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Onde há fome de Champions, lá está Cristiano Ronaldo
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André Rocha

Foto: Divulgação/ Juventus

O fim da relação entre Cristiano Ronaldo e Real Madrid é a prova de que até os casamentos mais bem sucedidos passam por desgastes. Os mortais, os comuns normalmente aceitam uma vida sem o desafio da conquista diária. Colocam outras vantagens, inclusive a estabilidade e a ciência das virtudes e defeitos da parceria.

Não para Florentino Pérez, certamente incomodado pela falta de negociações nas últimas janelas de transferências por conta da sede de entrosamento e sintonia de Zinedine Zidane. Bi da Liga dos Campeões repetindo a escalação em duas finais, algo inédito. Mais ainda para um clube comprador e um presidente viciado em times galácticos.

Muito menos para o CR7. Competitivo em tudo. Quer sempre o topo. Dos prêmios individuais, da artilharia, entre os mais bem pagos. Também quer ser amado. E os aplausos da torcida na Arena Juventus depois de seu gol antológico de bicicleta certamente pesaram na hora de escolher a Juventus. Ainda que seja um negócio de 105 milhões de euros por um jogador de 33 anos.

Ou melhor, um atleta. De força inesgotável, foco inigualável. Treinamento, alimentação, repouso, força mental. Tudo cuidado com profissionalismo, sem concessões. Gestão de carreira impecável. Para seguir no mais alto nível até quando for possível – e como é difícil imaginar até quando isto vai durar com tamanha disciplina e uma estupenda mentalidade vencedora.

Acima de tudo, para continuar vencendo o principal torneio de clubes do planeta. O grande trunfo na disputa pelo prêmio de melhor do mundo. Está claro que Cristiano Ronaldo quer desenhar uma história única na Champions. Ser o maior vencedor e por clubes diferentes para que ninguém duvide que a força está com ele, não com o time. Ainda que o atacante cada vez mais dependa dos companheiros para decidir com sua ímpar capacidade de concluir as jogadas.

Mesmo para o gigante Real Madrid de 13 títulos será difícil manter o espírito competitivo depois de um tricampeonato. O tetra pode até vir, mas em um elenco renovado, com protagonistas querendo acrescentar a conquista no currículo. Com Ronaldo ficaria a impressão de uma fé no “piloto automático” que não existe no mais alto nível.

Foi assim na saída do Manchester United sem forças para rivalizar com o Barcelona de Guardiola e Messi e já caminhando para o fim da Era Alex Ferguson. Na época, o Real estava há sete temporadas sem vencer a Champions e encarava uma sequência de eliminações nas oitavas de final. Ele chegou e reescreveu a história.

Agora a escolha do português não podia ser melhor. A Juventus rica e estruturada, mas já saturada de conquistas nacionais com um hepta da Série A italiana vai focar tudo na Liga dos Campeões que não conquista desde 1996. A presença de Ronaldo e toda a visibilidade embutida aumentam o poder de atrair outros talentos, incluindo colegas de Real. Difícil até vislumbrar uma formação titular de Massimilano Allegri com a nova estrela.

É óbvio que é impossível prever se haverá química entre craque, clube e companheiros. Os títulos podem demorar um pouco, como aconteceu em Madri. A saída de Buffon é baixa importante, na história e no vestiário. Mas em tese a presença de alguém tão vencedor vai estimular o crescimento de todos, especialmente Dybala. Falta ao argentino de 24 anos a chama que sobra no maior artilheiro da história da seleção portuguesa e do Real Madrid.

Para quem ama o esporte, fica o “luto” pelo fim da maior rivalidade local de todos os tempos entre gênios de uma mesma época. Messi e Cristiano Ronaldo disputando a mesma liga nacional com dois duelos garantidos por temporada em gigantes como Barcelona e Real Madrid. Um roteiro de filme. Acabou. Pelo menos não haverá remorso de quem curtiu cada embate sem a preocupação de ficar desqualificando um para exaltar o outro.

Buffon partiu lamentando que o CR7 tivesse encerrado por duas vezes o sonho continental da Velha Senhora. Agora o gênio da grande área do século 21, de impressionantes 451 gols em 438 jogos no time merengue vai se testar em Turim. Porque onde há fome de Champions, lá está Cristiano Ronaldo.

 


França não perdoa instabilidade dos sul-americanos. Uruguai foi o terceiro
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André Rocha

Primeiro foi o Peru, que jogou melhor na soma dos 90 minutos, mas pagou com a eliminação na fase de grupos pelo ataque “arame liso”. A Argentina alternou ritmos e humores, errou na formação inicial com Messi como “falso nove” e sem presença física no ataque. as fragilidades defensivas cobraram o preço contra Mbappé.

O Uruguai nitidamente entrou com a confiança abalada pela ausência de Cavani – no banco de reservas, mas claramente sem condições, tanto que não entrou em campo. Stuani entrou para dar o primeiro combate a Kanté e auxiliar o meio-campo na execução do 4-3-1-2 que Óscar Tabárez repetiu no duelo nas quartas-de final. Mas com Suárez muito isolado, praticamente sem chances contra Varane e Umtiti.

Jogo grande, três títulos mundiais em campo. A França também não estava tão confortável. Quanto maior a responsabilidade, mais temor de errar e, com isso, a perda da naturalidade em campo. Os franceses rodavam a bola, com Tolisso no lugar do suspenso Matuidi no mesmo 4-2-3-1 com um “ponta volante” pela esquerda. Mas arriscavam pouco.

