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Quebrar a saída “Lavolpiana” do Lanús pode ser atalho para o Grêmio
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André Rocha

Jorge Almirón, treinador do Lanús, foi jogador do Atlas comandado pelo compatriota Ricardo La Volpe, campeão mundial como jogador em 1978,  de 1997 a 2000.  Os argentinos fizeram história no México com um time que não ganhou títulos, mas ficou na lembrança por ser uma equipe jovem e de futebol vistoso.

La Volpe chamou mesmo atenção do mundo em 2006, comandando a seleção mexicana na Copa realizada na Alemanha. Bola no chão e uma maneira de sair da defesa com dois zagueiros bem abertos e Rafa Márquez centralizado iniciando a construção do jogo. Rafa que jogou com Almirón no Atlas de La Volpe.

A intenção é ter um jogador de passe qualificado para fazer a equipe jogar desde a defesa e se instalar no campo adversário através de trocas de passes. Normalmente com os laterais adiantados e abrindo o campo, os meios-campistas voltando para auxiliar na articulação e os atacantes mais próximos para se movimentar e abrir espaços.

Movimento que chamou atenção de Guardiola, encerrando a carreira no mesmo país, atuando sob o comando de Juan Manuel Lillo no modesto Dorados de Sinaloa e, lesionado, fazendo uma espécie de estágio com o treinador que até hoje trata como mestre. Também aprendeu, ou aprimorou, e levou para seu Barcelona lendário a saída de bola que ficou conhecida como “Lavolpiana”.

Almirón também tem esse trabalho coletivo como base para o modelo de jogo do time que começa a decidir a Libertadores contra o Grêmio em Porto Alegre. É a equipe que mais troca passes na Libertadores, com cerca de 91% de aproveitamento no fundamento.

Na execução do 4-3-3 básico, que se converte naturalmente em 4-1-4-1 sem a bola, a saída é feita com os zagueiros Guerreño e Braghieri abrindo para o volante Marcone, melhor passador do torneio e um dos grandes destaques individuais do “Granate”, retornar entre eles para iniciar o jogo.

O trio do Lanús na saída de bola, com o volante Marcone recuando e os zagueiros Guerreño e Braghieri abrindo e dando opções de passe (Reprodução Fox Sports)

Inspirado no que Guardiola fez no Bayern de Munique com Lahm e Alaba e agora realiza no Manchester City com Walker e Delph, os laterais Gómez e Velázquez podem atacar bem abertos para esgarçar a marcação adversária ou por dentro, criando superioridade numérica no meio, e os pontas Silva e Acosta abrindo o campo.

Toda essa dinâmica complexa, desenvolvida desde 2015 por Almirón, constroi um volume de jogo sufocante para o oponente. Uma vez ocupado o campo de ataque é difícil sair, pois é uma equipe entrosada, que joga “de memória” e inicia a pressão assim que perde a bola. Dentro ou fora de casa.

Por isso um dos atalhos possíveis para o Grêmio em sua Arena é exatamente evitar que esse passe saia “limpo” de trás. Quebrar essa saída. Com Luan, Barrios e até Fernandinho pressionando o trio da saída de bola. Especialmente sobre Marcone, que é o elemento facilitador.

Além de dificultar a construção do jogo, o contragolpe costuma ser letal porque pega o adversário um tanto descoordenado, com os zagueiros espaçados e sem defender a própria área, laterais e meio-campistas mais adiantados. A transição defensiva é o grande complicador deste processo se há um erro, desarme ou interceptação do rival. No caso do Lanús pode ser ainda mais danoso, já que em boa parte das ações o goleiro Andrada se adianta para participar como uma espécie de “desafogo”.

Com Luan, Barrios e Fernandinho o Grêmio pode pressionar e complicar a saída “Lavolpiana” do Lanús e iniciar um contragolpe letal, com o adversário desarrumado (Tactical Pad).

Assim o Chile perdeu a Copa das Confederações para a Alemanha este ano. Pressão no volante Marcelo Díaz, que estava no meio dos dois zagueiros, bola roubada por Werner e gol de Stindl. O único da decisão. O Lanús enfrentou problemas com pressão do adversário no próprio campo contra a Chapecoense na fase de grupos. Bola roubada, saída rápida pela esquerda e o gol de cabeça de Wellington Paulista na vitória da equipe catarinense por 2 a 1, em Lanús. Contra o San Lorenzo na derrota por 2 a 0 no jogo de ida, o lateral Gómez quis sair jogando numa situação de pressão, perdeu a bola e cometeu pênalti convertido por Blandi no segundo gol.

