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Philippe Coutinho para descomplicar o jogo e mexer com a cabeça de Tite
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André Rocha

O individualismo de Neymar travou a seleção brasileira por quase 60 minutos na Arena do Grêmio. Porque com Willian, e não Philippe Coutinho, o camisa dez jogou mais solto, com liberdade de movimentação e recuando para buscar a bola. Assumiu o papel de ponta articulador e não infiltrador.

Renato Augusto recuava para auxiliar a saída de bola e espetar Marcelo – como Toni Kroos faz no Real Madrid, sem nenhuma comparação entre os meio-campistas organizadores. Faltava, porém, rapidez na circulação da bola. Só Paulinho conseguiu a vitória pessoal e concluiu com perigo. Uma das quatro finalizações contra apenas uma dos equatorianos, três a zero no alvo. Em um universo de 75% de posse de bola. Pouco.

Também pela organização defensiva do Equador com duas linhas de quatro, Antonio Valencia e Fidel Martínez fechando os flancos e Fernando Gaibor tentando se aproximar de Enner Valencia, a referência de velocidade que fez Marquinhos e Miranda, depois Thiago Silva, trabalharem.

Neymar também atrapalhou prendendo a bola deixando o jogo mais tenso, violento. Sem fluência e com a conivência da arbitragem, que deixou de anotar faltas claras. Jogo duro.

Até Renato Augusto dar lugar a Coutinho e o Brasil se reorganizar num 4-2-3-1 tão esperado como alternativa. Móvel e fluido. Com toque mais fácil e veloz, até porque Neymar passou a trabalhar mais adiantado, longe da zona de criação. E também mais espaço depois de Paulinho abrir o placar completando escanteio e acalmando a Arena que pedia Luan.

Então veio o espetáculo com jogadas mais plásticas e o golaço de Coutinho após lindo chapéu de Gabriel Jesus. Mesmo sem ritmo do meia do Liverpool e o Barcelona na cabeça. Com 2 a 0, a brecha para testar Luan no lugar de Willian e agradar o torcedor do Grêmio. Neymar seguiu jogando sozinho e errando muito. Mas sem se omitir jamais. Como deve ser.

Nona vitória seguida em jogos oficiais, liderança garantida até o final das Eliminatórias. Mas o que valeu mesmo foi Coutinho descomplicar o jogo e mexer com a cabeça de Tite. A disputa pediu uma experiência e a resposta foi positiva. O 4-1-4-1 não pode ser um dogma.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Seleção: testar novidades ou entrosar e criar variações na base titular?
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André Rocha

A partir dos duelos contra Equador e Colômbia pelas Eliminatórias a seleção brasileira viverá um dilema causado pela competência de Tite, comissão técnica e jogadores.

Por conta das oito vitórias seguidas alcançou a vaga para a Copa do Mundo da Rússia. Encontrou uma base titular muito rapidamente e deu liga de maneira veloz quase na mesma proporção. Mas continua sendo um trabalho de pouco mais de um ano e um universo de apenas onze partidas, incluindo amistosos contra Colômbia, Argentina e Austrália.

É pouco, mas conseguiu muito. O objetivo principal. E terminar a disputa sul-americana em primeiro lugar nada significa objetivamente para o Mundial. Por isso fica a impressão de que seria o momento para fazer testes. Para evitar o grupo fechado, a pouca importância dada ao momento dos jogadores e a preferência pela manutenção do que deu certo anteriormente. Ideias que prejudicaram Parreira, Dunga e Felipão nas três últimas Copas do Mundo.

Desta vez não houve Copa das Federações. Ou das ilusões: de time pronto e imbatível, sem considerar todas as variáveis e possibilidades de mudanças em doze meses. O engano da receita de sucesso infalível. O que deve ser evitado.

Mas por conta do espaçamento entre as partidas e das poucas sessões de treinos é natural que Tite fique tentado a ver seus titulares em ação mais vezes. Para consolidar ideias, construir o jogar de memória na execução do 4-1-4-1 já bem ajustado e até criar variações sem mexer nas peças. Ou só deixar Phillippe Coutinho de lado neste momento por não estar em ritmo de competição, sem jogar no Liverpool e esperando o desfecho deste interminável interesse do Barcelona.

