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Firmino desequilibra quando o Liverpool cansava. Mais uma lição para o PSG
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André Rocha

O Liverpool tem uma vantagem essencial sobre o PSG antes mesmo do confronto entre as equipes na abertura da Liga dos Campeões: o time inglês se testa praticamente toda semana na Premier League no mais alto nível de competitividade, enquanto o Paris Saint-Germain muito eventualmente na Ligue 1 se depara com um rival que seja efetivamente um adversário mais complicado.

Na temporada passada, o time francês bateu um Bayern de Munique em crise ainda com Carlo Ancelotti, mas levou o choque de realidade na volta, com o time bávaro já sob o comando de Jupp Heynckes no encerramento da fase de grupos. Para nas oitavas da Champions cair para o campeão Real Madrid. A rigor, três desafios. Na temporada em que conquistou todos os títulos no país.

Mesmo com Roberto Firmino no banco e Sturridge no centro do ataque do 4-3-3 habitual da equipe de Jurgen Klopp, os Reds mostraram quase sempre um volume de jogo bem maior que o adversário no Anfield Road. Muita intensidade e superioridade numérica atacando e defendendo. Pressão logo após a perda da bola com a fúria de sempre.

Os laterais Alexander-Arnold e Robertson atacavam juntos e bem abertos para que os três atacantes ficassem mais próximos uns dos outros e da área adversária. Mais Wijnaldum chegando sempre, já que Klopp optou por Henderson à frente da defesa e deixou Keita no banco.

O PSG de Thomas Tuchel busca exatamente uma maior competitividade. Com um “discípulo” de Klopp e sucessor no Borussia Dortmund. Já melhorou no início da temporada, mas ainda não é o suficiente para encarar o vice-campeão europeu e 100% em cinco rodadas no campeonato inglês.

Justamente pela falta de prática. Questão de hábito. No 4-3-3 isolando muito o trio Mbappé-Cavani-Neymar do resto do time. Com Marquinhos à frente da defesa para evitar os espaços entre retaguarda e meio-campo. Sem sucesso, porém. Até pelo auxílio frágil de Rabiot e Di María.

O Liverpool abriu 2 a 0 com Sturridge em falha de Thiago Silva e no pênalti cobrado por Milner. Mas o PSG voltou para o jogo ainda na primeira etapa “imitando” o adversário ao chegar com muita gente no campo de ataque, inclusive os laterais Bernat, que cruzou, e Meunier, que finalizou diminuindo para 2 a 1.

Segundo tempo de domínio inglês, mas com um velho problema: o desgaste por conta de uma maneira de jogar com o pé fundo no acelerador o tempo todo, porém sem transformar o domínio em larga vantagem no placar. Foram 17 finalizações contra nove, oito a cinco no alvo. Também mais posse de bola, que chegou a bater em 60% e terminou com 52%. Pelo domínio dos rebotes mais que por conta do controle do jogo através dos passes. Mas cedendo espaços e baixando a guarda quando o gás começou a acabar.

Tuchel  colaborou trocando Cavani e Di María por Draxler e Choupo-Moting. Não só por reoxigenar o setor ofensivo, mas principalmente por dar liberdade a Neymar, novamente subaproveitado pela esquerda, e Mbappé sair da direita e assumir o comando do ataque. Com os dois na frente, o gol de empate da joia francesa.

O Liverpool dava sinal de esgotamento. Mas entrou Firmino, dúvida para o jogo depois do acidente no olho contra o Tottenham no fim de semana. Mesmo com a boa atuação de Sturridge, o ataque com o brasileiro ganha outro brilho. Não só pelo entrosamento com Salah e Mané, mas também pela inteligência na movimentação e os recursos técnicos.

Na individualidade, limpou Marquinhos e resolveu o jogo. Um trunfo desequilibrante da equipe que novamente parece mais pronta para chegar longe no maior torneio de clubes do planeta. Ainda mais com o elenco reforçado, equilibrado e sem os elos fracos de outras temporadas.

Os 3 a 2 são mais uma lição para o PSG. Difícil é colocar em prática o aprendizado contra os “sparrings” do seu quintal.

(Estatísticas: UEFA)


Tite está preso em um mundo paralelo perigoso, desconectado da “voz da rua”
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André Rocha

Foto: Divulgação/CBF

Na finada revista sobre música e cultura “Bizz,” alguém escreveu nos anos 1980 – muito provavelmente o hoje correspondente internacional Pepe Escobar – que o grande problema de artistas como Michael Jackson, Prince e George Michael era que a fama impossibilitava que eles vivessem como pessoas comuns. Perdiam o contato com a rua, com realidades diferentes. A vida era da mansão para o estúdio, aeroporto, hotel e casas de show ou estádios para os shows. Interferia diretamente no trabalho e também na vida pública. O texto era um elogio à Madonna, que não havia perdido essa conexão com o povo.

Tite não é um astro pop, embora tenha sido tratado como tal nos meses que antecederam a Copa do Mundo na Rússia. Mas ao ouví-lo nas coletivas a impressão é de que a rotina na seleção brasileira não tem feito bem ao treinador.

Não por sua retórica muitas vezes enfadonha e com discurso de autoajuda que pouco acrescenta, embora o conteúdo tático siga relevante. Mas principalmente por respostas como a direcionada a Donald Trump. Tola, até infantil. Como se o presidente dos Estados Unidos fosse algum personagem relevante no mundo do futebol que justificasse algum posicionamento de Tite.

Quando fala de Neymar, por mais que compreendamos que externamente o apoio ao seu atleta mais talentoso é uma necessidade política do cargo que ocupa, a impressão é de que ele de fato acredita que basta dar carinho e a braçadeira de capitão para que a referência técnica se transforme de fato numa liderança positiva.

Na coletiva depois da goleada sobre El Salvador, Tite voltou a citar Marquinhos. Como se tivesse notado todo seu talento quando surgiu no Corinthians e mantido a “joia” no clube. O zagueiro saiu emprestado para a Roma por uma bagatela e acabou contratado a preço baixo para depois o PSG desembolsar uma fortuna por seu futebol. O Corinthians perdeu dinheiro. E Tite mais uma chance de ficar calado e não lembrar de seu erro de avaliação.

Porque parece desconectado do mundo real. Da casa para a CBF, camarotes de estádios, aviões, hoteis, centros de treinamento. Conversa só com família e auxiliares. Uma realidade paralela, virtual e perigosa. Tite não precisa seguir o que todos falam, até porque enlouqueceria. Mas descer do pedestal e ouvir um pouco a “voz da rua” sempre faz bem.


Nem contra El Salvador, Neymar?
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André Rocha

O problema não é usar uma data FIFA para fazer um treino nos Estados Unidos com a camisa oficial da seleção brasileira contra El Salvador. Nenhuma seleção do mundo passa todo o ciclo de quatro anos sem um enfrentamento muito desproporcional como esse.