Por mais personalidade e poder de recuperação que tenha demonstrado o Lanús até aqui, é uma final continental. Inédita para o clube de bairro da zona sul de Buenos Aires. O componente emocional deve ter forte influência e o Grêmio pode se aproveitar com intensidade e pressão, desde a saída de bola. “Lavolpiana” com Almirón, mas não perfeita. Uma bola roubada pode decidir a Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)

 


A lição do Grêmio em Guayaquil: toda hora é hora para atacar
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André Rocha

Virou clichê no futebol mundial, com exceção das grandes potências europeias que atacam em qualquer campo, a máxima de que os 15 ou 20 primeiros minutos como visitante são para suportar a pressão inicial do time da casa com apoio da sua torcida.

Só que o cenário provoca tensão também no mandante, pela necessidade de alcançar um resultado positivo pensando na volta. E o Barcelona entrou apavorado no Monumental de Guayaquil. Pelo retrospecto ruim como mandante na Libertadores, pela ausência do artilheiro Jonatan Álvez, substituído por Ariel Nahuelpan. Principalmente pela consciência que encarava o adversário mais forte com que cruzou no torneio.

O Grêmio praticamente completo, apenas com Jailson no meio-campo na vaga de Michel, sem ritmo de competição após longa inatividade e começando no banco. Com Luan passeando entre as linhas do espaçado time equatoriano e Arthur alternando os ritmos no meio-campo.

Mas principalmente sem esperar ou pedir licença para atacar, mesmo longe de Porto Alegre numa semifinal de Libertadores. Aos sete, o gol de Luan com Cortez descendo pela esquerda; Ramiro, Lucas Barrios e Fernandinho na área e o camisa sete chegando para tirar do alcance do goleiro Máximo Banguera.

Arqueiro que armou mal a barreira e se posicionou ainda pior na cobrança de falta de Edilson, 13  minutos depois. Aos 20 minutos, o Grêmio vencia por 2 a 0. Depois abdicou um pouco do jogo, preferiu controlar espaços e levou alguns sustos, não aproveitados pelo “pecho frio” meia argentino Damian Díaz e um Barcelona apressado e sem confiança. Ainda assim, o time anfitrião teve 66% de posse e oito finalizações, o dobro da equipe brasileira. Mas apenas duas no alvo, uma a menos que os gremistas, mais precisos.

Cirúrgicos na defesa de Marcelo Grohe aos cinco minutos da segunda etapa em chute de Ariel. Uma das mais espetaculares que este que escreve viu em mais de três décadas acompanhando futebol. Na volta, transição rápida e mais um de Luan, o melhor em campo. Com a equipe descendo em bloco, com Edilson cruzando rasteiro para trás e três companheiros na área. De novo não escolhendo o melhor momento para chegar à frente.

Os 3 a 0 derrubaram animicamente o Barcelona. O time de Renato Gaúcho botou a bola no chão, entraram Leonardo Moura, Michel e Cícero para renovar o fôlego e a chance de ampliar foi palpável. Finalizou cinco vezes no segundo tempo contra as mesmas oito do adversário no primeiro tempo, porém com oportunidades mais cristalinas.

Nem foi preciso. Só uma tragédia sem precedentes tira o Grêmio da decisão sul-americana após dez anos. Porque se no Equador não escolheu momento para atacar, em casa a vocação ofensiva será colocada em campo ainda mais naturalmente.

Fica a lição para o futebol brasileiro: menos “pilha” errada e medo longe de seus domínios, mais bola no chão e autoridade para impor a superioridade técnica. Sem temor nem escolha da hora para atacar. Toda hora é hora. Como deve ser.

(Estatísticas: Footstats)


Cruzeiro de Mano passa o Grêmio e pode repetir Flu 2007, de Renato Gaúcho
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André Rocha

Foto: Denis Dias/Gazeta Press

O Cruzeiro foi o primeiro campeão brasileiro da era dos pontos corridos. O primeiro e único a vencer também a Copa do Brasil, no 2003 mágico da “tríplice coroa”. Quase repetiu o feito em 2014, mas o arquirrival Atlético impediu vencendo a final mineira da Copa do Brasil.

2017 foi o ano do penta no grande torneio nacional de mata-mata, nos pênaltis contra o Flamengo.  Pode também ser o de uma nova grande campanha no Brasileiro depois de duas edições após o bicampeonato flertando mais com Z-4 que com título ou vaga na Libertadores.

Com a vitória por 1 a 0 sobre o Grêmio em Porto Alegre, gol de Rafael Sóbis, eterno ídolo do Internacional, maior rival do adversário, o time de Mano Menezes ultrapassa Santos e o próprio time gaúcho para dormir na vice-liderança do Brasileiro. Se mantiver os bons resultados abrirá uma vaga na Libertadores dentro da competição por pontos corridos.

