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Não foi só raça! River Plate dá aula monumental de “toco y me voy”
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André Rocha

O Jorge Wilstermann foi inocente no Monumental de Nuñez como os times e seleções bolivianos de quatro ou cinco décadas atrás. Levar o primeiro gol dos históricos 8 a 0 num contragolpe com Scocco pegando escancarada a linha de cinco na defesa comandada pelo brasileiro Alex “Pirulito” Silva beirou o patético.

Pior ainda: trouxe a torcida que já tinha feito uma bela festa na entrada do River Plate ainda mais para o jogo e o que se viu foi um massacre sem precedentes. Porque o gigante argentino teve fibra, sim. Raça. A camisa pesada também conta, mas não foi só isso. O time do treinador Marcelo Gallardo jogou futebol no ritmo certo para construir a virada do dobro do tamanho que precisava.

Já tinha criado ao menos três oportunidades cristalinas, duas com Scocco, na altitude de 2.570 metros em Cochabamba nos 3 a 0 que iludiram a Bolívia e até seu presidente Evo Morales. O River sabia que tinha condições de reverter.

E aí entra a primeira aula dos Millonarios para brasileiro aprender: a “pilha” certa. Com a tensão natural de quem sabia que a obrigação de fazer três gols sem sofrer nenhum em uma partida eliminatória é mais que desconfortável. Mas transformando a adrenalina em fome. Até uma certa raiva, mas não para agredir fisicamente o adversário. Simplesmente mostrar quem é o mais forte.

A segunda, e monumental, foi a avalanche de futebol, com volume de jogo impressionante. Toque fácil, rápido, objetivo. A execução do 3-4-3 como deve ser: alas Fernández e Rojas abrindo o campo, Ponzio e, principalmente, Enzo Pérez empurrando o trio Auzqui-Scocco-Martínez para dentro da área do oponente. Todos se procurando para tabelas, triangulações e infiltrações em diagonal, no “funil”.

Bem diferente do festival de cruzamentos de Atlético Mineiro (43) e Palmeiras (32) nas partidas em casa contra os bolivianos. O River não se desfez da bola. Pelo contrário, deu um espetáculo de “toco y me voy” moderno, com a intensidade do futebol atual. Passa e desloca, passa ou se projeta para dar profundidade às manobras do ataque. Até cruzou muito – 26, com cinco acertos. Mas muitos da linha de fundo para trás, como deve ser.

Depois de três gols de Scocco um tanto aleatórios, o time da casa anotou outros três em jogadas trabalhadas. Trocas de passes verticais até chegar ao fundo e encontrar o companheiro mais bem colocado. Futebol simples, mas que só é viável quando há entendimento do jogo.

Também tempo de trabalho. Gallardo está no clube desde 2014. Venceu a Sul-Americana no ano da estreia e a Libertadores na temporada seguinte. As conquistas rarearam, mas o trabalho prossegue. Há uma linha, um estilo, uma ideia. Que encontrou sua melhor execução numa noite mágica.

A dos cinco gols de Scocco, maior beneficiado pelo futebol fluido e mortal do River Plate que gerou nada menos que 22 finalizações, 12 na direção da meta de Raul Olivares. O atacante marcou quatro gols em toda sua passagem pelo Internacional e superou em um jogo. De virtual eliminado ao grande favorito para alcançar seu quarto título do torneio. Primeiro tem a semifinal argentina contra o Lanús, que mandou para casa, também numa virada, o San Lorenzo campeão em 2014.

No início da competição, oito brasileiros e seis argentinos. Agora só teremos uma decisão entre os grandes rivais do continente, algo que não acontece desde o Corinthians x Boca Juniors de 2012, se o Grêmio superar o Barcelona. Sintomático como os dois titulos desde o fim da sequência de domínio do Brasil.

Que a lição não se resuma aos “cojones”, à questão anímica. O River Plate não foi só isso em Buenos Aires.

(Estatísticas: Footstats)


Botafogo: melhor história da Libertadores desta vez não pecou pela covardia
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André Rocha

O time que parecia fadado ao rebaixamento em 2016 depois de voltar da Série B invadiu o G-6 do Brasileiro, tomou a vaga na fase de grupos da Libertadores dos campeões Colo Colo e Olimpia. Encarou e terminou na liderança de um grupo com mais dois vencedores sul-americanos: Atlético Nacional, o atual, e o tradicional Estudiantes.

Ainda o Barcelona de Guayaquil, semifinalista desta edição após tirar a invencibilidade e eliminar o Santos na Vila Belmiro. Nas oitavas de final, a sina persistiu. O gigante Nacional foi outro a ficar pelo caminho. Duas vitórias que fizeram a torcida acreditar até em título.

Não foi possível. Mas, ainda assim, o Botafogo é a melhor história da edição 2017 da Libertadores – só será superada em caso de título do impressionante Jorge Wilstermann. A equipe de Jair Ventura. Organizada, forte mentalmente, jogando sempre no limite. Sem um grande destaque individual, um craque midiático. O clichê é inevitável: time de operários.

