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Campeonato inglês com cheiro de volta para Manchester. Pep ou Mou?
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André Rocha

Fica claro a cada partida do campeão Chelsea, inclusive no empate sem gols contra o Arsenal no Stamford Bridge, que Antonio Conte não encontrou em Morata uma reposição para Diego Costa no que o brasileiro naturalizado espanhol fazia de melhor, além dos gols: a capacidade de reter na frente as ligações diretas e passes longos.

O 5-4-1 esvazia o meio-campo e não sustenta construção de jogo com posse de bola. Sem Hazard, que volta para ajudar na articulação, fica ainda mais complicado. Por isso a superioridade do Arsenal de Arsene Wenger, que emulou o desenho tático do rival londrino e teve em Xhaka e Ramsey meio-campistas que combinaram qualidade técnica e dinâmica melhor que Kanté e Fábregas – apesar do passe precioso do espanhol para o compatriota Pedro perder à frente de Cech na melhor chance do jogo, ainda no primeiro tempo.

Com Liverpool e Tottenham oscilando mais que o esperado e o Newcastle não mostrando força até aqui para repetir a surpresa do Leicester em 2016, a Premier League começa a ganhar um aroma bem conhecido da Premier League nos últimos dez anos. Mesmo com apenas cinco rodadas.

Desde 2007, quando o Chelsea não foi campeão a taça rumou para Manchester. O United de Alex Ferguson faturou cinco, o City conquistou dois. Agora, não é exatamente a tradição que parece pesar a favor das equipes da cidade, mas a força de seus elencos e, principalmente, a capacidade de seus treinadores.

Pep Guardiola já sinaliza que o “curso” de um ano de campeonato inglês foi útil para o aprendizado. Entender o ritmo, o jogo físico, o “bate-volta” e tentar se adaptar. Jogo a jogo, demanda a demanda. Por isso a variação no desenho tático com linha de quatro ou cinco defensores, porém mantendo a ideia de jogo.

Abrir o campo com os novos laterais/alas Walker e Mendy, controlar o jogo no meio-campo alternando posse e aceleração com De Bruyne e David Silva e garantindo presença de área e poder de finalização mantendo Aguero e Gabriel Jesus no ataque, ainda que o brasileiro parta da ponta para dentro.

Como nos 6 a 0 sobre o Watford fora de casa, mas protagonista em campo atacando com volume, mas sabendo usar as jogadas aéreas com bola parada ou rolando e também explorar os espaços às costas da retaguarda adversária. Um City híbrido e inteligente. Um Guardiola mais conectado à lógica da liga mais forte do mundo.

Algo que o tricampeão Mourinho conhece tão bem. Por isso os Red Devils sob seu comando iguala a campanha do rival local: quatro vitórias e um empate, dezesseis gols marcados e dois sofridos. Mas trajetória construída de maneira bem diferente.

Um estilo baseado na força física e nas jogadas aéreas, ao menos até abrir vantagem. Depois muita velocidade nas transições e fôlego nos minutos finais, como nos 3 a 0 sobre o Everton no reencontro com Wayne Rooney dentro do Old Trafford, matando o jogo com os gols de Mkhitaryan e Lukaku depois do golaço de Valencia logo no início da partida.

Sem grande preocupação com a posse de bola, apostando sempre nos ataques verticais. Na ausência de Pogba, lesionado, Fellaini é mais um para cortar ou completar cruzamentos. Juan Mata é o ponta articulador que garante mobilidade e criação de espaços diante de adversários fechados. Um 4-2-3-1 compacto, rápido, intenso.

A retaguarda ainda não inspira confiança, mas foi vazada apenas no empate contra o Southampton. Graças às intervenções do goleiro De Gea. A do City também precisa de ajustes e sofre menos porque consegue manter a bola mais longe da meta de Ederson.

É muito cedo para qualquer prognóstico, ainda mais com tanto equilíbrio de forças e as equipes mais poderosas envolvidas em torneios continentais, fora as copas nacionais sempre desgastantes. Mas já é possível sentir um cheiro de Manchester voltando ao domínio na Inglaterra.

