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Mais importantes que os 23 são os 14 (ou 15) usados jogo a jogo na Copa
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André Rocha

A lista de Tite é boa e coerente. Embora, a rigor, não seja a definitiva. É tudo que a comissão técnica não quer, mas pode ser alterada até a estreia por alguma lesão ou qualquer outro problema, até particular. A expectativa criada, porém, é mais que compreensível no país cinco vezes campeão mundial.

Mas o fato é que os 23 não vão jogar. No máximo aquela terceira partida da fase de grupos com a seleção brasileira já classificada. Ou se vier o caos de uma sequência de lesões ou um desempenho tão ruim que obrigue o treinador a mexer profundamente na base durante o torneio. Improvável, ainda mais com Tite.

Por isso vale mesmo pensar nos 14 ou 15, no caso de prorrogação nos jogos eliminatórios que permitirá quatro substituições, que entrarão em campo jogo a jogo.

O universo neste momento inicial é de 17 atletas. Alisson no gol. Se foi titular sem sequência de jogos, imagine depois de uma fantástica temporada na Roma. Danilo ou Fagner disputando a vaga de Daniel Alves – e se um deles se afirmar talvez nem se alternem. Marquinhos, Thiago Silva e Miranda na zaga. Marcelo na lateral esquerda. No meio, o triângulo não deve fugir de Casemiro, Paulinho, Fernandinho, Renato Augusto e Philippe Coutinho.

Na primeira fase, a tendência contra equipes fechadas é Coutinho por dentro no mesmo 4-1-4-1 e Willian abrindo o campo pela direita. Com Danilo atacando naturalmente por dentro, podendo emular os movimentos de Daniel Alves. Até por ter atuado como volante e meia em momentos na carreira. Em jogos maiores e eliminatórios mais à frente, a possibilidade de entrar Fernandinho ou Renato Augusto, que perdeu terreno mas basta mostrar desempenho para voltar a concorrer. Tudo para dar liberdade ao infiltrador Paulinho.E aí Coutinho pode voltar ao lado direito para circular e buscar os espaços entre a defesa e o meio-campo do adversário.

Na frente, Gabriel Jesus e Neymar iniciando. Roberto Firmino e Douglas Costa como as prováveis primeiras opções. Ou podendo até estar juntos em campo num momento de necessidade. E aí entra uma questão primordial na preparação até a estreia.

Tite não é exatamente um comandante intuitivo e inovador. Quase impossível tentar algo inédito dentro da Copa do Mundo. Por isso precisa testar no período de treinamentos todas as opções nos mais variados contextos. Como jogar com um homem a mais, um a menos. Perdendo por um ou mais gols num jogo eliminatório necessitando de um “abafa” para buscar o placar. Ou uma formação para suportar pressão e se defender de sequência de cruzamentos com vantagem no placar.

É legítimo questionar ausências, como Luan e Arthur do Grêmio. Ou mesmo presenças. Mas o fato é que o contexto de menos dois anos de trabalho reduziu bastante o espectro de experiências e observações. E na prática cinco ou seis jogadores podem nem entrar em campo na Rússia. Tite certamente não vai externar essa visão, mas sua torcida é para não precisar. Ederson vai precisar de sorte. Cássio mais ainda. Assim como Geromel, Filipe Luís, Fred e Taison devem dar suas contribuições apenas nos treinos.

Agora é pensar na oportunidade de estar com os jogadores pelo período mais longo dentro da trajetória de Tite. Para aprimorar tudo. Compactar setores, trabalhar coberturas, combinar triangulações, ultrapassagens, jogadas em profundidade, viradas de jogo para surpreender, o melhor momento para utilizar o drible e desequilibrar. Entrosar, jogar sem pensar. Afinar também a gestão de grupo, consolidar lideranças.

Depois é competir. Jogo a jogo. Com a partida disputada influenciando a seguinte. Analisando e reavaliando o trabalho, considerando também o adversário. Preparando para as situações imprevisíveis do futebol. Buscando desempenho para construir resultado.

O que se espera é que a emoção e a razão conduzam ao hexa. Ou ao melhor resultado possível. Porque o Brasil é apenas um dos favoritos em um Mundial que deve atingir nível altíssimo na reta final e tudo pode ser resolvido num detalhe. O resto é jogo de dados. Sorte. Não dá para descartar o imponderável, a favor ou contra.

 


A lesão de Daniel Alves e o grande jogo de dados que é o futebol
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André Rocha

Imagem: Franck Fife / AFP Photo

Em sua ótima coluna na Folha de São Paulo, Tostão afirma que o jogo é uma mistura de inspiração e expiração, de ciência e imprevistos.

Podia ser Meunier ou qualquer outro lateral direito do futebol profissional do mundo inteiro em campo ontem na conquista da Copa da França pelo PSG na vitória por 2 a 0 sobre o Les Herbies, da terceira divisão francesa. Faria pouca diferença em mais um título do campeão francês e da Copa da Liga. Que volta a sobrar no país depois do “meteoro” Monaco na temporada passada.

Mas era Daniel Alves. Na noite de seu 38º título na carreira, mas que também pode lhe negar a chance de conquistar o trofeu mais cobiçado pelo brasileiro. A lesão no joelho direito, em um exame preliminar, afetou o ligamento cruzado e há o risco real do lateral ficar de fora da Copa do Mundo. A última de sua trajetória multicampeã.

Logo a lateral direita sem uma reposição confiável. Que pode cair no colo de Fagner, sem grande experiência internacional no mais alto nível, ou de Danilo, reserva do Manchester City e outra incógnita em  jogo grande no Mundial da Rússia. Talvez uma surpresa que apareça na lista pela emergência.

Daniel também pode se recuperar a tempo e o Brasil contar com os melhores laterais do mundo na formação titular. Mas também sofrer com as conhecidas fragilidades defensivas do jogador do PSG e também de Marcelo do lado oposto. Como já aconteceu há quatro anos. O gol da Croácia logo aos dez minutos da estreia do time de Felipão teve bola nas costas de Daniel Alves, cruzamento e Marcelo, no movimento errado da diagonal de cobertura, marcou contra. Fora o sufoco em outros jogos.