O que gerou desconforto desta vez foi mais do mesmo: o calendário inchado que não permite uma pausa até o fim de semana e sacrificando, na prática, duas das quatro equipes envolvidas nas semifinais da Copa do Brasil. Responsabilidade da CBF. Mas Tite poderia ter encontrado uma solução de bom senso. Se queria testar Dedé e Paquetá, que o fizesse por 45 ou mesmo 90 minutos contra os Estados Unidos e dispensasse os dois no sábado. Simples assim.

Mas a pior notícia dos  5 a 0 em Washington foi Neymar simulando um pênalti, levando cartão amarelo, reclamando da arbitragem e depois, claramente por birrinha infantil, dar um chapéu no adversário na linha média, para trás, e perder a bola. Um “combo” no final do primeiro tempo, com 3 a 0 no placar, que ressalta a falta de maturidade, mesmo depois de toda repercussão negativa pós-Copa do Mundo. Pelo visto, a braçadeira de capitão não veio com uma cobrança do comando pela mudança de postura. A transmissão mostrou Tite sinalizando que o cartão amarelo para Neymar teria sido injusto.

Eis o ponto: não fosse Neymar, talvez o árbitro não interpretasse com tanta certeza a simulação. Ou seja, está estigmatizado e alimenta a imagem mais que desgastada. Mesmo contra um adversário indigente tecnicamente, sem capacidade de oferecer uma mínima resistência. Pouco inteligente, para dizer o mínimo. Muito pior que o gol perdido por puro individualismo minutos antes. Até compreensível por ter marcado dois, mas em cobranças de pênalti.

Quem acompanha este blog sabe que não há má vontade, nem perseguição com o craque controverso. Pelo contrário. Este que escreve tenta focar no rendimento em campo e, dentro do alcance do espaço, propor soluções para potencializar um talento que, na seleção, quase sempre pareceu subaproveitado. Mas não pode recolher a crítica diante de uma situação absurda. Mesmo com tristeza.

Richarlison aproveitou bem a primeira oportunidade de início com dois gols. Valeu também para dar minutos a Neto, Militão, Dedé, Felipe, Arthur, Paquetá, Andreas e Everton. E pouco mais que isso. Não é o fim do mundo. O trabalho está no começo. Se é para enfrentar uma “carne assada”, que seja agora e não às vésperas de uma Copa do Mundo. Como aconteceu em 1994, por exemplo, nos 4 a 0 também sobre El Salvador. Mas como a CBF terceiriza a agenda da seleção, tudo parece suspeito. Ou pouco transparente.

Nítido mesmo foi o comportamento lamentável de Neymar. E decepcionante, mesmo não se complicando na segunda etapa. Difícil vislumbrar uma melhora a curto prazo. Se nem contra El Salvador ele é capaz de se conter…

 

 


Primeiro teste mostra que Neymar precisa de liberdade, não da braçadeira
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André Rocha

O primeiro amistoso da seleção brasileira depois do Mundial da Rússia sinalizou algumas mudanças aventadas por Tite durante a preparação e nos jogos da Copa: Filipe Luís pela esquerda, Fred no meio-campo, Douglas Costa pela direita e Firmino no centro do ataque. No mesmo 4-1-4-1.

A atuação segura nos 2 a 0 sobre os Estados Unidos no Metlife Stadium foi construída com posse de bola lenta e alguns momentos de aceleração. Especialmente quando Douglas Costa entrava em ação. Assistência para Firmino no primeiro gol, lindo passe na segunda etapa para Neymar, que chutou fraco e permitiu que o zagueiro Miazga salvasse antes que cruzasse a linha.

Fabinho também foi muito bem na lateral direita. O único na formação inicial que não estava no grupo do Mundial apoiou bem, ora aberto, ora por dentro. Na jogada individual, o pênalti (duvidoso) cometido por Trapp e convertido por Neymar. O 58º do agora capitão fixo do Brasil.

Braçadeira que virou polêmica por ser vista como um prêmio de Tite que o craque não fez por merecer na Rússia. Discutível. Talvez seja apenas uma mudança de prática, acabando com o revezamento. Mas como tudo que envolve Neymar acabou ganhando uma atenção desmedida.

Porque na prática é mera “perfumaria”. Foi possível ver Thiago Silva, Filipe Luís e Casemiro conversando e orientando mais os companheiros em campo. Muda pouco.

O que acrescentaria e muito ao rendimento de Neymar seria a liberdade de movimentação, como já encontra no PSG de Thomas Tuchel. Saindo do lado esquerdo do 4-1-4-1 de Tite. Mesmo que eventualmente troque com Coutinho e até Firmino, a produção fica muito limitada. Muitos passes para trás, dribles desnecessários, erros bobos.

É claro que pelo talento o toque diferente vai desequilibrar em alguns momentos, mas é um desperdício a participação reduzida na construção das jogadas, ficando limitado a apenas um setor. E pior: colabora pouco sem a bola, sobrecarrega Coutinho, Filipe Luís e Thiago Silva na cobertura. Os ataques mais produtivos dos americanos foram por ali. Sem contar as dificuldades defensivas nas bolas paradas.

Para o primeiro jogo depois de uma eliminação traumática o saldo é positivo. Compreensível a manutenção da estrutura tática. Mas com o tempo é dever testar peças e variações. Como o 4-2-3-1 ou 4-4-2 com Neymar solto. Será muito mais útil que uma mera questão simbólica.


Versão “olímpica” de Neymar no novo PSG pode ser boa opção para Tite
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André Rocha

Foto: Christian Hartmann/Reuters

Thomas Tuchel, novo treinador do Paris Saint-Germain sucedendo Unai Emery, é um profissional inquieto e inventivo. Pensa suas equipes voltadas para o ataque, com muita gente chegando à frente e praticamente limitando o trabalho sem a bola à pressão pós perda e defensores rápidos na cobertura. Para seguir ocupando o campo adversário com posse, mas muita agressividade e rapidez na execução das jogadas. Foi assim no Mainz e no Borussia Dortmund.

Não seria diferente no comando do bilionário PSG. De Mbappé, Cavani e Neymar, mas também Di María. As dúvidas quanto à montagem da equipe com todas as estrelas disponíveis começaram a obter respostas nos 3 a 1 sobre o Angers no Parc des Princes. Terceira vitória consecutiva, 100% de aproveitamento na liga francesa.

Sem a bola, o 4-3-1-2, um dos sistemas preferidos do treinador. Com Meunier formando linha de quatro com os zagueiros Thilo Kehrer, Thiago Silva e Kimpembe. Marquinhos como volante, Rabiot pela direita e Di María à esquerda. Na frente, Cavani e Mbappé.

Atacando, uma espécie de 3-4-1-2 com os três zagueiros bem adiantados, Meunier e Di María abertos para esgarçar a marcação adversária, Marquinhos e Rabiot no meio, Cavani e Mbappé com liberdade para trocar o posicionamento, procurar os flancos e infiltrar em diagonal.

