Blog do André Rocha

Arquivo : palmeiras

Pânico do Galo com dois homens a mais é retrato do futebol brasileiro
Comentários Comente

André Rocha

Aos 33 minutos do segundo tempo, a expulsão de Willian deixou o Palmeiras com dois homens a menos contra o Atlético Mineiro no Independência. O time da casa já estava com vantagem numérica desde os 40 da primeira etapa com o cartão vermelho apresentado por Leandro Vuaden a Luan Garcia.

A ideia do post não é se ater às decisões do árbitro no confuso 1 a 1 de sábado, com três pênaltis além das duas expulsões e outros lances polêmicos, mas às consequências dentro do jogo. Com um homem a mais, o Galo já vinha encontrando dificuldades e se livrou de sofrer o segundo gol quando Victor pegou a cobrança de pênalti de Deyverson.

Quando o cenário do final da partida apresentou a obrigação de atacar para se impor sobre oito jogadores plantados na própria área protegendo o goleiro Fernando Prass, o time mineiro entrou em pânico. Passou a errar passes seguidos, se afobar chutando de fora da área e levantar bolas a esmo, muitas delas na intermediária.

Para desespero do treinador Rogerio Micale, no comando da equipe há pouco mais de dois meses. Era possível fazer a leitura labial e entender que seus gritos eram para girar a bola até criar o espaço para a infiltração. Em vão, ainda que a forceps tenha criado algumas oportunidades e pudesse até sair com a vitória. Ou derrota, no contragolpe cedido que Moisés, já exausto, não conseguiu aproveitar.

A postura do Galo no final da partida é um retrato do futebol atual praticado no Brasil. No qual ter a bola e a obrigação, pelo contexto da partida, de atacar e propor o jogo é um problema. Quase um fardo. Ou o maior risco de sair derrotado.

As razões são muitas. Desde o pouco tempo para treinar pelo calendário insano que também exige um revezamento maior no elenco e compromete o entrosamento, passando pelas constantes mudanças por conta de uma janela de transferências que parece nunca acabar e a pouca paciência com o trabalho dos treinadores. Pressão absurda por resultados imediatos, ainda mais de elencos montados com altíssimo investimento, como os de Palmeiras e Atlético-MG.

Assim como a percepção de que o futebol jogado nos grandes centros chegou aqui primeiro pela defesa. O trabalho sem a bola que ganhou um salto de evolução com a aproximação das linhas, a participação de todos, a perda da vergonha de recuar os dez homens atrás da linha da bola, a preocupação em congestionar a zona de criação para a infiltração. Também a pressão no campo adversário para dificultar a construção das jogadas desde o seu início.

Como criar espaços em um jogo tão apressado, que vaia a bola atrasada para o goleiro ou os passes trocados pelos zagueiros para tirar o rival do próprio campo? Um sistema defensivo bem posicionado e com movimentos coordenados não é tão difícil de ser treinado e exige um trabalho mais sofisticado de quem tem a bola.

É preciso se movimentar para abrir a brecha e o companheiro aparecer nela no tempo certo. Saber o momento de arriscar o drible que desequilibra. Leitura de jogo. Para isso é preciso inteligência e também sintonia, jogar de memória, se entender no olhar. Só vem com a repetição. Difícil com o entra e sai de peças. Não por acaso o São Paulo de Dorival Júnior, que contratou dezoito jogadores e também o treinador, sofre mais que os outros e a meta que restou em 2017 é escapar do rebaixamento que parece cada vez mais palpável.

Mas o líder Corinthians, ainda absoluto e com boa vantagem, também pena quando tem a bola. Fabio Carille tem time base definido, resgata conceitos dos tempos de Tite e mesmo com a maioria dos titulares tendo atuado sob o comando do atual treinador da seleção brasileira, o fato de ter se tornado o time a ser batido fez com que os adversários estudassem mais os movimentos ofensivos e se concentrassem em bloqueá-los.

Enfrentar o melhor time do campeonato também permite jogar em contragolpes, mesmo em casa. Assim o Santos venceu na Vila Belmiro. Porque os espaços se oferecem para os velocistas que não conseguem pensar quando se deparam com uma parede. Resta levantar a bola na área para arrancar um gol. Ou apostar na bola parada. É pouco. Falta repertório, ousadia. Ideias.

Não por acaso em 73% dos jogos quem fica mais tempo com a bola não vence. Por isso o Galo penou e perdeu a oportunidade de conseguir três pontos e se aproximar do G-6. Segundo o Footstats, terminou a partida com 62% de posse, 20 finalizações. Mas apenas sete no alvo e poucas chances cristalinas. Foi às redes na cobrança de pênalti de Fabio Santos. Efetuou 33 cruzamentos.

Criou pouco porque se livrou da bola. E no final é comum o discurso de que fizeram tudo que foi possível. “Massacramos, mas não deu”. Como se ficar com a posse sem criar nada de concreto representasse alguma superioridade real.

Um engano recorrente que empobrece ainda mais o nosso jogo tão sofrido. Há qualidade, mas ela está sufocada. Sem espaço, tempo, paciência, treino e coragem fica quase impossível. É mais fácil esperar o contragolpe. Ou o acaso proteger.


