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A “nova ordem nacional” diz que o Palmeiras está bem vivo contra o Cruzeiro
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André Rocha

Ninguém é uma coisa só e, por isso, devemos fugir dos estereótipos. Mas é inegável que Mano Menezes e Luiz Felipe Scolari, embora tenham suas origens no sul do país, têm perfis bem distintos.

Mano é mais “alemão”. Duro, pragmático, frio na maior parte do tempo. Ainda que ande cada vez mais destemperado à beira do campo, especialmente com a arbitragem. Já Felipão é “italiano”: sanguíneo, passional, protetor. Mas igualmente focado no resultado final.

Dois “europeus” que são símbolos do futebol jogado no Brasil. Não por acaso dois dos últimos quatro treinadores da seleção. Como Dunga e Tite, todos do sul.

Porque a “nova ordem nacional” copia o futebol europeu no trabalho sem bola. A sofisticação do “fechar a casinha”. O futebol gaúcho, em especial, sempre teve como característica a organização defensiva, o jogo físico e a pressão sobre o adversário com a bola. Características dos times de Ênio Andrade, Rubens Minelli e outros. Inspirações declaradas da grande maioria dos treinadores bem sucedidos vindos do Rio Grande do Sul.

A vitória do Cruzeiro sobre o Palmeiras no Allianz Parque pela semifinal da Copa do Brasil foi típica. O mando de campo induziu um dos times a avançar suas linhas e arriscar mais. Na entrevista antes da partida, Felipão foi bastante claro: “Precisamos ter cuidados principalmente quando estivermos com a bola”.

Dudu vacilou e o contragolpe foi letal. Toques rápidos, práticos até Barcos tocar na saída de Weverton. Jogada de manual. Com espaços a beleza se faz presente.

Diante de duas linhas de quatro compactas e muita concentração defensiva, o Palmeiras teve dificuldades para impor seu jogo simples e direto. Muitas vezes jogou feio. No geral, o desempenho não foi bom. Porque criar brechas em um “muro” é cada vez mais complexo.

Não basta entregar a bola para o talento resolver na base do drible ou do passe mágico no meio da defesa. Agora há mais corpos condicionados e bem posicionados para bloquear. Em jogos grandes mais ainda. Atacar requer repertório coletivo. Trocas de passes, movimentação, infiltração na hora certa e precisão no acabamento da jogada – assistência e finalização.

Tudo que o time da casa não teve. Mesmo com Lucas Lima no lugar de Thiago Santos aumentando a criatividade e a expulsão de Edilson empurrando ainda mais a equipe mineira para o próprio campo. Com 66% de posse, 19 finalizações contra apenas quatro. Levantando 37 bolas na área de Fábio. Mesmo com bola no travessão em chute de Willian faltou a chance cristalina em jogada construída.

No final, o lance polêmico. Para este que escreve, disputa normal entre Edu Dracena e Fábio. Goleiro não é intocável dentro da área. O árbitro Wagner Reway anulou antes do toque de Antonio Carlos para as redes. Podia ter sido o empate do Palmeiras. Mas também não é o fim do mundo.

O Cruzeiro não tem conseguido se impor no Mineirão. Muito pela proposta de Mano de não correr riscos mesmo quando o cenário é tão favorável. Ficou por um gol de ser eliminado pelo Santos na fase anterior da Copa do Brasil e de ter que disputar com o Flamengo nos pênaltis pela Libertadores.

É melhor se cuidar, porque o Palmeiras está bem vivo e parece mais forte que os outros oponentes eliminados. E Felipão certamente usará o tradicional discurso “contra tudo e todos” para inflamar seu time. Como visitante, a pressão diminui e o jogo costuma fluir melhor. O Cruzeiro tem sentido mais o peso, inclusive do favoritismo. Sempre incômodo no futebol brasileiro.

Confronto muito aberto. A missão do Cruzeiro é entregar em casa a atuação segura que a torcida tanto aguarda. Mas se terminar com a vaga em mais uma decisão do torneio, mesmo com sofrimento, a festa será igual. Porque a exigência no Brasil vai pouco além do resultado final. Mano e Felipão são dois grandes expoentes dessa mentalidade.

(Estatísticas: Footstats)


Internacional e Palmeiras vencem clássicos “típicos” e ganham uma rodada
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André Rocha

Beira-Rio e Allianz Parque foram os palcos dos grandes clássicos da 24ª rodada do Brasileiro. Mesmo prejudicados pelo Grêmio muito desfalcado e o Palmeiras seguindo seu roteiro de colocar mais reservas em campo no fim de semana quando tem jogo de mata-mata em seguida.

Duelos que seguiram o roteiro da maioria dos clássicos e jogos decisivos no país: muita concentração defensiva, jogo simples para minimizar erros e não correr riscos, disputa física com jogadores pilhados para mostrar aos torcedores que estão ligados e, claro, pressão nas arbitragens. Ou seja, seguindo velhos discursos: “clássico não é para jogar, mas para vencer” e “será decidido nos detalhes, quem errar menos sairá com os três pontos”.

Em ambos, times sem muita ambição e mais preocupados com o trabalho defensivo no primeiro tempo. Mesmo para quem tomava a iniciativa e ficava com a bola – inicialmente os times da casa. Compreensível para o Corinthians que estreava Jair Ventura na casa do rival e buscava um reequilíbrio. Ou, no popular, “fechar a casinha”.

Vitórias dos mandantes que souberam se impor. O líder Internacional manteve sua proposta de jogo, alternando Nico López e William Pottker pelas pontas no 4-1-4-1 habitual, ora ocupando o campo de ataque, ora negando espaços ao maior rival. Até Uendel, substituto do suspenso Iago, colocar na cabeça de Edenilson e decidir.

Porque faltou ao Grêmio de Renato Gaúcho o “punch” de outros momentos. Muito pelas ausências de Kannemann, na seleção argentina, e Maicon por lesão. Também da velocidade e do drible de Everton, a serviço de Tite. Sobraram a fibra do campeão da Libertadores e a boa surpresa do meia Jean Pyerre, que entrou na vaga de Luan deu trabalho a Rodrigo Dourado e Marcelo Lomba. Foram 55% de posse e 12 finalizações contra nove do Colorado, três para cada lado.