E Neymar? Solto. Com total liberdade, como Tuchel havia antecipado quando conversou com o jogador e o convenceu a ficar no clube francês, segundo informou o jornal “Le Parisien”. Para servir Cavani no primeiro gol em jogada pela direita e marcar o terceiro chegando de trás. Como um típico camisa dez. Aparecendo também na esquerda, onde deu uma “lambreta” em forma de passe no final do jogo. Se juntando aos atacantes, mas também fazendo o time jogar.

Novo PSG teve Meunier e Di María bem abertos e Neymar com liberdade total de movimentação. Pela direita serviu Cavani no primeiro gol sobre o Angers (reprodução ESPN)

Impossível não lembrar dos Jogos Olímpicos no Brasil em 2016. Sob o comando de Rogerio Micale, começou pela esquerda, mas depois, com a entrada de Luan na vaga de Felipe Anderson, ganhou liberdade total. Gabigol e Gabriel Jesus pelas pontas infiltrando em diagonal e voltando para colaborar sem a bola e Neymar pensando o jogo, mas também decidindo. Arco e flecha.

Tite insistiu com Neymar pela esquerda. Curioso pensar que para muita gente na época foi o treinador que havia acabado de assumir o cargo da principal que fez a mudança que resultou na medalha de ouro, passando por cima de Micale. Como, se a alteração mais importante quase não foi vista nas eliminatórias e nos amistosos?

Na seleção olímpica, Neymar jogou com liberdade para articular por dentro revezando com Luan. Gabigol e Gabriel Jesus jogavam abertos buscando as diagonais (reprodução TV Globo)

Só na Copa do Mundo, com Neymar voltando de um período de três meses lesionado, que Tite deixou em alguns momentos o seu camisa dez mais solto, adiantado e com autonomia total para se movimentar. Não por acaso, a melhor atuação aconteceu com essa dinâmica, na segunda etapa do jogo contra o México pelas oitavas de final. Marcou o primeiro gol e depois finalizou para Firmino marcar no rebote.

A mudança no clube pode e deve servir de inspiração para Tite neste novo ciclo que visa a Copa de 2022 no Qatar. Com Neymar numa zona de articulação a chance de prender a bola demais, levar pancada e simular faltas é menor. Já a de ser decisivo com gols e assistências cresce exponencialmente.

Não como no engessado esquema de Luiz Felipe Scolari na Copa de 2014, com Oscar e Hulk abertos e Fred na referência, sobrecarregando Neymar, que precisava buscar a bola nos volantes para pensar o jogo ou se adiantar nas ligações diretas para aproveitar alguma “casquinha” do centroavante e acelerar em direção à meta do oponente.

É possível pensar num quarteto leve e móvel, com Douglas Costa e Philippe Coutinho nas pontas, Neymar e Firmino buscando o jogo entre linhas e aparecendo na área adversária para finalizar. Não exatamente como a seleção olímpica ou o Paris Saint-Germain na movimentação do quarteto ofensivo, mas aproveitando o máximo de seu talento maior. Pode ser um bom recomeço para Tite, já nos amistosos contra Estados Unidos e El Salvador.

As primeiras experiências no novo PSG de Tuchel mostram que é um caminho com boas chances de sucesso.

Nos amistosos contra Estados Unidos e El Salvador, Tite pode experimentar um quarteto ofensivo com Douglas Costa e Coutinho abertos e Neymar e Firmino com liberdade para articular, se movimentar e aparecer para concluir (Tactical Pad).

 


Paulo Turra, auxiliar do Palmeiras: “Mourinho aprendeu muito com Felipão”
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André Rocha

A volta de Luiz Felipe Scolari ao Palmeiras após seis anos foi anunciada no dia 26 de julho. mas no dia seguinte chegavam ao clube os auxiliares Paulo Turra e Carlos Pracidelli. Na segunda-feira o primeiro treino e, em seguida, Turra à beira do campo no empate sem gols com o Bahia em Salvador pela Copa do Brasil, competição importante para o clube na temporada. Só depois Felipão chegou de Portugal e fez sua reestreia no o a 0 contra o América pelo Brasileiro.

Cronologia que mostra a relação de sintonia entre o ex-zagueiro, inclusive do Palmeiras, e o chefe Felipão. Sem Flávio Murtosa, que alegou problemas particulares, é Turra, aos 44 anos, quem aplica os treinos ao lado de Pracidelli. Antes, no Guangzhou Evergrande, trabalhava apenas na elaboração. Em entrevista exclusiva ao blog, Paulo Turra descreve a dinâmica de trabalho no novo clube e defende Scolari das críticas mais contundentes nos últimos tempos: o 7 a 1 e uma visão de futebol ultrapassada.

BLOG – O trabalho mais bem sucedido nos últimos dois anos no Brasil é o de Renato Gaúcho no Grêmio. O auxiliar, Alexandre Mendes, cuida da metodologia de treinamentos e do desenvolvimento do modelo de jogo e Renato fica com a decisão final, a parte mais estratégica e de gestão de grupo. A ideia da sua parceria com Felipão e o auxílio do Pracidelli é parecida?

PAULO TURRA – Em linhas gerais, sim. Antes eu cuidava da elaboração e Murtosa da aplicação dos treinamentos. Também observava os adversários, junto com o Pracidelli. Mas o trabalho está todo interligado. Nós também colaboramos, dentro da hierarquia, com a gestão do grupo. Conversamos individualmente, mas também em grupos, como os jogadores de um setor. Podemos também explicar como joga o próximo adversário.

BLOG – Vocês já utilizam o WhatsApp ou outro recurso para disponibilizar material diretamente no celular do atleta?

PAULO TURRA – Ainda não, embora o Felipão esteja pensando em fazer algo neste sentido. Por enquanto conversamos individualmente, mas contando com o auxílio dos profissionais da Análise de Desempenho. Só para dar um exemplo, vamos conversar com três ou quatro jogadores sobre algumas dificuldades que encontramos no jogo contra o Bahia aqui em São Paulo. Mas também tem o outro lado: Lucas Lima evoluiu muito nas infiltrações por trás da defesa neste último jogo, contra o Vitória. Ele costuma voltar para buscar a bola nos pés dos volantes, até dos zagueiros, pisou muito mais na área adversária e ali ele é mais letal e pode nos ajudar.

BLOG – Como é a dinâmica dos treinamentos?

PAULO TURRA – Chegamos aqui com bastante antecedência para prepararmos tudo. A ideia é trabalhar 50% na assimilação do modelo de jogo e os outros 50% com ajustes de acordo com o adversário. Também evitamos o campo reduzido em todas as práticas, usando muitas vezes a largura total do campo para que tenhamos algo mais próximo da realidade da partida, especialmente nas inversões de jogo. O primeiro gol contra o Vitória, por exemplo, saiu de uma jogada treinada. Passamos informações concretas para que sejam assimiladas com mais facilidade e, principalmente, trabalhamos muito o lado mental do atleta. Pedimos para que mentalizem bem o que praticaram nos treinos e precisam fazer nos jogos.

BLOG – Que legado vocês receberam do trabalho do antecessor, Roger Machado?