Ou um novo duelo Pep x Mou para atrair os olhos do mundo.


Dupla Jesus-Aguero, Danilo e Mendy. Guardiola parece ter achado melhor City
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André Rocha

A expulsão de Sadio Mané ainda no primeiro tempo após entrada imprudente e violenta sobre o goleiro Ederson praticamente definiu o jogo no Etihad Stadium. Mas o Manchester City já era superior ao Liverpool, inclusive no placar – 1 a 0, gol de Kun Aguero completando passe preciso em profundidade de Kevin De Bruyne.

O belga foi um dos destaques da formação que Pep Guardiola mandou a campo. Com Danilo como lateral-zagueiro pela direita, como Azpilicueta no Chelsea de Antonio Conte. Liberando Walker como ala, acelerando as coberturas e qualificando a saída de bola. Fora a versatilidade para mudar o desenho sem mexer nas peças.

No segundo tempo o brasileiro inverteu o lado e foi praticamente outro meio-campista no auxílio a Fernandinho. Dando suporte a Mendy que voava à esquerda para cima de Trent Alexander-Arnold, fragilizado na lateral direita da equipe de Jurgen Klopp, que de início tentou adiantar linhas e duelar pela posse de bola na execução de seu 4-3-3 sem Philippe Coutinho até no banco.

Perdeu capacidade de criação e flexibilidade. Eram três meio-campistas sem tanta qualidade no passe, dois ponteiros velozes e Firmino girando e tentando abrir espaços. Por isso teve a grande oportunidade na partida com Salah em contragolpe cedido pelo City mesmo com 1 a 0 no placar.

Efeito colateral da confiança em uma maneira de jogar que parece ter encontrado a melhor formação. O 5-3-2 que se transforma em 3-1-4-2 na retomada. Trabalhando a posse, pressionando no campo de ataque. Movimentando a dupla de ataque e abrindo o campo com os alas.

Passeio na segunda etapa com o segundo de Jesus cedido por Aguero depois de passe em profundidade letal de Fernandinho. O primeiro do atacante brasileiro saiu de cabeça, logo após a expulsão, em nova assistência do meia De Bruyne. Cruzamento cirúrgico da esquerda. O belga foi outro destaque individual em uma bela atuação coletiva.

Fica a dúvida em relação ao comportamento desta equipe diante de adversários bem fechados e com linhas compactas, de “handebol”. Porque induz o jogo posicional a abrir a jogada e fazer o cruzamento buscando a dupla de atacantes. Com espaços fica mais fácil alternar por dentro e pelo flanco.

Por isso Sané, que entrou na vaga de Jesus, também deu espetáculo com dois gols. O último golaço nos acréscimos para fechar em 5 a 0. Antes completou mais um centro de Mendy no passeio pelo setor esquerdo. Num universo de 66% de posse de bola e 12 finalizações, nove no alvo. A mira também estava afiada.

Placar histórico, que só não é a maior dos citizens no confronto porque em 1936 houve um 6 a 0.  Mais importante que o número de gols, porém, foi o desempenho. Guardiola parece ter encontrado o melhor caminho para enfim se impor na Premier League.

(Estatísticas: BBC)


O passado e o presente no Flu de Abel. O mais belo futebol do país em 2017
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André Rocha

Abel Braga não fala em amplitude, mas manda abrir o jogo. Para ele, profundidade é buscar o cruzamento mais perigoso, do fundo para trás. Intensidade é “atitude”. Desequilibrar no último terço é “partir para cima”. Valorizar a base é “botar a garotada”.

E daí? Nenhum time brasileiro em 2017 joga mais bonito que o Fluminense. Pode não ganhar o Carioca ou o Brasileiro, talvez nem se classificar para a próxima fase da Sul-Americana. Porque é um time em formação, suscetível a oscilações naturais. Três meses de trabalho.

