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Corinthians, hepta de 1990 a 2017. Um título a cada quatro anos não é acaso
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André Rocha

Heptacampeão brasileiro. Maior vencedor de 1971 para cá. Ou desde 1990, na conquista do time de Nelsinho Baptista e Neto. Passando pelo bi de 1998/1999 com a equipe de Vanderlei Luxemburgo herdada por Oswaldo de Oliveira. O tetra com Tevez, Mascherano, Nilmar, Roger e Antonio Lopes recebendo o time de Marcio Bittencourt em 2005. Depois a “Era Tite”, começando em 2011 mais pragmático, quatro anos depois com criatividade e um futebol mais envolvente.

A conquista do time de Fabio Carille pode ser incluída neste período, já que o ex-auxiliar seguiu princípios de jogo e de gestão de elenco do atual treinador da seleção brasileira. Mais ou menos como Oswaldo de Oliveira e Luxemburgo há 19 anos.

A primeira vez que a CBF foi buscar no clube o melhor treinador do país. Depois de Luxa, Parreira em 2003 pela relação sempre próxima do campeão mundial de 1994 com a entidade, mas também pela temporada vencedora no ano anterior – campeão do Rio-São Paulo, Copa do Brasil e vice brasileiro. Mano Menezes em 2010 pelas conquistas de Paulista e Copa do Brasil. Por último, Adenor Leonardo Bacchi. Com dois anos de atraso, perdidos com Dunga.

Não é por acaso. Se fora de campo a gestão nunca foi exemplar, mesmo com sonhos realizados como o CT Joaquim Grava e o estádio próprio em Itaquera, dentro de campo o Corinthians teve excelência. Em técnica e tática.

Desde 2008, com Mano a partir do inferno na Série B, construiu uma identidade. Coisa rara no país. Baseada em organização defensiva, intensidade, concentração e mentalidade vencedora. O ápice em 2012 com Tite e o sonhado título da Libertadores e o último Mundial Interclubes conquistado por um sul-americano. Os dois comandantes se revezaram até Tite deixar o clube para investir no sonho de dirigir a seleção.

Um hiato com Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira, retomada da linha de trabalho e de conduta com Carille. Do turno invicto e quase perfeito com 82% de aproveitamento, a queda brusca a partir da vigésima rodada e a confirmação da conquista na reta final. Com três rodadas de antecedência, desde a quinta no topo da tabela. Líder por 30 rodadas, ilustrando a superioridade durante todo o campeonato. Se os concorrentes priorizaram outras competições, que aplaudam o vencedor.

Nos últimos quatro triunfos para o título, a vantagem mínima em três partidas para agradar o “maloqueiro sofredor”. Sem brilho, mas com fibra. E a confiança de quem venceu tanto recentemente e confia em sua ideia de jogo. Mesmo recheada com muito pragmatismo na reta final.

Contra o Fluminense, a primeira virada, a mais importante. Em casa, para celebrar com sua gente.

Susto com Henrique abrindo o placar no primeiro ataque tricolor, gols de Jô para consagrar o artilheiro do campeonato com 18 gols e o grande protagonista na campanha inteira. Sustentando o ataque e o time quando a defesa vacilou, Rodriguinho oscilou, Romero cansou, Jadson e Maycon despencaram em desempenho e perderam espaços para Clayson e Camacho. Mas o camisa dez ressurgiu para marcar o gol dos 3 a 1.

Apesar da campanha de extremos, foi o melhor pelos gramados do país na principal competição nacional. Mais uma vez. Com uma maneira de jogar e levar a taça para casa. O sétimo título em 28 edições, um a cada quatro anos. Que sirva de exemplo para os demais. Até porque se continuarem dormindo, o domínio vira dinastia.

 

 


Um Palmeiras ainda “híbrido” sofre diante do Cruzeiro, o teste mais forte
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André Rocha

A expectativa e a pressão pela vitória em casa sobre o Cruzeiro que deixaria o Palmeiras a três pontos do líder do Brasileiro e maior rival atrapalharam mais uma vez. O favoritismo continua pesando nesta edição do campeonato.

Mas o que atrapalhou mesmo o atual campeão brasileiro foi o processo de mudar uma maneira de jogar e de pensar futebol na reta final da temporada. É quase como virar do avesso sair do estilo Cuca para o que Alberto Valentim quer para a equipe.

Principalmente no trabalho sem a bola, na transição defensiva. Porque quem está acostumado a marcar perseguindo o adversário vai sofrer para defender tendo a bola e o espaço como referências. Do “cada um pega o seu até o fim da jogada” para a marcação por zona é uma mudança radical.