PAULO TURRA – O Palmeiras é um clube muito bem estruturado. Na Análise de Desempenho temos o Gustavo e o Rafael, profissionais competentes que em três ou quatro reuniões entenderam rapidamente o que pretendemos. Quanto ao legado do Roger, eu posso dizer que foi uma espécie de “troca de favores” porque tenho certeza que quando ele assumiu o Grêmio em 2015 recebeu um trabalho pronto e bem feito do Felipão, inclusive em termos de estrutura do Centro de Treinamentos. Aprendeu e deu sequência. No futebol não existe certo ou errado, mas ideias complementares. Quem é inteligente pega o melhor de cada treinador.

BLOG – É óbvio que para convidá-lo para ser seu auxiliar, certamente Felipão tem ideias sobre futebol parecidas com as suas. Mas o quanto elas são semelhantes ou alinhadas?

PAULO TURRA – São bem próximas, de fato. Mas quando há divergência falamos normalmente. Todo mundo tem algo a aprender e Felipão me dá liberdade para discordar quando achar que devo. Com o devido respeito, pois é um profissional vencedor e que está na história do futebol. Mas minhas equipes (treinou times como Brusque, Avaí e Cianorte) também tinham um volante e um atacante de referência, como são Felipe Melo e Borja ou Deyverson. Outros detalhes também, como o lateral do lado oposto ao que está atacando fechando como terceiro zagueiro. Conhecia como amigo do futebol, já tínhamos ideias parecidas e desde que começamos a trabalhar juntos na China essa sintonia aumentou.

BLOG – Tanto que ele recentemente não aceitou que você retornasse a China como treinador, correto?

PAULO TURRA – Exatamente. A proposta nem chegou a mim. Felipão recebeu por e-mail, negou e depois me contou, sem nem dizer qual era o nome do clube chinês. Mas eu não sairia mesmo. Estou feliz no Palmeiras e sei que ele precisa de mim, ainda mais sem o Murtosa. Seria uma ingratidão. Quero seguir no Brasil, onde para mim é um dos lugares em que o futebol é melhor jogado.

BLOG – Você observa jogos e relata para o Felipão. No episódio do 7 a 1 na Copa do Mundo de 2014, os observadores Roque Júnior e Alexandre Gallo relataram sobre a força da Alemanha no meio-campo e a capacidade de preencher espaços no campo de ataque e Felipão descartou preencher o meio-campo e apenas trocou Neymar por Bernard. A decisão foi do Felipão, que muitas vezes se guia pela intuição – e também já venceu muito desta forma, diga-se. Como funciona com você?

PAULO TURRA – Ele ouve muito, mas é quem decide por ser o chefe. Honestamente nunca vi uma decisão dele por intuição. Pelo contrário, considero o Felipão muito atualizado, antenado. Não tem nada de ultrapassado. E a meu ver a derrota para a Alemanha não aconteceu por causa da entrada do Bernard. Foi uma conjunção de fatores.

BLOG – Você sempre que pode cita José Mourinho como uma referência de treinador. Que outros profissionais você e também o Felipão consideram como influentes na maneira atual de trabalhar no futebol?

PAULO TURRA – Para mim o Mourinho, sem dúvida, é uma referência. Mas com Felipão creio que seja o contrário. O Mourinho é um grande admirador dele. Aprendeu muito com ele quando treinava o Porto e Felipão estava em Portugal trabalhando na seleção, já como campeão do mundo pelo Brasil. Basta ver suas equipes, com os atacantes como os primeiros defensores, pressionando muito os adversários. Adota também a prática de forçar o adversário a jogar pelo lado e dali não sair mais. Lembra quem era o volante do Porto? Costinha, que depois Felipe levou para a seleção. Sempre um atacante de referência, dois jogadores velozes pelos lados. São visões de futebol muito próximas, inclusive na gestão de grupo.

BLOG – Mas que outro treinador você poderia citar como alguém fazendo um bom trabalho capaz de agregar coisas ao que vocês fazem?

PAULO TURRA – São vários, difícil citar. Mas nunca vi o Felipão criticar o trabalho de um treinador, seja lá quem for. Já vi, sim, elogiando. Como fez com o Marcelo Caranhato, do Cianorte, quando eu o apresentei. Mas Simeone seria um deles, pela capacidade de armar seu time de forma compacta. Também Fabio Capello pela experiência, o André Villas-Boas, entre outros.

BLOG – O Palmeiras tem usado um time mais “alternativo” no Brasileiro e outro aparentemente mais completo, perto do que o Felipão considera o titular, nos torneios de mata-mata. Será essa a tônica até o final da temporada?

PAULO TURRA – Pensamos jogo a jogo. O grupo é bom, a maioria já conhecíamos de acompanhar jogos no Brasil. Eles absorveram as ideias muito rapidamente. O que fazemos é pensar na melhor formação possível considerando todos os aspectos, especialmente as informações do Departamento Médico e de Fisiologia. Se tiver um maior risco de lesão a gente segura. Queremos todos o mais próximo possível dos 100% fisicamente para poder manter o bom rendimento que estamos conseguindo neste início de trabalho. Não há prioridade, vamos brigar nas três frentes da melhor maneira possível.

 


Renovação no meio-campo é a melhor notícia da primeira lista de Tite
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André Rocha

É uma lista cheia de contextos, inclusive o cuidado de não desfalcar muito os times brasileiros envolvidos em disputas decisivas. São 13 remanescentes da Copa do Mundo por uma questão de coerência. Afinal, é a sequência de um trabalho.

Os adversários não são de primeira linha: Estados Unidos e El Salvador. Vale mais perceber as intenções de Tite neste início de novo ciclo na seleção. Já fica claro o vazio na lateral direita, com Fagner voltando e o zagueiro Marquinhos e Fabinho, há tempos atuando no meio-campo, podendo ser improvisados no setor. Militão parece ser o nome da vez e foi citado como um dos não convocados, mas observados. Questão de tempo.

Na esquerda, uma pausa para Marcelo e novas oportunidades para Filipe Luís e Alex Sandro. Na zaga, a oportunidade para Dedé já acenada com o elogio ao zagueiro do Cruzeiro quando do anúncio da lista dos 12 nomes além dos 23 convocados para o Mundial. Felipe do Porto e campeão brasileiro em 2015 com Tite no Corinthians, também é nome interessante. No gol, a surpresa ao levar Hugo, do sub-20 do Flamengo. Em um ciclo de quatro anos é possível pensar no futuro.

No ataque, Roberto Firmino largando na frente de Gabriel Jesus e prêmios a Everton, fator de desequilíbrio no Grêmio, e Pedro, o melhor camisa nove em atividade no país e com potencial para ser um centroavante seguindo a linhagem dos grandes que já vestiram a camisa cinco vezes campeã do mundo. Neymar era nome mais que esperado, mas desta vez quase como um coadjuvante. Boa oportunidade para repensar, reciclar e ressurgir. Malcom podia estar já nesta lista, Richarlison também. Vinícius Júnior e David Neres são joias para o futuro.