Triunfo simbólico para comprovar a força da equipe de Odair Hellmann e tirar a má impressão do empate sem gols com os reservas do Palmeiras na primeira partida em casa contra os times na ponta da tabela.

Até porque a formação que Luiz Felipe Scolari manda a campo no Brasileiro também vai se impondo na autoridade da transformação anímica no clube com a chegada do treinador ídolo e multicampeão. Com Weverton no gol, Felipe Melo no meio e Dudu na frente. Mas usando o fator campo para acuar o rival.

Thiago Santos e Felipe Melo mais fixos liberando Lucas Lima e os laterais Marcos Rocha e Victor Luís. Passes longos, Deyverson no pivô retendo a bola ou partindo para a conclusão. Dudu e Hyoran alternando pelos flancos e buscando as infiltrações em diagonal. Jogo direto, eficiente e que vai desgastando o adversário.

Ainda mais o Corinthians em transição, abalado e que só queria retomar a solidez sem a bola. No 4-2-3-1, com Romero pela esquerda tentando acompanhar Marcos Rocha, que aparecia nas ultrapassagens e também nas cobranças de lateral diretamente na área adversária. Na segunda etapa, a entrada de Moisés no lugar de Thiago Santos deu ainda mais volume ao Alviverde.

Até o passe de Marcos Rocha para a finalização de Deyverson. A mais precisa das 12 do Palmeiras contra apenas quatro do atual campeão brasileiro – nenhuma no alvo. Mesmo verticalizando o jogo quase o tempo todo, o time da casa terminou com 54% de posse. Controlou bem a partida dentro do contexto.

Dudu foi o destaque, com cinco finalizações, um chute no travessão em bela jogada individual e levando vantagem principalmente quando aparecia pela esquerda contra o inseguro Mantuan. Muito diferente do jogador inconstante dos tempos de Roger Machado. Mais um ponto para Felipão.

Mais três para Inter e Palmeiras. Em jogos mais pegados que jogados. Clássicos “típicos”. Vencidos pelas equipes em alta que souberam aproveitar o mando de campo para não deixar o São Paulo retomar a liderança. Ganham uma rodada na busca do título.

(Estatísticas: Footstats)


Bruno Henrique é o “faz-tudo” da vez de Felipão no meio-campo do Palmeiras
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André Rocha

Foto: César Greco/Agência Palmeiras

O Palmeiras começou a descomplicar o jogo contra o Atlético Paranaense no Allianz Parque na volta do intervalo. Luiz Felipe Scolari notou que a dupla Thiago Santos e Felipe Melo à frente da defesa não funcionava tão bem dentro de casa como na vitória como visitante sobre a Chapecoense por 2 a 1 utilizando time praticamente reserva.

Recompôs a dupla de volantes com a entrada de Bruno Henrique na vaga de Thiago Santos. Saindo de um 4-2-3-1 clássico para um 4-1-4-1 mais dinâmico, o time paulista criou volume de jogo e dominou a partida. Subiu a posse de bola de 50% para 53%, finalizou seis vezes, quatro no alvo, contra apenas duas nos primeiros 45 minutos. O Atlético que se recuperou com Tiago Nunes no comando técnico concluiu apenas duas vezes na segunda etapa, nenhuma na direção da meta de Fernando Prass. Foram cinco no primeiro tempo.

O Alviverde construiu os 2 a 0 em duas saídas rápidas dentro da filosofia de um jogo mais direto de Felipão. Na primeira, Dudu pela direita acionou Deyverson, que entrara na vaga de Borja. Belo passe do centroavante em profundidade para Willian tocar na saída de Santos. No final, o “Bigode” sofreria pênalti do goleiro atleticano que Moisés converteu.

Os 17 pontos em 21 possíveis desde a chegada de Scolari alçou o Palmeiras à terceira colocação, ultrapassando um Flamengo em queda livre. Está a três pontos do Internacional, o novo líder. Nas quartas da Libertadores e na semifinal da Copa do Brasil. O sonho de uma inédita tríplice coroa clássica – duas principais competições nacionais e a principal do continente – está mais que vivo.

Muito pela presença de Bruno Henrique. O volante-meia que é fundamental no time de Felipão pela capacidade de auxiliar o volante mais fixo sem bola e se juntar ao meio-campista de articulação para criar as jogadas e também aparecer para a finalização. Função que exige técnica e também vigor para preencher um espaço grande entre as intermediárias.

Uma tradição nas equipes do treinador veterano. Desde Roberto Cavalo no Criciúma campeão da Copa do Brasil 1991, primeira grande conquista de Scolari. Depois Luis Carlos Goiano no Grêmio que venceu a Libertadores em 1995. César Sampaio, quando jogava com Galeano, ou Rogério no Palmeiras em mais uma Copa do Brasil vencida por Felipão. No título de 2012, a função era de Wesley até o volante se contundir. Na final contra o Coritiba, Henrique, zagueiro hoje no Corinthians foi adiantado para o meio e Marcos Assunção ganhou mais liberdade para chegar à frente.

Na seleção brasileira, a troca de Juninho Paulista por Kléberson arredondou o time do título mundial em 2002 na Ásia. Ainda que, na prática, muitas vezes o volante mais fixo tenha sido Edmilson e Gilberto Silva o segundo, na variação do sistema de três zagueiros para linha de quatro. Kléberson, porém, preenchia bem o espaço entre os cinco jogadores mais defensivos e o trio de talentos formado por Rivaldo e os Ronaldos. Dava a “liga”.

