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Firmino desequilibra quando o Liverpool cansava. Mais uma lição para o PSG
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André Rocha

O Liverpool tem uma vantagem essencial sobre o PSG antes mesmo do confronto entre as equipes na abertura da Liga dos Campeões: o time inglês se testa praticamente toda semana na Premier League no mais alto nível de competitividade, enquanto o Paris Saint-Germain muito eventualmente na Ligue 1 se depara com um rival que seja efetivamente um adversário mais complicado.

Na temporada passada, o time francês bateu um Bayern de Munique em crise ainda com Carlo Ancelotti, mas levou o choque de realidade na volta, com o time bávaro já sob o comando de Jupp Heynckes no encerramento da fase de grupos. Para nas oitavas da Champions cair para o campeão Real Madrid. A rigor, três desafios. Na temporada em que conquistou todos os títulos no país.

Mesmo com Roberto Firmino no banco e Sturridge no centro do ataque do 4-3-3 habitual da equipe de Jurgen Klopp, os Reds mostraram quase sempre um volume de jogo bem maior que o adversário no Anfield Road. Muita intensidade e superioridade numérica atacando e defendendo. Pressão logo após a perda da bola com a fúria de sempre.

Os laterais Alexander-Arnold e Robertson atacavam juntos e bem abertos para que os três atacantes ficassem mais próximos uns dos outros e da área adversária. Mais Wijnaldum chegando sempre, já que Klopp optou por Henderson à frente da defesa e deixou Keita no banco.

O PSG de Thomas Tuchel busca exatamente uma maior competitividade. Com um “discípulo” de Klopp e sucessor no Borussia Dortmund. Já melhorou no início da temporada, mas ainda não é o suficiente para encarar o vice-campeão europeu e 100% em cinco rodadas no campeonato inglês.

Justamente pela falta de prática. Questão de hábito. No 4-3-3 isolando muito o trio Mbappé-Cavani-Neymar do resto do time. Com Marquinhos à frente da defesa para evitar os espaços entre retaguarda e meio-campo. Sem sucesso, porém. Até pelo auxílio frágil de Rabiot e Di María.

O Liverpool abriu 2 a 0 com Sturridge em falha de Thiago Silva e no pênalti cobrado por Milner. Mas o PSG voltou para o jogo ainda na primeira etapa “imitando” o adversário ao chegar com muita gente no campo de ataque, inclusive os laterais Bernat, que cruzou, e Meunier, que finalizou diminuindo para 2 a 1.

Segundo tempo de domínio inglês, mas com um velho problema: o desgaste por conta de uma maneira de jogar com o pé fundo no acelerador o tempo todo, porém sem transformar o domínio em larga vantagem no placar. Foram 17 finalizações contra nove, oito a cinco no alvo. Também mais posse de bola, que chegou a bater em 60% e terminou com 52%. Pelo domínio dos rebotes mais que por conta do controle do jogo através dos passes. Mas cedendo espaços e baixando a guarda quando o gás começou a acabar.

Tuchel  colaborou trocando Cavani e Di María por Draxler e Choupo-Moting. Não só por reoxigenar o setor ofensivo, mas principalmente por dar liberdade a Neymar, novamente subaproveitado pela esquerda, e Mbappé sair da direita e assumir o comando do ataque. Com os dois na frente, o gol de empate da joia francesa.

O Liverpool dava sinal de esgotamento. Mas entrou Firmino, dúvida para o jogo depois do acidente no olho contra o Tottenham no fim de semana. Mesmo com a boa atuação de Sturridge, o ataque com o brasileiro ganha outro brilho. Não só pelo entrosamento com Salah e Mané, mas também pela inteligência na movimentação e os recursos técnicos.

Na individualidade, limpou Marquinhos e resolveu o jogo. Um trunfo desequilibrante da equipe que novamente parece mais pronta para chegar longe no maior torneio de clubes do planeta. Ainda mais com o elenco reforçado, equilibrado e sem os elos fracos de outras temporadas.

Os 3 a 2 são mais uma lição para o PSG. Difícil é colocar em prática o aprendizado contra os “sparrings” do seu quintal.

(Estatísticas: UEFA)


Messi precisa acordar! O mundo e o futebol mudaram, também por causa dele
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André Rocha

Foto: Reuters

Messi foi o melhor do mundo há oito anos sendo campeão espanhol e da Copa do Rei, caindo nas semifinais da Liga dos Campeões e nas quartas de final para a Alemanha na Copa do Mundo da África do Sul. Foi o ano da festa do Barcelona, com Xavi e Iniesta, campeões com a Espanha, formando a trinca de finalistas.

Era o período de encantamento com o argentino genial que evoluiu absurdamente sob o comando de Pep Guardiola. Mesmo sem marcar um gol no Mundial de seleções sua imagem de jogador de uma era seguiu intacta. Cristiano Ronaldo sofreu com lesão grave, eliminação nas oitavas da Champions e desempenho apenas razoável, para seu nível, com Portugal na Copa. Era a primeira temporada no Real Madrid.

Pouco valeu o brilho de Sneijder, que ganhou tudo com a Internazionale e foi um dos artilheiros da Copa pela Holanda, só perdendo o título na prorrogação da final. Sendo decisivo contra o Brasil nas quartas de final. Uma das maiores injustiças da premiação.

Corte para 2018. Luka Modric ganha o prêmio da UEFA como melhor jogador da temporada europeia e está entre os três finalistas do Prêmio The Best da FIFA. Campeão da Champions e vice mundial, como Sneijder. Mohamed Salah, outro finalista dos dois prêmios, nem isso. Eliminado na fase de grupos com seu Egito, não chegou perto de ser campeão inglês com seu Liverpool e perdeu a final do principal torneio de clubes do mundo para o Real Madrid. Mesmo com o golpe sujo de Sergio Ramos que tirou o atacante da decisão ainda no primeiro tempo, não parece algo que chame tanto a atenção.

