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Falta um pouco de Tite em Klopp no Liverpool de Coutinho e Firmino
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André Rocha

Philippe Coutinho tem cinco gols e quatro assistências na temporada 2017/2018. Roberto Firmino foi às redes oito vezes e também serviu passes para gols de companheiros por quatro vezes. Só não são os grandes destaques individuais do Liverpool porque o egípcio Mohamed Salah vive momento mágico, já marcando 13 vezes e somando três assistências. É o artilheiro do Campeonato Inglês com nove.

Os brasileiros contribuem efetivamente para que os Reds só sejam superados pelo Paris Saint-Germain de Neymar, Mbappé e Cavani na Liga dos Campeões como ataque mais efetivo – 17 a 16, em cinco partidas – e fiquem atrás apenas dos times de Manchester na Premier League: marcou 24, enquanto o City de Pep Guardiola foi às redes 40 vezes e o United de José Mourinho 27.  Em 12 rodadas. É também a equipe que mais finaliza na competição nacional.

O quarteto ofensivo ainda conta com o senegalês Sadio Mané – quatro gols e três assistências em dez jogos, depois de cumprir suspensão de três jogos na PL e sofrer lesão que o deixou de fora por cinco partidas. Dos 40 gols marcados nas duas competições, eles são responsáveis por 30. Ou 75%.

Só não garantiram matematicamente a classificação antecipada para as oitavas de final do torneio continental e uma posição acima da quinta colocação atual no Inglês – ocupando a zona de classificação para a Liga Europa porque supera Arsenal e Burnley com os mesmos 22 pontos por conta do saldo de gols – pelo fraco desempenho do sistema defensivo.

Na Premier League, são 17 sofridos. A mais vazada entre os sete primeiros. Na Liga dos Campeões, apenas seis. Mas um mau sinal: o Sevilla, rival mais competitivo do Grupo E, fez cinco. Nos dois empates entre as equipes.

O último em 3 a 3 no Estádio Ramón Sánchez Pizjuán. Resultado que poderia ser considerado satisfatório como visitante. Mas não depois de abrir 3 a 0 em trinta minutos e ceder o empate na segunda etapa. Firmino marcou dois e serviu Mané. Jogo de 20 finalizações, dez para cada equipe. Sete no alvo dos visitantes, cinco dos anfitriões que ainda carimbaram a trave do goleiro Loris Karius uma vez.

Por que o Liverpool sofre tanto sem a bola? Uma das explicações seria as limitações dos jogadores da última linha de defesa – em Sevilla formada por Joe Gomez, Lovren, Klavan e Moreno, apesar do lateral espanhol ser um dos líderes em assistências da Champions com três passes para gols. Ou a proteção insuficiente da dupla Henderson-Wijnaldum. Mas vai um pouco além.

Passa pela visão de futebol do treinador alemão Jurgen Klopp. Figura carismática, instigante. Com eletricidade e paixão à beira do campo. Comandante que popularizou o “gegenpressing”, que nada mais é que um trabalho de pressão intensa e obsessiva sobre o adversário logo após a perda da bola, ainda no campo de ataque. Acredita em futebol no volume máximo.

Mas sem o minimo controle. Mesmo considerando o contexto de jogo ultraveloz não só da liga inglesa, mas também da alemã que conquistou duas vezes com o Borussia Dortmund. Um jogo de bate e volta, no estilo “briga de rua”. Sem adaptações, mesmo completando dois anos na Inglaterra em outubro. Na prática vem exaurindo sos atletas, física e mentalmente, além de expor demais o time.

Coutinho e Firmino devem sentir a falta de um pouco de Tite no clube. Não só pelos cinco gols sofridos pela seleção brasileira sob comando do treinador em 17 partidas, apenas três em 12 jogos oficiais pelas Eliminatórias. Mas principalmente pela busca do equilíbrio entre as ações de ataque e defesa, além, é claro, dos os companheiros mais qualificados na retaguarda verde e amarela.

Também a ideia de controlar o jogo, ora com a posse da bola, ora fechando os espaços e esperando o momento certo de atacar e definir as partidas. O Liverpool troca golpes o tempo todo. É capaz de surrar o Arsenal por 4 a 0 em Anfield Road na terceira rodada da Premier League e, no jogo seguinte pelo Inglês, ser atropelado pelo City no Etihad Stadium por 5 a 0.

Tem a terceira melhor média de posse da liga, empatado com o Arsenal e atrás de City e Tottenham, mas é muito mais pelo volume e por pressionar e recuperar rapidamente, em especial contra equipes de menor investimento, do que pela capacidade de dominar o oponente.

Aleatório demais. Aqui não há a intenção de comparar os treinadores em qualidade, mas realçando as diferenças de características e personalidades. Fica claro, porém, que falta uma pitada, ou uma mão cheia, de Tite em Jurgen Klopp. Por isso o time de Coutinho e Firmino não decola, na Inglaterra e na Europa.

(Estatísticas: UEFA e WhoScored)


Campeonato inglês com cheiro de volta para Manchester. Pep ou Mou?
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André Rocha

Fica claro a cada partida do campeão Chelsea, inclusive no empate sem gols contra o Arsenal no Stamford Bridge, que Antonio Conte não encontrou em Morata uma reposição para Diego Costa no que o brasileiro naturalizado espanhol fazia de melhor, além dos gols: a capacidade de reter na frente as ligações diretas e passes longos.

O 5-4-1 esvazia o meio-campo e não sustenta construção de jogo com posse de bola. Sem Hazard, que volta para ajudar na articulação, fica ainda mais complicado. Por isso a superioridade do Arsenal de Arsene Wenger, que emulou o desenho tático do rival londrino e teve em Xhaka e Ramsey meio-campistas que combinaram qualidade técnica e dinâmica melhor que Kanté e Fábregas – apesar do passe precioso do espanhol para o compatriota Pedro perder à frente de Cech na melhor chance do jogo, ainda no primeiro tempo.