Ainda mais com a última linha de defesa tão adiantada como quer Valentim para empurrar o adversário para o próprio campo. É um trabalho coletivo que depende muito da pressão que se exerce sobre o oponente que está com a bola para dificultar o passe. Mas como saber se tem que pressionar no setor se antes a ordem era pegar o jogador?

Toda a complexidade deste processo se viu nos dois gols cruzeirenses. No passe longo com liberdade para Diogo Barbosa receber atrás de Mayke e cruzar para Juninho, correndo para evitar a finalização, jogar nas redes de Fernando Prass. Gol contra na única “conclusão” na direção da meta alviverde no primeiro tempo.

Porque com a bola o Palmeiras mostrou a evolução dos últimos jogos. Troca de passes, revezamento de funções entre Jean, Tche Tche e Moisés, embora este sempre ficasse mais adiantado na linha de meias; mobilidade de Keno e Dudu buscando o centro para se juntar a Borja, que novamente encontrou problemas para fazer o jogo associativo – tabelas, trabalho de pivô, preparar jogadas. Mas estava na área para buscar o empate duas vezes.

A primeira em jogada pela esquerda com Egídio, depois o centro de Dudu da direita encontrando o camisa nove. Cruzamentos rasteiros, um em cada tempo. Ainda que as jogadas aéreas continuassem presentes, principalmente na necessidade de criar espaços e atacar. Foram 46 cruzamentos no total. Outra herança do “Cucabol” difícil de largar – se esta é a intenção de Valentim, diga-se.

A defesa adiantada com o lento Edu Dracena foi furada no segundo gol, de Robinho, que acabara de entrar na vaga de Rafael Marques. No Cruzeiro de Mano Menezes bem posicionado, com linhas próximas e saída em velocidade. Bem mais perigoso na segunda etapa de cinco finalizações, todas no alvo. Subindo a posse de 37% para 40%. Outro protagonista de um belo duelo.

Palmeiras das 21 finalizações que transformaram Fabio no grande destaque individual da partida. Que partiu para o abafa no final com Roger Guedes na ponta, Borja e Deyverson na área celeste, porém não conseguiu o objetivo que mudaria oficialmente o discurso de G-4 como meta para a realidade: a chance do bicampeonato nunca pareceu tão palpável.

São cinco pontos de diferença para o dérbi em Itaquera. Uma vitória com autoridade diminuiria para três e minaria ainda mais a confiança do abalado Corinthians ao longo da semana. Agora é confronto aberto, imprevisível. Alberto Valentim tem cinco dias para fazer ajustes e deixar o Palmeiras mais com sua assinatura do que a do antecessor. Não o time “híbrido” que sofreu no teste mais forte até aqui.

(Estatísticas: Footstats)


Cruzeiro de Mano passa o Grêmio e pode repetir Flu 2007, de Renato Gaúcho
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André Rocha

Foto: Denis Dias/Gazeta Press

O Cruzeiro foi o primeiro campeão brasileiro da era dos pontos corridos. O primeiro e único a vencer também a Copa do Brasil, no 2003 mágico da “tríplice coroa”. Quase repetiu o feito em 2014, mas o arquirrival Atlético impediu vencendo a final mineira da Copa do Brasil.

2017 foi o ano do penta no grande torneio nacional de mata-mata, nos pênaltis contra o Flamengo.  Pode também ser o de uma nova grande campanha no Brasileiro depois de duas edições após o bicampeonato flertando mais com Z-4 que com título ou vaga na Libertadores.

Com a vitória por 1 a 0 sobre o Grêmio em Porto Alegre, gol de Rafael Sóbis, eterno ídolo do Internacional, maior rival do adversário, o time de Mano Menezes ultrapassa Santos e o próprio time gaúcho para dormir na vice-liderança do Brasileiro. Se mantiver os bons resultados abrirá uma vaga na Libertadores dentro da competição por pontos corridos.

O mesmo que conseguiu o Fluminense em 2007. Campeão da Copa do Brasil em 6 de junho vencendo o Figueirense em Florianópolis, gol de Roger Machado, hoje treinador. Antecessor de Renato Gaúcho no Grêmio, comandante do tricolor carioca há uma década. O eterno falastrão que no ano seguinte diria que “brincaria” no Brasileiro se vencesse a Libertadores e, com a derrota nos pênaltis para a LDU no Maracanã, terminou o ano sem conquistas. Como corre o risco agora depois de tantas bravatas e autoelogios ao longo da temporada – mas também bom futebol, que parece cada vez mais perdido em funções de tantas alterações na equipe base.

