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Quartas da Champions: duelos de gigantes e entre semelhantes
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André Rocha

ATLÉTICO DE MADRID x LEICESTER CITY – Dureza para os dois times. Para o Atlético porque entra como favorito absoluto, obrigado a propor jogo e dar o contragolpe. Para o Leicester também, já que será azarão, mas não tanto como se encarasse um gigante como Bayern, Barcelona e Real Madrid.

Interessante para ver essa versão do time de Simeone, que ocupa o campo de ataque e valoriza mais a posse de bola no ritmo de Saúl Ñíguez, mas sem deixar de ser compacto e concentrado, diante do campeão inglês que só joga em velocidade, vai entregar tudo no trabalho defensivo para definir em casa com o melhor de Vardy e Mahrez.

FAVORITO – Atlético de Madrid

BORUSSIA DORTMUND x MONACO – Duelo de intensidade máxima e vocação ofensiva, com times se arriscando dentro e fora de casa. Porém sem tanto controle de jogo. Ou seja, quem abrir vantagem na ida sofrerá se quiser administrá-la na volta.

Dembelé e Aubameyang contra Bernardo Silva e Mbappé. Thomas Tuchel versus Leonardo Jardim. Confronto sem a pompa dos duelos de gigantes, mas que promete demais. Muitos gols. Time alemão leva pequena vantagem pela cancha maior na competição.

FAVORITO – Borussia Dortmund

BAYERN DE MUNIQUE X REAL MADRID – Simplesmente 16 títulos em campo. Carlo Ancelotti, o mentor e campeão de “la decima”, contra Zidane, o aprendiz e atual vencedor. Dois times com camisa e experiência. Mas é difícil imaginar alguma novidade tática, já que são treinadores mais administradores que construtores.

Mesmo que a marcação individual tenha ficado para trás, é impossível não imaginar duelos como Bale x Alaba e a luta no meio-campo com Casemiro, Modric, Kroos de um lado; Xabi Alonso, Vidal e Thiago Alcântara do outro. Mais Robben contra Marcelo. Quem controlar a posse não leva vantagem necessariamente. Aposta na “sede” dos bávaros de recuperar o domínio europeu e no retrospecto positivo no confronto.

FAVORITO – Bayern de Munique

BARCELONA X JUVENTUS – A reedição da final da temporada 2014/15. Mas desta vez com o time catalão sem a consistência da última conquista e a equipe que domina a Itália há tempos mais cascuda e querendo revanche da decisão no Estádio Olímpico de Berlim.

A Juve parece ter uma formação mais equilibrada, com Mandzukic sendo o centroavante que infiltra pela esquerda para se juntar a Higuaín e Dybala no centro e receber as bolas de Cuadrado e Daniel Alves, que conhece muito bem o adversário. Mas o Barça, apesar das oscilações e dos problemas defensivos, tem o tridente genial e a sensação de que pode tudo depois dos 6 a 1 sobre o PSG.

FAVORITO – Barcelona

 

 


Futebol inglês: ou muda calendário e tradições, ou vira piada na Europa
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André Rocha

Entre os oito classificados para as quartas-de-final da Liga dos Campeões, apenas um representado a Inglaterra: o Leicester City, atual campeão. Clube que teve como trunfo na temporada anterior estar totalmente focado na Premier League.

Agora, acusado de economizar suor na competição nacional por conta dos problemas de relacionamento com o ex-treinador, Claudio Ranieri, teve gás sobrando para a disputa do torneio continental e despachou o Sevilla no King Power Stadium.

O Chelsea, líder e virtual campeão inglês desta temporada, também leva vantagem na disputa da liga por não dividir atenções com nenhuma competição europeia. Segue vivo na Copa da Inglaterra depois de eliminar o Manchester United.

Time de José Mourinho que não deve ter reclamado muito. Campeão da Copa da Liga e o único do país ainda envolvido com a Liga Europa, luta para alcançar a zona de classificação para a próxima Champions League.

