Blog do André Rocha

Arquivo : Libertadores

As lições para o Vasco e todos nós da noite de “San Martín” em Sucre
Comentários Comente

André Rocha

Este que escreve é o primeiro a tirar um aprendizado, de uma vez por todas, da incrível virada do Jorge Wilstermann sobre o Vasco no confronto que só não terminou em tragédia para o time brasileiro porque Martín Silva garantiu nos pênaltis.

Com o jogo mais intenso e dinâmico de hoje, sem as muitas bolas recuadas para os goleiros segurarem com as mãos e retardarem o jogo e a reposição muito mais rápida por termos bolas em várias partes do campo, é possível reverter praticamente qualquer placar. Portanto, não convém bancar a classificação na ida, como o blogueiro fez aqui e no seu último comentário sobre os 4 a 0 em São Januário na semana passada pelo Placar Uol.

Tantos outros fizeram o mesmo. Porque o futebol e a vida ensinam e a gente se faz de bobo.

A maior virtude do time boliviano teve pouco a ver com questões técnicas e táticas. Foi acreditar. Ainda que em algo que sempre será questionável como essa vantagem de 2.800 metros que a Conmebol ainda aceita para fazer política e tentar forçar um equilíbrio que normalmente não existe.

Mas nada dessa epopeia teria acontecido se o Vasco não entrasse em campo para uma decisão na Libertadores tão desconcentrado. Como se fosse obrigado a aguentar um desconforto para respirar por pouco mais de 90 minutos para cumprir uma simples formalidade.

Quando acordou estava 3 a 0 em 20 minutos. Três assistências do brasileiro Serginho, sempre pelo lado de Pikachu mal assessorado por Wagner no setor. Ele também daria o passe para o quarto.

Agora é fácil dizer…mas se não havia nenhum compromisso no Brasil por que não viajar para a Bolívia na quinta, logo após o primeiro jogo? Ainda que houvesse os custos de hospedagem, deslocamento, além da turbulência política no país que dificultaria toda a logística, seria o planejamento correto para um disputa tão importante. Será que dimensionamos bem a relevância do torneio mais importante do continente?

O jovem Vasco sentiu o baque, reagiu e podia ter evitado o drama. Mas também podia ter levado o golpe final quando, já com 4 a 0 contra, Thiago Galhardo foi expulso por uma tolice inominável. Outra vez o brasileiro atrapalhando o time com seu despreparo emocional. Tudo quase ruiu no incrível gol perdido por Alex “Pirulito” Silva no último ataque.

Seria uma pancada dura, quase uma pá de cal, na carreira do promissor Zé Ricardo. Depois da eliminação traumática no ano passado com o Flamengo, o vexame colaria no treinador o rótulo de perdedor. Injusto e precoce. Mas se o rubro-negro tinha Muralha, o Vasco contava com Martín Silva.

Em noite de “San Martín”, um dos Libertadores da América do Sul, o goleiro uruguaio tirou o Vasco de uma cilada criada por si mesmo. Três defesas para colocar o time cruzmaltino onde parecia já estar há uma semana: no grupo 5 com Cruzeiro, Racing e Universidad de Chile. Como “zebra”, mas talvez seja melhor assim.

Porque ainda não entendemos muito bem que favoritismo não é garantia no esporte mais imprevisível e caótico. Nos apaixonamos por isto, mas não aprendemos. Que fiquem as lições.


O Vasco organizado para ataque e contra-ataque vai cumprindo sua missão
Comentários Comente

André Rocha

Nos últimos tempos os times brasileiros vêm aprimorando e atualizando o trabalho defensivo compactando setores, fechando espaços com a participação de todos, fazendo laterais se posicionarem primeiro como defensores e outras ações sem a bola.

O problema é que a parte ofensiva na maioria das vezes fica entregue à intuição dos jogadores, sem muito jogo associativo e mentalidade focada no coletivo para o individual desequilibrar. Por isso as muitas bolas levantadas na área adversária e poucas tabelas e infiltrações.

O Vasco de Zé Ricardo vem conseguindo as duas coisas nas etapas preliminares da Libertadores. A despeito da fragilidade dos adversários, o time se posiciona para atacar de forma coordenada, pelos dois lados do campo e aproveitando o melhor de cada jogador.

Nos 4 a 0 sobre o Jorge Wilstermann em São Januário com clima de duelo continental, o time cruzmaltino de início abriu os laterais Yago Pikachu e Henrique para espaçar a marcação do oponente. Também movimentou Wagner, Evander e Paulinho, o trio de meias do 4-2-3-1, buscando os espaços entre os setores do 5-4-1 do time boliviano e Andrés Rios fazendo o pivô e abrindo espaços. Posse de bola, inversão do lado da jogada e pressão logo após a perda da bola.

