Blog do André Rocha

Arquivo : Maicon

Vitória em jogaço traz a resposta para o Palmeiras: faltava confiança
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André Rocha

Foi o melhor jogo do Brasileirão 2018 até aqui. Mesmo com a queda de qualidade na segunda etapa com a saída de Maicon. O Grêmio, que vem sofrendo sem Ramiro, perdeu ainda mais força no meio-campo. E Arthur também deixou o campo, restando ao time de Renato Gaúcho partir para o “abafa” nos minutos finais.

Nada que tire o mérito da vitória do Palmeiras por 2 a 0, no reencontro de Roger Machado com a Arena do tricolor. Com sua equipe em nenhum momento se limitando a defender. Apostando nos movimentos de Hyoran e Dudu cortando da ponta para dentro e Willian se movimentando e finalizando muito. Além dos dois gols, duas finalizações nas traves de Marcelo Grohe no primeiro tempo. Agora tem seis e é artilheiro da competição junto com Roger Guedes.

O grande destaque da segunda vitória seguida do alviverde, depois da virada por 3 a 1 sobre o São Paulo. Trazendo a resposta para a dúvida que persistia. Time mal treinado ou falta de confiança? A pressão sobre Maicon e Arthur prejudicando a fluência gremista e a velocidade nas ações ofensivas, desde os passes no meio com Felipe Melo e Bruno Henrique, mostraram claramente a estratégia para o duelo. Ainda que 29 faltas, nove sobre Luan, tenha sido um exagero. O desempenho coletivo, porém, foi consistente.

Foram oito finalizações, mas cinco no alvo. Posse dividida e acertou apenas vinte passes a menos que o adversário. Desarmou, interceptou e driblou mais. Jogando de igual para igual contra uma equipe que mesmo desfalcada seguia intimidando em seus domínios.

Resgatando a força mental para se impor e encerrar uma sequência de 15 partidas sem derrotas em casa do campeão da Libertadores. Também se recolocar matematicamente na condição natural de um dos favoritos ao título. E, o mais importante, ganhar confiança e créditos para o momento de pressão absurda que vem a cada derrota. Algo desproporcional, sem propósito e que pouco ajuda na evolução do desempenho. Ainda mais no Brasileirão do perde-ganha. Que sirva de aprendizado para a sequência da temporada.

(Estatísticas: Footstats)

[Em tempo: SIM, o Palmeiras também tinha desfalques – Antonio Carlos, Edu Dracena, Diogo Barbosa, Keno, Borja… É importante deixar claro, ainda que o texto seja só elogios à atuação palmeirense e a menção às ausências gremistas tenha um contexto dentro da frase. Afinal, no Brasil do pensamento binário para muitos torcedores o que não é elogio só pode ser perseguição ou coisa de “anti”.]


É o melhor Grêmio que vi jogar, mesmo que não se torne o maior da história
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André Rocha

Renato Gaúcho costuma dizer que o Grêmio em que jogou nos anos 1980 era melhor que o atual porque na época havia mais craques. Opinião que merece respeito. Afinal, ele atuou em um e dirige o outro. Mas este que escreve viu, inclusive em estádio, jogar a equipe campeã da Libertadores em 1983, finalista do torneio continental do ano seguinte e do Brasileiro em 1982.

Podia ser competitiva, guerreira, eficiente. Mas na bola jogada a equipe atual sobra. Inclusive em comparação com outras, com a também campeã da América em 1995. Começando pelo meio-campo, com Maicon, Arthur e Luan. Jogadores muito melhores que China, Bonamigo, Osvaldo, Vilson Tadei, Tita…Também Dinho, Emerson, Arilson, Luis Carlos Goiano, Carlos Miguel…

É bonito ver o atual campeão sul-americano jogar. E que bom quando Renato Gaúcho coloca os titulares também no Brasileiro. Infelicidade do Santos, que saiu da Arena em Porto Alegre com um 5 a 1, fora o baile.

Não que a equipe de Jair Ventura tenha se entregado desde o início. Procurou fechar bem os espaços, com duas linhas de quatro compactas e deixando Gabigol e a joia Rodrygo mais adiantados. Conseguiu relativamente bem, apesar da dificuldade para sair jogando diante da pressão do time da casa.