O campeonato inglês da primeira divisão é considerado o mais importante do planeta. Pelo equilíbrio de forças que passa fundamentalmente por uma divisão da receita mais justa e um aumento substancial das cotas de TV. Disputado em intensidade altíssima, num jogo físico que dura os noventa minutos e atrai os olhos do mundo pela imprevisibilidade.

O grande gargalo, porém, é o calendário, ainda fincado em tradições que fogem do contexto atual. Enquanto o mundo pára no final do ano, a bola rola no Boxing Day e em jogos encavalados. Tudo isso com o intuito de atrair os olhos do mundo, mas também garantir datas para as duas copas nacionais, enquanto a grande maioria dos países disputa uma só.

E ainda preservam o “replay”, jogo extra disputado em caso de empate na Copa da Inglaterra. O Manchester City perdeu tempo de preparação para a sequência da Premier League e da Liga dos Campeões para enfrentar o Huddersfield Town, da segunda divisão, pelas oitavas de final. Ao menos para esta temporada acabaram com os jogos extras nas quartas de final.

Mas é preciso rever ainda mais o calendário. Porque mais tradicional que as copas e os jogos na virada do ano é ver os times ingleses fortes na Liga dos Campeões. De 12 títulos, mas o último em 2012 com o Chelsea. Conquista improvável e baseada exatamente na prioridade dada ao torneio.

Desde 2008/09, quando colocou United, Chelsea e Arsenal nas semifinais, mas o título ficou com o Barcelona, só conseguiu emplacar um time entre os quatro primeiros: título com os Blues, vice dos Red Devils em 2011, o Chelsea de Mourinho entre os quatro em 2014 e o Manchester City na semifinal inédita na última edição contra o Real Madrid.

Para piorar, o Arsenal de Arsene Wenger leva um 10 a 2 no agregado do Bayern de Munique e é eliminado nas oitavas de final pela sétima vez consecutiva. Mesmo com alguns erros gritantes da arbitragem em Londres, não deixa de ser um vexame.

É muito pouco. Suscita dúvidas da real força da Premier League ver os espanhois dominando o continente há três temporadas com Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid, mais o Sevilla tricampeão da Liga Europa. A Alemanha colocando Bayern de Munique e Borussia Dortmund novamente entre os oitos melhores.

E a Inglaterra apenas com o Leicester City, maior azarão do sorteio das quartas. Inusitado, mas tragicômico. O perigo é o futebol jogado no país virar piada na Europa.


Viva o Monaco! E Guardiola volta para casa com duas substituições a fazer
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André Rocha

O Monaco repetiu em casa a estratégia da partida em Manchester: intensidade máxima e volume sufocante no primeiro tempo. Com muita gente no campo de ataque e a qualidade de Mendy, Fabinho, Lemar, Bernardo e Mbappé, mesmo sem o lesionado Falcao, abriu os 2 a 0 que precisava.

Finalizou seis vezes, três na direção da meta de Caballero. Contra zero do City que não jogou. Sequer conseguiu mais posse – terminou com 49%. David Silva parecia jogar uma rotação abaixo.

Tudo mudou na segunda etapa. O time francês comandado por Leonardo Jardim dá a impressão de não saber controlar jogo, é muito vertical. O desgaste veio naturalmente e o City começou a se impor.

Mas Aguero perdeu duas chances cristalinas. Foi preciso Sané entrar em cena para os visitantes alcançarem o gol que parecia encaminhar a classificação. Mbappé e Fabinho, autores dos gols, sumiram exaustos na segunda etapa. O jovem atacante, inclusive, deu lugar a João Moutinho para segurar a vantagem.

Construída na bola parada letal, complicadíssima de ser bloqueada. Bakayoko foi preciso no deslocamento e no movimento para o cabeceio. Aí valeu a fibra, a vontade de fazer história, de repetir a trajetória da temporada 2003/04 se metendo entre os grandes do continente.

A classificação dos franceses é um sopro de renovação. Em termos de proposta de jogo ultraofensiva, mas especialmente nos nomes que devem ser disputados a tapa na próxima janela de transferências. O Monaco jogou para se classificar, dentro e fora.

