Blog do André Rocha

Arquivo : messi

Iniesta, o melhor coadjuvante que um time pode querer, vai fazer falta
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Divulgação/Barcelona

34 anos, 22 no Barcelona. 32 títulos no clube, mais três pela seleção espanhola. O mais importante, da Copa do Mundo em 2010, fazendo o gol da conquista na prorrogação. Algo que já valeria respeito e reverência em toda Espanha, mesmo dos madridistas.

Mas Iniesta é muito mais que isto. Cidadão consciente. De seu tamanho e do que representa, mas também dos valores que são importantes. Foi o que se viu principalmente no campo de jogo. No clube ou na seleção, sempre foi o melhor coadjuvante que um time pode ter.

Conviveu tranquilamente com o protagonismo de Ronaldinho Gaúcho e Messi no Barça e de Xavi como símbolo maior do estilo da seleção espanhola. Nunca deu entrevistas cobrando Bola de Ouro, até quando mereceu em 2012. Total consciência de ser um facilitador.

Um gênio da simplicidade e do senso coletivo. Se o mais adequado é o passe curto, de lado, para manter o controle da bola e o time no campo de ataque sem riscos, ele não vai inventar algo diferente tentando ser mais do que o necessário.

Heroismo só quando for essencial. Como no gol sobre o Chelsea na semifinal da Liga dos Campeões 2008/09 ou no chute decisivo do Mundial da África do Sul. Ou liderando uma Espanha já iniciando a curva descendente na Eurocopa 2012. O grand finale da geração mais vitoriosa do país. Coletiva, sem uma estrela maior. E ainda tem a Copa da Rússia como uma possibilidade de cereja do bolo.

Iniesta é digno até na hora de se retirar. Ao perceber que o time precisa de mais intensidade e vigor abre espaço com humildade, sem deixar o clube na saia justa de manter mais pela história que por conta do desempenho. Sim, havia negócios para conciliar na China e agora podem surgir oportunidades também fora de campo no Japão.

Mas o camisa oito nos gestos e exemplos nunca simbolizou ganância. Pelo contrário, apenas generosidade. Como na passagem da braçadeira para Lionel Messi. Por isto vai fazer tanta falta ao futebol mundial no seu mais alto nível. Como lembrou a torcida no Camp Nou em camisas e bandeiras na vitória sobre a Real Sociedad por 1 a 0, golaço de Philippe Coutinho, jogadores e pessoas como ele são infinitos. Ou deveriam ser.


Sampaoli deve visitar Simeone. Argentina precisa de paixão e humildade
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Álex Marín

Jorge Sampaoli já disse que sente o futebol diferente de Diego Simeone. De fato, basta olhar para o campo e ver ideias de jogo bem distintas. Ambos intensos, mas um querendo a bola e se arriscando mais preenchendo o campo de ataque e outro mais focado no erro do adversário e abnegado na tarefa de defender a própria meta.

Mas pelo momento da seleção argentina, com menos de um ano de trabalho e as perspectivas na Copa do Mundo, já começando por um Grupo D longe de ser fácil com Islândia, Croácia e Nigéria, o atual treinador da albiceleste deve olhar para o trabalho de seu compatriota, novamente campeão no Atlético de Madri com a conquista da Liga Europa ao vencer o Olympique de Marselha por 3 a 0. Até visitá-lo para trocar impressões e adaptar convicções.

Porque está claro que não será possível seguir a linha de Sampaoli, fortemente influenciada pela dinâmica de Marcelo Bielsa. Da “soberania argentina”. O que deu certo no Chile. Faltando um mês para o Mundial na Rússia é preciso ser pragmático. Os 6 a 1 impostos pela Espanha, mesmo com todo o contexto e a ausência de Messi, deram um recado claro, cristalino: a trajetória tortuosa até aqui e o material humano pedem cuidados para ao menos honrar a camisa duas vezes campeã mundial e presente em cinco finais.

O 4-4-2 ou 4-4-1-1 de Simeone no Atlético é um bom início. Até pela semelhança com o de Alessandro Sabella no Brasil. Para diminuir os espaços dos adversários com linhas compactas e principalmente deixar Messi bastante confortável. Como nesta temporada no Barcelona campeão espanhol e da Copa do Rei comandado por Ernesto Valverde.

Porque é desperdício prender o gênio argentino pela direita ou deixá-lo como único atacante, a menos que seja um “falso nove” com dois ponteiros agudos infiltrando em diagonal. Melhor deixá-lo solto com uma referência na frente para tabelas e passes em profundidade. Pode ser Higuaín ou Aguero. Este que escreve apostaria em Mauro Icardi, mais jovem, rápido e sanguíneo, sem o peso do retrospecto negativo dos outros dois na seleção em jogos grandes.

A escolha dos demais nomes ficaria por conta dos treinamentos e da condição física depois de uma temporada europeia desgastante. Há uma base com Romero na meta, Otamendi na zaga, Biglia na proteção da retaguarda e Di María em um dos flancos na linha de meio-campo.

Mas duas características do Atlético de Simeone não podem faltar neste Mundial à albiceleste: paixão e humildade. A primeira para buscar o título que não vem desde a Copa América de 1993 e também jogar por Messi. Para a única grande conquista que falta a um dos melhores e maiores da história do esporte.

Mesmo que não se compare em idolatria a Maradona, até pelas personalidades diametralmente opostas, mas digno de um momento marcante, histórico. Para isto é fundamental colocar sangue nos olhos dos companheiros e do próprio Messi, com seu comportamento indecifrável em alguns momentos decisivos.

Por isso a humildade é essencial. Para entender limites e possibilidades. Compreender que ter a bola sem um plano bem assimilado e executado aumenta exponencialmente os riscos. Pressionar o tempo todo no campo de ataque sem coordenação e ainda contando com um Messi que costuma caminhar sem a bola é convidar o oponente para aproveitar espaços entre os setores. Humildade em Sampaoli para entender que será preciso ser mais Carlos Bilardo que César Menotti ou Bielsa. Mais Simeone. É o que o momento pede.