Willian deve começar a partida na Arena do Grêmio, o que muda as características porque o ponteiro do Chelsea atua mais aberto e circula menos que Coutinho. Perde o ponta articulador, mas pode abrir o campo e até aproveitar Daniel Alves descendo mais por dentro.

Não seria, porém, o momento de testar mais gente, mesclar a escalação com reservas para observá-los em ação num cenário competitivo, com os adversários ainda buscando a classificação? De repente testar Luan e buscar um jogo entrelinhas mais envolvente tentando reeditar o sucesso da parceria com Neymar. Experimentar e manter todos atentos, motivados, sem risco de acomodação. Mas sem perder a identidade como equipe.

Difícil escolha que só reforça a crítica à CBF por ter perdido dois anos com Dunga quando era claro o momento do melhor treinador brasileiro que se sentia pronto para o cargo. O trabalho estaria mais maduro, haveria duas disputas de Copa América como bagagem e o planejamento teria menos urgências.

Agora cabe a Tite definir o caminho até o ano que vem. Dosando manutenção, aprimoramento e busca constante de meritocracia. Entrosar, variar e testar na justa medida. Um desafio que começa na quinta-feira em Porto Alegre.

 


Grêmio perde leveza “praiana”, Cruzeiro de Mano Menezes vence duelo tático
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André Rocha

Foto: Washington Alves/Light Press

Você já leu neste blog algumas vezes nos últimos meses elogios à naturalidade com que o Real Madrid de Zinedine Zidane propõe e executa sua maneira de jogar. No Brasil, sem nenhum tipo de comparação, quem chega mais perto disto é o Grêmio. Muito por conta do modelo já bem trabalhado e assimilado.

Em casa ou fora, a equipe de Renato Gaúcho costuma trabalhar a bola ou acelerar os contragolpes conforme a necessidade com um estilo fluido, leve. Mesmo com a vantagem depois da vitória por 1 a 0 em sua arena, foi o que se viu no primeiro tempo do Mineirão.

Lembrava a espontaneidade do confronto do ano passado na mesma fase da Copa do Brasil. Nos 2 a 0 no mesmo Mineirão. Sem Douglas distribuindo as jogadas e indo às redes, mas com Luan circulando e achando Barrios livre no lance chave que podia ter mudado a história do duelo. O paraguaio desperdiçou.

Mano Menezes tentou conter o volume de jogo gremista preenchendo o meio-campo. Henrique, Hudson e Robinho. Elber e Alisson nas pontas. Thiago Neves como “falso nove”. Talvez para ficar mais próximo da meta adversária. Ou preocupar os volantes Michel e Arthur e indefinir as ações da zaga sem Geromel e com Bressan ao lado de Kannemann.

Funcionou pouco porque Neves, mesmo com a inegável qualidade nas finalizações e sua capacidade criativa, não é jogador com leitura de jogo e de espaços para executar a função. Em muitos lances se enfiava como centroavante e ficava de costas para a defesa. Ainda assim, incomodou Marcelo Grohe com um chute perigoso.

Como Elber e Alisson são condutores de bola e não se projetam à frente ou em diagonal chamando lançamentos como Pedro Rocha costuma fazer do lado gaúcho, o Cruzeiro não tinha profundidade nas ações ofensivas. Ainda assim, teve mais posse de bola (54%) e finalizou seis vezes contra quatro.

E aí Renato Gaúcho, contaminado pela praga do “jogo para ganhar (ou classificar) e não jogar” e talvez preocupado com a responsabilidade que assumiu junto com a direção do clube de apostar tudo no mata-mata – Copa do Brasil e Libertadores – deixando o Brasileiro de lado, fez seu time perder a naturalidade e priorizar o resultado na segunda etapa.

Pecado capital. Mano trocou Elber por Raniel e ganhou mais presença física na frente, liberando Thiago Neves para chegar de trás. Mas o camisa trinta foi decisivo mesmo na cobrança de escanteio pela direita que encontrou Hudson para marcar o gol único da partida.