Algo minimizado pelo bom trabalho coletivo sem a bola com Tite, mas ainda um problema. Que no detalhe de um jogo eliminatório na reta final pode afastar a seleção brasileira da disputa do título. Mas a possibilidade do substituto na direita ser a solução para uma maior estabilidade na retaguarda não pode ser descartada. Afinal, entrando no time sem tanto lastro e minutos entre os titulares, a tendência natural é guardar mais o posicionamento atrás e só descer na boa.

Considerando que Danilo já atuou como zagueiro e até volante com Pep Guardiola e Fagner conhece toda a dinâmica das equipes de Tite na última linha de defesa pelos anos trabalhando juntos no Corinthians é possível que a mudança até traga um equilíbrio que não existia.

Impossível prever. E dependendo do desempenho e do resultado uma ou outra alternativa pode ser a justificativa para a glória ou o fracasso. Na mesma coluna citada acima, Tostão provoca: “Quando termina a partida, elegemos os heróis e os vilões e tentamos explicar, com bons ou maus argumentos, o que, muitas vezes, não tem explicação. Tem existência”.

O campeão mundial em 1970 às vezes exige do comentarista uma “não análise”. A função de quem estuda, observa e coloca sua visão é oferecer pontos de vista para que o espectador ou leitor forme sua própria opinião. Há sempre indícios que podem justificar um desempenho ruim e o mau resultado.

Mas tem toda razão quando fala do imponderável. Daniel Alves se lesionou numa decisão. Podia ser em um treino. Como Neymar dobrou o pé em um lance banal num jogo qualquer da Ligue 1. Como Casemiro, Marcelo e Firmino correm riscos na final da Liga dos Campeões. Ou qualquer um dos possíveis convocados. Até em casa, brincando com o filho.

Uma ausência pode definir tudo. Para o bem ou para o mal. Quantos não lamentam o corte de Romário em 1998 imaginando que o Baixinho poderia compensar o problema de Ronaldo antes da final da Copa? Mas quatro anos antes, o Brasil conquistou o tetra com Aldair e Márcio Santos na zaga que tinha como titulares os Ricardos, Rocha e Gomes. Em 2002, Gilberto Silva se transformou em um dos destaques da campanha do penta porque Emerson foi cortado por uma luxação no ombro. Brincando de goleiro em um rachão na véspera da estreia.

Como não lembrar de Einstein e sua famosa frase “Deus não joga dados com o Universo”? Mas cada vez mais o futebol, mesmo tendo também a sua porção de ciência, vai se mostrando um grande jogo de dados. De sorte e azar. Do imprevisto que salva ou destroi. Vejamos o que o destino reserva para Tite e seus comandados na Rússia.


São Paulo e Internacional: gigantes ancorados no passado precisam despertar
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André Rocha

Em 2006, Internacional e São Paulo decidiram a Libertadores. Dois anos depois, o tricolor paulista era tricampeão brasileiro e o Colorado vencia uma Copa Sul-Americana com Tite no comando técnico.

Uma década se passou desde então e a eliminação da dupla na Copa do Brasil antes das oitavas de final, quando entram os times envolvidos com Libertadores, é emblemática. Ainda que os méritos de Atlético Paranaense e Vitória sejam enormes.

Simbolizam clubes que depois de um período muito vitorioso acreditaram na utopia de ostentarem uma fórmula vencedora no cíclico futebol brasileiro. Confundiram manutenção da linha de trabalho com “continuismo”. Hoje se veem dando voltas em torno do próprio rabo.

No Internacional, de 2002 a 2016 orbitaram no comando Fernando Carvalho, Giovanni Luigi e Vitório Piffero, culminando com a página mais triste da história do clube: o rebaixamento. Só assim para vingar uma candidatura de oposição. Mas nem tanto assim, já que Marcelo Medeiros, o atual presidente, trabalhou na direção das categorias de base na gestão de Fernando Carvalho.

É claro que a década não pode ser considerada perdida. Além do bem sucedido plano de sócio-torcedor e a modernização do Beira-Rio, o Inter conquistou outra Libertadores em 2010 e impôs um domínio estadual com oito conquistas, seis consecutivas. A importância dada ao Gauchão até se entende pela rivalidade com o Grêmio.

O período sem conquistas relevantes do tricolor, incluindo um rebaixamento em 2005, talvez tenha acomodado ainda mais o Colorado. Só com a virada na “Era Renato Gaúcho” desde a Copa do Brasil em 2016, coincidindo com o próprio rebaixamento,  para a constatação do mau momento vir forte. Mas mudar a direção do olhar não é fácil. Mais simples continuar tratando o passado como referência e ainda depender do talento de Andrés D’Alessandro aos 37 anos.

O mesmo vale para o São Paulo. De 2006 a 2014 com Juvenal Juvêncio. Depois Carlos Miguel Aidar até a renúncia e a chegada de Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco. Sempre os mesmos cardeais no poder, blindados por um estatuto antiquado e protecionista.

Ultrapassado por Corinthians e Palmeiras com suas arenas e pelo Santos na Era Neymar. Sem o poder do Morumbi como único grande palco na cidade para jogos e espetáculos. Mas principalmente pela fé de que bastava seguir a mesma receita de bolo para tudo voltar aos “bons tempos”.

Nestes dez anos, apenas a Sul-Americana de 2012 como conquista com alguma relevância. Nenhum estadual. Ainda a seca histórica na Copa do Brasil, que em 2019 completa 30 anos. Pior é a sensação de que um gigante de seis títulos brasileiros, três Libertadores e três Mundiais está, na prática, se tornando um time médio.

As trocas seguidas de treinadores e jogadores demonstram uma incerteza quanto ao futuro. Paradoxalmente, o clube sempre parece mirar o passado atrás de um porto seguro. Contar com Raí, Ricardo Rocha e Lugano na diretoria é um exemplo claro. Só que eles não entram mais em campo. E as decisões nestes primeiros meses não parecem muito diferentes das práticas dos antecessores.

É preciso despertar. Também ter a humildade de aprender com os rivais. Se Corinthians e Grêmio hoje possuem uma identidade no futebol, São Paulo e Internacional continuam sem face. Ou com um rosto envelhecido desejando o vigor do passado. Sem ruptura ou reinvenção.