Mas a pergunta do título do post não quer calar. Por que Guardiola trocou apenas Clichy por Iheanacho? O City jogou quarta-feira pela Premier League, no sábado pela Copa da Inglaterra. Lutou demais na segunda etapa, terminando com 59% de posse e equilibrando nas finalizações. Era preciso, no mínimo, reoxigenar o time.

Tentar para não se arrepender por não ter arriscado. Era sua primeira eliminação antes das semifinais. Quem sabe Yaya Touré na área adversária, ou tentando um chute de fora? Qualquer coisa para mudar o cenário desfavorável. Nada justifica, nem um elenco sem o potencial dos que comandou anteriormente.

Na última tentativa, De Bruyne, com a camisa encharcada, exausto, bateu fraco a falta nas mãos do goleiro Subasic.

O Monaco se junta ao Leicester como as novidades nas quartas da Liga dos Campeões. E Guardiola volta para casa. Indecifrável.

(Estatísticas: UEFA)

 


Classificação do Leicester é obra de Ranieri, não de Shakespeare
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André Rocha

Mesmo com todo o discurso pé no chão da diretoria do Leicester City, focando apenas na manutenção na Premier League, a Liga dos Campeões foi tratada com sonho realizado no clube desde a confirmação da vaga na campanha do título.

A boa campanha na fase de grupos aumentou a sensação de que era possível. Reforçada pelo cruzamento com o Sevilla, que comparado com os gigantes europeus parecia acessível. E foi.

O atual campeão inglês, a rigor, perdeu apenas Kanté dos titulares na campanha vencedora. Desfalque seríssimo, mas que num torneio de mata-mata acaba sendo diluído pela capacidade de superação. Ainda mais pela entrega de Ndidi.

Logo, nada há de romântico nesta classificação do Leicester. Muito menos depois da nítida mudança de “humor” no campeonato inglês depois da demissão de Claudio Ranieri. Onde a gratidão e a lealdade se esvaneceram por um sanduíche de frango.

O time foi o de sempre no King Power Stadium. Duas linhas de quatro compactas, só teve posse de bola enquanto precisou construir o resultado. A partir do gol de Morgan recuou as linhas, abusou das ligações diretas, achou o segundo com Albrighton  e precisou do goleiro Kasper Schmeichel, inclusive na péssima cobrança de pênalti de N’Zonzi.

Também contou com a noite pouco feliz de Jorge Sampaoli na montagem do seu 3-4-2-1 e com a insanidade de Nasri, que se enroscou infantilmente com Vardy com a bola rolando, na frente do árbitro Daniele Orsato. Tola expulsão que merece multa e um chá de banco no Espanhol.

O Leicester sabe jogar como azarão, especulando. Vai entregar tudo contra qualquer um nas quartas da Liga dos Campeões e deve dar trabalho, mesmo aos gigantes.

A classificação é histórica, mas não épica – termo da moda na mídia histriônica que precisa gritar e superdimensionar tudo para chamar atenção. Porque tem como pano de fundo uma traição das mais torpes.

Tudo de melhor que este time puder construir não é obra de Shakespeare, o Craig, interino que assumiu o time. É de Claudio Ranieri.

 


A noite mágica em que Neymar, e não Messi, foi Michael Jordan para o Barça
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André Rocha

É inegável que a arbitragem prejudicou muito o Paris Saint-Germain. O pênalti sobre Neymar que terminou no terceiro gol era até marcável, já que Meunier cai e obstrui a passagem do brasileiro que, claro, também se aproveita e força o contato.

Mas é um lance até discutível perto do pênalti claro de Mascherano arriscando um carrinho de braços abertos na própria área que Deniz Aytekin ignorou. Pior ainda foi penalizar o contato mais que natural de Marquinhos em Suárez, que desabou, óbvio. Sem contar os acréscimos de cinco minutos, que justificaram até a piada da placa do quarto árbitro com a frase “Até o sexto”.

O PSG também colaborou. Falhas grotescas nos três primeiros gols, incluindo a queda de Meunier. Um certo ar blasé depois do gol de Cavani. Chances cristalinas perdidas e a desconcentração que virou desespero quando saiu o quinto gol e ainda faltavam os acréscimos.