Mas é. Porque o mundo e o futebol mudaram. Muito. Também por causa do argentino. A Liga dos Campeões ganha um peso cada vez maior na temporada. Por conta da visibilidade e do nível cada vez mais alto do torneio europeu, os campeonatos nacionais perderam relevância. Até por conta dos supertimes que dominam seus países – leia-se Bayern de Munique, PSG e Juventus. Na Espanha, a tendência recente é o Real Madrid focar tudo na Champions e o Barcelona dividir esforços.

Eis o ponto que marca esse novo olhar. Messi foi novamente protagonista no domínio espanhol do Barça. Liga e Copa. Chuteira de Ouro com 34 gols na liga. 46 no total e mais 18 assistências. Mas e daí? O seu talento é que fez subir o sarrafo, o nível de cobrança. Não é mais o suficiente. Pior ainda com a eliminação para a Roma, time de poder de investimento muito inferior e em outra prateleira do cenário mundial. Derrota vexatória por 3 a 0. Mais uma vez ficando de fora até das semifinais.

Na Copa do Mundo, novamente um desempenho bem abaixo de sua excelência. Sua Argentina caiu nas oitavas de final. Para a campeão França justamente na melhor atuação da equipe de Pogba, Griezmann e Mbappé na Copa. Por 4 a 3, sem vexame. Porém não basta mais para Messi. Espera-se muito dele e se decepciona sua avaliação cai a ponto de ficar abaixo de jogadores sem números e conquistas semelhantes.

Imaginava-se que ficaria ao menos entre os três finalistas, como em todas as edições desde 2007. Nem isso. Um momento simbólico, que pede reflexão a Messi. Sua rivalidade com Cristiano Ronaldo fez história e jogou no teto o nível do futebol de clubes na elite europeia nestes dez anos. O mundo cobra Messi que seja campeão da Champions ou do mundo com a albiceleste. Ele precisa ver que mudou. Acordar para uma nova realidade, caso ainda queira ser competitivo no topo, individual e coletivo.

Sua personalidade aponta dois caminhos. Ou o “sangue nos olhos” de 2015, depois do grito de Cristiano Ronaldo (o lendário Síiiiii!) na celebração do prêmio de melhor de 2014 desafiando o rival, para liderar o trio MSN na conquista da tríplice coroa. Ou se conformar em seguir reinando no Barça, aumentando ainda mais os números como o grande jogador da história do clube que o acolheu, pagou seu tratamento para crescer e formou o homem e o atleta. Jogar por gratidão.

Se houver espaços para ele jogar como gosta vem o brilho. Se o adversário nega, Messi circula pelo campo sem produzir grande coisa e vê seu time derrotado. Foi assim nas últimas três temporadas. Começa assim a atual: adversários fáceis na liga, quatro gols e duas assistências. Sem Cristiano Ronaldo, a tendência é nadar de braçadas no Espanhol.

Pode bastar para ele, não para o planeta bola. Messi não vai a Zurique desta vez. Pode estar irado, aliviado ou mesmo indiferente. Quem é capaz de entender o argentino?


Por que a transição de CR7 do Real Madrid para a Juventus não é tão simples
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André Rocha

Foto: Twitter/JuventusFC

Cristiano Ronaldo saiu da zona de conforto ao trocar o Real Madrid pela Juventus. Ou para fugir do desconforto de lidar com Florentino Pérez, uma torcida saturada de títulos e, por isso, exigente demais até com o maior artilheiro da história do clube. Ou só para escapar dos altos impostos mesmo.

Mas não deixa de ser um movimento interessante aos 33 anos. Até porque a fome continua a mesma, assim como a indignação nas derrotas – inclusive as individuais, como a perda do prêmio de melhor da Europa para Luka Modric que fez com que ele sequer comparecesse à cerimônia.

Só que não é uma transição fácil. Porque Cristiano Ronaldo estava totalmente inserido em uma mecânica de jogo desenvolvida e aprimorada em cinco anos, com um breve hiato sob o comando de Rafa Benítez entre Carlo Ancelotti e Zinedine Zidane.

O camisa sete se entendia no olhar com Benzema, Marcelo, Modric e Bale. Companheiros desde a primeira conquista da Liga dos Campeões em 2013/14. Praticamente a mesma formação no tricampeonato continental. Escalação igual nas duas últimas finais, algo inédito na história da competição.

Zidane acertou demais ao apostar na repetição, nos movimentos coordenados, no jogar “de memória”. Tudo moldado desde o início para Cristiano Ronaldo ser a estrela. Se ele prefere jogar em dupla na frente com liberdade de movimentação, ora infiltrando em diagonal, ora se posicionando como referência, era assim que o ataque funcionava.

Ele pode não ser o mais talentoso ou genial, mas certamente é o atacante mais inteligente do futebol atual. Posicionamento, desmarque, movimentação. Tudo para estar no lugar certo no momento exato e dar o toque decisivo. Funciona ainda melhor quando os companheiros conhecem os gestos nos detalhes.

É o que falta à equipe de Massimiliano Allegri. Adicione a ansiedade do craque para marcar e dos companheiros para serví-lo depois de três partidas, mesmo com 100% de aproveitamento nos resultados, e o time perde o mais importante para fazer tudo fluir: a naturalidade.

Por enquanto, Cristiano Ronaldo é um corpo estranho. Allegri tenta ajudar colocando Mandzukic, atacante de ofício com perfil parecido com o de Benzema: presente na área adversária, mas habituado ao papel de coadjuvante. Assim não deixa o CR7 isolado como referência na frente auxiliado por Dybala e Douglas Costa, como era o plano original.

Como sempre, ninguém pode acusá-lo de omissão. Corre, luta, contribui coletivamente e já demonstra sinais de liderança junto aos companheiros. Interesse em evoluir rápido também não é problema, já que deixou até a seleção portuguesa em segundo plano e ficou fora dos primeiros amistosos para se dedicar integralmente ao novo clube. Falta o que deve vir com o tempo: sintonia fina, adaptação ao futebol jogado na Itália e o primeiro gol. Cristiano já passou por “secas” no Real, mesmo com tudo a favor. Mas quando a bola começa a entrar…

Bom lembrar que a primeira temporada na Espanha (2009/10) não foi das mais bem sucedidas. Lesão, expulsão, apenas 35 jogos com 33 gols, sem títulos e eliminação nas oitavas de final da Liga dos Campeões para o Lyon. Agora, nove anos mais velho e com expectativas ainda mais altas, fica ainda mais complexo.