Só ficou a grandeza da história. Mas de gigantes ancorados, que ainda não se convenceram que o tempo não pára e é preciso seguir em frente, sem o olhar fixo no retrovisor.


Brasil vai bem como “desafiante”. O problema é outro, ou o mesmo de sempre
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André Rocha

A última vez que a seleção brasileira entrou em campo como “zebra” diante de um adversário tido como mais poderoso e, portanto, favorito foi na final da Copa das Confederações 2013. A Espanha era campeã mundial e bi da Eurocopa. O time de Luiz Felipe Scolari entrou transpirando fogo no Maracanã e atropelou Xavi, Iniesta e seus companheiros. 3 a 0, gritos de “o campeão voltou” e, pouco depois, o coordenador Parreira assumindo o favoritismo para o Mundial no ano seguinte como anfitrião.

O erro de Felipão nos 7 a 1 foi não ter resgatado este espírito. Sem Thiago Silva e Neymar, diante de um adversário com trabalho mais consolidado. Bastava jogar o favoritismo para o outro lado e entrar como franco-atirador, pelo contexto. Mas era a Alemanha, “freguesa histórica”. O treinador acreditou na camisa, no Mineirão lotado, no Bernard ídolo do Atlético Mineiro e “alegria nas pernas”. Se achou mais forte e o tombo foi sem precedentes.

Goleada histórica que criou o clima para o Brasil de Tite entrar mais que concentrado em Berlim. Sim, contra um “mistão” de Joachim Low. Mas se a campeã mundial venceu a Copa das Confederações com reservas merecia respeito independentemente da formação. Objetivamente era o primeiro confronto com uma candidata ao título. E justificou tentando impor seu jogo no ritmo de Toni Kroos.

De novo um Brasil sem Neymar. Mas desta vez organizado e precavido, com Coutinho pela esquerda e Fernandinho no meio dando liberdade para Paulinho infiltrar. Uma equipe bem coordenada no 4-1-4-1 e condicionada a pressionar o adversário desde a perda da bola. Pronta para acelerar assim que a retomasse.

No espaço deixado pela proposta alemã de controlar com a bola e ocupar o campo de ataque. Tudo que o Brasil precisa. Nosso jogo forte é o de transições ofensivas rápidas, com condução, passe e definição. Na bola roubada na frente, cruzamento de Willian da direita e gol de Gabriel Jesus, que podia ter se consagrado se não andasse tão afobado nas finalizações. Mas decidiu jogo grande e garantiu titularidade na Copa.

Podia ter sido mais que 1 a 0. No segundo tempo a Alemanha só levantou bolas na área e Alisson, Thiago Silva, Miranda e Casemiro sobraram. No final, a luta para a manutenção do resultado. Não adianta, é nossa cultura e Tite sabia que era importante vencer para aumentar a autoestima. A convocação final e a viagem para a Rússia estão logo ali.

O problema, porém, continua o mesmo. Talvez a seleção leve de três a quatro jogos para encarar um cenário parecido, com o adversário saindo para o jogo. Poucos paises atacam a camisa cinco vezes campeã mundial. Na fase de grupos, a tendência é encarar linhas de cinco e no mínimo oito jogadores guardando a própria área.

E aí tudo muda. Os problemas para infiltrar aparecem. Os espaços somem e com eles a paciência para trabalhar a bola. Falta o ritmista que não foi necessário em Berlim porque a equipe só acelerava. Será preciso abrir o campo, girar a bola, construir o espaço e ser letal na finalização.

Contra Inglaterra em Wembley e na Rússia enquanto os anfitriões não se empolgaram e bloquearam a entrada da área ninguém entrou, Vejamos a combinação dos novos conceitos, tempo para treinamentos, volta de Neymar e moral pelo triunfo sobre o “fantasma”.

Só não pode transformar um feito relevante – a Alemanha não era derrotada desde a semifinal da Eurocopa – na ilusão da Copa das Confederações. Já sabemos como termina, mesmo faltando tão pouco tempo desta vez. Tite é vivido, os jogadores com uma casca de quatro anos.

É hora de afinar o discurso. A Alemanha é a campeã, a Espanha a favorita. Melhor seguir como “desafiante”.


O jeito brasileiro de ver o futebol está ultrapassado
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André Rocha

Foto: Arquivo Estado de São Paulo

Convocação de seleção brasileira sempre terá contestação de um ou outro nome. Imagine 1970 com redes sociais na polêmica convocação do Dadá Maravilha. Ou em 1958 Vicente Feola levando para Suécia um jogador com pernas tortas, outro de 17 anos que o futebol pouco ouvira falar. Ambos com problemas cognitivos e psicológicos, segundo um estudo da própria CBD. Outros tempos.

A lista de Tite merece críticas como qualquer outra. Aqui neste blog ela também teve seus alvos. Tudo legítimo e, na maioria, de críticas construtivas. O problema é o argumento de muita gente.

“Talisca joga no possante futebol turco”. Ora bolas, perguntem ao mundo que liga é mais atraente aos olhos pelo futebol jogado: aqui ou lá? Sem contar que o meia joga hoje contra o Bayern de Munique pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Muito provavelmente a trajetória do Besiktas termina nesta partida, mas ultrapassou a fase de grupos como líder de uma chave com Porto e Monaco. Será que algum time brasileiro conseguiria?

“Willian José, aquele do São Paulo? Não pode vestir a camisa da seleção!” Talvez o do São Paulo não pudesse mesmo. Mas estamos em 2018 e o atacante joga na Real Sociedad, da primeira divisão da liga que conta com os dois times que venceram as últimas quatro edições da Liga dos Campeões. Com outro que foi tricampeão da Liga Europa e outro finalista da Champions por duas vezes. Sim, Willian enfrenta Barcelona, Real Madrid, Sevilla e Atlético de Madri. E marca gols contra eles.

Impressionante como em 2018 ainda há quem acredite que se o jogador mostra limitações no início da carreira ele não possa se desenvolver ao longo do tempo e funcionar melhor coletivamente. A tese muito brasileira de que no domínio de bola já é possível saber se um jogador é bom e vai vingar ou não é cada vez mais furada.

