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Grêmio sofre sem Arthur, mas cumpre sua missão. Agora o que vier é lucro
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André Rocha

O Grêmio sentiu demais a falta de Arthur  na maior parte do jogo. Mas quando o Pachuca começou a sentir o esforço dos 120 minutos da vitória sobre o Wydad Casablanca, Renato Gaúcho compensou o meio-campo menos qualificado com força e velocidade na frente. Mais uma feliz alteração na iluminada temporada 2017.

O campeão da CONCACAF surpreendeu com Jara, mais centroavante, na vaga do rápido Sagal no ataque. Imaginava-se o time mexicano especulando mais e acelerando os contragolpes diante do campeão da Libertadores, mas sobrou coragem para montar um 4-1-4-1 com Urretaviscaya pela direita e Guzmán mais adiantado, alinhado a Honda na articulação.

A mudança do treinador Diego Alonso empurrou os volantes Jaílson e Michel para o campo gremista e dificultou ainda mais as transições ofensivas do time brasileiro, sobrecarregando Luan. O Grêmio também nitidamente sentia a tensão da estreia. Mas o Pachuca, assim como no jogo anterior, controlou a posse no primeiro tempo (58%), mas finalizou pouco – apenas duas vezes contra cinco. Nenhuma no alvo em 45 minutos.

O jogo seguiu na mesma toada na segunda etapa, até o Pachuca dar os primeiros sinais de cansaço. A senha para Renato Gaúcho trocar o cuidado na proteção da defesa pela velocidade e mais presença ofensiva em busca da vitória ainda nos 90 minutos: tirou Barrios e Michel e colocou Jael e Everton. Ramiro recuou para jogar com Jaílson, Fernandinho inverteu o lado e Everton foi para o lado esquerdo, com Jael como referência na frente. Na prorrogação, Leonardo Moura substituiu Edilson para o time seguir atacando pela direita. Proposta ofensiva atrás do gol.

Não foi possível no tempo normal, mas diante de um adversário ainda mais exaurido, sobraram espaços para Everton receber pela esquerda, cortar para dentro e fazer um belo gol, o da classificação. Confirmada sem sustos depois da expulsão de Guzmán.

O Grêmio cumpriu sua missão, não sendo frustrado na intenção de enfrentar o campeão europeu, como aconteceu com Internacional, Atlético Mineiro e Atlético Nacional. Agora o que vier é lucro, a menos que o Real Madrid protagonize um vexame sem precedentes sendo eliminado na semifinal pelo Al Jazira de Romarinho.

Na mais que provável decisão de sábado contra o time merengue, o Grêmio encontrará o cenário mais confortável: de franco atirador, sem maiores responsabilidades. Se perder, até de goleada, a disparidade de investimento, aliada ao cansaço pela prorrogação e a ausência de Arthur, serão “álibis” mais que válidos. Mas se vencer não é absurdo dizer que o feito de Renato Gaúcho será maior do que os dois gols sobre o Hamburgo em 1983.

O clichê é inevitável: será a luta Davi x Golias. Mas é sempre mais prudente não duvidar do Grêmio.

(Estatísticas: FIFA)

 


O “fator Renato Gaúcho”
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André Rocha

Independentemente do que acontecer no Mundial Interclubes, o único brasileiro campeão da Libertadores como jogador e treinador merece a tão sonhada estátua do clube que o tem como maior ídolo da história. Inclusive ele nem precisava pedir tanto. É algo que não se exige. Conquista. E ele já fez jus.

Mesmo antes do tricampeonato continental. Pelas digitais, pelo sangue e suor na primeira conquista da América, na única do Mundial e nos bons trabalhos em 2010 e 2013 como treinador. Ainda que o jeitão carioca cultivado ao longo dos anos fuja do estereótipo do clube e da cidade.

Renato Portaluppi merece todas as homenagens do Grêmio e do futebol brasileiro. Mais que isso, deveria a partir de agora dar nome ao fator da imprevisibilidade no esporte. Exatamente o que o torna mais apaixonante.