Já na Copa das Confederações de 2013, Paulinho foi um dos destaques atuando à frente de Luiz Gustavo e se aproximando do quarteto Hulk-Oscar-Neymar-Fred. No Mundial no Brasil, o volante havia perdido muito rendimento com a troca do Corinthians pelo Tottenham, saiu para a entrada de Fernandinho, que não manteve o nível e os 7 a 1 foram o final trágico para uma equipe desequilibrada. Felipão reencontraria Paulinho nas várias conquistas no futebol chinês com o Guangzhou Evergrande. Com o camisa oito exercendo a mesma função essencial.

Não é por acaso que Bruno Henrique é o melhor passador e o meio-campista que mais finaliza da equipe no Brasileiro. Curiosamente, com Felipão ainda não marcou gols. Talvez pelas maiores atribuições defensivas e por conta do estilo de jogo com menos trocas de passe que dão tempo do volante aparecer na área adversária. A bola chega mais rapidamente e a finalização acaba ficando por conta dos atacantes.

Mas com cinco no Brasileiro e onze na temporada, o capitão foi destaque solitário na fase oscilante, ainda com Roger Machado. Seria o jogador do Palmeiras convocado por Tite para os amistosos contra Estados Unidos e El Salvador para ter um de cada equipe envolvida com a semifinal da Copa do Brasil. O treinador da seleção, porém, optou por dar oportunidades a Fred, Arthur e Fabinho. Não deixa, porém, de ser um reconhecimento ao ótimo momento do camisa 19.

Ainda mais importante pelas características e pelo posicionamento dos companheiros. Moisés na maior parte do tempo se adianta para se juntar ao centroavante buscando a primeira ou segunda bola nas muitas ligações diretas – foram 61 lançamentos contra o Atlético-PR! Já os ponteiros Willian e Dudu ficam mais abertos e buscam as infiltrações em diagonal, aparecendo pouco no meio para colaborar. Cenário diferente dos tempos de Zé Roberto no Criciúma, Carlos Miguel no Grêmio e Zinho no Palmeiras, pontas “falsos” que auxiliavam os meio-campistas. Agora é Bruno Henrique quem cobre os eventuais buracos.

A dúvida está na reposição. O recuo de Moisés com a entrada de Lucas Lima parece a mais viável, embora perca em marcação no meio. Pode ser a opção para partidas em que o jogo exija uma proposta mais ofensiva e de circulação da bola. Se a ideia for se fechar e negar espaços, Thiago Santos e Felipe Melo voltam a ser úteis protegendo a última linha de defesa.

Por enquanto tem funcionado e o Palmeiras ganha força. Muito pela eficiência de Bruno Henrique, o “faz-tudo” da vez de Felipão.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Felipe Melo, o “gatilho” para os clichês de Libertadores. Menos um
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André Rocha

“É jogo de Libertadores!”

Eis o pai de todos os clichês do maior torneio da América do Sul. Uma espécie de senha ou licença para todo tipo de recurso para vencer. Mesmo a barbárie dentro e fora das quatro linhas. Vale quase tudo, porque ao contrário de tempos remotos hoje existe as muitas câmeras de TV para registrar as situações mais absurdas.

O ápice do “futebol testosterona”. O jogo pra macho! O templo da virilidade. Pancadaria, ligação direta, lateral na área, torcida hostil, pressão na arbitragem…Vence o mais forte, o mais raçudo ou o mais esperto e não o melhor. É o não-jogar. Posse de bola, conceitos, jogo coletivo e mais pensado que sentido? Tudo frescura…

No Allianz Parque, outros clichês que são derivados do primeiro se fizeram presentes. “Se o resultado é favorável faz catimba!” O Palmeiras de Luiz Felipe Scolari, com vantagem de dois gols fora de casa e um homem a menos, trocou apenas 140 passes. Poderia ter gastado o tempo ficando com a bola e envolvendo um Cerro Porteño frágil tecnicamente e envelhecido. Preferiu “congelar” o jogo ganhando cada segundo possível. No final, só sofreu um gol, o primeiro sob o comando de Felipão, e se classificou. Mesmo correndo mais riscos que o recomendável.

Mas para que jogar se “é guerra”? Melhor dizer no final que foram mais experientes e malandros, não melhores. É um mundo paralelo que envolve torcida, dirigentes, boa parte da imprensa…como discutir? Ainda mais com Felipão, que chegou ao Palmeiras para entregar resultado. Cru. A exigência por um jogo mais agradável ao olhos se foi com Roger Machado. Sai a estética, fica o pragmatismo puro.

“Felipe Melo é isso!” De fato, o Palmeiras sabia quem estava contratando e isto ficou claro desde a coletiva de apresentação. Tudo pode acontecer. Tanto um bom desempenho do volante inteligente, de senso coletivo, posicionamento correto e passe preciso quanto o ocorrido aos três minutos de jogo.

Porque o árbitro argentino Germán Delfino não seguiu o clichê “juiz não expulsa na primeira pancada”. A entrada de Felipe Melo em Vítor Cáceres era mesmo passível de vermelho direto. Talvez outro não tivesse coragem para expulsar um atleta do time da casa tão cedo. Mas certamente o volante pagou pelos antecedentes. Faz parte do jogo.

Assim como é do repertório de todas as torcidas o “se não for sofrido perde a graça”. Um jogo de volta que parecia protocolar para garantir a vaga nas quartas de final se transformou numa batalha épica. No final, todos saíram vibrando e até criou-se um clima de “contra tudo e contra todos” por conta da arbitragem. Nada mais emblemático.

Felipe Melo foi o “gatilho” de um combo de clichês de Libertadores. Mas quem se importa? O Palmeiras segue vivo. E “os anti pira”.


Paulo Turra, auxiliar do Palmeiras: “Mourinho aprendeu muito com Felipão”
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André Rocha

A volta de Luiz Felipe Scolari ao Palmeiras após seis anos foi anunciada no dia 26 de julho. mas no dia seguinte chegavam ao clube os auxiliares Paulo Turra e Carlos Pracidelli. Na segunda-feira o primeiro treino e, em seguida, Turra à beira do campo no empate sem gols com o Bahia em Salvador pela Copa do Brasil, competição importante para o clube na temporada. Só depois Felipão chegou de Portugal e fez sua reestreia no o a 0 contra o América pelo Brasileiro.