Assim como a de que o treinador é o que não atrapalha e tem que deixar os craques se entenderem em campo. Por isso Luan tem que ser convocado. Porque sim. Pelo que joga no Grêmio. Não importa se na seleção o sistema, o modelo e a dinâmica são completamente diferentes. Sem contar a possibilidade de uma equipe com Neymar, Coutinho, Willian, Gabriel Jesus e outros jogando em alto nível na Europa ter que se adequar ao melhor jogador da América do Sul. O mesmo que não rendeu absolutamente nada contra um Real Madrid em ritmo de treino na final do Mundial de Clubes. Este tempo já passou, convenhamos.

Antes de falar de futebol é preciso entender o contexto atual. O futebol nas ligas europeias, as melhores do mundo, tirou tempo e espaço do jogo. Tudo que o brasileiro sempre precisou para brilhar. Dois times em campo, jogando e deixando jogar. O mais talentoso ou com sorte vencia. Retranca era um amontoado de jogadores no próprio campo guardando a própria meta e o jeito de parar o craque era o pontapé muito tolerado nos campos em tempos remotos.

Hoje graças a treinadores como Guardiola, Mourinho, Klopp, Heynckes, Ancelotti e outros se joga em 30 metros de campo, com pressão no jogador que está com a bola e outros fazendo movimentos coletivos para fechar as linhas de passe. Tudo com intensidade máxima. Se antes o jogador era a referência da marcação, agora são bola e espaço.

“Ah, somos pentacampeões do mundo, não temos que aprender nada com ninguém”. Tem certeza? O futebol de 1958, 1962, 1970, 1994 e até 2002 é passado, uma boa lembrança. Mas não muito diferente de um item de museu. Se Guardiola trata o seu Barcelona que deixou há seis anos como algo que hoje não é mais referência para o seu Manchester City, imagine o que aconteceu há décadas!

Não somos os atuais campeões do mundo. Nem de seleções, nem de clubes. Os maiores craques há dez anos são um português e um argentino. Dois times espanhois e um treinador catalão mandam no planeta bola. Temos a oferecer Neymar e outros talentos jogando na Europa e um campeonato pouco atraente por não durar o ano todo que só serve para observadores pescarem os jovens promissores e, palavras deles, transformá-los em jogadores. Ensiná-los a jogar. É ou não uma vergonha para nós?

O jeito brasileiro de olhar o futebol está ultrapassado e temos uma bela chance, com Tite, de atualizarmos os conceitos. Não gosta de como é praticado hoje e prefere os tempos dos times espaçados, campos gigantescos como Mineirão e Serra Dourado e um futebol mais lento e com espaço para o jogador dominar, pensar, respirar e então decidir o que fazer com a bola? Ótimo! Direito seu, legítimo. Mas vá para o Youtube, não falar sobre o que não conhece. Sobre um futebol que só existe no fantástico mundo da sua cabeça.

Nelson Rodrigues, este da foto que ilustra o post, foi um gênio. Da dramaturgia e da crônica, inclusive esportiva. Mas de um tempo em que o compromisso com o fato praticamente inexistia. Ele oferecia uma versão deliciosa dos acontecimentos. Alimentava o imaginário popular. Mas também inventava monstros como a truculência dos crueis alemães, italianos, ingleses; a catimba dos desonestos argentinos e uruguaios. O Brasil que no futebol só perdia para si mesmo e quando reconhecia o valor no outro era por “complexo de vira-latas”. Mas do jogo Nelson sabia bem pouco. Ou quase nada. Não dá para resgatar esse espírito quase meio século depois. Já passou, como sua inseparável máquina de escrever.

Se o futebol brasileiro quer ser competitivo tem que criar a sua versão dentro do contexto atual. Não precisa copiar, mas entender como funciona e buscar saídas. Imaginar que temos que voltar ao estilo dos 1970 e doutrinar o resto do planeta é delírio. O mesmo para “soluções” como tirar um jogador de cada lado u aumentar a dimensão dos gramados para abrir espaços. Como se o mundo todo, inclusive Alemanha e Espanha, os últimos vencedores das Copas, estivessem sentido falta de alguma coisa. Ou seja, se não estamos vencendo vamos mudar as regras do jogo. Por favor, né?

Quer um exemplo prático do nosso atraso? O Atlético Mineiro de Cuca ganhou a Libertadores em 2013 sofrendo e dependendo de Victor nos pênaltis bem mais do que deveria pela qualidade de seus jogadores, especialmente Ronaldinho Gaúcho. Mas era um time anacrônico: espaçado, com perseguições individuais, dois volantes marcadores e dependente do talento de seu quarteto ofensivo e de jogadas ensaiadas.

Às duras penas conseguiu o título do continente, mas quando chegou ao Mundial de Clubes a realidade veio com requintes de crueldade: passeio do Raja Casablanca deitando e rolando na lentidão e nos espaços entre os setores da equipe brasileira que achou que venceria na camisa e na presença do Bola de Ouro 2004/2005. O campeão de Marrocos, país sede do torneio, atropelou jogando futebol atual. Depois todos foram pedir fotos do camisa dez derrotado em campo. Que deve ter agradecido a Deus por não encarar o Bayern de Munique comandado por Guardiola.

Nossos dogmas, crendices e análises focando apenas o individual do jogo não cabem mais. O jogo evoluiu, ficou mais complexo. O melhor jeito de avançar é reconhecer que ficamos para trás. A Copa do Mundo será um bom exercício de humildade. Ainda que o Brasil de Tite volte com o hexa.

 


Tite acerta nas novidades no meio-campo, mas é incoerente nos “brasileiros”
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André Rocha

A boa notícia da convocação da seleção brasileira para os amistosos contra Rússia e Alemanha é que Tite está com o leque aberto e os olhos atentos. Sem grupo fechado. Até porque há conceitos novos a trabalhar e, a rigor, o que aconteceu nas eliminatórias sul-americanas não pode ser o único parâmetro de avaliação. Está claro que o amistoso em Wembley contra a Inglaterra praticamente reserva mudou muita coisa na cabeça do treinador.