Com Liverpool e Tottenham oscilando mais que o esperado e o Newcastle não mostrando força até aqui para repetir a surpresa do Leicester em 2016, a Premier League começa a ganhar um aroma bem conhecido da Premier League nos últimos dez anos. Mesmo com apenas cinco rodadas.

Desde 2007, quando o Chelsea não foi campeão a taça rumou para Manchester. O United de Alex Ferguson faturou cinco, o City conquistou dois. Agora, não é exatamente a tradição que parece pesar a favor das equipes da cidade, mas a força de seus elencos e, principalmente, a capacidade de seus treinadores.

Pep Guardiola já sinaliza que o “curso” de um ano de campeonato inglês foi útil para o aprendizado. Entender o ritmo, o jogo físico, o “bate-volta” e tentar se adaptar. Jogo a jogo, demanda a demanda. Por isso a variação no desenho tático com linha de quatro ou cinco defensores, porém mantendo a ideia de jogo.

Abrir o campo com os novos laterais/alas Walker e Mendy, controlar o jogo no meio-campo alternando posse e aceleração com De Bruyne e David Silva e garantindo presença de área e poder de finalização mantendo Aguero e Gabriel Jesus no ataque, ainda que o brasileiro parta da ponta para dentro.

Como nos 6 a 0 sobre o Watford fora de casa, mas protagonista em campo atacando com volume, mas sabendo usar as jogadas aéreas com bola parada ou rolando e também explorar os espaços às costas da retaguarda adversária. Um City híbrido e inteligente. Um Guardiola mais conectado à lógica da liga mais forte do mundo.

Algo que o tricampeão Mourinho conhece tão bem. Por isso os Red Devils sob seu comando iguala a campanha do rival local: quatro vitórias e um empate, dezesseis gols marcados e dois sofridos. Mas trajetória construída de maneira bem diferente.

Um estilo baseado na força física e nas jogadas aéreas, ao menos até abrir vantagem. Depois muita velocidade nas transições e fôlego nos minutos finais, como nos 3 a 0 sobre o Everton no reencontro com Wayne Rooney dentro do Old Trafford, matando o jogo com os gols de Mkhitaryan e Lukaku depois do golaço de Valencia logo no início da partida.

Sem grande preocupação com a posse de bola, apostando sempre nos ataques verticais. Na ausência de Pogba, lesionado, Fellaini é mais um para cortar ou completar cruzamentos. Juan Mata é o ponta articulador que garante mobilidade e criação de espaços diante de adversários fechados. Um 4-2-3-1 compacto, rápido, intenso.

A retaguarda ainda não inspira confiança, mas foi vazada apenas no empate contra o Southampton. Graças às intervenções do goleiro De Gea. A do City também precisa de ajustes e sofre menos porque consegue manter a bola mais longe da meta de Ederson.

É muito cedo para qualquer prognóstico, ainda mais com tanto equilíbrio de forças e as equipes mais poderosas envolvidas em torneios continentais, fora as copas nacionais sempre desgastantes. Mas já é possível sentir um cheiro de Manchester voltando ao domínio na Inglaterra.

Ou um novo duelo Pep x Mou para atrair os olhos do mundo.


Premier League já começa insana, mas não pode virar um fim em si mesma
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André Rocha

A liga mais forte do mundo começou com a incrível virada em Londres do Arsenal do inesgotável Arsene Wenger por 4 a 3 sobre o Leicester City. Gol da vitória marcado por Giroud, vindo do banco, aos 39 minutos do segundo tempo. Dois minutos antes, o empate com Ramsey, que também iniciou na reserva. Já no primeiro ato, um jogo típico da Premier League: intenso, maluco, imprevisível.

Com a grana farta da TV dividida de uma maneira mais equânime, os times médios e até os pequenos têm condições de investir em contratações e isso vem tornando o campeonato inglês cada vez mais equilibrado.

Se não conseguiu até aqui seduzir Messi e Cristiano Ronaldo, os gênios desta era, ao menos os treinadores com mais hype estão por lá: Guardiola, Mourinho, Klopp, Conte, Pochettino…Com exceção do fenômeno Zidane, bicampeão da Liga dos Campeões, apenas Carlo Ancelotti entre os mais vencedores dos últimos tempos não esteja por lá.

Por tudo isso se tornou uma competição de difícil prognóstico em relação a favoritismo ao título e às vagas nas competições europeias. Ótimo para a liga em si. Mas nem tanto para os clubes.

Porque enquanto Barcelona, Real Madrid, Juventus, Bayern de Munique, PSG e outros conseguem administrar seu calendário com respiros e uso de reservas, os ingleses precisam jogar no volume máximo durante toda a temporada. Muitas vezes não é possível dosar energias nem durante as partidas. Se baixar a guarda diante de uma equipe na zona de rebaixamento pode ser surpreendido.

Se juntar isso às copas nacionais com sua tradição e seus “replays” em caso de empate, aliviados pela federação com o cancelamento da prática nas quartas-de-final da Copa da Inglaterra, o cenário é ainda mais complexo. Ajudam a exaurir as forças, mesmo em elencos robustos. Sem contar os jogos em sequência no final de um ano e o início do seguinte, enquanto a grande maioria faz uma pausa para as festas de Natal e reveillón.

O resultado prático é que desde 2012, com o Chelsea, a Inglaterra não tem um vencedor da Champions. Mesmo considerando o domínio de Real Madrid e Barcelona, que contam com grandes times de sua história, é preocupante. Ainda que os próprios Blues e o Manchester United, neste período de seca, tenham conquistado a Liga Europa.

