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Gol contra e “pane” de Fernandinho pesaram mais que a mudança de Martínez
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André Rocha

Tostão costuma dizer em suas colunas que o futebol muitas vezes é mais simples e tem seus desdobramentos movidos muito mais por aleatoriedades e acasos do que propriamente por algo planejado ou pela estratégia dos treinadores.

Este blogueiro já desconfiou mais desta tese, mas quanto mais vê o jogo acontecer mais passa a crer nesta visão de quem esteve lá dentro e tem inteligência e sensibilidade para perceber os detalhes que muitas vezes escapam aos nossos olhos.

Em todo mundo pululam análises da vitória da Bélgica sobre o Brasil que carregam como elemento central o fator surpresa da formação de Roberto Martínez num 4-3-3 com Lukaku pela direita, De Bruyne como “falso nove” e Hazard à esquerda. Um tridente ofensivo que não voltava na recomposição e ficava pronto para as saídas em velocidade. Sem dúvida algo incômodo e inesperado para Tite e seus comandados. Mas será que foi tão decisivo assim?

A dúvida ao rever a partida com mais serenidade e distanciamento nasce pelo fato de que até os 13 minutos de jogo em Kazan o que se via eram duas equipes tensas e ainda se adequando ao novo cenário. O Brasil saía do plano inicial, mas a Bélgica também tinha adaptações a fazer, como voltar a se defender com quatro homens atrás depois de vários jogos com linha de cinco. Mas principalmente se fechar apenas com sete jogadores e tendo Fellaini e Chadli como elementos novos e com funções diferentes das executadas na virada sobre o Japão.

O problema era o lado direito, com Meunier contando com o apoio de Fellaini e a cobertura de Alderweireld contra Marcelo, Philippe Coutinho e Neymar. Pouco. Por ali a seleção brasileira criou espaços e conseguiu o escanteio cobrado por Neymar aos oito minutos. Desvio de Miranda e Thiago Silva, meio no susto, acertando a trave direita de Courtois.

Até os 13, a Bélgica encontrou, sim, espaços às costas do meio-campo brasileiro que também tentava se ajeitar com a entrada de Fernandinho na vaga de Casemiro. Plantado à frente da defesa no 4-1-4-1 habitual de Tite. Desta maneira que saiu o escanteio. Passe do De Bruyne, chute de Fellaini.

Assim como ficou claro em outros momentos do jogo, Martínez trabalhou a cobrança na primeira trave. Sabia das fragilidades da retaguarda adversária na bola aérea. Mas Kompany não conseguiu desviar o centro de Chadli. O gol contra foi de Fernandinho.

Logo ele. Personagem central da sequência de gols alemães no 7 a 1 do Mineirão. Foi nítido o efeito devastador na força mental do volante. A concentração tão exigida por Tite havia caído por terra. Não só do jogador do Manchester City, mas da defesa que ficou desguarnecida. Que já tinha um ponto sensível com Fagner no mano a mano com Hazard. Neste cenário, a ausência de Casemiro se fez mais impactante. E a presença de Marcelo, retornando depois de duas partidas com Filipe Luís como titular, mais desnecessária pelos espaços que deixava às suas costas. O sistema de cobertura com Miranda saindo e o volante fechando a área se perdeu.

Abalado também por ficar em desvantagem pela primeira vez no torneio, o time verde e amarelo sofreu contragolpes seguidos, mas o do segundo gol, curiosamente, não teve Lukaku à direita e De Bruyne centralizado. O centroavante buscou a bola no centro e arrancou deixando Paulinho para trás. Sem confiança e força física para a disputa, Fernandinho ficou pelo caminho. Marcelo optou por fechar o “funil” e deixou todo o lado direito para Meunier e De Bruyne, que acertou um petardo na bochecha da rede.