O sucesso dos treinadores argentinos na Europa é ótimo, mas provoca um efeito colateral: o melhor não está a serviço da seleção. Sampaoli aceitou interromper o sonho no Velho Continente para servir seu país. Agora precisa colocar de lado a vaidade de assinar um estilo.

A Argentina clama por um plano de emergência. Mesmo com todos os problemas da AFA, o da última Copa só negou o título na prorrogação da decisão. Com Higuaín perdendo uma chance no primeiro tempo que podia ter mudado a história. Por que não repetir, incluindo a entrega e o “correr até a morte” de Simeone como o toque final para buscar a redenção com tons de drama, como bem gosta o seu povo?

 


Messi, CR7 e Champions são “culpados” pela disparidade nas ligas europeias
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Sergio Perez / Agência Reuters

O Bayern de Munique garantiu o sexto título consecutivo da Bundesliga, conquista inédita, com cinco rodadas de antecedência. Na França, o Paris Saint-Germain retomou do Monaco a hegemonia também disparando e confirmando matematicamente faltando cinco rodadas. A Juventus na Itália teve mais dificuldades, porém superou o Napoli e faturou o heptacampeonato nacional.

Na Premier League há maior alternância de poder, mas o Manchester City de Pep Guardiola liderou de ponta a ponta e empilhou recordes: chegou aos 100 pontos em 38 jogos e ainda fez história com mais vitórias (32), triunfos consecutivos (18), gols marcados (105), saldo (+79) e os 19 pontos de vantagem sobre o segundo colocado.

Se somarmos tudo isso ao domínio do Barcelona nesta edição da liga espanhola, com a invencibilidade perdida apenas na penúltima rodada com vários reservas e uma atuação desastrosa do colombiano Yerri Mina nos 5 a 4 do Levante. mas título confirmado faltando quatro jogos, temos um cenário em que as principais ligas da Europa não reservaram disputas mais acirradas.

A senha para os disseminadores do “ódio ao futebol moderno”, muitos confundindo equilíbrio com qualidade, protestassem contra este cenário em que, para eles, apenas a disparidade econômica justifica essa vantagem dos campeões.

O grande equívoco é desprezar a enorme competência e know-how desses clubes. O Bayern ostenta a melhor geração de sua história ao lado da de Beckenbauer, Gerd Muller e Sepp Maier nos anos 1970. O mesmo vale para a Juventus. O PSG nem há como comparar e no caso do Manchester City há um retrospecto de conquistas na década, mas principalmente a presença do “rei das ligas” Guardiola, com sete conquistas em nove temporadas por três clubes e países diferentes.

Sem contar Barcelona e Real Madrid com os grandes times de sua história. E os maiores jogadores de todos os tempos nos dois clubes. Competindo na mesma época. Eis a chave para todo este cenário.

Messi e Cristiano Ronaldo venceram as quatro últimas edições da Liga dos Campeões. Se considerarmos desde 2007/08, dez anos, são sete: Manchester United com uma, Barcelona e Real Madrid com três. E os merengues em mais uma decisão podendo ampliar este retrospecto.

Em tempos recentes nunca houve nada parecido. Um fenômeno que subiu o patamar da Champions para níveis estratosféricos. De interesse, inclusive, pela sedução de se medir entre grandes da história. Com isso, o sarrafo foi parar no topo. Para desafiá-los é preciso estar em um nível de excelência em desempenho. Em todos os aspectos – físico, técnico, tático, mental, logística…

Resta aos desafiantes investir. Em elenco, comissões técnicas, estrutura…Internazionale, Chelsea e Bayern de Munique conseguiram superá-los, com os alemães ainda acumulando dois vices e os ingleses um. Manchester United, ainda com CR7, Borussia Dortmund, Juventus e Atlético de Madri chegaram às decisões, mas não conseguiram equilibrar forças em jogo único. PSG e City seguem lutando para furar a casca e entrar no grupo de clubes mais tradicionais. O Liverpool, finalista depois de onze anos, tenta voltar à elite. Mas não é fácil.

Com esse nível tão alto, quem não consegue acompanhar vai perdendo o bonde da história. E os gigantes trabalham para ficar cada vez melhores de olho no principal torneio de clubes, dominado por Messi e Cristiano Ronaldo com seus históricos Barcelona e Real Madrid, mesmo com o time blaugrana de fora das últimas três semifinais.

Como consequência sobram em seus países. Elenco numerosos, estruturas fantásticas, ótimas comissões técnicas. Nos casos específicos de Bayern de Munique e Juventus, os títulos consecutivos acontecem também porque não há como se acomodar com as conquistas nacionais. Não são a prioridade. Então mesmo sobrando os processos são revistos e aprimorados, o elenco ainda mais qualificado. O time que está ganhando se mexe e fica ainda melhor. Pensando em Barça e Real Madrid.

Mas não basta só dinheiro. Ou o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp não seria bicampeonato alemão de 2010 a 2012, o Atlético de Madri não teria superado os gigantes na Espanha em 2014. O mesmo com o Monaco contra o PSG na temporada passada e, caso a Juve não tivesse deixado a Champions ainda nas quartas eliminada pelo Real Madrid e dividisse esforços por mais tempo, o Napoli poderia ter fôlego para terminar na frente. Sem contar o fenômeno Leicester City na liga mais valiosa do mundo em 2015/16. Se não jogar muito não vence. A tese do “piloto automático” é furada.

Mais do que nunca o futebol no mais alto nível exige superação constante. Com regularidade, consistência. “Culpa” de Messi, Cristiano Ronaldo e da Liga dos Campeões que levam o esporte para outra galáxia. Ainda bem que estamos vivos para ver a história sendo escrita. E até os que hoje reclamam vão sentir saudades, mesmo que não admitam.

