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Nova Argentina de Sampaoli, um ótimo teste. Resultado é o que menos importa
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André Rocha

Tite tinha dois problemas para o clássico sul-americano em Melbourne: a formação sem muito entrosamento em função da busca por novos testes e observações. Principalmente, a falta de parâmetros consistentes de observação para imaginar como viria a Argentina, agora comandada por Jorge Sampaoli.

E a albiceleste chegou bem diferente. Não só no sistema tático – um 3-4-3 com Di María bem espetado à esquerda e Messi e Dybala mais próximos de Higuaín – mas também na dinâmica, nos comportamentos, nas ideias de jogo.

O resultado foi uma disputa com altíssima intensidade: pressão sobre quem estava com a bola e muitos deslocamentos. Menos Messi, mantendo seu estilo de trotar em campo e só acelerar com a bola ou na possibilidade de recebê-la. Prejudica coletivamente, mas tem a peça capaz de desequilibrar.

O 3-4-3 de Sampaoli com intensidade e velocidade pela esquerda com Di María, mas ainda precisando aproveitar o melhor de Messi e Dybala e ajustar o posicionamento defensivo. Brasil com muitas mudanças, mas mantendo o 4-1-4-1 que se manteve competitivo, apesar do desempenho abaixo da média de Philippe Coutinho no primeiro tempo aberto à direita (Tactical Pad).

Até as muitas substituições – necessárias para fazer experiências, mas que descaracterizam o jogo em si – a partida foi equilibrada. A Argentina tinha Di María levando vantagem seguidamente sobre Fagner, que destoou e ainda tentou cavar pênalti de forma grotesca. O Brasil sempre rendia mais ofensivamente quando acelerava o passe e aproveitava um “ponto cego” das equipes de Sampaoli: os espaços entre os zagueiros abertos e os alas.

Philippe Coutinho teve duas boas oportunidades, mas novamente não se sentiu confortável pelo lado direito na execução do 4-1-4-1. Por isso a inversão com Willian na segunda etapa. Tite manteve a ideia de manter Renato Augusto mais recuado, defendendo e organizando, e Paulinho chegando mais à frente. A melhor chance, porém, foi no passe longo de Fernandinho e os chutes nas traves de Gabriel Jesus e Willian.

O amistoso foi decidido na bola parada, com Mercado. Mais uma arma dessa Argentina de Sampaoli que tende a crescer. Basta encaixar melhor Messi e Dybala na proposta de jogo. Questão de tempo.

Tempo também ótimo para Tite. Sem foco em resultados, até porque em um passado recente alimentou-se uma ilusão pelas vitórias em partidas sem valer três pontos. Importante foi observar a seleção se mantendo competitiva em alto nível, mesmo sem toda a defesa titular, Casemiro e Neymar. Thiago Silva teve boa atuação e Gabriel Jesus, mesmo apanhando bastante, retornou mantendo o nível de desempenho.

A perda da invencibilidade e dos 100% de aproveitamento é uma questão menor. O teste foi ótimo! Que contra a Austrália o treinador fique mais à vontade, sem a rivalidade continental para exigir um cuidado mínimo. Se a Argentina não tem margem de erro, o Brasil construiu um cenário para já pensar na Rússia.


Desafio do Barcelona é voltar a ser competitivo sem abrir mão da fantasia
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André Rocha

A tônica do Barcelona na temporada 2016/17 foi a dependência do trio MSN, especialmente de Messi. Quando o talento desequilibrava e o adversário murchava, começava o show, com jogadas plásticas e gols em profusão – 171,  111 dos atacantes sul-americanos (65%).

Faltou o trabalho coletivo. Fiel à filosofia do clube, que preza a posse de bola e o protagonismo nas partidas, mas com intensidade e consistência. Também alternativas, já que todas as ações estão mapeadas há algum tempo. Desde a saída de bola, dificultada pela marcação avançada, até o ataque posicional, bloqueado por linhas compactas à frente da própria área. Inversões, diagonais, zonas de maior circulação da bola…Tudo estudado, previsível.

Restava o improviso, o jogo um tanto aleatório. Como nos insanos 6 a 1 sobre o PSG, com ajuda da arbitragem, e os 3 a 2 sobre o Real Madrid, as grandes vitórias na temporada. Sem controle do jogo ficando com a bola. Perdeu igualmente a força na pressão para desarmar no campo de ataque.