Futebol atual. Ainda que com alguma dificuldade na saída de bola com Paulão no lugar do suspenso Erazo. O zagueiro, porém, compensou com a costumeira presença de área para abrir o placar. Depois um erro na tática de impedimento comandada por Alex “Pirulito” Silva terminou no gol de Paulinho para acabar de descomplicar o primeiro tempo.

Segunda etapa com o treinador Roberto Mosquera desmanchando a linha de cinco e mandando a campo os atacantes Chávez e Álvarez para se juntarem ao brasileiro Lucas Gaúcho. Mas em um “abafa” sem muita organização e qualidade para furar a defesa bem protegida por Desábato e com Ricardo Graça na zaga cada vez mais seguro.

Zé Ricardo colocou Riascos, Rildo e Thiago Galhardo para acelerar os contragolpes e matou o jogo no final com Pikachu mais que readaptado à lateral direita e Rildo. 4 a 0 para deixar a vaga mais que encaminhada. Em Sucre, o Jorge Wilstermann terá pouco mais que os 2.800 metros de altitude para buscar um milagre.

Improvável. O Vasco vai ganhando encaixe, não tem o Carioca para atrapalhar e é difícil imaginar um time de Zé Ricardo desconcentrado a ponto de facilitar tanto. O Vasco vai cumprindo a missão de chegar à fase de grupos, algo que parecia complicado pelo momento político do clube, mas em campo se resolve com organização. Para atacar e contra-atacar. Como deve ser.


O que Vasco e São Paulo ganham e perdem com a transferência de Nenê
Comentários Comente

André Rocha

Quatro minutos no Morumbi. Nenê arranca pela esquerda, chega antes na bola e é derrubado na área do Bragantino. Cobrança precisa de pênalti e vitória do São Paulo no Paulista em mais uma atuação inconsistente. Muito pela nova formação que ainda busca um ajuste com duas peças novas – Diego Souza também entrou no quarteto ofensivo fazendo companhia a Marcos Guilherme e Cueva.

O encaixe e a combinação de características são complicadas para Dorival Júnior. Também porque Nenê não entrega intensidade por muito tempo nas partidas. É importante pelo talento, a personalidade para definir jogos, a liderança e a precisão nas bolas paradas. Mas para ser titular e ainda atuando pelo lado, no caso o esquerdo, fica difícil para o camisa sete de 36 anos.

O Vasco não contava em perder sua referência técnica, fundamental em jogos que ajudaram a colocar o Vasco na Libertadores, ainda que nas etapas anteriores à fase de grupos. Eficiência em faltas, escanteios e penalidades máximas.

Mas Zé Ricardo vai encontrando aos poucos no elenco após as muitas baixas algumas soluções para tornar a equipe competitiva. Além do mais que promissor Ricardo Graça herdando a vaga na defesa de Anderson Martins e o volante argentino Desábato melhorando o passe na saída de bola em relação a Jean, Evander entrou muito bem na execução do 4-2-3-1 cruzmaltino.

Talvez a equipe sinta falta de um jogador no meio-campo para variar o ritmo – embora Wagner venha cumprindo essa função como um ponta armador preferencialmente pela direita. Mas o novo camisa dez entrega mais dinâmica, participação sem a bola muitas vezes alinhado a Wellington à frente de Desábato e eficiência nas finalizações. É meia que pisa na área adversária.

Mesmo considerando a fragilidade da Universidad de Concepción no primeiro desafio na Libertadores e a eliminação na Taça Guanabara em meio ao caos político e as saídas dos jogadores, a impressão que fica é de que com calma e tempo para trabalhar Zé Ricardo terá condições de entregar um Vasco competitivo. Ainda que possa faltar um Nenê.

Paradoxalmente, o São Paulo que agora tem o meia, uma solução individual,  recebe no “kit” também um problema coletivo. Perdas e ganhos de um futebol complexo, sem receita de bolo.


Só os 100% garantem a paz de Roger Machado no Palmeiras?
Comentários Comente

André Rocha

O Palmeiras precisou de oito minutos de pressão e alta intensidade no Allianz Parque para marcar os gols de Antônio Carlos, aos três do primeiro tempo, e Borja aos cinco do segundo, que garantiram a vitória por 2 a 1 sobre o Santos no primeiro clássico do time em 2018. Aos sete da primeira etapa ainda carimbou a trave de Vanderlei na cobrança de falta de Lucas Lima em sua primeira partida contra o ex-clube.