 

 


Real Madrid se sai melhor que o Liverpool nos clássicos antes de Kiev
Comentários Comente

André Rocha

Havia muito em jogo para Real Madrid e Liverpool contra Barcelona e Chelsea, respectivamente, na reta final das ligas nacionais, impedindo que os times pudessem se dedicar exclusivamente à final da Liga dos Campeões no dia 26 em Kiev.

Para os Reds era a chance de confirmar a vaga na próxima edição do principal torneio do continente. No Stamford Bridge contra um adversário direto na Premier League. Já o time merengue entraria no Camp Nou com a missão de impedir o título espanhol invicto do rival Barcelona e ainda “carimbar” a despedida de Iniesta do clássico.

Tirando tudo que foi desnecessário no duelo entre os últimos campeões espanhois e europeus, desde o Real se recusando a recepcionar em campo o adversário que confirmou a conquista na rodada anterior até as brigas, chutes e pontapés que tiraram muito da beleza de um jogo sempre especial, não é absurdo dizer que a equipe de Zinedine Zidane deu mais uma demonstração de força.

Por iniciar pressionado pela dupla Messi-Suárez mais acesa que o habitual e pelo gol do uruguaio logo aos nove minutos em saída rápida bem engendrada com assistência de Sergi Roberto. Mas responder rapidamente com jogada coletiva ainda mais bela: calcanhar de Cristiano Ronaldo para Kroos, centro do alemão para Benzema preparar e o gênio português finalizar a obra que iniciou. O 25º do vice artilheiro da competição.

Real com uma “velha novidade” de Zidane: o trio “BBC”, fazendo a variação do 4-3-3 para as duas linhas de quatro sem a bola com o recuo de Gareth Bale pela direita. Na transição ofensiva, muita movimentação dos três, enchendo mais a área adversária. Ao menos por 45 minutos, já que Cristiano Ronaldo, por precaução, teve que sair no intervalo, substituído por Asensio.

Não só porque sentiu uma entrada dura, aparentemente maldosa, de Piqué justamente no lance do gol que empatou a disputa. Também por conta da pancadaria que tomou conta do jogo, muito mal conduzido pelo árbitro Alejandro José Hernandez, que culminou na expulsão de Sergi Roberto, que ingenuamente agrediu Marcelo na frente do juiz.

Desta vez o Real pode reclamar muito das decisões da arbitragem. Principalmente pela falta clara de Suárez na disputa com Varane que terminou no golaço de Messi quanto na falta dentro da área do Barça não menos nítida de Jordi Alba em Marcelo. Podia ter mudado o clássico e complicado a vida e a invencibilidade do time da casa muito mais que o golaço de Bale, completando assistência de Asensio. Foram 17 finalizações contra 11 do time blaugrana.

Mesmo com os 2 a 2, a força mental e a cultura de vitória se fizeram presentes. O desempenho geral também foi satisfatório. Confirmando algo que já virou senso comum: é difícil superar este Real Madrid em jogo grande.

O Liverpool também costuma crescer neste tipo de confronto, mas não foi o caso do duelo em Londres. Porque o time de Jurgen Klopp, ainda que mantenha a proposta ofensiva longe do Anfield Road, não consegue reproduzir o “arrastão” num ciclo de pressão pós-perda, acelerar a circulação da bola e acionar o seu trio de ataque.

Salah, Firmino e Mané também pagam um pouco o preço do sucesso e da visibilidade. Estão mais estudados e, consequentemente, vigiados em campo. Ainda mais contra o time de Antonio Conte com sua linha de cinco defensores e mais Kanté e Bakayoko na proteção.

Deram algum trabalho ao goleiro Courtois na primeira etapa, mas nos minutos finais apelaram para os muitos cruzamentos procurando Solanke, que entrou na vaga do lateral esquerdo Robertson, e o zagueiro Van Dijk, que se transformou em um segundo centroavante. Sem ideias, sem brilho. Os torcedores podem até desdenhar, mas quando os espaços diminuem o fato é que Philippe Coutinho faz muita falta aos Reds.

Assim como a equipe se ressente de uma maior solidez defensiva, especialmente pelo alto. No centro da direita, Giroud subiu mais que Lovren para marcar o gol único do duelo, ainda no primeiro tempo. Na ausência do lesionado Oxlade-Chamberlain, Klopp deixou Henderson no banco e arriscou uma formação com Alexander-Arnold formando o meio-campo com Wijnaldum e Milner e Clyne entrando na lateral direita. Podia ter sido melhor.

Apesar dos 68% de posse, foram apenas dez finalizações dos visitantes contra 12 dos Blues, que também foram superiores em desarmes e no jogo aéreo. Resultado coerente com o que foi a partida disputada com a intensidade típica do Campeonato Inglês.

Agora é obrigatório vencer o Brighton em Anfield para chegar aos 75 pontos e garantir ao menos a quarta colocação. A menos que venha a apoteose na Ucrânia com o sexto título da Champions. Depois de onze anos sem chegar a uma decisão e treze da última conquista.

Missão que já era complicada por enfrentar o atual bicampeão e maior vencedor da história. Depois dos clássicos fica a impressão de que a tarefa ficou ainda mais difícil.

(Estatísticas: Whoscored.com)

 


Goleada na última final de Iniesta também sinaliza Barcelona do futuro
Comentários Comente

André Rocha

O Barcelona vencer a Copa do Rei não é nenhuma novidade, nem título a celebrar tanto assim, considerando o nível que o clube alcançou na década. Nas últimas dez edições foram seis conquistas, quatro consecutivas em um total de trinta. O maior vencedor do torneio.

Ainda na ressaca da surpreendente e até vexatória eliminação na Liga dos Campeões para a Roma, considerando as prateleiras bem separadas entre os clubes no cenário europeu, a conquista vale mais pelo simbolismo de ser a última decisão de Iniesta com a camisa blaugrana antes da mais que provável partida em direção ao futebol chinês.

