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“O problema é quando se tem a bola” – Futebol atual é jogo de espaços
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André Rocha

A frase entre aspas do título deste post é de um treinador campeão brasileiro, cujo nome não será revelado para não criar qualquer estigma ou rótulo. Até porque havia um contexto dentro da entrevista. Mas a ideia era clara.

Ter a posse de bola é aumentar a probabilidade de errar e dar chances ao adversário. Na saída de bola, com zagueiros que não foram ensinados a iniciar a construção das jogadas e acabaram na posição pela estatura e vigor físico. Em um centro futebolístico que predomina financeiramente no continente, mas não conta com excelência técnica na maioria das posições e funções.

No qual a torcida não tem paciência para jogadas trabalhadas, vaia bola recuada para o goleiro com a proposta de criar espaços e, na ansiedade e imediatismo típicos da nossa cultura, exige que a ação ofensiva seja finalizada o quanto antes.

Por isso a bola de segurança pelos lados. Porque se há a perda, o contragolpe do oponente não se inicia em uma zona perigosa. O ataque só passa pelo centro para virar o lado saindo da pressão ou procurando um pivô, mas já no último terço do campo. Muitos cruzamentos, com bola parada ou rolando. A margem de erro é menor.

Como cobrar mais de treinadores trocados a cada três meses, ameaçados a cada três derrotas? Responsabilizados por problemas técnicos de seus atletas desde a base e sem tempo para treiná-los com jogos a cada três dias? Neste cenário pragmático é melhor mesmo não ter a bola e esperar o vacilo do outro lado.

A vitória do Botafogo sobre o Nacional uruguaio no Parque Central foi simbólica. Porque a equipe da casa, que também se sente mais confortável jogando em transições velozes, precisava trabalhar as ações ofensivas para infiltrar, construir o resultado para administrar na partida de volta.

Encontrou, porém, uma equipe brasileira novamente bem coordenada defensivamente, com concentração e entrega. Também sorte, já que no toque de Victor Luís na própria área com o braço muito aberto, em lance duvidoso para as novas recomendações da FIFA, a arbitragem não se deixou levar pelo mando de campo. Sem contar a falha grotesca do zagueiro Emerson Silva que Silveira não aproveitou à frente de Gatito Fernández. O erro quando teve a bola.

No contragolpe, inversão de Pimpão para Bruno Silva e bola na rede com o toque meio sem querer de João Paulo, meia que deixou Camilo no banco pelo maior poder de marcação e dinâmica mais alinhada à proposta do treinador Jair Ventura. Triunfo com 40% de posse e oito finalizações, quatro no alvo. Contra 17 do Nacional, mas só duas na direção da meta de Gatito. Sem ideias, os uruguaios efetuaram 41 cruzamentos. O Bota cometeu 26 faltas contra 14 e acertou 17 desarmes, o Nacional só 12. Espírito de competição.

O resultado facilita o trabalho para a volta no Estádio Nílton Santos. Porque o Botafogo, mesmo em casa e provavelmente com a torcida apoiando, deve manter sua ideia pragmática de jogo. O questionamento inevitável é: como será quando a equipe precisar sair para o jogo por necessidade? As derrotas para Barcelona de Guayaquil e Avaí no Rio de Janeiro entregam respostas preocupantes.

Jogar como “azarão” é mais simples. O discurso motivacional do treinador vai na linha do “Davi x Golias”, os comandados entram mais concentrados e nenhuma pressão. Há espaços para atacar e menor cobrança sobre o erro.

Não só no Brasil. Nos grandes centros a lógica é a mesma. Com Leicester City e Chelsea vencendo as últimas edições da Premier League sem dar muita importância para a posse de bola. O Barcelona eliminado na Liga dos Campeões por Atlético de Madri e Juventus e ainda levando 4 a 0 do PSG. Os rivais sempre jogando a isca: “Me ataque, fique com a bola e te golpeio em seus pontos fracos”. Pep Guardiola no Manchester City também sofreu e vai tentando aprender e se adequar à dinâmica do futebol jogado na Inglaterra.

Na final da Liga Europa, José Mourinho armou seu Manchester United para aproveitar os espaços deixados pelo Ajax com seu ataque posicional típico do futebol holandês. Marcação encaixada, bote no zagueiro colombiano Davinson Sánchez, elo fraco nos passes, e contragolpe rápido. Força no jogo aéreo e mais uma taça continental para o treinador português.

O mundo é do Real Madrid comandado por Zidane porque é um time talentoso e inteligente. Sabe jogar com a bola pela qualidade individual que possui. Por ser um gigante, em 90% das partidas na temporada entra como favorito e precisa se arriscar. Mas faz por necessidade, não filosofia ou convicção. E se abre o placar o jogo reativo volta a ser a ideia principal. Assim como a Juventus, finalista derrotada na Champions, é um time “camaleão”, que muda de acordo com o que se apresenta. Para isso precisa de jogadores completos, inclusive na leitura de jogo. Saber acelerar e cadenciar, dosar a intensidade.

Não por acaso o predomínio recente de Cristiano Ronaldo sobre Messi nas premiações individuais. Consequência das conquistas coletivas. O português é mais prático, simples e vertical. Decide com um toque. Para brilhar, o argentino precisa construir em um Barcelona cada vez mais mapeado e estudado. Missão complicada.