Cronologia que mostra a relação de sintonia entre o ex-zagueiro, inclusive do Palmeiras, e o chefe Felipão. Sem Flávio Murtosa, que alegou problemas particulares, é Turra, aos 44 anos, quem aplica os treinos ao lado de Pracidelli. Antes, no Guangzhou Evergrande, trabalhava apenas na elaboração. Em entrevista exclusiva ao blog, Paulo Turra descreve a dinâmica de trabalho no novo clube e defende Scolari das críticas mais contundentes nos últimos tempos: o 7 a 1 e uma visão de futebol ultrapassada.

BLOG – O trabalho mais bem sucedido nos últimos dois anos no Brasil é o de Renato Gaúcho no Grêmio. O auxiliar, Alexandre Mendes, cuida da metodologia de treinamentos e do desenvolvimento do modelo de jogo e Renato fica com a decisão final, a parte mais estratégica e de gestão de grupo. A ideia da sua parceria com Felipão e o auxílio do Pracidelli é parecida?

PAULO TURRA – Em linhas gerais, sim. Antes eu cuidava da elaboração e Murtosa da aplicação dos treinamentos. Também observava os adversários, junto com o Pracidelli. Mas o trabalho está todo interligado. Nós também colaboramos, dentro da hierarquia, com a gestão do grupo. Conversamos individualmente, mas também em grupos, como os jogadores de um setor. Podemos também explicar como joga o próximo adversário.

BLOG – Vocês já utilizam o WhatsApp ou outro recurso para disponibilizar material diretamente no celular do atleta?

PAULO TURRA – Ainda não, embora o Felipão esteja pensando em fazer algo neste sentido. Por enquanto conversamos individualmente, mas contando com o auxílio dos profissionais da Análise de Desempenho. Só para dar um exemplo, vamos conversar com três ou quatro jogadores sobre algumas dificuldades que encontramos no jogo contra o Bahia aqui em São Paulo. Mas também tem o outro lado: Lucas Lima evoluiu muito nas infiltrações por trás da defesa neste último jogo, contra o Vitória. Ele costuma voltar para buscar a bola nos pés dos volantes, até dos zagueiros, pisou muito mais na área adversária e ali ele é mais letal e pode nos ajudar.

BLOG – Como é a dinâmica dos treinamentos?

PAULO TURRA – Chegamos aqui com bastante antecedência para prepararmos tudo. A ideia é trabalhar 50% na assimilação do modelo de jogo e os outros 50% com ajustes de acordo com o adversário. Também evitamos o campo reduzido em todas as práticas, usando muitas vezes a largura total do campo para que tenhamos algo mais próximo da realidade da partida, especialmente nas inversões de jogo. O primeiro gol contra o Vitória, por exemplo, saiu de uma jogada treinada. Passamos informações concretas para que sejam assimiladas com mais facilidade e, principalmente, trabalhamos muito o lado mental do atleta. Pedimos para que mentalizem bem o que praticaram nos treinos e precisam fazer nos jogos.

BLOG – Que legado vocês receberam do trabalho do antecessor, Roger Machado?

PAULO TURRA – O Palmeiras é um clube muito bem estruturado. Na Análise de Desempenho temos o Gustavo e o Rafael, profissionais competentes que em três ou quatro reuniões entenderam rapidamente o que pretendemos. Quanto ao legado do Roger, eu posso dizer que foi uma espécie de “troca de favores” porque tenho certeza que quando ele assumiu o Grêmio em 2015 recebeu um trabalho pronto e bem feito do Felipão, inclusive em termos de estrutura do Centro de Treinamentos. Aprendeu e deu sequência. No futebol não existe certo ou errado, mas ideias complementares. Quem é inteligente pega o melhor de cada treinador.

BLOG – É óbvio que para convidá-lo para ser seu auxiliar, certamente Felipão tem ideias sobre futebol parecidas com as suas. Mas o quanto elas são semelhantes ou alinhadas?

PAULO TURRA – São bem próximas, de fato. Mas quando há divergência falamos normalmente. Todo mundo tem algo a aprender e Felipão me dá liberdade para discordar quando achar que devo. Com o devido respeito, pois é um profissional vencedor e que está na história do futebol. Mas minhas equipes (treinou times como Brusque, Avaí e Cianorte) também tinham um volante e um atacante de referência, como são Felipe Melo e Borja ou Deyverson. Outros detalhes também, como o lateral do lado oposto ao que está atacando fechando como terceiro zagueiro. Conhecia como amigo do futebol, já tínhamos ideias parecidas e desde que começamos a trabalhar juntos na China essa sintonia aumentou.

BLOG – Tanto que ele recentemente não aceitou que você retornasse a China como treinador, correto?

PAULO TURRA – Exatamente. A proposta nem chegou a mim. Felipão recebeu por e-mail, negou e depois me contou, sem nem dizer qual era o nome do clube chinês. Mas eu não sairia mesmo. Estou feliz no Palmeiras e sei que ele precisa de mim, ainda mais sem o Murtosa. Seria uma ingratidão. Quero seguir no Brasil, onde para mim é um dos lugares em que o futebol é melhor jogado.

BLOG – Você observa jogos e relata para o Felipão. No episódio do 7 a 1 na Copa do Mundo de 2014, os observadores Roque Júnior e Alexandre Gallo relataram sobre a força da Alemanha no meio-campo e a capacidade de preencher espaços no campo de ataque e Felipão descartou preencher o meio-campo e apenas trocou Neymar por Bernard. A decisão foi do Felipão, que muitas vezes se guia pela intuição – e também já venceu muito desta forma, diga-se. Como funciona com você?

PAULO TURRA – Ele ouve muito, mas é quem decide por ser o chefe. Honestamente nunca vi uma decisão dele por intuição. Pelo contrário, considero o Felipão muito atualizado, antenado. Não tem nada de ultrapassado. E a meu ver a derrota para a Alemanha não aconteceu por causa da entrada do Bernard. Foi uma conjunção de fatores.