58% de posse no primeiro tempo e 80% de efetividade nos passes. Mas a rigor o trabalho ofensivo se limitava a trocar passes, abrir no flanco e levantar na área procurando Giroud. Para variar, descomplicou na bola parada com Varane. Cáceres também foi preciso no golpe de cabeça do outro lado. A diferença foi a defesa portentosa de Lloris. A mais emblemática da Copa até aqui. Uma das quatro finalizações no alvo da Celeste num total de sete. Uma a mais que os Bleus. A única na direção de Muslera entrou.

Goleiro uruguaio que foi o personagem da segunda etapa. Ele e Griezmann. Primeiro uma tentativa de drible do goleiro que o atacante desarmou, mas a bola foi para a linha de fundo. Depois o frango que definiu a vaga nas semifinais com os 2 a 0. Sem precisar desta vez do brilho de Mbappé. Porque a França não tem perdoado a instabilidade dos sul-americanos na Rússia.

Não faltou suor, nem fibra. Mas erraram e oscilaram mais que os franceses. Se o Brasil passar pela Bélgica, a vice-campeã europeia só não enfrentará a Colômbia entre os classificados pela América do Sul. Uma coincidência que até aqui tem sido feliz para a seleção de Didier Deschamps.

(Estatísticas: Footstats)


Gabriel Jesus é mais uma vítima do trauma de 1982: a crítica “preventiva”
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André Rocha

Carl Recine / Agência Reuters

Careca, Romário e Ronaldo. Grandes destaques individuais do Brasil nas Copas do Mundo de 1986 a 2002. Centroavantes, por coincidência. Canto do Cisne do Fenômeno e o início do ocaso de Adriano Imperador, em tese o sucessor, em 2006. Luís Fabiano em 2010 e Fred em 2014. Típicas referências na área. O jogador que fica no centro do ataque para finalizar.

Nos acostumamos com os fazedores de gols. Os mais talentosos não só por isto. Mas estão no imaginário popular. “O centroavante é o mais importante”, como diz a canção. Só que tudo muda. O futebol, o contexto, as necessidades.

Até Roberto Firmino calar boa parte da desconfiança habitual acerca de um jogador que faz sua carreira na Europa sem história em um grande clube brasileiro, Gabriel Jesus era quase unanimidade. Joia do Palmeiras contratada por Guardiola no Manchester City. Artilheiro da “Era Tite” ao lado de Neymar com dez gols, inclusive o da vitória sobre a Alemanha no amistoso em março tratado como decisão. Quando Diego Souza foi testado na função e Jô fazia seus gols pelo campeão brasileiro Corinthians, o questionado era Firmino.

Mas bastaram quatro jogos na Copa do Mundo sem gols e assistências, embora tenha tocado na bola antes de Philippe Coutinho colocar nas redes e aliviar a angústia contra a Costa Rica, para Jesus começar a ser criticado. Ou perseguido. Aos 21 anos, em sua primeira Copa do Mundo.

Até porque os alvos anteriores colocaram uma enorme pedra sobre as críticas. Thiago Silva, o “chorão”, com uma Copa perfeita até aqui, com exceção do erro de posicionamento no gol da Suíça na estreia. Inclusive e principalmente pela liderança com personalidade. E Neymar, o “mimado”,  optou por focar totalmente no futebol. Corte de cabelo discreto, sem reclamações e simulações. Muito pelo temor de levar o segundo cartão amarelo e ficar de fora de um jogo decisivo por suspensão. Dois gols e voltando a desequilibrar.

Então é Gabriel Jesus a bola da vez. Porque a seleção brasileira precisa ter um problema, uma deficiência para ser apontada. Uma espécie de defesa contra o “oba oba”. Ou o ufanismo associado a Galvão Bueno, a voz global que desde 1990 alimenta a empolgação em tempos de Copa do Mundo.

Mas o trauma vem de antes e é transferido de geração para geração. O registro histórico do Mundial na Espanha em 1982 é de uma torcida iludida, alimentada pela mídia na época. Inclusive radialistas cariocas estimulando o povo a organizar bolões em que as apostas focavam apenas no placar da vitória brasileira e quem faria os gols.

Como sempre, o mito é um pouco maior que os fatos. Havia críticas, sim. A Waldir Peres pela insegurança nas duas primeiras partidas, contra União Soviética e Escócia. A Serginho Chulapa, por marcar gol apenas contra a Nova Zelândia. Também a Telê Santana pela mudança de sistema, com Cerezo entrando na vaga de Paulo Isidoro  e abrindo um buraco pelo lado direito, sobrecarregando o lateral Leandro. Impossível esquecer de Zé da Galera, personagem de Jô Soares, bradando “Bota ponta, Telê!”

A euforia tomou conta mesmo depois dos 3 a 1 sobre a Argentina. Porque Waldir Peres fez grandes defesas, Serginho marcou o segundo gol de cabeça em uma jogada bem arquitetada pela direita, entre Zico e Falcão. Vitória sobre os então campeões do mundo com o reforço do jovem gênio Diego Maradona.

Veio a derrota para a Itália e duas figuras acabaram capitalizando com aquela decepção: João Saldanha e Zezé Moreira. O jornalista por apontar defeitos brasileiros em seus comentários no rádio e nas colunas em jornais e o treinador por elogiar a Itália como observador de Telê e ser até ironizado. Nada intencional, apenas opiniões embasadas em meio a um carnaval fora de época.

Junte a isso o “Maracanazo” em 1950 com a foto dos jogadores brasileiros na capa do jornal “O Mundo” na manhã da final contra o Uruguai já sagrando os campeões mundiais e pronto! Nascia ali um temor de elogiar a seleção e tratá-la como favorita. Favoritismo que não significa título conquistado.