Porque quem trata a posse como obsessão ou filosofia, dentro ou fora de casa e independentemente do contexto está sendo obrigado a mudar. No futebol tão estudado de hoje, a equipe abre mão do fator surpresa. Instala-se no campo de ataque, gira a bola em busca de espaços e os cede atrás, por consequência. Cabe ao rival negar as brechas para infiltrações, com o cada vez mais utilizado sistema com cinco homens na última linha de defesa, e explorar os pontos falhos, que sempre existem.

Na costumeira variação do 4-3-1-2 para duas linhas de quatro bem compactas, o Botafogo venceu em Montevidéu. Mais uma vez sem fazer questão da posse. No futebol, ela cada vez mais vai perdendo sua importância. A referência é o espaço. O “jogar sem bola” aproxima das vitórias.  Paradoxal, não?

E a frase do técnico, que soou absurda há alguns anos, mostra-se visionária. Mas qual será o impacto no futuro do esporte? Felizmente ele é cíclico, por isso tão apaixonante. Logo virá uma resposta. Tomara…

(Estatísticas: Footstats)

 


Liga Europa, vamos! Ao seu estilo, Mourinho volta a ganhar o continente
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André Rocha

Foto: Darren Staples, Reuters

O garoto-propaganda do patrocinador da Liga dos Campeões estará de volta ao maior torneio de clubes do planeta. Se não conseguiu a vaga para o Manchester United via Premier League, o título da Liga Europa aumenta a lista de taças conquistadas por José Mourinho.

No continente é a quarta, se juntando à antiga Copa da UEFA e às duas Champions Leagues, com Porto e Internazionale. Com os Red Devils, na primeira temporada, o terceiro título, se juntando às Supercopa da Inglaterra e Copa da Liga Inglesa.

Vitória sobre o Ajax em Estocolmo bem ao seu estilo. Diante de um time jovem e sem vivência em jogos grandes, aproveitou a pior faceta da atual escola holandesa: a falta de mobilidade e variações do tradicional 4-3-3 de manual.

Mourinho sabia que a fluência da equipe do treinador Peter Bosz partia do trio de meio-campistas acionando os ponteiros Traoré e Younes para buscar Dolberg, centroavante dinamarquês de 19 anos. A solução foi encaixar o 4-2-3-1 no engessado desenho tático do adversário.

Resultado: o meio-campo não jogou. Ander Herrera pegava Ziyech, Pobga grudava em Klaassen e Fellaini impedia a saída limpa do volante Schone. Os pontas Mata e Mkhitaryan acompanhavam os laterais Veltman e Riedewald, que não davam profundidade e Rashford dificultava a saída do zagueiro De Ligt.

Sobrava o zagueiro colombiano Davinson Sánchez, que entristeceria Johan Cruyff se ainda estivesse entre nós. Para este, o defensor é o primeiro construtor das jogadas. Sánchez conduzia a bola…e entregava ao adversário, que saía em transição rápida.

Assim o United controlou o jogo sem posse, com apenas 34%. A armadilha visava acelerar os contragolpes com o jovem Rashford e aproveitar a chegada forte pela direita de Valencia, descendo pelo corredor deixado pela movimentação de Mata.

No entanto, o gol saiu no vacilo de Klaassen, que deixou Pogba livre para bater de fora e contar com o desvio para deixar o jovem time holandês ainda mais tenso. Só Traoré saía do lado direito e buscava o centro ou a infiltração em diagonal para tentar quebrar a marcação na vitória pessoal.

O encaixe do 4-2-3-1 do Manchester United sobre o engessado 4-3-3 do Ajax que sofria na saída de bola com o zagueiro colombiano Sánchez. Bola roubada, contragolpe e eficiência nas finalizações (Tactical Pad).

O Ajax finalizou seis vezes contra quatro do United, mas apenas uma no alvo contra duas. Os números importantes dos primeiros 45 minutos, porém, foram os de bolas recuperadas: 32 da equipe inglesa contra 19 dos holandeses. Emblemático.

O caminho para o primeiro título da Liga Europa, a primeira taça internacional depois da saída de Alex Ferguson, foi pavimentado pelo gol de Mkhitaryan completando desvio de Smalling em mais uma falha defensiva do adversário. Na bola parada. Bosz tentou mexer com a marcação adversária, inclusive com o brasileiro David Neres. Um pouco mais de mobilidade, com Traoré circulando. Muito pouco.

O United deixou a marcação individual, compactou duas linhas de quatro com Herrera entre elas e deixou Lingard e Martial abertos para a saída dos contragolpes. Podia ter ampliado com Lingard, mas nem foi necessário. Valeu para Rooney sair do banco para substituir Mata, comemorar mais um título com a camisa do clube e levantar a taça como capitão.

Um mimo de Mourinho, campeão mais uma vez à sua maneira. O United terminou com 33% de posse e seis finalizações contra 15 do Ajax. Eficiência com quatro na direção da meta de André Onana e apenas duas que deram trabalho ao goleiro Romero.

Assim como o cãozinho Salsicha, a Liga Europa também vai com José Mourinho. Título importante para afirmar o português no comando do maior campeão inglês. Apesar dos problemas, em especial o sentido desfalque de Ibrahimovic, que celebrou de muletas em sua Estocolmo. Para amenizar a dor da tragédia em Manchester.

Na próxima temporada, Mourinho voltará a sentir o gostinho de “Match Day” na UEFA Champions League. Não só na propaganda.