BLOG – Você sempre que pode cita José Mourinho como uma referência de treinador. Que outros profissionais você e também o Felipão consideram como influentes na maneira atual de trabalhar no futebol?

PAULO TURRA – Para mim o Mourinho, sem dúvida, é uma referência. Mas com Felipão creio que seja o contrário. O Mourinho é um grande admirador dele. Aprendeu muito com ele quando treinava o Porto e Felipão estava em Portugal trabalhando na seleção, já como campeão do mundo pelo Brasil. Basta ver suas equipes, com os atacantes como os primeiros defensores, pressionando muito os adversários. Adota também a prática de forçar o adversário a jogar pelo lado e dali não sair mais. Lembra quem era o volante do Porto? Costinha, que depois Felipe levou para a seleção. Sempre um atacante de referência, dois jogadores velozes pelos lados. São visões de futebol muito próximas, inclusive na gestão de grupo.

BLOG – Mas que outro treinador você poderia citar como alguém fazendo um bom trabalho capaz de agregar coisas ao que vocês fazem?

PAULO TURRA – São vários, difícil citar. Mas nunca vi o Felipão criticar o trabalho de um treinador, seja lá quem for. Já vi, sim, elogiando. Como fez com o Marcelo Caranhato, do Cianorte, quando eu o apresentei. Mas Simeone seria um deles, pela capacidade de armar seu time de forma compacta. Também Fabio Capello pela experiência, o André Villas-Boas, entre outros.

BLOG – O Palmeiras tem usado um time mais “alternativo” no Brasileiro e outro aparentemente mais completo, perto do que o Felipão considera o titular, nos torneios de mata-mata. Será essa a tônica até o final da temporada?

PAULO TURRA – Pensamos jogo a jogo. O grupo é bom, a maioria já conhecíamos de acompanhar jogos no Brasil. Eles absorveram as ideias muito rapidamente. O que fazemos é pensar na melhor formação possível considerando todos os aspectos, especialmente as informações do Departamento Médico e de Fisiologia. Se tiver um maior risco de lesão a gente segura. Queremos todos o mais próximo possível dos 100% fisicamente para poder manter o bom rendimento que estamos conseguindo neste início de trabalho. Não há prioridade, vamos brigar nas três frentes da melhor maneira possível.

 


Palmeiras na semifinal da Copa do Brasil já com toques do “método Felipão”
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André Rocha

A vitória por 1 a 0 sobre o Bahia no Pacaembu que coloca o Palmeiras na semifinal da Copa do Brasil contra o Cruzeiro é a segunda em mata-mata na volta de Luiz Felipe Scolari. A segunda com titulares num total de três em quatro jogos. Sem sofrer gols. O de Dudu foi o quarto marcado.

Pouco tempo. Mas o suficiente para perceber que já existem toques do “método Felipão” na equipe alviverde.

A começar pelo 4-2-3-1 que aproxima o meia central – Moisés, que deixa Lucas Lima no banco – de Borja, a referência do ataque. Exatamente para ser o jogador que pressiona o volante mais fixo na saída de bola do adversário. funciona como um desafogo na saída rápida em contragolpe e disputa pelo alto nas ligações diretas da defesa palmeirense quando pressionada. Certamente a estatura pesou a favor do camisa dez.

As bolas roubadas no campo do oponente continuam sendo uma arma importante quando surge a dificuldade para criar espaços. O contra-ataque mais perto da meta rival com a retaguarda desarrumada. Um recurso desde o Grêmio nos anos 1990, passando pelo Brasil campeão mundial em 2002. Quase rendeu gol em oportunidade clara de Willian após interceptação de Borja. Moisés também perdeu à frente do goleiro Anderson numa cobrança rápida de falta.

No primeiro tempo, a pressão no campo de ataque rendeu bola roubada por Borja que quase terminou em gol com Willian saindo à frente do goleiro Anderson. Velho recurso dos times de Felipão (reprodução SporTV)

Boas chances, mas construídas com pouco volume de jogo. Muito pela falta de aproximação no setor ofensivo. Willian e Dudu abertos, Moisés se juntando a Borja na maior parte do tempo e o espaço para a articulação sendo ocupado basicamente por Bruno Henrique, com um ou outro movimento de Moisés recuando para auxiliar.

O Bahia de Enderson Moreira no primeiro tempo foi um contraponto. No mesmo 4-2-3-1, porém com bola no chão e mobilidade do quarteto ofensivo. Zé Rafael saia da esquerda para dentro pensar o jogo com Vinícius e Edigar Júnio infiltrava em diagonal para se juntar a Gilberto. Assim saiu a melhor oportunidade na finalização na trave de Edigar, com Gilberto chutando no rebote em cima do próprio camisa onze e perdendo gol feito. Sorte de Felipão.

Antes do primeiro minuto da segunda etapa, Borja perdeu mais uma oportunidade cristalina tentando encobrir Anderson depois de um chutão de Edu Dracena. O Palmeiras voltou do intervalo com mais intensidade e concentração no trabalho defensivo, pressionando o adversário com a bola e melhor posicionado, especialmente Felipe Melo, para impedir a troca de passes na entrada da própria área.

Retomou domínio, ocupou o campo de ataque e chegou ao gol na melhor jogada trabalhada. Pela direita, com Mayke, que deixou Marcos Rocha no banco e foi o melhor passador da partida, tabelando com Moisés e cruzando na cabeça de Dudu. O camisa sete decisivo, mas que participava pouco do jogo. Combinação pelo flanco, cruzamento e ponta do lado oposto pisando na área para concluir, junto com Borja e Willian. Também uma prática comum dos times de Scolari.

Combinação rápida e precisa entre Mayke e Moisés e o cruzamento encontrando três palmeirenses na área adversária. Dudu completou e decidiu o jogo e a vaga nas semifinais da Copa do Brasil (reprodução SporTV).