Porque o time envelheceu e não investiu certo nas reposições. Busquets e Iniesta estão na história do clube, mas fragilizaram o meio-campo. Ficou claro contra a Juventus na Liga dos Campeões. Com a oscilação de Rakitic e André Gomes não mantendo a excelência no setor ficou bem mais difícil.

Para complicar tudo, a saída de Daniel Alves deixou um buraco na lateral direita que ninguém conseguiu compensar. Atacando e mesmo defendendo. Perdeu o elemento surpresa. Com a queda de rendimento de Jordi Alba, o lado esquerdo dependeu ainda mais de Neymar.

Ponteiro sacrificado para liberar um Messi que precisa ficar solto para fazer a diferença jogando mais próximo de Suárez. Mas quando os rivais negam espaços e exploram os espaços às costas da retaguarda, o Barça sofre.

A missão do sucessor de Luis Enrique, que se despediu na conquista do tricampeonato da Copa do Rei, 29ª conquista do clube, com os 3 a 1 sobre o Alavés na última partida no Vicente Calderón, é devolver a competitividade sem perder a capacidade de promover o espetáculo que virou a marca dessa equipe global e midiática. Símbolo de futebol arte.

Ernesto Valverde deixou o Athletic Bilbao deve ser anunciado em breve como o novo treinador. A ida ao mercado precisa ser inteligente e cuidadosa, formar um elenco homogêneo. O Real Madrid de Zidane, com os reservas garantindo pontos fundamentais e descansando os titulares em momentos importantes, pode ser boa referência.

Para que a Chuteira de Ouro de Messi, com 37 gols no Espanhol e 54 na temporada, não seja um prêmio de consolação, enquanto Cristiano Ronaldo praticamente garante a quinta Bola de Ouro pela conquista do Espanhol e por disputar mais uma final de Liga dos Campeões. Contra a Juventus, que mandou o Barça para casa sem grandes dificuldades. Sem sofrer gols do ataque arrasador.

Porque o Barça não competiu. Em 2012, o título solitário da Copa do Rei marcou o fim da Era Guardiola. Agora é o momento de se reinventar mais uma vez para voltar a fazer história, na Espanha e na Europa. Sem abrir mão da magia.


E Lionel Messi, enfim, foi Maradona. Tinha que ser no Bernabéu!
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André Rocha

Foto: Juan Carlos Hidalgo (EPA)

A imagem de Messi comemorando o gol da vitória por 3 a 2 sobre o Real Madrid rodou o mundo. No lance final, dentro do Santiago Bernabéu. Mostrando para a gente que reverencia Cristiano Ronaldo que ele estava ali. O camisa dez eterno do Barcelona. O maior de todos. Lionel.

Um gesto que vindo de Neymar, por exemplo, seria interpretado como arrogância. E foi mesmo. Mas desta vez como um desabafo de quem precisava, enfim, se manifestar como o melhor de uma era. E nos noventa minutos o que se viu em Messi foi um total e inédito inconformismo com a derrota.

Revés que viria até com o empate. Com todo o seu simbolismo: praticamente um adeus à disputa do título espanhol e, consequentemente, mais uma Bola de Ouro indo para Cristiano Ronaldo. A quinta. Empatando a disputa, algo que nunca aconteceu desde a afirmação do argentino como um gênio do esporte.

Por isso o que se viu em campo não foi apenas um Messi desequilibrante. Isso ele é desde o primeiro “triplete” da carreira, nos 3 a 3 contra o próprio time merengue em 2007. Passando pelos 6 a 2 em 2009 que foi a “gênese” do Messi “falso nove” que mudaria de patamar o promissor ponteiro canhoto formado nas canteras do clube.

Desta vez era um homem que não admitia sair de Madri derrotado. Ou sem provar que continua sendo o melhor. A entrega foi total, inclusive voltando para ajudar na defesa uma equipe desorganizada, sem Neymar e com Luis Suárez vivendo o momento menos produtivo no clube – já são cinco partidas sem ir às redes. Que precisava dele como nunca.

Casemiro abriu o placar na sempre mortífera jogada aérea do time de Zidane. A resposta veio em um golaço enfileirando dentro da área antes de tirar de Navas. A jogada que termina no petardo no ângulo de Rakitic inicia com Messi tentando de novo romper a defesa e o desarme parando nos pés do croata. O triunfo de virada parecia encaminhado com a expulsão de Sergio Ramos após entrada criminosa. Em Messi, que também levou cotovelada de Marcelo. Sangrou e seguiu correndo, tentando.