Renato não fez substituições conservadoras. Trocou Bressan por Bruno Rodrigo no final, mas antes mandou a campo Fernandinho e Everton nas vagas de Ramiro e Barrios para acelerar as transições ofensivas. O Grêmio, porém, não finalizou na segunda etapa. Foi dominado. O time mineiro repetiu as seis conclusões do primeiro tempo, mas desta vez apenas duas no alvo.

Podia ter definido a vaga com Raniel e Arrascaeta, que entrou na vaga de Alisson. Sobis substituiu Hudson nos últimos minutos para buscar uma pressão final ou bater pênalti. Abriu a série acertando, assim como Fernandinho.

Edilson e Everton acertaram as traves, Grohe pegou as cobranças de Robinho e Murilo. Arthur e Raniel foram precisos. No duelo dos talentos, Luan novamente falhou em um pênalti decisivo e a defesa de Fabio foi a senha para a festa depois que Thiago Neves deslocou Grohe.

Cruzeiro na decisão do torneio nacional. A sua sétima. Vai tentar superar novamente o Flamengo, como em 2003. Desta vez sem o timaço da tríplice coroa, a única da história – campeão estadual, brasileiro e da Copa do Brasil. Mas com  recuperação na temporada, enfim mostrando mais consistência no desempenho.

Méritos de Mano Menezes, que venceu o duelo tático quando Renato resolveu duelar na estratégia, no jogo mais denso e fez seu Grêmio perder as maiores virtudes: leveza e naturalidade. Como uma tarde de verão na praia que o ídolo gremista tanto ama.

A noite terminou pesada. Resta a obrigação de ir bem na Libertadores, objetivo maior e agora único. A menos que o Brasileiro volte a ser importante. Ainda que pareça tarde demais.

(Estatísticas: Footstats)

 


Luan: quatro razões para o melhor do Brasil não parar num top da Europa
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André Rocha

Pegando carona no que o nosso ótimo Dassler Marques escreveu em sua página do Facebook e replicou no Twitter (leia AQUI), o blog lista quatro razões para Luan, o melhor jogador em atividade no país com a camisa do Grêmio, estar a caminho do Spartak Moscou e não ter despertado o interesse de um time top da Europa:

1 – Não é gênio precoce

Luan tem 24 anos e não 18. Não é um Vinicius Júnior, uma aposta no talento bruto, nem Gabriel Jesus, daqueles raros casos que já surgem praticamente prontos no corpo e na mente e só precisam de alguns ajustes e adaptações. Já está formado, com suas virtudes e defeitos. Pode viver uma fase do aprendizado para amadurecer e não ser desenhado a partir de uma folha em branco. Deve evoluir na Europa, até porque tem boa leitura de jogo e sabe se movimentar entre as linhas, mas explodir é difícil. Para o time russo é muito mais uma chance de qualificar o elenco do que pensar numa venda mais à frente para lucrar, ainda que isto não seja impossível nesse mercado cada vez mais insano.

2 – Não é “ligeirinho”

O meia atacante pode até atuar pelos lados, como já fez no próprio Grêmio. Mas não é o típico “winger” britânico, indo e voltando como ponteiro, atacando os espaços com velocidade. Nem um driblador pelo flanco, como Willian ou Douglas Costa. Não tem as valências físicas para isso e pensa mais do que corre. Suas assistências costumam acontecer em passes verticais, não cruzamentos. Ou seja, não é o “ligeirinho” tipo exportação do futebol brasileiro.

3 – Passagem única pela seleção

Luan tem trajetória curiosa com a camisa verde e amarela: é campeão olímpico como figura importante – a equipe de Rogerio Micale deu liga depois da sua entrada na vaga de Felipe Anderson – porém não tem convocações na base e nem na principal. Para um clube top europeu o desempenho na seleção brasileira é fator importante no momento da avaliação da margem de erro na hora da contratação.

4 – Não é “leite com pêra”

Luan tem um histórico extracampo que, se não é complexo como de um Sassá, também não é daqueles inquestionáveis, sem um porém. Já foi pego dirigindo sem CNH e vez ou outra circulam pela internet vídeos informais que não servem como provas de uma conduta condenável, porém ajudam a construir a imagem de um jovem sujeito a oscilações no comportamento. Só que o Velho Continente quer os “leite com pêra”, que não criam problemas nem desperdiçam tantas horas de sono.