É óbvio que o Brasil pode ser eliminado no Mundial por uma seleção do nosso continente. Jogo único, tensão, os times podem mudar até lá. Mas o parâmetro é a Europa. A maneira como ocupam espaços, se defendem e fazem suas transições ofensivas. Mesmo no mundo globalizado, sem grandes segredos em termos táticos e estratégicos, há diferenças e Tite está atento.

Por isso o acerto nas escolhas do meio-campo para observação. Fred tem as características de “ritmista” que ele quer para o setor. Sabe acelerar e desacelerar o jogo e no Shakhtar Donetsk atua mais numa linha intermediária de articulação. Já Anderson Talisca é meia central de uma linha de três num 4-2-3-1. JJoga mais adiantado, buscando as brechas entre o meio e a defesa do oponente. Assim funciona no Besiktas. Ambos times que se classificaram para o mata-mata da Liga dos Campeões. Fred, inclusive, pode seguir na competição se ultrapassar a Roma no confronto das oitavas de final. Junto com Taison, mais uma vez incluído na lista.

Ou seja, estão no contexto europeu. Da dinâmica, do posicionamento, do movimento buscando espaço entre as linhas, da circulação de bola, da busca do passe que quebra o sistema de marcação posicionado com quatro ou cinco na última linha. Ou seja, da leitura de jogo e dos espaços a ocupar e atacar.

Independentemente do nível técnico, gosto pessoal ou identificação de cada um, é consenso que o futebol jogado aqui parece outro esporte em relação à Europa. O leitor pode questionar se é melhor ou pior. Mas diferente não há dúvidas. Também por causa do clima, gramados, imediatismo e outros problemas bem nossos. Há também dificuldades bem deles…

Mas o que espera o Brasil na Copa é o jeito europeu de jogar futebol. É preciso se adaptar e nada melhor que contar com jogadores que atuam por lá. No mais alto nível, de preferência.

Por isso é difícil entender a opção por Fagner na lateral direita. Com Danilo disponível e que poderia ser mais um jogador a colaborar com Tite para a assimilação do jogo de posição por jogar no Manchester City de Pep Guardiola. Mesmo não sendo titular, teria muito a acrescentar como o reserva de Daniel Alves. Fagner não comprometeu quando o treinador precisou, mas nem vive sua melhor fase para compensar a diferença entre o que é jogado aqui e lá.

Pior ainda Rodrigo Caio, em mau momento no São Paulo disputando o Paulista. A impressão que deixa é que a honestidade demonstrado no caso do fair play com Jô virou uma credencial eterna para o zagueiro. Para arriscar melhor seria insistir com Jemerson, mesmo fazendo temporada bem hesitante no Monaco.

Geromel é um caso à parte. Vive fase esplendorosa no Grêmio. Fundamental na conquista da Libertadores, bom desempenho contra o Real Madrid no Mundial de Clubes e cresce em jogos grandes. Mas taticamente o time de Renato Gaúcho trabalha na defesa quebrando a última linha para os jogadores perseguirem os adversários. Não guarda posicionamento marcando por zona. Pode ser um problema, ainda que o zagueiro tenha atuado por oito anos no futebol do Velho Continente. De qualquer forma vale o teste, por merecimento.

E Luan? Bem, o melhor jogador da última Libertadores e campeão olímpico como um dos destaques em 2016 não convenceu Tite. Segundo ele, nos treinamentos foi “engolido” e não se adaptou à função pelo lado. Por dentro a concorrência é grande, a movimentação é diferente e a atuação sofrível contra o Real Madri, no único contato com o mais alto nível do futebol mundial, depõe muito contra o camisa sete do Grêmio, de talento inquestionável. Mas só isto não basta.

Willian José é mais uma novidade interessante dentro da nova linha de raciocínio de Tite. Se é preciso ter uma referência na área com maior estatura, que seja alguém atuando na Espanha e não Diego Souza, que não é centroavante de ofício e nem titular absoluto do São Paulo – ao menos o comandado por Dorival Júnior. William não é um primor técnico, mas conhece a dinâmica de abrir espaços e atuar como pivô sem deixar cair a intensidade.

Renato Augusto segue na cota da confiança do treinador, mas terá um último teste importante. Se fraquejar e algum novo nome entrar bem corre sério risco até de ficar fora da Copa. No mais, a lamentar a ausência de Neymar para o primeiro experimento do jogo de posição brasileiro. Boa oportunidade para Douglas Costa.

Faltam pouco mais de três meses para a estreia do Mundial da Rússia e Tite ainda carrega muitas dúvidas, de nomes e de jogo. Mesmo com incoerências, pode acreditar, isto é muito bom!


PSG vive em março um fim de festa. Tem que rever projeto, com ou sem Neymar
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André Rocha

O Paris Saint-Germain goleou o lanterna Metz por 5 a 0 no primeiro jogo de “luto” após a eliminação da Liga dos Campeões. Mantém os 14 pontos de vantagem sobre o Monaco na liderança da Ligue 1. É favorito também na Copa da França e na Copa da Liga.

Mas e daí? O foco era a Champions. A obsessão. Ainda que o título francês marque a recuperação da hegemonia nacional, o clima já é de decepção, fim de temporada. Muitas especulações de saídas. Sobre Neymar esfriaram um pouco por conta da lesão. Já Unai Emery está mesmo se despedindo do clube. A rigor, nem devia ter permanecido depois de sequer vencer a liga na temporada passada, sem contar a tragédia contra o Barcelona.

A tendência é que o clube defina o novo treinador e consulte o comandante sobre reformulação ou não do elenco. Mas tudo isso já em março?

PSG precisa refazer seu projeto. Palavra banalizada no Brasil pelo nosso amadorismo de todo dia, mas que deve ser levada muito a sério por quem despeja milhões de euros em um clube de futebol. A meta principal, inevitavelmente, será a conquista do principal torneio de clubes do planeta.

Mas os valores podem ser revistos. Não só os financeiros. Unir individualidades em torno do coletivo. Transformar a evolução da equipe com conteúdo tático como a alavanca para manter o foco. Sair um pouco dos resultados, concentrar mais no jogo.