Mas depois o time de Roger Machado abdicou um pouco do seu jogo, permitindo que o Santos tivesse a bola – terminou com 52% de posse, segundo o Footstats –  e ocupasse o campo de ataque. Mesmo finalizando dez vezes contra sete do rival, a postura cautelosa parece muito focada no resultado, que tinha sua importância, mas neste início de temporada não deve ser tratado como prioridade.

Mais valia seguir exercitando a saída de bola com Felipe Melo, o grande destaque individual neste início de trabalho, se juntando aos zagueiros Antônio Carlos e Thiago Martins e liberando os laterais Marcos Rocha e Victor Luís. Ou a troca de Lucas Lima e Tche Tche, com o meia recuando para qualificar o passe e o volante se aproximando do trio de ataque para acelerar as ações no último terço do campo.

Só que Roger sabe que precisa dos resultados para ganhar confiança. O time necessita, mas ele principalmente. “Se as coisas não acontecerem serei cobrado”, disse na coletiva depois do jogo. Escaldado pelo que aconteceu com Eduardo Baptista, ainda que agora não tenha uma sombra do tamanho da de Cuca, que esmagou seu sucessor/antecessor em 2017.

Precisa ser assim sempre? Por mais que time grande, ainda mais com tamanho investimento, viva de vitórias, será que é tão fundamental assim jogar por resultado na quinta partida do ano? Só os 100% garantem a paz do treinador para trabalhar?

Em março de 2015, o Santos venceu o Palmeiras pelos mesmos 2 a 1. Quem lembra deste primeiro clássico, ou mesmo da conquista do Paulista pelo alvinegro praiano nos pênaltis se na final mais importante, a da Copa do Brasil, o alviverde foi o campeão superando o rival? O mesmo vale para a semifinal do estadual em 2016. O Santos levou, mas o palmeirense não vai tratar como um fracasso no ano em que voltou a ser campeão brasileiro depois de 22 anos.

Será que vale dar ouvidos à histeria imediatista de torcedor e parte da imprensa sacrificando a oportunidade de exercitar o modelo de jogo que busca o protagonismo durante os noventa minutos e fazer experiências no estadual em nome dos três pontos que nem eram tão fundamentais assim, já que mesmo com derrota o time seguiria líder do Grupo C?

Impossível não lembrar de Dunga em sua segunda passagem pela CBF em 2014 como treinador. Vitórias em amistosos tratados como verdadeiras finais para “resgatar a imagem do futebol brasileiro” depois dos 7 a 1. De que valeu se no início da disputa das eliminatórias e nas edições da Copa América sua equipe fracassou em desempenho e resultados, fazendo a seleção brasileira perder dois anos de trabalho que podem custar caro a Tite na Rússia?

O próprio Roger teve experiência amarga no Atlético Mineiro. Campeão mineiro, melhor time da primeira fase da Libertadores. O treinador falou em “respaldo para trabalhar”. Mas bastou um começo hesitante no Brasileiro emendado com o vacilo contra o Jorge Wilstermann nas oitavas da Libertadores para vir a demissão. De que serviu o bom primeiro semestre se no dia 20 de julho estava desempregado?

O Palmeiras não precisa estar pronto agora. Pode dar mais minutos para Willian, Borja e Dudu afinarem a sintonia, com o camisa sete agora mais articulador acionando os dois companheiros finalizadores. E quando os ponteiros buscam a diagonal, Tche Tche aparece no espaço para buscar o fundo do campo, alternando com os laterais. Movimentos que precisam ganhar naturalidade até a estreia na Libertadores.

Sem essa urgência insana por vitórias. Quem vai lembrar no final do ano que o time era o único 100% da Série A nos cinco primeiros jogos da temporada se a equipe não for bem nas competições mais importantes?

Não é querer ser “parnasiano”, “romântico” ou “moderninho” por “desprezar” o resultado. Muito menos desrespeitar a história de um dos clássicos mais tradicionais do nosso futebol. Só uma questão de lógica. Estadual é sequência de pré-temporada. A evolução pensando no futuro vale mais que os pontos ganhos hoje. Ou deveria valer.

 


Vasco vence na volta à Libertadores com a marca de Zé Ricardo: foco no jogo
Comentários Comente

André Rocha

Em meio à toda turbulência política do Vasco flertando com o caos neste início de 2018, Zé Ricardo só falou grosso quando chegou ao absurdo de não saber a quem se reportar no departamento de futebol.