Depois foi administrar com uma formação inusitada: Thiago Santos entrou na vaga de Borja e Hyoran substituiu Willian. Com isso, o 4-2-3-1 tinha Bruno Henrique como meia central, Moisés à direita e Hyoran mais adiantado. Força na marcação e um atacante descansado para correr sozinho na frente.

Deu certo. Triunfo com 60% de posse de bola, finalizando 13 vezes contra dez do Bahia – seis a quatro no alvo. Desarmando menos (15 a 19), porém interceptando mais (6 a 4). Também menos cruzamentos – 20 a 21 – e lançamentos – 37 a 39. O Palmeiras de Scolari não é exatamente moderno, mas tenta jogar.

Mesmo quando não consegue, tem como mérito nunca desistir. De tanto querer a vitória acaba aparecendo. Mais Felipão impossível.

(Estatísticas: Footstats)


Vanderlei Luxemburgo deve parar de reclamar de “hoje em dia”
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André Rocha

Santos e Palmeiras pensaram em Vanderlei Luxemburgo para o comando técnico de suas equipes. Fecharam com Cuca e Felipão, respectivamente. Mais uma oportunidade de reflexão para o treinador veterano, fora do mercado desde outubro do ano passado ao ser demitido pelo Sport. Ou, melhor ainda, de uma reciclagem. Buscar um “turning point” sinalizando mudanças na visão de futebol e no comportamento.

Mas Vanderlei prefere estar na mídia. Quase onipresente nos programas esportivos, em TV aberta e fechada. Agora também no Youtube. Apenas para escancarar sua estagnação. Não sai do lugar porque está com os olhos sempre voltado para o passado. Seus feitos, suas sacadas, conquistas. Todos históricos e respeitáveis, ainda mais se considerarmos de onde veio e que patamar alcançou. Só que passaram.

Quanto ao presente, apenas reclamações. Do “hoje em dia”. “Não temos mais o drible”, “falta talento”, “não há nada de novo em termos táticos”, “tudo isso eu já fazia”.  Também lamenta a geração atual: “só querem saber de rede social”, “são mimados, não aceitam bronca”. Chega ao ponto de criticar os treinadores que estudam. Fazer curso? Nunca! Ele é quem deveria ser o professor…

Vanderlei foi um dos melhores do país, para este que escreve o melhor, quando vivia intensamente o presente e, principalmente, sinalizava o futuro. Queria a seleção brasileira e depois trabalhar na Europa. Conseguiu, porém falhou nos dois projetos. Agora, aos 66 anos, parece sem objetivo. Ou apenas voltar a trabalhar. Afirmou que faria o Santos voar se o clube fechasse com ele.

Mas como acreditar? Se não há nada novo, o que ele pode oferecer de diferente em relação aos concorrentes? Experiência sem conceitos atuais? Liderança sem jogo de cintura para lidar com os atletas? Para complicar, a dificuldade de trabalhar em equipe sem se intrometer nos outros setores do clube. Em especial nas negociações de jogadores.

Luxemburgo corre o risco de entrar no ciclo de Joel Santana: ser tratado como fenômeno de entretenimento e não mais um treinador de futebol. Há muitas pessoas que assistem aos vídeos do seu canal do Youtube para se divertir. De fato, ele sempre foi carismático. Um personagem sensacional. O conteúdo, porém, fica em segundo plano. Até porque ele está em todos os lugares falando as mesmas coisas que diz há anos.

Não há nada de novo no futebol para Luxemburgo. Logo, o Vanderlei não pode apresentar uma novidade ou algo interessante. Para quem quer voltar ao mercado e ser respeitado, o cenário está complexo. Seria melhor preservar a imagem e, principalmente, tentar se atualizar. Não em frente às câmeras ou na internet, mas no campo de jogo.

Afinal, insistir com as mesmas práticas esperando resultados diferentes nunca deu muito certo. Para qualquer um, em qualquer área. Mesmo que em breve apareça um clube interessado, as chances de dar certo são bem remotas. Vanderlei Luxemburgo se acha diferente. O mercado também o vê assim, mas não do jeito que ele pensa. Ainda há tempo para mudar, mas tem que ser rápido.


Volta de Felipão e “Caso Renato Gaúcho” têm semelhanças e diferenças
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André Rocha

Quando foi anunciada a volta de Luiz Felipe Scolari ao Palmeiras depois de seis anos para suceder o demitido Roger Machado, imediatamente surgiu nos debates esportivos e nas redes sociais a discussão sobre o recuo de um grande clube na busca por treinadores mais jovens e antenados.

Impossível não associar ao “Caso Renato Gaúcho”. Não tão vivido quanto Felipão, mas que também parecia fora do mercado brasileiro e se transformou no treinador mais vitorioso dos últimos dois anos em sua volta triunfal ao Grêmio com títulos da Copa do Brasil, Libertadores, Recopa Sul-Americana e Campeonato Gaúcho.

Os casos têm semelhanças, mas também diferenças marcantes. A começar pelo tempo de inatividade. Renato deixou o Fluminense em 2014 depois de um trabalho muito aquém das expectativas e ficou mais de dois anos parado. Já Scolari estava desde 2015 no Guangzhou Evergrande e empilhou títulos: campeão asiático em 2015, tri chinês e mais a Copa e o bi da Supercopa do país. Mesmo em uma liga menos competitiva é um retrospecto respeitável.

Mas Renato tinha algumas vantagens no tricolor gaúcho. É o maior ídolo da história do clube e, principalmente, desenvolveu bons trabalhos nas passagens em 2011 e 2013, garantindo vaga para a Libertadores em campanhas de recuperação. Ao contrário de Felipão no Palmeiras, o treinador encontrou o legado de um trabalho mais estruturado e longo de Roger Machado. Sem contar que num contrato inicial de apenas três meses por conta da eleição no clube não havia tanta pressão para tirar o Grêmio do jejum de 15 anos sem uma conquista relevante desde a Copa de Brasil de 2001.