Caiu diante do Grêmio que, na média da temporada, joga o melhor futebol do país. E dentro da arena do favorito, o alvinegro fez sofrer. Obrigou Renato Gaúcho a fazer uma substituição ainda no primeiro tempo, tirando Leonardo Moura inócuo pela direita e colocando Everton para ganhar intensidade na frente.

Também mandar um recado ao oponente: posso estar desorganizado, mas não tenho medo. O mesmo que o Botafogo fez na ida no Estádio Nilton Santos. Com Leo Valencia no lugar de Rodrigo Lindoso deixou mais espaços para o Grêmio controlar o meio-campo com o ótimo Arthur. Deixava, porém, o Grêmio alerta. Na prática, uma formação é sempre uma espécie de carta de intenções. Nela estava escrita que o Botafogo não se acovardaria em nenhum momento.

Porque o medo, ou a cautela excessiva, foi o grande pecado da doída eliminação para o Flamengo na Copa do Brasil. Mesmo descontando tudo que envolvia um clássico estadual valendo vaga num torneio nacional e o abismo de poder de investimento entre os clubes, foi incompreensível a postura diante de um rival que já havia demonstrado insegurança em outros momentos da temporada, especialmente na eliminação na fase de grupos da Libertadores.

A grande chance de vencer seria levar o duelo para o psicológico. Pressionar, acuar. Ainda que fosse em momentos chaves. Jair Ventura preferiu esperar. No Engenho de Dentro e no Maracanã. Aguardou tanto que o imponderável chegou no drible mágico de Berrío e no chute fraco de Diego que venceu Gatito Fernández.

Escaldado, não repetiu a atitude no torneio continental. Mesmo contra uma equipe superior à rubro-negra. A eliminação veio em gol único. Bola parada que é o ponto mais frágil de um sistema defensivo sólido. Mas em nenhum momento houve massacre do time mais forte. Segundo o Footstats, foram 57% de posse gremista e 15 finalizações, um terço no alvo. O Bota, porém, respondeu com 11, quatro na direção da meta de Marcelo Grohe. Barrios foi a diferença.

Mas desta vez não há do que se arrepender. A lamentar, talvez, a falta de contundência no ataque. O chute na trave de Bruno Silva. Podia ter vindo outro “milagre”. Mas Jair Ventura e seus comandados deixaram 100% em campo. Com a coragem dos grandes.

Agora é reunir forças para voltar ao G-6 no Brasileiro para quem sabe reescrever a história. Desta vez mais forte e respeitado. Mais glorioso. Mais Botafogo.

 


Botafogo 0x0 Grêmio: empate no conflito entre o possível e o desejado
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André Rocha

O Botafogo de Jair Ventura sabia que precisava adicionar um pouco de coragem e presença no campo de ataque no Nílton Santos para não repetir o erro da semifinal da Copa do Brasil contra o Flamengo e também pelos desfalques importantes do adversário que aumentavam as chances de vitória para levar vantagem para a volta. Mas também tinha noção de quem um jogo de controle de espaços seria viável pensando nos 180 minutos.

O Grêmio tinha noção de que precisava ter mais cuidados defensivos por não contar com Geromel, Michel e Luan, porém a ideia de ir às redes no Estádio Nilton Santos e encaminhar a classificação era sedutora, até pela proposta de jogo que automatiza movimentos independentemente da escalação. Trabalhar a bola, triangular, deslocar, atacar em bloco.

O resultado foi um conflito entre o possível e o esperado. Uma incerteza que até deu algum tempero à disputa.

Porque o jogo teve mais espaços entre as linhas de marcação, mais “trocação” que o esperado. Jair Ventura trocou Lindoso por Leo Valencia. Manteve a estrutura do 4-3-1-2 desmembrado em duas linhas de quatro sem a bola, porém bloqueando menos a entrada da área e chegando na frente com mais gente. O problema, novamente, foi a falta de criatividade e da eficiência nas conclusões – apenas cinco, nenhuma na direção da meta de Marcelo Grohe. Apesar da entrega de sempre de Rodrigo Pimpão e Roger.

O Grêmio com Bressan na zaga, Jailson à frente da defesa e Leonardo Moura, aos 39 anos, como meia central. No entanto, quem dominou o meio-campo foi Arthur. Marcando, jogando, apoiando e aparecendo sempre livre. O melhor em campo, embora Fernandinho também tenha desequilibrado o sistema defensivo do oponente com dribles e velocidade. Protagonistas de um domínio com 54% de posse e 11 finalizações, quatro no alvo. Consequentemente fazendo de Gatito Fernández mais uma vez o grande destaque da equipe carioca.

Faltou o básico, mas previsível pelo contexto: mais qualidade para a jogada diferente e a finalização precisa. Empate sem gols que inverte a lógica, ou a restabelece para os 90 minutos finais em Porto Alegre: Grêmio provavelmente completo e se instalando no campo do Botafogo, que vai fazer seu jogo de compactação, concentração absoluta e transições em velocidade em busca do golpe letal.