O mesmo que conseguiu o Fluminense em 2007. Campeão da Copa do Brasil em 6 de junho vencendo o Figueirense em Florianópolis, gol de Roger Machado, hoje treinador. Antecessor de Renato Gaúcho no Grêmio, comandante do tricolor carioca há uma década. O eterno falastrão que no ano seguinte diria que “brincaria” no Brasileiro se vencesse a Libertadores e, com a derrota nos pênaltis para a LDU no Maracanã, terminou o ano sem conquistas. Como corre o risco agora depois de tantas bravatas e autoelogios ao longo da temporada – mas também bom futebol, que parece cada vez mais perdido em funções de tantas alterações na equipe base.

Naquele 2007, porém, Renato conseguiu manter o Flu alerta e, mesmo com vaga assegurada no torneio continental e vendo o São Paulo disparar para o então bicampeonato que viraria tri no ano seguinte, fez ótimo segundo turno. Vencendo, inclusive, o incrível Flamengo de Joel Santana que acabou uma posição acima, pelo número de vitórias. Com isso abriu uma vaga na Libertadores que acabou caindo no colo…do Cruzeiro, à época comandado por Dorival Júnior.

Há uma década, o Grêmio, então sob o comando de Mano Menezes, chegou à final da Libertadores contra o Boca Juniors de forma até surpreendente. Foi, porém, superado pela equipe de Juan Roman Riquelme e não pôde retornar no ano seguinte. Por pouco, já que terminou o Brasileiro em sexto lugar. Dois pontos atrás… do Cruzeiro.

Em dez anos o mundo da bola girou e agora encontra clubes, personagens e contextos parecidos. Como será o desfecho desta vez? O Cruzeiro de Mano Menezes está sereno, o Grêmio de Renato tem motivos para se preocupar. Mas ainda pode virar o jogo bonito em 2017, inclusive encarando o Real Madrid nos Emirados Árabes Unidos. Quem vai saber?


Atlético Mineiro 2017 é mais um típico projeto de ilusão fadado ao fracasso
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André Rocha

Foto: André Durão

Rogerio Micale foi demitido depois da derrota por 3 a 1 para o Vitória no Independência. Assumiu em julho com contrato até dezembro. Trabalho que não deu liga, assim como o de seu antecessor Roger Machado. Treinadores de perfis parecidos, que obviamente têm suas cotas de responsabilidade no fraco desempenho em 2017. A começar por terem aceitado o convite para um trabalho com poucas chances de dar certo.

Porque Marcelo Oliveira, com estilo e histórico totalmente distintos, também fracassou no ano anterior. Colocou na Libertadores via Brasileiro e na final da Copa do Brasil, mas a expectativa com o treinador bicampeão brasileiro com o Cruzeiro e ídolo do clube como jogador era de grandes conquistas.

Nem estudioso com pouca rodagem e, consequentemente, títulos. Nem o veterano com currículo e bom gestor de grupo. Simplesmente por ser um típico projeto fadado ao fracasso.

Já aconteceu tantas vezes e não aprendemos – e aí este que escreve se inclui como analista. Em 1985 o Corinthians torrou a grana da venda de Sócrates para a Fiorentina montando times caros, tirando Serginho Chulapa do Santos e Hugo De León do Grêmio, e nada conseguindo. O Flamengo de Edmundo, Sávio e Romário em 1995 é outro exemplo, assim como o bancado pela falida ISL em 200, que reuniu Alex, Denilson, Edilson, Gamarra e Petkovic.

Há também os bem sucedidos, como os Palmeiras de Luxemburgo e Scolari na Era Parmalat. Mas com uma diferença: o investimento era feito em jogadores talentosos e promissores, mas ainda com “fome” na carreira. Oferecendo boas condições de trabalho.

Estrutura nem é o problema do Galo e sua Cidade. O erro é contratar baseado mais na grife, na esperança do jogador consagrado resgatar o desempenho de seu auge anos atrás. Pior ainda é ganhar o selo de favorito aos títulos que disputa não pelo que os atletas construíram juntos, mas por conta do status de cada jogador em separado.

Não é possível juntar o Leonardo Silva de 2013, o Fabio Santos e o Fred de 2012, o Elias de 2009 e o Robinho de 2004. Estamos em 2017. E outra má notícia: se trouxe tem que botar para jogar. Porque o veterano consagrado não costuma lidar bem com o banco de reservas.

Logo vem os questionamentos: o titular, mais jovem e produtivo, “chupou laranja com quem?” Como tirar do time o “presidente da resenha”, o craque que os mais jovens tinham no videogame? Como descartar quem estaciona o carro mais luxuoso na garagem, recebe visitas de outros craques midiáticos na sede e tem um staff que parece um outro time de futebol?