Porque o foco do treinador é sempre o campo, o jogo. Discreto, até pacato, evita polêmicas ou reclamações que possam ser tratadas como “bengala”. Como o desgaste das viagens seguidas que prejudicou o desempenho do Flamengo na reta final do Brasileiro de 2016 em sua primeira experiência no comando de um time profissional. Para ele, falar de cansaço podia condicionar seus atletas e os adversários ou mesmo criar um “álibi” para os resultados ruins. Diminuir a concentração, um dos lemas de Zé Ricardo.

Por isso agora evitou protestar contra as baixas no elenco e valorizou os que ficaram, procurando manter a estrutura tática e o modelo de jogo. Organização e rapidez nas transições ofensivas e defensivas.

Priorizou a montagem do time e manteve o grupo mobilizado. Eis o maior mérito na vitória vascaína no retorno à Libertadores depois de cinco anos. Zé Ricardo mandou a campo um time eficiente que fez um duelo que parecia complicado e corria o risco de virar drama se transformar em goleada por 4 a 0 sobre a Universidad de Concepción.

Facilitada pelo gol logo aos dois minutos em bela combinação iniciada por Andrés Rios, passando por Wellington, o toque de calcanhar de Paulinho e a finalização precisa de Evander, o substituto de Nenê na execução do 4-2-3-1 com mais rapidez e intensidade.

Virtudes do novo camisa dez no segundo gol após o chute do goleiro Cristián Muñoz que pegou na mão de Ríos e sobrou para o jovem meia acertar chute de longe. No último ataque do primeiro tempo, a chance de consagração desperdiçada em belo contragolpe finalizado por Paulinho, mas Evander perdeu livre no rebote.

Foram cinco finalizações para cada lado, mas o Vasco chutou três no alvo contra nenhuma do time do jovem treinador Francisco Bozán que só foi perigoso nas descidas do lateral esquerdo De La Fuente para cima de Yago Pikachu – meia no ano passado que precisou voltar à lateral com as negociações de Gilberto com o Fluminense e Madson para o Grêmio.

O camisa dois sofreu um pouco atrás, mas estava bem posicionado para aproveitar mais uma falha de Muñoz e matar o jogo. Ainda houve tempo para outro contra-ataque letal que Rildo mandou para as redes. O ponteiro entrou com Thiago Galhardo e Riascos nas vagas de Wagner, Evander e Rios aumentando a velocidade nas saídas para o ataque.

O Concepción não pode reclamar da sorte, pois finalizou 13 vezes, mas nenhuma no alvo. Foi um time lento e insistindo demais em cruzamentos. Santiago Silva e Droguett pecaram nos momentos em que um gol poderia trazer o time mandante de volta para o jogo. Mas o Vasco não deu chance.

Chances para mais gols não faltaram, mas a melhor estreia cruzmaltina em Libertadores praticamente garante a classificação para a última etapa antes da fase de grupos. Triunfo com a marca de Zé Ricardo na primeira vitória fora de casa da carreira do treinador no principal torneio da América do Sul.

Pensando só em futebol, o Vasco subverteu tudo no Chile.

(Estatísticas: Conmebol)


Pressionar qualquer time brasileiro agora é covardia. Cenário é dramático!
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Marcello Zambrana/AGIF

O ano virou com a constatação de que nossos times estavam atualizando seus conceitos no trabalho defensivo. Sem a bola vemos compactação, coordenação dos setores, concentração e preocupação em negar espaços ao adversário. Algo já ficando parecido com o que se vê pela TV nos grandes campeonatos do mundo.

Mas é nítido que falta organização para atacar. Tudo ainda fica entregue à intuição e ao talento. Vemos pouco jogo associativo, deslocamentos para dar opção ao companheiro, ultrapassagens apenas para atrair a marcação. Trabalho coletivo, fundamental exatamente para criar espaços em retaguardas sólidas e bem fechadas.

Começa 2018 com suas não mais que duas semanas de pré-temporada e já temos times pressionados. Por torcida, imprensa, dirigentes… Ainda que a maioria dos adversários nos estaduais não joguem a Série A do Brasileiro e muitos sequer tenham divisão para disputar no segundo semestre, os treinadores também têm acesso às informações para qualificar o trabalho sem a bola. Aproximar setores ou mesmo estacionar um ônibus na frente da própria área.

Em 15, 20 dias de treinos e jogos não foi possível resolver os problemas de 2017. Ainda mais para quem trocou de treinador e mudou a base titular. Logo, o sofrimento para abrir defesas está lá. Muitas vezes em gramados ruins, com o calor do verão, etc.