Fica a impressão de que faltam pernas e força mental para se concentrar na disputa do maior torneio de clubes do planeta porque o campeonato nacional exige demais semanalmente. Quem tenta dividir atenções vem sofrendo nas duas frentes. Não por acaso, Leicester e Chelsea venceram as duas últimas edições da Premier League por não estarem envolvidos em competições europeias. Tiveram semanas para repouso e treinamentos.

Mourinho preferiu arriscar tudo na Liga Europa na temporada passada ao perceber que os Red Devils não conseguiriam sequer a vaga de qualificação para a Champions. É uma disputa tão insana que não há garantias, uma margem mínima para planejar a temporada seguinte. Não há como fugir do clichê “pensar jogo a jogo” até que as pretensões possíveis fiquem mais claras. Hoje, imaginar um clube ganhando inglês e Liga dos Campeões é utopia.

Em campo, a consequência da loucura da Premier League é a dificuldade para controlar jogos, desacelerar. Como o City de Guardiola que não conseguiu conter a reação do Monaco no jogo da volta das oitavas de final da UCL depois dos 5 a 3 em Manchester. No jogo bate-volta, só há ataque e defesa, sem longos períodos entre as intermediárias. Sem pausas.

Os clubes mais poderosos vivem um dilema. Ostentam orçamentos de gigantes europeus, mas não conseguem ser tão competitivos além de suas fronteiras como gostariam porque se esfolam na luta doméstica.

É óbvio que o titulo inglês é sinônimo de prestígio, visibilidade e uma fatia maior do bolo das receitas de TV. Mas o asiático hoje prefere Barça e Real. Com Neymar no PSG isso talvez piore. Para manter ou ampliar o alcance global é preciso voltar a ser protagonista na Liga dos Campeões. Para isso é urgente repensar o calendário. Ou transferir o risco para a própria liga priorizando a Champions.

Qualquer coisa para não tornar a Premier League um fim em si mesmo.

 


A pobreza do “Mourinhobol” e a mentalidade vencedora do Real de Zidane
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André Rocha

Zinedine Zidane deixou no banco Cristiano Ronaldo, voltando de férias depois da participação na Copa das Confederações. Colocou Bale em seu lugar e manteve a equipe campeã espanhola e da Liga dos Campeões para a disputa da Supercopa da Europa na Macedônia. Com Isco novamente fazendo a ligação do meio com o ataque.

Com Casemiro, Modric e Kroos ajudaram o Real Madrid a jogar fácil. Nada revolucionário nos conceitos. Zidane quer aproximação, troca de passes, movimentação e simplicidade. E explora a grande virtude da equipe merengue: a qualidade na execução das jogadas. Precisão. Mesmo com erros incomuns, mas compreensíveis para um início de temporada. Como Kroos errar feio numa saída de bola.

Contra o Manchester United de José Mourinho assumiu naturalmente o protagonismo, ocupou o campo de ataque e com os avanços de Carvajal, que busca mais o fundo em velocidade que Marcelo do lado oposto, fez Lingard recuar como lateral formando com Valencia, Lindelof, Smalling e Darmian uma linha de cinco na defesa.

Acabou superado pela infiltração de Casemiro, impedido por centímetros ao receber passe de Carvajal para abrir o placar. Ampliou na bela combinação de Bale e Isco, que tocou na saída do goleiro De Gea. Toques rápidos e objetivos.

O United permitia que o Real tivesse a bola, mas as transições em velocidade criaram problema para o sistema defensivo espaçado do time espanhol por conta da proposta ofensiva e do condicionamento físico ainda em evolução no fim da pré-temporada.

Rashford, que entrou na vaga de Lingard, e Lukaku, grande contratação da temporada, perderam chances cristalinas. O atacante belga ao menos aproveitou o rebote de Keylor Navas para diminuir e ao menos criar a expectativa de reação.

Mas um time com tamanho poder de investimento não pode recorrer a Fellaini e um jogo físico e limitado às bolas aéreas em um jogo grande. Um “Mourinhobol” que pode até funcionar, mas é um enorme desperdício.

O Real, mesmo cansado, teve chances de matar o jogo nos contragolpes com Lucas Vázquez, Cristiano Ronaldo e Asensio. Mas nem foi preciso, porque controlou a partida aproveitando a pobreza do repertório dos Red Devils.

Também usando algo subjetivo, mas que no caso da equipe de Zidane fica bem nítido, quase palpável: a mentalidade vencedora. A certeza de que é melhor e pode ganhar. Por isso soma mais um título, sua quarta Supercopa europeia. O primeiro ato de um time pronto para seguir fazendo história.

 


Neymar no PSG: a tática e os desafios da maior contratação da história
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André Rocha

Neymar não vale 222 milhões de euros. Ninguém vale, como bem disse Zinedine Zidane, que já foi a maior contratação da história. Tempos de um mercado menos insano. Mas o Barcelona estipulou este valor astronômico de multa rescisória para se proteger e o Paris Saint-Germain pagou para ver.

E quer ver um craque para mudar de patamar, dentro e fora do campo. Fazendo gols e vendendo imagem. Camisas, produtos. Tudo. Comprando a briga de transformar o time francês definitivamente numa potência europeia.

Para isso o clube já sinaliza que o time montado pelo espanhol Unai Emery jogará em função de seu astro maior. O novo camisa dez partindo do lado esquerdo, fazendo dupla com o jovem lateral espanhol Yuri Berchiche, contratado à Real Sociedad. Com liberdade, porém, para circular por todo o ataque. Servindo os companheiros, mas também finalizando. Sem o sacrifício de defender e ser mais assistente de Messi e Suárez.