A melhor notícia, porém, vem do meio-campo. Casemiro é o homem da proteção e os melhores tecnicamente do grupo que esteve na Rússia continuam: Renato Augusto, Fred, Phillipe Coutinho e Willian. Sustentação e experiência para ajudar as ótimas novidades. Arthur e Lucas Paquetá, nomes já esperados pelo enorme potencial, e Andreas Pereira – bela sacada de Tite, jogando mais recuado no Manchester United e já demonstrando sintonia fina com Fred. E Douglas, ex-Vasco e hoje no Manchester City, é outro no radar. Sem falar em Maycon, ex-Corinthians.

Qualidade no nosso “gargalo” de muito tempo. Enfim jogadores de bom toque e leitura de jogo. Não só volantes de infiltração e intensidade ou o meia de talento, mas pouca entrega sem a bola. Meio-campistas completos. Pontos para os clubes, que estão propondo uma melhor formação aos jovens que atuam no setor.

Como em toda lista, presenças e ausências serão questionadas. Fica a impressão de que Tite não convocou jogadores do Palmeiras por um misto de convicção, até porque só Bruno Henrique tem bom desempenho recente para merecer, com instinto de defesa para evitar atritos com o desafeto Felipão.

Mas já é possível ver o copo meio cheio. Cabe ao treinador aprender com os dois anos atropelados à frente da seleção – um para classificar, outro para se tornar competitivo no mais alto nível – e construir um novo trabalho a partir do legado do anterior. Evolução é a palavra que deve nortear todos os processos a partir deste primeiro ato.


Carta a Paulo Cézar Lima: já pensou se houvesse um Caju para lhe avaliar?
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André Rocha

Foto: Arquivo/CBF

Sr. Paulo Cézar Lima,

O senhor certamente não me conhece. E uso da extrema formalidade na abertura da carta, sem usar o “Caju” que era apelido por conta de uma tintura de cabelo e foi anexado ao seu nome, porque sei que não gosta muito de jornalista. Como nunca chutei uma bola profissionalmente, o cuidado precisa ser maior ainda para lidar com o senhor.

Por isto relutei tanto em publicar este texto, que vem sendo guardado e atualizado há algum tempo. Já que acredita que só ex-profissionais da bola podem falar de futebol, que valor teria algo meu direcionado ao senhor? Resta a mim então pedir humildemente que reflita sobre o que alguém que lhe lê e ouve há muito tempo tem a dar de retorno sobre suas palavras e posicionamentos.

Acompanhei suas críticas à seleção de Tite em “O Globo”. Muitas pertinentes, obviamente. Até porque nenhum trabalho é perfeito, nem mesmo os mais vencedores e consagrados. Lembra que em 1970 o goleiro Félix falhou no gol do Uruguai e a firula de Clodoaldo terminou no empate italiano no final do primeiro tempo da decisão no Estádio Azteca?

Pois é justamente o que incomoda há tempos este que escreve. O senhor só critica, aponta defeitos. Sistematicamente. De forma impiedosa até. Desde Lazaroni em 1990, quando me lembro de começar a acompanhar a sua visão sobre o futebol brasileiro, até agora. Lá atrás cheguei a concordar muitas vezes com suas teses de resgate da essência do nosso jogo e do pecado em copiar os europeus.

Meu avô dizia que o senhor era uma craque de bola. Confesso que me decepcionei um pouco com seu desempenho na única partida que lhe vi em ação ao vivo: o Mundial Interclubes de 1983 pelo Grêmio contra o Hamburgo em Tóquio. O Mário Sérgio teve que jogar por ele e pelo senhor. Mas tudo bem, foi apenas uma partida, teve a questão do entrosamento e era reta final da carreira, com 34 anos. Eu só tinha dez.

Só que veio a internet. Com ela a banda larga e a possibilidade de hospedar e, consequentemente, assistir a vídeos mais longos. Jogos na íntegra foram disponibilizados. Todos da Copa do Mundo de 1974. Com 25 anos, era para ter sido o seu Mundial. Sem Gerson e com Rivelino na sua real posição desta vez não teria concorrência. E Zagallo lhe deu ainda mais liberdade, já que era Dirceu quem fazia o “falso ponta” pela esquerda e o senhor podia jogar mais livre como o antigo “ponta de lança”, se aproximando de Jairzinho, que jogou como centroavante e  Valdomiro do Internacional fazia a ponta direita.

Uma enorme decepção o futebol do que o senhor chama de “bons tempos”, “Era de ouro”. O mito não caiu, desabou. Entendo quando diz que o rendimento da seleção foi prejudicado pelo racha entre cariocas e paulistas, mas isto sempre aconteceu. E convenhamos que Zagallo sempre deu preferência aos cariocas. Tanto que mesmo com desempenho pífio da maioria em praticamente toda a campanha, Ademir da Guia só foi ter oportunidade na decisão do terceiro lugar, contra a Polônia. Também foi mal.

Por mais boa vontade que tivesse vendo os jogos foi impossível não me desapontar com seu rendimento. Nenhum gol, algumas jogadas individuais esporádicas. Quando o Brasil mais precisou do seu futebol ele não apareceu. Era aquele o estilo que o senhor exalta até hoje? Duas atuações enfadonhas contra Iugoslávia e Escócia – confesso que algumas vezes utilizei essas partidas para vencer a insônia – e o sufoco contra o Zaire para se classificar. Vitórias apertadas, mas até animadoras contra Alemanha Oriental e Argentina.

Para fechar com aquela vergonha contra a Holanda. A seleção tricampeã tentou intimidar os adversários com uma pancadaria lamentável. Liderados pelo esquentado Cruyff, os holandeses revidaram e o que vimos foi uma das páginas mais tristes da história das Copas. No segundo tempo, com os ânimos mais calmos e os europeus, com toda razão, respeitando menos a nossa tradição, a “Laranja Mecânica” passeou e fez 2 a 0 com tranquilidade para garantir vaga na grande decisão contra a anfitriã Alemanha.

A minha questão que propõe uma reflexão é simples: já pensou se houvesse um Caju naquela época avaliando o futebol da seleção e, particularmente, o seu? Consegue se imaginar sendo submetido à sua régua de exigência com todos que passaram pela seleção nos últimos anos?

Sim, o senhor foi vítima de racismo em um Brasil regido pela ditadura e com seu conservadorismo habitual. Naqueles tempos um negro bem sucedido incomodava muita gente mais do que hoje. E concordo que hoje a grande maioria dos jogadores de futebol é alienada. Também há muito a lamentar e protestar por não ter sido chamado por Cláudio Coutinho em 1978 – e desconfio que sua bronca com quem “nunca chutou uma bola” venha daí.

Mas nem tudo foi preconceito. O campeonato carioca de 1971 ficou marcado pelo gol polêmico de Lula, que deu o título ao Fluminense, depois do goleiro Ubirajara trombar com Marco Antônio. Mas também pela sua soberba de fazer embaixadas na frente dos rivais e, a partir daí, o Botafogo perder um campeonato ganho, no qual o senhor era o grande destaque e também artilheiro, com 11 gols. Imagine isto hoje, ainda que os estaduais tenham perdido seu valor ao longo dos anos. Tente vislumbrar o que um Paulo Cézar Lima diria do seu comportamento?