(Estatísticas: UEFA)


Futebol inglês: ou muda calendário e tradições, ou vira piada na Europa
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André Rocha

Entre os oito classificados para as quartas-de-final da Liga dos Campeões, apenas um representado a Inglaterra: o Leicester City, atual campeão. Clube que teve como trunfo na temporada anterior estar totalmente focado na Premier League.

Agora, acusado de economizar suor na competição nacional por conta dos problemas de relacionamento com o ex-treinador, Claudio Ranieri, teve gás sobrando para a disputa do torneio continental e despachou o Sevilla no King Power Stadium.

O Chelsea, líder e virtual campeão inglês desta temporada, também leva vantagem na disputa da liga por não dividir atenções com nenhuma competição europeia. Segue vivo na Copa da Inglaterra depois de eliminar o Manchester United.

Time de José Mourinho que não deve ter reclamado muito. Campeão da Copa da Liga e o único do país ainda envolvido com a Liga Europa, luta para alcançar a zona de classificação para a próxima Champions League.

O campeonato inglês da primeira divisão é considerado o mais importante do planeta. Pelo equilíbrio de forças que passa fundamentalmente por uma divisão da receita mais justa e um aumento substancial das cotas de TV. Disputado em intensidade altíssima, num jogo físico que dura os noventa minutos e atrai os olhos do mundo pela imprevisibilidade.

O grande gargalo, porém, é o calendário, ainda fincado em tradições que fogem do contexto atual. Enquanto o mundo pára no final do ano, a bola rola no Boxing Day e em jogos encavalados. Tudo isso com o intuito de atrair os olhos do mundo, mas também garantir datas para as duas copas nacionais, enquanto a grande maioria dos países disputa uma só.

E ainda preservam o “replay”, jogo extra disputado em caso de empate na Copa da Inglaterra. O Manchester City perdeu tempo de preparação para a sequência da Premier League e da Liga dos Campeões para enfrentar o Huddersfield Town, da segunda divisão, pelas oitavas de final. Ao menos para esta temporada acabaram com os jogos extras nas quartas de final.

Mas é preciso rever ainda mais o calendário. Porque mais tradicional que as copas e os jogos na virada do ano é ver os times ingleses fortes na Liga dos Campeões. De 12 títulos, mas o último em 2012 com o Chelsea. Conquista improvável e baseada exatamente na prioridade dada ao torneio.

Desde 2008/09, quando colocou United, Chelsea e Arsenal nas semifinais, mas o título ficou com o Barcelona, só conseguiu emplacar um time entre os quatro primeiros: título com os Blues, vice dos Red Devils em 2011, o Chelsea de Mourinho entre os quatro em 2014 e o Manchester City na semifinal inédita na última edição contra o Real Madrid.

Para piorar, o Arsenal de Arsene Wenger leva um 10 a 2 no agregado do Bayern de Munique e é eliminado nas oitavas de final pela sétima vez consecutiva. Mesmo com alguns erros gritantes da arbitragem em Londres, não deixa de ser um vexame.

É muito pouco. Suscita dúvidas da real força da Premier League ver os espanhois dominando o continente há três temporadas com Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid, mais o Sevilla tricampeão da Liga Europa. A Alemanha colocando Bayern de Munique e Borussia Dortmund novamente entre os oitos melhores.

E a Inglaterra apenas com o Leicester City, maior azarão do sorteio das quartas. Inusitado, mas tragicômico. O perigo é o futebol jogado no país virar piada na Europa.


Guardiola no purgatório, Mourinho no inferno. Como será o amanhã?
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André Rocha

É o preço da genialidade que costuma vir junto de uma personalidade geniosa. Pep Guardiola e José Mourinho mudaram a história do futebol, contribuíram diretamente para uma enorme evolução do jogo caminhando em direções opostas.

Mas o ser humano costuma ser resistente às mudanças. Ainda mais quando elas são impostas por quem está saturado de convicções e não consegue conceber o futebol de outra maneira.

Guardiola quer a bola, não admite entrar em campo sem a proposta de mandar no jogo, ser protagonista. Mesmo no início de trabalho. Ainda que sua equipe não esteja 100% preparada e entrosada para isso. Não se importa em correr riscos, adiantar as linhas e colocar seu goleiro para jogar com os pés. O objetivo: criar superioridade numérica onde está a pelota.

Só que o futebol é um jogo em que o objetivo maior, o gol, acontece muito mais raramente que em outros esportes. Por isso é uma disputa por espaços e qualquer erro é fatal. Em noventa minutos a chance de falhar é grande. Numa disputa equilibrada tudo fica ainda mais difícil.

Por isso o técnico catalão é tão obsessivo. Quer seus jogadores totalmente concentrados e preparados física e mentalmente. Foco absoluto. Por isso a decisão de afastar atletas que não estejam ou o treinador imagine que não sejam adaptáveis às suas idéias e aos seus métodos. Sejam ídolos ou não.

Tanta intensidade e uma visão tão particular do jogo não devem ser fáceis de administrar no dia a dia em um clube. Não por acaso por onde passou deixou títulos, mas também desafetos.

Na parelha Premier League, o ótimo início com seis vitórias consecutivas, dez na temporada, fez o time ser ainda mais estudado pelos rivais. Para piorar, Kevin De Bruyne, peça fundamental na execução do plano de jogo, se lesionou.

Ato contínuo, perdeu os 100% de aproveitamento nos insanos 3 a 3 com o Celtic pela Liga dos Campeões. Uma mostra de que pressão na frente e velocidade novamente poderiam complicar o time de Guardiola.