No Galo, o pecado maior foi reunir Robinho e Fred sem entender que no futebol atual ou você tem um típico centroavante com velocidade e intensidade ao redor para acioná-lo, ou tem o atacante veterano que compensa a falta de mobilidade de outros tempos com inteligência e técnica. Mas vai precisar de alguém na frente com mais dinâmica.

Os dois juntos exigem mais sacrifícios dos demais. E logo atrás há um Elias em fase parecida na carreira, um Cazares e Otero buscando protagonismo no futebol brasileiro. Um Yago querendo espaço. Difícil correr sabendo que na mídia, se o time vencer, serão as principais estrelas a ganhar os holofotes. É humano.

Assim como é natural a expectativa criada. O “agora vai!”, a esperança de que será diferente. Mesmo que as características dentro e fora de campo não combinem. E só pelos nomes se transfira uma responsabilidade de conquistas que, no fundo, é irreal.

Porque em 2017 não dá mais para aceitar a contratação sem avaliação criteriosa. Só pelo nome é enorme risco. Assim como contratar o treinador na tentativa e erro, no “vai que cola”. Não é só questão de sorte. Trabalho e estudo sempre ajudam.

Foi o que faltou ao Atlético. Jogou para a galera. A mesma que agora cobra do presidente Daniel Nepomuceno ao funcionário mais humilde. Ninguém engole mais a transferência de responsabilidades, o “contratei os melhores, se não deu certo não é problema meu”. É problema de todos.

E fica novamente o questionamento deste blog: vale tratar estadual como prioridade em abril e maio e se achar superior ao rival com o título, se em dezembro este pode estar celebrando uma conquista de Copa do Brasil ou a vaga do G-6 que parecia reservada para si mesmo, o “favoritão”?

Os nove pontos de distância em relação ao Botafogo, sexto colocado, e os três de vantagem sobre o São Paulo, 17º, dão a dimensão dos objetivos do Galo, agora sem treinador, até o fim do ano. Depois de ser eliminado da Libertadores pelo Jorge Wilstermann que levou oito do River Plate e da Copa do Brasil pelo Bota de orçamento muito inferior.

Neste cenário é até difícil tratar a Primeira Liga como um título relevante. E ainda há a chance de novo revés como favorito contra o Londrina que está no meio da tabela na Série B. Outro vexame?

Certeza só de que era fiasco anunciado, com o dom de iludir. Mais um. Será que agora aprendemos todos?


Não foi só raça! River Plate dá aula monumental de “toco y me voy”
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André Rocha

O Jorge Wilstermann foi inocente no Monumental de Nuñez como os times e seleções bolivianos de quatro ou cinco décadas atrás. Levar o primeiro gol dos históricos 8 a 0 num contragolpe com Scocco pegando escancarada a linha de cinco na defesa comandada pelo brasileiro Alex “Pirulito” Silva beirou o patético.

Pior ainda: trouxe a torcida que já tinha feito uma bela festa na entrada do River Plate ainda mais para o jogo e o que se viu foi um massacre sem precedentes. Porque o gigante argentino teve fibra, sim. Raça. A camisa pesada também conta, mas não foi só isso. O time do treinador Marcelo Gallardo jogou futebol no ritmo certo para construir a virada do dobro do tamanho que precisava.

Já tinha criado ao menos três oportunidades cristalinas, duas com Scocco, na altitude de 2.570 metros em Cochabamba nos 3 a 0 que iludiram a Bolívia e até seu presidente Evo Morales. O River sabia que tinha condições de reverter.

E aí entra a primeira aula dos Millonarios para brasileiro aprender: a “pilha” certa. Com a tensão natural de quem sabia que a obrigação de fazer três gols sem sofrer nenhum em uma partida eliminatória é mais que desconfortável. Mas transformando a adrenalina em fome. Até uma certa raiva, mas não para agredir fisicamente o adversário. Simplesmente mostrar quem é o mais forte.

A segunda, e monumental, foi a avalanche de futebol, com volume de jogo impressionante. Toque fácil, rápido, objetivo. A execução do 3-4-3 como deve ser: alas Fernández e Rojas abrindo o campo, Ponzio e, principalmente, Enzo Pérez empurrando o trio Auzqui-Scocco-Martínez para dentro da área do oponente. Todos se procurando para tabelas, triangulações e infiltrações em diagonal, no “funil”.

Bem diferente do festival de cruzamentos de Atlético Mineiro (43) e Palmeiras (32) nas partidas em casa contra os bolivianos. O River não se desfez da bola. Pelo contrário, deu um espetáculo de “toco y me voy” moderno, com a intensidade do futebol atual. Passa e desloca, passa ou se projeta para dar profundidade às manobras do ataque. Até cruzou muito – 26, com cinco acertos. Mas muitos da linha de fundo para trás, como deve ser.