Naquele 2007, porém, Renato conseguiu manter o Flu alerta e, mesmo com vaga assegurada no torneio continental e vendo o São Paulo disparar para o então bicampeonato que viraria tri no ano seguinte, fez ótimo segundo turno. Vencendo, inclusive, o incrível Flamengo de Joel Santana que acabou uma posição acima, pelo número de vitórias. Com isso abriu uma vaga na Libertadores que acabou caindo no colo…do Cruzeiro, à época comandado por Dorival Júnior.

Há uma década, o Grêmio, então sob o comando de Mano Menezes, chegou à final da Libertadores contra o Boca Juniors de forma até surpreendente. Foi, porém, superado pela equipe de Juan Roman Riquelme e não pôde retornar no ano seguinte. Por pouco, já que terminou o Brasileiro em sexto lugar. Dois pontos atrás… do Cruzeiro.

Em dez anos o mundo da bola girou e agora encontra clubes, personagens e contextos parecidos. Como será o desfecho desta vez? O Cruzeiro de Mano Menezes está sereno, o Grêmio de Renato tem motivos para se preocupar. Mas ainda pode virar o jogo bonito em 2017, inclusive encarando o Real Madrid nos Emirados Árabes Unidos. Quem vai saber?


Cruzeiro, justo campeão! Mas fraca final é novo alerta para o nosso futebol
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André Rocha

Foto: Gilvan de Souza (Flamengo)

O Cruzeiro foi o time do melhor goleiro, nos 180 minutos e na disputa por pênaltis. O título da Copa do Brasil também premiou o trabalho mais longo e consolidado de Mano Menezes, mantido mesmo quando muito questionado no momento de baixa.

A campanha é inquestionável, por ter sido construída desde as fases iniciais e, principalmente, por ter eliminado na semifinal o Grêmio, único brasileiro sobrevivente na Libertadores e que (ainda) pratica o melhor futebol do país.

A disputa final, sim, é que deixou a desejar. Não só pela tensão característica das decisões e pelo muito que estava em jogo no confronto entre clubes que investiram tanto e não tinham uma conquista recente mais pesada para validar o esforço, na nossa mentalidade tão imediatista e que condiciona o trabalho correto ao resultado final.

Cruzeiro e Flamengo protagonizaram um típico jogo entre grandes no Brasil: práticas atualizadas no trabalho defensivo e ainda muito arcaicas e insipientes para justamente superar esse bloqueio com ocupação mais inteligente dos espaços.

Muita preocupação em compactar setores, estreitar o cerco na frente da área para evitar as infiltrações pelo centro ou nas diagonais, evitar superioridade numérica em todos os setores, especialmente pelos flancos. Muita pressão sobre o adversário que está com a bola no terço final do campo, onde nasce a jogada criativa para a finalização.

Por isso Reinaldo Rueda preferiu mandar Everton para o sacrifício, mesmo voltando de lesão. Ele e Berrío executaram a função de ida e volta nas pontas, apoiando os laterais Pará e Trauco. No meio, a proteção de Cuéllar e Willian Arão e Diego, mais uma vez, muito lento, prendendo demais a bola, atrasando as transições ofensivas e fazendo o time depender demais do trabalho de retenção de bola e pivô de Paolo Guerrero na frente.

Mano Menezes teve que conviver com lesões que o obrigaram a mexer na equipe. Primeiro Raniel, logo aos cinco minutos. O jovem atacante, escalado para atacar os espaços e acelerar para cima dos veteranos Rever e Juan, nitidamente somatizou tanta ansiedade e distendeu as duas coxas. Entrou De Arrascaeta, que mudou a dinâmica na frente sem a referência e o time ficou sem profundidade, especialmente à direita com Robinho, que é mais um ponta articulador e não tem o apoio de Ezequiel, que guarda mais o setor.

O meia saiu no intervalo, também por questões físicas, para a entrada de Rafinha, que foi ocupar o espaço à direita com mais intensidade e rapidez. Mas ainda sem aproveitar bem os contra-ataques. Seguiu assim pela esquerda quando Alisson sentiu e deu lugar a Elber.

No Mineirão, o time mandante não se preocupou em ter a posse e tomar a iniciativa. Controlava os espaços, negava brechas aos adversários, fechava o centro e induzia o oponente a abrir a jogada e forçar o cruzamento, mais simples de ser interceptado. Ainda mais contra um Flamengo novamente tendo a bola, mas sem saber bem o que fazer com ela.