Bem mapeado pelo Tottenham de Mauricio Pochettino, especialmente na pressão sobre a saída de bola tão valorizada por Guardiola, a primeira derrota. Depois empates com Everton e Southampton em 1 a 1 e a goleada sofrida para o Barcelona de Messi. Um mês sem vitórias, mesmo com o retorno do talento belga.

É quando a tensão aumenta. Porque o ser humano aceita viver sob pressão total se o sacrifício der resultado. Sem vitórias vem a cobrança pesada, mesmo com a liderança mantida na EPL. Ainda mais sofrendo gols seguidos por erros na saída de bola que é uma espécie de cláusula pétrea, princípio básico de Guardiola.

Pior ainda é a situação de Mourinho. Último trabalho pífio pelo Chelsea e o retorno à Premier League no seu maior campeão. Ainda órfão de Alex Ferguson e traumatizado pela passagem de Louis Van Gaal, outro técnico de forte personalidade. Saiu pela porta dos fundos, apesar do título da Copa da Inglaterra.

O português chegou ao Manchester United com tratamento de estrela, recebeu as contratações milionárias de Pogba e Ibrahimovic e até começou bem, vencendo o Leicester City na Supercopa da Inglaterra e três vitórias na liga. Até enfrentar…Guardiola.

E aí o personagem Mourinho foi questionado pela postura excessivamente cautelosa no primeiro tempo do Old Trafford. Ainda que tenha terminado a partida com cinco atacantes tentando reverter os 2 a 1.

A partir daí, derrota para o Watford, nova vitória sobre o Leicester ( 4 a 1) e empates com Stoke City e Liverpool. Diante do rival histórico, o velho “ônibus” à frente da própria meta rendeu críticas.

Porque Mourinho desde 2010 posicionou-se como o “anti-Guardiola” e radicalizou qualquer proposta mais pragmática. Diante do Barcelona, colocou inteligência na retranca comandando Internazionale e Real Madrid. Obrigou craques a trabalhar sem a bola, armou linhas de cinco e até seis na defesa. Trouxe o handebol para o jogo.

Como deu certo em tantos duelos, assumiu o perfil com a paixão que lhe é característica. Só que fazer isso em clubes gigantes e marcas mundiais não é tão simples. Ainda mais contra equipes em tese do mesmo nível. Vieram os questionamentos. E os choques, até porque o português não é receptivo às interferências externas.

Mourinho descartou Schweinsteiger, não vem utilizando Rooney e Fellaini segue como titular por ser forte no jogo aéreo ofensivo e defensivo, apesar da pouca colaboração na construção das jogadas. Decisões personalíssimas que carregam a polêmica embutida.

No reencontro com Chelsea e Stamford Bridge, o gol de Pedro aos 32 segundos desmontou qualquer proposta defensiva do United. Mourinho teve que lidar com as provocações da torcida e com o time bem armado por Antonio Conte num 3-4-3 com Azpilicueta de zagueiro e Moses como ala pela direita.

Ensaiou uma reação na segunda etapa com Mata e Rojo. Mas o belo gol de Hazard pulverizou qualquer chance de recuperação. Até Kanté foi às redes em jogada antológica, o primeiro no novo clube. Os 4 a 0 que estacionam o United na sétima posição, a seis pontos do City, líder por um gol a mais no saldo que o emergente Arsenal.

O início de Mourinho em Manchester é pior que o de Van Gaal. Inferior também à terceira temporada no Real Madrid, no auge do desgaste com o elenco e até aos números vergonhosos da última temporada no Chelsea – não no Inglês, mas em todas as competições. Pior só no União Leiria, quando o “Special One” ainda era um mero iniciante.

A desvantagem na tabela da liga nacional é pequena e recuperável em apenas nove rodadas. A grande crítica é ao desempenho. O que o elenco pode entregar mas parece amarrado pelas idéias radicais de seu treinador.

É o efeito colateral ao pagar tanto por comandantes que não abrem mão de suas convicções e têm currículos recheados de conquistas para avalizar. Sem contar o poder midiático da dupla.

Guardiola quer a bola, Mourinho não abre mão da solidez defensiva e do minimalismo em busca dos três pontos. Idéias que revolucionaram o esporte. Só que o futebol atual bebe nas duas fontes e tenta combiná-las de acordo com o contexto do jogo. Assim jogam Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, agora com Ancelotti, Borussia Dortmund, Tottenham, Liverpool, o próprio Chelsea, entre outros.

Algo para a dupla histórica refletir. E botar em prática o mais rápido possível. Ironia do destino: o próximo jogo de Guardiola e Mourinho é…City x United pela Copa da Liga Inglesa. O catalão no purgatório, o luso no inferno. Como será o amanhã?


O futebol é muito maior que Mourinho e Guardiola
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André Rocha

Expectativa no mundo todo, análises e mais análises sobre o primeiro duelo entre Pep Guardiola e José Mourinho na Inglaterra. Confronto de filosofias, de estética. Antagonismo. Os jogadores se tornaram coadjuvantes.

Tudo isso para o Manchester City abrir o placar no Old Trafford com uma ligação direta de Kolarov, vacilo de Blind e De Bruyne aproveitando. Com o United de Mourinho, técnico do “ônibus” à frente da própria área, todo adiantado. Esse futebol…

Não que a disputa fugisse do esperado. A equipe de Guardiola circulava a bola no ritmo de seu fantástico meio-campo: Fernandinho, De Bruyne e David Silva. Era ainda mais preciso na pressão assim que perdia a bola.