Tudo pareceu ruir em nova falha defensiva e o gol de James Rodríguez. Um protagonista improvável para o gol que praticamente garantiria a conquista da liga nacional depois de cinco anos. Não podia ser o colombiano.

O Real se empolgou com as chances seguidas, lembrando o jogo de ida contra o Bayern em Munique, e seguiu no ataque. Só que daquela vez era o time alemão que estava com um homem a menos. E Carlo Ancelotti não tinha Messi.

Contragolpe letal, com vantagem numérica. Iniciado com uma arrancada de Sergi Roberto, que podia ter sido contida com falta por Marcelo. Parou nas redes em um chute típico de Messi.

Inusitada e inesperada foi a comemoração. O gênio argentino, enfim, lembrou Diego Maradona. Na arrogância de quem sempre se achou o melhor. O primeiro a desafiar publicamente o reinado antes inquestionável de Pelé, defendido pelos que jogaram antes e depois do brasileiro.

Astro que disputou quatro Copas do Mundo. Na que venceu saiu do Estádio Azteca acariciando a taça. Mas em 1982 perdeu a cabeça e a esportiva no Estádio Sarriá dando um coice em Batista nos 3 a 1 do time de Telê Santana que mandou para casa a albiceleste campeã quatro anos antes em casa.

Em 1990, chorou com o vice-campeonato reclamando da arbitragem que, de fato, inventou o pênalti cobrado por Brehme que deu o tricampeonato mundial aos alemães. Quatro anos depois, botou a culpa de seu doping em João Havelange por um suposto favorecimento ao Brasil tirando do caminho o craque que eliminara a seleção de Lazaroni na Itália com uma arrancada genial e assistência para Caniggia.

No Argentinos Juniors, Boca, na seleção, no Napoli e até no próprio Barcelona, uma insana sensação de onipotência. A certeza de ser a estrela mais brilhante e a vontade de mostrar isso para o universo. Bem diferente da postura blasé de Messi em tantas ocasiões. Até quando chora ao perder a Copa para a Alemanha no Maracanã ou as duas Copas América para o Chile. Mesmo lutando em campo e às vezes até tentando definir sozinho, como fazia Diego.

Mas sem o brilho no olhar que fez luz no Bernabéu. Pela 14ª vez no estádio, dentre os 23 gols em 34 partidas que faz dele o maior goleador do clássico que atrai os olhos do mundo desde que Cristiano Ronaldo desembarcou na Espanha para desafiar mais de perto e em mais jogos quem o planeta sabe que é o melhor desta era.

Lionel Messi. Aquele que sem fazer muito esforço, às vezes parecendo indiferente, jogando a toalha antes de Neymar nos 6 a 1 sobre o PSG e falhando no duelo com Buffon e a defesa da Juventus, tem 47 gols em 46 jogos na temporada pelo Barça. 31 no Espanhol, abrindo vantagem na disputa da Chuteira de Ouro que pode ser a quarta da carreira. Agora 500 pelo clube. Se Cristiano Ronaldo falhar nas conquistas coletivas com o Real, a chance da sexta Bola de Ouro.

Era isso que estava em jogo no Bernabéu. Por isso Messi saiu de seu universo particularíssimo, foi humano como nunca e mostrou para o estádio do rival e para o mundo as cores do seu clube, o número de sua camisa e o nome ali escrito. Que já é uma lenda, como Maradona. Por caminhos diferentes que se cruzaram em Madri para ficar na eternidade de um gesto. Simbólico e emblemático.

 


A vitória da filosofia que se adapta e reinventa sobre o time previsível
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André Rocha

A Juventus começou sua trajetória vencedora com a nova arena, o Juventus Stadium. Em 2011, uma casa para chamar de sua, faturar e se impor no futebol italiano. Pentacampeã com o hexa encaminhado.

Passaram por lá Antonio Conte, Andrea Pirlo, Arturo Vidal, Carlos Tevez, Paul Pogba…Filosofia fora e dentro do campo, apostando na excelência. Antenada com o melhor do futebol mundial, sabendo jogar com ou sem a posse de bola de acordo com o contexto.

Capacidade de adaptação, aprendendo a se reinventar sob o comando de Massimiliano Allegri. Aos poucos aprendendo a ser forte também no cenário europeu, como um contraponto à decadência do futebol italiano, a ponto de perder uma vaga na Liga dos Campeões.