O resultado é que há muita gente querendo ser João Saldanha ou radicalizar sendo uma espécie de “Profeta do Apocalipse”. Missão fácil e sedutora. Afinal, a chance de acerto é enorme – antes eram 31. Agora são sete contra uma (7 a 1!). Basta o Brasil perder para dizer “Eu avisei!”

Bem mais cômodo do que ter a opinião associada a Galvão Bueno, acusado de manipular o povo através do simplismo resultadista de elogiar sem limites na vitória e vilanizar e demonizar nos reveses. Ou, nas palavras do narrador, “vender emoções”.

Gabriel Jesus está no olho do furacão. Porque centroavante tem que fazer gol. Mesmo que desta vez a estrela do time seja o camisa dez e o nove também jogue em função dele. E do time. Como na movimentação abrindo espaços para o passe de Coutinho e a infiltração de Paulinho no primeiro gol sobre a Sérvia.

Contribuição para o time difícil de quantificar. Não é gol, nem assistência. Mas facilita a equipe. Como a volta pela esquerda fechando a inversão de bola para o lateral direito adversário. Ou a pressão no zagueiro que força o chutão e a bola retomada pela equipe de Tite. A solidez defensiva passa também por Gabriel Jesus. O futebol atual é assim, gostem ou não.

Não é “passar pano”. Nem garantir titularidade. Se Firmino entrar e melhorar o desempenho da equipe com e sem a bola, marcando gols ou não, ótimo para o Brasil. Talvez a mudança ensaiada contra o México, com Neymar solto e Jesus pela esquerda, como na reta final da Olimpíada, possa ser a melhor solução para incrementar o rendimento ofensivo.

E vale voltar novamente a 1982: Paolo Rossi era o centroavante contestado nos quatro primeiros jogos da Itália na Copa do Mundo. Nenhum gol. Até marcar três no Brasil, dois na Polônia e um na final contra a Alemanha para terminar como artilheiro e craque do Mundial.

O que se questiona, de fato, é a crítica “preventiva” e o foco apenas no aspecto negativo. O ponto branco no quadro escuro ou vice-versa. O tradicional “parece tudo bem, mas…” Seguindo a máxima de Millôr Fernandes: “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Princípio que esquece que quem critica sempre tem a mesma credibilidade de quem elogia sempre. Porque no futebol e na vida não há lugar para maniqueísmo.

Ainda que o extremismo esteja cada vez mais presente. E o ódio. As pessoas se unem mais nas redes sociais pelo que detestam do que pelo que amam. Se prefere Messi é preciso odiar Cristiano Ronaldo. Ou Neymar. E por aí vai. No esporte, na política, em tudo.

Gabriel Jesus é o vilão do momento. Mais uma vítima, no fim das contas. Antes o prodígio de origem humilde, agora o “amarelão”. Porque com a nove não pode errar. Ou com qualquer número da camisa verde e amarela, entidade que parece centralizar todas as paranoias de um país.

 


Mbappé em tarde de Ronaldo Fenômeno encerra Era Messi na Argentina
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André Rocha

Podia ter sido bem mais tranquila a classificação francesa para as quartas de final. Mas o jogo parecia tão fácil e controlado depois do gol de pênalti de Griezmann pelos muitos problemas argentinos que a inteligência se transformou em acomodação, baixa intensidade.

Jorge Sampaoli – ou Mascherano ou Messi, como saber? – resolveu fazer uma mudança profunda na estrutura ofensiva da Albiceleste. Sacou Higuaín e abriu Pavón pela direita. Messi voltava a ser “falso nove”. Talvez para criar indefinição entre Kanté e os zagueiros Varane e Umtiti.

O problema era o entorno. O 4-3-3 com “falso nove” do Barcelona, desde Rinus Michels e Johan Cruyff nos anos 1970 e atualizado por Pep Guardiola, necessita de movimentos muito coordenados para funcionar na frente. Quando Messi atrai os zagueiros e circula às costas dos volantes, os ponteiros precisam infiltrar em diagonal. Ou um dos meio-campistas se apresentar na frente.

A Argentina avançava as linhas, rodava a bola, tocava, tocava…e ninguém na área francesa. Bola roubada, a estratégia da equipe de Didier Deschamps era clara: bola longa procurando Mbappé entrando entre Rojo e Tagliafico. Defensivamente, o 4-2-3-1 tinha novamente Matuidi como “ponta volante” pela esquerda, mais próximo de Kanté e Pogba negando espaços a Messi e dando liberdade a Griezmann para circular atrás de Giroud na referência.

França novamente no 4-2-3-1 com Matuidi como “ponta volante” pela esquerda dando liberdade e Griezmann e Mbappé. A mudança argentina para o 4-3-3 com Messi como “falso nove” não funcionou na prática, apesar dos gols de Di María e Mercado (Tactical Pad).

Cobrança de falta de Griezmann no travessão, o pênalti de Rojo em Mbappé que abriu o placar. Por um passo, a joia do PSG não sofreu outro em seguida. Como uma locomotiva, atropelando os defensores com velocidade espantosa. Na falta, a cobrança ruim de Pogba. Meio-campista talentoso, mas um tanto indolente sem a bola.

Jogo à feição para a França. Mas numa cobrança de lateral pela esquerda, Pogba ficou “marcando” ninguém e abriu um buraco na entrada da área, ampliado pelo recuo excessivo de Kanté e Matuidi para bloquear com os quatro defensores apenas três adversários. Liberdade para Di María e um chutaço de rara felicidade.