O resto é história, inclusive a pressão brasileira que poderia ter resultado no empate ou até na virada. Com a Bélgica mantendo a estratégia e sofrendo demais para sustentar a vantagem. A equipe de Tite corrigiu o setor defensivo, Miranda ganhou todas de Lukaku e ofensivamente teve volume e espaços para criar e finalizar. Os europeus se reduziram à luta e às defesas de Courtois. A mais espetacular em chute com efeito de Neymar. Renato Augusto e Coutinho perderam chances com liberdade e de frente para o gol. Acabou sendo a diferença no placar das quartas de final.

Nada que tire os méritos da Bélgica semifinalista. Aproveitar as instabilidades do oponente também é virtude e decide jogos. Ainda mais os eliminatórios, tantas vezes definidos pelas individualidades e pelo componente emocional.

Por isso a dúvida que ficará para sempre. O que matou o Brasil: o gol contra de Fernandinho que tirou confiança do volante e escancarou a defesa ou a surpreendente mudança de Martínez? Pelo visto, a história das Copas do Mundo já escolheu a versão mais sedutora: o inesperado. Ou o “nó tático”.

Este que escreve, mesmo valorizando a tática e a estratégia, tende a seguir a lógica de Tostão desta vez, ainda que o campeão mundial em 1970 tenha colocado os dois fatores na balança em sua análise e dado ênfase à ausência de um talento como De Bruyne no meio-campo brasileiro, o que também é uma visão mais que respeitável.

É díficil, porém, não colocar a bola que bateu em Thiago Silva e não entrou e a que Fernandinho jogou contra a meta do companheiro Alisson como os verdadeiros momentos chaves de mais uma eliminação brasileira em Mundiais.

 


A fortaleza mental pode levar o Brasil de Tite ao hexa
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André Rocha

Mais uma vez a seleção brasileira sofreu no primeiro tempo. Muito pela intensidade máxima do México de Juan Carlos Osório, com Rafa Márquez como surpresa à frente da defesa dando volume ao meio-campo e Lozano e Carlos Vela alternando pelos flancos para cima de Fagner e Filipe Luís.

Mas sofreu com organização no 4-1-4-1 e, principalmente, uma força mental sem oscilações. Com a trinca Thiago Silva, Miranda e Casemiro minimizando erros, consertando falhas. Na saída de bola e na recomposição. Principalmente de Phillipe Coutinho, apertado por Herrera e só crescendo quando se aproximava de Neymar.

Concentrado defensivamente como todos. Paciente em busca dos espaços. Surgiram na segunda etapa quando Osorio arriscou Layún no lugar de Rafa Márquez. Mas sem voltar ao 4-2-3-1 da vitória sobre a Alemanha. Layún entrou na lateral, com Álvarez, já com amarelo, saindo do duelo com Neymar, indo para o meio e mantendo o tridente Lozano-Chicharito-Vela. Diminuiu a pressão na saída brasileira e descompactou as linhas mexicanas.

O calor em Samara foi minando as forças do time de Osorio. O crescimento de Willian e um Neymar focado apenas em jogar, mesmo apanhando demais, fizeram o serviço. Calcanhar do camisa dez, jogada de Willian pela esquerda e gol de centroavante de Neymar. Camisa dez que passou a jogar mais adiantado para poupar esforços e fugir das pancadas.

Gabriel Jesus, sem gols mas com imensa dedicação tática, foi ser o ponta esquerda. Tanto que Roberto Firmino entrou na vaga de Coutinho, que também melhorou na segunda etapa. Para jogar de meia, na função de Coutinho. E aproveitar o rebote de Ochoa na arrancada de Neymar e marcar seu primeiro gol na Copa. E garantir o Brasil nas quartas.

Sem Casemiro. Desfalque importante e preocupante contra Bélgica ou Japão. Mas Fernandinho entrou bem no lugar de Paulinho e deve manter a concentração. Basta lembrar dos 3 a 0 sobre a Argentina no Mineirão pela Eliminatória. É possível manter o desempenho.

Impressiona o equilíbrio da equipe de Tite. Terminou com 46% de posse, mas duelou pelo controle da bola na maior parte do jogo. Finalizou 21 vezes, 10 no alvo. Fez de Ochoa um dos melhores em campo. O México concluiu 13 vezes, mas apenas uma na direção da meta de Alisson. Nenhuma chance cristalina.

