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As entrelinhas do acerto do Vasco com Milton Mendes
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André Rocha

No sábado à tarde, Eurico Miranda atendeu a ligação deste blogueiro sem disfarçar a irritação ao responder sobre o interesse do clube na contratação do técnico Milton Mendes.

“Não confirmo nada”, foi a resposta seca. O feeling de quem conhece há décadas o modus operandi do presidente vascaíno era de que o vazamento contrariou o dirigente e o anúncio era questão de tempo.

Com a confirmação de forma oficial no dia seguinte, depois do empate sem gols com o Botafogo no Engenhão, a escolha do novo técnico deixa algumas mensagens nas entrelinhas.

A primeira é que Vanderlei Luxemburgo, nome que surgiu com força e parecia o preferido da torcida pelo que se ouvia nas ruas e notava nas redes sociais e enquetes em portais, não desperta mais tanta confiança.

Primeiro porque nas entrevistas e participações em programas de TV suas declarações de que o futebol continua o mesmo, sem novidades ou evolução no jogo em si, impressionam qualquer um que acompanhe minimamente o que se faz no mundo todo, especialmente nos grandes centros.

Em segundo lugar, e principalmente, há sempre a dúvida: será que o treinador consagrado de outrora vai aceitar trabalhar apenas no campo ou vai dar pitaco em questões administrativas, na estrutura e tomar a frente em negociações de jogadores?

Para um centralizador como Eurico, este pode ter sido o fator decisivo para descartar Luxemburgo. Mais do que o conflito CLT x multa contratual na parte burocrática ou declarações polêmicas do técnico contra a FERJ quando trabalhou no Flamengo.

A escolha de Milton Mendes, que iniciou a carreira de jogador no Vasco, certamente passa pela identificação com o clube, tão valorizada por Eurico, mas também por uma característica do novo comandante: costuma dar respostas rápidas em seus trabalhos. Assim foi no Atlético Paranaense e especialmente no Santa Cruz.

Assumiu em março de 2016, emendou nove vitórias e sete empates, conquistou Copa do Nordeste e Pernambucano, chegou a liderar o Brasileiro nas primeiras rodadas. Ganhou respeito por seu discurso otimista, a elegância no trato com a imprensa e os métodos modernos.

Exige setores compactos e organização, independentemente da escalação com jogadores mais ofensivos ou marcadores. No Vasco deve partir de duas linhas de quatro dando liberdade a Nenê e Luis Fabiano, a estrelas do elenco. Como fez no Santinha com Grafite.

Depois a queda foi vertiginosa, deixando o time pernambucano na zona de rebaixamento, da qual não saiu mais. Preocupante em um trabalho a longo prazo. Mas Eurico quer uma recuperação a ponto de ainda conquistar o Carioca.

Tricampeonato estadual que seria a marca da sua volta ao clube. Ainda que manchada por um rebaixamento. E hoje, olhando o cenário nacional, as pretensões cruzmaltinas para o segundo semestre seriam apenas de se manter na Série A.

É o maior desafio da carreira de Milton, sem dúvida. Por isso não deixa de ser uma enorme incógnita. Até porque a torcida, impaciente com Cristóvão Borges, esperava um técnico tarimbado e com currículo respeitável para lidar com um elenco experiente. Mas pode dar certo.

O que deixa um rastro de dúvida é a influência de Carlos Leite nas decisões do clube. Negociou Luxemburgo e fechou com Milton, ambos agenciados pelo empresário. A contratação de Cristóvão Borges também teve sua indicação.

Por mais que não haja provas e sempre se parta da presunção da inocência, fica no ar a pergunta: será que os jogadores de Carlos também não terão preferência na montagem do elenco e até na escalação do time titular?

Questões que começam a ser respondidas na prática por Milton Mendes a partir da sua apresentação oficial marcada para hoje, segunda-feira, em São Januário. Eliminado da Copa do Brasil e precisando de pontos na Taça Rio para disputar a fase final do Carioca, o Vasco precisa reagir rápido. Para isso contratou o técnico certo, ao menos na teoria.

Mas como será o amanhã?