E o mais cruel: a estratégia coletiva de Unai Emery estava correta. Já que o Barcelona abria Rafinha e Neymar pelos flancos, mas os pontas de pés invertidos sempre cortavam para dentro e não buscavam a linha de fundo, o foco era aproximar as linhas do 4-1-4-1 e estreitar a marcação na entrada da área. Tudo para negar espaços a Messi.

Exatamente o que queria Luis Enrique quando armou o 3-3-1-3. Abrir o campo para esgarçar o sistema defensivo adversário e deixar frestas para o gênio argentino. Não conseguiu por esse afunilamento das ações de ataque e também por um certo conformismo do camisa dez, que a rigor só fez notar sua presença na cobrança de pênalti seca e minimalista no torceiro gol.

Já Neymar…apareceu quando o time mais precisava para tornar uma eliminação melancólica e precoce para o investimento e a visibilidade do clube em uma virada histórica e apoteótica. Golaço de falta, o quarto. Depois assumiu a cobrança de pênalti no quinto.

No lance derradeiro, levantou a bola na área e, no rebote, cortou para dentro e surpreendeu a todos ao ter a frieza, na última bola, de trocar o chute pelo toque genial de cobertura que achou Sergi Roberto livre para concretizar o milagre.

Neymar foi Michael Jordan, o astro da NBA que nos seis títulos pelo Chicago Bulls foi o melhor jogador das finais. Exatamente por chamar para si a responsabilidade no momento decisivo. No lance derradeiro. Logo na noite inesquecível no Camp Nou.

Sim, com mais um asterisco indelével nesta trajetória vitoriosa no Barça, se juntando ao empate com o Chelsea na semifinal da mesma Liga dos Campeões na temporada 2008/09, a primeira da Era Guardiola. Com a arbitragem marcando e deixando de assinalar os lances simples e nítidos nos quais se equivocou, o PSG estaria nas quartas-de-final.

É até criminoso insinuar favorecimento encomendado. Mas não sejamos ingênuos ou hipócritas: interessa a todos os envolvidos no negócio Champions League que o time mais midiático, líder de audiência no mundo todo, siga no torneio. E isso acaba respingando no árbitro. Camisa pesa e pressão de todos os lados também.

Mas Neymar fez a sua parte e, mesmo que o artilheiro, o astro, o símbolo e o protagonista continue sendo Messi, o brasileiro merece mudar de patamar no clube. Sem ele, sua personalidade, seu pensamento positivo de acreditar e tentar sempre não haveria classificação épica.

Na hora em que tudo pareceu impossível, o craque tático que hoje se sacrifica pelo time foi a estrela máxima. E a Champions ganha um favorito.


O maior zagueiro-artilheiro manda para casa o Napoli do “falso nove”
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André Rocha

O primeiro tempo em Napoles foi de intensidade máxima do time da casa e, principalmente, da movimentação do belga Mertens como “falso nove”, recuando e abrindo espaços para a ultrapassagem do trio Callejón-Hamsik-Insigne. Enlouquecendo Casemiro, Pepe e Sergio Ramos.

Emblemática no gol único nos primeiros 45 minutos. Infiltração precisa de Insigne. Uma das quatro finalizações na direção da meta de Keylor Navas, no total de onze contra cinco – quatro a dois no alvo.

Faltava um gol para o envolvente Napoli do ótimo técnico Maurizio Sarri e o San Paolo parecia pronto para criar a atmosfera que construiria a virada histórica na segunda etapa. Mas no outro lado havia o atual campeão europeu.

Um time gelado que parecia engessado e lento e passou a competir mais. Com Cristiano Ronaldo e Benzema alternando na esquerda e no centro, com o francês mais pelo lado. Modric mais ágil e Toni Kroos participativo.

E tem Sergio Ramos. Impressionante seu tempo de bola nas jogadas aéreas. A impulsão também ajuda a se impor. O movimento tem força e precisão. Dois escanteios dos pés de Kroos, um gol e outro golpe desviado por Mertens. Em cinco minutos.