Aproveito para dizer que hoje o senhor se equivoca ao afirmar que atuar na Europa engessa o jogador brasileiro. Até foi assim há algum tempo. Mas agora treinadores como Pep Guardiola, Jurgen Klopp e até José Mourinho quando contratam brasileiros querem deles justamente o que o senhor tanto lamenta a ausência: o drible. Ele acontece, mas na zona do campo onde é mais produtivo: da intermediária para dentro da área do oponente. Neymar, Coutinho, Douglas Costa, Willian, David Neres, Malcom…O Real Madrid acabou de contratar dois muito promissores: Vinicius Júnior e Rodrygo. Não é o problema.

Nosso gargalo é outro, está no meio-campo. Aí, sim, o senhor tem razão. Mas Arthur está chegando ao Barcelona para começar a resolver este problema. E posso garantir: nas divisões de base tem gente trabalhando para formar jogadores mais qualificados para pensar e ditar o ritmo, de área a área.

Sim, muitos profissionais que não jogaram bola. Mas estudaram para a tarefa. Buscaram conhecimento através da literatura de Portugal e de outros países. Sabe a razão? Porque pessoas como o senhor e Vanderlei Luxemburgo, um dos que mais criticam a parte teórica vinda de Portugal e defende que o brasileiro nada tem a aprender com os lusitanos, nunca se preocuparam em deixar algo registrado sobre a nossa escola e o nosso jeito de jogar. Como os jovens treinadores vão trabalhar sem uma referência?

Aliás, o senhor também nunca treinou um time, mais de três décadas depois de se aposentar. Seria interessante ver uma equipe praticar sua visão de futebol na atualidade. Porque o jogo mudou, sim. Como tudo no mundo. Evolui e fica mais complexo. Gostar ou não vai de cada um. Lembra da dificuldade de jogar naquela partida decisiva em Dortmund quando a Holanda adiantava as linhas e marcava por pressão? Pois é o que acontece hoje, com muito mais velocidade e intensidade. Será que aquele jogo lento de outrora conseguiria se impor hoje?

Questões que ouso deixar para o senhor refletir, evitando me alongar ainda mais. Eu até lhe entendo. A crítica pela crítica é sedutora. Na Copa são 32 seleções, em 2026 serão 48! Sete jogos, quatro deles eliminatórios. A chance de ser eliminado é estatisticamente bem maior que a de sair campeão. Então basta dar pancada a torto e a direito e no final, se o título não vier, dizer que avisou. Se for campeão, basta falar que não encanta.

A crítica quando construtiva é, sim, saudável. Mas é bom lembrar que a credibilidade de quem critica sempre é a mesma de quem elogia o tempo todo. E o acerto perde muito do mérito. Afinal, até um relógio antigo quebrado, com os ponteiros parados, acerta a hora duas vezes em um dia.

Me despeço pedindo perdão pelo longo relato. Mas havia muita coisa a dizer depois de tanto tempo. Torço para que não me interprete mal. Repare que não usei do jogo sujo de citar detalhes sofridos de sua vida pessoal já relatados corajosamente pelo senhor para desmerecê-lo profissionalmente. Muito menos criticar seu estilo ousado e extravagante de viver e se vestir nos tempos de jogador, como hoje fazem com Neymar. Não é este o meu perfil.

O intuito da carta é apenas fazer pensar. Como se fosse um espelho. Mesmo que partindo de um homem de 45 anos direcionada a alguém que tem idade para ser seu pai. A torcida é que sirva para algo útil, caso chegue ao senhor.

Saudações!


O abismo de centímetros entre Romário e Neymar
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André Rocha

17 de julho de 1994. Rose Bowl, Pasadena, Estados Unidos. Brasil e Itália decidem a Copa do Mundo. Disputam o tetracampeonato, repetindo a final de 1970. Um tira-teima depois da vitória da Azzurra sobre a seleção de Telê Santana em 1982. Disputa direta entre Romário e Roberto Baggio pelo prêmio de melhor jogador da Copa e, consequentemente, do mundo naquele ano.

Arrigo Sacchi voltava a contar com Franco Baresi na defesa depois de uma milagrosa recuperação de uma lesão séria no joelho. Um extraordinário defensor, mas não deixava de ser incógnita quanto à sua condição física e ao ritmo de jogo para uma final de Copa. Ainda mais no calor sufocante de verão americano naquela tarde de domingo.

Era a chance de Romário brilhar, já que Roberto Baggio também sofria com desgaste físico, inclusive atuando com uma proteção na perna direita. Mas o Baixinho não repetiu o bom desempenho de toda a campanha brasileira. Cinco gols e uma assistência para Bebeto marcar o gol salvador contra os Estados Unidos em 4 de julho.

Baresi controlou bem as arrancadas de Romário ao longo dos 90 minutos. Na prorrogação, com Viola e mais fôlego, os espaços apareceram. Surgiu a chance de se consagrar completando passe de Cafu. Mas o camisa onze perdeu na pequena área. Uma chance que não costumava desperdiçar. Decisão por pênaltis, a primeira da história das Copas. Com personalidade, pediu ao treinador Carlos Alberto Parreira para cobrar. Não bateu bem, mas deu sorte de Pagliuca saltar para o outro canto e a bola tocar na trave direita e cair dentro do gol. A última cobrança, de Baggio, entrou para a história e o Brasil comemorou o tetracampeonato.

Foi a consagração de Romário. Prometeu classificar o Brasil e fez dois gols no Uruguai na última partida das Eliminatórias. Garantiu a conquista do tetra e não decepcionou. Todos os méritos para ele.

Mas imaginemos que aquele chute, por um detalhe do futebol e da vida, tocasse na trave e fosse para fora. Pênalti perdido pelo melhor do time. Poderia abalar a seleção pressionada por críticas e 24 anos sem títulos. A Itália poderia ter se aproveitado e virado a história do avesso.

Centímetros que salvaram um Romário sempre polêmico. Criticado em 1990 por não ter cuidado bem de uma fratura na perna jogando pelo PSV. Disputou pelada com gesso, tratou com a sua rezadeira Dona Nazaré da Vila da Penha. Foi para o Mundial na Itália, mas não rendeu o esperado. Disputou apenas o jogo contra a Escócia. Já tinha perdido a vaga de titular no ano anterior para Careca por ter sido expulso contra o Chile em Santiago pela Eliminatória,  complicando a equipe de Sebastião Lazaroni que precisou vencer no Maracanã na famosa partida da farsa do goleiro Rojas e da “fogueteira”.

Romário que teve seus privilégios nos Estados Unidos. Não só a liberação de treinos físicos e outras atividades que entendiavam o Baixinho. Jornais da época publicaram fotos de uma “namorada” que o atacante teria levado para a concentração da seleção, mesmo em dias que não eram de folga. Segundo as fontes, Parreira e Zagallo sabiam, o capitão Dunga também. Tudo foi abafado para não perturbar a estrela máxima da seleção.