Mas como é bom ver o volume de jogo tricolor. Ainda mais no remodelado gramado do Maracanã. Mesmo sem Gustavo Scarpa. Mas com Wellington Silva e Richarlison fazendo o que os melhores treinadores do planeta esperam de seus ponteiros: partir para cima e desmontar na base do drible e da criatividade a retaguarda postada e marcando por zona.

No 4-3-3 que Abel enxerga, embora o observador tenda a ver um 4-1-4-1 pela recomposição da dupla pelos flancos. Mas no ritmo do jogo atual é mesmo um esquema com três atacantes. À moda antiga, com um centroavante típico como Henrique Dourado

Também meio-campistas que sabem jogar. Orejuela e Sornoza, dois achados equatorianos que variam tão bem os passes, curtos ou longos, e aumentam essa impressão de um estilo plástico e vistoso. Com os laterais Lucas e Léo descendo alternadamente. O jogo brasileiro nas veias.

Posse de bola sempre acima de 60%, mesmo antes da expulsão de Gonzalo Freitas que desmanchou o organizado 4-4-2 do Liverpool com última linha posicional, como a do Corinthians de Tite e agora de Carille. Aberta pela precisão das inversões de jogo e por conta da habilidade dos ponteiros.

Na jogada de Wellington, gol de Dourado. Bela virada de Richarlison, dois a zero no primeiro tempo. Placar talvez insuficiente para a volta. Barato para as 25 finalizações, cinco no alvo. Os 43 cruzamentos também foram um exagero, era possível trabalhar mais pelo centro.

Mas também foi agradável às retinas ver Lucas Fernandes, Pedro e Marquinhos Calazans, todos jovens, entrando no segundo tempo com ousadia. Time leve e solto, arriscando as jogadas. É possível que falte mais competitividade ou consistência defensiva em um jogo decisivo. O foco, porém, está no desempenho. Ainda que Abel fale em caráter e respeito às cores tricolores.

Pouco importam os termos. Passado ou presente. Porque o Fluminense joga o futebol mais bonito do país e isso é mais que promissor.

(Estatísticas: Footstats)


FIFA? Quem deve contar sua própria história é o clube
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André Rocha

Quem sabe o valor de vencer o primeiro torneio internacional depois do Maracanazo em 1950 é o Palmeiras. Enfiar 3 a 0 no poderoso Liverpool ou superar o “Dream Team” do Barcelona com Cruyff no comando e Guardiola em campo são feitos que nenhum agente externo saberá medir tão bem quanto Flamengo e São Paulo. Os nomes de Copa Rio e Copa Toyota são meros detalhes.

A FIFA é a entidade máxima do futebol e o que ela determina é a versão oficial. Ponto. Daí a ter credibilidade para definir se uma conquista é válida ou não vai uma distância bem grande. Um abismo.

O equívoco dos clubes é ficar buscando equiparações, trazendo para o século 21 um contexto que pertence àquela época e precisa ser lembrado. A FIFA na Era João Havelange não se importava em organizar um Mundial de clubes simplesmente porque estava mais preocupada em fazer política junto aos países, no universo de seleções, para se manter no poder.

Com a mudança do lado da força para os clubes globais e milionários passou a ser interessante a criação do torneio. Mesmo que os europeus sigam tratando como um engodo, um problema no planejamento da temporada.

Cabe ao clube valorizar os ídolos do passado, explicar a relevância de uma disputa que não existe no calendário atual, mas naqueles anos, com todas as suas particularidades, valia para definir qual o melhor time do planeta. E daí se para a FIFA não era importante?

Ela não tem o poder de apagar os livros e arquivos. Nem deveria ser alvo de súplicas para equiparar o que não tem paralelo. O título já tem o seu valor, com ou sem “beija mão” na entidade. O que foi conquistado não pode virar chacota, “título por fax”. Não é justo com quem suou em campo, nem com quem lotou o estádio e comemorou no final. Não precisa de chancela. Porque se ela não vem é como se a taça nada valesse desde sempre.

Quem deve contar sua própria história é o clube.

 


Hala Madrid! Mas futebol não é, nunca foi e jamais será apenas dinheiro
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André Rocha

O futebol não é só dinheiro.