Com o desenho tático podendo variar entre o 4-3-3, o 4-2-3-1 e até o 4-4-2. Opções não faltam, como Matuidi, Draxler, Di María e Lucas Moura para se juntar ao brasileiro e Edison Cavani, o artilheiro da equipe na última temporada com 49 gols em 50 jogos. Mas, se preciso, até o uruguaio pode ajudar na recomposição e dar liberdade a Neymar, que funciona até como um atacante mais móvel, solto na frente.

Sair um pouco do lado esquerdo pode torná-lo ainda mais imprevisível, sem o vício de cortar da esquerda para dentro com o pé direito. Algo que pode, inclusive, ser útil para fazer Tite pensar em alternativas e tornar a seleção brasileira menos presa ao 4-1-4-1 que vem funcionando nas Eliminatórias. Assim como fez no Real Madrid com Cristiano Ronaldo, Di María pode ser o meia que compõe o setor esquerdo e permite que o ponteiro seja ainda mais atacante e decisivo.

Uma das muitas possibilidades de Unai Emery na montagem do PSG com Neymar: 4-3-3 que pode variar para o 4-4-2 com Neymar se juntando a Cavani na frente e Di María repetindo o que fez com Cristiano Ronaldo no Real Madrid: compondo o lado esquerdo para deixar o brasileiro com liberdade total (Tactical Pad).

A equipe francesa pode alternar também os ritmos, cadenciando com Verratti ou acelerando com Neymar. Com tantos jogadores versáteis e de movimentação, é possível criar ações de ataque que surpreendam na inversão de lado e encontrem Daniel Alves com liberdade pela direita para buscar a linha de fundo ou mesmo finalizar. É outro trunfo de Emery, além da experiência e do currículo vitorioso do lateral brasileiro.

O primeiro desafio é recuperar a hegemonia na França, ainda que o campeão Monaco, pelo menos até agora, não tenha perdido Fabinho e Mbappé na carona das saídas de Bernardo e Mendy para o Manchester City, Bakayoko para o Chelsea. o treinador português Leonardo Jardim ainda ganhou o meia belga Tielemans e o zagueiro holandês Kongolo. Com lucro superior a 100 milhões de euros nas transferências, talvez não precise perder mais ninguém nesta janela.

De qualquer forma, Jardim não contará com um de seus maiores aliados na última temporada: o fator surpresa. Já entra na Ligue 1 como o time a ser batido. Também ganha concorrentes além do surpreendente Nice de Mario Balotelli, terceiro colocado na última edição. O Lille de Marcelo Bielsa pode incomodar, mesmo com a “loucura” do argentino exaurindo as forças físicas e mentais do elenco no final da temporada e jogando fora qualquer chance de disputar efetivamente o título.

Claudio Ranieri, veterano italiano que comandou o Leicester City no seu conto de fada inglês, chega ao Nantes. O Olympique de Marseille renovou com Rudi Garcia, o Saint-Etienne foi atrás do espanhol Oscar García, ex-Red Bull Salzburg, para tentar recuperar o protagonismo perdido na história como o mais vencedor do país. O Lyon negociou o artilheiro Lacazette ao Arsenal e contratou Bertrand Traoré ao Chelsea. Deve pleitear no máximo uma vaga na Liga Europa.

Equipes para tentar equilibrar no aspecto tático uma disputa que tende a ser novamente desigual a favor do PSG no talento. Mesmo que a prioridade seja a Liga dos Campeões. Ou obsessão. Para desbancar o domínio do Real Madrid de Zidane e Cristiano Ronaldo. Além do atual bicampeão, a Europa apresenta ainda Bayern de Munique e Barcelona, mesmo com o baque da perda de uma peça do seu tridente sul-americano espetacular e sem muita margem para gastar o muito que recebeu, à frente no protagonismo.

Antes desta trinca de campeões das últimas quatro temporadas, ainda há fortes concorrentes, como Juventus e Atlético de Madri, os vice-campeões. Além de Chelsea e o Manchester United que retornam à Champions e o promissor Manchester City de Pep Guardiola. Disputa dura que a presença de Neymar torna mais acessível, porém não menos cruel. Ainda mais num torneio eliminatório guiado por sorteio. O cruzamento prematuro com um favorito, uma noite ruim e o sonho pode ruir.

Neymar chega a Paris para se unir a Daniel Alves e tornar o ambiente mais positivo e confiante. Mudar de tamanho para não se apequenar como na traumática eliminação para o Barcelona. Arbitragem à parte, foi a noite em que o PSG viu o craque brasileiro suplantar Messi, o gênio de uma era, e construir o que parecia impossível.

O protagonista e candidato a Bola de Ouro, a maior contratação da história do esporte que eles querem escrevendo capítulos inéditos, os mais vencedores de um clube com menos de meio século que ousa desafiar com seus milhões de euros os gigantes do futebol mundial.

 


LIberdade e protagonismo: as ofertas do Barça em campo para seduzir Neymar
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André Rocha

Na vitória por 1 a 0 sobre o Manchester United no FedEx Field, o Barcelona marcou seu terceiro gol pela Champions Cup. O terceiro de Neymar, o grande destaque do primeiro tempo com as equipes utilizando os titulares e colocando intensidade máxima, mesmo num torneio de pré-temporada. Exatamente por saber que no segundo tempo os reservas seriam utilizados.

Ao menos pelo novo comandante blaugrana, Ernesto Valverde. José Mourinho, sempre atento ao resultado, mexeu menos para buscar a virada e viu os titulares mantidos em campo sofrerem com o desgaste natural em um início de trabalho. Os Red Devils ameaçaram pouco a meta do goleiro Jasper Cillessen.