Assim a construção das vitórias na liga seria mais tranquila e a campanha na Champions encarada de forma natural, parte do processo. Sem aumentar a pressão que já é enorme.

Olhando para o desempenho, além da fragilidade mental que é nítida, uma deficiência salta aos olhos: como o PSG defende mal pelos flancos! Até contra o fraquíssimo Metz no Parc des Princes levou alguns sustos nas costas de Berchiche pela esquerda. Muito pela indolência de quem joga na frente. Seja a estrela Neymar ou Nkunku, o garoto em busca de espaço que marcou dois gols.

Se priorizar o trabalho tático, a disparidade abissal entre as equipes francesas continuaria sendo relativizada, mas o acerto nos movimentos defensivos seria um parâmetro mais seguro que a fragilidade dos ataques adversários. Nesta temporada, o PSG venceu várias partidas marcando “com os olhos” e quando chegou na competição continental, especialmente contra o Bayern em Munique e nos confrontos com o Real Madrid, a verdade veio inexorável. Até cruel.

É hora do dinheiro formar um time na acepção da palavra. Começando pelo treinador. Se este que escreve assinasse o cheque iria atrás de Jurgen Klopp. Não só pela competência, mas pelo carisma para agregar e dar fogo e intensidade ao que parece tão morno.

Acima de tudo, fazendo o coletivo potencializar o talento. Com ou sem Neymar. Ou qualquer outra estrela. É urgente.

 

 


A aula de 4-4-2 e de maturidade do Real Madrid em Paris
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André Rocha

No Brasil é costume justificar a ineficiência de um time pela falta do “camisa dez”. Essa entidade capaz de resolver qualquer problema de criatividade em qualquer equipe.

Pois o Real construiu a virada sobre o PSG por 3 a 1 em Madri e consolidou sua classificação para as quartas de final da Liga dos Campeões com outra vitória no Parc des Princes atuando num típico 4-4-2.

Dois volantes: Casemiro e Kovacic. Mais Lucas Vázquez e Asensio pelos flancos, deixando Benzema e Cristiano Ronaldo na frente. Execução exemplar das linhas de quatro, com setores próximos, pressão no adversário com a bola, estreitando a marcação para fechar as opções de passe.

Com a bola. saída rápida e movimentação para não deixar o time engessado. No primeiro gol, Asensio interceptou passe de Daniel Alves, acionou Vázquez, que colocou na cabeça de Cristiano Ronaldo. O terceiro gol do português no confronto. Mais uma vez decisivo num mata-mata de Champions. O 12º do artilheiro do torneio. Desta edição e de todos os tempos.

Símbolo da maturidade de um time vencedor. Histórico. Simples, inteligente e decisivo na tomada de decisão. Como funcionou o coletivo do bicampeão europeu. Já favorito ao tri pelo que representa.

Tudo que o PSG não teve. Ainda não tem. Talvez não tivesse com Neymar em campo. A expulsão de Verratti é símbolo do desequilíbrio emocional, da desistência da luta. Do apequenamento. Nem precisou sofrer um gol para silenciar o estádio. A postura do adversário já murchou a torcida, que só ensaiou uma reação no gol de joelho do Cavani que empatou o jogo. Não foi suficiente. Coisas que o dinheiro não compra.

Mas contratar um treinador melhor que Unai Emery para manejar um elenco milionário será um bom início de planejamento para a próxima temporada. Escalações questionáveis, substituições indecifráveis. No episódio das cobranças de pênalti que criou o imbróglio Neymar x Cavani, a nítida falta de autoridade. O vestiário ficou maior que o homem  que devia liderá-lo.

O Real tem Zidane. Com as hesitações normais de um novato no ofício, mas com moral absurda pelo que jogou e representa para o clube. Sua serenidade reflete em campo nas partidas decisivas. Mas neste duelo a mão de estrategista ficou clara. Especialmente por fazer o time voar pela esquerda para construir a virada.

Mas o golpe final saiu pela direita. Passe de Cristiano Ronaldo, centro de Vázquez e, na sobra, o chute de Casemiro que desviou em Marquinho e saiu de Areola. O Real controlou o jogo e mereceu sair de Paris com uma vitória emblemática. Uma aula tática e de maturidade. Do gigante nesta disputa.


Vá se preparando! Vem aí o Brasil de Tite com jogo de posição e no 2-3-5
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André Rocha

Foto: EPA

Tite concedeu as últimas entrevistas exclusivas antes da convocação para os amistosos contra Rússia e Alemanha em março. Depois vai se concentrar no trabalho e só ouviremos o treinador em coletivas até a Copa.

Em todas foi possível pescar algo das ideias do comandante da seleção. Está mais que clara sua obsessão por furar linhas de cinco depois de bater no muro da Inglaterra em Wembley. Este blog se dá o direito de recordar que foi o primeiro espaço a alertar para a dificuldade que seria enfrentar as retrancas “handebol”  – leia ou lembre AQUI.

A boa notícia é que Tite já tem um norte a seguir: o jogo de posição. Ou localização. Um conceito complexo de futebol que tem origem na escola holandesa e Pep Guardiola virou o grande expoente e disseminador atualizando o que lhe foi ensinado por Johan Cruyff quando foi seu técnico no Barcelona nas décadas de 1980/90.

É complexo, mas tem lógica. Desde que passou a existir o time grande e o pequeno no futebol surgiu o duelo ataque x defesa. A equipe com mais recursos e/ou tradição é obrigada a ocupar o campo adversário porque o menor, por opção ou instinto, vai se retrancar concentrando jogadores para proteger a própria meta.

O jogo de posição procura dar inteligência e ordem na hora de atacar. O que você precisa para enfrentar uma retranca?

Primeiro uma saída de bola com qualidade para se instalar no campo de ataque sem correr o risco de um erro de passe pegar o time saindo e, consequentemente, desarrumado e exposto. Para isso, o goleiro com técnica de passador é fundamental para auxiliar e ser um homem a mais na construção. Tite tem Alisson e Ederson, excepcionais.