O Real Madrid confundiu jogar naturalmente, controlar e dosar o ritmo com a perda da competitividade depois do gol de Benzema logo aos nove minutos da final do Mundial Interclubes.

Veio então o bom e organizado Kashima Antlers e seu grande talento Shibasaki para lembrar que abismo técnico, financeiro e midiático só se concretiza no campo se atrelado à competência. Empate no final do primeiro tempo, virada no início da segunda etapa com gols de seu camisa dez – meio-campista de área a área que jogaria em pelo menos metade da Série A brasileira – e alimentou o sonho.

Às vezes a camisa pesa mais que o poder financeiro e o árbitro Janny Sizakwe pipocou quando deveria ter punido Sergio Ramos com o segundo cartão amarelo e, consequentemente, a expulsão do zagueiro. Poderia ter mudado a história da decisão.

Então Cristiano Ronaldo apareceu, embora nunca tenha se escondido. Tropeçou na bola em um contragolpe, perdeu gol à frente do bom goleiro Sogahata. No momento em que o time merengue mais precisava, porém, converteu o pênalti sobre Lucas Vázquez que garantiu a prorrogação, se Endo não tivesse perdido uma grande chance no lance final do tempo normal.

Em 15 minutos, o português resolveu a final com mais dois gols, desta vez com bola rolando. Para fechar um ano espetacular nas conquistas. Talvez nem tanto no desempenho. Minimalista, Cristiano não participa tanto na construção das jogadas, mas está inteiro durante os noventa minutos e mais uma prorrogação, se for necessário, para estar preparado para a finalização.

Desta vez protagonista na decisão. Três gols em finais de Mundial, só ele e Pelé, no duelo do Santos contra o Benfica em 1962.

Real cinco vezes campeão mundial.  Gigante, máquina de fazer dinheiro. Mas existe também a competência no uso dos recursos. Os três últimos campeões são Barcelona, Real Madrid duas vezes e Bayern de Munique. Times da primeira prateleira do futebol mundial, incluindo o universo das seleções.

Equipes entre as maiores, mais vencedoras e melhores da história. Sintonizadas e artífices da evolução recente do esporte. Com a qualidade que o dinheiro compra, mas também intensidade e setores bem coordenados. O mais alto nível.

Porque futebol nunca foi só dinheiro.

Se fosse, o Manchester United, das marcas mais valiosas do planeta, não estaria fora da Liga dos Campeões e, mesmo com Mourinho no comando, não sentiria tanta falta de Sir Alex Ferguson.

Se fosse, o Atlético de Madrid não teria surpreendido o mundo em 2014 com título espanhol e final de Champions e o Leicester City não viveria o conto de fadas na última temporada. Orçamentos bem mais modestos, mas rara excelência.

No mesmo Mundial com chancela da FIFA, quando o Barcelona já vivia a queda de Ronaldinho Gaúcho pós Copa de 2006, o Internacional de Gabiru não perdoou. Quando Liverpool e Chelsea ganharam a Europa sem a condição de melhores times do continente de fato, São Paulo e Corinthians conseguiram surpreender.

O próprio Real já viveu na pele o revés pela força do dinheiro. Em 2003 dispensou o operário Makelele que fazia o time funcionar e contratou a superestrela David Beckham para se juntar a Figo, Zidane, Ronaldo e Raúl. Contratação que disparou a venda de camisas, mas não rendeu títulos com todos os astros reunidos.

Hala Madrid! Mas o futebol jamais será apenas dinheiro. Porque sempre haverá um Kashima Antlers, a melhor história do Mundial de Clubes de 2016, para nos lembrar por que amamos tanto este jogo.

 

 

 

 

 


Futebol “líquido” e calendário inchado. Esta conta não vai fechar
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André Rocha

gianni infantino

A proposta deste post é cruzar informações para provocar a reflexão.

Está no ótimo blog FastFut, de Celso Miranda, o protesto de Pep Guardiola contra a proposta de Gianni Infantino de aumentar de 32 para 48 o número de seleções na disputa da Copa do Mundo e a confirmação da UEFA, inclusive com divulgação do regulamento, da Liga das Nações: competição envolvendo 55 seleções europeias a ser disputada de quatro em quatro anos a partir de 2018.