Aí pesou o desentrosamento do novo United. O time de Mourinho não tinha jogo “de memória” para fazer a transição ofensiva de forma eficiente. Só conseguiu em uma aproximação de Rooney, Ibrahimovic e Pogba, que finalizou por cima.

Na intenção de mandar a campo um time experiente e de boa estatura, esqueceu que precisava de agilidade para se livrar da marcação sufocante do oponente.

Por respeito ao rival, Guardiola não usou o 2-3-5 do início da temporada e manteve os laterais Sagna e Kolarov em um posicionamento mais conservador, embora ofensivos. Mas não tão por dentro, na linha de Fernandinho.

Chegou aos 2 a 0 com De Bruyne acertando a trave e Iheanacho, substituto do suspenso Aguero, marcando e nem comemorando, por se achar impedido. Não estava, por nova falha de Blind, desta vez de posicionamento.

Domínio absoluto, média de 70% de posse de bola para os citizens. Clássico resolvido? Talvez. Se esse negócio fosse xadrez. Mas é futebol.

E os Deuses do Olimpo da bola podem respeitar Guardiola como um gênio que ajudou a revolucionar o esporte. Mas não perdoam certas coisas.

Em Turim, Joe Hart, ídolo do City descartado com enorme facilidade por não jogar com pés, deve ter sorrido ao ver o sucessor Claudio Bravo, depois de ter acertado vários passes com os pés, falhar na primeira intervenção importante com as mãos.

Soltou logo nos pés de Ibrahimovic. Momento chave que transformou o jogo. O United cresceu no embalo de sua torcida, podia ter empatado ainda no fim do primeiro tempo com o próprio Ibrahimovic – desta vez Bravo defendeu.

Primeiro tempo de domínio do City com posse de bola, força no meio-campo e pressão na bola sobre um United descoordenado que só entrou no jogo com a falha de Bravo e o gol de Ibrahimovic (Tactical Pad).

Primeiro tempo de domínio do City com posse de bola, força no meio-campo e pressão na bola sobre um United descoordenado que só entrou no jogo com a falha de Bravo e o gol de Ibrahimovic (Tactical Pad).

Início da segunda etapa com intensidade máxima e duas substituições de Mourinho: Ander Herrera e Rashford nas vagas de Mkhitaryan e Lingard, que não funcionaram pelos lados.

Rooney foi jogar pela direita e o meio-campo ganhou corpo. Ibra teve duas boas oportunidades. Dez minutos de domínio até o City se assentar e voltar a trocar passes e ocupar o campo de ataque.

Porque Guardiola se rendeu ao contexto do jogo e trocou Iheanacho pelo volante Fernando para não perder o meio-campo. De Bruyne foi ser “falso nove”, circulando às costas de Herrera.

Bravo deu outro susto, mas desta vez com uma saída por baixo. O último aviso dos Deuses da bola no jogo. Guardiola trocou Sterling por Sané para voltar a ter jogo pelas pontas. Mas mentalmente os Red Devils já estavam definitivamente na disputa.

Quase o empate no gol bem anulado de Ibra, desviando chute de Rashford. De Bruyne, o melhor em campo, acertou a trave do goleiro De Gea. Fernandinho também cresceu mais adiantado – e pode ser a melhor opção de Tite para a vaga de Paulinho na seleção brasileira. A força da nova equipe de Guardiola está no meio.

Mourinho arriscou tudo pelas pontas com Martial no lugar de Shaw. O francês foi jogar à direita e Rooney voltou a centralizar. Na defesa, apenas três, com Blind à esquerda.

Nos últimos minutos, um jogo inusitado: abafa do United de José e o time de Pep só saindo nos contragolpes, defendendo o resultado fundamental com bravura. Ganhando tempo e formando uma linha de cinco atrás com Zabaleta na vaga do belga De Bruyne.

Nenhum requinte, apenas luta pelos três pontos. Futebol moderno? Parecia o velho estilo inglês de bola mais no alto que no chão.

No final, o inusitado: United de Mourinho no abafa com praticamente cinco atacantes e o City trancado com linha de cinco para garantir os 2 a 1 (Tactical Pad).

No final, o inusitado: United de Mourinho no 2-3-5  abafando o City trancado com linha de cinco para garantir os 2 a 1 (Tactical Pad).

Um jogaço: City com 60% de posse e 18 finalizações, contra 14 do United. Não exatamente com o roteiro que o mundo esperava. Porque isso é futebol, eterno e muito maior que Guardiola, Mourinho ou qualquer mortal. Ainda bem.

(Estatísticas: Premier League)

 


O primeiro título de Mourinho e Ibra em Manchester. O United será forte
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André Rocha

Manchester United de José Mourinho no 4-2-3-1 com mobilidade no quarteto ofensivo e velocidade para explorar os espaços cedidos pelo Leicester City que teve mais a bola que o habitual por Claudio Ranieri contar com uma equipe já pronta, apenas com King no lugar de Kanté (Tactical Pad).

Manchester United de José Mourinho no 4-2-3-1 com mobilidade no quarteto ofensivo e velocidade para explorar os espaços cedidos pelo Leicester City que teve mais a bola que o habitual por Claudio Ranieri contar com uma equipe já pronta, apenas com King no lugar de Kanté (Tactical Pad).