No clássico da desordem, Palmeiras respira e São Paulo agoniza sem soluções
Comentários Comente

André Rocha

O time de Cuca mostrou as virtudes e defeitos habituais na temporada. Erros defensivos pela desorganização provocada pelas perseguições individuais. Ficou claro no gol de Marcos Guilherme, quando Pratto aproveitou a retaguarda esburacada para dar assistência, antes do acidente com Hernanes que o tirou do campo na ambulância.

Entrou Gilberto e o São Paulo perdeu força. O Palmeiras reagiu pela persistência, por não desistir, pela inquietação de seu treinador usando as peças disponíveis. Jogada de Michel Bastos, gol de Willian, autor do segundo em finalização de fora. Virada rápida desconstruída por Hernanes, o único lúcido no tricolor paulista. Mas que não pode resolver tudo na jogada individual ou nas finalizações precisas.

Porque o “Soberano” é um clube à deriva. Pela irresponsabilidade de entregar um dos gigantes brasileiros à própria sorte com jogadores e treinador ainda se conhecendo em agosto, num balcão de compra e venda que parece não ter fim. E não consegue resolver um problema grave desde o início da temporada: a falta de um goleiro confiável.

Sidão teve mais uma chance e novamente mostrou a insegurança capaz de minar as forças e a confiança de qualquer um. Mesmo que Dorival Júnior tente organizar sua equipe num 4-1-4-1 que tem momentos de compactação e setores bem coordenados. Só que elos fracos como os  laterais Buffarini e Edimar acabam comprometendo qualquer esforço coletivo e períodos de domínio na partida, com chances cristalinas desperdiçadas – a de Rodrigo Caio na segunda etapa simplesmente inacreditável.

Duas jogadas pela esquerda, o terceiro gol com Keno, substituto de Bruno Henrique para tornar o time ainda mais ofensivo, e o golpe final com Hyoran, reserva pouco utilizado desde que chegou ao Palmeiras. Jogada iniciada com um lançamento precioso de Tchê Tchê para Willian servir o companheiro.

O “Bigode” foi o personagem da vitória fundamental e justa no Allianz Parque: o mandante teve 54% de posse, desarmou corretamente 21 vezes contra dez e finalizou 24 vezes contra nove do rival – dez a quatro no alvo. Para o Alviverde se recolocar na disputa das primeiras posições da tabela e aliviar o ambiente de crise. Nem precisou de tanto para vencer um “Choque-Rei” marcado pela desorganização dos times.

Revés sintomático para um São Paulo em desespero. Vítima de decisões equivocadas há algum tempo, mas bem mais graves em 2017. Desmanchar e remontar elenco ao longo do Brasileiro é algo criminoso. O resultado é uma lenta agonia que parece cada vez mais sem soluções.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Cucabolistas, uni-vos!
Comentários Comente

André Rocha

Foto: divulgação Quatro Linhas.

Diante da notícia de que a Mancha Alvi Verde, a principal torcida organizada do Palmeiras, através de um comunicado oficial pediu a saída do clube do treinador Cuca é hora de fazer uma convocação:

Você que ajudou a inundar as redes sociais com perfis declarando amor ao comandante no título brasileiro do ano passado e que, por não ter nome nem rosto, covardemente atacava quem ousava fazer alguma crítica ao seu objeto de devoção;

Você, jornalista, que defendeu até o limite da irresponsabilidade o estilo do treinador só porque vencia e fazia média com o torcedor palmeirense para sair bem na foto;

Você que usou a camiseta da imagem acima, com a letra “o” simulando uma bola sendo enviada numa cobrança lateral e que agora parece simbolizar a queda do time em todas as competições em 2017;

Você que riu  e compartilhou as piadas do treinador endereçadas aos críticos durante os eventos de premiação do Brasileiro no final do ano passado;

Você que comprou e passou a exibir no Allianz Parque e nas ruas a calça vinho, tratada como amuleto da sorte visando novas conquistas.

É hora de ser coerente e apoiar Cuca. Porque o estilo e as ideias antes defendidas estão lá. Perseguições individuais, marcação por encaixe, o “Porco Doido” com muita intensidade e marcação no campo de ataque, cobranças de lateral na área adversária e cruzamentos em profusão, inclusive da intermediária, quando necessário.

O que mudou? Só o resultado. Que guia sempre todas as análises e é tão tratado como o detentor da verdade que coloca quem ousa fazer alguma ressalva como “anti”, “clubista”, “bairrista”, “mal intencionado”, “canalha”, “vendido”.

A proposta de jogo, as manias, o jeito peculiar estão lá. Só que não estão mais Vitor Hugo e Gabriel Jesus. Moisés só retornou há pouco. Os contratados no início do ano, com Eduardo Baptista no comando, chegaram para trabalhar no estilo atual do futebol brasileiro e mundial, de marcação por zona, compactação e posse de bola ou transição. Os que não se adaptaram perderam a vez. Felipe Melo, não só por isso, foi defenestrado.

Tudo valeu a pena até a eliminação na Libertadores. Agora, com a derrota em casa para a Chapecoense por 2 a 0 que alija o time da disputa do título brasileiro e o ano de 2017 está perdido em termos de conquista, surgem as críticas mais pesadas. Só porque o resultado mudou.