 


Santa Cruz e Milton Mendes campeões! Trocar técnico nem sempre é retrocesso
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André Rocha

Milton_Mendes_Santa_Cruz

No dia 28 de março, o Santa Cruz anunciava a saída de Marcelo Martelotte, que havia levado o time para a Série A em uma louvável campanha de recuperação. Em 2016, estava garantido no mata-mata da Copa do Nordeste e entre os quatro primeiros no hexagonal final do segundo turno que garantiria a vaga nas semifinais. Triunfo na estreia da Copa do Brasil sobre o Rio Branco, mesmo não evitando o jogo de volta. Resultados aceitáveis, mas desempenho em queda livre. Demissão.

Chegou Milton Mendes. Discurso polido, tentando cativar os jornalistas com educação, cumprimentando e anotando o nome de cada um já na primeira entrevista coletiva. A dúvida era se a postura e o discurso do treinador catarinense de 50 anos, que fez carreira em Portugal, mas com passagens por Catar, Japão e um trabalho que chamou atenção no Atlético Paranaense dariam respostas em campo. E precisava ser rápido por conta da sequência de jogos decisivos.

Dois dias depois, primeiro duelo pelas quartas-de-final do torneio regional contra o Ceará. O interino Adriano Teixeira à beira do campo, Milton assistindo de cima. Intervalo com derrota no Arruda, o novo treinador desceu ao vestiário, tranquilizou os jogadores e auxiliou na substituição. Virada com gols de Keno, o decisivo aos 45 minutos.

Na beira do campo, estreia com vitória e classificação em Fortaleza sobre o mesmo adversário. Na Copa do Brasil, empate sem gols com o Rio Branco confirmando classificação para a segunda fase. No Estadual, novo empate com o Sport, confirmação da presença nas semifinais contra o rival Náutico.

Volta à Copa do Nordeste na semifinal contra o Bahia, algoz do tricolor na fase de grupos com duas vitórias. Empate com gols preocupante em Recife, vitória fantástica em Salvador. Mas Milton foi expulso ao agredir com uma cabeçada um membro da comissão técnica do adversário.  Suspensão. Volta confiante ao Estadual, duas vitórias sobre o Náutico. Santinha na final em Pernambuco.

Decisão da Copa do Nordeste contra o competitivo Campinense de Francisco Diá, do criativo Roger Gaúcho e do artilheiro Rodrigão. De novo definindo fora. Sem Milton Mendes à beira do campo. No Arruda, empate em 1 a 1 até os acréscimos. O técnico através de seus auxiliares fizeram três mexidas. Entraram Leo Moura, Raniel e Bruno Moraes. Jogada dos dois primeiros, gol da vitória do atacante substituto.

Na final, o gol de Rodrigão parecia ser um duro golpe para o fim da invencibilidade de nove jogos de Milton Mendes. Mas Arthur empatou para lembrar que o treinador reconstruiu o Santa Cruz com vocação ofensiva para agrupar o autor do gol, Keno e Grafite na frente. Também capacidade de competir com o meio-campo que ganhou solidez com Uillian Correia. Poder de reação, perseverança.

Desempenho que melhorou o resultado desde o início. Acontece com outras equipes que mais à frente estacionam na evolução. Difícil prever o que o time pernambucano pode fazer na volta à Série A do Brasileiro.

Mas futebol não tem receita de bolo. A troca do comando técnico nem sempre é retrocesso. Precisa ser feita com convicção, na contratação e na dispensa dos serviços. O ideal é que o profissional tenha tempo para implementar seu modelo de jogo. Mas insistir sem notar lastro de evolução é tão equivocado quanto demitir apenas pelo resultado que não vem.

O Santa Cruz arriscou. Milton Mendes chegou combinando gestão de grupo, motivação, mudança de mentalidade e salpicou seus conceitos táticos e estratégicos, mesmo sem tempo para treinar.  Acertou e errou. Mas o saldo é muito positivo em pouco mais de um mês desde a apresentação.

Que seja referência não pelas vitórias e o título do principal torneio do primeiro semestre no país, mas pela capacidade de se adaptar ao contexto e fazer o time jogar e vencer.

 

 


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