Não é difícil prever o que aconteceria caso o Brasil não fosse campeão do mundo. Na caça às bruxas de sempre, o maior alvo seria o centro das atenções. Alguma dúvida de que tudo que hoje é tratado como “folclórico” seria motivo para demonização, mesmo sendo decisivo nas partidas anteriores?

É bom lembrar que a capacidade e a personalidade de Ronaldo Fenômeno também foi questionada pela convulsão e atuação apática na final da Copa de 1998 até escrever uma das maiores histórias de redenção do esporte com o título e a artilharia em 2002. Até de “amarelão” foi chamado, em colunas e mesas redondas. Sem contar as vaias em 1997 e 1998 quando não rendia.

Ronaldinho virou vilão em 2006. Rivaldo foi perseguido em 1996 pelo desempenho pífio na seleção olímpica. Kaká já foi alvo de pipocas no São Paulo e também criticado pelo desempenho com a camisa verde e amarela em 2006. Todos Bolas de Ouro, como Romário. Até Pelé, que teria um busto em cada esquina em qualquer país do mundo que ama futebol, é criticado e ironizado no Brasil.

Todos tinham um outro craque para dividir um pouco os holofotes. Pelé teve Garrincha, Romário teve Bebeto, depois Ronaldo. Fenômeno que teve Rivaldo, mais tarde Ronaldinho Gaúcho que chegou a dividir o bastão com Kaká.

E chegamos a Neymar. Estrela única do futebol brasileiro atual. A referência na bola e na mídia. Com idiossincrasias e privilégios, como quase todo destaque. Como Messi na Argentina e no Barcelona, Cristiano Ronaldo em Portugal e no Real Madrid. Como Romário por onde passou.

Criticado no inicio da Copa por individualismo, simulações, irritação. A partir do jogo contra a Sérvia, até por estar pendurado com um cartão amarelo, focou no futebol e foi importante para a classificação brasileira. Diante do México, a melhor atuação com gol e o chute que Ochoa deu rebote e Firmino completou. Pisado por Layun, pode ter exagerado na reclamação, mas não a ponto de transformar o agressor em vítima como Juan Carlos Osorio tentou fazer parecer.

Com o camisa dez brasileiro mais concentrado e rendendo, as críticas ficaram mais discretas. Ou veladas. Afinal, a cobrança era para que ele jogasse futebol e esquecesse as polêmicas, os enroscos. Foi o que fez. Mas quem persegue fica à espreita esperando o momento do bote. Ele veio.

Contra a Bélgica, atuação irregular como todo time. Mal no primeiro tempo pela desvantagem de 2 a 0. Mesmo com 26 anos, não tem o perfil de liderança de pegar a bola e conduzir a equipe. Nem Romário tinha. Em 1994, esta era a função de Dunga.

Melhorou na etapa final como toda a equipe. No ataque derradeiro, o belo chute que parou na defesa ainda mais espetacular do goleiro Courtois. Tocou na bola o suficiente para desviá-la e impedir o empate. Centímetros. De braço. De história.

Imaginemos Neymar empatando o jogo no final. Deixando o Brasil com vantagem física e emocional para a prorrogação. Com chances de marcar pelo menos mais um que garantisse a vaga nas semifinais. Alguém imagina como seria o discurso? No mínimo, exaltando a personalidade no momento decisivo.

Certamente lembrariam do desempenho fantástico nas disputas de mata-mata do título do Barcelona na Liga dos Campeões 2014/15. Superior a Messi, inclusive. Artilheiro junto com os dois gênios da geração. Gol em final. Ou a conquista da Libertadores de 2011 também marcando na decisão contra o Peñarol. Ou quando assumiu a responsabilidade e conduziu o Barcelona aos 6 a 1 sobre o PSG em 2017, arbitragem à parte. Feitos que Romário, por exemplo, não ostenta em seu currículo. Na única final europeia, derrota do seu Barcelona por 4 a 0 para o Milan.

De certa forma, Neymar também ajudou a colocar o Brasil na Copa. Ausente de boa parte dos jogos da Era Dunga nas Eliminatórias, assumiu a responsabilidade no início do trabalho de Tite. Quando os resultados eram fundamentais para tirar da incômoda sexta posição, fez um gol de pênalti, deu assistência no terceiro e participou da jogada do segundo, ambos de Gabriel Jesus nos 3 a 0 sobre o Equador em Quito. Nos 2 a 1 sobre a Colômbia, cobrou escanteio na cabeça de Miranda e marcou o gol da vitória. Terminou com seis gols, um a menos que Gabriel Jesus. Hoje parece quase nada, mas teve seu peso naquele momento de dificuldade.

Não aconteceu para Neymar na Rússia. E veio a onda de dedos apontados. Piadas e memes. De todo o planeta. Reduzindo Neymar a um pseudocraque que rola pelos gramados. Um mero produto da mídia mimado e que engana os incautos e pachecos. Marrento e antipático. Como se outros talentos não fossem. Como Romário.

Centímetros. Que salvaram Romário em 1994 na sua última Copa do Mundo. Em 1998, pelo temperamento complicado e por tudo que aprontou nos Estados Unidos e depois, não contou com a paciência de Zagallo para aguardar a recuperação de uma lesão na panturrilha. Em 2000, por conta de uma desavença com Vanderlei Luxemburgo no Flamengo em 1995, ficou de fora da Olimpíada. Dois anos depois, descartado por Luiz Felipe Scolari, viu o penta pela TV. Tudo porque era “difícil”. Também simulava faltas e pênaltis. Dobrava os joelhos e jogava o corpo para a frente. Mas aí entrava na cota da “malandragem”…

Como foi tetra virou mito. Com a fama de “jogar e decidir”, ainda que ostente poucos títulos para os 22 anos de carreira profissional. Merece o reconhecimento. Mas sabemos que um detalhe poderia ter jogado um dos maiores atacantes de todos os tempos no limbo da história.

Neymar corre este risco. Mesmo superando Romário na artilharia da seleção, agora com 57 gols – e homenageou o artilheiro aposentado na comemoração. Todos que não aceitam sua personalidade contraditória aproveitam o momento de baixa para a vingança. Ou apenas aproveitam para colocar em prática a crueldade de afirmar teses em cima da imagem dos outros.

Por centímetros do braço de Courtois. Com final diferente do efeito dos centímetros que levaram a bola da trave para dentro na cobrança de pênalti de Romário em 1994. Um chute não tão bom que entrou, outro perfeito interceptado na trajetória que parecia inevitável. Medida que cria um abismo entre dois dos maiores da história do futebol cinco vezes campeão do mundo.

No Brasil do pensamento binário, no qual quem não odeia é passador de pano, é bom deixar claro: este post não é uma crítica a Romário. Este que escreve viu ainda garoto, em 1984, marcando gols pelos então “juniores” (sub-20) do Vasco nas preliminares do Maracanã. E tantas vezes testemunhou no estádio o talento do gênio da grande área do século 20. Um ídolo.