Até Maicon colocar no ângulo de Vanderlei em chute de fora da área, mais um recurso de uma equipe cada vez mais completa. Infelicidade no gol de Jean Motta logo na sequência, em chute que desviou em Kannemann. Mas tranquilidade e confiança para seguir jogando e construir a goleada na segunda etapa.

Everton, outra vez Maicon em cobrança de falta, André e Arthur. Jogando ao natural. Tocando, girando, dando opção para o jogador que está com a bola. Execução do 4-2-3-1 cada vez mais ajustada. Acelerando e desacelerando quando preciso. 61% de posse, 18 finalizações – metade na direção da meta de Vanderlei. 574 passes, com 93% de acertos.

O Grêmio gosta da bola e o futebol agradece. Se renderá mais taças o futuro dirá. Mas é o melhor Grêmio que vi jogar, mesmo que não se torne o maior da história.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Palmeiras e Grêmio começam a sobrar no país e tudo parte do meio-campo
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André Rocha

Independentemente do que acontecer nas decisões estaduais em São Paulo e no Rio Grande do Sul e também das campanhas invictas até aqui na Libertadores, a análise de desempenho, com mais ênfase nas atuações recentes, sinalizam que Palmeiras e Grêmio começam a se desgarrar dos demais como os melhores times do país.

Equipes que alternam posse de bola para controle do jogo e intensidade nas transições ofensivas e defensivas e na pressão logo após a perda da bola. Times inteligentes. Consciência que parte do meio-campo.

Reunir Arthur, Maicon e Luan de um lado e Felipe Melo, Bruno Henrique ou Moisés e Lucas Lima do outro, para o nível do futebol jogado no Brasil, é garantir eficácia nos passes desde o início da construção das jogadas e variação de ritmos de acordo com a necessidade.

O entrosamento e a combinação de características fazem o trio do Grêmio render mais e protagonizar belos lances. Sem contar a confiança pelos títulos recentes e o trabalho de Renato Gaúcho já bem assimilado. Roger Machado ainda está no início de seu trabalho e, por consequência, está um passo atrás.

Aliás, curioso observar que os treinadores acabaram influenciando um no trabalho do outro, direta ou indiretamente. Renato recebeu o Grêmio de Roger, manteve a ideia e o modelo de jogo a partir da posse de bola e das triangulações e efetuou ajustes tornando o time mais rápido e contundente na frente, intenso no trabalho defensivo e atento nas bolas paradas.

Exatamente o que Roger vem alterando em seu repertório, agora no Palmeiras. Até pela urgência de resultados para se estabilizar no comando do time mais pressionado do país em 2018. Na impossibilidade de contar com tempo para fazer com que a marcação por zona não seja passiva como aconteceu especialmente diante do Corinthians na fase de grupos do Paulista, o comandante agora estimula os encaixes e algumas perseguições individuais mais longas para garantir a concentração dos atletas.

Um pouco de Renato, outro tanto de Cuca, último técnico campeão no alviverde. Para evitar problemas como os que Alberto Valentim passou. Basicamente, adiantar a última linha de defesa, mas sem fazer pressão no adversário sem a bola e fechar as linhas de passe.

Com a posse, o Palmeiras roda a bola , concentra jogadores de um lado, preferencialmente o esquerdo, até a bola chegar a Felipe Melo ou Lucas Lima quando este recua e acontece a inversão rapidamente buscando o ponteiro do lado oposto. Normalmente Dudu, que vem crescendo de produção no setor direito. Com mais volume de jogo e ações de ataque com profundidade, Borja também cresce como o artilheiro do time no ano.

Assim como Jael, substituto de Lucas Barrios e a mudança mais significativa na virada do ano, aproveita o momento positivo para arriscar cobranças de falta, assistências de letra. Mais os gols, completando as jogadas bem articuladas. O entrosamento com Everton, que infiltra em diagonal para se juntar ao centroavante, só torna os ataques mais fluidos e com momentos de beleza. Coisa rara por aqui.

É óbvio que há ainda muita margem de evolução e alguns jogos pelo estadual – no caso do Grêmio, mesmo na final – não servem como parâmetro seguro para avaliações mais profundas. Ainda assim, a proposta e a execução parecem mais alinhadas, potencializando o talento através do trabalho coletivo. Com o toque diferente no meio-campo.

Domingo ambos podem levantar taças. Para o Grêmio significaria o fim de um período de oito anos sem conquistas na competição. Já o Palmeiras ganharia mais confiança para seguir a sua saga na temporada em que todos não aceitam menos que o máximo em conquistas.