No final, foram 53% de posse rubro-negra e 15 finalizações, quatro na direção da meta de Fabio. A mais difícil no final, em jogada pessoal de Guerrero, que cresceu quando Lucas Paquetá entrou na vaga de Everton. O jovem meia procurava o centro para articular com Diego e Arão e abria espaço para o peruano fazer sua jogada característica: receber na esquerda, cortar para dentro e bater para o gol. Sem o sacrifício pelo centro, sempre tendo que girar para servir ou tentar o chute.

O Cruzeiro viveu de uma ou outra incursão pela esquerda, com a movimentação de Arrascaeta indefinindo a marcação de Pará e a cobertura de Rever. Teve a grande chance na saída grotesca da meta de Alex Muralha que o camisa dez uruguaio não aproveitou na segunda etapa. Foram 13 conclusões, só uma no alvo.

Os números de jogadas finalizadas dão a impressão de um jogo bonito, até aberto, com ações bem elaboradas. Mas eis o ponto crucial no futebol jogado atualmente no Brasil: as finalizações acontecem, mas a marcação é tão próxima e intensa que as oportunidades cristalinas são raríssimas. Os chutes mascados, as cabeçadas em divididas. Poucas tabelas e triangulações com o passe diferente que surpreende. Ou a jogada combinada que começa de um lado e na inversão pega o rival em inferioridade numérica para buscar a linha de fundo e encontrar um companheiro livre.

Não acontece porque o futebol brasileiro, na sua pressão insana por resultados imediatos, obriga os treinadores a primeiro “arrumar a cozinha”. E os conceitos mais modernos são uma sofisticação do “fechar a casinha”. Na frente? Ou pressiona e tenta roubar a bola perto da meta adversária, ensaia a bola parada ou depende do lampejo dos mais talentosos. Se treina pouco o ataque. No máximo um campo reduzido, mas sem maiores orientações.

É pouco. Foi insuficiente em Belo Horizonte para definir o campeão nos 90 minutos. Na disputa por pênaltis, a Muralha, grande personagem da final por todo o contexto, foi no mínimo infeliz na “estratégia” de pular sempre no canto direito. Piorou com a enorme competência do time celeste nas cobranças.

O Flamengo tinha um elo fraco na meta e outro em Diego, coroado craque da competição, mas de atuações pífias na reta final. Sem confiança, cobrou mal e Fabio pegou. Quinto título cruzeirense, quarto vice do time carioca. Emoção e festa depois da cobrança de Thiago Neves que chegou a gerar uma pequena polêmica por um suposto segundo toque na bola no meia que escorregou. Nada ilegal.

Venceu o melhor, ou o mais bem sucedido em sua estratégia. A bola jogada, porém, não foi para se guardar na memória. Mais uma vez. A fraca final é outro grito de alerta para o nosso jogo, que precisa fechar o ciclo e se modernizar também quando estiver com a bola. Começa a ficar urgente.

(Estatísticas: Footstats)

 


Flamengo de Rueda repete velhos erros. Cruzeiro ganha gol e favoritismo
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André Rocha

Se as dúvidas ou mudanças não confirmadas por Reinaldo Rueda estavam na meta e no ataque – Thiago e Lucas Paquetá iniciaram o jogo – a maior surpresa na escalação do Flamengo foi a entrada de Márcio Araújo no lugar de Cuéllar, melhor nos 180 minutos da semifinal contra o Botafogo e em boas condições físicas. Opção.

O resultado foi uma equipe com mais dificuldade no início da construção das jogadas, com Arão e Diego recuando muito para ajudar. Melhorou quando Paquetá passou a recuar e abrir espaços para as infiltrações de Berrío e Willian Arão. Mas de novo a equipe se mostrou “arame liso”, sem contundência no ataque. Faltou a chance cristalina.

Já o Cruzeiro sofreu com Rafael Sóbis na frente, tirando velocidade dos contragolpes – a entrada de Raniel na segunda etapa criou mais problemas para a retaguarda do oponente. Os erros de Robinho saindo da direita não ajudavam Thiago Neves na articulação. Diogo Barbosa era o destaque, negando espaços a Berrío e centrando para Alisson, no início do segundo tempo, para a primeira oportunidade clara do jogo. Grande defesa de Thiago.