Depois de três gols de Scocco um tanto aleatórios, o time da casa anotou outros três em jogadas trabalhadas. Trocas de passes verticais até chegar ao fundo e encontrar o companheiro mais bem colocado. Futebol simples, mas que só é viável quando há entendimento do jogo.

Também tempo de trabalho. Gallardo está no clube desde 2014. Venceu a Sul-Americana no ano da estreia e a Libertadores na temporada seguinte. As conquistas rarearam, mas o trabalho prossegue. Há uma linha, um estilo, uma ideia. Que encontrou sua melhor execução numa noite mágica.

A dos cinco gols de Scocco, maior beneficiado pelo futebol fluido e mortal do River Plate que gerou nada menos que 22 finalizações, 12 na direção da meta de Raul Olivares. O atacante marcou quatro gols em toda sua passagem pelo Internacional e superou em um jogo. De virtual eliminado ao grande favorito para alcançar seu quarto título do torneio. Primeiro tem a semifinal argentina contra o Lanús, que mandou para casa, também numa virada, o San Lorenzo campeão em 2014.

No início da competição, oito brasileiros e seis argentinos. Agora só teremos uma decisão entre os grandes rivais do continente, algo que não acontece desde o Corinthians x Boca Juniors de 2012, se o Grêmio superar o Barcelona. Sintomático como os dois titulos desde o fim da sequência de domínio do Brasil.

Que a lição não se resuma aos “cojones”, à questão anímica. O River Plate não foi só isso em Buenos Aires.

(Estatísticas: Footstats)


Botafogo: melhor história da Libertadores desta vez não pecou pela covardia
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André Rocha

O time que parecia fadado ao rebaixamento em 2016 depois de voltar da Série B invadiu o G-6 do Brasileiro, tomou a vaga na fase de grupos da Libertadores dos campeões Colo Colo e Olimpia. Encarou e terminou na liderança de um grupo com mais dois vencedores sul-americanos: Atlético Nacional, o atual, e o tradicional Estudiantes.

Ainda o Barcelona de Guayaquil, semifinalista desta edição após tirar a invencibilidade e eliminar o Santos na Vila Belmiro. Nas oitavas de final, a sina persistiu. O gigante Nacional foi outro a ficar pelo caminho. Duas vitórias que fizeram a torcida acreditar até em título.

Não foi possível. Mas, ainda assim, o Botafogo é a melhor história da edição 2017 da Libertadores – só será superada em caso de título do impressionante Jorge Wilstermann. A equipe de Jair Ventura. Organizada, forte mentalmente, jogando sempre no limite. Sem um grande destaque individual, um craque midiático. O clichê é inevitável: time de operários.

Caiu diante do Grêmio que, na média da temporada, joga o melhor futebol do país. E dentro da arena do favorito, o alvinegro fez sofrer. Obrigou Renato Gaúcho a fazer uma substituição ainda no primeiro tempo, tirando Leonardo Moura inócuo pela direita e colocando Everton para ganhar intensidade na frente.

Também mandar um recado ao oponente: posso estar desorganizado, mas não tenho medo. O mesmo que o Botafogo fez na ida no Estádio Nilton Santos. Com Leo Valencia no lugar de Rodrigo Lindoso deixou mais espaços para o Grêmio controlar o meio-campo com o ótimo Arthur. Deixava, porém, o Grêmio alerta. Na prática, uma formação é sempre uma espécie de carta de intenções. Nela estava escrita que o Botafogo não se acovardaria em nenhum momento.

Porque o medo, ou a cautela excessiva, foi o grande pecado da doída eliminação para o Flamengo na Copa do Brasil. Mesmo descontando tudo que envolvia um clássico estadual valendo vaga num torneio nacional e o abismo de poder de investimento entre os clubes, foi incompreensível a postura diante de um rival que já havia demonstrado insegurança em outros momentos da temporada, especialmente na eliminação na fase de grupos da Libertadores.

A grande chance de vencer seria levar o duelo para o psicológico. Pressionar, acuar. Ainda que fosse em momentos chaves. Jair Ventura preferiu esperar. No Engenho de Dentro e no Maracanã. Aguardou tanto que o imponderável chegou no drible mágico de Berrío e no chute fraco de Diego que venceu Gatito Fernández.

Escaldado, não repetiu a atitude no torneio continental. Mesmo contra uma equipe superior à rubro-negra. A eliminação veio em gol único. Bola parada que é o ponto mais frágil de um sistema defensivo sólido. Mas em nenhum momento houve massacre do time mais forte. Segundo o Footstats, foram 57% de posse gremista e 15 finalizações, um terço no alvo. O Bota, porém, respondeu com 11, quatro na direção da meta de Marcelo Grohe. Barrios foi a diferença.

