com mais posse. Faltou contundência.

Sobra esperança ao Botafogo. Se vale a superstição que marca o clube e seu torcedor, a vitória sofrida é bom presságio para a volta em Assunção.

(Estatísticas: Footstats)

 


Pratto e Borja, dois perfis de centroavante que ainda funcionam
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André Rocha

Lucas Pratto queria jogar e não ser reserva de Fred no Galo, o São Paulo precisava de um centroavante mais qualificado que Chávez e Gilberto e ganhou espaço no orçamento com a venda de David Neres para o Ajax. O Atlético Mineiro também precisava de um alívio na folha salarial. Ótima oportunidade para as três partes.

O Palmeiras tinha dinheiro para investir, mas não um nome para repor Gabriel Jesus à altura e fazer o elenco efetivamente mudar de patamar, já que antes as aquisições apenas compensavam a perda da maior estrela para o Manchester City. Agora tem Miguel Borja, do Atlético Nacional campeão da Libertadores.

O argentino e o colombiano são contratações de impacto no mercado nacional porque são perfis de centroavante que ainda funcionam num cenário em que o jogador fixo entre os zagueiros hoje é mais referência para a defesa adversária do que para o próprio ataque.

Pratto é versátil, sabe recuar para jogar entre as linhas, já atuou como atacante atrás do centroavante em Genoa e Vélez Sarsfield. Tem timing e estatura para o jogo físico e aéreo na área adversária, é bom na pressão no campo adversário, sabe abrir espaços e tem bom passe vertical para infiltração em diagonal dos ponteiros. Características muito úteis para a proposta de jogo de Ceni. Sem contar a liderança e a fibra para cativar uma torcida que anda carente de ídolos além do treinador.

Já Borja tem características parecidas com as de Gabriel Jesus. Sai para os lados, tem velocidade para contragolpes, mas também presença física na área e recursos técnicos como finalizador. Personalidade e contundência em jogos grandes,técnica, agilidade, explosão. Para ajudar, o entrosamento com Guerra. Uma ascensão surpreendente aos 24 anos depois de uma carreira errante, com muitos empréstimos e vindo do Cortuluá para ser decisivo na conquista da Libertadores do Atlético Nacional.

Nos dois casos a tendência é ter encaixe imediato, sem maiores problemas de adaptação. O São Paulo fica mais forte e pode acelerar a assimilação das ideias do técnico para ficar competitivo mais rapidamente. Já o Palmeiras consolida sua condição de favorito à conquista da Libertadores. Tem todas as ferramentas para formar o time mais forte do continente.

Sem garantias, mas com ótimos indícios.

 


Weverton salva Atlético Paranaense de pagar pelo mito do “time cascudo”
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André Rocha

Weverton Millonarios CAP

Como entender que um time com vantagem mínima para o jogo de volta na casa do adversário e mais 2640 metros de altitude em Bogotá, precisando de vigor físico e velocidade nos contragolpes, escale dois veteranos na frente e sofrer durante praticamente todo o jogo?

O Atlético Paranaense até teve bom início, ocupando o campo de ataque, trocando passes e criando oportunidade com os ponteiros do 4-2-3-1 montado por Paulo Autuori: de Nikão para a cabeça de Pablo e grande defesa do goleiro Nicolás Vikonis.

Mas se complicou quando o Millonarios adiantou linhas e passou a forçar pelos flancos com as duplas Palacios e Nuñez pela direita e Machado e Quiñonez do lado oposto, acionados pelo meia Rojas, mais o suporte de Jhon Duque, o autor do belo gol da vitória no tempo normal que igualou tudo nos pênaltis.

O lance vai ficar marcado pelo corte seco no jovem lateral Sidcley antes da finalização. Mas Autuori e sua equipe taticamente pagaram pelo mito do “time cascudo”. A tese de que para jogar Libertadores tem obrigação de ser experiente. Como se fosse outro jogo. Mas continua sendo futebol.

Faltou rapidez na frente com Carlos Alberto e Grafite e força no meio para resistir ao volume da equipe colombiana, com Otávio sobrecarregado pela queda física de Lucho González, de 36 anos, até as entradas de Matheus Rossetto e Felipe Gedoz nas vagas do argentino e de Nikão, que caiu muito de produção depois do bom início. Sacrificado por ser a única referência de velocidade.

O Millonarios teve 61% de posse e 28 finalizações, mas só sete no alvo. Muito por abusar da velocidade da bola na altitude, porém sem direção. Acertou 12 desarmes contra apenas quatro do time brasileiro. O Atlético não teve intensidade para reagir.

Sobrou eficiência nas cobranças de pênalti e, principalmente, competência de Weverton na defesa da cobrança do zagueiro Franco, mais a sorte no chute de Nuñez no travessão. O Atlético segue vivo em busca da fase de grupos da Libertadores, mas sofreu mais que o esperado na Colômbia.

Que sirva de lição para o desafio na terceira fase, contra Universitário do Peru ou o paraguaio Deportivo Capiatá.

Millonarios forte pelos flancos, empurrando o Atlético que não tinha velocidade nos contragolpes com Carlos Alberto e Grafite na frente e Lucho González sobrecarregando Otávio no meio-campo (Tactical Pad).

Millonarios forte pelos flancos, empurrando o Atlético que não tinha velocidade nos contragolpes com Carlos Alberto e Grafite na frente e Lucho González sobrecarregando Otávio no meio-campo (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)