Personagem da partida pela falha ao dar rebote no chute de Hudson para De Arrascaeta, substituto de Thiago Neves, empatar. Muralha faria o mesmo? Nunca saberemos, assim como a ótima intervenção na primeira etapa. Fica a impressão de que Thiago podia ter atuado na partida contra o Paraná pela Primeira Liga para ganhar mais ritmo de competição. Virou vilão.

O jovem goleiro negou o protagonismo a Paquetá, meia que foi às redes num “abafa” como típico centroavante – e impedido pelo toque de Arão desviando o chute. Depois de muita pressão após a mudança de Rueda, trocando Rodinei por Vinicius Júnior, recuando Everton para a lateral e invertendo o lado de Pará no mesmo 4-2-3-1. Depois Cuéllar, enfim, entrando no meio-campo para aumentar o volume de jogo.

Tudo em vão. Porque mais um erro individual inviabiliza o triunfo rubro-negro em jogo decisivo. Que custa caro por não transformar 59% de posse e 14 finalizações, a metade no alvo, em mais gols. Velhos problemas que transferem moral e favoritismo ao Cruzeiro para a volta no Mineirão, no dia 27. Mas no futebol brasileiro em que visitantes, normalmente com menos posse, se impõem, as chances do Flamengo não podem ser descartadas.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Muralha e Sóbis: vale apostar na experiência numa final, mesmo em má fase?
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André Rocha

Alex Muralha tem 27 anos, títulos estaduais por Figueirense e Flamengo e passagem pela seleção brasileira no ano passado, mas sem atuar. Nenhuma decisão nacional na carreira. Thiago tem 21 anos, também é campeão carioca. Mas na reserva de Muralha. Foi campeão e melhor goleiro da Copa SP do ano passado. Serviu à seleção no Sub-15 e Sub-17, mas também sem jogar.

Rafael Sóbis tem 32 anos, duas Libertadores pelo Internacional e um Brasileiro pelo Fluminense no currículo, além de convocações e gols pela seleção, principal e olímpica. De Arrascaeta tem 23 anos, Raniel dois a menos.

Reinaldo Rueda e Mano Menezes carregam algumas dúvidas para a ida da final da Copa do Brasil no Maracanã. Ou ao menos não revelam as escalações de Flamengo e Cruzeiro. O treinador colombiano também não divulgou quem ocupa o comando de ataque – Lucas Paquetá ou Orlando Berrío, com Vinicius Junior entrando na ponta.

Mas na meta rubro-negra e no ataque celeste a indecisão foi motivada por um raciocínio muito comum no meio do futebol, em qualquer canto: a vivência e a bagagem de experiências de um atleta contam como fatores positivos para a disputa de uma grande final.

Algo que se confirmou tantas vezes, mas não todas, que vira uma “verdade”, um fato inquestionável na escolha de um jogador, pesando mais que a condição técnica ou as valências do atleta. Afinal, a decisão tem um componente emocional, no mínimo, diferente. A atmosfera pode fazer o jogador se agigantar ou intimidar. Mas será que precisa decidir assim sempre? Muralha foi afastado por deficiência técnica pelo treinador Zé Ricardo, o jovem Thiago assumiu a posição às pressas, tão rápida como a contratação de Diego Alves.

Exatamente pela constatação de que disputar no mais alto nível os principais títulos seria complicado sem um arqueiro confiável. Agora, por conta de uma provocação (infeliz) do jornal Extra, Muralha volta ao centro das atenções e passa a concorrer a uma vaga na meta. Mais pela visibilidade e uma fé de que ele será capaz de se superar para calar os críticos do que por uma evolução técnica – até porque na última partida falhou no gol do Paraná  nas quartas da Primeira Liga e mostrou a ineficiência costumeira na disputa por pênaltis.

Já Thiago errou bem menos quando exigido e não foi vazado no clássico contra o Botafogo na semifinal no Maracanã. Portanto, a dúvida só pode existir por conta da diferença de idade entre os goleiros. Bem questionável.

O mesmo vale para Rafael Sóbis na equipe mineira. Atuando como referência, se sacrifica pela equipe abrindo espaços. Mas vem devendo no desempenho, o que é mais grave que não ir às redes desde 25 de junho, embora seja um dos artilheiros da Copa do Brasil com cinco gols. Tem a confiança de Mano, mas não está confirmado entre os titulares.

Porque o jovem Raniel transferiu ao setor ofensivo maior presença física na área e mais profundidade, inclusive na vitória sobre o Grêmio no Mineirão pela semifinal. É jovem, porém. Um “obstáculo” neste momento. Assim como a incerteza da capacidade física de De Arrascaeta, além da dúvida de como será a presença do uruguaio como “falso nove” em um trabalho com maior mobilidade e rapidez nas transições ofensivas.