Uma vez no campo adversário, qual a necessidade? Jogadores próximos, criar superioridade numérica no setor em que está a bola, iniciar a jogada de um lado e terminar do outro. Tudo para iludir um time com nove ou dez homens de linha em cerca de cinquenta metros.

O que é a amplitude? Ter jogadores bem abertos para que o oponente não fique confortável bloqueando a zona mais perigosa que é a central. Alargar o campo também abre mais brechas para infiltrar.

Aí entra a profundidade, que não é só chegar à linha de fundo pelos flancos. Mais importante é entrar no espaço às costas da defesa para finalizar. Pelo meio ou através das diagonais. Sem isso só restariam os chutes de média e longa distância, outra arma poderosa contra ferrolhos.

Para criar, o jogo entrelinhas. Nada mais do que os jogadores procurarem os espaços entre os setores do adversário para receber a bola com liberdade, sem pressão. Especialmente os meio-campistas mais criativos para encontrar liberdade e dar o passe qualificado para a assistência ou a finalização. Aquilo que Messi faz como ninguém e Neymar vem desenvolvendo no PSG.

E como se defender? Bem, se o time está com praticamente todos os jogadores no outro lado, bem longe da própria meta, você tem que matar a origem do contragolpe. Aí entra o “perde e pressiona” que começa com o jogador que perdeu a bola ou quem estiver mais próximo dela. Abafar para não ser surpreendido.

Se o time toca, roda a bola e pressiona para recuperá-la rapidamente, a tendência é ter mais posse que o adversário. Ou seja, é uma consequência natural e não um fim em si mesma. Por isso Guardiola disse detestar o “tiki-taka”. Porque no jogo de posição, como vimos, tudo tem um porquê.

Dito tudo isso, não deixa de ser irônico que tantos no Brasil acreditem que o treinador catalão copia o futebol brasileiro. Aquele que sempre abriu retrancas no drible, no improviso. Tudo que Guardiola não quer. Ou apenas no lugar certo.

A sofisticação no ato de atacar gerou como resposta a inteligência na hora de defender. José Mourinho tirou o estigma da vergonha da retranca. Para parar o Barça histórico, linhas praticamente chapadas com no mínimo oito jogadores bloqueando os espaços certos. Se o objetivo final do jogo de posição é infiltrar na área, nada mais lógico que distribuir jogadores na região mais perigosa para evitar. Por isso a linha de cinco.

Que pode virar até de sete quando essa linha fica mais estreita, com jogadores mais próximos, e os dois meias ou ponteiros voltam pelos lados como laterais. É a hora em que vira linha de handebol.

O Brasil voltou a figurar na lista de favoritos com a recuperação comandada por Tite. E exatamente por esse favoritismo que o treinador brasileiro precisou estudar e introduzir conceitos antes pouco explorados. Não é por acaso que antes Carlo Ancelotti fosse sua referência e hoje seja Guardiola e o Manchester City.

Está claro que o time base terá que ser alterado com essa mudança de paradigma. Daniel Alves e Marcelo são laterais construtores, palavras de Tite. Ou seja, organizam mais e tendem a procurar o centro, não atacam tão abertos. Paulinho infiltra por dentro. Philippe Coutinho sai da direita para o meio. Neymar pela esquerda também corta para o pé direito. Gabriel Jesus é atacante de infiltrar nos espaços às costas da defesa. Que espaço numa linha de cinco?

Foi o problema contra a Inglaterra. O antídoto, ao menos na primeira fase contra Suíça, Costa Rica e Sérvia? Um sistema ultraofensivo que remete aos primórdios do futebol: o 2-3-5. Ou “pirâmide”. A antítese da linha de cinco atrás. Ou melhor, a inversão. Cinco no ataque. Na prática, é o adiantar e reorganizar as linhas do 4-1-4-1/4-3-3. Guardiola aplicou em todas as suas equipes sempre que enfrentou defesas mais fechadas.

Funciona assim: os dois zagueiros ocupam a linha média. Mais à frente, laterais atacando mais por dentro, como meio-campistas. No Bayern de Munique, Lahm e Alaba. Tite terá os dois melhores do mundo: Daniel Alves e Marcelo. Criando e também sendo os primeiros a ajudar os zagueiros no caso da surpresa de um contra-ataque.

Fazendo companhia a um volante, ou médio, com papel fundamental: é o homem da distribuição das jogadas, da inversão de lado, do desafogo, da opção de volta da bola para concatenar outro ataque. O titular é Casemiro, mas pode vir a ser Fernandinho, mais habituado a executar o jogo de posição como primeiro articulador.

Na frente, cinco jogadores. Que não funcionam em linha, é claro. Dois ponteiros para dar a amplitude citada acima, já que os laterais atacarão por dentro. Na seleção pode ser um pouco diferente: pela direita, Willian, que dentro desta ideia parece cada vez mais titular, bem aberto e Daniel Alves por dentro. Do lado oposto, Marcelo pode aparecer pelo flanco porque será um desperdício Neymar ficar isolado como um ponta para participar menos do jogo e dar o último passe. Precisa ter liberdade.

Porque a ideia central desta proposta é a bola chegar ao jogador posicionado e não o contrário. Ainda que haja movimentos de ida e volta, como os meias por dentro. Philippe Coutinho parece certo como um desses homens buscando espaços entre as linhas. Aberto como ponta, sem procurar o centro, vai ficar ainda mais deslocado, desconfortável. Deve ficar com a vaga de Renato Augusto, que perdeu espaço e confiança de Tite. O outro seria Paulinho, mas a dificuldade para participar do controle do jogo com a bola que mostra no Barcelona tende a dificultar a manutenção da titularidade. A menos que Tite sacrifique a criatividade em nome da força e do timing para aparecer na frente.

Por isso a busca do “ritmista”. O outro meia que fará a bola chegar na frente com qualidade. Acelerando e desacelerando, ditando o ritmo. Se não tem alguém com as características de David Silva em alto nível, o treinador procura esse jogador em Diego, Lucas Lima, Fred (Shakhtar Donetsk) ou Jadson. Também pode ser Arthur do Grêmio. Por erros na nossa formação de meio-campistas este deve ser o nosso grande “gargalo” na Copa do Mundo.