A disputa acabou pelo efeito surpresa que anestesiou o estádio. Com técnica e organização, o Real controlou o jogo. Mertens murchou, Morata fechou a conta nos acréscimos. Os 6 a 2 no agregado do confronto das oitavas-de-final são um exagero pelo que se jogou. Cristiano Ronaldo segue devendo gols e bola nesta edição da Liga dos Campeões.

Mas os merengues impõem respeito pelaa camisa com as onze taças. Também têm talento e confiança para fazer mais com menos. E conta com um “supertrunfo”: Sergio Ramos, que sofreu com o “falso nove”, mas foi novamente o autêntico e maior zagueiro-artilheiro decisivo para salvar sua equipe mais uma vez.

(Estatísticas: UEFA)

 


Cinco razões para o fim do “conto de fadas” do Leicester City
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André Rocha

A demissão de Claudio Ranieri passa fundamentalmente pelo risco real de rebaixamento do Leicester City na Premier League com as cinco derrotas seguidas. A última para o Swansea, rival direto pela permanência na primeira divisão, por 2 a 0. Na 17ª colocação, está apenas um ponto a frente do Hull City, primeiro na zona do descenso.

Na Liga dos Campeões a situação nem é tão desesperadora, já que a derrota fora de casa por 2 a 1 para o Sevilla, com boa atuação no segundo tempo, torna viável a classificação para as quartas-de-final. Mas o foco da direção do clube desde o início era o mesmo da temporada passada: continuar na elite.

A grande questão é: o que fez o campeão inglês cair tanto de produção e virar do avesso em desempenho e resultado? O blog lista cinco possíveis razões para o fim do “conto de fadas”:

1 – Acabou a surpresa

O que Kanté, Mahrez e Vardy fizeram em suas carreiras que pudesse ser destacado antes do mundo descobri-los no Leicester City?  Quando um grupo de jogadores consegue combinar tão bem suas características a ponto do jogo coletivo potencializar suas qualidades ao mesmo tempo é o momento mágico de qualquer equipe.

Mais ainda quando pega os adversários de surpresa. Era difícil segurar aquele 4-4-2 intenso, sólido defensivamente e letal nos contragolpes, com eficiência absurda nas finalizações, especialmente de Jamie Vardy – sem contar os 17 gols e as 11 assistências de Riyad Mahrez. Com os holofotes da conquista veio também o estudo minucioso dos adversários e aí faltou capacidade de treinador e jogadores para encontrar novas soluções.

2 – Reconstrução dos grandes ingleses

A temporada 2015/16 foi de entressafra no comando técnico dos grandes ingleses, com a exceção do “imortal” Arsene Wenger no Arsenal: Brendan Rodgers foi demitido no Liverpool para a chegada de Jurgen Klopp; Mourinho implodiu o próprio trabalho no Chelsea e deu lugar a Guus Hiddink; Manuel Pellegrini encerrava seu ciclo para a chegada de Guardiola no City e Van Gaal desgastava-se dia a dia no Manchester United. Foi nesse “vácuo” que o Leicester se infiltrou.

Com a chegada de Antonio Conte e Guardiola, a ida de Mourinho para o United e a sequência com pré-temporada de Klopp nos Reds, além da afirmação de Mauricio Pochettino no Tottenham, natural que o Leicester de Ranieri deixasse o protagonismo.

3 – Saída de Kanté

O meio-campista francês não é craque, longe disso. Mas a combinação de um impressionante vigor físico com notável leitura de jogo faz de Kanté um jogador especial, especialmente para o alucinante futebol jogado na Inglaterra. Atuando de área a área sem cansar durante os noventa minutos. Desarmando, interceptando, antecipando com velocidade. Com a bola joga simples, ciente de suas limitações, sendo um facilitador dos companheiros com incrível mobilidade para se apresentar como opção de passe.

No Leicester sua média de desarmes era ainda maior que a atual. Segundo o site Whoscored.com, o jogador contrato ao modesto Caen alcançou média de 4,7 desarmes contra 3,6 e 4,2 interceptações contra 2,4 no Chelsea. Sua saída ajudou a desmontar a proposta de jogo de Ranieri.