Se a negociação for realmente concretizada será mais um talento que se despede dos nossos campos e só poderemos vê-lo esporadicamente, inclusive na Liga dos Campeões. Sintomático em um país vivendo crise econômica e que segue incentivando o êxodo. Em qualquer idade, a qualquer tempo nesta janela que parece nunca fechar.


Grêmio restabelece a verdade do campeonato. Hoje é mais time que o Flamengo
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André Rocha

O Grêmio vive um dilema na temporada. A alma de “copero y peleador” tende a privilegiar Libertadores e Copa do Brasil, mas o desempenho no Brasileiro mostra que é possível fazer ótima campanha e ainda buscar o título.

A derrota para o líder Corinthians em casa na décima rodada abalou a convicção e veio o revés em São Paulo, com os reservas, para o Palmeiras. Na sequência, a atuação espetacular do goleiro Douglas do Avaí que combinada com dois contragolpes dos visitantes impôs mais um jogo em sua arena sem pontuar.

Ainda assim, parecia claro que em meio às tantas oscilações dos candidatos a “anti-Corinthians” o time de Renato Portaluppi ainda era o mais qualificado. Provou isso na Arena da Ilha do Governador.

Sofrendo, sim. Porque enquanto teve um mínimo de organização o Flamengo pressionou, rondou a área. Terminou com 56% de posse e finalizou 21 vezes, nove no alvo. Ainda a bomba de Everton no travessão. Mas sem a chance cristalina. Também pela falta de Guerrero, mais como o pivô que dá sequência aos ataques do que propriamente como finalizador. Leandro Damião novamente decepcionou entrando de início.

O Grêmio cometeu 19 faltas contra onze da equipe mandante. Finalizou apenas quatro vezes, três no alvo. Teve no goleiro Léo, substituto de Marcelo Grohe, um dos destaques na disputa.

Mas não o maior. Porque Luan fez a diferença no gol único da partida. Quinto dele no campeonato. Ganhou dos volantes Márcio Araújo e Cuéllar, “tabelou” com Trauco e bateu fraco, no canto do jovem goleiro Thiago que não defendeu. O camisa sete desequilibrou, mesmo perdendo chance cristalina de matar o jogo na segunda etapa.

Contragolpe iniciado por um erro grosseiro de Diego, que cumpriu sua pior atuação com a camisa do Flamengo. Além da falta dos passes criativos que este blog tanto cobra do meia, também falhou em lances bobos, simples. Atrapalhou ainda mais com a vontade de ajudar e moral que tem no elenco. Continuou sendo o responsável pelas bolas paradas e não foi substituído.

Erro de Zé Ricardo, que repetiu as “soluções” de Cuca no dérbi paulista de ontem. Empilhou atacantes e esvaziou o meio-campo com as entradas de Filipe Vizeu, Mancuello e do estreante Geuvânio nas vagas de Cuéllar, Márcio Araújo e Trauco. Levantou 23 bolas na área na segunda etapa, 35 no total. De novo os cruzamentos quando não há espaços. Faltam ideias, fica tudo entregue às individualidades.

Desorganização controlada pelo time gaúcho. Renato, que usou essa prática costumeira no futebol brasileiro contra o Corinthians, desta vez reoxigenou o meio-campo com Jailson no lugar do extenuado Arthur e depois trocou Barrios por Everton para acelerar os contragolpes. Nem foi preciso.

Porque o Flamengo, assim como o Palmeiras, tem poder de investimento, mas o dinheiro não garante boas escolhas dentro de campo. Cai da vice-liderança porque não consegue dar o salto de desempenho. Sobrecarregado na criação, Everton Ribeiro desta vez não rendeu. Também errou muito no time que pecou coletivamente por falhas individuais.

O Grêmio restabelece a verdade do Brasileiro. Ainda que mais à frente priorize outras competições e perca a segunda colocação. Hoje é mais time que o Flamengo e só fica abaixo do líder absoluto.

(Estatísticas: Footstats)


Concentração e cultura da vitória: o Corinthians de Tite volta com Carille
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André Rocha

Foto: Instagram de Fabio Carille

O Corinthians é o time brasileiro desta década – para não deixar dúvidas, de 2011 até agora. Tem dois títulos brasileiros como o Cruzeiro, uma Libertadores como Santos e Atlético Mineiro. Um Mundial como nenhum outro desde 2006. Mais dois paulistas de lambuja.