Assim como nos 2 a 1 sobre a Juventus, o que ficou claro em campo é que Neymar ganhou mais liberdade para circular por todo ataque, embora parta quase sempre do lado esquerdo. O trabalho defensivo também está mais brando, sem voltar tanto na recomposição. A linha de três no meio teve o jovem Carles Aleñá, produto de La Masia, correndo bastante para articular no meio e auxiliar o lateral Jordi Alba.

Com isso, Messi funciona mais como armador. Ou o antigo “ponta-de-lança”, atuando na área que domina: da meia direita carregando a bola em diagonal para passar ou finalizar. Suárez girou na frente abrindo espaços e o trio está menos previsível. A equipe, porém depende mais deles, já que todos trabalham para que os atacantes sul-americanos fiquem mais soltos.

Solução que cria incoerências, como o lateral português Nelson Semedo, contratado para suceder Daniel Alves exatamente por sua força no apoio, guardar mais sua posição pela direita e praticamente não descer, mesmo com o corredor cedido por Messi. Rakitic aproveitou mais o espaço, mas nem tanto. Exatamente pelas maiores atribuições defensivas.

De qualquer forma, a impressão que fica é que o Barcelona, ou talvez apenas o grupo de jogadores, tenha encontrado uma forma de seduzir Neymar a ficar, mesmo com a sombra de Messi, inclusive na hierarquia midiática, os problemas com a justiça espanhola e a resistência do clube em aumentar seu salário: liberdade e protagonismo.

Não mais o ponteiro do tridente a se sacrificar taticamente, mas um membro do melhor ataque do mundo em potencial com os mesmos direitos de visibilidade. Também de ir às redes e aproveitar a sua sanha de goleador que andava um tanto ofuscada pela missão de ser mais assistente que finalizador.

Como na lógica dos boleiros tudo se resolve no campo, o plano pode funcionar e Neymar seguir na Catalunha.

Neymar no PSG? Veja detalhes da negociação


“O problema é quando se tem a bola” – Futebol atual é jogo de espaços
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André Rocha

A frase entre aspas do título deste post é de um treinador campeão brasileiro, cujo nome não será revelado para não criar qualquer estigma ou rótulo. Até porque havia um contexto dentro da entrevista. Mas a ideia era clara.

Ter a posse de bola é aumentar a probabilidade de errar e dar chances ao adversário. Na saída de bola, com zagueiros que não foram ensinados a iniciar a construção das jogadas e acabaram na posição pela estatura e vigor físico. Em um centro futebolístico que predomina financeiramente no continente, mas não conta com excelência técnica na maioria das posições e funções.

No qual a torcida não tem paciência para jogadas trabalhadas, vaia bola recuada para o goleiro com a proposta de criar espaços e, na ansiedade e imediatismo típicos da nossa cultura, exige que a ação ofensiva seja finalizada o quanto antes.

Por isso a bola de segurança pelos lados. Porque se há a perda, o contragolpe do oponente não se inicia em uma zona perigosa. O ataque só passa pelo centro para virar o lado saindo da pressão ou procurando um pivô, mas já no último terço do campo. Muitos cruzamentos, com bola parada ou rolando. A margem de erro é menor.

Como cobrar mais de treinadores trocados a cada três meses, ameaçados a cada três derrotas? Responsabilizados por problemas técnicos de seus atletas desde a base e sem tempo para treiná-los com jogos a cada três dias? Neste cenário pragmático é melhor mesmo não ter a bola e esperar o vacilo do outro lado.

A vitória do Botafogo sobre o Nacional uruguaio no Parque Central foi simbólica. Porque a equipe da casa, que também se sente mais confortável jogando em transições velozes, precisava trabalhar as ações ofensivas para infiltrar, construir o resultado para administrar na partida de volta.

Encontrou, porém, uma equipe brasileira novamente bem coordenada defensivamente, com concentração e entrega. Também sorte, já que no toque de Victor Luís na própria área com o braço muito aberto, em lance duvidoso para as novas recomendações da FIFA, a arbitragem não se deixou levar pelo mando de campo. Sem contar a falha grotesca do zagueiro Emerson Silva que Silveira não aproveitou à frente de Gatito Fernández. O erro quando teve a bola.

No contragolpe, inversão de Pimpão para Bruno Silva e bola na rede com o toque meio sem querer de João Paulo, meia que deixou Camilo no banco pelo maior poder de marcação e dinâmica mais alinhada à proposta do treinador Jair Ventura. Triunfo com 40% de posse e oito finalizações, quatro no alvo. Contra 17 do Nacional, mas só duas na direção da meta de Gatito. Sem ideias, os uruguaios efetuaram 41 cruzamentos. O Bota cometeu 26 faltas contra 14 e acertou 17 desarmes, o Nacional só 12. Espírito de competição.

O resultado facilita o trabalho para a volta no Estádio Nílton Santos. Porque o Botafogo, mesmo em casa e provavelmente com a torcida apoiando, deve manter sua ideia pragmática de jogo. O questionamento inevitável é: como será quando a equipe precisar sair para o jogo por necessidade? As derrotas para Barcelona de Guayaquil e Avaí no Rio de Janeiro entregam respostas preocupantes.

Jogar como “azarão” é mais simples. O discurso motivacional do treinador vai na linha do “Davi x Golias”, os comandados entram mais concentrados e nenhuma pressão. Há espaços para atacar e menor cobrança sobre o erro.

Não só no Brasil. Nos grandes centros a lógica é a mesma. Com Leicester City e Chelsea vencendo as últimas edições da Premier League sem dar muita importância para a posse de bola. O Barcelona eliminado na Liga dos Campeões por Atlético de Madri e Juventus e ainda levando 4 a 0 do PSG. Os rivais sempre jogando a isca: “Me ataque, fique com a bola e te golpeio em seus pontos fracos”. Pep Guardiola no Manchester City também sofreu e vai tentando aprender e se adequar à dinâmica do futebol jogado na Inglaterra.