Mas desta vez não há do que se arrepender. A lamentar, talvez, a falta de contundência no ataque. O chute na trave de Bruno Silva. Podia ter vindo outro “milagre”. Mas Jair Ventura e seus comandados deixaram 100% em campo. Com a coragem dos grandes.

Agora é reunir forças para voltar ao G-6 no Brasileiro para quem sabe reescrever a história. Desta vez mais forte e respeitado. Mais glorioso. Mais Botafogo.

 


Botafogo 0x0 Grêmio: empate no conflito entre o possível e o desejado
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André Rocha

O Botafogo de Jair Ventura sabia que precisava adicionar um pouco de coragem e presença no campo de ataque no Nílton Santos para não repetir o erro da semifinal da Copa do Brasil contra o Flamengo e também pelos desfalques importantes do adversário que aumentavam as chances de vitória para levar vantagem para a volta. Mas também tinha noção de quem um jogo de controle de espaços seria viável pensando nos 180 minutos.

O Grêmio tinha noção de que precisava ter mais cuidados defensivos por não contar com Geromel, Michel e Luan, porém a ideia de ir às redes no Estádio Nilton Santos e encaminhar a classificação era sedutora, até pela proposta de jogo que automatiza movimentos independentemente da escalação. Trabalhar a bola, triangular, deslocar, atacar em bloco.

O resultado foi um conflito entre o possível e o esperado. Uma incerteza que até deu algum tempero à disputa.

Porque o jogo teve mais espaços entre as linhas de marcação, mais “trocação” que o esperado. Jair Ventura trocou Lindoso por Leo Valencia. Manteve a estrutura do 4-3-1-2 desmembrado em duas linhas de quatro sem a bola, porém bloqueando menos a entrada da área e chegando na frente com mais gente. O problema, novamente, foi a falta de criatividade e da eficiência nas conclusões – apenas cinco, nenhuma na direção da meta de Marcelo Grohe. Apesar da entrega de sempre de Rodrigo Pimpão e Roger.

O Grêmio com Bressan na zaga, Jailson à frente da defesa e Leonardo Moura, aos 39 anos, como meia central. No entanto, quem dominou o meio-campo foi Arthur. Marcando, jogando, apoiando e aparecendo sempre livre. O melhor em campo, embora Fernandinho também tenha desequilibrado o sistema defensivo do oponente com dribles e velocidade. Protagonistas de um domínio com 54% de posse e 11 finalizações, quatro no alvo. Consequentemente fazendo de Gatito Fernández mais uma vez o grande destaque da equipe carioca.

Faltou o básico, mas previsível pelo contexto: mais qualidade para a jogada diferente e a finalização precisa. Empate sem gols que inverte a lógica, ou a restabelece para os 90 minutos finais em Porto Alegre: Grêmio provavelmente completo e se instalando no campo do Botafogo, que vai fazer seu jogo de compactação, concentração absoluta e transições em velocidade em busca do golpe letal.

Um cenário mais confortável para os dois, mas que também trará mais armadilhas e menos tempo de recuperação. Nenhuma certeza, só a esperança de mais futebol por uma vaga na semifinal da Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Força no mata-mata não torna Grêmio superior ao Corinthians
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André Rocha

A prioridade que as equipes têm dado à competição nacional e às internacionais de mata-mata vem induzindo à conclusão de que o Grêmio, por estar nas quartas de final da Libertadores e na semifinal da Copa do Brasil, além de ocupar a segunda colocação do Brasileiro, seria a melhor equipe do país.

Se o parâmetro fosse o futebol praticado, uma análise subjetiva baseada na preferência pessoal, seria até aceitável, embora ainda discutível. Afinal, o time de Renato Gaúcho tem um estilo envolvente e postura ofensiva. Agrada as retinas, de fato. Mas considerar apenas os resultados, atribuindo pesos aos campeonatos e concluindo que a média das campanhas é superior, gera algumas distorções.

O Grêmio enfrentou um grupo na Libertadores mais que acessível, com o Guarani paraguaio, Deportes Iquique e Zamora. Teve uma única derrota por 2 a 1 para o Iquique na desértica Calama, com arbitragem questionável, e chegou a poupar titulares no empate com o Guarani fora de casa priorizando o estadual que não conquistou. Mas ao menos viu o Internacional não alcançar o heptacampeonato ao ser derrotado nos pênaltis pelo Novo Hamburgo, o algoz tricolor na semifinal.