Acima de tudo, criou uma identidade futebolística, com Mano Menezes e Tite. Uma marca. Organização, solidez defensiva. Tudo executado com um mantra do atual treinador da seleção brasileira: concentração. Leia mais AQUI.

Com as conquistas vem uma cultura de vitória. Aquela confiança no modelo e nos métodos que faz a equipe forte e fragiliza o oponente. Uma certeza de que se o trabalho for feito com correção tudo vai dar certo. Um temor do outro lado quando percebe a competência do adversário.

Foi este o Corinthians que venceu o Grêmio em Porto Alegre e abriu quatro pontos na liderança do Brasileiro. Se o Botafogo vencer o Avaí a distância para o terceiro colocado cairá para oito. Ainda assim, vantagem considerável.

Ainda mais consistente e importante porque o time comandado por Fabio Carille não perde. Já são 23 partidas consecutivas sem derrota. Muitos jogos sem brilho, coletivo ou individual, mas na maioria deles também com pouquíssimos erros.

Foi o que minou aos poucos a confiança gremista e foi calando a Arena. O time de Renato Gaúcho rondava a área, mas não conseguia infiltrar, nem criar a chance cristalina. Por isso os 32 cruzamentos de uma equipe acostumada a jogar com bola no chão.

Luan teve sua área de atuação bem reduzida pela compactação e por um dos “segredos” corintianos há alguns anos: a última linha de defesa com movimentos praticamente perfeitos, jogando próximos e atentos, guardando a região central. É difícil furar.

Mas quando vem a rara chance, é obrigação matar. E aí falhou Geromel na primeira etapa em jogada ensaiada. Depois Luan. Na oportunidade dentro da pequena área com chute fraco e, pouco depois, na cobrança de pênalti mais que hesitante. Uma paradinha insegura e o chute fraco para defesa de Cássio. O destaque do jogo, ainda que não tenha feito nenhuma intervenção espetacular.

Porque o Corinthians tem o foco no erro zero e não perdoa o equívoco ou a infelicidade. Como quando Luan, o personagem do duelo como os gremistas não desejavam e esperavam, facilitou com um toque a infiltração de Paulo Roberto. O substituto de Gabriel de atuação correta atrás e corajosa nas descidas ao ataque, com incrível chance perdida na primeira etapa. O centro da esquerda que Jô não dominou, mas Jadson completou entre as pernas de Marcelo Grohe. Outro trunfo a falhar do desafiante ao líder.

Força coletiva que potencializa o talento, outro lema de Tite. Por mais méritos que Carille demonstre, especialmente na flexibilidade do sistema tático que varia do 4-2-3-1 para o 4-1-4-1 conforme a necessidade e na utilização de jovens da base, é impossível não lembrar de quem aprimorou as ideias de Mano, formou um Corinthians sólido e depois, em 2015, acrescentou criatividade. Continua bem sucedido a serviço da CBF, com a mesma filosofia.

Carille segue a receita e acrescenta os toques pessoais. A vitória em Porto Alegre é simbólica. Com uma competição paralela a menos que Grêmio, Flamengo, Botafogo e Palmeiras para disputar, não é absurdo dizer que já temos um forte candidato ao título. Ou o mesmo dos últimos seis anos.

(Estatísticas: Footstats)


Luan na zona desfalcada do rival pode ser a chave de Grêmio x Corinthians
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André Rocha

Nenhum campeonato de pontos corridos com 20 clubes é decidido na décima rodada. Nem o espanhol, se Barcelona e Real Madrid se enfrentarem, um vença e abra dez pontos na liderança. Mas pode sinalizar tendências.

O Corinthians está invicto há 22 jogos. O Grêmio marcou gols em todos os jogos de 2017 e tem 100% de aproveitamento em sua arena no Brasileiro. Só a disputa no topo da tabela já seria motivo para chamar todos os holofotes para si no fim de semana.

Mas também será um duelo em tática e estratégia. Com um desfalque chave: Gabriel, expulso contra o Bahia. Porque uma mudança sempre altera o entrosamento. Neste caso, das ações com Maycon na proteção da defesa e da própria retaguarda no sistema de coberturas.