Na final da Liga Europa, José Mourinho armou seu Manchester United para aproveitar os espaços deixados pelo Ajax com seu ataque posicional típico do futebol holandês. Marcação encaixada, bote no zagueiro colombiano Davinson Sánchez, elo fraco nos passes, e contragolpe rápido. Força no jogo aéreo e mais uma taça continental para o treinador português.

O mundo é do Real Madrid comandado por Zidane porque é um time talentoso e inteligente. Sabe jogar com a bola pela qualidade individual que possui. Por ser um gigante, em 90% das partidas na temporada entra como favorito e precisa se arriscar. Mas faz por necessidade, não filosofia ou convicção. E se abre o placar o jogo reativo volta a ser a ideia principal. Assim como a Juventus, finalista derrotada na Champions, é um time “camaleão”, que muda de acordo com o que se apresenta. Para isso precisa de jogadores completos, inclusive na leitura de jogo. Saber acelerar e cadenciar, dosar a intensidade.

Não por acaso o predomínio recente de Cristiano Ronaldo sobre Messi nas premiações individuais. Consequência das conquistas coletivas. O português é mais prático, simples e vertical. Decide com um toque. Para brilhar, o argentino precisa construir em um Barcelona cada vez mais mapeado e estudado. Missão complicada.

Porque quem trata a posse como obsessão ou filosofia, dentro ou fora de casa e independentemente do contexto está sendo obrigado a mudar. No futebol tão estudado de hoje, a equipe abre mão do fator surpresa. Instala-se no campo de ataque, gira a bola em busca de espaços e os cede atrás, por consequência. Cabe ao rival negar as brechas para infiltrações, com o cada vez mais utilizado sistema com cinco homens na última linha de defesa, e explorar os pontos falhos, que sempre existem.

Na costumeira variação do 4-3-1-2 para duas linhas de quatro bem compactas, o Botafogo venceu em Montevidéu. Mais uma vez sem fazer questão da posse. No futebol, ela cada vez mais vai perdendo sua importância. A referência é o espaço. O “jogar sem bola” aproxima das vitórias.  Paradoxal, não?

E a frase do técnico, que soou absurda há alguns anos, mostra-se visionária. Mas qual será o impacto no futuro do esporte? Felizmente ele é cíclico, por isso tão apaixonante. Logo virá uma resposta. Tomara…

(Estatísticas: Footstats)

 


Liga Europa, vamos! Ao seu estilo, Mourinho volta a ganhar o continente
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André Rocha

Foto: Darren Staples, Reuters

O garoto-propaganda do patrocinador da Liga dos Campeões estará de volta ao maior torneio de clubes do planeta. Se não conseguiu a vaga para o Manchester United via Premier League, o título da Liga Europa aumenta a lista de taças conquistadas por José Mourinho.

No continente é a quarta, se juntando à antiga Copa da UEFA e às duas Champions Leagues, com Porto e Internazionale. Com os Red Devils, na primeira temporada, o terceiro título, se juntando às Supercopa da Inglaterra e Copa da Liga Inglesa.

Vitória sobre o Ajax em Estocolmo bem ao seu estilo. Diante de um time jovem e sem vivência em jogos grandes, aproveitou a pior faceta da atual escola holandesa: a falta de mobilidade e variações do tradicional 4-3-3 de manual.

Mourinho sabia que a fluência da equipe do treinador Peter Bosz partia do trio de meio-campistas acionando os ponteiros Traoré e Younes para buscar Dolberg, centroavante dinamarquês de 19 anos. A solução foi encaixar o 4-2-3-1 no engessado desenho tático do adversário.

Resultado: o meio-campo não jogou. Ander Herrera pegava Ziyech, Pobga grudava em Klaassen e Fellaini impedia a saída limpa do volante Schone. Os pontas Mata e Mkhitaryan acompanhavam os laterais Veltman e Riedewald, que não davam profundidade e Rashford dificultava a saída do zagueiro De Ligt.

Sobrava o zagueiro colombiano Davinson Sánchez, que entristeceria Johan Cruyff se ainda estivesse entre nós. Para este, o defensor é o primeiro construtor das jogadas. Sánchez conduzia a bola…e entregava ao adversário, que saía em transição rápida.

Assim o United controlou o jogo sem posse, com apenas 34%. A armadilha visava acelerar os contragolpes com o jovem Rashford e aproveitar a chegada forte pela direita de Valencia, descendo pelo corredor deixado pela movimentação de Mata.

No entanto, o gol saiu no vacilo de Klaassen, que deixou Pogba livre para bater de fora e contar com o desvio para deixar o jovem time holandês ainda mais tenso. Só Traoré saía do lado direito e buscava o centro ou a infiltração em diagonal para tentar quebrar a marcação na vitória pessoal.

O encaixe do 4-2-3-1 do Manchester United sobre o engessado 4-3-3 do Ajax que sofria na saída de bola com o zagueiro colombiano Sánchez. Bola roubada, contragolpe e eficiência nas finalizações (Tactical Pad).

O Ajax finalizou seis vezes contra quatro do United, mas apenas uma no alvo contra duas. Os números importantes dos primeiros 45 minutos, porém, foram os de bolas recuperadas: 32 da equipe inglesa contra 19 dos holandeses. Emblemático.

O caminho para o primeiro título da Liga Europa, a primeira taça internacional depois da saída de Alex Ferguson, foi pavimentado pelo gol de Mkhitaryan completando desvio de Smalling em mais uma falha defensiva do adversário. Na bola parada. Bosz tentou mexer com a marcação adversária, inclusive com o brasileiro David Neres. Um pouco mais de mobilidade, com Traoré circulando. Muito pouco.