Final em 2015, eliminação sofrida e precoce para o Bayern de Guardiola na temporada passada. Mas o trabalho seguiu, sem sobressaltos. Aprimorando conceitos e processos. Mantendo o ideal de protagonismo, especialmente atuando em seu estádio.

Agora volta à semifinal da Champions. Com Buffon, Bonucci e Chiellini da base vencedora lá atrás. Mas agora a gestão permite ir ao mercado com força. E inteligência para montar um grupo forte, mesmo com perdas importantes.

Equipe que varia o sistema com três ou quatro atrás. Em Turim, postura ofensiva que sufocou o Barcelona. No Camp Nou, chegou a se fechar com sete na última linha. Empate sem gols, mas com a vaga.

Para o Barcelona, a decepção de sequer ter vazado Buffon em 180 minutos. Mas nenhuma surpresa, mesmo depois dos 6 a 1 sobre o PSG. Por tudo que representa, o time catalão era o favorito no confronto. Mas desde o início da temporada era nítido que a proposta de jogo ficou previsível.

Na despedida do torneio continental, nove campeões de 2015. Apenas Sergi Roberto no lugar de Daniel Alves, que estava do outro lado. Mais Umtiti na zaga, com Mascherano no banco. Só que nesta caso, a manutenção da equipe e também do técnico desgastaram a fórmula outrora vencedora.

A Juventus tinha todas as ações ofensivas do Barça mapeadas. No primeiro tempo, bloqueava a entrada da área e induzia o adversário a terminar a jogada com seus laterais: o improvisado Sergi Roberto e o decadente Jordi Alba.

Restava o improviso do trio MSN. Mas com Suárez irreconhecível, Neymar nervoso e Messi com uma imprecisão anormal. Talvez pela preocupação exagerada de tirar a bola do alcance do melhor goleiro do mundo. Muito provavelmente pela pressão de resolver apenas no talento. Sem um plano.

O resultado prático do desespero do time da casa e da marcação bem pensada e executada pelos visitantes foram 17 finalizações do Barça, mas apenas uma no alvo. Precisando de três bolas na rede, no minimo. Com 61% de posse de bola. Inócua.

O Barcelona é previsível até no desespero. Desde os tempos de Pep Guardiola, a única saída no sufoco é mandar Piqué para o centro do ataque e levantar bolas a esmo. Pobreza de ideias e também consequência de elencos mal formados, nada homogêneos. Por isso a dependência dos titulares. Ou melhor, do seu trio de ataque.

Não podia dar certo. E com uma derrota no Bernabéu para o rival e líder do Espanhol no domingo só restará a Copa do Rei na temporada. Um duro fim de festa para Luis Enrique. O novo técnico terá trabalho para reconstruir o time.

Especialidade da Juventus de Allegri. Que já foi de Conte. Que será forte contra qualquer um na semifinal. E seguirá vencedora. Porque vale mais a manutenção da filosofia do clube que valorizar apenas nomes. Ou velhas ideias que não entregam mais o jogo que encantou o mundo.

(Estatísticas: UEFA)

 


Juventus soberana! Porque não há trio MSN que salve o Barça dos elos fracos
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André Rocha

O Barcelona jogou mais em Turim do que em Paris. Messi procurou a bola, criou espaços, não se entregou ao forte bloqueio do adversário. Desta vez foi que mais tentou, já que Neymar ficou encaixotado entre Daniel Alves e Cuadrado, sem um apoio qualificado pela esquerda com a ausência de Jordi Alba.

Já Suárez na maior parte do tempo teve que encarar simplesmente Bonucci, Chiellini e Buffon. Goleiro que salvou o gol de empate na primeira etapa no lampejo de Messi que achou Iniesta completamente livre na área. Com 3 a 0 na segunda etapa, negou o gol a Suárez.

Raros lampejos de um time que ao longo da temporada, em jogos duros fora de casa, sempre pareceu mais próximo de sofrer gols do que ir às redes. Simplesmente porque o time catalão, trio MSN à parte, é hoje uma equipe de “elos fracos”.

A ideia é do livro “Os Números do Jogo”, de Chris Anderson e David Sally. Ou seja, a disputa normalmente é definida mais pelas limitações do que pelas virtudes.E como este Barça é frágil…

Ainda mais sem Busquets, suspenso, e com Mascherano perdido à frente da defesa, como se ainda não atuasse como volante na seleção argentina. Pensando como zagueiro e deixando espaços generosos para Dybala fazer os dois primeiros gols em belas finalizações do primeiro tempo.