Porque era difícil, quase impossível, imaginar o sucesso nesse retorno ao tricolor gaúcho. Dois anos sem comandar uma equipe, vindo de um trabalho muito ruim no Fluminense em 2014. Desconectado do futebol atual. Contrato de apenas três meses por conta das incertezas do futuro após a eleição. A impressão era de que o próprio clube não botava muita fé na escolha.

Principalmente porque pela personalidade do novo comandante, a tendência seria desmontar o bom trabalho de consolidação de uma maneira de jogar construído por Roger Machado. Herdeiro de uma passagem frustrante de Luiz Felipe Scolari. Ou seja, trazer Renato soava como uma nova volta ao passado. Um retrocesso.

Mas Renato não incorreu no equívoco de Felipão, que colocou demais a mão no esforço do Grêmio, desde Enderson Moreira em 2014, de criar uma identidade de jogo. Inteligente, manteve os alicerces e mirou no acabamento da obra dentro do campo: time mais contundente e rápido no ataque, concentrado defensivamente e atento nas jogadas aéreas com bola parada. Os problemas minaram a gestão do antecessor.

O vestiário não era problema. Sempre foi mestre em chamar os jogadores para perto, motivá-los com carinho ou provocação. Conhece o cheiro, tem sensibilidade. Foi sempre seu maior trunfo como treinador. Preenchida outra lacuna de Roger, que reconheceu internamente que havia perdido o grupo. Sempre um erro letal.

Conquista da Copa do Brasil com autoridade. Primeiro título nacional depois de 15 anos. Manutenção para o ano seguinte, com moral para, agora sim, fazer do seu jeito.

No estadual, a busca de um time mais com a sua cara: menos posse de bola, ainda mais vertical. Buscando diretamente uma referência no ataque para ganhar a segunda bola e definir mais rapidamente as ações de ataque. As primeiras tentativas não foram muito felizes e ele foi convencido a retornar ao plano original.

Talvez por isso a resistência e os atritos com o departamento de análise de desempenho que ficaram escancaradas após o “caso drone” e, em seguida, a saída de Eduardo Cecconi, responsável pelo setor e alçado à condição de chefe por Roger. O treinador que trouxe a análise para o processo decisório da comissão técnica. Com o departamento forte a assinatura do estilo de jogo não podia, nem pode ser só do Portaluppi.

Não, Roger não é campeão da Copa do Brasil, muito menos da Libertadores. Os méritos são de Renato, porque o futebol não se resume ao modelo de jogo. Renato acertou um carro com boa estrutura, mas precisando de ajustes para ganhar estabilidade e força. Mas é dever reconhecer que sem a ideia assimilada pela base do elenco de jogo apoiado, triangulações e Luan circulando entre a defesa e o meio-campo adversário a missão seria bem mais complicada.

No país do Fla-Flu, da intolerância e do pensamento binário, que despreza os vários tons de cinza entre o preto e o branco, não existem as nuances, as interseções. Ou Renato é Deus, ou você é apenas uma “viúva do Roger”. Não é, nem pode ser assim.

Agora surgem os “profetas do acontecido”, os que sempre acreditaram. É claro que eles existiam em setembro de 2016, mas movidos por uma fé no messias. No maior ídolo. Ou por ser fã do personagem Renato Gaúcho, o fanfarrão, homem das mais de mil mulheres, das tiradas geniais, das bravatas. Que para a imprensa troca o estudo pela praia, mas manda espionar os adversários.

A razão não sugeria uma empreitada tão feliz. O contexto ajudou a virar do avesso e reescrever a história.

Por isso fica a lição. Dentro de qualquer análise sempre terá que ser incluído o “fator Renato Gaúcho” de imprevisibilidade. Do “errado”, em tese, que na prática pode dar muito certo. Algo que existe em qualquer setor. É da vida. Mas só o futebol é capaz de proporcionar com tamanha intensidade. Ainda bem.


As três lições do passeio do Grêmio tricampeão da América
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André Rocha

O golaço de Luan foi emblemático no passeio do Grêmio no primeiro tempo da vitória por 2 a 1 sobre o Lanús em La Fortaleza. Velocidade, técnica e confiança diante de um rival atordoado. Para encaminhar o tricampeonato da Libertadores.