Foi a 21ª conquista da Supercopa da Inglaterra. Mas o Manchester United sofreu em Wembley contra o Leicester City com a base do título inglês – apenas King no lugar de Kanté, negociado com o Chelsea, no meio do 4-4-2 habitual.

Um time montado, com a proposta de jogo de Claudio Ranieri mais que assimilada. Só que exatamente pela moral da conquista improvável e o maior entrosamento foi induzido a mudar as características. O time da transição em velocidade com passes verticais e nenhuma preocupação em valorizar a posse ficou mais com a bola que o habitual.

Porque o novo time de Mourinho está naturalmente em construção. Com Ibrahimovic em campo, Mkhitaryan no banco e Pogba a caminho. O técnico português usou a base de Van Gaal num 4-2-3-1 com pitadas da filosofia do treinador. Linhas próximas, compactação defensiva, saída rápida.

O quarteto ofensivo formado por Lingard, Rooney e Martial como o trio atrás de Ibrahimovic mostrou uma característica muito cobrada pelo novo treinador: mobilidade e circulação nos espaços entre a defesa e o meio-campo adversário. Ibra já ensaiou seus movimentos de “falso nove” muito comuns no PSG, recuando para colaborar na articulação.

Mas os Red Devils só foram às redes no primeiro tempo em arrancada de Lingard pelo meio, conduzindo para cima da última linha do Leicester, que seguiu com volume de jogo e empatou na falha de Fellaini, que deve deixar o time com todos disponíveis e em forma. O incrível Vardy não perdoou à frente de De Gea.

Muitas substituições, chances para os dois lados ainda em ritmo de pré-temporada. Gol da vitória e do título no centro de Valencia que encontrou Ibrahimovic. Impedido por centímetros, sem falta na disputa no alto com Morgan. Golpe certeiro no canto de Schmeichel.

Conquista para transferir confiança na montagem de um time que será forte e competitivo. Sem Liga dos Campeões para disputar e por conta do investimento insano é favorito para retomar a hegemonia na Premier League.

Mourinho e Ibra venceram juntos o campeonato nacional com a Internazionale na temporada 2008/09. Mais maduros, podem repetir o feito na Inglaterra.


O que Jürgen Klopp pensa sobre o trabalho do técnico no futebol brasileiro
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André Rocha

Jurgen Klopp Liverpool

Após a vitória por 2 a 0 do Liverpool sobre o Manchester United no Anfield Road pelas oitavas de final da Europa League, Jürgen Klopp atendeu com exclusividade os canais Esporte Interativo para o programa “Melhor Futebol do Mundo”.

Perguntado sobre a possibilidade de um dia comandar um time brasileiro, o treinador carismático e franco deu uma resposta elegante, porém contundente:

“O Brasil é o lugar mais difícil para se trabalhar como treinador. Tudo que eu escuto sobre lá é que eles demitem os treinadores toda semana, e isso não faz sentido, para ser sincero. Mas é um país legal, com jogadores extraordinários”.

Klopp é o vigésimo treinador da história do Liverpool, fundado em 1892.

Sem contar os interinos, o “impaciente” Fluminense fez 20 trocas de técnico desde 2006. O Corinthians comandado por Tite e Mano Menezes desde 2008, com o breve hiato de Adilson Batista em 2010, o mesmo número desde 2001. O São Paulo, que contou com Telê Santana de 1990 a 1995 e Muricy Ramalho de 2006 a 2009 e 2013 a 2015, fez as mesmas vinte desde 1999.

O técnico não pode ser um profissional blindado, imune a críticas e cobranças por conta de um dogma da manter por manter para parecer moderno. Mas trocar ao sabor dos ventos, “para ver se dá certo”, sem nenhum critério ou filosofia de trabalho está longe de ser a melhor solução.

No final, questionado sobre os 7 a 1, soltou sua tradicional gargalhada e saiu caminhando. Ele deve saber bem o porquê.


Van Gaal merece respeito e tem desfalques, mas erra demais no United
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André Rocha

É duro criticar Louis Van Gaal. Campeão por Ajax, Barcelona, AZ Alkmaar e Bayern de Munique. Mesmo controverso e polêmico, é um dos treinadores que contribuíram para a evolução do esporte. Rara referência comum para Pep Guardiola e José Mourinho, que foi seu auxiliar na Espanha.

Há também o dever de relativizar o contexto do Manchester United nas últimas partidas. Sem Schweinsteiger, que começava a dar ritmo ao meio-campo. Luke Shaw, Rojo, Darmian e Valencia também estão fora. Ou seja, as laterais ficaram comprometidas.

Ainda assim, está difícil entender as escolhas do técnico holandês com as peças disponíveis. Contra o Norwich no Old Trafford, um 4-3-3 indecifrável: Rooney enfiado, Martial aberto pela direita bloqueando o corredor que deveria ser explorado pelo “ala” Ashley Young, que apoiava por dentro, afunilando o jogo. Fellaini no meio com Carrick e Juan Mata. Ander Herrera no banco.

Resultado prático: posse de bola inócua, muitos cruzamentos que acabavam empurrando Fellaini para a área adversária e abrindo um buraco no meio e expondo uma retaguarda com Young quase sempre mal colocado na última linha.Um desastre e derrota por 2 a 1 em casa.

Na derrota para o Norwich no Old Trafford, o indecifrável 4-3-3 que isolou Rooney, abriu um buraco no meio com o avanço de Fellaini e Martial espetado à direita, obrigando Ashley Young a apoiar por dentro e criar um problema defensivo. Uma tragédia (Tatical Pad).