Logo contra Luan. Quatro gols e líder em assistências, com seis. O atacante que é meia e joga entre as linhas. Ou seja, se movimenta nos espaços deixados entre a defesa e o meio-campo do adversário. Mais ainda com a presença de Lucas Barrios no centro do ataque do 4-2-3-1 montado por Renato Gaúcho.

Luan que tem seu trabalho facilitado pelo jogo fluido no meio-campo com Michel, Arthur – segundo melhor passador da competição, com 96% de acerto –  e Ramiro, o volante-meia pela direita que abre espaços para o apoio de Léo Moura, agora Edilson com a lesão do lateral veterano. Também facilita a movimentação de Luan e Barrios que atacam aquela brecha e indefinem a marcação.

Time gaúcho que constroi muito volume de jogo atuando em seus domínios. E vai precisar diante do melhor sistema defensivo do país. Com Fabio Carille, que mantém a identidade corintiana construída por Mano Menezes e Tite e foi praticamente pulverizada por Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira.

Que terá Paulo Roberto no lugar de Gabriel e certamente Maycon mais fixo na proteção, dando liberdade a Rodriguinho para se aproximar de Jô. Equipe que apostará forte na compactação, no erro zero com concentração absoluta e na tática da “bola coberta”: pressão no gremista que estiver com a pelota e adiantar as linhas. Se o oponente conseguir sair da dificuldade, a última linha de defesa recua, protege a meta, não se expõe.

Fagner, Balbuena, Pablo e Guilherme Arana. Entrosados e sintonizados nos movimentos que cedem poucos espaços no “funil”, com chamam os treinadores. Ou seja, a área mais central da zona de decisão. Por onde são feitas as diagonais dos ponteiros para finalizar, as tabelas pelo meio e as penetrações de quem vem de trás.

Ofensivamente, o time paulista tem buscado ser mais criativo. Aposta em triangulações, toques rápidos e mobilidade. Com Jadson saindo da direita para dentro, Romero infiltrando em diagonal a partir da esquerda, Rodriguinho e Maycon aparecendo nos espaços vazios, Fagner e Arana intensos no apoio ao ataque.

Na referência, Jô. Em plena forma para reter a bola na frente, fazer o pivô, aproveitar o jogo aéreo e chamar lançamentos para usar a velocidade adquirida com a dedicação ao condicionamento físico. Centroavante decisivo até aqui em clássicos e jogos grandes e que pode ser fundamental.

Ainda mais se Renato Gaúcho perder Kannemann, dúvida por lesão. Impacto no entrosamento com Geromel na defesa titular que só foi vazada nos 3 a 3 contra o Cruzeiro, melhor jogo da Série A em 2017 até aqui. O Grêmio terá postura ofensiva, mas com cuidados. Ramiro e Pedro Rocha fechando com Michel e Arthur uma segunda linha de quatro bem próxima à defesa na recomposição. Guardar o setor de Cortez, que pode ter problemas com o apoio de Fagner e a movimentação dos companheiros quando Jadson sai da direita do ataque.

Em estatísticas, o Corinthians é superior em posse de bola e acerto de passes. Já o Grêmio é mais objetivo, precisa de cinco finalizações para marcar um gol. É o ataque mais positivo, com 23 bolas nas redes adversárias em nove partidas.

Mas a tendência é que os donos da casa tenham a bola e rondem a área corintiana com paciência e acerto nos passes esperando surgir a brecha. A pressa na definição da jogada pode dar o contragolpe que o rival espera. Até porque, objetivamente, a partida, pelo mando de campo e por buscar a liderança, vale mais para o Grêmio. A volta será em Itaquera, sabe lá em quais condições e em que posição na tabela.

Há um favorito, natural pelo mando de campo e por ter em Luan uma peça chave numa zona do rival enfraquecida por uma ausência. Sem desmerecer Paulo Roberto, a falta de Gabriel pode ser decisiva. Não por uma suposta marcação individual sobre o grande destaque gremista, mas pela perda nos movimentos coletivos dentro de um bloqueio por zona que vem sendo executado quase com perfeição. Por isso é a defesa menos vazada, com apenas cinco bolas nas redes de Cássio.