São poucas partidas oficiais e a Champions, especialidade do português, nem começou. A pressão é normal com os olhos do planeta voltados para o vencedor dos últimos dois prêmios de melhor do mundo e detentor de cinco no total, que pode virar seis em breve se a FIFA seguir a tendência dos últimos anos e não os critérios da UEFA.

Não é simples. Mas parece questão de tempo para o maior jogador europeu de todos os tempos começar a fazer história nos campos da Itália.

 


Casemiro, o insubstituível. No Real Madrid e na seleção brasileira
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André Rocha

31 minutos do segundo tempo da decisão em jogo único da Supercopa da Europa em Tallinn, Estônia. Mais um clássico de Madri valendo taça. O placar aponta 2 a 1 para o Real Madrid, com atuação relativamente segura do tricampeão da Liga dos Campeões. Até que a placa de substituição sinaliza que Casemiro, exausto e sentindo problemas musculares pelo esforço depois de um curto período de treinos na volta das férias, deixará o campo para a entrada de Daniel Ceballos.

Dois minutos depois, Marcelo tenta um lençol para trás na linha lateral (!), o Atlético recupera a bola, Sergio Ramos tenta cobrir o setor, mas sai a jogada que termina no empate com Diego Costa. Para em seguida o time de Diego Simeone, comandado pelo auxiliar Germán Burgos à beira do campo, tomar conta do clássico e voar na prorrogação para  fazer 4 a 2 e garantir o título. Com muito volume no meio-campo e gols de Koke e Saúl Níguez.

O primeiro triunfo dos colchoneros na “Era Simeone” sobre o time meregue numa decisão ou confronto de mata-mata continental gerou repercussão imediata. Primeiro exaltando a capacidade de competir do Atlético, com trabalho mais que consolidado e agora um elenco equilibrado e homogêneo para brigar em todas as frentes.

Mas principalmente sugerindo que o revés seria o primeiro símbolo do declínio depois das saídas de Zinedine Zidane do comando técnico, substituído por Julien Lopetegui, e de Cristiano Ronaldo. O treinador mais vencedor, na média de taças e anos no comando, e o maior artilheiro da história do clube mais vencedor do planeta.

Óbvio que é um baque para qualquer equipe e fica difícil vislumbrar o que será do Real nesta temporada. Mas ao menos a história do primeiro jogo oficia poderia ter sido bem diferente se Casemiro tivesse condições para seguir em campo.

Porque o volante brasileiro é o grande pilar de sustentação do trabalho defensivo. Principalmente para fazer o balanço, se defendendo dos contragolpes. Pela esquerda, Marcelo desce com tranquilidade porque sabe que Sergio Ramos sairá na cobertura e Casemiro vai recuar e fechar a zona de conclusão do adversário na própria área.

Eis a maior virtude de Casemiro: o senso de colocação e a imposição física para estar sempre no lugar certo e bloquear a finalização ou o passe decisivo do oponente. Simplesmente estar com seu corpo no espaço exato para impedir ou inibir a ação mais contundente.

Não é por acaso que a mudança de Zidane ao efetivar Casemiro à frente da defesa adiantando Luka Modric e Toni Kroos tenha dado tão certo e se mantido ao longo de toda a trajetória vencedora. Carlo Ancelotti e Rafa Benítez tentaram firmar a dupla Kroos-Modric à frente da defesa para ter controle de jogo através da posse de bola. Mas a retaguarda sofria demais.

A troca equilibrou o time. Ainda que seja preciso haver compensações, principalmente na saida de bola. Um dos meias recua para qualificar o passe e Casemiro se adianta. Na prática, muito mais para não atrapalhar do que para contribuir. Não que seja fraco no fundamento mais importante para um meio-campista. Mas como é mais alto e forte não tem a mesma agilidade e precisão de seus companheiros de setor para sair da pressão. E também pode contribuir mais à frente, se juntando ao quarteto ofensivo e até aparecendo na zona de conclusão.

Com a saída de Mateo Kovacic para o Chelsea, o Real Madrid ficou sem um substituto com características ao menos parecidas. Na derrota para o Atlético, mesmo com Modric entrando apenas na segunda etapa, o meio-campo fez água sem a bola e deu espaços demais ao rival. É mais um problema para a temporada. E dos grandes. Casemiro é simplesmente insubstituível.

No clube e também na seleção brasileira. Na Copa do Mundo, o volante foi fundamental para cobrir os espaços deixados por Paulinho e Phillipe Coutinho no meio-campo. Também fechava o meio da área quando Miranda saía na cobertura de Marcelo. Suspenso contra a Bélgica, viu Fernandinho entrar e cumprir uma atuação desastrosa depois do gol contra que marcou. Impossível não imaginar como teria sido o duelo pelas quartas-de-final com o camisa cinco em campo.

O novo ciclo de Tite deve partir da presença de Casemiro entre os convocados. Ainda que a renovação no setor seja inevitável, com Arthur, Paquetá, Fred e outros nomes que possam surgir. É dever também estudar uma reposição que não prejudique tanto o desempenho coletivo.

Porque Casemiro é único. Pode não ser o melhor volante do mundo, mas suas características atendem precisamente as necessidades de Real Madrid e seleção brasileira na função que executa. Outros podem ser as estrelas e chamar para si todas as atenções. Mas quando sua presença discreta se transforma em ausência tudo parece ruir.  Aconteceu de novo na Estônia. Melhor para o Atlético.


Onde há fome de Champions, lá está Cristiano Ronaldo
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André Rocha

Foto: Divulgação/ Juventus

O fim da relação entre Cristiano Ronaldo e Real Madrid é a prova de que até os casamentos mais bem sucedidos passam por desgastes. Os mortais, os comuns normalmente aceitam uma vida sem o desafio da conquista diária. Colocam outras vantagens, inclusive a estabilidade e a ciência das virtudes e defeitos da parceria.