Na derrota para o Norwich no Old Trafford, o indecifrável 4-3-3 que isolou Rooney, abriu um buraco no meio com o avanço de Fellaini e Martial espetado à direita, obrigando Ashley Young a apoiar por dentro e criar um problema defensivo. Uma tragédia (Tatical Pad).

Semana conturbada, fortes rumores de Mourinho em Manchester e Van Gaal exigindo desculpas dos jornalistas na coletiva pré-jogo. Pressão. Eliminação na Liga dos Campeões, quatro partidas sem vitória.

Agora cinco. E como isentar o treinador nos 2 a 0 do Stoke City sobre os Red Devils no Boxing Day? Algumas correções até foram efetuadas, como Mata voltando ao lado direito para abrir o corredor para Young e Martial como referência na frente.

Mas deixar Rooney no banco, ao invés de posicioná-lo atrás do centroavante móvel, participando da articulação e chegando na área para finalizar? Ander Herrera fazendo dupla à frente da defesa com Carrick é mais que aceitável. Mas não para adiantar Fellaini, que pouco contribui para a construção do jogo.

Uma formação ofensiva possível (e até óbvia) do United: Martial como um atacante móvel, com Rooney chegando de trás, articulando com Mata, cortando da direita para dentro e abrindo espaços para Young (Tactical Pad).

Uma formação ofensiva possível (e até óbvia) do United: Martial como um atacante móvel, com Rooney chegando de trás, articulando com Mata, cortando da direita para dentro e abrindo espaços para Young (Tactical Pad).

Fora de casa, perdeu posse de bola e, sem confiança, foi envolvido pelo Stoke de Shaqiri, Affelay, Arnautovic e Bojan, mas sem maiores riscos. Até Depay falhar grotescamente na disputa com Glen Johnson, que serviu Bojan.

Erro individual, mas também um “efeito dominó” de uma equipe mal armada que, ainda mais instável, sofreu o segundo. Toque bobo de mão de Young, golaço de Arnautovic no rebote da cobrança de Bojan. 2 a 0 em 25 minutos.

Diante do Stoke, Ander Herrera no lugar de Rooney para avançar Fellaini, que pouco contribui para a construção do jogo e isolou Martial (Tactical Pad).

Diante do Stoke, Ander Herrera no lugar de Rooney para avançar Fellaini, que pouco contribui para a construção do jogo e isolou Martial (Tactical Pad).

A senha para o Stoke reduzir o ritmo e Van Gaal mandar Rooney a campo na vaga de Depay no segundo tempo. Martial foi fazer o lado esquerdo. Fellaini seguiu em campo para perder chance cristalina e o goleiro Butland garantir o time da casa com outras duas boas defesas.

Pouco para tamanho investimento. Desempenho ridículo para o currículo mais que respeitável de Van Gaal, que parecia o nome mais indicado para uma sucessão real de Alex Ferguson depois da patética gestão de David Moyes.

Será que resiste à pesada sombra de Mourinho?


Mourinho x Guardiola na Inglaterra? Ótimo para a liga, nem tanto para eles
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André Rocha

Jose_Mourinho_Pep_Guardiola-Reuters

Pep Guardiola não seguirá no Bayern de Munique, que terá Carlo Ancelotti para a temporada 2016/17. José Mourinho demitido no Chelsea pela campanha pífia na defesa do título no inglês.

Rumores do catalão sucedendo Mourinho nos Blues. Ou no City. Já o português pode seguir na Inglaterra, mas no Manchester United – Van Gaal balança com a eliminação na Liga dos Campeões e o mau momento na Premier League.

Podemos ter de volta em um mesmo país o duelo que mudou o futebol desde 2010: Guardiola x Mourinho. A revolução contra a reação. Posse versus transição. Ataque de posição contra o “ônibus”. Dois mundos que sequer se tangenciam, apenas colidem.

Inclusive fora de campo, com os “jogos mentais” de Mourinho e a tensão de Guardiola, absorvido pela essência do jogo. Foi Pep quem abandonou o barco em 2012, exausto com os duelos entre Barcelona x Real Madrid. Também derrotado na última temporada.

Só que o futebol seguiu evoluindo. Muito por conta deste antagonismo, que induziu treinadores a tentar buscar o melhor dessas duas filosofias que, no fundo, são complementares.

Ancelotti conseguiu dosar posse e transição rápida no Real Madrid de “La Decima”. Luis Enrique aprimorou ainda mais a ideia no Barcelona com a troca de passes no DNA, mas também trabalhando bola parada, contragolpes e força nos duelos individuais com o acréscimo de Suárez e Neymar.

A inserção na intensidade do futebol inglês pode ser ótima para Guardiola. Assim como a competitividade que não encontrava na Alemanha. No Bayern, o desafio ainda é vencer a Champions. Nas outras temporadas, perdeu exatamente para as duas máquinas citadas no parágrafo anterior. O time bávaro, desfalcado pelos problemas físicos que o departamento médico não consegue minimizar, caiu diante do melhor de Cristiano Ronaldo e Messi.

Também um paradoxo. O caminho mais tranquilo na Bundesliga permitiu dosar melhor o elenco e sentir menos as ausências até a semifinal do torneio continental. Mas exatamente a falta de um rival mais poderoso certamente contribuiu para que o time fenecesse quando encarou as outras duas potências mundiais – incluindo o universo de seleções.