No centro do ataque, Gabriel Jesus como jogador do último toque como funciona no City, e a adaptação ao estilo é uma vantagem, ou Firmino abrindo espaços, recuando para tabelar com os meio-campistas e permitindo as infiltrações em diagonal dos ponteiros. Ou mesmo os dois numa proposta ainda mais ousada para ter dois finalizadores.

Uma das formações possíveis no 2-3-5 para colocar em prática o jogo de posição: Willian e Neymar nas pontas para dar amplitude, mas com o camisa dez ganhando liberdade para circular e Marcelo atacando pelo flanco esquerdo. Fernandinho seria o titular como o volante por dominar os conceitos no Manchester City de Guardiola, grande referência de Tite na montagem da seleção para furar linha de cinco na defesa (Tactical Pad).

Sim, parece tarde para tamanha revolução. Muitos conceitos para poucos jogos e treinamentos. Mas é isto ou bater no muro como em Wembley. A boa notícia é que boa parte dos jogadores já praticou o jogo de posição nos seus clubes em algum momento. A questão é fazer juntos.

Arriscado demais? Tudo pode ruir numa saída rápida de contra-ataque? Claro, mas o Brasil sempre correu este risco em Copas. Quem se abre contra a camisa cinco vezes campeã mundial? A Holanda, que não estará na Rússia, a Argentina pela rivalidade e, talvez, Espanha e França. A grande maioria espera para surpreender. Então nenhum país precisa mais dominar o jogo de posição que o nosso.

Tite sabe disso e deve estar sendo duro se desapegar de certas convicções. Mas segue debruçado sobre os conceitos, os mais avançados na prática do esporte na atualidade, que já vêm sendo abordados nas entrevistas do técnico – e já há quem reclame dele estar “abrindo o jogo”, como se as outras seleções, ao menos as grandes, não tivessem equipes de análise de desempenho com softwares avançados para observar isso no campo, onde mais importa.

Até o início do Mundial serão transferidos para os debates sobre futebol na TV, no rádio, na internet. Já é possível vislumbrar, sem exageros, o maior embate ideológico da história do nosso jornalismo esportivo.

De um lado os que estão conectados ao futebol atual jogado nos principais centros do mundo, com seus excessos e preciosismos na maneira de comunicar ou não, e os que renegam tudo por saudosismo, pensamento conservador, preguiça ou seja lá o que for e menosprezam reduzindo tudo a modismos, neologismos, invenções, etc.

No final, como tudo no futebol brasileiro, o resultado é que vai falar mais alto. Se vier o hexa será a chance do país dar um salto conceitual com a valorização do estudo e da evolução. Se perder, e como perder, virá o discurso de sempre que ajuda a travar o desenvolvimento do esporte por aqui.

Portanto, vá se preparando! O Brasil de Tite, ainda que mais por necessidade que convicção, vai sacudir e virar do avesso as estruturas do nosso jogo.

 

 

 


Real Madrid 3×1 PSG – Tamanho é documento! A virada de Zidane em Madri
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André Rocha

Zinedine Zidane começou acertando na escalação quando fez voltar Isco no lugar de Bale para buscar a supremacia no meio campo e tornar o Real Madrid mais móvel, menos engessado. Ainda que o meia espanhol tenha passado boa parte do jogo aberto pela direita.

Unai Emery mandou a campo Kimpembe na zaga e Thiago Silva ficou no banco. No meio, o trio Verratti, Lo Celso e Rabiot sem definir o jogador mais fixo à frente da defesa que tinha Berchiche na lateral esquerda.

Foi o pecado do PSG, deixando muitos espaços entre as linhas. Quase pagou caro na virada espetacular de Marcelo para Cristiano Ronaldo chutar no rosto do goleiro Areola. Sem contar que o duelo que atraiu os olhos do mundo ficou grande demais para alguns jogadores, especialmente Lo Celso. Verratti parecia inseguro também.

Rabiot compensava com onipresença, inclusive na área para aproveitar a sobra de um contragolpe puxado por Mbappé que Nacho evitou a finalização de Neymar, mas permitiu o rebote para o francês, que não foi acompanhado por ninguém do meio do Real.

Jogo igual, com o time merengue muito preocupado com Neymar cortando da esquerda para dentro, mas fechando espaços para a finalização, embora os passes também tenham criado perigo. A equipe de Unai Emery compensava os espaços no meio com boa atuação da última linha de defesa, inclusive Daniel Alves, concentradíssimo no posicionamento.

Mas Lo Celso fez pênalti tolo sobre Kroos e Cristiano Ronaldo empatou no fim do primeiro tempo. Fundamental mentalmente para um time buscando recuperação na temporada. Ainda mais pelo que viria na segunda etapa.

Emery deveria ter tirado Lo Celso no intervalo. Preferiu trocar Cavani por Meunier para liberar Daniel Alves como ponta e Mbappé no centro do ataque.  A troca fez Neymar sumir aos poucos do jogo. Outro equívoco do treinador foi manter sua equipe com linhas adiantadas e sem proteção, mesmo ganhando velocidade na frente, mas perdido Cavani como pivô.

Já Zidane foi certeiro: Bale na vaga de Benzema e o resgate da formação dos 5 a 2 sobre a Real Sociedad no fim de semana – Lucas Vázquez e Asensio pelos lados formando a linha de quatro no meio com Modric e Kroos. Marcelo ganhou com Asensio a companhia que faltava para voar pelo seu setor. Novamente o bicampeão europeu atropelou no segundo tempo de uma decisão.

Em duas ações pela esquerda, o gol de joelho de Cristiano Ronaldo, o 11º em sete jogos no torneio, e Marcelo para abrir uma vantagem bem mais complicada de ser revertida. Só com 2 a 1 contra, Unai tirou Lo Celso. Mas não colocou o veterano Lassana Diarra, mais habituado a jogos deste tamanho e a atuar mais fixo. Colocou Draxler e seguiu sem consistência.

Facilitou a virada com a marca de Zidane. No Bernabéu, mais uma vez o tamanho foi documento no jogo grande que sempre é mais mental que tático ou técnico. O PSG terá que ser gigante em Paris. Será que consegue?