4 – Liga dos Campeões

Assim como o Chelsea nesta temporada, o Leicester não precisou dividir atenções com nenhum torneio continental e, com a chance de disputar na parte de cima da tabela, a Premier League se transformou na prioridade absoluta. Agora o clube viveu, e ainda vive, o sonho de participar da principal competição de clubes do planeta. Para aumentar as esperanças, caiu num grupo mais que acessível, com Porto, Copenhague e Club Brugge, e terminou na liderança.

Mesmo com o discurso pé no chão da diretoria do clube, impossível não se envolver emocionalmente com essa participação histórica e tratá-la com carinho e dedicação. Só que não há qualidade no elenco para manter o desempenho e a sequência desgastante, especialmente na virada do ano, minou as forças do grupo.

5 – Gestão de grupo

É incrível como os italianos começam e terminam tudo com comida. Nas muitas entrevistas celebrando o título inglês, Ranieri contou que a arrancada para o título iniciou com os jogadores preparando a massa e comendo pizza depois da vitória por 1 a 0 sobre o Crystal Palace, a primeira sem sofrer gols. Segundo o treinador, após essa reunião que uniu treinador e atletas o time decolou.

Agora o veto de Ranieri aos sanduíches de frango que eram servidos aos atletas depois dos jogos, segundo os jornais e sites ingleses, teria sido o grande agente catalisador da crise de relacionamento que tornou inviável a permanência do técnico que entrou para a história do futebol mundial com a conquista improvável no ano passado. Coisas que só o futebol é capaz de construir e desmanchar.


City 5×3 Monaco – O melhor da Premier League na Liga dos Campeões
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André Rocha

Intensidade máxima, perde e pressiona, ritmo alucinante, transições ultrarápidas, reviravoltas na disputa e no placar. Jogaço imprevisível. O que se viu no Etihad Stadium foi o melhor que há na liga nacional mais competitiva do mundo dentro do maior torneio de clubes do planeta.

Méritos do Monaco de Leonardo Jardim. Time corajoso, organizado num 4-4-2 e que nunca abdicou do ataque. Nem quando o placar era favorável e a classificação mais próxima. Quando Falcao García compensou o pênalti perdido com golaço de cobertura. O segundo do colombiano na partida.

Monaco também do ótimo português Bernardo Silva, meia organizador canhoto aberto à direita e do incrível Kylian Mbappé, atacante rápido, vertical e técnico. O brasileiro Fabinho, lateral direito atuando no meio, colaborando na organização e também chegando na frente.

Só não resistiu ao volume de jogo do Manchester City, especialmente na segunda etapa. Com Sané imparável, seja buscando o fundo ou infiltrando em diagonal. O meio com Yaya Touré, De Bruyne e Silva com muita técnica e entrega e Aguero lembrando a todos por que é o maior artilheiro da história dos citizens e não o reserva de Gabriel Jesus.

Sim, o primeiro em um frango de Subasic. Mas o que empatou em 3 a 3 e pavimentou o caminho para a virada foi uma finalização espetacular de primeira completando escanteio. Ainda serviu Sané no quinto e último, depois do gol de Stones aproveitando o grande pecado francês na partida: o jogo aéreo defensivo deixou muito a desejar.

Simbólica a atuação do City combinando a posse de 62% com uma verticalidade que Guardiola não reproduziu sequer no Bayern de Munique, de cultura semelhante à inglesa. Repete a pressão no campo de ataque dos tempos de Barcelona, gosta da bola, mas ataca em ritmo alucinante, ainda que perca a posse defensiva e controle do jogo. E não se importa em jogar a bola na área quando necessário.

Deu certo na ida nas oitavas e os dois gols de vantagem são fundamentais. Só não garantem nada porque o Monaco é o ataque mais efetivo da Europa e também sabe ser forte, intenso e sufocante. Devemos ter mais um jogaço na França.

(Estatísticas: UEFA)


Um chocolate em Paris. Jogo coletivo do PSG engole os talentos do Barça
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André Rocha

O desenho do passeio do PSG: intensidade e mobilidade da equipe francesa, com destaque para os ponteiros Di María e Draxler e a inércia de um Barcelona fragilizado coletivamente e que só teve Neymar mais ativo (Tactical Pad).