Não para Florentino Pérez, certamente incomodado pela falta de negociações nas últimas janelas de transferências por conta da sede de entrosamento e sintonia de Zinedine Zidane. Bi da Liga dos Campeões repetindo a escalação em duas finais, algo inédito. Mais ainda para um clube comprador e um presidente viciado em times galácticos.

Muito menos para o CR7. Competitivo em tudo. Quer sempre o topo. Dos prêmios individuais, da artilharia, entre os mais bem pagos. Também quer ser amado. E os aplausos da torcida na Arena Juventus depois de seu gol antológico de bicicleta certamente pesaram na hora de escolher a Juventus. Ainda que seja um negócio de 105 milhões de euros por um jogador de 33 anos.

Ou melhor, um atleta. De força inesgotável, foco inigualável. Treinamento, alimentação, repouso, força mental. Tudo cuidado com profissionalismo, sem concessões. Gestão de carreira impecável. Para seguir no mais alto nível até quando for possível – e como é difícil imaginar até quando isto vai durar com tamanha disciplina e uma estupenda mentalidade vencedora.

Acima de tudo, para continuar vencendo o principal torneio de clubes do planeta. O grande trunfo na disputa pelo prêmio de melhor do mundo. Está claro que Cristiano Ronaldo quer desenhar uma história única na Champions. Ser o maior vencedor e por clubes diferentes para que ninguém duvide que a força está com ele, não com o time. Ainda que o atacante cada vez mais dependa dos companheiros para decidir com sua ímpar capacidade de concluir as jogadas.

Mesmo para o gigante Real Madrid de 13 títulos será difícil manter o espírito competitivo depois de um tricampeonato. O tetra pode até vir, mas em um elenco renovado, com protagonistas querendo acrescentar a conquista no currículo. Com Ronaldo ficaria a impressão de uma fé no “piloto automático” que não existe no mais alto nível.

Foi assim na saída do Manchester United sem forças para rivalizar com o Barcelona de Guardiola e Messi e já caminhando para o fim da Era Alex Ferguson. Na época, o Real estava há sete temporadas sem vencer a Champions e encarava uma sequência de eliminações nas oitavas de final. Ele chegou e reescreveu a história.

Agora a escolha do português não podia ser melhor. A Juventus rica e estruturada, mas já saturada de conquistas nacionais com um hepta da Série A italiana vai focar tudo na Liga dos Campeões que não conquista desde 1996. A presença de Ronaldo e toda a visibilidade embutida aumentam o poder de atrair outros talentos, incluindo colegas de Real. Difícil até vislumbrar uma formação titular de Massimilano Allegri com a nova estrela.

É óbvio que é impossível prever se haverá química entre craque, clube e companheiros. Os títulos podem demorar um pouco, como aconteceu em Madri. A saída de Buffon é baixa importante, na história e no vestiário. Mas em tese a presença de alguém tão vencedor vai estimular o crescimento de todos, especialmente Dybala. Falta ao argentino de 24 anos a chama que sobra no maior artilheiro da história da seleção portuguesa e do Real Madrid.

Para quem ama o esporte, fica o “luto” pelo fim da maior rivalidade local de todos os tempos entre gênios de uma mesma época. Messi e Cristiano Ronaldo disputando a mesma liga nacional com dois duelos garantidos por temporada em gigantes como Barcelona e Real Madrid. Um roteiro de filme. Acabou. Pelo menos não haverá remorso de quem curtiu cada embate sem a preocupação de ficar desqualificando um para exaltar o outro.

Buffon partiu lamentando que o CR7 tivesse encerrado por duas vezes o sonho continental da Velha Senhora. Agora o gênio da grande área do século 21, de impressionantes 451 gols em 438 jogos no time merengue vai se testar em Turim. Porque onde há fome de Champions, lá está Cristiano Ronaldo.

 


As diferenças entre ferrolho, catenaccio, retranca e linha de handebol
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André Rocha

Como previsto neste blog antes mesmo da bola rolar na Rússia, a Copa do Mundo de 2018 vem trazendo nesta primeira rodada da fase de grupos e especialmente nas atuações da Islândia no empate com a Argentina por 1 a 1 e na do Irã, derrotada pela Espanha por 1 a 0, a marca de sistemas defensivos sólidos e organizados numa linha que costuma proteger a área com cinco, seis ou até sete jogadores.

Nas redes sociais e nos debates em TV, internet, rádio e na mesa de bar surge logo o termo “retranca”, normalmente reduzindo a estratégia das seleções que se fecham como um amontoado de jogadores guardando “covardemente” a própria meta.

Muito comum também recorrem a termos que orbitam o “glossário” habitual do futebol como “ferrolho” e “catenaccio” como sinônimos de estilos que privilegiam o trabalho defensivo. Como se fosse tudo a mesma coisa.

Não é. Até porque são práticas de épocas diferentes, com todas as suas particularidades. Seu “zeitgeist”, ou espírito do tempo. São de uma época que não volta mais, ainda que o legado de todos os eles sempre ajude a construir o que se pratica hoje.

Tudo começa no reconhecimento de que se um time tentar encarar o adversário de frente sendo inferior tecnicamente as chances de ser derrotado e até goleado aumentam exponencialmente. Jogar mal e deixa o oponente à vontade é um convite ao fracasso.

Não foi exatamente o que pensou Karl Rappan ao chegar ao Servette no final dos anos 1920 para ser jogador-técnico. Sua preocupação maior era a questão física, já que seu time era semiprofissional e iria enfrentar adversários totalmente dedicados ao esporte. Mas a questão técnica também era importante.

Por isso criou o “verrou”, ou “ferrolho”. Nada mais era que uma evolução diferente do 2-3-5 para o WM (3-2-2-3). Um defensor protegendo a linha de três zagueiros, um centro-médio à frente de dois meias, dois pontas e um centroavante. Uma espécie de 4-3-3 com líbero. Encaixando no sistema rival. Cada um marca o seu e um homem sobra. Com o olhar de hoje, nada demais.