Incógnitas para a disputa num Maracanã lotado e elétrico. Decisão para escrever histórias de vilões e herois. Invertendo lógicas, surpreendendo. Muralha e Sóbis terão a chance de virar o jogo da vida e fazer valer a aposta? Ou Thiago e Raniel ou Arrascaeta vão escrever novas páginas no primeiro duelo de gigantes valendo o penta do Cruzeiro ou o tetra do Flamengo?

 


Grêmio perde leveza “praiana”, Cruzeiro de Mano Menezes vence duelo tático
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André Rocha

Foto: Washington Alves/Light Press

Você já leu neste blog algumas vezes nos últimos meses elogios à naturalidade com que o Real Madrid de Zinedine Zidane propõe e executa sua maneira de jogar. No Brasil, sem nenhum tipo de comparação, quem chega mais perto disto é o Grêmio. Muito por conta do modelo já bem trabalhado e assimilado.

Em casa ou fora, a equipe de Renato Gaúcho costuma trabalhar a bola ou acelerar os contragolpes conforme a necessidade com um estilo fluido, leve. Mesmo com a vantagem depois da vitória por 1 a 0 em sua arena, foi o que se viu no primeiro tempo do Mineirão.

Lembrava a espontaneidade do confronto do ano passado na mesma fase da Copa do Brasil. Nos 2 a 0 no mesmo Mineirão. Sem Douglas distribuindo as jogadas e indo às redes, mas com Luan circulando e achando Barrios livre no lance chave que podia ter mudado a história do duelo. O paraguaio desperdiçou.

Mano Menezes tentou conter o volume de jogo gremista preenchendo o meio-campo. Henrique, Hudson e Robinho. Elber e Alisson nas pontas. Thiago Neves como “falso nove”. Talvez para ficar mais próximo da meta adversária. Ou preocupar os volantes Michel e Arthur e indefinir as ações da zaga sem Geromel e com Bressan ao lado de Kannemann.

Funcionou pouco porque Neves, mesmo com a inegável qualidade nas finalizações e sua capacidade criativa, não é jogador com leitura de jogo e de espaços para executar a função. Em muitos lances se enfiava como centroavante e ficava de costas para a defesa. Ainda assim, incomodou Marcelo Grohe com um chute perigoso.

Como Elber e Alisson são condutores de bola e não se projetam à frente ou em diagonal chamando lançamentos como Pedro Rocha costuma fazer do lado gaúcho, o Cruzeiro não tinha profundidade nas ações ofensivas. Ainda assim, teve mais posse de bola (54%) e finalizou seis vezes contra quatro.

E aí Renato Gaúcho, contaminado pela praga do “jogo para ganhar (ou classificar) e não jogar” e talvez preocupado com a responsabilidade que assumiu junto com a direção do clube de apostar tudo no mata-mata – Copa do Brasil e Libertadores – deixando o Brasileiro de lado, fez seu time perder a naturalidade e priorizar o resultado na segunda etapa.

Pecado capital. Mano trocou Elber por Raniel e ganhou mais presença física na frente, liberando Thiago Neves para chegar de trás. Mas o camisa trinta foi decisivo mesmo na cobrança de escanteio pela direita que encontrou Hudson para marcar o gol único da partida.

Renato não fez substituições conservadoras. Trocou Bressan por Bruno Rodrigo no final, mas antes mandou a campo Fernandinho e Everton nas vagas de Ramiro e Barrios para acelerar as transições ofensivas. O Grêmio, porém, não finalizou na segunda etapa. Foi dominado. O time mineiro repetiu as seis conclusões do primeiro tempo, mas desta vez apenas duas no alvo.

Podia ter definido a vaga com Raniel e Arrascaeta, que entrou na vaga de Alisson. Sobis substituiu Hudson nos últimos minutos para buscar uma pressão final ou bater pênalti. Abriu a série acertando, assim como Fernandinho.

Edilson e Everton acertaram as traves, Grohe pegou as cobranças de Robinho e Murilo. Arthur e Raniel foram precisos. No duelo dos talentos, Luan novamente falhou em um pênalti decisivo e a defesa de Fabio foi a senha para a festa depois que Thiago Neves deslocou Grohe.