E ainda podemos ter a ampliação do Mundial Interclubes para 16 ou 32 times. Sem contar a prática cada vez mais habitual dos clubes de levar os jogadores para períodos de pré-temporada com amistosos e torneios para cumprir os compromissos comerciais de clubes globais.

Com isso, podemos ter as principais estrelas do futebol mundial entrando em campo, dependendo do desempenho de seus clubes e seleções, mais de 80 partidas em uma temporada.

É legítimo pensar que profissionais que faturam milhões e vivem essa rotina por no máximo vinte anos têm mais é que trabalhar muito mesmo. Mas há algo acontecendo em paralelo dentro de campo que será um fator complicador.

Quem traz a ideia à tona é Marti Perarnau, catalão que escreveu “Guardiola Confidencial” e agora lança “Pep Guardiola – La Metamorfosis”.

Segundo a visão do jornalista, corroborada por Paco Seirul lo, ex-preparador físico do Barcelona e agora responsável pela metodologia de treinamento do clube, o Barcelona não seria um time sólido, mas “líquido”.

As aspas estão na coluna de André Kfouri para a Editora Grande Área: “Os líquidos são menos vulneráveis do que os sólidos. Do sólido, pode-se conhecer tudo, inclusive seus pontos débeis. Você golpeia um ponto débil e o quebra. O líquido, não”. Leia o texto completo AQUI.

Líquido tem a ver com fluidez. E para fluir no futebol atual precisa ser jogado de memória, com movimentos mecanizados e numa velocidade cada vez maior. Um jogo mais rápido através de passes e deslocamentos. Sem a bola, reação imediata: “perde e pressiona”. A resposta cada vez mais rápida e intensa.

Esse futebol “líquido”, alucinante já se vê na Premier League e na Bundesliga com o Liverpool de Jurgen Klopp, o Borussia Dortmund de Thomas Tuchel, o Chelsea de Antonio Conte, o surpreendente Leipzig e outros.

O ponto não está na quilometragem percorrida pelos atletas. Não deve ultrapassar os 15 quilômetros por partida. A complexidade é aumentar exponencialmente as ações de alta intensidade. Ou seja, os sprints, a explosão da mudança de comportamento no momento com a bola e, logo após a perda, o pique para abafar a saída do adversário. Também a movimentação, a mudança de direção para fugir da marcação, entre outras.

No último parágrafo, Kfouri aborda a preparação física: “Além dos conceitos avançados e de sua aplicação em treinamentos que devem acompanhar a necessidade de novos objetivos, uma das fronteiras do jogo do futuro é a questão física. O nível de exigência para que jogadores sejam capazes de “liquidificar” times é brutal. Talvez seja por isso que técnicos como Guardiola, Klopp, Tuchel e Antonio Conte sejam obsessivos com a preparação nutricional e o descanso de seus atletas. O futebol líquido exigirá máquinas para processá-lo”.

Descanso. Preocupação dos técnicos com a QUALIDADE do jogo que vai de encontro aos interesses das federações que fazem política e querem aumentar a QUANTIDADE de partidas.

Por isso o protesto de Guardiola, que também quer o seu Manchester City com fluidez no jogo. Para fluir precisa treinar e memorizar. Exercício também mental. Mas como, sendo obrigado a viajar e dividir ainda mais a atenção com as seleções envolvidas em mais competições?

Tudo isso temperado com pressão cada vez maior por resultados. Jogadores milionários e midiáticos não devem ser mimados nem tratados como vítimas. Só que a exigência está desproporcional.

Porque com a evolução do esporte no mais alto nível não há mais a menor chance de usarmos aquela tese de mesa de bar: “Amadores jogam seis peladas por semana e não se cansam”. O futebol “líquido” já está aumentando exponencialmente a distância competitiva entre jogos e brincadeiras entre amigos.