Depois, já como zagueiro com a saida de Mathieu para a entrada de André Gomes depois do intervalo, hesitou no bloqueio a Chiellini no terceiro gol.

Mas não só ele. Sergi Roberto improvisado, Mathieu, um Rakitic longe do melhor momento, André Gomes…Mesmo Iniesta, com a categoria intacta, mas com um notável decréscimo de intensidade. Sem contar os problemas coletivos de um time que se habituou a entregar a bola para seus três talentos.

O resultado prático é um Barcelona com 65% de posse de bola, 88% de efetividade nos passes e 13 finalizações, uma a menos que a “Vecchia Signora”. Só que oito no alvo dos italianos e apenas duas dos visitantes. Só um par de oportunidades cristalinas.

Porque a Juve errou pouco e deu uma aula de leitura de jogo e inteligência tática. No 4-4-2 montado por Massimiliano Allegri que defendia com todos no próprio campo, havia dois laterais brasileiros formados como alas que aprenderam na Europa a jogar como defensores (Daniel Alves e Alex Sandro), um centroavante aberto à esquerda muitas vezes formando com a defesa uma linha de cinco (Mandzukic). Nenhum “volantão” à frente da defesa, os dois centralizados marcando e jogando (Pjanic e Khedira).

Muita concentração defensiva e qualidade e rapidez nas transições ofensivas. A Juventus jogou a vida em sua arena e foi soberana. O Barcelona precisa de muita inspiração do seu tridente sul-americano. Mais complicado diante de rivais tão atentos na retaguarda.

Pior ainda quando um clube milionário é tão infeliz nas contratações e enche o elenco de “elos fracos”. Alguns circunstanciais, por mau momento, mas outros que eram tragédias anunciadas. Quase sempre Luis Enrique precisa de dois ou três deles.

Em um confronto de quartas-de-final de Liga dos Campeões, com tanto em jogo, costuma ser fatal. O talento, o acaso e a arbitragem compensaram no Camp Nou contra o PSG. A Juventus fez um gol a menos, mas tem camisa, cultura defensiva de sua escola e, em especial, o exemplo das oitavas para impedir uma nova remontada.

 

 


Messi suspenso pode ser inferno para Argentina em 2017. Ou o céu em 2018
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André Rocha

A Argentina de Edgardo Bauza lembra o Santos de Neymar sob o comando de Muricy Ramalho em 2011/12: a dependência de seu craque maior se reflete nos números. Aproveitamento de campeão (ou líder) com ele e de rebaixado na sua ausência.

Nas Eliminatórias, a albiceleste ganhou 15 dos 18 pontos com Messi. Derrota apenas contra o Brasil no Mineirão. 83% de aproveitamento. Sem ele, porém, foram sete pontos em 21. 33% dos pontos.

Sintomático. E preocupante com a suspensão de quatro jogos do camisa dez por ofender o assistente brasileiro Emerson Augusto de Carvalho na vitória sobre o Chile por 1 a 0 em Buenos Aires.

Se a AFA não conseguir diminuir a pena, Messi ficará de fora contra Bolívia e Uruguai fora e definindo a vida em casa diante de Venezuela e Peru. Voltaria na última rodada diante do Equador, em Quito. Está em terceiro com 22 pontos. O cálculo é de 28 pontos para alcançar ao menos a zona da repescagem. Ou seja, se não pontuar fora terá que vencer as duas na Argentina.

O desempenho e os resultados mostram que a equipe de Bauza viverá um inferno para conseguir a classificação em uma disputa parelha, fora o Brasil de Tite.

Bauza terá que montar uma equipe mais competitiva. Talvez até apelar para retrancas longe de Buenos Aires e uma estratégia pragmática, abusando de jogadas aéreas e ligações diretas para o ataque que segue com bom nomes – Higuaín, Di María, Aguero…

Mas caso consiga a pontuação para a disputa do Mundial da Rússia, o descanso forçado de Messi em 2017 pode refletir numa vantagem física na Copa. Repousando em datas FIFA, o gênio argentino chegaria menos desgastado.