Não pode! Quem demonstrou tanto amor e fidelidade antes, a ponto de odiar e perseguir quem pensava diferente, não deve abandonar o barco agora. Precisa seguir a ideia de Cuca, de “ir até o final”. Abraçado ao grande ídolo.

Cucabolistas, uni-vos! Agora é a hora do testemunho de fé!

 


Foco, tempo e até desespero devem nortear segundo turno do Brasileirão
Comentários Comente

André Rocha

O Corinthians está com o Brasileiro nas mãos. Até aqui, pelo menos, é aquele caso em que tudo conspira a favor. Inclusive a pausa entre um turno e outro para recuperar e treinar a equipe por conta da viagem da Chapecoense. Com Grêmio, Santos e Flamengo envolvidos em outras competições e Palmeiras na ressaca da eliminação da Libertadores com 14 pontos atrás que podem virar 17, o atual líder disparado pode até se planejar para buscar também o título da Sul-Americana.

Competição que ainda envolve outros cinco brasileiros. Com dois confrontos nacionais  – Sport x Ponte Preta e Flamengo x Chapecoense – que podem reduzir a quarto para as quartas de final. Mesmo número de times na disputa das semifinais da Copa do Brasil. Um a mais que nas quartas da Libertadores.

Dez times dividindo atenções, outros dez disputando somente o Brasileiro. Com apenas quatro rodadas de dezenove no meio da semana. Parece claro que o foco e o tempo para treinar têm grandes chances de fazer a diferença e até superar o nível técnico e tático das equipes.

Sem contar o desespero. Aquele que, pela dificuldade na tabela, torna o adversário difícil de ser batido. Sim, a fuga do Z-4. Que parece ter o Atlético-GO condenado, mas ainda matematicamente vivo, dependendo de uma arrancada que hoje soa improvável. Um olhar mais atento à tabela, porém, revela que o Fluminense, disputando a Sul-Americana, está apenas cinco pontos à frente da Chapecoense, 17ª colocada e com um jogo a menos.

Qualquer vacilo será fatal. É onde mora a esperança são-paulina. Mesmo com todos os equívocos e com a equipe oscilando até psicologicamente, há qualidade, especialmente de Hernanes desequilibrando nas últimas vitórias, e agora tempo para se preparar. O que Dorival Júnior mais precisava. E nada mais para distrair. Uma sequência de bons resultados e pode até sobrar uma vaga na Sul-Americana.

A disputa pelas seis primeiras colocações ganha novos postulantes, como os Atléticos, mineiro e paranaense. Os únicos junto com o Palmeiras entre os onze primeiros com foco absoluto na Série A. Uma vantagem considerável em meio a tanto equilíbrio, com exceção do Corinthians.

A Primeira Liga não deu certo pelo servilismo dos clubes à CBF e agora se encontra soterrada pelos demais torneios. Para muitos será um engodo, um problema de logística. Hoje soa como um prêmio de consolação, uma taça para não deixar 2017 de mãos abanando. Vale menos que o estadual.

O maior desafio, sem dúvida, é o do Botafogo. Com elenco não tão robusto, um clássico carioca no torneio nacional e um duelo brasileiro na Libertadores contra o Grêmio, uma das melhores equipes do país. A um ponto do G-6, que seria a garantia de volta ao torneio continental independentemente do desempenho no mata-mata. Mas a seis da zona de rebaixamento, o que exige um certo cuidado.

Neste cenário, o returno reserva alguns jogos que serão esvaziados pela utilização de reservas e outros que podem ganhar contornos épicos, com times até com tempo para se preparar, mas tão envolvidos emocionalmente que não resistirão ao maldito “jogo para ganhar e não para jogar”. Valendo a vida. Para quem gosta de emoção e não torce o nariz para a fórmula de pontos corridos será um prato cheio.

Se nos dois extremos da tabela os destinos de Corinthians e Atlético-GO parecem selados, todo o resto carrega suas dúvidas e um contexto construído jogo a jogo. Dependente de outras competições, que agora contemplam toda temporada. Vejamos o que o novo calendário reservará à nossa liga neste primeiro ano.


Palmeiras perde 45 minutos e o ano com a essência do estilo de Cuca
Comentários Comente

André Rocha

Mina lutou e chorou com a lesão que o tirou do jogo, Dudu tentou tudo e não resistiu fisicamente, Moisés entrou, fez golaço, sentiu e acertou sua cobrança na decisão por pênaltis no sacrifício. Não faltou entrega. Nem de Bruno Henrique e Egídio, os que erraram suas penalidades. O equívoco maior foi anterior.

Nos primeiros 45 minutos no Allianz Parque, o Palmeiras mostrou a essência do estilo de Cuca: intensidade máxima, marcação no campo de ataque, pressa para resolver as jogadas e muitos cruzamentos com bola parada e rolando. Várias alçadas desde a intermediária. Apenas quatro finalizações, nenhuma no alvo.

Porque não havia ninguém para pensar o jogo na execução do 4-2-3-1 montado. Thiago Santos protegendo a defesa, Bruno Henrique se mandando e Dudu se juntando a Roger Guedes, Deyverson e Keno. Ninguém parava a bola, mudava o ritmo. Pensava. O Palmeiras só sentia.