O “ferrolho” da Suíça em 1938 que chamou atenção pela solidez defensiva. Basicamente um 4-3-3 com líbero (Tactical Pad).

Mas chamou atenção na época especialmente na Copa do Mundo de 1938, a última antes da Segunda Guerra Mundial. A Suíça de Rappan venceu a Inglaterra em um amistoso pré-Copa e na estreia superou os alemães. Acabou vencido pelos húngaros e voltaram para casa. Marcaram época, porém.

E o que marcaria o conceito de “retranca” também estava lá na Suíça. Não exatamente com quantos se defende, mas como se ataca. O time poderia jogar em qualquer sistema, mas se atacasse apenas em velocidade com bolas longas para seus atacantes, chegando com apenas três ou quatro na área adversária e marcasse poucos gols já era chamado de time “covarde”.

Como o Fluminense nos anos 1950, cujo grande destaque era o goleiro Castilho e vencia seus jogos por placares magros em tempos de gols em profusão. Por isso ganhou o apelido de “timinho”. Mas vencia.

Multicampeão foi Helenio Herrera, argentino que comandou a Internazionale de 1960 a 1968, mas com passagens pelas seleções de Espanha e Itália. O treinador que atualizou o “catenaccio”, a porta trancada. Estratégia que teve seu primeiro ensaio no “Método” de Vittorio Pozzo, bicampeão mundial de 1934 e 1938 pela Itália e a consolidação com Nereo Rocco, vice-campeão italiano de 1948 com o Triestina e que depois se consagraria no Milan dos anos 1960.

Herrera contestava o rótulo defensivista para sua estratégia que adaptou o volante Picchi como líbero para que Fachetti tivesse liberdade para atacar pela esquerda como o “terzino fluidificante”. O armador espanhol Luís Suárez, chamado de “regista”, acionava o trio de ataque em contragolpes. O conceito ofensivo de Herrera não podia ser mais atual: poucos toques na bola e velocidade. “Se você toca verticalmente e perde a bola, o prejuízo é pequeno. Mas se perder tocando horizontalmente pode levar um gol”, explicava.

Helenio Herrera armou o “catenaccio” na Internazionale com líbero para permitir que Facchetti tivesse liberdade para apoiar pela esquerda. Time de toques rápidos e velocidade no ritmo do “regista” Luis Suárez (Tactical Pad).

A estratégia da Itália campeã mundial em 1982 que eliminou o lendário Brasil de Telê Santana até hoje é chamada erroneamente de “catenaccio”. A seleção do treinador Enzo Bearzot praticava mesmo o “gioco”. Com o líbero Scirea, o “terzino” Cabrini, o “regista” Antognoni e Bruno Conti, o “ala tornante”, ou o ponta que retorna para transformar o 4-3-3 em 4-4-2. A proposta, porém, embora reativa contra equipes superiores tecnicamente, valorizava mais a bola e tinha alguma preocupação estética, com o jogar. A marcação era mista, por zona ou encaixe para a maioria dos jogadores e individual com o grande talento do adversário. Quem não lembra de Gentile perseguindo Zico e Maradona por todo o campo?

No Brasil, as retrancas sempre foram tratadas como o único recurso para o time inferior. Algo inconcebível para times grandes. Os quatro da defesa mais o volante, o meia-armador e o “falso ponta” recuados para que a equipe atacasse apenas com três homens. Viviam de uma “bola vadia” para vencer. Era o que faziam os times médios e pequenos contra esquadrões como o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, a Academia do Palmeiras, o Cruzeiro de Tostão, o Flamengo de Zico, entre outros tantos.

Milton Buzzeto, Paulinho de Almeida e Pinheiro foram “retranqueiros” célebres, comandando times pequenos que se fechavam e tomavam pontos dos grandes. Muitas vezes apelando para faltas violentas e esburacando os gramados para dificultar a vida das equipes mais técnicas.

Há, porém, uma diferença clara entre os métodos citados e as atuais linhas “de handebol”. Enquanto o “ferrolho”, o “catenaccio” e a retranca tinham o jogador adversário como referência com perseguições individuais, o trabalho sem a bola na atualidade, na grande maioria dos casos, procura fechar espaços de acordo com a região em que está a bola. Marcação por zona.

O “marco zero” surgiu por necessidade. José Mourinho perdeu Thiago Motta expulso no Camp Nou contra o Barcelona de Pep Guardiola na semifinal da Liga dos Campeões 2009/10 precisando administrar uma vantagem de dois gols, mas que pela vitória por 3 a 1 da Internazionale em Milão podia escapar com uma derrota por 2 a 0.

Com a desvantagem numérica, Mourinho abriu mão totalmente da posse de bola e da possibilidade de contra-atacar e plantou seu time na frente da área. Mas não de forma desordenada. Criou uma linha de seis ou sete jogadores para ao mesmo tempo negar espaços para as arrancadas de Lionel Messi e também as infiltrações por dentro, mas sem deixar de cuidar dos jogadores abertos que eram um dos segredos do esquadrão blaugrana para abrir as defesas adversárias.

José Mourinho armou a “linha de handebol” com sete homens, inclusive Samuel Eto’o protegendo a própria área do Barcelona de Guardiola. E o futebol começou a mudar. (Reprodução ESPN)

Sofreu apenas um gol e ainda viu o Barça apelar para Piqué como centroavante nos minutos finais. Já que não havia como infiltrar, a saída foi levantar bolas na área. Mourinho tirou o Barça de seu conforto, alcançou uma classificação heroica para a final da Liga dos Campeões que terminaria em título. O último da Champions do clube e do treinador. Mais que isto, sua resposta a Guardiola mudou o futebol mundial.

Alguns treinadores tentaram copiar os conceitos do catalão, mas a maioria, quando necessário, assimilou mesmo o “ônibus” de Mourinho. Já que o jogo passou a ser feito em 20, 30 metros, o time concentra o maior número de corpos nos espaços certos perto da própria área para impedir que o adversário entre. Como no handebol.