Cruzeiro na decisão do torneio nacional. A sua sétima. Vai tentar superar novamente o Flamengo, como em 2003. Desta vez sem o timaço da tríplice coroa, a única da história – campeão estadual, brasileiro e da Copa do Brasil. Mas com  recuperação na temporada, enfim mostrando mais consistência no desempenho.

Méritos de Mano Menezes, que venceu o duelo tático quando Renato resolveu duelar na estratégia, no jogo mais denso e fez seu Grêmio perder as maiores virtudes: leveza e naturalidade. Como uma tarde de verão na praia que o ídolo gremista tanto ama.

A noite terminou pesada. Resta a obrigação de ir bem na Libertadores, objetivo maior e agora único. A menos que o Brasileiro volte a ser importante. Ainda que pareça tarde demais.

(Estatísticas: Footstats)

 


Alguém vai chorar sangue no Mineirão
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André Rocha

É improvável que um time mandante tão poderoso, o atual campeão brasileiro, deixe tantos espaços para contragolpes, permita tantas lacunas em seu sistema de marcação e aceite que um elo fraco como Fabiano, totalmente perdido pela direita, fique tanto tempo em campo num jogo eliminatório como fez o Palmeiras no primeiro tempo do Allianz Parque.

Mesmo com a pressão inicial e a fantástica jogada individual de Guerra. Os dois gols em contragolpes no setor de Diogo Barbosa e Alisson, com este marcando o segundo e aquele servindo Thiago Neves no primeiro, são jogadas em velocidade construídas com muito espaço. O segundo, sim, tem méritos pela articulação pela direita que achou Robinho com liberdade na área. Mas novamente o encaixe com perseguições individuais de Cuca foi desmontado com facilidade.

Não existe um time tão forte sair com três a zero contra em casa num torneio eliminatório com gol “qualificado”. Mesmo que a Copa do Brasil não seja prioridade na temporada. Ainda que o adversário tenha obtido eficiência máxima ao colocar nas redes de Fernando Prass as únicas três finalizações em 45 minutos.

Assim como é inconcebível um visitante voltar do intervalo no Allianz Parque com tamanha vantagem e não esperar um time de Cuca partindo para o abafa no modo “Porco Doido” para buscar a reação. Intensidade máxima, preenchendo a área adversária com muita gente e partindo para o jogo aleatório – com fibra, entrega e 33 cruzamentos no total – para trazer a torcida junto.

Era o jogo para a equipe de Mano Menezes controlar os espaços, mesmo que permitisse os 61% de posse alviverde. Mas evitando os cruzamentos e se organizando para os contragolpes, ainda que Fabiano, o “mapa da mina” do rival, não estivesse mais em campo. Mas deixou tudo ruir em 20 minutos com dois gols de Dudu e um de Willian.

Impressionante não terminar em virada. Fez lembrar os 3 a 3 lendários entre Liverpool e Milan em Istambul na final da Liga dos Campeões 2004/2005. Reação imediata e tão contundente dos ingleses, em 14 minutos, que seria capaz de encher o time que a alcançou de forças para buscar a virada inacreditável e de abalar o que sofreu a ponto de desmanchar. Na prática, porém, não determina uma mudança no placar.

A decisão europeia foi para prorrogação e pênaltis. A disputa pelas quartas-de-final da Copa do Brasil vai para o Mineirão. O Palmeiras só pode pensar em vitória, já que um 4 a 4 é bem improvável. O time mineiro, junto da torcida, não tem como não vislumbrar um triunfo para compensar tamanho vacilo em 20 minutos de segundo tempo. Mesmo longe de Belo Horizonte e encarando um dos elencos mais fortes do país.

Em tese, os 3 a 3 seriam para comemorar pelos gols marcados fora. O Palmeiras celebrou a invencibilidade em casa na temporada. Mas os equívocos de ambos são inegáveis neste jogo mais maluco que de alto nível técnico e tático. Alguém vai chorar sangue na volta.

(Estatísticas: Footstats)


Cruzeiro tem treinador, elenco e lastro para ser forte nos pontos corridos
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André Rocha

Na Vila Belmiro, passe de Ramon Ábila para Thiago Neves dar a vitória sobre o Santos. Ambos saindo do banco de reservas. Vitória para deixar o Cruzeiro com sete pontos em três rodadas.

Amostragem pequena para 38 jogos. Incógnita ainda maior pelo revés no Mineiro para o rival Atlético e a decepção na Sul-Americana, eliminado nos pênaltis pelo Nacional do Paraguai. Confiança sempre conta. Ainda que o time só tenha sofrido três derrotas no ano.