Não basta e Moisés deixou isso bem claro no segundo tempo. Os passes longos de um meio-campista surpreenderam o Barcelona de Guayaquil, que parecia preparado apenas para enfrentar o que o Palmeiras apresentou antes do intervalo.

O time equatoriano, bem montado no 4-4-2 e atacando pelos flancos com Ayovi e Caicedo, acabou traído pelo próprio desempenho pífio do adversário. No escanteio a favor, se lançou ao ataque sem maiores cuidados e permitiu o contragolpe letal que, é óbvio, teve muitos méritos de Moisés, que foi arco e flecha, completando a assistência de Dudu.

Até o fim, o jogo foi aleatório, no modo “briga de rua”. Bolas nas traves de lado a lado, furada de Damian Díaz, o apagado meia argentino que praticamente atrasou para Jailson na única cobrança desperdiçada pelo Barcelona. Ainda assim, volta para Guayaquil com a vaga.

Porque o  que se convencionou chamar de “Cucabol” saiu derrotado, mas até quando vence faz menos do que pode. A vitória e a taça iludem, mas é triste ver um elenco que pode buscar um futebol mais bem jogado se reduzir a um estilo mais condizente com um repertório limitado. Nem sempre vai dar certo. Ou só vai funcionar eventualmente.

Não há consistência, porque a ligação direta e o cruzamento a esmo oferecem, na melhor hipótese para quem arrisca, 50% de chances para ataque e defesa. As perseguições individuais na marcação cansam os jogadores e desorganizam o próprio time. É um jeito anacrônico e contraproducente. Por isso as críticas pouco compreendidas no momento de alta.

Agora é fácil apontar os problemas. Inclusive para quem incensava, debochava das críticas e tratava como perseguição pura e simples. Pautado apenas pelos resultados. Uma hora a verdade se escancara. Os 45 minutos iniciais do Palmeiras são pedagógicos. Tempo jogado fora. Ano perdido.

Que fique a lição. Inclusive para Cuca, que pode aproveitar o momento para rever seus conceitos. As derrotas fazem crescer,  basta ter vontade e humildade para aprender.

(Estatisticas: Footstats)


Afastamento de Felipe Melo é mais um produto dos desencontros no Palmeiras
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Cesar Greco/Ag. Palmeiras

Felipe Melo não foi relacionado no grupo que vai concentrar para o jogo contra o Avaí no Allianz Parque. Este é o fato em meio a rumores de desentendimentos entre o volante e o treinador Cuca.

Felipe foi contratado em janeiro para ser uma liderança e também uma espécie de interlocutor e escudo diante da mídia para o trabalho do jovem Eduardo Baptista, cercado de desconfianças desde a apresentação. Aparentemente, o projeto era mudar a forma do Palmeiras jogar. Mais posse de bola, marcação por zona, controle dos jogos.

Com desempenho e resultados que não agradaram no Paulista e na fase de grupos da Libertadores, Baptista não resistiu. Se houvesse convicção lá atrás de que os princípios de jogo deviam ser preservados, bastaria contratar um profissional com perfil parecido.

Mas se a sombra de Cuca, que pediu para sair depois de ser aclamado pelo título brasileiro que o clube não conquistava há 22 anos, já era forte durante seu afastamento, ficou ainda maior quando se colocou à disposição para retornar. A torcida ansiava pela volta do “messias” e qualquer outro treinador seria esmagado da mesma forma.

Cuca voltou e com ele o estilo particularíssimo, de intensidade e marcação por encaixe e perseguições individuais. Para executá-la, prefere atletas mais rápidos, com vigor físico para marcar correndo. De preferência, que não questione as ordens e apenas as cumpra.

Felipe Melo não tem o perfil. Gosta de futebol, sabe como se atua nos grandes centros. Joga posicionado, fechando espaços. Aos 34 anos, conhece os atalhos. Além disso, tem personalidade forte e é articulado para expressar qualquer descontentamento. A lesão na coxa e a fratura na mão apenas adiaram o problema de ter um jogador contratado como estrela, mas descartado pelo velho/novo treinador por uma nítida incompatibilidade de estilos.

Agora, com o Palmeiras eliminado da Copa do Brasil, vendo as chances de título brasileiro cada vez mais remotas e com a tensão no nível máximo para o jogo da volta das oitavas de final da Libertadores contra o Barcelona de Guayaquil em São Paulo com obrigação de vitória, o descompasso virou um problema ainda maior. Felipe Melo não deve entender muito bem por que uma marcação que não vem funcionando é preservada e, por isso, ele seguirá fora dos planos. Até do banco de reservas.

Felipe Melo disputou apenas cinco partidas pelo Brasileiro e ainda pode disputá-lo por outra equipe da Série A. O alto salário é o obstáculo para quem não tem tanto poder de investimento.

Mais um problema para o Palmeiras em uma temporada conturbada, que foi pensada para construir uma hegemonia. Fruto dos desencontros de um departamento de futebol que parecia caminhar em uma direção e, hesitante, desviou a rota e retornou ao que considerava mais seguro. Mas no futebol não há certezas e o que resta em 2017 é um enorme ponto de interrogação. Como será o amanhã?