Por outro lado, Felipão pode repetir com Paulo Turra, seu auxiliar junto com Carlos Pracidelli depois que Murtosa desistiu de acompanhar a comissão técnica do treinador, a parceria mais que bem sucedida de Renato com Alexandre Mendes. Enquanto o assistente, mais estudioso, trabalha na metodologia de treinamentos para manutenção do modelo de jogo, o técnico cuida dos detalhes estratégicos da equipe e, especialmente, da gestão de grupo para manter todos mobilizados. Sem contar o carisma e a coragem para lidar com imprensas e as pressões internas e externas.

Só que a última passagem de Scolari pelo clube paulista em 2012 teve dois lados bem distintos: conquista da Copa do Brasil com uma equipe limitadíssima, mas também a campanha pífia no Brasileiro que encaminhou o rebaixamento. Uma mancha que coloca uma ponta de dúvida no torcedor, assim como o emblemático 7 a 1 para a Alemanha pela seleção brasileira.

O trabalho no Grêmio em 2014/15, também não terminou bem. Abriu espaço para Roger Machado, sucedido por Renato. Agora é Scolari quem substitui Roger, mas em um cenário bem mais complexo. No olho do furacão.

O treinador da conquista da Libertadores em 1999, porém, tem muitos créditos e chega com aura de messias. Um toque de sebastianismo em ambiente político conturbado. O típico “escudo” que todo dirigente quer para sair do foco da ira de um torcedor que quer ver o alto investimento se traduzindo em títulos e se desiludiu com a volta frustrante de Cuca no ano passado. A cobrança será proporcional à esperança.

Mas tem boas chances de funcionar, especialmente nas disputas de mata-mata. No nosso futebol brasileiro passional e um tanto caótico, já está claro que se houver química e a dosagem certa de razão e emoção tudo pode dar muito certo. Aconteceu com Renato Gaúcho, por que não com Felipão?


Croácia é um belo “case de caos”. Mas não deve ser exemplo mesmo que vença
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André Rocha

Foto: Yuri Cortez/AFP

O último título mundial do Brasil em 2002 foi um curioso caso, talvez único, no qual a conquista ficou parecendo a consolidação de um trabalho que vinha do título em 1994, passando pelo vice quatro anos depois. Mas a trajetória de fato foi caótica: Vanderlei Luxemburgo, Candinho e Emerson Leão até chegar a Luiz Felipe Scolari.

Sofrimento nas Eliminatórias, vergonha na Copa América contra Honduras. Tudo deu certo mesmo apenas na Ásia – com seus percalços, como a estreia contra a Turquia vencida no pênalti “mandrake” sobre Luisão e nas oitavas, quando a arbitragem também interferiu no triunfo sobre a Bélgica.

Curiosamente, depois do título veio um período de esperança e prosperidade. Amadurecimento de Kaká e Adriano Imperador, surgimento de Robinho e Diego no Santos campeão brasileiro ainda naquele ano. Com Parreira no comando, títulos da Copa América, Copa das Confederações e liderança nas Eliminatórias. A queda pós ascensão veio logo no Mundial na Alemanha.

Depois o Brasil não mais se impôs. Com ciclo completo de Dunga em 2010, os nas mudanças de Mano Menezes para Felipão em 2014 e agora saindo de Dunga para Tite. Pelas mais variadas circunstâncias, inclusive a aleatoriedade em jogos eliminatórios.

A classificação da Croácia para a final contra a França despertou aqui e ali uma tese bastante presente em nosso país: planejamento e organização não garantem sucesso, que se resume ao título. Ainda mais em tempos de Flamengo e Palmeiras equacionando dívidas e sem conseguir alcançar os troféus desejados justamente no momento em que os investimentos aumentaram.

Devia ser óbvio defender uma linha de trabalho com ideias claras e objetivos bem definidos. Que no futebol não pode ser atrelada tão diretamente a algo sem controle como o resultado final. Muito menos em uma Copa do Mundo. Torneio que conta com sorteio e chaveamentos. No qual a ordem de adversários e as circunstâncias são totalmente aleatórias. Premia o melhor daquele mês, não necessariamente o do ciclo inteiro.

O trabalho sério é para garantir a competitividade. Sair de um papel de coadjuvante, desclassificado na primeira fase, para brigar no topo ou no mais próximo disto. Assim foi com Espanha, França, Alemanha e Bélgica. Assim pensa o Brasil ao vislumbrar mais quatro anos com Tite.

Porque a Croácia pode até ser campeã mundial. Mas correu sérios riscos de ficar de fora da Copa. Quando contratou Zlatko Dalic às pressas depois de demitir Ante Cacic precisava vencer a Ucrânia fora de casa para ir à repescagem, já que a Islândia garantira o primeiro lugar do grupo na eliminatória. Conseguiu um 2 a 0. A ventura no sorteio com a Grécia. O resto é história.

Que podia nem ter chegado a Rússia. Como aconteceu com Itália e Holanda. Uma renegou a formação de talentos, a outra encontra-se presa numa escola de futebol que tanto ofereceu ao mundo, mas parou no tempo. Risco que o Brasil correu com Dunga. Agora é fácil dizer que independentemente do treinador o país sempre vai à Copa. Era sexto colocado, atrás do Chile, bicampeão da Copa América que não se repaginou após a saída de Jorge Sampaoli e o espasmo com Pizzi na conquista do torneio Centenário nos Estados Unidos e ficou fora.

A Croácia é um “case de caos” para virar filme. Admirar a força mental dos jogadores, invejar a presença de meio-campistas talentosos como Modric e Rakitic e reconhecer a capacidade de mobilização e trabalhar no improviso de Dalic, que chega a seu 14º jogo no comando da seleção em uma final. Mas não pode servir de exemplo.

Melhor a França, que manteve o contestado Didier Deschamps depois do decepcionante revés em casa na final da Eurocopa contra Portugal e, sem tantos tempos extras e sofrimento, também está na decisão de domingo. Com favoritismo pelo menor desgaste e por contar com um trabalho mais consolidado.