Como, por exemplo, Ronaldo Fenômeno e Rivaldo na Copa de 2002. Voltaram na reta final da temporada europeia e chegaram voando na Ásia. Mesmo Zidane em 2006, na reta final da carreira, jogou menos pelo Real Madrid e também disputou a Copa na Alemanha mais inteiro.

Na Copa do Brasil em 2014, Messi conseguiu desequilibrar nas primeiras partidas, mas na reta final ficou claro que a parte física pesou, além dos adversários mais complicados, e o rendimento caiu bastante. A ponto de mudar dieta e preparação física para arrebentar na temporada seguinte e faturar a tríplice coroa e a Bola de Ouro pelo Barcelona.

Ano que vem pode ser diferente. Para isso, porém, A Argentina terá que jogar por sua estrela mais brilhante. Os números mostram que não será nada fácil.


Quartas da Champions: duelos de gigantes e entre semelhantes
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André Rocha

ATLÉTICO DE MADRID x LEICESTER CITY – Dureza para os dois times. Para o Atlético porque entra como favorito absoluto, obrigado a propor jogo e dar o contragolpe. Para o Leicester também, já que será azarão, mas não tanto como se encarasse um gigante como Bayern, Barcelona e Real Madrid.

Interessante para ver essa versão do time de Simeone, que ocupa o campo de ataque e valoriza mais a posse de bola no ritmo de Saúl Ñíguez, mas sem deixar de ser compacto e concentrado, diante do campeão inglês que só joga em velocidade, vai entregar tudo no trabalho defensivo para definir em casa com o melhor de Vardy e Mahrez.

FAVORITO – Atlético de Madrid

BORUSSIA DORTMUND x MONACO – Duelo de intensidade máxima e vocação ofensiva, com times se arriscando dentro e fora de casa. Porém sem tanto controle de jogo. Ou seja, quem abrir vantagem na ida sofrerá se quiser administrá-la na volta.

Dembelé e Aubameyang contra Bernardo Silva e Mbappé. Thomas Tuchel versus Leonardo Jardim. Confronto sem a pompa dos duelos de gigantes, mas que promete demais. Muitos gols. Time alemão leva pequena vantagem pela cancha maior na competição.

FAVORITO – Borussia Dortmund

BAYERN DE MUNIQUE X REAL MADRID – Simplesmente 16 títulos em campo. Carlo Ancelotti, o mentor e campeão de “la decima”, contra Zidane, o aprendiz e atual vencedor. Dois times com camisa e experiência. Mas é difícil imaginar alguma novidade tática, já que são treinadores mais administradores que construtores.

Mesmo que a marcação individual tenha ficado para trás, é impossível não imaginar duelos como Bale x Alaba e a luta no meio-campo com Casemiro, Modric, Kroos de um lado; Xabi Alonso, Vidal e Thiago Alcântara do outro. Mais Robben contra Marcelo. Quem controlar a posse não leva vantagem necessariamente. Aposta na “sede” dos bávaros de recuperar o domínio europeu e no retrospecto positivo no confronto.

FAVORITO – Bayern de Munique

BARCELONA X JUVENTUS – A reedição da final da temporada 2014/15. Mas desta vez com o time catalão sem a consistência da última conquista e a equipe que domina a Itália há tempos mais cascuda e querendo revanche da decisão no Estádio Olímpico de Berlim.

A Juve parece ter uma formação mais equilibrada, com Mandzukic sendo o centroavante que infiltra pela esquerda para se juntar a Higuaín e Dybala no centro e receber as bolas de Cuadrado e Daniel Alves, que conhece muito bem o adversário. Mas o Barça, apesar das oscilações e dos problemas defensivos, tem o tridente genial e a sensação de que pode tudo depois dos 6 a 1 sobre o PSG.

FAVORITO – Barcelona

 

 


Um chocolate em Paris. Jogo coletivo do PSG engole os talentos do Barça
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André Rocha

O desenho do passeio do PSG: intensidade e mobilidade da equipe francesa, com destaque para os ponteiros Di María e Draxler e a inércia de um Barcelona fragilizado coletivamente e que só teve Neymar mais ativo (Tactical Pad).

Você leu antes AQUI que o Barcelona estava previsível, com as ações ofensivas e os mecanismos de saída de bola mapeados pelos adversários e muito dependente dos lampejos do fantástico trio MSN.

Sem Daniel Alves, negociado, e agora Mascherano, além da fase inconstante de Rakitic, o cenário ficou ainda mais complicado. Messi, Suárez e Neymar foram resolvendo ou descomplicando. Os dois primeiros com gols, o brasileiro com assistências e sacrifício tático pela esquerda.