Precisamos falar sobre a arbitragem de Flamengo x Palmeiras
Comentários Comente

André Rocha

Sim, o Flamengo novamente esbarrou em suas próprias deficiências – nulidade de Márcio Araújo na construção das jogadas que sobrecarrega Diego, que conduz demais a bola e se desgasta e sacrifica Everton Ribeiro, que não encontra um companheiro para dialogar e nitidamente sente a sequência de jogos a cada três dias.

Sem contar a proposta de jogo previsível e que, mesmo vencendo, insistiu em adiantar as linhas, ficar com a bola e novamente não transformar a superioridade nítida no primeiro tempo em mais gols além do chute de Pará e da vitória de Guerrero contra Luan depois de uma ligação direta para empatar o primeiro tempo.

Porque o time da casa levou a virada na Ilha do Governador em dois contragolpes com a última linha de defesa adiantada e espaçada. Melhor para Roger Guedes e Willian. Novamente Zé Ricardo foi infeliz nas substituições e o time caiu de produção. Na chance que teve para alcançar a vitória, Diego cobrou mal o pênalti e Jailson, surpresa de Cuca na escalação barrando Fernando Prass, fez bela defesa.

Sim, o Palmeiras mais uma vez sofreu com os encaixes e as perseguições individuais, marcas da ideia de jogo de seu treinador. Muito do domínio dos rubro-negros na primeira etapa foi pela fragilidade e espaçamento do sistema defensivo alviverde. Facilitando o principal ponto de distribuição do quarteto ofensivo do oponente: o pivô de Paolo Guerrero. O peruano recuava, atraía os zagueiros Mina e Luan e servia seus companheiros de ataque, em vantagem na velocidade sobre seus marcadores.Especialmente Michel Bastos no primeiro tempo, atuando como lateral. Uma avenida.

Mas Cuca foi perspicaz no segundo tempo. Trocou o posicionamento de Bastos e Zé Roberto, que mesmo servindo Willian no primeiro gol saiu do meio-campo para a lateral  guardar seu posicionamento e fechar o setor do apoio de Pará. Armou duas linhas de quatro, liberando Dudu, que não voltou com o lateral do Fla no primeiro gol, para jogar mais solto, fazendo “sombra” em Márcio Araújo e se aproximando de Borja.

O substituto do lesionado Willian perdeu a chance da vitória no final em novo contragolpe com a retaguarda adversária adiantada e mal posicionada. Thiago, que não foi bem no enfrentamento com os atacantes palmeirenses no primeiro tempo, salvou o Fla no chute cruzado do colombiano. Antes de ceder em breve o lugar a Diego Alves. Mais uma contratação que parece chegar tarde na temporada.

No saldo final, o empate acabou sendo o resultado mais adequado para o que foi a partida. Mas o jogo na Ilha do Governador teve um grande derrotado: Jailson Macedo Freitas. Uma típica arbitragem desastrosa do futebol brasileiro.

No primeiro tempo prejudicou demais o Flamengo. Na origem dos dois gols do Palmeiras, faltas claras de Mina sobre Guerrero. O peruano ainda foi derrubado pelo colombiano na área do time visitante em pênalti claro ignorado por Jailson. Sem contar uma disputa em que Everton Ribeiro caiu na área adversária. Lance duvidoso.

O mais absurdo, porém, foi parar o jogo para punir Bruno Henrique com cartão amarelo por agarrar Rafael Vaz antes e mesmo quando Diego bateu na bola. Ou seja, puniu o infrator antes que a falta dentro da área pudesse ser marcada. Este que escreve não se lembra de ver algo parecido em uma partida de futebol profissional

Muitos protestos de flamenguistas no estádio e nas redes sociais. Arbitragem mal intencionada?

O segundo tempo escancarou a incompetência e a vontade de compensar com outros erros os equívocos que não podiam mais ser corrigidos. Os palmeirenses cometeram 12 faltas na primeira etapa e dez na segunda. Apenas Bruno Henrique levou amarelo nos 45 minutos iniciais. Depois do intervalo, Mina, Borja, Luan, Jailson, Tche Tche, Michel Bastos, Dudu e Thiago Santos foram advertidos. Márcio Araújo e Mancuello pelo Flamengo.

Pendurou mais da metade do time do Palmeiras, passou a não marcar as faltas para os visitantes que assinalou anteriormente e na primeira queda de um jogador rubro-negro na área marcou pênalti de Michel Bastos sobre Geuvânio. Falta clara, mas menos que a de Mina sobre Guerrero no primeiro tempo. Qual o critério, afinal?

É óbvio que os erros de Jailson foram mais danosos ao Flamengo, mas já passou da hora de questionarmos compensações que muitas vezes são usadas como atenuantes por alguns comentaristas de arbitragem. O apitador erra e tenta equilibrar a balança acumulando interpretações absurdas que só irritam os dois lados e nada acrescentam.

Sim, temos um cenário em que o árbitro é pressionado demais, precisa ser profissionalizado, ainda não usufrui dos recursos tecnológicos para minimizar seus erros e muitas vezes é usado como muleta ou cortina de fumaça para atuações ruins dos times e bobagens de treinadores e dirigentes. Se acomodar na incompetência, porém, é a maior das falhas. Por isso precisamos falar de arbitragem, ainda que se prefira abordar o jogo.