Segurança, solidez. O talento resolvendo na frente, como o “molho” do trabalho coletivo. Com Neymar só pensando em futebol. Em desequilibrar e ser o craque de cada jogo e do Mundial. Como deve ser. A fortaleza mental pode levar o Brasil ao hexa.

(Estatísticas: FIFA)


Brasil vence, mas não fura linha de cinco da Rússia como Tite queria
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André Rocha

Não é nada fácil colocar em prática algo tão complexo como o jogo de posição em pouco tempo. Problema do ciclo de apenas dois anos de Tite e uma certa demora para trabalhar esses conceitos, só depois do “susto” contra a Inglaterra. E sempre é mais complicado desequilibrar sem Neymar, o maior talento brasileiro.

Por isso a seleção sofreu no primeiro tempo e, objetivamente, não furou a linha de cinco da Rússia como Tite queria: trocando passes, com meio-campistas buscando jogo entre as linhas e ponteiros bem abertos esgarçando a marcação adversária. Paciência até infiltrar e finalizar.

Imaginava-se os laterais atacando por dentro, mas Marcelo desceu mais aberto. Talvez porque Tite pense em Neymar circulando mais e procurando o centro, criando a necessidade do lateral ser o responsável pela amplitude. Preocupante mesmo foi o desempenho de Daniel Alves. Confuso, errando passes fáceis, arriscando lançamentos sem sentido. Sem contar o posicionamento defensivo às vezes desatento.

Casemiro também merece um capítulo à parte. Na construção das jogadas contribui pouco. E ainda obriga jogadores que neste conceito deveriam receber a bola mais adiantados a voltar para articular. Nesta ideia Fernandinho seria mais interessante. Só que com os lapsos defensivos dos laterais é preciso ter alguém mais seguro na proteção dos zagueiros. Efeito colateral.

Como o Brasil, então, construiu os 3 a 0? Da maneira como o futebol viveu seus melhores momentos nos últimos dez anos: bola parada no gol de Miranda que abriu o placar, completando desvio de Thiago Silva, e a velocidade nas transições ofensivas quando a seleção anfitriã da Copa do Mundo se empolgou com as deficiências brasileiras e largou um pouco o ferrolho.

Deu ao jogador brasileiro o que ele mais precisa: espaços. Aí apareceram os pontas Willian e Douglas Costa em velocidade, Coutinho achou as brechas para conduzir e Paulinho para infiltrar. O meio-campista do Barcelona sofreu o pênalti que Coutinho converteu e completou mais um contragolpe brasileiro.

Alisson, Thiago Silva e Miranda salvaram alguns ataques e o Brasil podia ter marcado mais gols, inclusive na primeira infiltração do jogo, com Gabriel Jesus recebendo passe longo de Daniel Alves. Com as linhas postadas, só a desatenção russa deu chances ao Brasil.

Todo teste é válido para observações. Até para perceber as dificuldades para executar o que se planeja. Contra a Alemanha os desafios serão outros, ainda que Joachim Low arme sua seleção com cinco na defesa. É clássico mundial. Jogo para vislumbrar o que pode vir em fases finais da Copa.

Mas para enfrentar Suíça, Costa Rica e Sérvia na primeira fase as dúvidas continuam. Furar linha de cinco segue como um desafio.

 


Fernandinho na vaga de Renato Augusto é Tite definindo seus 15 “titulares”
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André Rocha

A Espanha foi campeã do mundo em 2010 utilizando 15 jogadores por ao menos três partidas em sete – de início ou saindo do banco de reservas. Seguindo este mesmo critério, Joachim Low trabalhou com 16 na campanha do tetra alemão no Brasil há três anos.