Uma conquista que deixa três grandes lições para o futebol brasileiro:

1 – A identidade

O Grêmio tem uma forma de jogar. E não importa mais se tem a assinatura de Roger Machado ou de Renato Gaúcho. Porque depois dessa conquista é difícil imaginar o clube abandonando essa ideia de jogo apoiado, vocação ofensiva e valorização da qualidade técnica, simbolizada especialmente por Arthur e Luan. Com fibra e entrega, mas sem exagerar no culto à truculência, ao jogo físico e menos bonito que costuma se impor no sul do país. No primeiro tempo fantástico em Lanús, foram 10 finalizações com apenas 45% de posse de bola. Seis desarmes certos contra nenhum do Lanús.  Talento, eficiência e vontade.

2 – A personalidade

“Nós somos o Grêmio, não o River Plate”. Se Renato Portaluppi teve um papel preponderante na decisão, foi o de transmitir a confiança de maior ídolo e campeão sul-americano e mundial em 1983. O Grêmio só se entrincheirou no final, depois das lesões de Arthur e Bressan e da expulsão de Ramiro. Se entrasse assustado não aproveitaria o desespero do time argentino nos primeiros 45 minutos. Marcou em dois contragolpes, o primeiro em grande arrancada de Fernandinho, mas nunca deixou de jogar no ataque.

3 – O foco no jogo com calma

Não há razão para entrar na pilha dos argentinos, enfrentar na Libertadores como quem vai para uma guerra. Como o próprio Grêmio nas duas finais que perdeu, para Independiente e Boca Juniors. Hoje há câmeras por todos os lados, qualquer ilegalidade será observada. Basta jogar futebol. Com intensidade e concentração. Duro, mas na bola. Quando o Lanús percebeu que o tricolor gaúcho não sairia de sua proposta entrou em parafuso. Desta vez foram os “hermanos” a se apequenar numa final de Libertadores. Porque viu do outro lado a calma e o foco no que é essencial: o jogo.

Por isso o futebol é tão apaixonante. Quem diria que, em setembro de 2016, um contrato com Renato Gaúcho vindo da praia, como ele disse, por apenas três meses num ano de eleição no clube terminaria nos títulos de Copa do Brasil e Libertadores. O que parece impossível sempre pode acontecer para queimar dedos e línguas.

Parabéns, Renato! Primeiro brasileiro campeão como jogador e treinador Comemorem, tricampeões! Mas nem tanto, porque ainda tem o Mundial Interclubes. Quem agora vai duvidar que o planeta pode voltar a ser azul depois de 34 anos?

(Estatísticas: Footstats)


A lição do Grêmio em Guayaquil: toda hora é hora para atacar
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André Rocha

Virou clichê no futebol mundial, com exceção das grandes potências europeias que atacam em qualquer campo, a máxima de que os 15 ou 20 primeiros minutos como visitante são para suportar a pressão inicial do time da casa com apoio da sua torcida.

Só que o cenário provoca tensão também no mandante, pela necessidade de alcançar um resultado positivo pensando na volta. E o Barcelona entrou apavorado no Monumental de Guayaquil. Pelo retrospecto ruim como mandante na Libertadores, pela ausência do artilheiro Jonatan Álvez, substituído por Ariel Nahuelpan. Principalmente pela consciência que encarava o adversário mais forte com que cruzou no torneio.

O Grêmio praticamente completo, apenas com Jailson no meio-campo na vaga de Michel, sem ritmo de competição após longa inatividade e começando no banco. Com Luan passeando entre as linhas do espaçado time equatoriano e Arthur alternando os ritmos no meio-campo.

Mas principalmente sem esperar ou pedir licença para atacar, mesmo longe de Porto Alegre numa semifinal de Libertadores. Aos sete, o gol de Luan com Cortez descendo pela esquerda; Ramiro, Lucas Barrios e Fernandinho na área e o camisa sete chegando para tirar do alcance do goleiro Máximo Banguera.