Jailson Macedo Freitas estragou um clássico nacional, entre as equipes que disputaram a liderança em boa parte da última edição da Série A do Brasileiro. O mais trágico é a certeza de que não será a última vez.

(Estatísticas: Footstats)

 


Chelsea e Real Madrid: estratégias diferentes para inspirar times do Brasil
Comentários Comente

André Rocha

Antes de qualquer ponderação é preciso explicar o óbvio, quase desenhar: a intenção do texto não é comparar a qualidade dos elencos dos milionários clubes da Inglaterra e da Espanha. Apenas as estratégias na gestão dos elencos. Mas também entendendo que é possível fazer uma proporcionalidade entre a capacidade dos clubes brasileiros citados e o nível do futebol jogado no país.

O Chelsea fez uma temporada 2015/16 para esquecer e não se classificou sequer para a Liga Europa. A prioridade absoluta era a Premier League, com as copas nacionais em paralelo da forma como os ingleses as vêm tratando nos últimos anos: escala reservas e só busca o título se não tiver algo mais importante em disputa. Ou seja, o que o tem restado ao Arsenal de Arsene Wenger.

A estratégia de Antonio Conte foi clara: depois de encontrar a formação com melhor relação desempenho/resultado, insistiu com ela e rodou bem pouco o elenco. Com a repetição de jogos e semanas livres para os treinos que funcionam mais como “polimento” após uma pré-temporada mais forte e longa que as do Brasil, a variação do 5-4-1 para o 3-4-3 ganhou ainda mais fluência. Os atletas passaram a executar as jogadas de memória, sem pensar muito e a equipe sobrou no Inglês.

Já vem sendo o trunfo do Corinthians na temporada. Equipe que ganhou corpo no Estadual, mas vacilou na Copa do Brasil com a eliminação para o Internacional. A arrancada espetacular no início do Brasileiro já sinaliza que a Sul-Americana, consequência da temporada irregular em 2016, ficará em segundo plano. A menos que abra uma vantagem na competição nacional tão confortável que permita inverter a lógica e poupar para um duelo decisivo no torneio continental.

O Real Madrid queria voltar a vencer o Espanhol depois de cinco anos e quebrar a hegemonia do rival Barcelona. Mas sem perder de vista a Liga dos Campeões, historicamente um alvo de conquista do maior campeão do torneio. A solução de Zinedine Zidane, depois de observar o desgaste de seus jogadores na temporada anterior, especialmente da estrela Cristiano Ronaldo foi simples, até um tanto antiquada: definir titulares e reservas. Treinar, condicionar e entrosar para que ambos estivessem prontos quando necessário.

Mas sem tapar os olhos para o desempenho e praticar a meritocracia. Tanto que Isco virou titular e Gareth Bale iniciou a decisão da Liga dos Campeões no seu País de Gales no banco. As partidas em que a equipe reserva seria utilizada foram definidas dentro de um planejamento, não necessariamente na partida do Espanhol que antecedia um duelo importante pela Champions.

O resultado: as duas taças em Madrid e todos voando no fim da temporada. Os titulares pelo descanso e os suplentes pela motivação e por conta do ritmo de competição. A dosagem certa para o futebol atual, que exige do atleta um enorme esforço mental – concentração absoluta para as tomadas de decisão corretas – e físico, com um aumento exponencial nas ações de alta intensidade – em especial os piques curtos para dar opção e receber a bola ou pressionar o adversário.

Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro, pelo alto investimento em seus elencos e, por conta disso, não podendo descartar nenhuma competição na temporada, podem pensar em algo parecido. Envolvidos em três campeonatos, se tentarem insistir com os titulares em todos haverá esgotamento e desvantagem contra adversários que não estão na mesma maratona de jogos a cada três dias.

Já com equipes mistas, poupando apenas aqueles que os exames apontam próximos de estourar os músculos, o entrosamento sempre fica comprometido. Os famosos rodízios não têm dado muito resultado prático por conta da falta de sintonia entre os setores muito alterados.

Parece mais racional definir antes e escolher as partidas mais acessíveis. Não como o Grêmio fez, poupando contra Sport e Palmeiras fora de casa porque tinha jogos considerados prioritários no meio da semana. Pontos jogados fora que hoje fazem falta na luta para se aproximar do líder Corinthians.

É lógico que sempre é mais inteligente deixar alguns titulares no banco para alguma eventualidade. Mas mesmo concentrando e fazendo parte da logística da partida, não deixa de ser um repouso para pernas e mentes. Em clubes tão pressionados por conquistas é um alívio. Cobrar presença em todos os jogos para justificar os altos salários parece pouco inteligente. Porque o atleta não está cansado a ponto de não poder exercer seu ofício. A ausência é apenas para que ele mantenha o alto rendimento. Não são máquinas.