Um cenário mais confortável para os dois, mas que também trará mais armadilhas e menos tempo de recuperação. Nenhuma certeza, só a esperança de mais futebol por uma vaga na semifinal da Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Força no mata-mata não torna Grêmio superior ao Corinthians
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André Rocha

A prioridade que as equipes têm dado à competição nacional e às internacionais de mata-mata vem induzindo à conclusão de que o Grêmio, por estar nas quartas de final da Libertadores e na semifinal da Copa do Brasil, além de ocupar a segunda colocação do Brasileiro, seria a melhor equipe do país.

Se o parâmetro fosse o futebol praticado, uma análise subjetiva baseada na preferência pessoal, seria até aceitável, embora ainda discutível. Afinal, o time de Renato Gaúcho tem um estilo envolvente e postura ofensiva. Agrada as retinas, de fato. Mas considerar apenas os resultados, atribuindo pesos aos campeonatos e concluindo que a média das campanhas é superior, gera algumas distorções.

O Grêmio enfrentou um grupo na Libertadores mais que acessível, com o Guarani paraguaio, Deportes Iquique e Zamora. Teve uma única derrota por 2 a 1 para o Iquique na desértica Calama, com arbitragem questionável, e chegou a poupar titulares no empate com o Guarani fora de casa priorizando o estadual que não conquistou. Mas ao menos viu o Internacional não alcançar o heptacampeonato ao ser derrotado nos pênaltis pelo Novo Hamburgo, o algoz tricolor na semifinal.

Nas oitavas do torneio continental, superou o Godoy Cruz, argentino que aproveitou a carona da campanha do Atlético Mineiro, a melhor da fase anterior, para alcançar a vaga. Duas vitórias apertadas, com susto em Porto Alegre pelo gol sofrido logo no início. Ou seja, cumpriu sua obrigação de favorito absoluto.

Na Copa do Brasil, classificação automática para as oitavas de final e atuações consistentes com 100% de aproveitamento contra Fluminense e Atlético Paranaense. Mas, convenhamos, o time de garotos de Abel Braga e a irregular equipe rubro-negra que só agora consegue uma sequência de boas atuações sob o comando de Fabiano Soares não representaram grandes desafios para o time de Renato Gaúcho a ponto de alçá-lo à condição de melhor equipe do país.

Nem a vitória em casa por 1 a 0 sobre o Cruzeiro na semifinal. Resultado que nada garante para a volta no Mineirão, apesar do favoritismo natural diante do time de Mano Menezes que não consegue inspirar confiança na temporada.

No duelo que colocou de fato o seu poder à prova, o Grêmio falhou. Foi derrotado e controlado dentro de sua arena pelo Corinthians. Líder absoluto do Brasileiro, campeão do estadual mais forte do país. Ainda vivo na Sul-Americana. O porém foi a eliminação precoce na Copa do Brasil. Sem derrotas em 180 minutos e revés nos pênaltis. Para o Internacional, que mesmo em um ano infernal de Série B, também não foi derrotado pelo arquirrival – empate em 2 a 2 no único confronto, pela primeira fase do Gaúcho.

O time paulista, porém, mostra consistência em toda a temporada. Porque apesar do desprezo dos que clamam pela volta do mata-mata até no Brasileiro, é na liga por pontos corridos que o mais forte se impõe. Pela regularidade, sem pagar por uma noite ruim ou apenas infeliz numa disputa de pênaltis.

Aproveitamento de 82,5%, melhor campanha em um turno na fórmula atual com 20 clubes. Invicto. Melhor mandante, superando inclusive o próprio Grêmio na décima rodada. Com gol de Jadson, cobrança de pênalti de Luan que Cássio defendeu. Grande atuação do time de Fabio Carille, especialmente no primeiro tempo, com destaque para Paulo Roberto, substituto do volante Gabriel. Triunfo do melhor jogo coletivo do país.

Emblemático para marcar a distância entre as mais fortes equipes do Brasil em 2017. Hoje o Corinthians está à frente.

 

 


Foco, tempo e até desespero devem nortear segundo turno do Brasileirão
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André Rocha

O Corinthians está com o Brasileiro nas mãos. Até aqui, pelo menos, é aquele caso em que tudo conspira a favor. Inclusive a pausa entre um turno e outro para recuperar e treinar a equipe por conta da viagem da Chapecoense. Com Grêmio, Santos e Flamengo envolvidos em outras competições e Palmeiras na ressaca da eliminação da Libertadores com 14 pontos atrás que podem virar 17, o atual líder disparado pode até se planejar para buscar também o título da Sul-Americana.

Competição que ainda envolve outros cinco brasileiros. Com dois confrontos nacionais  – Sport x Ponte Preta e Flamengo x Chapecoense – que podem reduzir a quarto para as quartas de final. Mesmo número de times na disputa das semifinais da Copa do Brasil. Um a mais que nas quartas da Libertadores.

Dez times dividindo atenções, outros dez disputando somente o Brasileiro. Com apenas quatro rodadas de dezenove no meio da semana. Parece claro que o foco e o tempo para treinar têm grandes chances de fazer a diferença e até superar o nível técnico e tático das equipes.

Sem contar o desespero. Aquele que, pela dificuldade na tabela, torna o adversário difícil de ser batido. Sim, a fuga do Z-4. Que parece ter o Atlético-GO condenado, mas ainda matematicamente vivo, dependendo de uma arrancada que hoje soa improvável. Um olhar mais atento à tabela, porém, revela que o Fluminense, disputando a Sul-Americana, está apenas cinco pontos à frente da Chapecoense, 17ª colocada e com um jogo a menos.