Muito menos a intenção é blindar Neymar. Quem acompanha o blog sabe que este que escreve evita mencionar o nome do personagem que mais atrai cliques na internet. Oportunismo aqui passa longe. E para massacrar já há gente até demais. Mas não discordo de quem considera Neymar mal orientado e assessorado. Na bolha em que vive há quase uma década ele precisa de uma voz que o conecte à realidade para evitar certos desgastes desnecessários. Já passou da hora de amadurecer.

O texto e o “se” que o norteia propõem apenas uma reflexão sobre a nossa capacidade de idolatrar ou ridicularizar por um resultado. Definido por detalhe, pelo imponderável. Tão pouco. Centímetros.

 


A maior ameaça da Bélgica é não saber o que esperar dela
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André Rocha

Pegue tudo que a Bélgica fez até aqui na Copa do Mundo e descarte. Sim, jogue fora! Panamá, Tunísia, reservas contra a Inglaterra no jogo do “tanto faz” e Japão. Todos os gols, estatísticas, desempenhos…

Nada valem como parâmetro para avaliar suas possibilidades em duelo de quartas de final contra o Brasil. Jogo único, experiência inédita. A rigor, tudo que a seleção fez sob o comando de Roberto Martínez desde 2016 tem pouco ou nenhum peso para a grande partida da história desta talentosa geração até aqui.

Sim, maior que o confronto com a Argentina de Lionel Messi no Mané Garrincha em 2014, também pelas quartas. Primeiro porque a albiceleste não carregava o status de favorita ao título mundial que o Brasil ostenta na Rússia depois de quatro jogos e Alemanha, Espanha, Messi e Cristiano Ronaldo eliminados. Depois porque os belgas ganharam maturidade. Não só por aquela eliminação, com 11 convocados dos 14 que entraram em campo em Brasília há quatro anos, mas também pela decepção na Eurocopa contra País de Gales. Também nas quartas. Ainda sob o comando de Marc Wilmots.

O sucessor no comando técnico é espanhol. Fã de Johan Cruyff. Mas radicado na Inglaterra desde 1995, ainda como jogador. Valoriza a posse de bola, mas também adapta facilmente suas convicções a um jogo mais físico e direto.

Versatilidade também é a marca de muitos de seus jogadores. Vertonghen pode ser zagueiro ou lateral esquerda. No mesmo lado, Carrasco é ala, mas também pode ser meia ou ponteiro. Hazard sabe jogar aberto ou por dentro, como um atacante atrás do centroavante. De Bruyne tem atuado na seleção e no Manchester City como o meia mais próximo do volante à frente da defesa, porém sabe jogar adiantado, centralizado ou no flanco em uma linha de meias. Fellaini é meio-campista, mas pela estatura não é raro vê-lo na área fazendo dupla com Lukaku. Chadli, heroi contra o Japão, entrou na vaga de Carrasco na ala e também sabe fazer todo o corredor esquerdo.

É simplesmente impossível tentar vislumbrar o que a Bélgica fará em campo. Nas eliminatórias europeias sobrou contra adversários frágeis e os amistosos, mesmo contra seleções grandes como Espanha, Portugal e Inglaterra, não podem ser tratados como uma referência segura.

O 3-4-3 com proposta ofensiva pode ser mantido, sim. Arrojado, com muita pressão no campo de ataque e volume de jogo empurrando o Brasil para a defesa, mas também deixando espaços atrás e entre os setores. Há qualidade e coragem para tal ousadia. Com os alas Meunier e Carrasco bem abertos e preocupando os laterais Filipe Luís ou Marcelo e Fagner e os ponteiros Mertens e Hazard dois passos para dentro, perto de Lukaku e criando instabilidade na proteção da área brasileira que terá mudança: Fernandinho na vaga do suspenso Casemiro.

O 3-4-3 da Bélgica em sua versão mais agressiva, com alas Meunier e Carrasco abrindo o campo e os ponteiros Mertens e Hazard se aproximando de Lukaku, com o suporte do meia De Bruyne na articulação (Tactical Pad).

Mas Martínez também pode mudar tudo sem mexer na formação. Armando um 5-4-1 bastante cuidadoso guardando sua própria área. Em um jogo deste tamanho, que jogador se recusaria a uma função tática de maior sacrifício no trabalho defensivo e a humildade sem bola para buscar a vitória nos contragolpes? Basta reforçar a linha de cinco que já costuma ser formada com o recuo dos alas Meunier e Vertonghen alinhando De Bruyne a Witsel e os ponteiros Mertens e Hazard voltarem para esperar os laterais brasileiros. Compactação para evitar espaços entre os setores.

A linha de cinco na defesa belga quando os alas voltam como laterais e se juntam ao trio de defensores. Contra o Brasil, a missão é reduzir os espaços entre os setores, como os cedidos contra o Japão nas oitavas de final (Reprodução TV Globo).

Se quiser surpreender, novamente sem fazer alterações, o treinador espanhol ainda pode reagrupar o time em duas linhas de quatro: Vertonghen de lateral esquerdo, Carrasco adiantado como meia aberto, Mertens recuando à direita e Hazard mais solto para buscar espaços às costas dos volantes brasileiros mais próximo de Lukaku.

Uma possível surpresa de Martínez sem mexer na formação titular: duas linhas de quatro com Vertonghen na lateral, Carrasco adiantado como meia e Hazard no ataque com Lukaku (Tactical Pad).

Fellaini ou Dembele podem entrar para reforçar o meio-campo e dar liberdade a De Bruyne, Chadli ganhar a vaga de Carrasco para executar as mesmas funções pela esquerda. Martínez ainda conta com as opções de Januzaj, autor do golaço da vitória sobre a Inglaterra, Tielemans e Batshuayi.

Um vasto cardápio oferecido pelo grupo de jogadores mais homogêneo em termos de qualidade técnica deste Mundial. Mas uma incógnita também na força mental. Pode entrar na Arena Kazan sem nada a perder e arriscar tudo, com a confiança renovada depois de reverter uma desvantagem de dois gols contra o Japão em jogo eliminatório.  Para ultrapassar a barreira recente das quartas de final e repetir a geração semifinalista de 1986, só parando em uma tarde inspirada de Diego Maradona.

Mas também não é improvável temer a camisa cinco vezes campeã mundial e a equipe de Tite com sua solidez nos números e no desempenho. Ainda que todos se conheçam bem nos clubes – Fernandinho, Danilo e Gabriel Jesus jogam com Kompany e De Bruyne no Manchester City, Paulinho e Coutinho são companheiros de Vermaelen, Thiago Silva, Marquinhos e Neymar atuam ao lado de Meunier no PSG, Filipe Luís jogou com Carrasco no Atlético de Madri e Willian trabalha diariamente com Courtois e Hazard. O universo de seleções, porém, costuma carregar outra lógica e uma mística diferente.

Tudo isto torna a Bélgica um grande ponto de interrogação. A maior ameaça é justamente não saber o que esperar dela.