É covardia cobrar demais agora. Não é passar pano ou blindar. Apenas ser razoável. Qualidade com regularidade neste início é utopia. Quem conseguir agora tem que se preocupar, porque pode faltar nos momentos mais importantes. Ainda que se trate como relevante a reta final dos estaduais.

Agora é o momento de testar, oscilar. Errar. Pedir a cabeça de Dorival Júnior no São Paulo pela estreia com derrota utilizando reservas no Paulista contra o São Bento só porque o time flertou com o Z-4 em 2017 e não ganha um título desde 2012 beira a insanidade. Ganhar do Novorizontino no Morumbi virou obrigação. Com o empate sem gols, vaias e mais cobranças. Dorival já sinaliza uma mudança no planejamento. Como questionar alguém que já se sente ameaçado em um ambiente já conturbado por conflitos políticos e outras particularidades?

O mesmo vale para todos os clubes, uns mais e outros nem tanto. Palmeiras, Flamengo e Internacional começaram com duas vitórias. Cada um com seu contexto. Mas também não estão isentos das mazelas de um calendário inchado, irresponsável. Inclusive podem pagar mais à frente pelo sucesso inicial. Porque não há tempo.

É obrigação vencer o pequeno. No clássico não pode perder. No Brasileiro todo jogo é importante. Libertadores é prioridade, Copa do Brasil é mata-mata, tiro curto, tem que dar tudo. Por mais que se alegue que na elite do futebol do país os salários estão muito acima da média do trabalhador comum e que muitos dariam a vida para ter como ofício algo tão prazeroso como jogar bola, a exigência é desproporcional. Massacrante.

Com o problema para criar espaços tudo fica ainda mais complexo. Então tome cruzamentos, na bola parada ou com ela rolando (ou voando)! Resultadismo para atender o imediatismo e seguir empregado, poder sair na rua, viver em paz.

Muitos dirão “quem não quer pressão que vá trabalhar em outra coisa”. Não estão de todo errados, é o ônus de tantas vantagens e privilégios. O que se questiona é a pouca inteligência de não entender os processos, exigir soluções mágicas e duradouras. Vencer sempre. Sem trégua. Se não atender, troca. E troca até “dar certo”.

Sem tempo não há trabalho, entrosamento e o produto final que pode resolver essa carência de ideias quando se está com a bola. A pressão por mudanças é o veneno tratado como remédio. Treinadores e jogadores não precisam de salvo conduto, cabide de emprego ou estabilidade de serviço público. Só de um pouco de paz. Sem gente histérica perseguindo, com ou sem microfone – ou teclado do computador ou celular com acesso às redes sociais.

O cenário já é dramático no final de janeiro! Pelo visto, serão mais onze meses no mesmo dilema.


Ronaldinho: cabeça de artista esmagada pelo pragmatismo do futebol
Comentários Comente

André Rocha

Ronaldinho, então apenas Ronaldo, chamou atenção deste blogueiro no Mundial Sub-17 em 1997. Talento, habilidade, aquela fagulha dos gênios. Confirmada mais nos dribles sobre Dunga no Grenal do que no golaço sobre uma Venezuela já entregue na Copa América em 1999. Aos 19 anos.

Saída polêmica e explosão do talento que ganhou força no Paris Saint-Germain. Coadjuvante de luxo no título mundial em 2002 e a fase de ouro no Barcelona. Sempre com sorriso no rosto, samba no pé além da magia quando uma bola se aproximava. Parecia viver num mundo de sonho, proporcionado por sua genialidade e viabilizada pelo irmão Assis, que cuidava das coisas práticas enquanto ele vivia o sonho.

Esta história tem seu momento chave em 2006. A questão no primeiro semestre deste ano era: até onde Ronaldinho Gaúcho pode chegar? Se vencesse a Copa do Mundo na Alemanha como protagonista de um Brasil estelar e favorito como nunca ao título seria bicampeão. Aos 26 anos. Para muitos, subiria ao topo do Olimpo com Pelé, Maradona e outros poucos.

Todos os olhos voltados para ele. Bicampeão espanhol e dando ao Barcelona a sua segunda Liga dos Campeões. O auge em um clube. Mas mal pôde comemorar. Sua alma de artista não teve como respirar de uma enorme pressão. Ele precisava de férias. Mais para a mente do que para o corpo. Como um cantor depois de gravar um disco genial ou cumprir uma turnê consagradora.

Ronaldinho partiu para Weggis. E para seu azar – talvez achasse sorte na época – o clima não era de concentração, mas de permissividade. O diagnóstico errado de que com tantos talentos reunidos e depois de vencer tanto bastava entrar em campo e cumprir o protocolo para levar o hexa.