Mas se os 5 a 0 sobre o Sevilla no Wanda Metropolitano, em Madri, reverenciam o passado com um dos últimos atos de seu camisa oito histórico, chegando a 31 títulos pelo clube, também sinalizam o futuro.

O primeiro gol foi simbólico. Com o adversário adiantando a marcação desde a área do Barça, o goleiro Cillessen, titular no torneio enquanto Ter Stegen joga nas outras competições, não fez a bola circular desde a defesa dentro da proposta tradicional do jogo de posição. Sem trocas de passes até o time se instalar no campo do oponente.

Lançamento direto para Philippe Coutinho, novamente pela direita, explorando os espaços às costas da defesa avançada do rival para arrancar e servir Luis Suárez. Jogada simples, objetiva e inteligente. Para que aumentar a margem de erro perto da sua própria meta se é possível chegar ao gol na mesma ação?

O resto foi consequência, com o Sevilla deixando um verdadeiro latifúndio às costas de Banega e N’Zonzi que Messi, Coutinho e Iniesta aproveitaram, cada um com um gol. Do argentino completando linda assistência de calcanhar de Jordi Alba, do brasileiro cobrando pênalti que sofreu e Messi cedeu generosamente. O mais belo do meia veterano, tabelando com Messi. Lembrando o “velho” Barça lá da Era Guardiola. Mas que precisa se adaptar aos novos tempos.

Para isso conta com Suárez, o centroavante que  dá profundidade aos ataques. Chama lançamentos e está sempre pronto para receber as “pifadas” de Messi. Intenso até a medula. Dois gols que encaminharam a goleada.

Agora a missão é confirmar o “doblete”, fazer um bom superclássico contra o Real Madrid e tentar o título espanhol invicto. Para o treinador Ernesto Valverde é a chance de deixar a impressão de uma primeira temporada positiva no clube, apesar das críticas justas ao comportamento coletivo ao longo da temporada, especialmente na noite trágica na capital italiana.

Sem Iniesta e com Coutinho, em sua primeira conquista no novo clube, resta montar um Barcelona mais parecido com o rival Real Madrid que vem sobrando na Europa: adaptável, mutante. Capaz de se impor dentro de uma disputa que privilegie a técnica ou mais física ou de velocidade. Com Messi cada vez mais passador e “ritmista” na reta final da carreira, necessitando de jogadores rápidos e fortes ao redor como contraponto.

Vale a comemoração de mais um título numa era vencedora. Especialmente pela imagem de Iniesta erguendo a taça. Mas é preciso refletir, porque a régua criada pela própria excelência não aceita apenas a supremacia no país. Para voltar a vencer a Champions a velha escola não é mais suficiente. Deve ir com o eterno camisa oito.

O primeiro gol na final da Copa do Rei é um bom indício do que o futuro reserva ao Barça.


Nem Deus, nem farsa. Pep Guardiola é apenas o melhor em 10 anos de carreira
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Laurence Griffiths/Getty Images

Há muita romantização em torno da figura de Pep Guardiola. Alimentada por uma certa carga dramática e poética de Martí Perarnau em seus livros sobre o treinador, ainda que ele também desconstrua alguns mitos. Especialmente o de que é um esteta que despreza os resultados em nome da arte de jogar futebol.

A conquista da Premier League pelo Manchester City é o sétimo título em campeonatos nacionais por pontos corridos. Ou oitavo, se considerarmos a primeira experiência no Barcelona B campeão da terceira divisão espanhola. Em dez anos de carreira, com o hiato em 2012/13.

Com as duas Ligas dos Campeões que conquistou no Barça, o currículo construído até aqui é invejável. 23 títulos no total. José Mourinho tem 18 anos de carreira, Jurgen Klopp um a menos que o português, Carlo Ancelotti há 23 no comando técnico, 16 a menos que Jupp Heynckes. Antonio Conte tem uma temporada a mais que Guardiola. Mas nenhum chega perto na média de conquistas por temporada. Zidane com suas duas Champions e a liga espanhola pelo Real Madrid é quem parece competir nos resultados imediatos. Mas há um fator preponderante além dos títulos que separa Pep de seus pares: a influência na evolução do jogo.

Ele mesmo admite não ter inventado nada, só recombinado ideias. Mas basta um olhar mais atento à prática do esporte nos últimos dez anos para notar a mão do catalão. Tanto na proposta que virou a sua marca, com o jogo de posição através da construção desde a defesa com passes buscando a superioridade numérica no setor em que está a bola e a pressão sufocante após a perda, como nas respostas dos adversários.

A partir do “ônibus” de Mourinho até o caos de intensidade e pressão de Klopp. O maior mérito de Guardiola foi gerar ainda mais inquietação e busca de novas soluções em um esporte que se transforma o tempo todo. Com ele o futebol evoluiu 30 anos em dez. Eis o ponto de sua genialidade.

Talento que incomoda. Talvez por não fazer parte da elite do futebol mundial em termos de seleções: Brasil, Alemanha, Itália e Argentina. O que os gigantes teriam a aprender com um cara da Catalunha? Os tradicionalistas ou puristas preferem o jogo mais lúdico, menos intenso. Outros o mais físico, de choque. Ou simplesmente o costume no futebol de torcer pelo lado mais fraco.

Mas Guardiola não é infalível, longe disso. A obsessão pela vitória tem atrapalhado na Liga dos Campeões. Os relatos de Perarnau em seus livros descrevem um homem atormentado, dando voltas e voltas em torno do próprio time e do oponente em busca de algo diferente para surpreender. Não tem dado certo e já são cinco eliminações seguidas. Na maioria das vezes contando com o melhor jogo coletivo do continente.

Mas pecando em escalações e estratégias, passando do ponto, tirando naturalidade e carregando tensão em seus comandados. Sucumbindo diante de Cristiano Ronaldo, do “pupilo” Messi, da fortaleza defensiva de Simeone, do “one hit wonder” do Monaco e do “maluco beleza” Klopp.