Arqueiro que armou mal a barreira e se posicionou ainda pior na cobrança de falta de Edilson, 13  minutos depois. Aos 20 minutos, o Grêmio vencia por 2 a 0. Depois abdicou um pouco do jogo, preferiu controlar espaços e levou alguns sustos, não aproveitados pelo “pecho frio” meia argentino Damian Díaz e um Barcelona apressado e sem confiança. Ainda assim, o time anfitrião teve 66% de posse e oito finalizações, o dobro da equipe brasileira. Mas apenas duas no alvo, uma a menos que os gremistas, mais precisos.

Cirúrgicos na defesa de Marcelo Grohe aos cinco minutos da segunda etapa em chute de Ariel. Uma das mais espetaculares que este que escreve viu em mais de três décadas acompanhando futebol. Na volta, transição rápida e mais um de Luan, o melhor em campo. Com a equipe descendo em bloco, com Edilson cruzando rasteiro para trás e três companheiros na área. De novo não escolhendo o melhor momento para chegar à frente.

Os 3 a 0 derrubaram animicamente o Barcelona. O time de Renato Gaúcho botou a bola no chão, entraram Leonardo Moura, Michel e Cícero para renovar o fôlego e a chance de ampliar foi palpável. Finalizou cinco vezes no segundo tempo contra as mesmas oito do adversário no primeiro tempo, porém com oportunidades mais cristalinas.

Nem foi preciso. Só uma tragédia sem precedentes tira o Grêmio da decisão sul-americana após dez anos. Porque se no Equador não escolheu momento para atacar, em casa a vocação ofensiva será colocada em campo ainda mais naturalmente.

Fica a lição para o futebol brasileiro: menos “pilha” errada e medo longe de seus domínios, mais bola no chão e autoridade para impor a superioridade técnica. Sem temor nem escolha da hora para atacar. Toda hora é hora. Como deve ser.

(Estatísticas: Footstats)


Mais uma “decisão”, outro “não jogo”. Corinthians e Grêmio se anulam
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André Rocha

O futebol brasileiro está num labirinto. O discurso é de concentração máxima, erro zero. Não sofrer gol e na frente esperar um lampejo, a bola parada e, principalmente, o erro do adversário.

O “jogar simples” se resume a não arriscar. O fluxo de passes é sempre o mais óbvio e as equipes aceitam que o adversário induza a circulação da bola procurando o flanco para o cruzamento. O discurso de jogadores e treinadores é sempre o mesmo: “jogo decidido no detalhe”, “quem errar menos vai levar vantagem”.

Uma palavra tão brasileira neste esporte e na vida vem sendo esquecida: criatividade. Criar espaços através de tabelas, triangulações. O passe diferente que fura as linhas de marcação. O drible. Ou ao menos uma jogada pensada e treinada, como uma inversão de jogo que encontre o atacante no um contra um. Ou a movimentação para a infiltração que surpreende.

Se ninguém erra, nada acontece. Nos jogos decisivos, com todos ligados e o rival bem estudado e mapeado, há o “não jogo”. Como foi Cruzeiro x Flamengo na final da Copa do Brasil. O mando de campo tem inflenciado pouco. No máximo na maior posse de bola.

Corinthians e Grêmio voltaram a competir com força. Intensidade, pressão no homem da bola, força mental. Diante da queda de desempenho recente, uma boa notícia. Mas para se impor faltou o talento. Faltou Jadson, autor do gol da vitória em Porto Alegre. Faltou Luan, de volta ao time de Renato Gaúcho.

O Grêmio, que precisava do resultado para uma última tentativa de aproximação na tabela,  teve a oportunidade mais marcante, com Edilson carimbando o travessão de Cássio. Na bola parada…No final, o cruzamento que Jael, substituto de Lucas Barrios, não concluiu com precisão.

É muito pouco. A rigor, as equipes se anularam. Na saída de campo, as mesmas justificativas, como se fosse normal. Algo inevitável. Não é. Desta vez a pausa foi de três dias, mas já foi de dez e a bola jogada por aqui não sai desse dilema: todo o esforço e estudo voltado para anular as virtudes do oponente, quase nada para potencializar as próprias vqualidades.

Mais um empate sem gols numa “decisão”, com aspas porque não valia sequer a liderança na disputa por pontos corridos. Mais 90 minutos de indigência de ideias. Algo precisa ser feito. Para ontem.