Na Inglaterra, Guardiola poderá consolidar as mudanças que já se faziam notar no Bayern: intensidade e rapidez no último terço de campo, posse de bola apenas para a saída organizada, posicionando a equipe no campo rival.

Já Mourinho tem a chance de se reinventar. Na gestão de grupo que não funcionou na terceira temporada em Real e Chelsea. Na reconstrução do personagem que não precisa ser tão “rock’n’roll” como na tese do livro “Mourinho Rockstar”, de Luis Aguilar (Editora Grande Área).

No campo, o “anti-Guardiola” em grandes jogos beirou a irresponsabilidade, como na eliminação em casa para o PSG na última edição da Champions. O seu Chelsea perdeu a capacidade de propor o jogo, ser protagonista. Até em jogos menos difíceis a tendência era sempre atrair o adversário e explorar os espaços às costas da retaguarda. Recurso legítimo. Mas o futebol em altíssimo nível pede equipes mais completas.

O perigo é ver Guardiola do outro lado e eclodir o Mourinho anti-heroi, aquele que não se importa em personificar “o mal” e encarar o rival histórico com a obsessão dos tempos de Madrid. Até porque ambos seguem como referências de treinadores mundo afora. Mas suas equipes não conseguem o protagonismo na Europa.

Na disputada Premier League, cada vez mais parelha, até pela divisão mais equilibrada da grana farta da TV, Guardiola e Mourinho precisam evoluir, tornar suas ideias relativas ao jogo ainda mais abrangentes. Versatilidade é a palavra. Ou inteligência.

Há um enorme risco da dupla se consumir dentro da Inglaterra em uma liga ainda mais espetacular e falhar novamente na disputa além das fronteiras. Títulos nacionais não faltam nos currículos recentes. O desafio é voltar a levantar a Champions e a EPL, que não permite pausas para respirar e ainda conta com técnicos como Jurgen Klopp e Arsene Wenger para rivalizar, pode atrapalhar. Por mais incrível que isto possa parecer.


Tem clássico ruim na Europa? Tem, sim senhor! O pífio dérbi de Manchester
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André Rocha

Ninguém discute a superioridade dos principais centros da Europa em organização e competitividade no cenário mundial. Também a qualidade técnica que os clubes formam e os euros compram num mercado cada vez mais louco.

No topo, ainda, a Premier League. O campeonato inglês milionário, com jogos intensos e cada vez mais parelhos, até pelo equilíbrio por conta de uma divisão mais inteligente das cotas de TV. Tão disputado que desgasta as equipes que não vêm conseguindo duelar por título na Liga dos Campeões com Real Madrid, Barcelona e Bayern de Munique, que nadam de braçadas em suas ligas e podem eventualmente descansar suas estrelas.

Mas há jogos ruins também, daqueles de sangrar as retinas e provocar cochilos no sofá, ao menos dos que não trabalham com futebol. O empate sem gols no dérbi de Manchester no Old Trafford foi um exemplo clássico.

Sim, o duelo tático sempre é interessante. United com a bola, no ritmo de Schweinsteiger, tentando trabalhar para infiltrar na defesa. City fechado em duas linhas e voltando até o atacante Bony, substituto do lesionado Aguero, descansando na frente Yaya Touré, avançado como meia central no 4-2-3-1 de Pellegrini pela ausência de David Silva. Duelo duro no meio-campo, com Touré mais Fernandinho e Fernando contra Schneiderlin, Schweinsteiger e Herrera.

Mas foi muito pouco diante do potencial das equipes. Pior no primeiro tempo de 58% de posse dos Red Devils, mas nenhuma finalização contra quatro dos citizens. Zero na direção da meta em 45 minutos. Para piorar, 16 faltas – 9 cometidas pelo City, sete pelo United. Demais para o nível de jogo e também da arbitragem na Inglaterra.

Primeiro tempo tático, com duelo duro no meio-campo e propostas definidas: United com a bola, City jogando em transição com Touré solto na frente.

Primeiro tempo tático, com duelo duro no meio-campo e propostas definidas: United com a bola, City jogando em transição com Touré solto na frente (Imagem: Tactical Pad).

Segunda etapa de propostas ainda mais definidas e duas substituições sintomáticas: Fellaini na vaga de Schweinsteiger para aumentar a estatura e a presença física na área do rival para as jogadas aéreas. Resposta de Pellegrini com Demichelis na vaga de Yaya Touré para atuar à frente de Fernando e Fernandinho.

Abafa final, bola no travessão com Lingard, substituto de Mata. Atuação perfeita de Otamendi, o melhor em campo. Sintomático na disputa de seis finalizações para cada lado (uma no alvo), 59% de posse para os donos da casa e nada menos que 30 faltas – 17 cometidas pelo time vermelho, 13 pelo azul. Jogo fraquíssimo, pífio!

Na segunda etapa, com as substituições, os Red Devils tentaram um abafa com jogadas aéreas e os citizens reforçaram ainda mais o sistema defensivo com Demichelis na vaga de Touré.

Na segunda etapa, com as substituições, os Red Devils tentaram um abafa com jogadas aéreas e os citizens reforçaram ainda mais o sistema defensivo com Demichelis na vaga de Touré.

Melhor para o City que se mantém na ponta da tabela. Um choque de realidade para quem enxerga um mundo perfeito, de sonho ou de videogame entre os grandes na Europa. Mas lá, com aqui e em qualquer lugar, tem clássico ruim, sim senhor!

(Estatísticas: BBC)


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