Funcionou até encontrar no Parc des Princes um time também com qualidade individual, mesmo sem Thiago Silva, mas com organização, intensidade, alma e coragem para se impor. O Paris Saint-Germain de Unai Emery não sobra na liga francesa como nos últimos anos. Nem é o líder, está atrás do Monaco.

Mas diante de um oponente fragilizado simplesmente atropelou, com Verratti como “regista” distribuindo o jogo e Rabiot se juntando a Di María, Matuidi, Draxler e Cavani. Movimentação, jogo entre linhas e inteligência para explorar os muitos espaços cedidos por um rival zonzo. Sem a bola, pressão e posicionamento perfeito, impedindo que a bola chegasse aos três desequilibrantes. Só Neymar tentou algo pela esquerda.

Di María sobrou com dois golaços – cobrança de falta precisa no primeiro tempo. O segundo num gol à la Barcelona. Mesmo pressionado, trocou passes desde a própria área até encontrar o argentino entrando da direita para dentro e terminar com outra bela finalização.

Também pela direita, Draxler apareceu para receber de Verratti e fazer o segundo. Faltava o de Cavani e saiu depois de uma sequência de erros do Barça na saída para o ataque e contragolpes perigosos até o uruguaio colocar nas redes e, com 4 a 0, igualar o placar do passeio do Bayern de Munique comandado por Jupp Heynckes na Allianz Arena em 2013.

A diferença em relação aos outros duelos recentes entre as equipes? O jogo coletivo que engoliu os talentos. O PSG antes jogva mais em função da estrela Ibrahimovic, o time catalão trabalhava para fazer a bola chegar aos talentos para resolver no último terço. O que não se viu na França e foi minando a confiança e a força da equipe dominante nesta década.

Gigante que terá que se superar como nunca para reverter uma desvantagem que parece definitiva e historicamente nunca foi revertida em mata-mata. Muito pelo demérito do Barcelona e mais ainda pela atuação irretocável da equipe de Unai Emery.

Foram 16 finalizações contra apenas seis, dez a um no alvo. Mesmo com apenas 43% de posse. Eficiência com beleza. Um chocolate em Paris.

(Estatísticas: UEFA)


Neymar não vive má fase, só mudou de função no Barcelona
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André Rocha

Neymar marcou 41 gols em 52 partidas pelo Barcelona na temporada 2014/15. Talvez a melhor da carreira, com tríplice coroa e artilharia da Liga dos Campeões. Apenas oito assistências.

Na última o número de gols caiu para 31 em 50 jogos, mas o de assistências quase triplicou: 21 passes para gols. Agora são apenas nove bolas nas redes adversárias, cinco na liga espanhola, porém o número de assistências já chegou a 15, sete no campeonato nacional.

Queda de rendimento? Se compararmos com o de dois anos atrás, sem dúvida. Com Luis Enrique no comando técnico, encontrou o melhor posicionamento em campo, o trio MSN era uma novidade que assombrou o mundo empilhando gols e os sul-americanos se entendendo rapidamente com incrível sintonia.

O cenário atual é bem mais complexo. O Barça, com a base mantida, tem praticamente todas as ações ofensivas mapeadas pelos rivais. Rareou a jogada característica que proporcionava as finalizações de Neymar: arrancada em diagonal de Messi da direita para o centro, inversão para Neymar. Jordi Alba passava voando atraindo a marcação, Iniesta se aproximava como opção e o brasileiro cortava para dentro e concluía.

O lateral espanhol vem de lesão e agora disputa posição com o francês Lucas Digne, que não tem a mesma qualidade no apoio. Iniesta, que lhe servia tantos passes, é outro que não consegue ter sequência. Além disso, Messi agora joga centralizado em praticamente todos os jogos, formando uma dupla à frente com Suárez. Não por acaso os dois dispararam na artilharia do time catalão – 31 de Messi e 22 de Suárez, ambos empatados na artilharia do Espanhol com 16.

A força pela direita, com Daniel Alves e Rakitic se juntando ao gênio argentino para criar e Neymar tantas vezes completar do lado oposto, se perdeu também com a saída do lateral ainda sem reposição à altura e a queda de produção do meia croata.