Não foi. E ao notar as dificuldades, perceber que não tinha corpo nem mente para o tamanho do desafio ele viveu uma depressão. No campo. Sem reação. Com alguns espasmos, porque o futebol transbordava pelos pés. Parou na França. De um Zidane focado, adiando jogo a jogo o fim de sua carreira. Depois de uma temporada sem títulos e grande desgaste. O oposto.

Ali algo se quebrou. O gênio que havia chegado tão longe ao ver Cannavaro receber a Bola de Ouro percebeu que teria que escalar a montanha de novo. E aí faltou a disciplina, o foco na carreira para seguir adiante. Deixou de ser atleta, virou jogador.

Ainda com talento para ter momentos brilhantes em Milan, Flamengo e Atlético Mineiro, este em especial com o último título relevante: a Libertadores 2013. Nem tanto no Fluminense e no Querétaro. Porque o Pep Guardiola que o descartou no Barcelona em 2008 levou o futebol para um caminho de intensidade e espírito competitivo que empurrou Ronaldinho para fora do cenário no mais alto nível. Ele era de outro tempo.

Bons tempos, muitos dirão. Mas tudo passa. O Gaúcho passou e agora se despede oficialmente. Deixando mágica por onde caminhou. A cabeça de artista foi esmagada pelo pragmatismo do futebol. Mas paradoxalmente o esporte ficou marcado por ele. Dois prêmios de melhor do mundo e inspiração para Lionel Messi, um dos grandes da história.

Maior que Ronaldinho por encarar o esporte como trabalho, com a disciplina exigida. O mundo disse que o R10 tinha que ser o maior. Ele só queria ser feliz. Que seja agora, mais longe do nosso imediatismo e de nossas exigências muitas vezes descabidas. Só um superhomem para suportar o moedor de carne, cérebro e alma.

Ronaldinho desistiu em 2006. Uma pena. Ou sorte dele. Vai saber…


O que será do Vasco? Ou é para tudo se acabar na quarta-feira?
Comentários Comente

André Rocha

A gestão Eurico Miranda no Vasco termina oficialmente na terça-feira, dia 16. A já “lendária” urna sete da eleição foi desconsiderada pela Justiça e Julio Brant, se nada mudar até lá, deve assumir a presidência.

A grande questão é como será o 2018 do Vasco a partir da sucessão. O empresário Carlos Leite é aliado do “clã” Miranda e vai tirando jogadores importantes do clube. Primeiro Anderson Martins para o São Paulo, depois Madson para o Grêmio. Jovens como Mateus Vital, Guilherme Costa, Paulo Vítor e Paulinho podem seguir o mesmo caminho. Se surgirem propostas a tendência é que  não fiquem.

No âmbito administrativo há outras complicações, com informações de retiradas de equipamentos de São Januário, corte de fornecimento de energia elétrica e outros danos ao patrimônio do clube. Sem contar os salários atrasados. Clima de fim de festa, com um nítido descaso de quem sai.

Mais uma vez, os interesses do Vasco e dos cruzmaltinos ficam de lado pela guerra política. Estranho amor este, condicionado ao poder. O que sobrará para Zé Ricardo trabalhar? A pré-temporada, já curta, fica comprometida mesmo que Brant e a nova diretoria consigam reposições, como já fechou com Erazo, emprestado pelo Atlético Mineiro, sonha com um projeto midiático para Samuel Eto’o e se aproxima de Deco, ex-jogador e agora empresário.

No último dia de janeiro já tem jogo decisivo no Chile contra o Universidad de Concepción. Com o Vasco de volta à Libertadores depois de seis anos. Os que estão de saída parecem não se importar tanto assim.

Eurico Miranda se vai, ou deve ir. Mas deixa enorme desafio para Julio Brant: é preciso evitar uma nova gestão desastrosa do futebol para garantir sua viabilidade. Sua existência. Ou é para tudo se acabar na quarta-feira?


Carpegiani no Flamengo em 2018 é aposta maior que em 1981
Comentários Comente

André Rocha

Ao desembarcar no Rio de Janeiro, Reinaldo Rueda disse que foram irresponsáveis e precipitados os que divulgaram a negociação em curso com a federação do Chile. Para horas depois confirmar a saída do Flamengo para comandar a seleção campeã das últimas Copas América.

Se esperou demais pela resposta do treinador colombiano, ao menos o clube agiu rápido e anunciou seu substituto: Paulo César Carpegiani.