Nas oitavas do torneio continental, superou o Godoy Cruz, argentino que aproveitou a carona da campanha do Atlético Mineiro, a melhor da fase anterior, para alcançar a vaga. Duas vitórias apertadas, com susto em Porto Alegre pelo gol sofrido logo no início. Ou seja, cumpriu sua obrigação de favorito absoluto.

Na Copa do Brasil, classificação automática para as oitavas de final e atuações consistentes com 100% de aproveitamento contra Fluminense e Atlético Paranaense. Mas, convenhamos, o time de garotos de Abel Braga e a irregular equipe rubro-negra que só agora consegue uma sequência de boas atuações sob o comando de Fabiano Soares não representaram grandes desafios para o time de Renato Gaúcho a ponto de alçá-lo à condição de melhor equipe do país.

Nem a vitória em casa por 1 a 0 sobre o Cruzeiro na semifinal. Resultado que nada garante para a volta no Mineirão, apesar do favoritismo natural diante do time de Mano Menezes que não consegue inspirar confiança na temporada.

No duelo que colocou de fato o seu poder à prova, o Grêmio falhou. Foi derrotado e controlado dentro de sua arena pelo Corinthians. Líder absoluto do Brasileiro, campeão do estadual mais forte do país. Ainda vivo na Sul-Americana. O porém foi a eliminação precoce na Copa do Brasil. Sem derrotas em 180 minutos e revés nos pênaltis. Para o Internacional, que mesmo em um ano infernal de Série B, também não foi derrotado pelo arquirrival – empate em 2 a 2 no único confronto, pela primeira fase do Gaúcho.

O time paulista, porém, mostra consistência em toda a temporada. Porque apesar do desprezo dos que clamam pela volta do mata-mata até no Brasileiro, é na liga por pontos corridos que o mais forte se impõe. Pela regularidade, sem pagar por uma noite ruim ou apenas infeliz numa disputa de pênaltis.

Aproveitamento de 82,5%, melhor campanha em um turno na fórmula atual com 20 clubes. Invicto. Melhor mandante, superando inclusive o próprio Grêmio na décima rodada. Com gol de Jadson, cobrança de pênalti de Luan que Cássio defendeu. Grande atuação do time de Fabio Carille, especialmente no primeiro tempo, com destaque para Paulo Roberto, substituto do volante Gabriel. Triunfo do melhor jogo coletivo do país.

Emblemático para marcar a distância entre as mais fortes equipes do Brasil em 2017. Hoje o Corinthians está à frente.

 

 


Foco, tempo e até desespero devem nortear segundo turno do Brasileirão
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André Rocha

O Corinthians está com o Brasileiro nas mãos. Até aqui, pelo menos, é aquele caso em que tudo conspira a favor. Inclusive a pausa entre um turno e outro para recuperar e treinar a equipe por conta da viagem da Chapecoense. Com Grêmio, Santos e Flamengo envolvidos em outras competições e Palmeiras na ressaca da eliminação da Libertadores com 14 pontos atrás que podem virar 17, o atual líder disparado pode até se planejar para buscar também o título da Sul-Americana.

Competição que ainda envolve outros cinco brasileiros. Com dois confrontos nacionais  – Sport x Ponte Preta e Flamengo x Chapecoense – que podem reduzir a quarto para as quartas de final. Mesmo número de times na disputa das semifinais da Copa do Brasil. Um a mais que nas quartas da Libertadores.

Dez times dividindo atenções, outros dez disputando somente o Brasileiro. Com apenas quatro rodadas de dezenove no meio da semana. Parece claro que o foco e o tempo para treinar têm grandes chances de fazer a diferença e até superar o nível técnico e tático das equipes.

Sem contar o desespero. Aquele que, pela dificuldade na tabela, torna o adversário difícil de ser batido. Sim, a fuga do Z-4. Que parece ter o Atlético-GO condenado, mas ainda matematicamente vivo, dependendo de uma arrancada que hoje soa improvável. Um olhar mais atento à tabela, porém, revela que o Fluminense, disputando a Sul-Americana, está apenas cinco pontos à frente da Chapecoense, 17ª colocada e com um jogo a menos.

Qualquer vacilo será fatal. É onde mora a esperança são-paulina. Mesmo com todos os equívocos e com a equipe oscilando até psicologicamente, há qualidade, especialmente de Hernanes desequilibrando nas últimas vitórias, e agora tempo para se preparar. O que Dorival Júnior mais precisava. E nada mais para distrair. Uma sequência de bons resultados e pode até sobrar uma vaga na Sul-Americana.

A disputa pelas seis primeiras colocações ganha novos postulantes, como os Atléticos, mineiro e paranaense. Os únicos junto com o Palmeiras entre os onze primeiros com foco absoluto na Série A. Uma vantagem considerável em meio a tanto equilíbrio, com exceção do Corinthians.