Algo para melhorar, aprender. E Guardiola é louco por aprendizado e crescimento profissional. Não é e nunca foi um homem acomodado e “engenheiro de obra pronta” como acusam seus “haters”. Basta um resgate histórico feito com honestidade para posicionar as coisas.

Ele chegou ao comando do time principal do Barcelona depois de temporadas fracassadas de Frank Rijkaard. Elenco desgastado e envelhecido. Deco e Ronaldinho Gaúcho saíram e ele reconstruiu a equipe que tinha, sim, algumas estrelas. Mas não para automaticamente se transformar em uma equipe histórica, a melhor que este blogueiro viu em ação acompanhando futebol há mais de três décadas.

É óbvio que Guardiola estava bem confortável em Barcelona. Conhecia o clube e o que fez foi apenas acrescentar ou resgatar elementos da filosofia implementada por Johan Cruyff. Potencializou todos os talentos e criou uma simbiose quase perfeita. Natural que as grandes conquistas tenham sido em seu “berço” logo no início de sua trajetória no ofício de liderar fora de campo.

Mas ao analisar sua partida para Munique é preciso contextualizar o momento do acerto. Final de 2012. A realidade do Bayern era a perda da hegemonia nacional para o Borussia Dortmund de Klopp, então bicampeão nacional, e a derrota dura nos pênaltis para o Chelsea na final da Champions em casa. Heynckes questionado e partindo para a aposentadoria. O clube queria reciclar sua maneira de praticar o esporte e, claro, voltar a vencer.

O primeiro semestre de 2013, porém, apresentou o cenário de um time bávaro faturando a tríplice coroa e se impondo como o modelo. Guardiola chegou como contracultura e sofreu uma resistência maior do que a esperada. Aquilo citado acima: os alemães ganharam tudo sem Pep, por que teriam que se curvar a ele?

Direção, jogadores e o responsável pelo comando técnico acabaram aprendendo juntos e cresceram. Sobraram na Bundesliga, também pelo enfraquecimento do rival Dortmund que perdeu as maiores estrelas justamente para o Bayern. Viraram referência de futebol bem jogado no planeta e influenciaram diretamente no estilo da Alemanha campeã mundial, assim como o Barcelona fizera com a Espanha quatro anos antes.

Agora o Manchester City. Clube menos tradicional em uma liga bem mais parelha, embora não superior em técnica e tática à espanhola. Sofrimento na primeira temporada pela total falta de controle das partidas através da posse. Também por conta de um elenco envelhecido e desalinhado às ideias do treinador. Era preciso aprender e se adaptar. Com o Chelsea de Conte tomando a liderança e disparando, os detratores foram implacáveis: “Acabou a moleza dos campeonatos de um time só!”

Pois Guardiola fez sua equipe reinar absoluta em 2017/18. Conquista com cinco rodadas de antecedência, apenas duas derrotas. Números e desempenho impressionantes. E ainda faturando a Copa da Liga de carona.

Sim, gastando mais do que os outros. Mas rendendo bem acima na média do que a diferença entre os orçamentos. Tornando o time mais objetivo quando necessário e circulando a bola com mais velocidade. Na base titular com apenas dois acréscimos em relação à temporada passada: Ederson no gol e Walker na lateral. No mais, quase sempre um 4-3-3 com jogadores amadurecidos dentro da ideia de jogo. Especialmente De Bruyne, o melhor na média de atuações.

De novo os críticos reduzem o feito como se o Inglês de uma temporada para outra tivesse se transformado numa Bundesliga ou Ligue 1. A única semelhança é que um time reinou absoluto. O melhor, disparado. 88% de aproveitamento, ataque mais positivo e defesa menos vazada. Líder em posse de bola, acerto de passes, finalizações. Incríveis 28 vitórias em 33 partidas. Na liga mais parelha e dos jogos malucos.

Para ratificar a distância, os simbólicos 3 a 1 sobre o forte Tottenham em Wembley depois da traumática eliminação na Champions para o Liverpool, enquanto o United de Mourinho perdeu vergonhosamente em casa para o lanterna West Bromwich. A matemática apenas confirmava o óbvio.

Mais uma conquista para a década de Guardiola. Genial, sim. Mas com muito a amadurecer e corrigir. Ainda é jovem, embora a fisionomia cansada já revele sinais do enorme desgaste mental. Vai ganhar minutos, rodagem, enfrentar novos cenários. Crescer.

Nem Deus, nem uma farsa. Humano, porém na justa primeira prateleira pela contribuição ao jogo respaldada por resultados consistentes. Como nenhum outro, ao menos por enquanto. Tão bom que até quem o detesta exige o impossível que parece menos improvável para ele: vencer tudo e com o “plus” do espetáculo.

Amado e odiado. Simplesmente por ser o melhor entre seus contemporâneos. Nada mais, nem menos.


A noite simbólica dos fracassos de Guardiola e Messi na Champions
Comentários Comente

André Rocha

O Barcelona e o Manchester City serão campeões na Espanha e na Inglaterra. Por isso seria exagero falar em “morte” da escola que valoriza a posse de bola e jogadores mais ágeis, técnicos e de menos imposição física. Ainda que Pep Guardiola e Ernesto Valverde venham buscando adaptar e adicionar intensidade e pragmatismo em suas propostas de jogo.

Mas na Liga dos Campeões as eliminações para Roma e Liverpool são duras e simbólicas demais para os dois. Principalmente pelos contextos e pelo que fizeram os vencedores.

Jogos eliminatórios são naturalmente tensos e exigem força mental, concentração e precisão. Principalmente porque quando os nervos estão à flor da pele, quanto mais naturalidade e “jogar de memória” melhor. Mas ligado, firme. Não é por acaso que o Real Madrid vem se impondo nos últimos anos no torneio. O time merengue se adapta a qualquer cenário. Com o feeling de Ancelotti e agora Zidane.