Philippe Coutinho para descomplicar o jogo e mexer com a cabeça de Tite
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André Rocha

O individualismo de Neymar travou a seleção brasileira por quase 60 minutos na Arena do Grêmio. Porque com Willian, e não Philippe Coutinho, o camisa dez jogou mais solto, com liberdade de movimentação e recuando para buscar a bola. Assumiu o papel de ponta articulador e não infiltrador.

Renato Augusto recuava para auxiliar a saída de bola e espetar Marcelo – como Toni Kroos faz no Real Madrid, sem nenhuma comparação entre os meio-campistas organizadores. Faltava, porém, rapidez na circulação da bola. Só Paulinho conseguiu a vitória pessoal e concluiu com perigo. Uma das quatro finalizações contra apenas uma dos equatorianos, três a zero no alvo. Em um universo de 75% de posse de bola. Pouco.

Também pela organização defensiva do Equador com duas linhas de quatro, Antonio Valencia e Fidel Martínez fechando os flancos e Fernando Gaibor tentando se aproximar de Enner Valencia, a referência de velocidade que fez Marquinhos e Miranda, depois Thiago Silva, trabalharem.

Neymar também atrapalhou prendendo a bola deixando o jogo mais tenso, violento. Sem fluência e com a conivência da arbitragem, que deixou de anotar faltas claras. Jogo duro.

Até Renato Augusto dar lugar a Coutinho e o Brasil se reorganizar num 4-2-3-1 tão esperado como alternativa. Móvel e fluido. Com toque mais fácil e veloz, até porque Neymar passou a trabalhar mais adiantado, longe da zona de criação. E também mais espaço depois de Paulinho abrir o placar completando escanteio e acalmando a Arena que pedia Luan.

Então veio o espetáculo com jogadas mais plásticas e o golaço de Coutinho após lindo chapéu de Gabriel Jesus. Mesmo sem ritmo do meia do Liverpool e o Barcelona na cabeça. Com 2 a 0, a brecha para testar Luan no lugar de Willian e agradar o torcedor do Grêmio. Neymar seguiu jogando sozinho e errando muito. Mas sem se omitir jamais. Como deve ser.

Nona vitória seguida em jogos oficiais, liderança garantida até o final das Eliminatórias. Mas o que valeu mesmo foi Coutinho descomplicar o jogo e mexer com a cabeça de Tite. A disputa pediu uma experiência e a resposta foi positiva. O 4-1-4-1 não pode ser um dogma.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Seleção: testar novidades ou entrosar e criar variações na base titular?
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André Rocha

A partir dos duelos contra Equador e Colômbia pelas Eliminatórias a seleção brasileira viverá um dilema causado pela competência de Tite, comissão técnica e jogadores.

Por conta das oito vitórias seguidas alcançou a vaga para a Copa do Mundo da Rússia. Encontrou uma base titular muito rapidamente e deu liga de maneira veloz quase na mesma proporção. Mas continua sendo um trabalho de pouco mais de um ano e um universo de apenas onze partidas, incluindo amistosos contra Colômbia, Argentina e Austrália.

É pouco, mas conseguiu muito. O objetivo principal. E terminar a disputa sul-americana em primeiro lugar nada significa objetivamente para o Mundial. Por isso fica a impressão de que seria o momento para fazer testes. Para evitar o grupo fechado, a pouca importância dada ao momento dos jogadores e a preferência pela manutenção do que deu certo anteriormente. Ideias que prejudicaram Parreira, Dunga e Felipão nas três últimas Copas do Mundo.

Desta vez não houve Copa das Federações. Ou das ilusões: de time pronto e imbatível, sem considerar todas as variáveis e possibilidades de mudanças em doze meses. O engano da receita de sucesso infalível. O que deve ser evitado.

Mas por conta do espaçamento entre as partidas e das poucas sessões de treinos é natural que Tite fique tentado a ver seus titulares em ação mais vezes. Para consolidar ideias, construir o jogar de memória na execução do 4-1-4-1 já bem ajustado e até criar variações sem mexer nas peças. Ou só deixar Phillippe Coutinho de lado neste momento por não estar em ritmo de competição, sem jogar no Liverpool e esperando o desfecho deste interminável interesse do Barcelona.