A Primeira Liga não deu certo pelo servilismo dos clubes à CBF e agora se encontra soterrada pelos demais torneios. Para muitos será um engodo, um problema de logística. Hoje soa como um prêmio de consolação, uma taça para não deixar 2017 de mãos abanando. Vale menos que o estadual.

O maior desafio, sem dúvida, é o do Botafogo. Com elenco não tão robusto, um clássico carioca no torneio nacional e um duelo brasileiro na Libertadores contra o Grêmio, uma das melhores equipes do país. A um ponto do G-6, que seria a garantia de volta ao torneio continental independentemente do desempenho no mata-mata. Mas a seis da zona de rebaixamento, o que exige um certo cuidado.

Neste cenário, o returno reserva alguns jogos que serão esvaziados pela utilização de reservas e outros que podem ganhar contornos épicos, com times até com tempo para se preparar, mas tão envolvidos emocionalmente que não resistirão ao maldito “jogo para ganhar e não para jogar”. Valendo a vida. Para quem gosta de emoção e não torce o nariz para a fórmula de pontos corridos será um prato cheio.

Se nos dois extremos da tabela os destinos de Corinthians e Atlético-GO parecem selados, todo o resto carrega suas dúvidas e um contexto construído jogo a jogo. Dependente de outras competições, que agora contemplam toda temporada. Vejamos o que o novo calendário reservará à nossa liga neste primeiro ano.


Palmeiras perde 45 minutos e o ano com a essência do estilo de Cuca
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André Rocha

Mina lutou e chorou com a lesão que o tirou do jogo, Dudu tentou tudo e não resistiu fisicamente, Moisés entrou, fez golaço, sentiu e acertou sua cobrança na decisão por pênaltis no sacrifício. Não faltou entrega. Nem de Bruno Henrique e Egídio, os que erraram suas penalidades. O equívoco maior foi anterior.

Nos primeiros 45 minutos no Allianz Parque, o Palmeiras mostrou a essência do estilo de Cuca: intensidade máxima, marcação no campo de ataque, pressa para resolver as jogadas e muitos cruzamentos com bola parada e rolando. Várias alçadas desde a intermediária. Apenas quatro finalizações, nenhuma no alvo.

Porque não havia ninguém para pensar o jogo na execução do 4-2-3-1 montado. Thiago Santos protegendo a defesa, Bruno Henrique se mandando e Dudu se juntando a Roger Guedes, Deyverson e Keno. Ninguém parava a bola, mudava o ritmo. Pensava. O Palmeiras só sentia.

Não basta e Moisés deixou isso bem claro no segundo tempo. Os passes longos de um meio-campista surpreenderam o Barcelona de Guayaquil, que parecia preparado apenas para enfrentar o que o Palmeiras apresentou antes do intervalo.

O time equatoriano, bem montado no 4-4-2 e atacando pelos flancos com Ayovi e Caicedo, acabou traído pelo próprio desempenho pífio do adversário. No escanteio a favor, se lançou ao ataque sem maiores cuidados e permitiu o contragolpe letal que, é óbvio, teve muitos méritos de Moisés, que foi arco e flecha, completando a assistência de Dudu.

Até o fim, o jogo foi aleatório, no modo “briga de rua”. Bolas nas traves de lado a lado, furada de Damian Díaz, o apagado meia argentino que praticamente atrasou para Jailson na única cobrança desperdiçada pelo Barcelona. Ainda assim, volta para Guayaquil com a vaga.

Porque o  que se convencionou chamar de “Cucabol” saiu derrotado, mas até quando vence faz menos do que pode. A vitória e a taça iludem, mas é triste ver um elenco que pode buscar um futebol mais bem jogado se reduzir a um estilo mais condizente com um repertório limitado. Nem sempre vai dar certo. Ou só vai funcionar eventualmente.

Não há consistência, porque a ligação direta e o cruzamento a esmo oferecem, na melhor hipótese para quem arrisca, 50% de chances para ataque e defesa. As perseguições individuais na marcação cansam os jogadores e desorganizam o próprio time. É um jeito anacrônico e contraproducente. Por isso as críticas pouco compreendidas no momento de alta.

Agora é fácil apontar os problemas. Inclusive para quem incensava, debochava das críticas e tratava como perseguição pura e simples. Pautado apenas pelos resultados. Uma hora a verdade se escancara. Os 45 minutos iniciais do Palmeiras são pedagógicos. Tempo jogado fora. Ano perdido.

Que fique a lição. Inclusive para Cuca, que pode aproveitar o momento para rever seus conceitos. As derrotas fazem crescer,  basta ter vontade e humildade para aprender.

(Estatisticas: Footstats)