É difícil vencer esse Corinthians. Mas hoje, no país, se há uma equipe capaz da façanha é o Grêmio.

Prováveis formações, ainda com a dúvida de Kannemann na zaga gremista: times no 4-2-3-1, donos da casa propondo mais o jogo e tendo a chance de criar problemas para o Corinthians pela movimentação de Luan buscando espaços às costas do meio-campo e explorar o desentrosamento de Paulo Roberto, substituto do suspenso Gabriel (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)


Luan, o jogador do mês no Brasil. Protagonista do Grêmio 100% com titulares
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André Rocha

Fosse em uma empresa, teria sua foto na parede ou no elevador. Ninguém jogou mais bola nos últimos 30 dias no Brasil que Luan.

Antes criticado, até perseguido. Hoje o protagonista da ascensão gremista desde o início do Brasileiro. É possível definir sua função, enquanto o time teve Lucas Barrios na referência do ataque, como meia central do 4-2-3-1 armado por Renato Gaúcho depois da lesão de Douglas. Na prática, porém, o camisa sete é o jogador entrelinhas.

Inteligente para circular às costas dos volantes, tabelar com Barrios, infiltrar no espaço deixado por Ramiro na direita e aparecendo como opção pelos flancos para criar superioridade numérica. Com técnica, habilidade e faro de gol, desequilibra.

Já foi às redes quatro vezes. Mais quatro assistências. Ou seja, participação em quase metade dos 18 gols marcados pela equipe. Com a lesão de Barrios, voltou a atuar como “falso nove”. Não rende tanto por falta de companhia na frente além de Pedro Rocha, mas definiu a vitória sobre o Fluminense por 2 a 0 no Maracanã na bela cobrança de falta. Com confiança, decide também na bola parada.

Se mantiver o rendimento deve ganhar oportunidade na seleção brasileira. No ouro olímpico mostrou sintonia fina com Neymar e Gabriel Jesus. A má notícia para o Grêmio é que certamente já tem clube europeu atento a este crescimento no desempenho. Tem boa leitura de jogo, fundamental para adaptação rápida às grandes ligas.

Enquanto está a serviço do tricolor gaúcho, Luan é o fator de desequilíbrio. O jogador do mês. Não fosse a derrota dos reservas para o Sport, o resultado seria a liderança em sete jogos com 100% de aproveitamento. Com vitórias recentes mais duras e menos espetáculo. Mas ainda o melhor futebol jogado no país.


Grêmio de Renato sofre com o pior da Era Roger, mas vence no modo “copero”
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André Rocha

O Grêmio sentiu os desfalques em sua arena. Edilson finaliza melhor e é forte na bola parada, mas não chega tanto à linha de fundo quanto Léo Moura – fundamental para aproveitar o espaço deixado por Ramiro quando vem para o centro.

Já a opção de Renato Portaluppi para a vaga do lesionado Lucas Barrios foi um tanto controversa. Abriu mão do centroavante mais típico, manteve Everton, autor de três gols em Chapecó, no banco e adiantou Arthur para a meia central, Luan voltou a ser “falso nove” e Maicon entrou no meio-campo.

O resultado prático foi um Grêmio rodando a bola, mas sem opções de infiltração além das diagonais de Pedro Rocha, que teve a melhor oportunidade tentando encobrir o goleiro Jean. Mas na maior parte do tempo a posse foi estéril. A pior faceta da Era Roger.

A escolha, inclusive, corrobora a tese de que o trabalho mantém uma linha mestra de conceitos e ideias, com algumas adaptações e reparos do treinador carismático e experiente. Quando não teve Barrios e Bolaños, Renato voltou à configuração típica do seu antecessor, com Arthur fazendo a função que era de Douglas. Desta vez não deu tão certo.

Também pela maior concentração do adversário, efeito colateral do grande futebol apresentado pela equipe gaúcha. As duas linhas de quatro compactas do Bahia de Jorginho negavam espaços, dificultavam as tabelas e triangulações. Mas a equipe visitante também ameaçava pouco, isolando Edigar Junio. Com alguns momentos de aceleração e habilidade com Zé Rafael e Allione pelos flancos.