Ou seja, esta conta não vai fechar. Guardiola sugere o aumento do número de substituições para rodar o elenco. Ajudaria, mas não parece o suficiente.

Como será o amanhã? Com clubes se rebelando contra FIFA e UEFA a ponto de partir para a desfiliação, organizando as próprias competições e negociando com mais autonomia a cessão de seus jogadores para as seleções? Difícil prever.

A única certeza é que o cenário que se apresenta com mais jogos cada vez mais intensos fica nebuloso para atletas e, consequentemente, para o espetáculo em si, que precisa de bilheteria e grana da TV. Se jogadores já se arrastam nas disputas de Copa do Mundo, Copa América e Eurocopa logo depois das temporadas europeias, a tendência é piorar.

Porque jogadores não são máquinas. Voltando ao  FastFut, palavras de Guardiola: “Os jogadores não descansam e vivem constantemente sobre pressão, ninguém pode ser saudável e ter um bom desempenho dessa forma.”

Será preciso alguém morrer em campo para que eles enfim sejam a prioridade como protagonistas e não engravatados no conforto de suas salas com ar condicionado? Tomara que não.


Derrota do vôlei feminino deixa lição: nunca deixar de competir
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André Rocha

A incrível reação do Liverpool no “Milagre de Istambul” em 2005 se deu em quinze minutos. Depois houve mais 75, os acréscimos e a decisão por pênaltis. O Milan teve chances de vencer, mas mentalmente sempre esteve em condições inferiores depois de ceder o empate.

Porque deixou de competir após fazer três gols e dar um passeio no primeiro tempo, com Kaká deitando e rolando às costas de Xabi Alonso e Gerrard e acionando Crespo e Schevchenko na frente. 3 a 0, fora o baile.

Dançou quando desconcentrou. Por não mais que quinze minutos após a volta do intervalo. Absolutamente humano. Reações como a dos Reds entram para a história por serem tão raras. Por isso os méritos do time inglês são inegáveis.

Natural que os rossoneri, mesmo experientes, esperassem um rival entregue e fosse apenas questão de tempo para administrar a vantagem. Como, por exemplo, o Flamengo de Zico em 1981 contra o próprio Liverpool em Tóquio. Outros tempos.

Não há mais espaço para relaxamento. Ou eles hoje são punidos com mais frequência. Ainda mais em disputas do nível de uma final de Liga dos Campeões. Em qualquer esporte.

Como o vôlei, seja entre homens ou mulheres. No feminino, a seleção brasileira bicampeã olímpica foi surpreendida nas quartas de final pela China que, nas palavras da própria técnica Lang Ping, veio ao Rio de Janeiro pensando em Tóquio 2020.

Massacre brasileiro no primeiro set: 25 a 15. A campanha sem perder sequer um set na primeira fase era uma lembrança mais fresca que os 3 a 0 sofridos para as orientais no Grand Prix há dois meses.

A desconcentração foi nítida, inclusive do torcedor no Maracanãzinho que imaginou um triunfo protocolar. É bem provável que já estivessem pensando na semifinal. Até pela expressão aparentemente conformada de Lang Ping e suas comandadas.

Engano. As chinesas entraram no jogo, encontraram em Natália a fragilidade no passe, apesar da força no ataque, e apostaram na gigante Ting Zhu como o ponto de desequilíbrio. E foi, com 28 pontos.

Sim, as meninas de Zé Roberto reagiram, venceram o quarto set e equilibraram o tie break. Mas o estrago na própria confiança e o “doping” emocional no adversário já eram realidade. A sequência euforia-relaxamento-surpresa-desespero costuma ser devastadora mentalmente. E a China jogou demais, atuação memorável.

Não é regra. No vôlei e em outros esportes há casos de viradas sobre reações. Abrir vantagem, ser surpreendido mas se recuperar. Por isso eventos como Jogos Olímpicos e Liga dos Campeões sempre reservam histórias espetaculares. E é ótimo que elas aconteçam.

Menos para quem se frustra. Como o Brasil que sonhava com o tri em casa e sequer vai disputar medalha. Porque deixou de competir, no corpo e na mente. Que sirva de lição.