No golaço de Di María, sete franceses bloqueando apenas três argentinos, Pogba fora da imagem marcando ninguém pela direita e toda liberdade para o argentino acertar chute de rara felicidade (reprodução TV Globo).

Para fechar um primeiro tempo de 64% de posse praticamente inócua da Argentina. Três finalizações francesas, duas dos sul-americanos. Apenas uma para cada lado no alvo. Os gols. Saída para o intervalo com os argentinos aliviados e confiantes.

Mais ainda com o gol de virada, em chute de Messi que desviou em Mercado. Parecia que desmancharia mentalmente a França com muitos jovens, apesar de rodados e jogando em alto nível na Europa. Mas bastou voltar a atacar em bloco e com intensidade para os defeitos argentinos, mesmo com a entrada de Fazio no lugar de Rojo, inseguro e já com amarelo, voltarem a saltar aos olhos.

Primeiro na jogada dos contestados laterais franceses. Hernández aproveitou o corredor deixado por Matuidi e centrou para Pavard se antecipar a Di María, aproveitar o rebote e conseguir um chute mais feliz e belo que a “chicotada” do espanhol Nacho na estreia contra Portugal.

Confiança restabelecida, Mbappé entrou em ação novamente. Dois gols decisivos. Um de recurso para criar espaços dentro da área argentina e finalizar. Para resolver, o contragolpe rápido, a infiltração em diagonal e o chute preciso finalizando assistência de Giroud. Uma tarde para lembrar mais Ronaldo Fenômeno que Thierry Henry, com quem o garoto quase sempre é comparado em seu país.

No final, uma dura e irônica mostra para Sampaoli – ou Mascherano ou Messi, como saber? – que não deviam ter descartado o uso de um centroavante na área. Centro de Messi, gol de Aguero, que entrara na vaga de Enzo Pérez. E ainda um sufoco no final, com a França novamente acomodada. A ponto de tirar Mbappé para receber os aplausos ao ser substituído por Thauvin. Um 4 a 3 que podia ter sido com menos sustos para os Bleus.

Provavelmente é o fim da Era Messi na seleção em Copas do Mundo. Difícil ver o gênio do Barcelona com forças, física e mentalmente, para superar um novo ciclo para ir ao Qatar com praticamente 35 anos. O futebol lamenta que apenas em 2014 ele contou com uma seleção minimamente organizada que potencializasse seu talento. Fica também a crítica à falta de poder de decisão do camisa dez quando a seleção mais precisou. E neste Mundial foi difícil entender as decisões de Sampaoli e as raríssimas oportunidades para o talentoso Dybala. Muitos problemas para compensar. Nem Messi.

A França segue, agora com status de favorita depois de se impor num jogaço. Porque parece ter encontrado a melhor formação. Que potencializa seu maior talento emergente. Kylian Mbappé, 19 anos. Candidato a gênio, melhor do mundo na era pós Messi x Cristiano Ronaldo. Uma atuação fenomenal que definiu o maior confronto das oitavas de final na Rússia.

(Estatísticas: FIFA)

 


Neymar é o Brasil das contradições e do pensamento binário
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André Rocha

Foto: Pascal Guyot/ AFP

Neymar é individualista. Mas também é um dos que mais servem passes para gols no futebol jogado na Europa. Neymar só quer saber de ser o melhor do mundo. No entanto, aceitou ser coadjuvante de Messi no Barcelona e, mesmo voando na reta final da Liga dos Campeões, viu o argentino conquistar sua quinta Bola de Ouro em 2015. E aplaudiu.

Neymar tem vida social agitada, vai e volta o namoro com a atriz global. Mas também faz declaração de amor em público. Neymar queima sua imagem com provocações desnecessárias em campo e negociações, digamos, “complexas” do seu pai envolvendo seu nome. Ainda assim, é um dos mais requisitados para a publicidade. Vende o que quiser.

Neymar é contradição pura. Pode chutar ou xingar um adversário por quase nada em um jogo e abraçá-lo depois de levar entrada duríssima, como fez com o sérvio Ljajic. Na partida em que marca gol chora no gramado. Quando perde várias chances deixa o campo sorrindo e mandando beijos. Com os mesmos 2 a 0 no placar.

A impossibilidade de definir Neymar e encaixá-lo num estereótipo é o que mais incomoda quem o critica. Ou elogia. Quem vê seu narcisismo midiático tende a aproximá-lo de Cristiano Ronaldo. Mas ele é amigo de Messi. Se é marrento e não solta a bola, como era querido por todos no Barcelona, time com filosofia mais coletiva do mundo no qual, se alguém tiver que brilhar será o gênio argentino?

O PSG fez Neymar dar alguns passos atrás e hoje lembrar mais o garoto do Santos que tinha que resolver tudo na individualidade que o craque maduro e solidário do Barcelona. Aquele que voou no início da Era Tite na seleção brasileira. Fazendo gols ou dando assistências. Nos últimos tempos passou a prender um pouco mais a bola. Contra a Sérvia, sem reclamações e provocações. Fominha só no final, buscando seu gol com o placar tranquilo.

Neymar são vários. Como cada um de nós, só que com milhões de olhos o stalkeando no Instagram e nos sites sobre celebridades. Sendo dissecado à distância. Para muitos um deus, para outros tantos tudo de pior. No país do “Fla-Flu” e do pensamento binário, onde você é zero ou é um, ter muitas facetas é um problema sério.

Às vezes Neymar parece não ligar e estar alheio a tudo que o cerca. Mas sabe do que falam e escrevem. Parece desdenhar, mas vez ou outra muda o comportamento de acordo com críticas e elogios. É confuso, controverso. Dizem que não tem carisma e é antipático, mas nunca deixa de ser notícia. Até pelo que não fez. Tudo parece tão fake que bem que pode ser verdade.