Guardiola pecou por novamente “ousar” na formação do City. Um 3-1-4-2 com Walker e Laporte como zagueiros-laterais, Fernandinho alternando como zagueiro e volante, De Bruyne mais recuado adiantando David Silva, Bernardo Silva pela direita e Sterling mais próximo de Gabriel Jesus. Até surpreendeu o Liverpool no primeiro tempo pela pressão logo após a perda da bola e a capacidade de ocupar o campo de ataque com oito ou nove homens.

Mas de novo falhou ao não transformar 66% de posse e 13 finalizações em um placar maior que o 1 a 0 no gol de Gabriel Jesus logo aos dois minutos. Arbitragem à parte no polêmico gol anulado de Sané que custou a expulsão do treinador catalão pelo “piti” na saída para o intervalo.

A pausa fez Jurgen Klopp acalmar e reagrupar seu time. Com Mané pela direita ajudando Alexander-Arnold para fechar as incursões de Sané, Salah no centro e Firmino à esquerda, além de serenidade para conter a pressão e ficar um pouco mais com a bola. Mas o gol que definiu a vaga saiu no jogo direto, vertical. Liberdade de Chamberlain para acionar Salah e deste para Mané. Disputa com a zaga e sobra para o toque com categoria do egípcio. No final, Firmino apenas selou a classificação dos Reds para a semifinal da Liga dos Campeões depois de dez anos.

O City construiu sua campanha quase perfeita na Premier League com um 4-3-3 executado com todos os conceitos aplicados por Guardiola. Laterais Walker e Delph ora apoiando por dentro, ora por fora se juntando aos ponteiros Sterling e Sané que são abastecidos por De Bruyne e David Silva e acionam Aguero ou Gabriel Jesus. Ideia bem assimilada, movimentos bem coordenados.

O obsessivo Guardiola desconstruiu tudo nos dois jogos das quartas-de-final e pela quinta temporada consecutiva sequer chega à decisão da Champions. Desta vez com duas derrotas. Sinal de que é preciso rever algumas ideias e práticas para suas equipes se tornarem mais competitivas nessas disputas mais imprevisíveis, condicionadas a mando de campo e definidos no placar agregado. Cenário bem diferente das ligas nacionais das quais o treinador caminha para o sétimo título em nove anos de carreira. Com jogos menos complicados de planejar e controlar.

Controle que foi o que o Barcelona não teve no Estádio Olímpico de Roma. Permitiu o jogo físico do time italiano bloqueando Messi e Suárez e forçando pelos lados e nos passes longos para Dzeko e Patrik Schick contra Piqué e Umtiti, sobrecarregado na cobertura de Jordi Alba. Duas esticadas para Dzeko, gol do bósnio no primeiro pênalti e pênalti sofrido e convertido por De Rossi. No “abafa”, o gol de Manolas no escanteio.

No final, Piqué de centroavante. Desde 2010 é a solução quando o time de jogadores mais baixos, técnicos e velozes não consegue jogar ao natural e criar espaços. A Roma travou as infiltrações com Manolas, Fazio e Juan Jesus mais De Rossi na proteção e Florenzi negou as ultrapassagens de Alba. O Barça parou. De novo. Foi assim contra Atlético de Madri e Juventus.

Foram 15 finalizações a seis, oito na direção da meta de Ter Stegen e apenas duas que fizeram Alisson trabalhar. Domínio absoluto de quem parecia eliminado por conta dos 4 a 1 no Camp Nou.

E Messi? De novo flanando em campo como se jogasse uma partida qualquer da liga espanhola, que o argentino conquistou seis vezes nos últimos nove anos. Natural até demais…Mais uma vez não se viu a indignação com a derrota. Ou a noção de que é a Liga dos Campeões que vem definindo o melhor do mundo e, por isso, Cristiano Ronaldo transformou um 4 a 2 em 5 a 5. Agora caminhando para o desempate a favor do português. A terceira eliminação sem gols de Messi nos confrontos. Sintomático.

Noites históricas para Liverpool e Roma, com muito a comemorar. Feitos memoráveis também por superarem o treinador e o jogador mais talentosos desta era. Que construíram juntos uma trajetória vencedora lá no início da década e, fora a epopeia do Barça em 2015 com o trio MSN sob o comando de Luis Enrique, ficaram devendo em conquistas na competição mais importante.

É preciso mais que regularidade e foco na qualidade do jogo. E o paradoxo: enquanto Guardiola fica pilhado demais e acaba “inventando”, Messi parece indiferente, serenidade que se transforma em letargia. Mais uma noite de fracasso para rever convicções e prioridades.

(Estatísticas: UEFA)

 

 


Virada do United é para Guardiola repensar muita coisa, assim como Mourinho
Comentários Comente

André Rocha

A escalação inicial do City para o dérbi de Manchester deixava claro que o planejamento de Pep Guardiola era dividir esforços para garantir o título da Premier League e buscar a recuperação contra o Liverpool na Liga dos Campeões.

Bernardo Silva como “falso nove” com a clara intenção de buscar espaços entre a defesa e o meio-campo do United. Kun Aguero e Gabriel Jesus no banco, assim como Kevin De Bruyne descansando para Gundogan seguir no meio, com Fernandinho e David Silva.

A proposta funcionou por méritos na execução de seu modelo de jogo. Posse de bola e movimentação. Com o tempo, Bernardo foi para o lado direito e Sterling ficou mais adiantado no centro do ataque. Placar aberto na bola parada com Kompany e jogada bem trabalhada até Gundogan girar e tirar do alcance do goleiro De Gea.

O City pode reclamar de um pênalti no toque no braço de Ashley Young no início do jogo. Mas principalmente lamentar as quatro chances claras desperdiçadas por Sterling ao longo do jogo. Em especial as duas à frente do goleiro que poderia ter transformado os 2 a 0 no primeiro tempo em uma goleada que faria José Mourinho jogar a toalha em 45 minutos.