Você leu antes AQUI que o Barcelona estava previsível, com as ações ofensivas e os mecanismos de saída de bola mapeados pelos adversários e muito dependente dos lampejos do fantástico trio MSN.

Sem Daniel Alves, negociado, e agora Mascherano, além da fase inconstante de Rakitic, o cenário ficou ainda mais complicado. Messi, Suárez e Neymar foram resolvendo ou descomplicando. Os dois primeiros com gols, o brasileiro com assistências e sacrifício tático pela esquerda.

Funcionou até encontrar no Parc des Princes um time também com qualidade individual, mesmo sem Thiago Silva, mas com organização, intensidade, alma e coragem para se impor. O Paris Saint-Germain de Unai Emery não sobra na liga francesa como nos últimos anos. Nem é o líder, está atrás do Monaco.

Mas diante de um oponente fragilizado simplesmente atropelou, com Verratti como “regista” distribuindo o jogo e Rabiot se juntando a Di María, Matuidi, Draxler e Cavani. Movimentação, jogo entre linhas e inteligência para explorar os muitos espaços cedidos por um rival zonzo. Sem a bola, pressão e posicionamento perfeito, impedindo que a bola chegasse aos três desequilibrantes. Só Neymar tentou algo pela esquerda.

Di María sobrou com dois golaços – cobrança de falta precisa no primeiro tempo. O segundo num gol à la Barcelona. Mesmo pressionado, trocou passes desde a própria área até encontrar o argentino entrando da direita para dentro e terminar com outra bela finalização.

Também pela direita, Draxler apareceu para receber de Verratti e fazer o segundo. Faltava o de Cavani e saiu depois de uma sequência de erros do Barça na saída para o ataque e contragolpes perigosos até o uruguaio colocar nas redes e, com 4 a 0, igualar o placar do passeio do Bayern de Munique comandado por Jupp Heynckes na Allianz Arena em 2013.

A diferença em relação aos outros duelos recentes entre as equipes? O jogo coletivo que engoliu os talentos. O PSG antes jogva mais em função da estrela Ibrahimovic, o time catalão trabalhava para fazer a bola chegar aos talentos para resolver no último terço. O que não se viu na França e foi minando a confiança e a força da equipe dominante nesta década.

Gigante que terá que se superar como nunca para reverter uma desvantagem que parece definitiva e historicamente nunca foi revertida em mata-mata. Muito pelo demérito do Barcelona e mais ainda pela atuação irretocável da equipe de Unai Emery.

Foram 16 finalizações contra apenas seis, dez a um no alvo. Mesmo com apenas 43% de posse. Eficiência com beleza. Um chocolate em Paris.

(Estatísticas: UEFA)


Messi e Cristiano Ronaldo: um deve um pouco ao outro o lugar na história
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André Rocha

Messi e CR7

Em 2013, o filme “Rush – No Limite da Emoção” relembrou a rivalidade de Niki Lauda e James Hunt na disputa do Mundial de Fórmula 1 de 1976, marcado pelo grave acidente que deformou o piloto austríaco com queimaduras.

Uma história romantizada, que carrega naturalmente nas tintas para se adaptar à narrativa do cinema. Lauda era o nerd arrogante e perfeccionista, Hunt o louco mergulhado no mito “sexo, drogas e velocidade”. Como a história do automobilismo criou o mito Senna, o arquétipo do bom moço em contraste com Piquet, Alain Prost e depois Michael Schumacher, com personalidades mais controversas e competitivas.

Como se alguém pudesse ser uma coisa só, um personagem “flat”, reto, sem desvios, dúvidas, contradições.

Tentam fazer o mesmo com a maior rivalidade entre dois craques na história do futebol. Cristiano Ronaldo, o vaidoso que exalta seus feitos, seus carros, suas modelos a tiracolo. Lionel Messi, o moço tímido e pacato, que quase não fala e não gosta de aparecer.