O desenho tático pode variar. Uma linha de quatro defensores pode ganhar mais dois pelos lados e passar a ser formada, na prática, por seis homens. Ou sete, se a linha for de cinco ganhando mais um zagueiro. Mas dois jogadores para impedir os chutes de fora da área com liberdade e um único atacante.

Mourinho tirou a vergonha e colocou a inteligência na retranca. Junto com outros treinadores foram aprimorando os conceitos ao longo do tempo. Sem deslealdade ou jogo sujo, apenas posicionamento e concentração. É claro que no mais alto nível fica difícil competir com equipes mais versáteis e talentosas – e Mourinho vem sofrendo com isso nos últimos anos.

Mas para confrontos como o dos iranianos comandados por Carlos Queiroz diante dos favoritos espanhois é uma estratégia legítima e até lógica. Embora não agrade as retinas deste que escreve, muitos conseguem até enxergar beleza na prática.

Irã com seis jogadores protegendo a própria área: quatro defensores e os dois pontas voltando como laterais para conter a Espanha (reprodução TV Globo).

Só não é tudo igual. As linhas de handebol podem até ser consideradas uma evolução de “ferrolho”, “catenaccio” e “retranca”. Mas as práticas e os princípios são bem distintos. Basta ter olhos de ver.

 

 


Seis lições que o Real Madrid deixa para as seleções da Copa do Mundo
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André Rocha

Foto: Kai Pfaffenbach/Reuters

Sergio Ramos à parte – ou aproveitando apenas o melhor de um dos grandes zagueiros do futebol mundial -, o Real Madrid impõe com o tricampeonato e os quatro títulos nas últimas cinco edições uma supremacia única na Era Champions League do maior torneio de clubes do mundo. Tempos em que clubes são maiores que as seleções, ainda que a Copa do Mundo siga imbatível no tamanho e na repercussão, até por acontecer com menos frequência.

O time de Zinedine Zidane ganhou três Ligas dos Campeões e apenas uma liga espanhola. É de mata-mata. Ou só de “mata”, como provou nas finais que venceu. Como será para as seleções no Mundial da Rússia a partir das oitavas de final. Por isto o blog destaca seis lições que esta equipe deixa para os países envolvidos, especialmente o grupo de favoritos:

1 – Todo pecado será castigado

Errar contra o Real costuma ser letal. Até rimou. Mas tem sido assim. É um time que não perdoa vacilos. PSG, Juventus, Bayern de Munique e Liverpool. Todos tiveram períodos de domínio ou de equilíbrio e sucumbiram em falhas, individuais ou coletivas. Assim também nas outras duas conquistas. Já os equívocos dos merengues não foram aproveitados com a mesma competência. Em 180 minutos, imagine em, no máximo, 120 a importância de minimizar erros. A precisão, como sempre, será fundamental.

2 – A força da mente

O gigante de Madri se alimenta de confiança que proporciona conquistas que aumentam a força mental. Para sair de situações complicadas e também atropelar quando o oponente baixa a guarda. Tantas vezes a desorganização dos setores em campo foi compensada com uma autoridade que intimida. Até os árbitros, diga-se. Mas não deixa de ser um mérito. Tantas vitórias transmitem a certeza de que no fim tudo terminará bem e joga a insegurança natural em um jogo grande para o outro lado.

3 – O talento é fundamental

Zidane foi um dos maiores jogadores da história do esporte. Tinha um talento especial que quando foi potencializado pelo coletivo produziu maravilhas nos gramados do planeta. Como treinador manteve esta convicção e explora o melhor de seus atletas. Porque uma bicicleta de Cristiano Ronaldo, um voleio de Bale, uma assistência de Kroos e um drible de Marcelo podem desmoronar qualquer modelo de jogo. Ainda que nenhum país consiga reunir craques como os clubes bilionários, quem tem qualidade deve explorá-la muito bem.

4 – A melhor notícia é não ter novidades

Os mesmos onze titulares em duas finais de Liga dos Campeões. Só o Real Madrid conseguiu. E a base mudou bem pouco desde 2014. O entrosamento também foi um trunfo. Para jogar ao natural, “de memória”. No universo de seleções é ainda mais importante, pela impossibilidade do trabalho diário ao longo das temporadas. Não por acaso, Espanha e Alemanha venceram os últimos mundiais usando Barcelona e Bayern de Munique como bases. A renovação é inevitável, mas quanto menos mexer durante a Copa, melhor.

5 – Fase de grupos não diz muita coisa

Nas últimas duas conquistas, o Real não terminou na liderança do seu grupo na primeira etapa do torneio continental. Ficou atrás do Borussia Dortmund em 2016 e do Tottenham no ano passado. Ainda que a Copa não tenha a pausa de dois meses, nem sorteio de confrontos, a lógica segue a mesma: jogos eliminatórios são de outra natureza, envolvem outras valências e a tradição costuma contar muito. No universo das seleções, com seu grupo seleto de campeões mundiais, mais ainda. Fase de grupos é para se classificar.

6 – Serenidade e simplicidade no comando

Se há algo para Pep Guardiola, sempre pilhado demais na Champions, e outros treinadores pelo mundo devem aprender com Zidane é que num ambiente que já carrega pressão descomunal por envolver paixão e muito dinheiro, quanto mais calma o comando passar, melhor. E mesmo quando promove variações táticas ou na proposta de jogo, o treinador merengue faz com simplicidade, para que os atletas entendam e executem. Sem chamar para si os holofotes. Até porque não há revolução a ser feita numa Copa do Mundo. É jogar com calma e atenção nos detalhes.


Real Madrid tem vivência em finais. Liverpool precisa “enlouquecer” em Kiev
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André Rocha

Carvajal, Varane, Sergio Ramos, Marcelo, Modric, Isco, Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo. Nove jogadores que estiveram em campo na primeira final de Liga dos Campeões do Real Madrid na década. Estádio da Luz, Lisboa, há exatos quatro anos.

Nove que sofreram e transformaram o alívio do golpe salvador de Sergio Ramos no último ataque na apoteose dos três gols na prorrogação sobre o Atlético de Madri e o êxtase de “La Decima” para o maior ganhador do torneio.