Neymar é “ame-o ou deixe-o”. É vencer querendo mais mandar um “chupa” para os haters do que celebrar o próprio feito. É no carinho e na porrada. “100% Jesus” ou “Vão ter que me engolir”. Neymar é o Brasil. Deixem o menino-homem brincar. Mas com moderação.


Argentina sobrevive na fibra, mas referência deve ser 1º tempo “sabellista”
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André Rocha

A Nigéria deu muitas chances para a sorte fugir no jogo que valia classificação. No primeiro tempo por aceitar a imposição argentina e, depois do empate ganho de presente no pênalti discutível, mas tolo de Mascherano, que podia ter evitado, e convertido por Moses no início do segundo tempo. Depois desperdiçar chances seguidas – a melhor de Ighalo, livre à frente do goleiro Armani. Nenhum controle do jogo para administrar a vantagem do empate.

Deixou espaços demais e pagou no gol de Rojo. De uma Argentina desorganizada, com os nervos em frangalhos. Na fibra e na camisa bicampeã mundial, a seleção de Jorge Sampaoli arrancou à forceps a segunda vaga do Grupo D, beneficiada pela vitória da Croácia repleta de reservas sobre a Islândia também por 2 a 1.

Mas para o confronto diante da França nas oitavas de final, a referência da albiceleste deve ser o primeiro tempo em São Petersburgo.

Sem a bola, duas linhas de quatro com Messi solto atrás de Higuaín. No ataque, Mercado mais fixo na lateral direita formando um trio de defensores com Otamendi e Tagliafico, que cobria o lateral Rojo. Pérez atacava como ala, mas deixando o espaço que Messi precisa: entre a defesa e o meio-campo do adversário, partindo da direita para dentro. Simplicidade para fazer o talento desequilibrar.

Mas foi como atacante que o camisa dez desequilibrou. Belo passe longo de Banega, domínio, toque e finalização de gênio. Para fazer uma Argentina mais com jeito da vice-campeão mundial em 2014 de Alejandro Sabella depois da conversa entre Mascherano e Sampaoli.

Controle do jogo com posse de bola (64%) sem se desorganizar. Chances de ampliar com Higuaín e na cobrança de falta de Messi na trave esquerda de Uzoho. Cinco finalizações, três no alvo. Nenhuma dos nigerianos na direção da meta de Armani.

O desafio é não entrar em parafuso com a adversidade. A equipe fria e inteligente se dissolveu com o gol sofrido e o resto foi drama. A França, mesmo inconstante e ainda uma incógnita, pode não perdoar outro desespero de Messi e seus companheiros. Mas a receita está pronta: mais Sabella, menos Sampaoli. Basta o atual treinador seguir humilde e com o ouvido atento.

Argentina no 4-4-1-1 básico claramente inspirado na vice-campeão mundial de 2014 com Sabella. Posse de bola sem se desorganizar diante do 5-3-2 da Nigéria que no primeiro tempo permitiu o controle da albiceleste (Tactical Pad).

(Estatísticas: FIFA)


Croácia sobra contra a loucura de Sampaoli. Messi desta vez foi vítima
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André Rocha

A chance da Argentina ser competitiva era, ou ainda é, o pragmatismo de Jorge Sampaoli emulando uma equipe aos moldes de Alejandro Sabella. Duas linhas de quatro compactas, organização, simplicidade e liberdade para Messi potencializar seu talento.

Mas o treinador, mesmo com pouco tempo de trabalho, muita instabilidade e um grupo, digamos, heterogêneo de jogadores, não abriu mão de suas convicções. Na estreia até tentou algo próximo da ideia de Sabella. Como não foi bem nem venceu, resolveu fazer do seu jeito.

E mandou a campo os três zagueiros adiantados, alas bem abertos e um trio ofensivo formado por Messi, Aguero e Meza. O 3-4-3 preferido pelo treinador, discípulo de Marcelo Bielsa, em seus outros trabalhos. Nunca sequer treinado com esta formação neste ciclo de um ano.

Logo contra a Croácia de Rakitic, Perisic, Modric e Mandzukic. Líder do grupo, sem tensão de estreia. Respeitando a camisa albiceleste e Messi. Por isso a escalação de Brozovic para ser o volante do 4-1-4-1 e negar os espaços entre defesa e meio-campo a Messi.

Saída rápida pelos flancos com toques rápidos buscando Mandzukic. Teve algum problema para adaptar o sistema à proposta argentina. Podia ter sucumbido no incrível gol perdido por Enzo Pérez, o meio-campista escalado com Mascherano para proteger a retaguarda cada vez mais exposta.

Mas controlou o jogo e esperou o erro. Veio do goleiro Caballero, titular por ser considerado pelo treinador o melhor a jogar com os pés. Mas vacilou na reposição após o recuo e entregou nos pés de Ante Rebic, que acertou linda finalização, ainda mais por não esperar o “presente”.

A Argentina desmoronou emocionalmente. Porque não há nenhuma segurança do que se pode fazer em campo. Um barco à deriva. Com espaços, Modric e Rakitic desfilaram a classe e os recursos técnicos que o planeta conhece. Dois belos gols para dimensionar a distância atual entre as equipes. 3 a o para garantir a classificação e dar moral aos croatas para as oitavas.