É a tônica nas Copas, não só entre as seleções que vencem. Um time titular inicial, quase sempre modificado ao longo do torneio em uma ou duas posições e outros dois ou três reservas utilizados na maioria das partidas. Ou seja, no mínimo sete jogadores entram em um ou dois jogos, no máximo. Normalmente naquela partida já definida ou no terceiro jogo da fase de grupos com o país já classificado.

Em 2010, Dunga utilizou 13 em pelo menos duas partidas num total de cinco. No Brasil, Luiz Felipe Scolari trabalhou com 17 em no mínimo três jogos. Ou seja, mesmo em seleções com irregularidade no desempenho e indefinição do treinador, a média não muda.

Tite sinaliza a entrada de Fernandinho na vaga de Renato Augusto para o amistoso de sexta-feira contra o Japão em Lille, na França. Ou seja, o volante que, em tese, seria o reserva de Casemiro entra na vaga de um dos meias por dentro no 4-1-4-1 brasileiro.

Nenhuma novidade para o meio-campista do Manchester City, que já atuou mais adiantado em outros momentos da carreira, inclusive no próprio clube inglês. Mas, principalmente, é o reconhecimento de Tite a um jogador marcado pelos 7 a 1 – injustamente, porque atuou mal porque ficou praticamente sozinho na intermediária brasileira levando botes seguidos de Khedira, Kroos e Schweinsteiger dentro de um time totalmente desorganizado – que evoluiu demais desde que passou a trabalhar com Pep Guardiola.

Na leitura de jogo, em especial. Inteligência para se posicionar, distribuir o jogo e ainda aparecer à frente, mesmo dividindo o setor com meias essencialmente ofensivos como Kevin De Bruyne e David Silva. Sabe mudar o comportamento no momento da perda da bola, logo pressionando e fechando linhas de passe. Acima de tudo, entende a necessidade de se apresentar como opção de apoio para os companheiros.

Com Casemiro, pode recuar para fazer a saída de bola e liberar o volante do Real Madrid, como Kroos e Modric fazem no plano de jogo de Zidane. Nada tão diferente do que Renato Augusto realiza, mas Tite tem razão em se preocupar com seu jogador de confiança que tem mostrado intensidade abaixo dos companheiros por disputar a liga chinesa, de menor exigência.

Para o próximo amistoso faz ainda mais sentido pela ausência de Diego Ribas, com dores musculares. O meia do Flamengo é tratado como reposição a Renato Augusto, mas a impressão que fica é de que se nada de excepcional acontecer até o Mundial, caso esteja na lista final fará parte dos sete ou oito que entrarão em campo poucas vezes ou nenhuma.

Porque o time base parece definido, com dúvidas no gol entre Alisson e Ederson, na zaga entre Marquinhos, Miranda e Thiago Silva e no meio-campo, exatamente pela inconstância de Renato Augusto, com Fernandinho correndo por fora.

Ou seja, 14 jogadores disputando posições. A outra opção que vem sendo frequentemente usada e não deve mudar é Willian. Sempre pela direita. No lugar de Philippe Coutinho, como deve ocorrer na sexta, ou de Renato Augusto, com Coutinho centralizando e o desenho tático variando para um 4-2-3-1. Ou até na vaga de Neymar, numa emergência. Neste caso, Coutinho inverteria o lado e atuaria pela esquerda.

Quinze “titulares” para o Mundial. Como o mais provável é que um goleiro seja definido como titular, pode ser que outro jogador durante a Copa seja um reserva utilizado com frequência para descansar titulares. Talvez Giuliano ou Roberto Firmino. Os outros oito apenas numa necessidade ou queda brusca de produção de um ou outro atleta entre os que iniciam as partidas.

Preocupante por essa consolidação tão precoce e pelo risco de precisar de jogadores sem muitos minutos com Tite e, em alguns casos, desempenho confiável para entrar no time em momentos decisivos. Mas é compreensível para um trabalho curto e com pouco tempo de maturação até a estreia na Rússia. O treinador deve monitorar e estimular ainda mais obsessivamente seus escolhidos para que o rendimento não caia.

Principalmente os 15 homens de Tite.

 


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