Melhorou um pouco para o mandante e favorito no segundo tempo com Everton, Fernandinho e Lincoln. Passou a rondar a área em uma zona mais perigosa e chegou a 16 finalizações, contra apenas seis do Bahia. Diminuiu um pouco a posse, de 66% para 61% definindo mais rapidamente as jogadas. Mais Renato Gaúcho.

O gol da vitória veio no melhor estilo “copero y peleador” tão prezado pelos gremistas. Quarenta minutos do segundo tempo. Cobrança de escanteio, desvio e toque de Cortez, que virou titular com a lesão de Marcelo Oliveira. Ala de outros tempos que hoje cumpre função de lateral, primeiro sendo um defensor. Mas apareceu na área para ajudar sua equipe a arrancar três pontos.

A forceps. À la Grêmio. Para alcançar a vice-liderança e já ensaiar uma polarização na disputa da ponta da tabela com o Corinthians. Quem sabe até o dia 25, quando as equipes se encontram também em Porto Alegre?

(Estatísticas: Foostats)

 

 


O toque de midas de Renato Gaúcho no Grêmio
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André Rocha

Everton substituiu o lesionado Lucas Barrios aos 14 minutos da segunda etapa na Arena Condá. Aos 15 marcou o terceiro gol, no minuto seguinte o quarto e, depois do gol de pênalti de Reinaldo, transformou em goleada um jogo duríssimo até então, definido em bola parada e falhas dos goleiros Jandrei e Marcelo Grohe, aproveitadas por Michel (um golaço!) e Luiz Antonio.

Mais gols de Arthur Caike e Luan para fechar os 6 a 3. O Grêmio chega aos 12 pontos, supera a Chape e está atrás do Corinthians na tabela da Série A. Mas os titulares alcançam 100% de aproveitamento. Os reservas até abriram 2 a 0 sobre o Sport em Recife, mas acabaram sofrendo a virada. A intenção era guardar energias para a volta da Copa do Brasil no Maracanã contra o Fluminense. Nem foi preciso, no primeiro tempo o confronto já estava definido.

Porque Renato Gaúcho parece estar vivendo uma fase de Rei Midas, depois da frustração no Gauchão – o treinador chegou a poupar titulares na Libertadores para priorizar o torneio estadual, mas sequer chegou à decisão. Com tempo para treinar, preparou a equipe resgatando virtudes da arrancada que chegou ao título da Copa do Brasil.

Segue a impressão de que o encaixe do estilo do maior ídolo do clube ao trabalho que Roger Machado deixou foi perfeito. Ficaram os conceitos, o trabalho coletivo, o jogo entre linhas de Luan, o gosto pela troca de passes. Chegou o que faltava: gestão de vestiário, eficiência nas bolas paradas ofensivas e defensivas e mais efetividade no ataque.

O resultado é o melhor futebol praticado no país nos últimos 30 dias. Com Leonardo Moura e Cortez, típicos alas, fazendo o trabalho como laterais, primeiro defendendo e depois atacando. Achando em Michel e Arthur os volantes que compensam as ausências de Walace e Maicon e por vezes até superam em desempenho a dupla do ano passado.

Tem Ramiro como chave tática como um volante aberto pela direita que auxilia Michel e Arthur, abre espaço para Léo Moura e os deslocamentos de Barrios e Luan às costas do lateral esquerdo adversário. Na esquerda, Pedro Rocha voando, infiltrando em diagonal.

Um jogo fluido, bonito de ver, que acelera e cadencia conforme a necessidade. Time inteligente, que encontra soluções de acordo com o que o jogo exige. Ataque mais positivo do Brasileirão, com média de três gols por rodada.

Mérito de Renato, que mantém o discurso boleiro e fanfarrão. Mas em campo há um jogo pensado, que não é construído em coletivos e rachões, na base da intuição. E aí entram a comissão técnica, o setor de inteligência e análise de desempenho. Trabalho em equipe.

Sim, são cinco rodadas. O Grêmio tem Libertadores e Copa do Brasil para desgastar física e mentalmente na sequência da temporada. Mas hoje o que Renato Portaluppi toca vira ouro. Como a entrada de Everton em Chapecó.