Já passou da hora dos clubes brasileiros deixarem de se preocupar tanto com decisões políticas, pautadas por reações de torcida e imprensa. Não há como controlar os resultados, por isso planejar para minimizar os equívocos parece sempre a melhor escolha. Inclusive surpresas agradáveis podem acontecer. Como os titulares do Real Madrid derrotados pelo Barcelona no Santiago Bernabéu, mas não deixando o rival se aproximar da liderança exatamente pelos pontos conquistados pelos reservas, inclusive em jogos longe de Madri.

Ninguém por aqui conta com uma seleção mundial no elenco. Mas o Brasileiro também não tem o nível do Espanhol – as competições internacionais mostram que Barça e Real não sobram por falta de rivais à altura, mas por estarem numa prateleira acima no futebol mundial pela competência dentro de campo.

Com a disputa ainda no primeiro turno é possível corrigir a rota e definir o planejamento. O Corinthians parece cada vez mais consciente que o “modo Chelsea” é o norte a seguir, mantendo a base e investindo em recuperação e treinamentos pensando no Brasileiro.

Já os que gastaram para rechear seus elencos precisam definir um caminho para não correrem o risco de terminar 2017 sem taças importantes para ostentar. O Real de Zidane ganhou a Espanha e a Europa com inteligência. É possível fazer parecido, mesmo sem tanto talento disponível.

 

 


Corinthians e Grêmio na “retranca”? Então o Brasil de 1970 também fazia
Comentários Comente

André Rocha

Surpreendeu nas redes sociais e nos comentários dos posts deste blog acerca das vitórias de Corinthians e Grêmio sobre Palmeiras e Flamengo, respectivamente, as críticas aos vencedores por supostamente jogarem na “retranca”.

Além da natural vocação brasileira de desmerecer quem está vencendo, ainda mais se for o rival, chamou a atenção o total desconhecimento da maneira de atuar das equipes que ocupam o topo da tabela no Brasileiro. Como se fosse obrigatório chegar no Allianz Parque e na Arena da Ilha e encarar dois clássicos nacionais que já decidiram edições desta mesma competição de peito aberto.

O Corinthians, líder absoluto, tinha ainda menos motivos para se expor. Afinal, eram 13 pontos de vantagem sobre o rival. Já o Grêmio teve postura ofensiva até abrir o placar, depois recolheu as linhas para negar espaços e tentar aproveitar os cedidos pelo adversário. O nome disso é inteligência.

Ou capacidade de se adaptar ao que o jogo apresenta. É óbvio que os times da casa atacariam mais. Por estarem em seus estádios, acostumados com o gramado e empurrados por atmosferas favoráveis criadas pelas torcidas. No caso do oponente, jogar bem é aceitar o volume de quem ataca, mas controlar os espaços e negar as brechas para a infiltração que proporcionam a chance cristalina. As finalizações acontecem, mas sempre dificultadas pela marcação, o que facilita o trabalho do goleiro.

Com menos posse de bola, a solução ofensiva é ser prático e objetivo. Finalizar menos, porém melhor. Até pela liberdade desfrutada por quem cria e conclui, consequência dos espaços cedidos pelo mandante. Acontece em todo lugar do mundo, em qualquer partida equilibrada.

Mas Corinthians e Grêmio foram”condenados”. “Retranca”, ” joga por uma bola”, “futebol feio e chato”. Como se fosse o padrão das equipes de Fabio Carille e Renato Gaúcho e não algo circunstancial. O grande erro dos torcedores rivais, em geral é opinar sobre o time tendo como base apenas os dois confrontos com o seu clube de coração. O pior é que parte da imprensa também se comporta da mesma maneira.

Como ser “retrancado” com os dois ataques mais positivos? O Corinthians como o time mais efetivo nos passes e quarto em posse de bola. O Grêmio que ataca dentro ou fora de casa com volume de jogo e que aposta na ofensividade até de seus volantes, Michel e Arthur, que são verdadeiros meio-campistas, defendendo e atacando. Por estar em sua arena, partiu para cima do líder no duelo da 10ª rodada.

Se defender com todos os jogadores no próprio campo quando necessário for retranca, então a seleção brasileira de 1970, considerada a melhor de todos os tempos, também pode ser considerada assim.

Porque a ideia de Zagallo, depois do fracasso do escrete canarinho na Copa do Mundo de 1966, era bem simples: as seleções europeias, à época, só criavam problemas quando tinham espaços para trabalhar. Se o Brasil se fechasse eles se atrapalhariam, perderiam a bola e cederiam campo para o nosso talento sobressair ainda mais.

Se antes os três ou quatro atacantes ficavam na linha média sem funções defensivas apenas esperando o momento de receber a bola e partir para o ataque, em 1970 todos voltavam. Até Tostão, o centroavante móvel mais adiantado. Ainda que os principais responsáveis pelos desarmes, antecipações e interceptações fossem os quatro da última linha de defesa, Clodoaldo e, às vezes, Gérson, a concentração de jogadores em 35 metros, mesmo sem a compactação de hoje, criava problemas para os adversários.

Bola roubada, saída em velocidade. Os lances que ficaram na história, como os lançamentos de Gérson para Pelé e Jairzinho marcarem gols espetaculares, são em contra-ataques. Na velocidade e no ritmo possíveis há quase 40 anos e no calor do México. Mas essencialmente contragolpes.