Moral. Confiança. Tudo que a Argentina não tem para jogar a sua história contra a Nigéria. Adversário sempre duro, que pode chegar ainda vivo. Que curiosamente estava no “grupo da morte” em 2002 que mandou os favoritos argentinos para casa. Também os nigerianos. Eliminados por dois europeus, Inglaterra e Suécia. Se a Islândia vencer amanhã a história pode se repetir.

Porque Sampaoli foi mais insano que “El Loco” Bielsa ao mudar sistema, modelo e plano de jogo dentro da Copa do Mundo sem nada para construir sua convicção. Por isto desta vez o contexto não permite condenar Messi. De novo passivo e desanimado depois de sofrer um gol. Mas a combinação do nível do adversário e da desorganização e mediocridade dos companheiros transforma o camisa dez em vítima. Mesmo considerando que é a última chance de vencer como protagonista por seu país.

Simplesmente não havia o que fazer. Haverá ainda algo para salvar a Argentina de um vexame histórico na Rússia?


As diferenças entre ferrolho, catenaccio, retranca e linha de handebol
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André Rocha

Como previsto neste blog antes mesmo da bola rolar na Rússia, a Copa do Mundo de 2018 vem trazendo nesta primeira rodada da fase de grupos e especialmente nas atuações da Islândia no empate com a Argentina por 1 a 1 e na do Irã, derrotada pela Espanha por 1 a 0, a marca de sistemas defensivos sólidos e organizados numa linha que costuma proteger a área com cinco, seis ou até sete jogadores.

Nas redes sociais e nos debates em TV, internet, rádio e na mesa de bar surge logo o termo “retranca”, normalmente reduzindo a estratégia das seleções que se fecham como um amontoado de jogadores guardando “covardemente” a própria meta.

Muito comum também recorrem a termos que orbitam o “glossário” habitual do futebol como “ferrolho” e “catenaccio” como sinônimos de estilos que privilegiam o trabalho defensivo. Como se fosse tudo a mesma coisa.

Não é. Até porque são práticas de épocas diferentes, com todas as suas particularidades. Seu “zeitgeist”, ou espírito do tempo. São de uma época que não volta mais, ainda que o legado de todos os eles sempre ajude a construir o que se pratica hoje.

Tudo começa no reconhecimento de que se um time tentar encarar o adversário de frente sendo inferior tecnicamente as chances de ser derrotado e até goleado aumentam exponencialmente. Jogar mal e deixa o oponente à vontade é um convite ao fracasso.

Não foi exatamente o que pensou Karl Rappan ao chegar ao Servette no final dos anos 1920 para ser jogador-técnico. Sua preocupação maior era a questão física, já que seu time era semiprofissional e iria enfrentar adversários totalmente dedicados ao esporte. Mas a questão técnica também era importante.

Por isso criou o “verrou”, ou “ferrolho”. Nada mais era que uma evolução diferente do 2-3-5 para o WM (3-2-2-3). Um defensor protegendo a linha de três zagueiros, um centro-médio à frente de dois meias, dois pontas e um centroavante. Uma espécie de 4-3-3 com líbero. Encaixando no sistema rival. Cada um marca o seu e um homem sobra. Com o olhar de hoje, nada demais.

O “ferrolho” da Suíça em 1938 que chamou atenção pela solidez defensiva. Basicamente um 4-3-3 com líbero (Tactical Pad).

Mas chamou atenção na época especialmente na Copa do Mundo de 1938, a última antes da Segunda Guerra Mundial. A Suíça de Rappan venceu a Inglaterra em um amistoso pré-Copa e na estreia superou os alemães. Acabou vencido pelos húngaros e voltaram para casa. Marcaram época, porém.

E o que marcaria o conceito de “retranca” também estava lá na Suíça. Não exatamente com quantos se defende, mas como se ataca. O time poderia jogar em qualquer sistema, mas se atacasse apenas em velocidade com bolas longas para seus atacantes, chegando com apenas três ou quatro na área adversária e marcasse poucos gols já era chamado de time “covarde”.

Como o Fluminense nos anos 1950, cujo grande destaque era o goleiro Castilho e vencia seus jogos por placares magros em tempos de gols em profusão. Por isso ganhou o apelido de “timinho”. Mas vencia.

Multicampeão foi Helenio Herrera, argentino que comandou a Internazionale de 1960 a 1968, mas com passagens pelas seleções de Espanha e Itália. O treinador que atualizou o “catenaccio”, a porta trancada. Estratégia que teve seu primeiro ensaio no “Método” de Vittorio Pozzo, bicampeão mundial de 1934 e 1938 pela Itália e a consolidação com Nereo Rocco, vice-campeão italiano de 1948 com o Triestina e que depois se consagraria no Milan dos anos 1960.

Herrera contestava o rótulo defensivista para sua estratégia que adaptou o volante Picchi como líbero para que Fachetti tivesse liberdade para atacar pela esquerda como o “terzino fluidificante”. O armador espanhol Luís Suárez, chamado de “regista”, acionava o trio de ataque em contragolpes. O conceito ofensivo de Herrera não podia ser mais atual: poucos toques na bola e velocidade. “Se você toca verticalmente e perde a bola, o prejuízo é pequeno. Mas se perder tocando horizontalmente pode levar um gol”, explicava.

Helenio Herrera armou o “catenaccio” na Internazionale com líbero para permitir que Facchetti tivesse liberdade para apoiar pela esquerda. Time de toques rápidos e velocidade no ritmo do “regista” Luis Suárez (Tactical Pad).