68 anos, vindo de um trabalho até interessante no Bahia, embora tenha assumido a equipe na 14º e entregado na 12ª no Brasileiro. Mas nem esta passagem, nem a também curta pelo Coritiba em 2016/17, ambas com a missão de livrar as equipes do rebaixamento, são parâmetros para a sua nova empreitada.

Os motivos são óbvios: visibilidade tão grande quanto as cobranças e maior capacidade de investimento. Mas principalmente a obrigação de jogar como protagonista, no campo de ataque e com posse de bola. Por mais que Coxa e o tricolor baiano tivessem uma proposta ofensiva em muitos momentos, não é o mesmo que carregar a responsabilidade de se impor.

A passagem vitoriosa em 1981/1982 serve ainda menos como referência. Estreante na nova função com apenas 32 anos, comandando aqueles que tinham sido seus companheiros de treinos, jogos e concentrações poucos meses antes. Sucedendo Dino Sani para resgatar os conceitos e a maneira de jogar consagrada por Cláudio Coutinho. A única mudança significativa foi a escalação de Lico montando uma equipe móvel e de toque curto liderada por Zico e com conceitos avançados para a época: sem pontas de ofício, com os laterais Leandro e Júnior liberados para apoiar ao mesmo tempo e um centroavante, Nunes, que não ficava fixo na área e abria espaços para os companheiros que chegavam de trás.

Time que em maio de 1982 “unificou” os títulos, algo só alcançado pelo Santos de Pelé vinte anos antes. Era o último campeão estadual, brasileiro, sul-americano e mundial. Todas as conquistas com Carpegiani. Mas era outro esporte se comparado com o atual. Mais lento, menos intenso e dinâmico.

A segunda passagem, em 2000, foi polêmica pela demissão inexplicável de Carlinhos, campeão estadual e da Copa Mercosul no ano anterior e querido por todos na Gávea. Os jogadores não derrubaram Carpegiani, mas sentiam falta do antigo comandante e, mesmo com o investimento da ISL, um 5 a 1 aplicado pelo Vasco na rodada final da Taça Guanabara com show de Romário num domingo de Páscoa resultou em demissão e fez voltar Carlinhos, que seria bicampeão carioca.

Alguns bons trabalhos, como no Cerro Porteño que o credenciou a comandar a seleção paraguaia na Copa de 1998. Mas também a fama de “Professor Pardal” por improvisações mal sucedidas. Participou da campanha do rebaixamento do Corinthians em 2007. Último título em 2009, o estadual pelo Vitória. Com as transformações recentes no esporte, ainda que no Brasil elas aconteçam de forma bem mais vagarosa, não há como vislumbrar a linha de trabalho do velho/novo treinador rubro-negro.

Carpegiani aprecia jogadores versáteis e exige mobilidade e agilidade na frente. Mas seus times costumam render aproveitando o espaço cedido pelo adversário e não criando brechas para infiltração. Assim foi na execução do 4-1-4-1/4-2-3-1 no Bahia. Ou seja, o mesmo problema dos tempos de Zé Ricardo que Rueda não conseguiu encontrar uma solução.

Sua vantagem em relação à maioria de seus contemporâneos é ser mais antenado com a dinâmica do futebol atual. No Flamengo, o risco de ser tratado com desdém pela lógica boleira de “ganhou o quê?” é menor por ter sido o comandante nas conquistas mais importantes do clube. Foi companheiro no meio-campo e depois treinador de Zico. Certamente terá a aprovação e críticas mais brandas dos ídolos daquela geração, sempre chamados a opinar sobre os rumos do futebol.

Ainda assim, hoje é uma aposta maior do que era há quase 37 anos. Naquele período, sua missão era dar continuidade ao que funcionava. Agora é transformar o jogo burocrático, sem ideias, em algo criativo e moderno. O Flamengo precisava de ruptura, uma guinada de 180 graus na visão de futebol. Na urgência resolveu olhar para o passado, o mais glorioso de sua história.

Uma incógnita do tamanho da missão de Carpegiani.

 


O que o Cruzeiro ganha e perde com Fred
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Divulgação/Cruzeiro

A melhor versão da seleção brasileira com Mano Menezes foi sem um atacante na referência. Neymar abrindo espaços para Hulk, Kaká e Oscar. Fred foi preterido e agradeceu aos céus quando o treinador foi demitido e Luiz Felipe Scolari assumiu em 2013. Criticou publicamente o ex-comandante do escrete canarinho. Para terminar em quarto lugar na Copa do Mundo no Brasil no ano seguinte. Com Fred titular nos 7 a 1. A última partida dele com a camisa verde e amarela.