Willian deve começar a partida na Arena do Grêmio, o que muda as características porque o ponteiro do Chelsea atua mais aberto e circula menos que Coutinho. Perde o ponta articulador, mas pode abrir o campo e até aproveitar Daniel Alves descendo mais por dentro.

Não seria, porém, o momento de testar mais gente, mesclar a escalação com reservas para observá-los em ação num cenário competitivo, com os adversários ainda buscando a classificação? De repente testar Luan e buscar um jogo entrelinhas mais envolvente tentando reeditar o sucesso da parceria com Neymar. Experimentar e manter todos atentos, motivados, sem risco de acomodação. Mas sem perder a identidade como equipe.

Difícil escolha que só reforça a crítica à CBF por ter perdido dois anos com Dunga quando era claro o momento do melhor treinador brasileiro que se sentia pronto para o cargo. O trabalho estaria mais maduro, haveria duas disputas de Copa América como bagagem e o planejamento teria menos urgências.

Agora cabe a Tite definir o caminho até o ano que vem. Dosando manutenção, aprimoramento e busca constante de meritocracia. Entrosar, variar e testar na justa medida. Um desafio que começa na quinta-feira em Porto Alegre.

 


Grêmio perde leveza “praiana”, Cruzeiro de Mano Menezes vence duelo tático
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André Rocha

Foto: Washington Alves/Light Press

Você já leu neste blog algumas vezes nos últimos meses elogios à naturalidade com que o Real Madrid de Zinedine Zidane propõe e executa sua maneira de jogar. No Brasil, sem nenhum tipo de comparação, quem chega mais perto disto é o Grêmio. Muito por conta do modelo já bem trabalhado e assimilado.

Em casa ou fora, a equipe de Renato Gaúcho costuma trabalhar a bola ou acelerar os contragolpes conforme a necessidade com um estilo fluido, leve. Mesmo com a vantagem depois da vitória por 1 a 0 em sua arena, foi o que se viu no primeiro tempo do Mineirão.

Lembrava a espontaneidade do confronto do ano passado na mesma fase da Copa do Brasil. Nos 2 a 0 no mesmo Mineirão. Sem Douglas distribuindo as jogadas e indo às redes, mas com Luan circulando e achando Barrios livre no lance chave que podia ter mudado a história do duelo. O paraguaio desperdiçou.

Mano Menezes tentou conter o volume de jogo gremista preenchendo o meio-campo. Henrique, Hudson e Robinho. Elber e Alisson nas pontas. Thiago Neves como “falso nove”. Talvez para ficar mais próximo da meta adversária. Ou preocupar os volantes Michel e Arthur e indefinir as ações da zaga sem Geromel e com Bressan ao lado de Kannemann.

Funcionou pouco porque Neves, mesmo com a inegável qualidade nas finalizações e sua capacidade criativa, não é jogador com leitura de jogo e de espaços para executar a função. Em muitos lances se enfiava como centroavante e ficava de costas para a defesa. Ainda assim, incomodou Marcelo Grohe com um chute perigoso.

Como Elber e Alisson são condutores de bola e não se projetam à frente ou em diagonal chamando lançamentos como Pedro Rocha costuma fazer do lado gaúcho, o Cruzeiro não tinha profundidade nas ações ofensivas. Ainda assim, teve mais posse de bola (54%) e finalizou seis vezes contra quatro.

E aí Renato Gaúcho, contaminado pela praga do “jogo para ganhar (ou classificar) e não jogar” e talvez preocupado com a responsabilidade que assumiu junto com a direção do clube de apostar tudo no mata-mata – Copa do Brasil e Libertadores – deixando o Brasileiro de lado, fez seu time perder a naturalidade e priorizar o resultado na segunda etapa.

Pecado capital. Mano trocou Elber por Raniel e ganhou mais presença física na frente, liberando Thiago Neves para chegar de trás. Mas o camisa trinta foi decisivo mesmo na cobrança de escanteio pela direita que encontrou Hudson para marcar o gol único da partida.