Como o Milan aprendeu e venceu o mesmo Liverpool dois anos depois em outra decisão continental. Em Atenas, berço dos Jogos Olímpicos.

 

 


A maior vitória de Jürgen Klopp foi depois que a bola parou em Anfield
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André Rocha

O Liverpool conseguiu a mais impressionante virada dos duelos de quartas-de-final das competições europeias. Levou 2 a 0 em oito minutos, em falhas de Coutinho e Roberto Firmino. Mkhitaryan e Aubameyang. O Borussia Dortmund parecia naquelas noites imparáveis.

Esperança com Origi no início do segundo tempo. Tudo pareceu ruir na bela finalização de Marco Reus. Mas o gol da redenção de Coutinho abriu o caminho para um “abafa” irresistível e Sakho e Lovren arrancando a vitória improvável. Na paixão. Apoteose no Anfield Road.

Jogo de muitos gols, não por acaso. Times intensos, que pressionam o adversário assim que perdem a bola, em qualquer pedaço do campo. Bola roubada, ataques rápidos e práticos. Futebol vertical. No volume máximo.

Produtos do técnico mais rock’n’roll do planeta. Jürgen Klopp. Franco, espontâneo. Às vezes insano. Com a santa pureza dos loucos.

Um cara legal, dos mais queridos no meio do futebol. A ponto de lembrar de sua torcida por sete anos logo depois de uma vitória espetacular. A solidariedade rendeu aplausos dos dois lados. Uma cena para arrancar lágrimas de quem ama esse esporte. Um triunfo maior que o placar final do jogo e do confronto. A certeza que nunca caminhará sozinho.

Desde o minuto de silêncio em homenagem às vítimas de Hillsborough, uma aula de civilidade e respeito numa atmosfera de pura eletricidade. Este que escreve não tem complexo de vira-latas nem considera melhor tudo que vem da Europa. Mas neste quesito perdemos de 77 a 1.

No lugar do técnico alemão, depois do jogo, iria para casa com a certeza de que na vida o que vier agora é lucro. Os Reds estão nas semifinais da Liga Europa. Mas o grande vencedor da noite em Liverpool foi Jürgen Klopp.


O que Jürgen Klopp pensa sobre o trabalho do técnico no futebol brasileiro
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André Rocha

Jurgen Klopp Liverpool

Após a vitória por 2 a 0 do Liverpool sobre o Manchester United no Anfield Road pelas oitavas de final da Europa League, Jürgen Klopp atendeu com exclusividade os canais Esporte Interativo para o programa “Melhor Futebol do Mundo”.

Perguntado sobre a possibilidade de um dia comandar um time brasileiro, o treinador carismático e franco deu uma resposta elegante, porém contundente:

“O Brasil é o lugar mais difícil para se trabalhar como treinador. Tudo que eu escuto sobre lá é que eles demitem os treinadores toda semana, e isso não faz sentido, para ser sincero. Mas é um país legal, com jogadores extraordinários”.

Klopp é o vigésimo treinador da história do Liverpool, fundado em 1892.

Sem contar os interinos, o “impaciente” Fluminense fez 20 trocas de técnico desde 2006. O Corinthians comandado por Tite e Mano Menezes desde 2008, com o breve hiato de Adilson Batista em 2010, o mesmo número desde 2001. O São Paulo, que contou com Telê Santana de 1990 a 1995 e Muricy Ramalho de 2006 a 2009 e 2013 a 2015, fez as mesmas vinte desde 1999.

O técnico não pode ser um profissional blindado, imune a críticas e cobranças por conta de um dogma da manter por manter para parecer moderno. Mas trocar ao sabor dos ventos, “para ver se dá certo”, sem nenhum critério ou filosofia de trabalho está longe de ser a melhor solução.

No final, questionado sobre os 7 a 1, soltou sua tradicional gargalhada e saiu caminhando. Ele deve saber bem o porquê.