Qualquer vacilo será fatal. É onde mora a esperança são-paulina. Mesmo com todos os equívocos e com a equipe oscilando até psicologicamente, há qualidade, especialmente de Hernanes desequilibrando nas últimas vitórias, e agora tempo para se preparar. O que Dorival Júnior mais precisava. E nada mais para distrair. Uma sequência de bons resultados e pode até sobrar uma vaga na Sul-Americana.

A disputa pelas seis primeiras colocações ganha novos postulantes, como os Atléticos, mineiro e paranaense. Os únicos junto com o Palmeiras entre os onze primeiros com foco absoluto na Série A. Uma vantagem considerável em meio a tanto equilíbrio, com exceção do Corinthians.

A Primeira Liga não deu certo pelo servilismo dos clubes à CBF e agora se encontra soterrada pelos demais torneios. Para muitos será um engodo, um problema de logística. Hoje soa como um prêmio de consolação, uma taça para não deixar 2017 de mãos abanando. Vale menos que o estadual.

O maior desafio, sem dúvida, é o do Botafogo. Com elenco não tão robusto, um clássico carioca no torneio nacional e um duelo brasileiro na Libertadores contra o Grêmio, uma das melhores equipes do país. A um ponto do G-6, que seria a garantia de volta ao torneio continental independentemente do desempenho no mata-mata. Mas a seis da zona de rebaixamento, o que exige um certo cuidado.

Neste cenário, o returno reserva alguns jogos que serão esvaziados pela utilização de reservas e outros que podem ganhar contornos épicos, com times até com tempo para se preparar, mas tão envolvidos emocionalmente que não resistirão ao maldito “jogo para ganhar e não para jogar”. Valendo a vida. Para quem gosta de emoção e não torce o nariz para a fórmula de pontos corridos será um prato cheio.

Se nos dois extremos da tabela os destinos de Corinthians e Atlético-GO parecem selados, todo o resto carrega suas dúvidas e um contexto construído jogo a jogo. Dependente de outras competições, que agora contemplam toda temporada. Vejamos o que o novo calendário reservará à nossa liga neste primeiro ano.


Palmeiras perde 45 minutos e o ano com a essência do estilo de Cuca
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André Rocha

Mina lutou e chorou com a lesão que o tirou do jogo, Dudu tentou tudo e não resistiu fisicamente, Moisés entrou, fez golaço, sentiu e acertou sua cobrança na decisão por pênaltis no sacrifício. Não faltou entrega. Nem de Bruno Henrique e Egídio, os que erraram suas penalidades. O equívoco maior foi anterior.

Nos primeiros 45 minutos no Allianz Parque, o Palmeiras mostrou a essência do estilo de Cuca: intensidade máxima, marcação no campo de ataque, pressa para resolver as jogadas e muitos cruzamentos com bola parada e rolando. Várias alçadas desde a intermediária. Apenas quatro finalizações, nenhuma no alvo.

Porque não havia ninguém para pensar o jogo na execução do 4-2-3-1 montado. Thiago Santos protegendo a defesa, Bruno Henrique se mandando e Dudu se juntando a Roger Guedes, Deyverson e Keno. Ninguém parava a bola, mudava o ritmo. Pensava. O Palmeiras só sentia.

Não basta e Moisés deixou isso bem claro no segundo tempo. Os passes longos de um meio-campista surpreenderam o Barcelona de Guayaquil, que parecia preparado apenas para enfrentar o que o Palmeiras apresentou antes do intervalo.

O time equatoriano, bem montado no 4-4-2 e atacando pelos flancos com Ayovi e Caicedo, acabou traído pelo próprio desempenho pífio do adversário. No escanteio a favor, se lançou ao ataque sem maiores cuidados e permitiu o contragolpe letal que, é óbvio, teve muitos méritos de Moisés, que foi arco e flecha, completando a assistência de Dudu.

Até o fim, o jogo foi aleatório, no modo “briga de rua”. Bolas nas traves de lado a lado, furada de Damian Díaz, o apagado meia argentino que praticamente atrasou para Jailson na única cobrança desperdiçada pelo Barcelona. Ainda assim, volta para Guayaquil com a vaga.

Porque o  que se convencionou chamar de “Cucabol” saiu derrotado, mas até quando vence faz menos do que pode. A vitória e a taça iludem, mas é triste ver um elenco que pode buscar um futebol mais bem jogado se reduzir a um estilo mais condizente com um repertório limitado. Nem sempre vai dar certo. Ou só vai funcionar eventualmente.

Não há consistência, porque a ligação direta e o cruzamento a esmo oferecem, na melhor hipótese para quem arrisca, 50% de chances para ataque e defesa. As perseguições individuais na marcação cansam os jogadores e desorganizam o próprio time. É um jeito anacrônico e contraproducente. Por isso as críticas pouco compreendidas no momento de alta.