O que se espera é que se algo der errado em termos de resultado o trabalho até aqui não seja descartado. Seria um desperdício. Mais um na terra do futebol de resultados.


São Paulo é mais um brasileiro a pagar por sentir mais e pensar menos
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André Rocha

“O futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais”. A frase é de Nélson Rodrigues e já foi tema de comercial antes da Copa do Mundo de 2014. Pensamento que norteou as crônicas de um dos gênios da nossa dramaturgia. Mas também influenciou gerações de jornalistas, que modelaram a opinião pública no Brasil cinco vezes campeão mundial.

Até porque para o torcedor brasileiro, latino e passional, o discurso conforta como um cobertor quentinho. O grito do torcedor inflama o time, que se entrega mais, transpira mais, sente mais. E vence apenas pela alma. Discurso tão enraizado que até hoje acreditam que basta invadir a sede do clube e, até na porrada, exigir fibra dos que representam suas cores. Apenas isso é suficiente.

Desculpe…mas te enganaram. E seguem iludindo.

Porque a vontade de vencer é obrigação. Em qualquer área. Ainda mais em carreira tão curta e bem remunerada para a minoria que alcança o mais alto nível. Em alguns momentos correr mais pode, sim, separar vencedores e vencidos. Há também o golpe de sorte, o imponderável, o que parecia impossível. Não é por acaso que falamos tanto do esporte mais apaixonante que existe.

Mas o futebol tem que ser pensado.

O São Paulo, sem Paulo Henrique Ganso, achou que resolveria na garra e no grito dos mais de sessenta mil no Morumbi. Serviu para construir quinze minutos de pressão em busca do gol para criar uma atmosfera favorável. Só conseguiu rondar a área e incomodar em finalizações de Michel Bastos e Thiago Mendes.

Porque sem o articulador o plano foi óbvio demais: jogar pelos flancos. Trocar passes, abrir para o apoio dos laterais Bruno e Mena e cruzar na área do Atlético Nacional para Calleri e Ytalo. No primeiro tempo foram 19 centros, apenas três corretos. Também pelo bom posicionamento da defesa colombiana.

A ideia do técnico Reinaldo Rueda era controlar fora de casa. Sem a bola, variando entre o 4-2-3-1 e o 4-1-4-1 de acordo com o posicionamento do volante Mejía à frente da retaguarda e de Macnelly Torres, ora mais adiantado na articulação, ora alinhado a Sebastián Pérez. Moreno e Ibargüen pelas pontas e na frente Miguel Borja.

Camisa 23, vinte e três anos. Artilheiro do Colombiano pelo Cortuluá, contratado para compensar as ausências dos negociados Ibarbo e Copete. Inteligente e maduro para aproveitar o destempero de Maicon. Camisa 27, quatro anos mais velho que Borja. O capitão que confundiu com imprudência a garra e a liderança que fizeram o São Paulo investir seis milhões de euros, mais 50% dos jovens Lucão e Inácio – um negócio feito na emoção, na urgência do próximo jogo?

Um defensor experiente não pode correr o risco em jogo tão decisivo de uma mão no rosto virar cartão vermelho e desmontar de vez sua equipe, que foi perdendo a calma, abandonando o jogo apoiado, de aproximação. Novamente um time brasileiro espaçou setores e abandonou gradativamente a ideia inicial pelo desequilíbrio emocional.

Com calma, brechas generosas numa defesa com Mena na zaga e Michel Bastos na lateral esquerda e qualidade o Nacional trabalhou a bola e matou o jogo e, muito provavelmente, o confronto na semifinal com os dois gols de Borja. O grande personagem no Morumbi tenso após o jogo. Pancadaria, bombas. O novo ídolo já execrado por conta da expulsão. Outros jogaram na conta da arbitragem. Tudo pela emoção descontrolada.

Também a nossa habitual arrogância. Como se tivesse perdido para ninguém. Por isso também a cobrança por raça, como se só ela resolvesse, já que há no imaginário popular a certeza de que somos melhores. Nem sempre. Por isso o nervosismo desmanchou o tricolor paulista. Mais um brasileiro a pagar por sentir mais e pensar menos.

Nelson Rodrigues, mil perdões. Mas sem querer você atrapalhou de novo.

(Estatísticas: Conmebol)

 


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