As primeiras impressões do Liverpool na estreia de Klopp
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André Rocha

A expectativa era grande pela estreia de Jurgen Klopp, mesmo fora de casa, no White Hart Lane diante do Tottenham que não perdia há sete jogos. Apesar dos muitos desfalques.

O principal questionamento era se o carismático, mas também tático, treinador alemão conseguiria implementar algumas ideias de seu modelo de jogo já na primeira partida. Os Reds deram algumas respostas, como uma marcação mais adiantada e por pressão com todos participando.

Também o desenho tático. Inicialmente o 4-2-3-1 habitual de Klopp, com Philippe Coutinho um pouco mais fixo pela esquerda, Milner e Lallana alternando à direita e no centro. Depois o 4-3-3/4-1-4-1, que também era variação no Borussia Dortmund, com Lucas Leiva plantado à frente da defesa, Milner e Emre Can nas meias. Coutinho se soltou, circulando e tentando articular. Lallana e o atacante Origi invertendo bastante o posicionamento, solução para tentar compensar as ausências de Sturridge e Benteke no ataque.

Superioridade dos visitantes com uma bola no travessão em cabeçada de Origi que durou até os Spurs se adaptarem à uma mudança necessária: Chadli saiu contundido, entrou Claiton N’Jie. O camaronês se esforçou para participar da dinâmica na frente com Lamela, Eriksen e Kane. Também obrigou Mignolet a fazer grande defesa em chute colocado.

Recuperação e domínio refletidos nos números: 53% de posse da equipe londrina, nove finalizações a sete – duas no alvo para cada lado. Na tentativa de pressão, o Liverpool cometeu mais faltas. O dobro para ser mais exato, oito contra quatro.

No primeiro tempo, Liverpool de Klopp mais tempo no 4-3-3/4-1-4-1 com Coutinho partindo da esquerda para articular; Tottenham no 4-2-3-1 habitual se recuperou após a troca de Chadlie por N'Jdie.

No primeiro tempo, Liverpool de Klopp mais tempo no 4-3-3/4-1-4-1 com Coutinho partindo da esquerda para articular; Tottenham no 4-2-3-1 habitual se recuperou após a troca de Chadlie por N’Jdie.

Na segunda etapa, mais pressão do time vermelho no setor onde estava a bola e mobilidade na frente, com Milner voltando a aparecer mais pela direita na volta ao sistema inicial. Com isso, recuperou posse de bola e transição.

Flagrante da pressão do Liverpool no campo de ataque em cobrança de lateral do rival - cinco jogadores em um curto espaço de campo para estreitar a saída de bola.

Flagrante da pressão do Liverpool no campo de ataque em cobrança de lateral do rival – cinco jogadores em um curto espaço de campo para estreitar a saída de bola.

O Tottenham tentava responder também com “pressing”. Faltava, porém, aos dois times a jogada criativa, o passe diferente para desmontar a defesa adiantada pela compactação.

A troca de Lallana por Allen não fez bem ao Liverpool. Induziu o time a recuar e ceder espaços. Não recuperou sequer vigor com Ibe na vaga do exausto Coutinho. No final, Mauricio Pochettino tentou atacar pela direita com Townsend no lugar de Lamela. Teve duas boas oportunidades com Kane, mas não muito mais que isso.

As trocas de Klopp empurraram os Reds para o campo de defesa e atraíram o Tottenham que tentou atacar pela direita e teve oportunidades com Kane, porém sem sucesso.

As trocas de Klopp empurraram os Reds para o campo de defesa e atraíram o Tottenham que tentou atacar pela direita e teve oportunidades com Kane, porém sem sucesso.

Saldo final: 52% de posse do Liverpool, 13 finalizações do Tottenham contra 12 – quatro a três na direção da meta. Empate que pouco acrescenta às duas equipes na tentativa de se aproximar do líder Manchester City. Para os Spurs, valeu a manutenção da invencibilidade apesar dos cinco empates.

Aos Reds resta dar tempo para Klopp trabalhar. A proposta é boa, mas o treinador precisa manejar as peças disponíveis. Se falta talento, tem que sobrar intensidade e organização.


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