Período sem nenhuma agressividade dos Red Devils. Era assustadora a falta de intensidade três dias depois do Liverpool de Jurgen Klopp atropelar os citizens em 30 minutos com pressão absurda. O time de Mourinho esperava posicionado no 4-1-4-1, mas assistindo à troca de passes do rival. Permitiu nove finalizações, cinco no alvo. Não concluiu nenhuma vez. Zero. City sobrou com 66% de posse.

Não mudou muito no início do segundo tempo. Talvez tenha sido o que desligou o time de Guardiola do jogo. Relaxado, permitiu a bela articulação que terminou no gol de Pogba. E o jogo com 2 a 1 se transformou. Quem já deveria estar entregue com uma goleada se agigantou e a equipe que parecia absoluta e com título garantido se viu ameaçada. E aí a derrota na quarta-feira talvez tenha pesado na falta de confiança.

Outro de Pogba, o da virada com Smalling. Três das quatro conclusões na direção da meta de Ederson entraram, num total de cinco. Em 30 minutos o clássico de Manchester virou do avesso e só aí Guardiola mandou a campo Jesus, Aguero e De Bruyne. Mas mentalmente o cenário ficou adverso demais. No “abafa”, Aguero cabeceou para defesaça do goleiro espanhol do United e Sterling perdeu sua última chance, desviando na trave. Que tarde infeliz do atacante inglês!

E aí cabe a maior reflexão de Pep Guardiola: em dois jogos grandes, seu time pecou, entre outras coisas, pela falta de contundência na frente. Muito porque o treinador monta elenco e escala em função de sua visão de futebol. Prefere jogadores ágeis, rápidos, que façam a bola girar. No Bayern de Munique, até pela cultura do clube e da Alemanha, trabalhou com Lewandowski e Muller, dois goleadores mais típicos.

Mas, paradoxalmente, embora seus times marquem muitos gols, não são matadores. Daqueles que em quatro chances colocam duas nas redes. É preciso muito volume de jogo para aplicar goleadas. Foi a diferença que impediu o triunfo no Etihad Stadium.

Talvez por isso só tenha vencido a Liga dos Campeões com Messi, o jogador perfeito para Guardiola: rápido, habilidoso, adaptado ao jogo de posição…e um goleador implacável. Em duelos mais equilibrados é fundamental. Uma das explicações para a hegemonia europeia do Real Madrid de Cristiano Ronaldo.

Obviamente o City não é um time “arame liso” – cerca, mas não fura. Mas foi no dérbi, com 20 finalizações, seis no alvo e apenas dois gols. Não poderá ser na terça-feira de novo em Manchester. Guardiola que busque as soluções, inclusive para resgatar o ânimo de seus comandados depois de dois reveses doídos.

Grande virada do time de José Mourinho. Ficou a impressão de que não houve lá muita interferência do treinador na recuperação do United. Mas não deixa de trazer reflexões também para o treinador português.

Porque ficou provado que com uma postura mais agressiva sua equipe pode fazer suas estrelas desequilibrarem. Menos pragmatismo, mais coragem. Precisava acontecer com 2 a 0 contra? Com o título inglês praticamente perdido? Eliminado da Liga dos Campeões exatamente pelo excesso de cautela no confronto com um Sevilla, em tese, inferior? Algo a ser revisto.

Guardiola e Mourinho estão na história do esporte como responsáveis diretos pela enorme evolução do jogo. Cada um com sua contribuição. Mas o jogo segue e é preciso aprender sempre sem se escravizar às próprias convicções. O pecado do português há alguns anos.

Pep parece com a mente mais aberta,. Há, porém, o que pensar. Mesmo confirmando o título nacional daqui a duas rodadas e até virando as quartas do torneio continental contra os Reds.  Não há fórmula perfeita, por mais que se busque.

(Estatísticas: BBC)


Cristiano Ronaldo, o gênio da grande área no futebol 2.0
Comentários Comente

André Rocha

Na décima primeira rodada do Campeonato Espanhol, Lionel Messi tinha 11 gols e Cristiano Ronaldo apenas um. Mesmo assim, o português, segundo o programa “El Transistor”, da rádio “Onda Cero”, teria apostado com colegas do Real Madrid que terminaria a temporada na artilharia da Liga.

Com os quatro marcados nos 6 a 3 sobre o Girona em mais uma noite de gala no Santiago Bernabéu, o CR7 chegou a 22 gols, ultrapassando Suárez e ficando a três de Messi. Faltando nove partidas. São 18 nos últimos 11 jogos, seis nas últimas duas rodadas. Foi às redes nas últimas seis.

O atacante tem motivos para confiar no próprio taco. O início ruim era parte de um período complicado, com as férias adiadas por conta da disputa da Copa das Federações pela seleção portuguesa. Depois, quando voltava aos poucos à equipe merengue na disputa da Supercopa da Espanha contra o Barcelona foi expulso e acabou ficando de fora de cinco jogos. Suspensão por empurrar o árbitro.

Ciente de que com 33 anos os problemas físicos em consequência do desgaste natural de mais de uma década competindo em alto nível pesam, Cristiano Ronaldo se adapta e prepara para estar no ápice do desempenho no momento decisivo da temporada.

Por conta da campanha invicta do Barcelona, o título espanhol é um sonho quase impossível. Mas isso não o faz entregar menos de 100% sempre que está em campo. O que mais impressiona em Cristiano Ronaldo é a capacidade de concentração.

Repare em seus movimentos. Ele sempre busca o desmarque para surgir livre no momento da conclusão. Para isso não descuida da parte atlética. A explosão é fundamental. Também a força mental que parece se alimentar das críticas e do descrédito para se superar. Mas a maior virtude, sem dúvida, é o domínio de todas as ações dentro da área adversária.