Agora é fácil apontar os problemas. Inclusive para quem incensava, debochava das críticas e tratava como perseguição pura e simples. Pautado apenas pelos resultados. Uma hora a verdade se escancara. Os 45 minutos iniciais do Palmeiras são pedagógicos. Tempo jogado fora. Ano perdido.

Que fique a lição. Inclusive para Cuca, que pode aproveitar o momento para rever seus conceitos. As derrotas fazem crescer,  basta ter vontade e humildade para aprender.

(Estatisticas: Footstats)


Afastamento de Felipe Melo é mais um produto dos desencontros no Palmeiras
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André Rocha

Foto: Cesar Greco/Ag. Palmeiras

Felipe Melo não foi relacionado no grupo que vai concentrar para o jogo contra o Avaí no Allianz Parque. Este é o fato em meio a rumores de desentendimentos entre o volante e o treinador Cuca.

Felipe foi contratado em janeiro para ser uma liderança e também uma espécie de interlocutor e escudo diante da mídia para o trabalho do jovem Eduardo Baptista, cercado de desconfianças desde a apresentação. Aparentemente, o projeto era mudar a forma do Palmeiras jogar. Mais posse de bola, marcação por zona, controle dos jogos.

Com desempenho e resultados que não agradaram no Paulista e na fase de grupos da Libertadores, Baptista não resistiu. Se houvesse convicção lá atrás de que os princípios de jogo deviam ser preservados, bastaria contratar um profissional com perfil parecido.

Mas se a sombra de Cuca, que pediu para sair depois de ser aclamado pelo título brasileiro que o clube não conquistava há 22 anos, já era forte durante seu afastamento, ficou ainda maior quando se colocou à disposição para retornar. A torcida ansiava pela volta do “messias” e qualquer outro treinador seria esmagado da mesma forma.

Cuca voltou e com ele o estilo particularíssimo, de intensidade e marcação por encaixe e perseguições individuais. Para executá-la, prefere atletas mais rápidos, com vigor físico para marcar correndo. De preferência, que não questione as ordens e apenas as cumpra.

Felipe Melo não tem o perfil. Gosta de futebol, sabe como se atua nos grandes centros. Joga posicionado, fechando espaços. Aos 34 anos, conhece os atalhos. Além disso, tem personalidade forte e é articulado para expressar qualquer descontentamento. A lesão na coxa e a fratura na mão apenas adiaram o problema de ter um jogador contratado como estrela, mas descartado pelo velho/novo treinador por uma nítida incompatibilidade de estilos.

Agora, com o Palmeiras eliminado da Copa do Brasil, vendo as chances de título brasileiro cada vez mais remotas e com a tensão no nível máximo para o jogo da volta das oitavas de final da Libertadores contra o Barcelona de Guayaquil em São Paulo com obrigação de vitória, o descompasso virou um problema ainda maior. Felipe Melo não deve entender muito bem por que uma marcação que não vem funcionando é preservada e, por isso, ele seguirá fora dos planos. Até do banco de reservas.

Felipe Melo disputou apenas cinco partidas pelo Brasileiro e ainda pode disputá-lo por outra equipe da Série A. O alto salário é o obstáculo para quem não tem tanto poder de investimento.

Mais um problema para o Palmeiras em uma temporada conturbada, que foi pensada para construir uma hegemonia. Fruto dos desencontros de um departamento de futebol que parecia caminhar em uma direção e, hesitante, desviou a rota e retornou ao que considerava mais seguro. Mas no futebol não há certezas e o que resta em 2017 é um enorme ponto de interrogação. Como será o amanhã?


Botafogo x Flamengo: caminhos opostos que se cruzam na semifinal nacional
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André Rocha

Um time que, ao menos em tese, pode tudo no futebol brasileiro. Mas que parece não fazer muita questão, ou não saber muito bem como chegar ao topo. Outro que constrói suas vitórias e só tem chance de ir longe exatamente por querer muito.

O Flamengo do elenco milionário, ainda que não possa escalar as contratações mais recentes na Copa do Brasil. O Botafogo dos recursos limitados, perdendo peças e se virando com o que tem. Os rubro-negros que venceram o Carioca e estão fora da Libertadores. Alvinegros que pelejaram no torneio continental desde as fases preliminares e, por isso, foram obrigados a priorizá-lo, deixando o estadual um pouco de lado.

A equipe de Jair Ventura achou no gol de Joel Carli logo aos quatro minutos de jogo no Nilton Santos a solução para não ser obrigado a propor o jogo e fugir da maneira de atuar com a qual se sente mais confortável. Início com intensidade, marcação no campo de ataque e apoio da torcida para sair na frente o mais rápido possível.

Deu certo. Ainda mais contra um Atlético Mineiro exposto, que adiantou as linhas, teve 62% de posse e efetuou 34 cruzamentos. Mas de 11 finalizações apenas duas foram na direção da meta de Jefferson. Já o Botafogo teve 22 desarmes corretos contra apenas oito do oponente e acertou quatro finalizações no alvo, num total de dez.

Assim construiu os 3 a 0 com gols de Roger e Gilson, um em cada tempo, já perto do final para não dar chances de reação ao adversário. Até quando vai às redes o time parece fazer na hora certa, sabendo o que quer.