Se a polêmica que nasceu com o anúncio do retorno do centroavante ao clube depois de 13 anos para ser comandado por Mano Menezes já foi encerrada pelos dois em entrevistas, a questão no campo segue gerando dúvidas.

Porque o Cruzeiro ganha, mas também perde com a presença de Fred no ataque. Na temporada 2017, os melhores momentos do time celeste foram sem um típico camisa nove na frente. Na conquista da Copa do Brasil com Sóbis ou Raniel na reta final depois da saída de Ramón Ábila; no Brasileiro usando a dupla Thiago Neves-De Arrascaeta alternando no centro do ataque, mas com mobilidade, trocando com os ponteiros Rafinha, Alisson e Elber, além de Robinho, mais articulador.

Mano diz que seu time criava, mas não era contundente. No Brasileiro, a equipe mineira marcou 47 gols em 38 rodadas, foi apenas o 10º ataque mais efetivo. O artilheiro foi Thiago Neves com 11 gols em 33 partidas. Um a menos que Fred em 30. Atacante que precisou de menos que cinco tentativas para ir às redes. O Cruzeiro terminou com 11, a quinta pior equipe na relação gols/finalizações. Mesmo sendo o segundo colocado no total de conclusões, só atrás do Flamengo.

Portanto, na principal competição nacional, com números mais consistentes em 38 rodadas, mesmo considerando que o time priorizou a Copa do Brasil e teve um relaxamento natural depois do título, a necessidade de contratar um atacante mais definidor ficou clara. No popular, o time foi “arame liso”: cercava, porém não feria os rivais.

Mas a questão central é: a equipe vai seguir criando e tendo fluência ofensiva com um camisa nove mais fixo? Porque Fred será referência do ataque, mas também para a defesa adversária. Tem 34 anos e a mobilidade nunca foi sua maior virtude.

Mano sabe bem disso e já sinalizou a mudança no estilo de sua equipe: “Muitas vezes no ano passado, o Cruzeiro precisou de um jogador mais de movimentação porque precisa construir a jogada. Então, se nós contratamos um jogador que é um 9, vamos ter que construir a jogada diferente para esse jogador”, explicou o treinador na coletiva da reapresentação do elenco.

Mais do que nunca, futebol é um jogo de espaços. As equipes atuam em não mais que 25 metros. O atacante precisa se mexer para abrir brechas na retaguarda do oponente e dar opção para receber e finalizar com o time no ataque. Também necessita de velocidade para receber às costas da defesa em contragolpes. O Cruzeiro de Mano gosta de se fechar compacto guardando a própria área, com os ponteiros bastante recuados. Quando a bola é roubada e o adversário pressiona, a rapidez do jogador mais adiantado é fundamental.

Basta notar a dinâmica das referências da função nos principais clubes: Suárez, Cristiano Ronaldo, Cavani, Lewandowski, Diego Costa, Lukaku, Morata, Aguero, Gabriel Jesus, Roberto Firmino…Todos finalizadores, mas que chamam lançamentos. Assim como Jô, campeão e artilheiro no Corinthians. Também participativos com e sem a bola.

Não dá mais para contar com um centroavante que seja o responsável apenas pelo último toque. A tendência é que ele faça o time travar ou, no mínimo, ser mais previsível, principalmente nos jogos grandes. Os pontas e meias trabalham para ele finalizar, sem grandes variações. Até porque os companheiros muitas vezes se acomodam com a presença de alguém que assume a responsabilidade pelos gols. O Cruzeiro, assim como aconteceu com o Atlético Mineiro nas duas últimas temporadas, pode perder em dinâmica e trabalho coletivo. Mesmo com Bruno Silva e David, em tese, acrescentando força e rapidez ao setor ofensivo.

Mas ganha, além de um grande artilheiro, um rosto, uma liderança. O jogador midiático, o procurado para entrevistas depois dos jogos. O personagem que pode chamar o foco para si e poupar um companheiro menos calejado para suportar críticas. Com vivência em Libertadores. Para a gestão de vestiário é importante.

Obviamente se a sintonia com Mano seguir afinada como nas entrevistas antes de começar a rotina desgastante física e mentalmente na temporada. Fred deve ficar no banco ou até de fora em alguns jogos para administrar o fôlego e não estourar os músculos. Como será o diálogo como o treinador de personalidade forte para definir a dosagem? A conferir.

A parceria pode dar certo, é claro. Motivado, em paz e com uma equipe bem ajustada, Fred tem condições de ainda ser bem útil no futebol brasileiro. Mas o Cruzeiro de Mano terá que lidar com as perdas e ganhos dessa mudança importante em seu ataque para 2018.

(Estatísticas: Footstats)