O United deixou a marcação individual, compactou duas linhas de quatro com Herrera entre elas e deixou Lingard e Martial abertos para a saída dos contragolpes. Podia ter ampliado com Lingard, mas nem foi necessário. Valeu para Rooney sair do banco para substituir Mata, comemorar mais um título com a camisa do clube e levantar a taça como capitão.

Um mimo de Mourinho, campeão mais uma vez à sua maneira. O United terminou com 33% de posse e seis finalizações contra 15 do Ajax. Eficiência com quatro na direção da meta de André Onana e apenas duas que deram trabalho ao goleiro Romero.

Assim como o cãozinho Salsicha, a Liga Europa também vai com José Mourinho. Título importante para afirmar o português no comando do maior campeão inglês. Apesar dos problemas, em especial o sentido desfalque de Ibrahimovic, que celebrou de muletas em sua Estocolmo. Para amenizar a dor da tragédia em Manchester.

Na próxima temporada, Mourinho voltará a sentir o gostinho de “Match Day” na UEFA Champions League. Não só na propaganda.

(Estatísticas: UEFA)


Futebol inglês: ou muda calendário e tradições, ou vira piada na Europa
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André Rocha

Entre os oito classificados para as quartas-de-final da Liga dos Campeões, apenas um representado a Inglaterra: o Leicester City, atual campeão. Clube que teve como trunfo na temporada anterior estar totalmente focado na Premier League.

Agora, acusado de economizar suor na competição nacional por conta dos problemas de relacionamento com o ex-treinador, Claudio Ranieri, teve gás sobrando para a disputa do torneio continental e despachou o Sevilla no King Power Stadium.

O Chelsea, líder e virtual campeão inglês desta temporada, também leva vantagem na disputa da liga por não dividir atenções com nenhuma competição europeia. Segue vivo na Copa da Inglaterra depois de eliminar o Manchester United.

Time de José Mourinho que não deve ter reclamado muito. Campeão da Copa da Liga e o único do país ainda envolvido com a Liga Europa, luta para alcançar a zona de classificação para a próxima Champions League.

O campeonato inglês da primeira divisão é considerado o mais importante do planeta. Pelo equilíbrio de forças que passa fundamentalmente por uma divisão da receita mais justa e um aumento substancial das cotas de TV. Disputado em intensidade altíssima, num jogo físico que dura os noventa minutos e atrai os olhos do mundo pela imprevisibilidade.

O grande gargalo, porém, é o calendário, ainda fincado em tradições que fogem do contexto atual. Enquanto o mundo pára no final do ano, a bola rola no Boxing Day e em jogos encavalados. Tudo isso com o intuito de atrair os olhos do mundo, mas também garantir datas para as duas copas nacionais, enquanto a grande maioria dos países disputa uma só.

E ainda preservam o “replay”, jogo extra disputado em caso de empate na Copa da Inglaterra. O Manchester City perdeu tempo de preparação para a sequência da Premier League e da Liga dos Campeões para enfrentar o Huddersfield Town, da segunda divisão, pelas oitavas de final. Ao menos para esta temporada acabaram com os jogos extras nas quartas de final.

Mas é preciso rever ainda mais o calendário. Porque mais tradicional que as copas e os jogos na virada do ano é ver os times ingleses fortes na Liga dos Campeões. De 12 títulos, mas o último em 2012 com o Chelsea. Conquista improvável e baseada exatamente na prioridade dada ao torneio.

Desde 2008/09, quando colocou United, Chelsea e Arsenal nas semifinais, mas o título ficou com o Barcelona, só conseguiu emplacar um time entre os quatro primeiros: título com os Blues, vice dos Red Devils em 2011, o Chelsea de Mourinho entre os quatro em 2014 e o Manchester City na semifinal inédita na última edição contra o Real Madrid.

Para piorar, o Arsenal de Arsene Wenger leva um 10 a 2 no agregado do Bayern de Munique e é eliminado nas oitavas de final pela sétima vez consecutiva. Mesmo com alguns erros gritantes da arbitragem em Londres, não deixa de ser um vexame.

É muito pouco. Suscita dúvidas da real força da Premier League ver os espanhois dominando o continente há três temporadas com Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid, mais o Sevilla tricampeão da Liga Europa. A Alemanha colocando Bayern de Munique e Borussia Dortmund novamente entre os oitos melhores.

E a Inglaterra apenas com o Leicester City, maior azarão do sorteio das quartas. Inusitado, mas tragicômico. O perigo é o futebol jogado no país virar piada na Europa.


Guardiola no purgatório, Mourinho no inferno. Como será o amanhã?
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André Rocha

É o preço da genialidade que costuma vir junto de uma personalidade geniosa. Pep Guardiola e José Mourinho mudaram a história do futebol, contribuíram diretamente para uma enorme evolução do jogo caminhando em direções opostas.

Mas o ser humano costuma ser resistente às mudanças. Ainda mais quando elas são impostas por quem está saturado de convicções e não consegue conceber o futebol de outra maneira.

Guardiola quer a bola, não admite entrar em campo sem a proposta de mandar no jogo, ser protagonista. Mesmo no início de trabalho. Ainda que sua equipe não esteja 100% preparada e entrosada para isso. Não se importa em correr riscos, adiantar as linhas e colocar seu goleiro para jogar com os pés. O objetivo: criar superioridade numérica onde está a pelota.

Só que o futebol é um jogo em que o objetivo maior, o gol, acontece muito mais raramente que em outros esportes. Por isso é uma disputa por espaços e qualquer erro é fatal. Em noventa minutos a chance de falhar é grande. Numa disputa equilibrada tudo fica ainda mais difícil.