A estratégia da Itália campeã mundial em 1982 que eliminou o lendário Brasil de Telê Santana até hoje é chamada erroneamente de “catenaccio”. A seleção do treinador Enzo Bearzot praticava mesmo o “gioco”. Com o líbero Scirea, o “terzino” Cabrini, o “regista” Antognoni e Bruno Conti, o “ala tornante”, ou o ponta que retorna para transformar o 4-3-3 em 4-4-2. A proposta, porém, embora reativa contra equipes superiores tecnicamente, valorizava mais a bola e tinha alguma preocupação estética, com o jogar. A marcação era mista, por zona ou encaixe para a maioria dos jogadores e individual com o grande talento do adversário. Quem não lembra de Gentile perseguindo Zico e Maradona por todo o campo?

No Brasil, as retrancas sempre foram tratadas como o único recurso para o time inferior. Algo inconcebível para times grandes. Os quatro da defesa mais o volante, o meia-armador e o “falso ponta” recuados para que a equipe atacasse apenas com três homens. Viviam de uma “bola vadia” para vencer. Era o que faziam os times médios e pequenos contra esquadrões como o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, a Academia do Palmeiras, o Cruzeiro de Tostão, o Flamengo de Zico, entre outros tantos.

Milton Buzzeto, Paulinho de Almeida e Pinheiro foram “retranqueiros” célebres, comandando times pequenos que se fechavam e tomavam pontos dos grandes. Muitas vezes apelando para faltas violentas e esburacando os gramados para dificultar a vida das equipes mais técnicas.

Há, porém, uma diferença clara entre os métodos citados e as atuais linhas “de handebol”. Enquanto o “ferrolho”, o “catenaccio” e a retranca tinham o jogador adversário como referência com perseguições individuais, o trabalho sem a bola na atualidade, na grande maioria dos casos, procura fechar espaços de acordo com a região em que está a bola. Marcação por zona.

O “marco zero” surgiu por necessidade. José Mourinho perdeu Thiago Motta expulso no Camp Nou contra o Barcelona de Pep Guardiola na semifinal da Liga dos Campeões 2009/10 precisando administrar uma vantagem de dois gols, mas que pela vitória por 3 a 1 da Internazionale em Milão podia escapar com uma derrota por 2 a 0.

Com a desvantagem numérica, Mourinho abriu mão totalmente da posse de bola e da possibilidade de contra-atacar e plantou seu time na frente da área. Mas não de forma desordenada. Criou uma linha de seis ou sete jogadores para ao mesmo tempo negar espaços para as arrancadas de Lionel Messi e também as infiltrações por dentro, mas sem deixar de cuidar dos jogadores abertos que eram um dos segredos do esquadrão blaugrana para abrir as defesas adversárias.

José Mourinho armou a “linha de handebol” com sete homens, inclusive Samuel Eto’o protegendo a própria área do Barcelona de Guardiola. E o futebol começou a mudar. (Reprodução ESPN)

Sofreu apenas um gol e ainda viu o Barça apelar para Piqué como centroavante nos minutos finais. Já que não havia como infiltrar, a saída foi levantar bolas na área. Mourinho tirou o Barça de seu conforto, alcançou uma classificação heroica para a final da Liga dos Campeões que terminaria em título. O último da Champions do clube e do treinador. Mais que isto, sua resposta a Guardiola mudou o futebol mundial.

Alguns treinadores tentaram copiar os conceitos do catalão, mas a maioria, quando necessário, assimilou mesmo o “ônibus” de Mourinho. Já que o jogo passou a ser feito em 20, 30 metros, o time concentra o maior número de corpos nos espaços certos perto da própria área para impedir que o adversário entre. Como no handebol.

O desenho tático pode variar. Uma linha de quatro defensores pode ganhar mais dois pelos lados e passar a ser formada, na prática, por seis homens. Ou sete, se a linha for de cinco ganhando mais um zagueiro. Mas dois jogadores para impedir os chutes de fora da área com liberdade e um único atacante.

Mourinho tirou a vergonha e colocou a inteligência na retranca. Junto com outros treinadores foram aprimorando os conceitos ao longo do tempo. Sem deslealdade ou jogo sujo, apenas posicionamento e concentração. É claro que no mais alto nível fica difícil competir com equipes mais versáteis e talentosas – e Mourinho vem sofrendo com isso nos últimos anos.

Mas para confrontos como o dos iranianos comandados por Carlos Queiroz diante dos favoritos espanhois é uma estratégia legítima e até lógica. Embora não agrade as retinas deste que escreve, muitos conseguem até enxergar beleza na prática.

Irã com seis jogadores protegendo a própria área: quatro defensores e os dois pontas voltando como laterais para conter a Espanha (reprodução TV Globo).

Só não é tudo igual. As linhas de handebol podem até ser consideradas uma evolução de “ferrolho”, “catenaccio” e “retranca”. Mas as práticas e os princípios são bem distintos. Basta ter olhos de ver.

 

 


Copa do Mundo deve combinar características da última Euro e da Champions
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André Rocha

A Copa do Mundo tem sua abertura na quinta-feira com a anfitriã Rússia diante da Arábia Saudita. O primeiro duelo já deve dar a tônica do que provavelmente será a fase de grupos na maioria das partidas.

Uma seleção favorita pela camisa, história, tradição e/ou um grupo mais qualificado de jogadores contra uma equipe tratada como “zebra” fechando espaços no próprio campo. Com a cada vez mais frequente linha de cinco ou mesmo a tradicional com quatro defensores, porém com os pontas recuando como laterais formando um cinturão guardando a própria área. Todos os movimentos estudados por departamentos de inteligência cada vez mais equipados e qualificados.