Renato não fez substituições conservadoras. Trocou Bressan por Bruno Rodrigo no final, mas antes mandou a campo Fernandinho e Everton nas vagas de Ramiro e Barrios para acelerar as transições ofensivas. O Grêmio, porém, não finalizou na segunda etapa. Foi dominado. O time mineiro repetiu as seis conclusões do primeiro tempo, mas desta vez apenas duas no alvo.

Podia ter definido a vaga com Raniel e Arrascaeta, que entrou na vaga de Alisson. Sobis substituiu Hudson nos últimos minutos para buscar uma pressão final ou bater pênalti. Abriu a série acertando, assim como Fernandinho.

Edilson e Everton acertaram as traves, Grohe pegou as cobranças de Robinho e Murilo. Arthur e Raniel foram precisos. No duelo dos talentos, Luan novamente falhou em um pênalti decisivo e a defesa de Fabio foi a senha para a festa depois que Thiago Neves deslocou Grohe.

Cruzeiro na decisão do torneio nacional. A sua sétima. Vai tentar superar novamente o Flamengo, como em 2003. Desta vez sem o timaço da tríplice coroa, a única da história – campeão estadual, brasileiro e da Copa do Brasil. Mas com  recuperação na temporada, enfim mostrando mais consistência no desempenho.

Méritos de Mano Menezes, que venceu o duelo tático quando Renato resolveu duelar na estratégia, no jogo mais denso e fez seu Grêmio perder as maiores virtudes: leveza e naturalidade. Como uma tarde de verão na praia que o ídolo gremista tanto ama.

A noite terminou pesada. Resta a obrigação de ir bem na Libertadores, objetivo maior e agora único. A menos que o Brasileiro volte a ser importante. Ainda que pareça tarde demais.

(Estatísticas: Footstats)

 


Luan: quatro razões para o melhor do Brasil não parar num top da Europa
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André Rocha

Pegando carona no que o nosso ótimo Dassler Marques escreveu em sua página do Facebook e replicou no Twitter (leia AQUI), o blog lista quatro razões para Luan, o melhor jogador em atividade no país com a camisa do Grêmio, estar a caminho do Spartak Moscou e não ter despertado o interesse de um time top da Europa:

1 – Não é gênio precoce

Luan tem 24 anos e não 18. Não é um Vinicius Júnior, uma aposta no talento bruto, nem Gabriel Jesus, daqueles raros casos que já surgem praticamente prontos no corpo e na mente e só precisam de alguns ajustes e adaptações. Já está formado, com suas virtudes e defeitos. Pode viver uma fase do aprendizado para amadurecer e não ser desenhado a partir de uma folha em branco. Deve evoluir na Europa, até porque tem boa leitura de jogo e sabe se movimentar entre as linhas, mas explodir é difícil. Para o time russo é muito mais uma chance de qualificar o elenco do que pensar numa venda mais à frente para lucrar, ainda que isto não seja impossível nesse mercado cada vez mais insano.

2 – Não é “ligeirinho”

O meia atacante pode até atuar pelos lados, como já fez no próprio Grêmio. Mas não é o típico “winger” britânico, indo e voltando como ponteiro, atacando os espaços com velocidade. Nem um driblador pelo flanco, como Willian ou Douglas Costa. Não tem as valências físicas para isso e pensa mais do que corre. Suas assistências costumam acontecer em passes verticais, não cruzamentos. Ou seja, não é o “ligeirinho” tipo exportação do futebol brasileiro.

3 – Passagem única pela seleção

Luan tem trajetória curiosa com a camisa verde e amarela: é campeão olímpico como figura importante – a equipe de Rogerio Micale deu liga depois da sua entrada na vaga de Felipe Anderson – porém não tem convocações na base e nem na principal. Para um clube top europeu o desempenho na seleção brasileira é fator importante no momento da avaliação da margem de erro na hora da contratação.

4 – Não é “leite com pêra”

Luan tem um histórico extracampo que, se não é complexo como de um Sassá, também não é daqueles inquestionáveis, sem um porém. Já foi pego dirigindo sem CNH e vez ou outra circulam pela internet vídeos informais que não servem como provas de uma conduta condenável, porém ajudam a construir a imagem de um jovem sujeito a oscilações no comportamento. Só que o Velho Continente quer os “leite com pêra”, que não criam problemas nem desperdiçam tantas horas de sono.