O Flamengo também deu essa impressão, ao abrir o placar cedo na Vila Belmiro com o gol de Berrío completando belo passe de Diego – mais um que ele encaixa com precisão em contragolpe, com espaço. Mas, ao contrário de Jair Ventura, Zè Ricardo não consegue compensar coletivamente as limitações de seus comandados.

Ou dos que escolhe, como a inexplicável opção pelo retorno de Alex Muralha no gol, deixando Thiago no banco. Como se os 2 a 0 da Arena da Ilha não fossem reversíveis. Ou a Copa do Brasil, já nas quartas de final, fosse um torneio menos importante para um time que está 12 pontos atrás do líder Corinthians no Brasileiro.

Mesmo fazendo o segundo gol com Guerreiro no início da segunda etapa, após sofrer o empate com Bruno Henrique e ter corrido o risco de levar a virada no pênalti assinalado por Leandro Vuaden e depois invalidado com a ajuda do quarto árbitro, que observou que Rever tocou na bola na disputa com Bruno Henrique, o Flamengo conseguiu se complicar.

Porque a reunião de elos fracos sempre pode comprometer, ou ao menos complicar. Rafael Vaz vacilou e cedeu escanteio bobo, empate com Copete. Márcio Araújo perdeu duas disputas na proteção da retaguarda, a bola sobrou para Victor Ferraz marcar 3 a 2 e fazer a remontada parecer possível no modo “briga de rua” do time de Levir Culpi. Jogo aberto com 29 finalizações – 16 do Santos e 13 do Fla.

A noite na Vila Belmiro só não foi histórica para o alvinegro praiano pelo cansaço de quem sempre teve que subir a ladeira na partida e porque o gol de Copete, em nova hesitação de Muralha, saiu no último minuto dos quatro de acréscimo. No 39º cruzamento na área do time carioca, que perdeu força nos contragolpes com a entrada de mais um elo fraco: Gabriel. Com Mancuello e Vinicius Júnior no banco. A vaga veio mesmo no gol “qualificado”. Ou por não ter sido vazado no Rio de Janeiro. Com Thiago na meta.

Mesmo classificado, o Flamengo novamente deixou o campo num jogo eliminatório exalando fragilidade, sem transmitir a mínima confiança. O que os argentinos chamam de “pecho frio”. Exatamente o contrário do “cascudo” Botafogo. De Jefferson que voltou com autoridade à meta, de Matheus Fernandes, 19 anos com a serenidade de um veterano no meio-campo. Do Roger da bela história de vida com Giulia, sua filha deficiente visual. Do incansável Pimpão.

De uma força mental que parece inabalável no mata-mata. Na semifinal da Copa do Brasil e com classificação encaminhada para as quartas da Libertadores. Subindo e descendo no Brasileiro, mas com campanha digna, na disputa do G-6. Sem recursos generosos, sem holofotes. Mas com aquilo que é difícil definir e, na falta de um nome, chamam de alma.

O que o Flamengo vai precisar tirar de onde até agora não se viu para chegar à sua sétima final de Copa do Brasil. Porque, até pela rivalidade fortalecida recentemente nos bastidores, o Botafogo vai deixar tudo em campo nas duas partidas. E não é pouco.

Os caminhos opostos vão se cruzar no clássico carioca que vale vaga numa decisão nacional. No papel há um favorito. No espírito, outro. Como balanços e relatórios de finanças não entram em campo, o Bota hoje parece mais forte.

(Estatísticas: Footstats)


Sai Roger, entra Rogério no Galo. Segue o conflito conceitos x resultadismo
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André Rocha

Foto: Bruno Cantini/CAM

Roger Machado foi demitido pela direção do Atlético Mineiro depois de uma derrota para o Bahia por 2 a 0 no Independência em que teve, segundo o Footstats, 66% de posse de bola, finalizou 23 vezes e teve a combinação infeliz de uma noite nada eficiente de seu artilheiro Fred e a atuação fantástica do goleiro adversário, Jean.

Entrega a equipe com o título mineiro, melhor campanha da fase de grupos da Libertadores e ainda vivo na Copa do Brasil, com vantagem para o confronto da volta, fora de casa, diante do Botafogo. Em 43 jogos, foram 23 vitórias, nove empates e 11 derrotas, com 60% de aproveitamento. O argumento mais forte para a dispensa, porém, foi o baixo aproveitamento dentro do Horto no Brasileiro: quatro derrotas em oito partidas. Preocupante pela necessidade de vitória em Belo Horizonte sobre o Jorge Wilstermann para seguir vivo no torneio continental.

Roger chegou ao Atlético credenciado pelo bom trabalho no Grêmio, construído em 2015 e que enfrentou problemas em 2016. Não por acaso, quando a responsabilidade aumentou e o tempo para treinamentos diminuiu. Antes sucedeu Felipão em uma terra arrasada e perspectiva de apenas lutar contra o rebaixamento. Mudou de patamar e ganhou mais competições para disputar.