Mas é inegável que o Cruzeiro tem um considerável lastro de evolução para ser forte nos pontos corridos. Mano Menezes pode armar uma equipe segura atrás e propondo o jogo, como foi em Santos no primeiro tempo. Com a variação do 4-3-1-2 para o 4-2-3-1 utilizada por Botafogo e Grêmio – resgate da seleção brasileira em 2010, com Dunga e Jorginho.

Hudson foi o volante executando a função de meia à direita. A solução é interessante para aproveitar o apoio do lateral – Lucas Romero, no caso. Também fechar o lado forte adversário, como Zeca e Bruno Henrique no Santos. A movimentação deixa um espaço para as infiltrações no setor do centroavante e do meia central ou até de um dos volantes, para mexer com a marcação adversária. Por ali caíram Arrascaeta, Rafael Marques e Henrique, eventualmente.

O time celeste teve volume de jogo, maior posse e acerto de passes. Atacou também pela esquerda com Alisson e Diogo Barbosa. Faltou precisão, porém. Dez finalizações, nenhuma no alvo. Na segunda etapa, Thiago Neves finalizou quatro, acertou duas. Uma decidiu a partida. Não pode ser reserva.

Considerando que time base é utopia no futebol brasileiro de campeonato rolando em datas FIFA, suspensões, lesões, desgaste e, no caso do Cruzeiro, ainda a Copa do Brasil a disputar, o importante é contar com opções em um elenco homogêneo. Mano Menezes tem. A lamentar, Dedé de novo convivendo com lesões. Ainda que Caicedo tenha entrado bem.

É óbvio que na competição por pontos corridos há jogos grandes, decisivos. Mas sem o matar ou morrer. Premiando a regularidade e a consistência, mesmo com algumas tardes e noites ruins. O São Paulo tenso da estreia, o Sport de Ney Franco focado na final da Copa do Nordeste e o Santos hesitante na temporada ainda não são parâmetros para avaliar a real capacidade de crescimento do Cruzeiro

Mas pontuar em dois jogos fora e um em casa, sem perder e sofrendo apenas um gol, é sempre relevante.

(Estatísticas: Footstats)

 


Cruzeiro de Thiago Neves não pode se escalar pelo nome
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André Rocha

O melhor momento do Cruzeiro de Mano Menezes em 2016 foi quando o técnico colocou De Arrascaeta no banco e mandou a campo Rafinha. Ganhou intensidade e rapidez pela esquerda até a lesão do ponteiro que voltou contra o Corinthians na última rodada. O meia uruguaio voltou ao time, melhorou a produção depois do “susto” e terminou como um dos destaques.

Com a contratação de Thiago Neves enfim confirmada, as projeções da montagem do time para 2017 quase invariavelmente colocam o meia com De Arrascaeta e Rafael Sobis ou Robinho em um trio atrás do centroavante que deve ser Marcelo Moreno, liberando Ábila para o futebol chinês.

Na prática, este quarteto ofensivo num hipotético 4-2-3-1 não teria a peça de velocidade para ser a referência dos contragolpes quando o time precisa recuar as linhas. Não por acaso, Sobis na reta final da temporada chegou a atuar como referência para que Alisson, outra opção de maior rapidez, entrasse pela esquerda.

Thiago Neves é uma incógnita. Faz 32 anos em fevereiro, vem de três temporadas no “mundo árabe”, com todas as suas particularidades. Em tese, pode ser o articulador canhoto partindo do lado direito que o Cruzeiro não tem desde Everton Ribeiro.

Potencialmente, Thiago sempre foi um meia completo: arma, tem visão de jogo e finaliza muito bem. O que faltou em sua carreira foi mais consistência para dar o salto que se imaginava. Mas pode ser útil.

O equatoriano Luis Caicedo é nome interessante para a zaga. Ezequiel terminou o ano como titular na lateral direita, mas se a ideia é usar Thiago Neves no setor, a melhor opção, ao menos na teoria, é Mayke, que sabe usar bem o corredor deixado pelo movimento do ponta articulador.

Fundamental é que Mano, com a pré-temporada que abriu mão ano passado para se aventurar na China, siga fiel aos seus conceitos e princípios e faça o básico que se espera de qualquer treinador: não escalar pelo currículo e sim por desempenho, tentando combinar as características dos jogadores.

Quando perguntado sobre escalação ideal, Tite costuma dizer que “o campo fala e o jogador se escala”. Este precisa ser o norte do Cruzeiro para voltar a ser forte.