Se a negociação for realmente concretizada será mais um talento que se despede dos nossos campos e só poderemos vê-lo esporadicamente, inclusive na Liga dos Campeões. Sintomático em um país vivendo crise econômica e que segue incentivando o êxodo. Em qualquer idade, a qualquer tempo nesta janela que parece nunca fechar.


Grêmio restabelece a verdade do campeonato. Hoje é mais time que o Flamengo
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André Rocha

O Grêmio vive um dilema na temporada. A alma de “copero y peleador” tende a privilegiar Libertadores e Copa do Brasil, mas o desempenho no Brasileiro mostra que é possível fazer ótima campanha e ainda buscar o título.

A derrota para o líder Corinthians em casa na décima rodada abalou a convicção e veio o revés em São Paulo, com os reservas, para o Palmeiras. Na sequência, a atuação espetacular do goleiro Douglas do Avaí que combinada com dois contragolpes dos visitantes impôs mais um jogo em sua arena sem pontuar.

Ainda assim, parecia claro que em meio às tantas oscilações dos candidatos a “anti-Corinthians” o time de Renato Portaluppi ainda era o mais qualificado. Provou isso na Arena da Ilha do Governador.

Sofrendo, sim. Porque enquanto teve um mínimo de organização o Flamengo pressionou, rondou a área. Terminou com 56% de posse e finalizou 21 vezes, nove no alvo. Ainda a bomba de Everton no travessão. Mas sem a chance cristalina. Também pela falta de Guerrero, mais como o pivô que dá sequência aos ataques do que propriamente como finalizador. Leandro Damião novamente decepcionou entrando de início.

O Grêmio cometeu 19 faltas contra onze da equipe mandante. Finalizou apenas quatro vezes, três no alvo. Teve no goleiro Léo, substituto de Marcelo Grohe, um dos destaques na disputa.

Mas não o maior. Porque Luan fez a diferença no gol único da partida. Quinto dele no campeonato. Ganhou dos volantes Márcio Araújo e Cuéllar, “tabelou” com Trauco e bateu fraco, no canto do jovem goleiro Thiago que não defendeu. O camisa sete desequilibrou, mesmo perdendo chance cristalina de matar o jogo na segunda etapa.

Contragolpe iniciado por um erro grosseiro de Diego, que cumpriu sua pior atuação com a camisa do Flamengo. Além da falta dos passes criativos que este blog tanto cobra do meia, também falhou em lances bobos, simples. Atrapalhou ainda mais com a vontade de ajudar e moral que tem no elenco. Continuou sendo o responsável pelas bolas paradas e não foi substituído.

Erro de Zé Ricardo, que repetiu as “soluções” de Cuca no dérbi paulista de ontem. Empilhou atacantes e esvaziou o meio-campo com as entradas de Filipe Vizeu, Mancuello e do estreante Geuvânio nas vagas de Cuéllar, Márcio Araújo e Trauco. Levantou 23 bolas na área na segunda etapa, 35 no total. De novo os cruzamentos quando não há espaços. Faltam ideias, fica tudo entregue às individualidades.

Desorganização controlada pelo time gaúcho. Renato, que usou essa prática costumeira no futebol brasileiro contra o Corinthians, desta vez reoxigenou o meio-campo com Jailson no lugar do extenuado Arthur e depois trocou Barrios por Everton para acelerar os contragolpes. Nem foi preciso.

Porque o Flamengo, assim como o Palmeiras, tem poder de investimento, mas o dinheiro não garante boas escolhas dentro de campo. Cai da vice-liderança porque não consegue dar o salto de desempenho. Sobrecarregado na criação, Everton Ribeiro desta vez não rendeu. Também errou muito no time que pecou coletivamente por falhas individuais.

O Grêmio restabelece a verdade do Brasileiro. Ainda que mais à frente priorize outras competições e perca a segunda colocação. Hoje é mais time que o Flamengo e só fica abaixo do líder absoluto.

(Estatísticas: Footstats)