Como se o português não fosse um exemplo de profissionalismo e uma liderança positiva no Real Madrid e na seleção, além de protagonizar belas histórias de solidariedade e altruísmo, e o outrora discreto Messi não fosse capaz de aderir a um visual que misturava Neymar com Chuck Norris ou usar ternos “exóticos” nas premiações da FIFA ou criticar publicamente a desorganização da AFA.

A única verdade em todas essas rivalidades, tanto nas mais respeitosas quanto nas notoriamente agressivas, é o quanto o sucesso de um impacta no desempenho do outro.

Ou alguém duvida que a Bola de Ouro da “France Football” para Cristiano Ronaldo na mesma semana da conquista do título mundial de clubes com o Real Madrid com três gols do astro português não influiu na atuação antológica do camisa dez argentino do Barcelona nos 4 a 1 sobre o Espanyol, com direito a uma sequência mágica de dribles no segundo gol, marcado por Luís Suárez?

É assim desde 2008, quando Cristiano Ronaldo ganhou sua primeira Bola de Ouro ainda no Manchester United e Messi na sequência explodiu todo seu talento com a Era Guardiola no Barça. A ponto de fazer o português aceitar a proposta do Real Madrid para competir de mais perto, em mais competições e com toda a atenção do planeta.

Há oito anos eles alternam no posto de melhor da temporada. A ponto de atrair votos no piloto automático, até quando em uma temporada específica outros fossem superiores em desempenho e resultado – como Wesley Sneijder em 2010, por exemplo. Mas não há dúvidas de que são os melhores desta era e nunca houve uma disputa pelo olimpo tão marcante.

Nem com números tão absolutos. Goleadores máximos da história de seus clubes, quebram recordes seguidos e disputam gol a gol a artilharia do maior torneio de clubes do planeta, a Liga dos Campeões. Messi tem mais conquistas no Barcelona, mas agora Cristiano alcançou o feito que falta ao argentino: o título relevante pela seleção com a Eurocopa que Portugal venceu este ano.

Tudo para colocar ainda mais molho nesta disputa que provoca verdadeiras guerras nas redes sociais e muita discussão nas mesas de bar e nos programas de debate na mídia. Quem é melhor? Talvez Messi encante mais por ser uma espécie de mistura do melhor de Pelé e Maradona. A arte vertical, os dribles mágicos na direção do gol e o passe preciso e objetivo que coloca o companheiro na cara do gol.

Mas como questionar o melhor finalizador que o mundo já viu? Uma evolução de Romário que agora, atuando mais dentro da área adversária, aprimora as finalizações de todas as formas – pé direito, canhota, cabeça, chutes de média e longa distância, falta e pênalti. Incrível máquina de fazer gols que hoje se concentra em estar preparado física e mentalmente para decidir com o mínimo possível de toques.

Dois gênios que se alimentam da motivação de superar um ao outro. Eles se precisam. Difícil prever o que será de um quando o outro parar – o português é dois anos mais velho. Talvez enfim deem lugar a outro como protagonistas do futebol moderno. Por ora parece improvável, porque a distância é grande. Jogam em outra dimensão.

Desfrutemos, pois. Sem a necessidade humana de execrar um para exaltar o outro. Curtindo as qualidades e também os defeitos. Estimulando a competição sadia e a relação distante pelas personalidades distintas, mas cada vez mais cordial, ao menos em público. Como na foto que ilustra este post.

Elevaram a disputa a um nível inimaginável e, por isso, um deve um pouco ao outro o lugar na história do esporte. Como Lauda há 40 anos deve a Hunt o exemplo de obstinação ao voltar às pistas e competir logo após o acidente, mesmo com dores quase insuportáveis. Como Senna disse pouco antes de morrer que sentia falta do rival aposentado Prost e, de certa forma, fora tricampeão mundial por causa do francês.

Ser o melhor no que se faz deve vir de dentro. Mas quando lá fora existe uma referência para superar é difícil criar limites. Messi e Cristiano Ronaldo vão superando todos. Felizes somos nós que podemos acompanhar em tempo real uma das mais incríveis histórias do mais apaixonante dos esportes. Quem sabe nas telas dos cinemas quando bater a saudade da dupla nos campos?