E então veio o conflito que vai sufocando os novos treinadores que estão substituindo as velhas grifes no mercado: estudam, adquirem os conceitos, mas contam com uma pré-temporada ainda curta (já foi menor), cobrança por resultados desde os estaduais e ficam sem condições de colocar em prática o que encontram como condição de sucesso em qualquer conteúdo sério sobre o jogo – a repetição em treinamentos para que os jogadores assimilem.

Impossível no calendário de jogos a cada três dias. Ninguém treina, nem recupera. E então o treinador contratado por seu conteúdo e suas novas ideias, neste momento da temporada, precisa ser um mero gestor de vestiário e motivador. No máximo um estrategista para montar seu time jogo a jogo em cima das características dos adversários.

Filosofia? Modelo de jogo?  Isso devia ter sido trabalhado lá atrás, no início do ano. Mas lá também era obrigatório vencer. Roger teve a ilusão de que teria paz e respaldo depois de uma conquista em cima do maior rival e de cumprir a obrigação na Libertadores em um torneio fraco. No país do resultadismo combinado com o imediatismo? Sem chance.

É óbvio que o trabalho não pode ser considerado bom. Roger foi mais um, assim como Paulo Autuori e Diego Aguirre, a penar por querer coordenar e alternar os ritmos no “Galo Doido” que a torcida tanto ama. Quer intensidade máxima no Horto para sufocar o adversário. E dane-se se os treinadores que conseguiram aplicar isso viram seu time perder força ao longo da temporada e não saber controlar jogos que pediam outra postura. Está no imaginário popular.

Roger até cedeu, tirando um pouco a bola do chão. Na última partida foram 53 cruzamentos. Dez a menos que na derrota em casa para o Atlético Paranaense. A necessidade de garantir os três pontos exige soluções mais simples. Aquele arroz com ovo frito para matar a fome. O que incomoda é que nunca aparece o momento para buscar algo mais sofisticado. Não há convicção que resista.

Porque no futebol brasileiro ainda vigora a ideia de que o treinador tem que fazer o simples: fechar a casinha e deixar que os talentos decidam na frente. Fabio Carille se impõe no Corinthians seguindo a linha de Tite, com seus toques pessoais. Trabalhando num time base em que a maioria conhece os conceitos e já havia trabalhado com o treinador da seleção brasileira.

O vice-líder do Brasileiro é o Grêmio. De Renato Gaúcho, que chegou com seu carisma de maior ídolo do clube e contou com a ajuda de Valdir Espinoza e de uma comissão técnica qualificada, inclusive no departamento de análise de desempenho, para saber ouvir, fazer o polimento, ajustar o que estava errado e manter o que existia de bom. Exatamente o legado de Roger construído lá atrás.

O que ele não soube fazer em Minas Gerais e perdeu o emprego. Mas automaticamente vira sombra de qualquer treinador pressionado na Série A, embora tenha afirmado que não trabalha no Brasil em 2017.

Foto: Jornal O Tempo

Chega Rogério Micale no Galo. Campeão olímpico com a seleção, mas contestado e dispensado pela CBF por conta do fracasso com a sub-20 que não conseguiu classificação para o Mundial da categoria via Sul-Americano. Primeira experiência no futebol profissional em time de Série A. Perfil parecido com o de Roger, com a desvantagem junto a jogadores e imprensa mineira por não ter sido boleiro. Tem o crédito, porém, de já ter trabalhado nas divisões de base do clube. É homem de confiança de André Figueiredo, superintendente de futebol.

Entra direto na roda viva de jogos decisivos sem tempo para treinamentos. Se for pragmático, resgata a intensidade com marcação alta e um estilo mais vertical – ainda que os veteranos do ataque sejam um obstáculo para qualquer ideia mais agressiva e de jogo físico. Mas vai precisar de resultados. Imediatos, claro.

Pode ser mais um a se perder entre conceitos e as cobranças insanas num calendário sem respiro para quem está envolvido em três competições. Sem treinamentos não há novas ideias, apenas mais do mesmo. Precisando vencer para ontem. Eis o paradoxo dos novos comandantes do futebol brasileiro.


“O problema é quando se tem a bola” – Futebol atual é jogo de espaços
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André Rocha

A frase entre aspas do título deste post é de um treinador campeão brasileiro, cujo nome não será revelado para não criar qualquer estigma ou rótulo. Até porque havia um contexto dentro da entrevista. Mas a ideia era clara.

Ter a posse de bola é aumentar a probabilidade de errar e dar chances ao adversário. Na saída de bola, com zagueiros que não foram ensinados a iniciar a construção das jogadas e acabaram na posição pela estatura e vigor físico. Em um centro futebolístico que predomina financeiramente no continente, mas não conta com excelência técnica na maioria das posições e funções.

No qual a torcida não tem paciência para jogadas trabalhadas, vaia bola recuada para o goleiro com a proposta de criar espaços e, na ansiedade e imediatismo típicos da nossa cultura, exige que a ação ofensiva seja finalizada o quanto antes.

Por isso a bola de segurança pelos lados. Porque se há a perda, o contragolpe do oponente não se inicia em uma zona perigosa. O ataque só passa pelo centro para virar o lado saindo da pressão ou procurando um pivô, mas já no último terço do campo. Muitos cruzamentos, com bola parada ou rolando. A margem de erro é menor.