Com tudo isso, Neymar se viu obrigado a se transformar num ponteiro típico. Quase um “winger” britânico, voltando com muito mais frequência para formar uma segunda linha de quatro com os três meio-campistas. Colaborando na organização de um sistema defensivo que vai mostrando mais solidez.

Na transição ofensiva, com os oponentes mais atentos à marcação, o craque brasileiro instintivamente se posiciona mais aberto para tentar alargar e depois desmontar o sistema defensivo na base da vitória pessoal em busca da linha de fundo. Não por acaso é o líder em dribles e o que mais sofre faltas na competição.

Ou seja, as circunstâncias obrigam Neymar a jogar mais para o time e menos para si. Prova de evolução tática e amadurecimento. Não vive má fase, só mudou de função. De atacante finalizador a ponteiro assistente. Ainda criativo, fundamental. Mas sem artilharia. O protagonismo fica para a seleção brasileira.

Aniversariante de ontem, talvez tenha pedido mais gols na celebração dos 25 anos. Para calar os críticos, continuar midiático em tempos de Gabriel Jesus na crista da onda e ter mais chances de brigar ao menos no top 3 dos melhores do mundo.

Mas certamente deve ter agradecido pela capacidade de adaptação em campo a um momento complicado do Barcelona que se recupera no Espanhol com os tropeços de Real Madrid e Sevilla, está com classificação encaminhada para mais uma final da Copa do Rei e se prepara para o mata-mata da Liga dos Campeões. Com um novo Neymar, decisivo nos dribles e passes.

(Estatísticas: Whoscored.com)


Cristiano Ronaldo é o craque do presente e referência para o futuro
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André Rocha

cristiano-ronaldo

Lionel Messi é um gênio atemporal e o grande jogador desta era, na visão deste que escreve. Um dos melhores da história. Como Maradona será sempre lembrado como o maior dos anos 1980 e 1990, ainda que Platini, Zico, Van Basten, Matthaus e outros tenham conquistado premiações individuais e títulos com seus times e seleções no período.

O maior mérito de Cristiano Ronaldo, consagrado o melhor de 2016 pela “France Football” e agora pela FIFA, é ter a exata noção de como rivalizar com o argentino: nos números e nos títulos de equipes. E na seleção, com a Eurocopa do ano passado agora separando os dois. Conquistando como zebra o que o outro não conseguiu na condição de favorito.

“Não foi justo, Messi marcou mais gols e deu mais assistências no ano”. Cristiano Ronaldo foi artilheiro da Liga dos Campeões, o torneio mais importante entre os clubes, com 16 gols. Só não foi o recorde por um gol para igualar…Cristiano Ronaldo, que marcou 17 em 2013/14.

“Só marca de pênalti e gol fácil”. Quanto o argentino daria de sua fortuna por uma conclusão na pequena área sem goleiro ou pela penalidade não desperdiçada na final da Copa América Centenário contra o Chile?

“Não foi decisivo nas finais de Champions e Eurocopa”. Sem os três contra o Wolfsburg pelos merengues e os dois, um de letra, mais uma assistência na primeira fase da Euro diante da Hungria no empate em 3 a 3 e nem haveria decisões para disputar.

O português é craque com estatísticas e momentos geniais a menos de um mês de completar 32 anos por saber amadurecer com inteligência. Trabalha obsessivamente para seguir como um espetacular atleta, mantendo um baixíssimo índice de gordura e alto desempenho. Mas, ao mesmo tempo, já procura os atalhos em campo.

O objetivo é estar inteiro, física e mentalmente, para ser decisivo. Cristiano Ronaldo hoje sabe o momento de estar na ponta e buscar a diagonal e a hora de se enfiar na área adversária como centroavante. Mas também pode fechar uma linha de meio num 4-1-4-1 pela esquerda e se entregar ao trabalho defensivo, como fez, por exemplo, nos 2 a 1 sobre o Barcelona na temporada passada.

O maior artilheiro da história do Real Madrid e da seleção portuguesa também sinaliza o caminho que está por vir. Com o jogo cada vez mais intenso em alto nível e o calendário inchado por FIFA e UEFA, o jogador precisa ser um superatleta para suportar a carga e também encontrar forças e fôlego para aprimorar os fundamentos sempre que possível sem o risco de exaurir os músculos. Profissionalismo absoluto.

Precisão técnica, o lema do futebol nos próximos anos. A marca desta máquina de gols, já uma lenda. Quatro vezes o melhor do mundo. Craque do presente e referência para o futuro.