Em 2018, os nove estão entre os relacionados para a decisão contra o Liverpool em Kiev. Buscando o tricampeonato depois das conquistas em 2016 e 2017. A quarta final em cinco edições. Conhecem o clima, a diferença de mata-mata para jogo único, a expectativa, o batalhão de jornalistas, os olhos do mundo.

Contam também com algo fundamental: apenas experiências vitoriosas como referências para tentar repetir o feito e entrar definitivamente para a história como os primeiros tricampeões da era Champions. Igualando o lendário Bayern de Munique de Franz Beckenbauer e Gerd Muller, os últimos a ganhar a Europa três vezes seguidas.

Não é pouco. Muito menos algo para ser tratado de forma blasé, como se já estivessem fartos de levantar taças. A mentalidade vencedora do Real Madrid na Champions impressiona. E pode ser o grande trunfo na Ucrânia. Decisões são resolvidas na maioria das vezes com força mental e qualidade individual. Como a maioria dos onze duelos em 180 minutos ou mais de mata-mata deste time sob o comando de Zinedine Zidane. Sofrendo e saindo de situações difíceis com frieza e eficiência.

Em meio à tanta tensão, a confiança ajuda mais que qualquer vantagem tática que pode surgir no confronto. Os 4 a 1 sobre a Juventus em Cardiff foram a grande prova do rolo compressor que o Real Madrid pode se tornar quando a qualidade técnica e o entrosamento encontram o melhor cenário psicológico do duelo.

Tudo que o Liverpool precisa evitar. Se entrar aceitando a condição de “zebra”, apesar do que representa a camisa cinco vezes campeã, a chance de sucumbir é enorme. Até pela inexperiência em finais de todos, desde Jurgen Klopp até Mohamed Salah, artilheiro e candidato ao prêmio de melhor da temporada.

A solução? A mesma dos melhores momentos na temporada: pé fundo no acelerador. O “gegenpressing” de Klopp no volume máximo. Perde e pressiona com fúria por todo o campo. Como se não houvesse amanhã. Assumindo os riscos de um oponente com a técnica do Real se livrar e chegar com igualdade ou superioridade numérica no ataque.

Mas com boas chances também de recuperar e acionar rapidamente o tridente Salah-Firmino-Mané. De intensa movimentação do brasileiro que vai buscar as costas de Casemiro para acionar seus companheiros entrando em diagonal, nos espaços entre Carvajal e Varane ou Sergio Ramos e Marcelo. Defesa que não vem demonstrando a segurança de outros momentos desta trajetória vencedora recente. Pode causar estragos.

No “jogo mental” da decisão, o melhor cenário para os Reds é tirar o favorito do conforto de jogar como protagonista. Os vividos madridistas estão acostumados a encontrar medo nos olhares do outro lado do campo. O que farão se encontrarem fome, fúria e uma vontade inquebrantável de deixar a vida no campo em busca da glória? Ainda mais considerando que o Real vêm de sustos em casa contra Juventus e Bayern de Munique, quando foi dominado e podia ter sido eliminado.

Não será fácil para Klopp convencer seus comandados a deixarem o comportamento padrão de respeito, estudo, aprumar os nervos nos primeiros minutos. Ou a sedutora ideia de dar a bola ao Real e esperar os espaços aparecerem para seu ataque rápido e demolidor. Mas o Liverpool já fez isso antes e o desempenho caiu absurdamente. Inclusive com alguns riscos, como o primeiro tempo na volta em Manchester contra o City e a segunda etapa contra a Roma no Estádio Olímpico.

Diante do bicampeão do continente qualquer vacilo em 90 minutos pode ser letal. Melhor “enlouquecer” e, se tudo der errado, ser lembrado pela coragem de tentar fazer diferente. E para isto ninguém é melhor que Klopp, o “maluco beleza”, o Nigel Mansell do futebol. Capaz de transfomar Kiev num “hospício” e fazer história. Alguém duvida?


Messi, CR7 e Champions são “culpados” pela disparidade nas ligas europeias
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André Rocha

Foto: Sergio Perez / Agência Reuters

O Bayern de Munique garantiu o sexto título consecutivo da Bundesliga, conquista inédita, com cinco rodadas de antecedência. Na França, o Paris Saint-Germain retomou do Monaco a hegemonia também disparando e confirmando matematicamente faltando cinco rodadas. A Juventus na Itália teve mais dificuldades, porém superou o Napoli e faturou o heptacampeonato nacional.

Na Premier League há maior alternância de poder, mas o Manchester City de Pep Guardiola liderou de ponta a ponta e empilhou recordes: chegou aos 100 pontos em 38 jogos e ainda fez história com mais vitórias (32), triunfos consecutivos (18), gols marcados (105), saldo (+79) e os 19 pontos de vantagem sobre o segundo colocado.

Se somarmos tudo isso ao domínio do Barcelona nesta edição da liga espanhola, com a invencibilidade perdida apenas na penúltima rodada com vários reservas e uma atuação desastrosa do colombiano Yerri Mina nos 5 a 4 do Levante. mas título confirmado faltando quatro jogos, temos um cenário em que as principais ligas da Europa não reservaram disputas mais acirradas.

A senha para os disseminadores do “ódio ao futebol moderno”, muitos confundindo equilíbrio com qualidade, protestassem contra este cenário em que, para eles, apenas a disparidade econômica justifica essa vantagem dos campeões.

O grande equívoco é desprezar a enorme competência e know-how desses clubes. O Bayern ostenta a melhor geração de sua história ao lado da de Beckenbauer, Gerd Muller e Sepp Maier nos anos 1970. O mesmo vale para a Juventus. O PSG nem há como comparar e no caso do Manchester City há um retrospecto de conquistas na década, mas principalmente a presença do “rei das ligas” Guardiola, com sete conquistas em nove temporadas por três clubes e países diferentes.

Sem contar Barcelona e Real Madrid com os grandes times de sua história. E os maiores jogadores de todos os tempos nos dois clubes. Competindo na mesma época. Eis a chave para todo este cenário.