Como cobrar mais de treinadores trocados a cada três meses, ameaçados a cada três derrotas? Responsabilizados por problemas técnicos de seus atletas desde a base e sem tempo para treiná-los com jogos a cada três dias? Neste cenário pragmático é melhor mesmo não ter a bola e esperar o vacilo do outro lado.

A vitória do Botafogo sobre o Nacional uruguaio no Parque Central foi simbólica. Porque a equipe da casa, que também se sente mais confortável jogando em transições velozes, precisava trabalhar as ações ofensivas para infiltrar, construir o resultado para administrar na partida de volta.

Encontrou, porém, uma equipe brasileira novamente bem coordenada defensivamente, com concentração e entrega. Também sorte, já que no toque de Victor Luís na própria área com o braço muito aberto, em lance duvidoso para as novas recomendações da FIFA, a arbitragem não se deixou levar pelo mando de campo. Sem contar a falha grotesca do zagueiro Emerson Silva que Silveira não aproveitou à frente de Gatito Fernández. O erro quando teve a bola.

No contragolpe, inversão de Pimpão para Bruno Silva e bola na rede com o toque meio sem querer de João Paulo, meia que deixou Camilo no banco pelo maior poder de marcação e dinâmica mais alinhada à proposta do treinador Jair Ventura. Triunfo com 40% de posse e oito finalizações, quatro no alvo. Contra 17 do Nacional, mas só duas na direção da meta de Gatito. Sem ideias, os uruguaios efetuaram 41 cruzamentos. O Bota cometeu 26 faltas contra 14 e acertou 17 desarmes, o Nacional só 12. Espírito de competição.

O resultado facilita o trabalho para a volta no Estádio Nílton Santos. Porque o Botafogo, mesmo em casa e provavelmente com a torcida apoiando, deve manter sua ideia pragmática de jogo. O questionamento inevitável é: como será quando a equipe precisar sair para o jogo por necessidade? As derrotas para Barcelona de Guayaquil e Avaí no Rio de Janeiro entregam respostas preocupantes.

Jogar como “azarão” é mais simples. O discurso motivacional do treinador vai na linha do “Davi x Golias”, os comandados entram mais concentrados e nenhuma pressão. Há espaços para atacar e menor cobrança sobre o erro.

Não só no Brasil. Nos grandes centros a lógica é a mesma. Com Leicester City e Chelsea vencendo as últimas edições da Premier League sem dar muita importância para a posse de bola. O Barcelona eliminado na Liga dos Campeões por Atlético de Madri e Juventus e ainda levando 4 a 0 do PSG. Os rivais sempre jogando a isca: “Me ataque, fique com a bola e te golpeio em seus pontos fracos”. Pep Guardiola no Manchester City também sofreu e vai tentando aprender e se adequar à dinâmica do futebol jogado na Inglaterra.

Na final da Liga Europa, José Mourinho armou seu Manchester United para aproveitar os espaços deixados pelo Ajax com seu ataque posicional típico do futebol holandês. Marcação encaixada, bote no zagueiro colombiano Davinson Sánchez, elo fraco nos passes, e contragolpe rápido. Força no jogo aéreo e mais uma taça continental para o treinador português.

O mundo é do Real Madrid comandado por Zidane porque é um time talentoso e inteligente. Sabe jogar com a bola pela qualidade individual que possui. Por ser um gigante, em 90% das partidas na temporada entra como favorito e precisa se arriscar. Mas faz por necessidade, não filosofia ou convicção. E se abre o placar o jogo reativo volta a ser a ideia principal. Assim como a Juventus, finalista derrotada na Champions, é um time “camaleão”, que muda de acordo com o que se apresenta. Para isso precisa de jogadores completos, inclusive na leitura de jogo. Saber acelerar e cadenciar, dosar a intensidade.

Não por acaso o predomínio recente de Cristiano Ronaldo sobre Messi nas premiações individuais. Consequência das conquistas coletivas. O português é mais prático, simples e vertical. Decide com um toque. Para brilhar, o argentino precisa construir em um Barcelona cada vez mais mapeado e estudado. Missão complicada.

Porque quem trata a posse como obsessão ou filosofia, dentro ou fora de casa e independentemente do contexto está sendo obrigado a mudar. No futebol tão estudado de hoje, a equipe abre mão do fator surpresa. Instala-se no campo de ataque, gira a bola em busca de espaços e os cede atrás, por consequência. Cabe ao rival negar as brechas para infiltrações, com o cada vez mais utilizado sistema com cinco homens na última linha de defesa, e explorar os pontos falhos, que sempre existem.

Na costumeira variação do 4-3-1-2 para duas linhas de quatro bem compactas, o Botafogo venceu em Montevidéu. Mais uma vez sem fazer questão da posse. No futebol, ela cada vez mais vai perdendo sua importância. A referência é o espaço. O “jogar sem bola” aproxima das vitórias.  Paradoxal, não?

E a frase do técnico, que soou absurda há alguns anos, mostra-se visionária. Mas qual será o impacto no futuro do esporte? Felizmente ele é cíclico, por isso tão apaixonante. Logo virá uma resposta. Tomara…

(Estatísticas: Footstats)