Por isso o técnico catalão é tão obsessivo. Quer seus jogadores totalmente concentrados e preparados física e mentalmente. Foco absoluto. Por isso a decisão de afastar atletas que não estejam ou o treinador imagine que não sejam adaptáveis às suas idéias e aos seus métodos. Sejam ídolos ou não.

Tanta intensidade e uma visão tão particular do jogo não devem ser fáceis de administrar no dia a dia em um clube. Não por acaso por onde passou deixou títulos, mas também desafetos.

Na parelha Premier League, o ótimo início com seis vitórias consecutivas, dez na temporada, fez o time ser ainda mais estudado pelos rivais. Para piorar, Kevin De Bruyne, peça fundamental na execução do plano de jogo, se lesionou.

Ato contínuo, perdeu os 100% de aproveitamento nos insanos 3 a 3 com o Celtic pela Liga dos Campeões. Uma mostra de que pressão na frente e velocidade novamente poderiam complicar o time de Guardiola.

Bem mapeado pelo Tottenham de Mauricio Pochettino, especialmente na pressão sobre a saída de bola tão valorizada por Guardiola, a primeira derrota. Depois empates com Everton e Southampton em 1 a 1 e a goleada sofrida para o Barcelona de Messi. Um mês sem vitórias, mesmo com o retorno do talento belga.

É quando a tensão aumenta. Porque o ser humano aceita viver sob pressão total se o sacrifício der resultado. Sem vitórias vem a cobrança pesada, mesmo com a liderança mantida na EPL. Ainda mais sofrendo gols seguidos por erros na saída de bola que é uma espécie de cláusula pétrea, princípio básico de Guardiola.

Pior ainda é a situação de Mourinho. Último trabalho pífio pelo Chelsea e o retorno à Premier League no seu maior campeão. Ainda órfão de Alex Ferguson e traumatizado pela passagem de Louis Van Gaal, outro técnico de forte personalidade. Saiu pela porta dos fundos, apesar do título da Copa da Inglaterra.

O português chegou ao Manchester United com tratamento de estrela, recebeu as contratações milionárias de Pogba e Ibrahimovic e até começou bem, vencendo o Leicester City na Supercopa da Inglaterra e três vitórias na liga. Até enfrentar…Guardiola.

E aí o personagem Mourinho foi questionado pela postura excessivamente cautelosa no primeiro tempo do Old Trafford. Ainda que tenha terminado a partida com cinco atacantes tentando reverter os 2 a 1.

A partir daí, derrota para o Watford, nova vitória sobre o Leicester ( 4 a 1) e empates com Stoke City e Liverpool. Diante do rival histórico, o velho “ônibus” à frente da própria meta rendeu críticas.

Porque Mourinho desde 2010 posicionou-se como o “anti-Guardiola” e radicalizou qualquer proposta mais pragmática. Diante do Barcelona, colocou inteligência na retranca comandando Internazionale e Real Madrid. Obrigou craques a trabalhar sem a bola, armou linhas de cinco e até seis na defesa. Trouxe o handebol para o jogo.

Como deu certo em tantos duelos, assumiu o perfil com a paixão que lhe é característica. Só que fazer isso em clubes gigantes e marcas mundiais não é tão simples. Ainda mais contra equipes em tese do mesmo nível. Vieram os questionamentos. E os choques, até porque o português não é receptivo às interferências externas.

Mourinho descartou Schweinsteiger, não vem utilizando Rooney e Fellaini segue como titular por ser forte no jogo aéreo ofensivo e defensivo, apesar da pouca colaboração na construção das jogadas. Decisões personalíssimas que carregam a polêmica embutida.

No reencontro com Chelsea e Stamford Bridge, o gol de Pedro aos 32 segundos desmontou qualquer proposta defensiva do United. Mourinho teve que lidar com as provocações da torcida e com o time bem armado por Antonio Conte num 3-4-3 com Azpilicueta de zagueiro e Moses como ala pela direita.

Ensaiou uma reação na segunda etapa com Mata e Rojo. Mas o belo gol de Hazard pulverizou qualquer chance de recuperação. Até Kanté foi às redes em jogada antológica, o primeiro no novo clube. Os 4 a 0 que estacionam o United na sétima posição, a seis pontos do City, líder por um gol a mais no saldo que o emergente Arsenal.

O início de Mourinho em Manchester é pior que o de Van Gaal. Inferior também à terceira temporada no Real Madrid, no auge do desgaste com o elenco e até aos números vergonhosos da última temporada no Chelsea – não no Inglês, mas em todas as competições. Pior só no União Leiria, quando o “Special One” ainda era um mero iniciante.

A desvantagem na tabela da liga nacional é pequena e recuperável em apenas nove rodadas. A grande crítica é ao desempenho. O que o elenco pode entregar mas parece amarrado pelas idéias radicais de seu treinador.

É o efeito colateral ao pagar tanto por comandantes que não abrem mão de suas convicções e têm currículos recheados de conquistas para avalizar. Sem contar o poder midiático da dupla.

Guardiola quer a bola, Mourinho não abre mão da solidez defensiva e do minimalismo em busca dos três pontos. Idéias que revolucionaram o esporte. Só que o futebol atual bebe nas duas fontes e tenta combiná-las de acordo com o contexto do jogo. Assim jogam Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, agora com Ancelotti, Borussia Dortmund, Tottenham, Liverpool, o próprio Chelsea, entre outros.

Algo para a dupla histórica refletir. E botar em prática o mais rápido possível. Ironia do destino: o próximo jogo de Guardiola e Mourinho é…City x United pela Copa da Liga Inglesa. O catalão no purgatório, o luso no inferno. Como será o amanhã?