Messi e Cristiano Ronaldo venceram as quatro últimas edições da Liga dos Campeões. Se considerarmos desde 2007/08, dez anos, são sete: Manchester United com uma, Barcelona e Real Madrid com três. E os merengues em mais uma decisão podendo ampliar este retrospecto.

Em tempos recentes nunca houve nada parecido. Um fenômeno que subiu o patamar da Champions para níveis estratosféricos. De interesse, inclusive, pela sedução de se medir entre grandes da história. Com isso, o sarrafo foi parar no topo. Para desafiá-los é preciso estar em um nível de excelência em desempenho. Em todos os aspectos – físico, técnico, tático, mental, logística…

Resta aos desafiantes investir. Em elenco, comissões técnicas, estrutura…Internazionale, Chelsea e Bayern de Munique conseguiram superá-los, com os alemães ainda acumulando dois vices e os ingleses um. Manchester United, ainda com CR7, Borussia Dortmund, Juventus e Atlético de Madri chegaram às decisões, mas não conseguiram equilibrar forças em jogo único. PSG e City seguem lutando para furar a casca e entrar no grupo de clubes mais tradicionais. O Liverpool, finalista depois de onze anos, tenta voltar à elite. Mas não é fácil.

Com esse nível tão alto, quem não consegue acompanhar vai perdendo o bonde da história. E os gigantes trabalham para ficar cada vez melhores de olho no principal torneio de clubes, dominado por Messi e Cristiano Ronaldo com seus históricos Barcelona e Real Madrid, mesmo com o time blaugrana de fora das últimas três semifinais.

Como consequência sobram em seus países. Elenco numerosos, estruturas fantásticas, ótimas comissões técnicas. Nos casos específicos de Bayern de Munique e Juventus, os títulos consecutivos acontecem também porque não há como se acomodar com as conquistas nacionais. Não são a prioridade. Então mesmo sobrando os processos são revistos e aprimorados, o elenco ainda mais qualificado. O time que está ganhando se mexe e fica ainda melhor. Pensando em Barça e Real Madrid.

Mas não basta só dinheiro. Ou o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp não seria bicampeonato alemão de 2010 a 2012, o Atlético de Madri não teria superado os gigantes na Espanha em 2014. O mesmo com o Monaco contra o PSG na temporada passada e, caso a Juve não tivesse deixado a Champions ainda nas quartas eliminada pelo Real Madrid e dividisse esforços por mais tempo, o Napoli poderia ter fôlego para terminar na frente. Sem contar o fenômeno Leicester City na liga mais valiosa do mundo em 2015/16. Se não jogar muito não vence. A tese do “piloto automático” é furada.

Mais do que nunca o futebol no mais alto nível exige superação constante. Com regularidade, consistência. “Culpa” de Messi, Cristiano Ronaldo e da Liga dos Campeões que levam o esporte para outra galáxia. Ainda bem que estamos vivos para ver a história sendo escrita. E até os que hoje reclamam vão sentir saudades, mesmo que não admitam.

 

 


VAR agora é regra! Porque o “molho” do futebol é o melhor sair vencedor
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André Rocha

A International Football Association Board (IFAB), órgão da FIFA responsável por regulamentar as regras do futebol, anunciou mudanças para os próximos dois anos. Entre os pontos mais relevantes se encontram a permissão para a quarta substituição na prorrogação e a introdução do árbitro de vídeo (VAR), já valendo para a Copa do Mundo na Rússia. Leia mais AQUI.

Impressiona como a utilização do árbitro de vídeo possa ser algo tão contestado no Brasil. Talvez porque se os erros de arbitragem forem minimizados para muita gente vai faltar assunto. Seja em programas de debates na TV e no rádio, seja nas mesas de bar e o fetiche das teorias de conspiração.

Mas basta pensar em um futebol profissional, com investimentos cada vez maiores e muito em jogo nas principais competições para concluir o óbvio: decisões tão importantes não podem ficar a cargo apenas dos olhos de quem está no campo. Em fração de segundos, nem sempre em uma posição privilegiada para a melhor interpretação.

É óbvio que ainda haverá erros ou lances muitos questionáveis. As câmeras e os demais recursos tecnológicos continuam sendo ferramentas para a análise e a interpretação de um ou mais indivíduos, com todas as suas imperfeições, incoerências e fraquezas.

Mas só de evitar erros grosseiros, muitas vezes detectados na TV sem precisar de repetição ou câmera lenta, já será um enorme avanço. Assim como oficializa o uso “informal” dos recursos, como fica nítido em algumas partidas jogadas no Brasil, mas não se admite por ser uma irregularidade.

O lateral Marcelo, do Real Madrid e da seleção brasileira, disse após o clássico contra o Barcelona no fim de semana que era contra o VAR porque “tira o molho do futebol”. Os detratores desta modernização vibraram, assim como o erro dos árbitros de vídeo no Campeonato Australiano.

Muito fácil para o brasileiro dizer isso depois de ver sua equipe prejudicada em uma partida que objetivamente nada valia pelo Campeonato Espanhol. Mas beneficiada por erros tão graves quanto na Liga dos Campeões, grande objetivo do time merengue na temporada. Inclusive num pênalti que o próprio brasileiro admitiu ter cometido colocando a mão na bola dentro da área. Mas sem mudar o resultado final da partida.

Para quem joga no time grande, de fato, o VAR pode atrapalhar muito. Afinal, na dúvida e precisando decidir em um segundo, a arbitragem muitas vezes pende para o mais forte e influente temendo uma punição maior caso tenha se equivocado na interpretação.

Mas se o que torna o esporte tão apaixonante é sua imprevisibilidade, nada melhor que um recurso que aumente as chances do menor vencer o mais poderoso. Dizem por aí que o bom do futebol é que ele não é justo e um time pode vencer sendo dominado e acertando apenas um chute a gol. Então que o VAR seja mais uma ferramenta que possibilite que ninguém interfira nessa particularidade.

Que venha o árbitro de vídeo! Porque o verdadeiro “molho” do futebol é o melhor – ou o mais eficiente ou o mais feliz nos 90 minutos – saindo de campo com a vitória.