Então o time que ataca busca uma jogada individual mais perto da área do oponente, ou uma virada de bola rápida que surpreenda o sistema defensivo. Se não for possível, os chutes de média e longa distância, a jogada aérea com bola rolando ou parada e o desarme no campo de ataque com transição rápida viram as possíveis soluções para ir às redes. Tudo isso atento ao balanço defensivo para não dar ao rival os espaços tão desejados às costas da retaguarda.

Fica tudo muito condicionado ao primeiro gol. Se a seleção que defende marca aí o bloqueio fica ainda mais sólido, com todos os jogadores num espaço de 20 metros em linhas quase chapadas, como no handebol. Já se o favorito abre o placar aumenta exponencialmente a chance do jogo mudar e os espaços e mais gols aparecerem.

Foi o que aconteceu na última Eurocopa, na França em 2016, com algumas partidas de fato entediantes para quem aprecia uma trocação de ataques e gols e se apega ao esporte mais pela emoção que pelo jogo em si. Apenas oito placares com vantagens iguais ou superiores a dois gols num total de 36 partidas. Média de 1,2 por jogo.

Sim, desta vez haverá Messi, Neymar, Suárez, James Rodríguez, Salah, Guerrero, o jovem Mbappé que surgiu ano passado na França e outros talentos desequilibrantes. Mas também um trabalho defensivo ainda mais concentrado e aprimorado para bloquear a técnica e o improviso.

Por outro lado, se os favoritos em cada grupo conseguirem suas classificações o torneio tende a passar por uma transformação, como a que ocorre quase todo ano na Liga dos Campeões. A partir da primeira “seleção natural” o nível já sobe bastante. Mesmo com a presença de algumas surpresas que se conseguem a vaga a partir das quartas é porque houve mérito.

Imaginemos a partir das oitavas os duelos envolvendo as favoritas Alemanha, Brasil, Espanha e França, mais os talentos belgas, o Uruguai de Cavani, Suárez e agora meio-campistas mais qualificados. Inglaterra, Colômbia, Croácia…A Polônia de Lewandowski e a promissora Dinamarca do meia Eriksen. E ainda Messi e Cristiano Ronaldo no Mundial que provavelmente será o último da dupla de extraterrestres jogando no mais alto nível. Conduzindo Argentina e Portugal. Mas ao contrário do universo dos clubes sem o favoritismo de Barcelona e Real Madrid, o que torna tudo mais imprevisível e eletrizante. Mesmo sem o peso de Holanda e Itália, esta a única ausente do seleto grupo de campeãs. Em jogo único. Segue ou vai para casa.

A torcida é para que este que escreve esteja enganado em sua previsão da primeira fase e os jogos eliminatórios sejam acima das ótimas expectativas. Mas caso o blogueiro tenha razão viveremos uma montanha russa de impressões. Para o deleite dos saudosistas – como se nas décadas anteriores os Mundiais não tivessem peladas homéricas, inclusive com a seleção brasileira – e reclamões de plantão na “chata” primeira fase e depois a apoteose de jogaços na reta final deixando a média positiva.

Seja como for, Copa do Mundo é como pizza. Até quando é ruim é boa e vale a pena. O maior evento esportivo do planeta que felizmente acontece de quatro em quatro anos e não se banaliza, ao menos por enquanto. Que tudo enfim comece na Rússia!


Iniesta, o melhor coadjuvante que um time pode querer, vai fazer falta
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André Rocha

Foto: Divulgação/Barcelona

34 anos, 22 no Barcelona. 32 títulos no clube, mais três pela seleção espanhola. O mais importante, da Copa do Mundo em 2010, fazendo o gol da conquista na prorrogação. Algo que já valeria respeito e reverência em toda Espanha, mesmo dos madridistas.

Mas Iniesta é muito mais que isto. Cidadão consciente. De seu tamanho e do que representa, mas também dos valores que são importantes. Foi o que se viu principalmente no campo de jogo. No clube ou na seleção, sempre foi o melhor coadjuvante que um time pode ter.

Conviveu tranquilamente com o protagonismo de Ronaldinho Gaúcho e Messi no Barça e de Xavi como símbolo maior do estilo da seleção espanhola. Nunca deu entrevistas cobrando Bola de Ouro, até quando mereceu em 2012. Total consciência de ser um facilitador.

Um gênio da simplicidade e do senso coletivo. Se o mais adequado é o passe curto, de lado, para manter o controle da bola e o time no campo de ataque sem riscos, ele não vai inventar algo diferente tentando ser mais do que o necessário.

Heroismo só quando for essencial. Como no gol sobre o Chelsea na semifinal da Liga dos Campeões 2008/09 ou no chute decisivo do Mundial da África do Sul. Ou liderando uma Espanha já iniciando a curva descendente na Eurocopa 2012. O grand finale da geração mais vitoriosa do país. Coletiva, sem uma estrela maior. E ainda tem a Copa da Rússia como uma possibilidade de cereja do bolo.

Iniesta é digno até na hora de se retirar. Ao perceber que o time precisa de mais intensidade e vigor abre espaço com humildade, sem deixar o clube na saia justa de manter mais pela história que por conta do desempenho. Sim, havia negócios para conciliar na China e agora podem surgir oportunidades também fora de campo no Japão.

Mas o camisa oito nos gestos e exemplos nunca simbolizou ganância. Pelo contrário, apenas generosidade. Como na passagem da braçadeira para Lionel Messi. Por isto vai fazer tanta falta ao futebol mundial no seu mais alto nível. Como lembrou a torcida no Camp Nou em camisas e bandeiras na vitória sobre a Real Sociedad por 1 a 0, golaço de Philippe Coutinho, jogadores e pessoas como ele são infinitos. Ou deveriam ser.