Carrega, porém, o peso da responsabilidade de vencer. Exatamente o que sangra tantas equipes. Os croatas não têm absolutamente nada a perder. A campanha já é histórica, superando a geração de 1998. O cansaço já é um álibi até em caso de derrota por goleada. Se num último esforço conseguirem a vitória serão heróis eternos de um país.

Posição cômoda na Copa do Mundo da força mental. Mas até chegar lá esbarrou em muitas variáveis que podiam fazer tudo dar errado. Sem contar que é uma geração que não deve deixar legado para 2022. Porque há talento, sorte e muita fibra. Mas pouco trabalho e estrutura pensando a longo prazo. É a exceção à regra, como o Brasil da “Família Scolari” há 16 anos. Não pode ser referência para ninguém.


Tite merece as críticas justas e um ciclo completo até 2022
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André Rocha

Foto: Luis Acosta/AFP

Todo mundo já encontrou pela vida uma pessoa da qual se podia discordar e até se aborrecer com suas palavras e atos. Mas o respeito era obrigatório pela certeza de que, acertando ou errando, ela sabia o que estava fazendo.

Assim é Tite na seleção brasileira. Talvez o treinador mais preparado e bem informado a prestar serviços à camisa verde e amarela cinco vezes campeã do mundo. Também o mais atuante, criando uma rotina de observação e planejamento com sua comissão técnica nunca antes vista na CBF. Necessária pelo equilíbrio que o futebol no universo das seleções vem apresentando nesta Copa.

De 1970 para cá, o comando técnico sempre pareceu algo mais ligado à intuição, que também é importante. De Zagallo a Felipão e Parreira. Com ideias mais assentadas no futebol brasileiro, sem abrir muito os horizontes. Mas que atrelada ao conhecimento ficam bem mais sólidas. Inclusive para convencer os jogadores. As serpentes que precisam ser encantadas.

Como sempre acontece, Tite chamou atenção mais pela forma do que pelo conteúdo. A maneira quase messiânica de se comportar e comunicar foi vista por muitos como uma liderança que poderia até se arriscar na política. Foi bem aproveitada pela publicidade, inclusive. Para outros não passou de um discurso enfadonho, requentando estratégias de autoajuda, coaching e misturando com termos complexos.

De fato, em alguns momentos a linguagem poderia ter sido mais simples. Mas os jogadores, que, a rigor, são os que precisavam entender o que era dito por Tite sempre foram só elogios.

Escolhas são muito particulares. Sempre. Envolvem questões que vão muito além do desempenho puro e simples. Numa Copa do Mundo, fazer mudanças constantes pode gerar instabilidade na gestão do grupo. Desconfiança. A linha é muito tênue. Pegue qualquer documentário sobre um time campeão e sempre haverá aquele jogador contestado, mas que ganhou um voto de confiança e reescreveu sua história e a da equipe. Quando perde vira teimosia.

É óbvio que cada um pensa de um jeito. Este que escreve, para começar, não teria aceitado o convite e, consequentemente, a presença na coletiva de apresentação e muito menos o beijo de Marco Polo Del Nero em 2016. Sem escorregar na coerência.

Uma vez lá, teria convocado Arthur, do Grêmio. Potencialmente nosso melhor jogador em um setor crucial e carente no futebol brasileiro. Não teria mantido Fred no grupo com uma contusão grave e sem poder contribuir em campo. Talvez retornasse ao time da Eliminatória, com Renato Augusto no meio-campo dando maior suporte a Marcelo, Coutinho com liberdade de movimentação e o espaço para Gabriel Jesus se movimentar e Paulinho infiltrar. Uma voz mais firme com Neymar seria bem-vinda no processo.

Faltou um pouco de sorte também. Quando Tite sinalizou que faria a mudança que poderia ajustar a seleção, como Mazinho na vaga de Raí em 1994 e Kléberson no lugar de Juninho Paulista em 2002, Douglas Costa se lesionou e fez o técnico recuar e manter Willian.

Trocar Gabriel Jesus por Firmino pura e simplesmente nunca se mostrou uma opção tão segura. No segundo tempo da derrota para a Bélgica, o atacante do Liverpool também teve erros técnicos e chegou atrasado na hora de finalizar. A jogada desequilibrante foi de Jesus, pouco antes de ser substituído: caneta em Vertonghen e uma disputa com Kompany que a arbitragem poderia ter interpretado como pênalti.

Não era para ser. Mas pode ser melhor no Qatar. Desta vez com um ciclo completo de quatro anos. Mais habituado à tarefa de selecionar e com mais vivência, inclusive de Copa do Mundo. Mas principalmente porque Tite é disparado o melhor treinador brasileiro. Abaixo dele há uma grande névoa de profissionais ainda buscando afirmação. Sem a combinação de conteúdo e experiência, inclusive como jogador. Domina a prancheta e o vestiário. É atualizado e acompanha obsessivamente a bola jogada no país e no mundo. Não há “plano B”.

A crítica pela crítica é bem fácil. Em qualquer tempo, porque a chance de ser derrotado é sempre maior do que vencer. Então basta procurar defeitos até onde não existem, insistir para marcar território e no momento do revés capitalizar vendendo a imagem do isento em meio ao “oba oba”. No Brasil do pensamento binário, o que não for pancada é “passar pano”.

Difícil é ser justo no tom para discordar, mas reconhecendo o valor quando desmerecer é mais simples por conta de um resultado. A CBF tem a oportunidade de fazer a coisa certa e dar sequência ao trabalho. Com os devidos ajustes e a “casca” e o aprendizado de uma derrota doída. Ela deve isso a Tite, inclusive. Afinal, roubou dois anos de trabalho com a aventura de resgatar Dunga.

Tite é humano e carrega suas falhas e idiossincrasias. Pode e deve ser questionado. Mas lança um desafio que só acrescenta: para discordar é preciso conhecer. O simplismo de “falta um camisa dez”, “centroavante só é bom quando faz gol” e outros clichês não cabe mais. Que sejamos todos melhores no próximo ciclo até 2022.

 


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