Como atua solto como atacante no 4-4-2 do Real, Cristiano alterna os deslocamentos em diagonal, partindo da direita ou da esquerda, com a infiltração pelo centro para finalizar por baixo ou por cima, aproveitando estatura e impulsão. Tem o timing para concluir antecipando na primeira trave ou esperando na segunda para definir.

Com a má fase e a insegurança de Benzema para finalizar, ele acaba sendo ainda mais beneficiado. Além do seu lado um tanto egoísta. O CR7 é como um jogador de vôlei de praia que força para receber o serviço e consequentemente ser o responsável pelo ataque.

O número de assistências vem caindo a cada temporada. 22 em 2014/15, depois 15, 10 e agora sete. A última girando e dando como pivô a Lucas Vázquez o terceiro gol do Real sobre o Girona. Mas quase sempre induz os companheiros a serví-lo. Como a eficiência costuma ser absurda, quem vai negar?

Johan Cruyff definiu Romário, no auge atuando pelo Barcelona, como o “gênio da grande área”. Não estava errado em 1993/1994. Outros tempos, outro jogo. Outra cabeça do Baixinho, que depois da consagração na Copa do Mundo e da conquista da Bola de Ouro voltou para o futebol brasileiro. Romário que admitiu ter disputado uma final de Liga dos Campeões com a cabeça no Mundial nos Estados Unidos – derrota por 4 a 0 para o Milan em Atenas. Alguém imagina Cristiano Ronaldo fazendo o mesmo?

O futebol atual é o dos setores compactos, do pouco tempo e espaço para jogar, da necessidade da decisão correta e da execução precisa. Se é melhor ou pior que os de outras décadas vai de cada um. Mas a evolução dentro e fora de campo é inquestionável. O futebol 2.0.

E nesta Era o gênio da grande área é Cristiano Ronaldo. O maior artilheiro da história do Real Madrid, da seleção portuguesa e da Liga dos Campeões. Ninguém é mais letal no último toque para as redes adversárias. Média de sete finalizações por partida.

Ainda que Messi em sua fase mais goleadora tenha alcançado o recorde de 91 gols em 2012. O argentino tem cabeça de meia, camisa dez. Ele chega na área, não a ronda como um centroavante. Cristiano é sete, mas tem alma de nove. Cada vez mais.

No Brasil respeitam pouco Cristiano Ronaldo. Vira e mexe surgem jogadores do passado se colocando acima e menosprezando seus feitos, como se a concorrência atual fosse fraca. Como se todos tivessem disputado tudo com um Messi. Sem contar Ibrahimovic, Lewandowski, Eto’o, Neymar, Cavani, Suárez, Diego Costa, Muller, Griezmann, Hazard, Aguero, Robben, Ribéry e tantos outros nessa década disputando sempre no topo.

O “robozão” já foi ponta habilidoso. No auge do Manchester United virou um atacante completo. Criativo e artilheiro. Com o tempo foi aprendendo a ser minimalista. Poucos toques, uma pilha de gols. De todas as maneiras. Pé direito, canhota, cabeça. Cobrando faltas e pênaltis. Antes mais regular, agora aparecendo quando é fundamental.

Se não encanta seus olhos, que sua boca respeite Cristiano Ronaldo. Ele faz por merecer jogo a jogo. Título a título. Gol a gol. É duro apostar contra o português.

(Estatísticas: WhosScored.com)


Quartas de final da Champions só não têm favorito no duelo inglês
Comentários Comente

André Rocha

Barcelona x Roma  – Confronto com favoritismo claro. O Barcelona invicto no Espanhol e na Liga dos Campeões, com Messi voando, pega o adversário em tese mais frágil. Mas que merece respeito por ter fechado a fase de grupos na liderança de um grupo com Chelsea e Atlético de Madri e eliminando este último. O jogo na capital italiana terá que ser bem controlado pelo time catalão se quiser voltar à semifinal depois dos fracassos nas duas últimas disputas nesta etapa contra Atlético e Juventus. Mas são equipes em prateleiras diferentes no futebol mundial.

Palpite: Barcelona

Sevilla x Bayern de Munique – Desde o título em 2013, com Jupp Heynckes, o Bayern de Munique foi eliminado nas últimas quatro temporadas por espanhois. Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madri. Agora o adversário é o Sevilla, cinco vezes campeão da Liga Europa, mas longe de ter o mesmo peso na Champions. Merece respeito por ter eliminado o Manchester United e, pela disparidade na Bundesliga, é sempre complicado avaliar o poderio do time bávaro. Mas é impossível não tratar o gigante alemão como favorito.

Palpite: Bayern de Munique

Juventus x Real Madrid – Reedição da final da temporada passada. Com os dois times crescendo em desempenho e resultados. O atual bicampeão europeu carrega uma vantagem inegável: a força mental. Confiança pelas conquistas recentes e também a chance de priorizar o torneio continental, já que a Juventus tomou há pouco do Napoli a liderança da Série A do Calcio. Favoritismo merengue, mas é bom lembrar: no último confronto em dois jogos deu Juventus, na semifinal de 2014/15.  Justamente a única eliminação do Real nas últimas quatro edições.

Palpite: Real Madrid

Liverpool x Manchester City – A campanha fantástica do time de Pep Guardiola na Premier League só não é invicta em 30 jogos por causa de uma derrota: os 4 a 3 impostos pelo Liverpool no Anfield Road, talvez no melhor jogo da temporada 2017/18 na Europa. Adicione a isso a camisa cinco vezes campeã da Liga dos Campeões de volta ao mata-mata e Jurgen Klopp, treinador que quase sempre proporciona duelos equilibrados com os times de Guardiola, e temos o único confronto das quartas sem favorito. Apesar dos 21 pontos de vantagem na liga nacional que refletem o abismo de desempenho e da maior experiência dos jogadores do time azul de Manchester na Champions.

Palpite: Manchester City