Dos 19 gols marcados em seis partidas, oito foram construídos em típicos contragolpes. Seis destes nos jogos eliminatórios. Sem contar o lendário gol perdido por Pelé no drible de corpo no goleiro uruguaio Mazurkiewick . Também em transição ofensiva rápida. Mais dois de falta e dois construídos em cobranças de escanteio e de lateral.

Impossível falar em “jogo feio” com tantos talentos reunidos, sem contar o entrosamento construído em jogos e treinamentos para aquele Mundial. E a intenção, obviamente, não é fazer comparações individuais. Apenas a proposta de jogo, baseada em negar espaços e aproveitá-los no ataque. Prática do timaço de 1970 que Corinthians e Grêmio reproduzem com as devidas atualizações na intensidade e no desempenho atlético.

Por isso Vanderlei Luxemburgo não cansa de repetir, sempre que perguntado, que o Brasil de 1970 foi uma revolução mais influente que a Holanda de 1974. Porque antes recuar todos atrás da linha da bola era prática de times pequenos. Ou do “ferrolho” suíço de Karl Rappan na Copa de 1938. Nem os times e a seleção italiana recuavam até os atacantes no trabalho defensivo.

Se Zagallo tirou a vergonha da “retranca”, José Mourinho deu a ela ainda mais inteligência e coordenação nos movimentos no final da década passada. Exatamente para gerar uma resposta à atualização do “futebol total” de Rinus Michels nos anos 1970 criada por Pep Guardiola no Barcelona.

Se a ideia do jogo de posição do Barça era atacar em bloco com posse de bola, abrir dois pontas para esgarçar a marcação, aproveitar os espaços entre as linhas e minar as forças do adversário pressionando a marcação assim que perde a bola, Mourinho fechou sua Internazionale e depois o Real Madrid com os ponteiros recuando como laterais e os quatro homens da defesa bem próximos formando uma linha de seis. À frente dela, três meio-campistas e até o único atacante bloqueando a entrada da área e dificultando o trabalho dos criativos Xavi e Iniesta.

Bola recuperada, saída em velocidade com poucos toques para otimizar os 30% de posse que restavam. Se conseguisse criar duas oportunidades precisava matar o jogo. Algumas vezes conseguiu, outras não. Outros treinadores aprimoraram essa ideia na sequência e quem encontrou a resposta mais letal à proposta de Guardiola foi Carlo Ancelotti no Real Madrid que atropelou o Bayern de Munique comandado pelo catalão em 2014.

Ninguém à época chamou o time merengue de “retranqueiro”. Porque era a saída inteligente para o que o oponente apresentava. Corinthians e Grêmio realizaram o trabalho defensivo correto porque sabem se comportar. Vêm de trabalhos com uma linha de pensamento, uma filosofia. Ideias que Carille e Renato vão tentando aprimorar.

Identidade que tem sido mais valiosa que todo o dinheiro investido por Palmeiras e Flamengo em contratações de peso. Os jogadores entram em campo e sabem o que precisam fazer. Jogo a jogo, situação a situação. Defendendo e atacando conforme a necessidade.

Questão de leitura de jogo coletivo, algo que falta culturalmente ao brasileiro, que acredita no talento individual puro. Mesmo que Zagallo e seu time genial tenham dado uma aula há 47 anos. Pena que quase ninguém entendeu.


Vitória do Corinthians no dérbi é o triunfo do presente sobre o passado
Comentários Comente

André Rocha

Antes do início da 13ª rodada da Série A, o líder Corinthians era o segundo ataque mais positivo, a equipe que mais acerta passes e a quarta em posse de bola. Mas no Allianz Parque aproveitou a estatística que lidera e, na prática, é a mais importante: só precisa de seis finalizações, na média, para fazer um gol.

Na casa do Palmeiras esta eficiência foi ainda maior: dois gols em três conclusões. Jadson no pênalti sobre Guilherme Arana, que marcou o da vitória na segunda etapa. Ambos iniciados com passes espetaculares de Romero, o destaque absoluto do triunfo de uma ideia de jogar.

Atual, que se adapta de acordo com o que pede o jogo. Diante de um mandante tão forte, como o Grêmio há três rodadas, não fazia sentido partir de peito aberto. Principalmente pela consciência de que o rival viria no desespero para buscar a vitória e descontar os 13 pontos de desvantagem.

Organizou duas linhas de quatro compactas, executou com concentração absoluta seu modelo de jogo que baseia o trabalho defensivo na marcação por zona e no controle dos espaços. Fagner, Balbuena, Pablo e Arana parecem chegar à perfeição dos movimentos de corpo para tirar as opções do atacante que está com a bola. E quando o oponente consegue ultrapassá-los, aparece Cássio novamente no ápice físico e técnico.

Na transição ofensiva, inteligência para triangular e atacar os espaços na hora certa. Mesmo sem o brilho de Jô e de Jadson, que só apareceu na cobrança de pênalti. O forte é o coletivo, com eficiência absurda. Um relógio preciso.

Bem diferente do Palmeiras de Cuca, que diante das dificuldades impostas pelo Corinthians apelou para o que se convencionou chamar de “Cucabol” e nunca foi bem entendido. Na necessidade de criar os espaços em uma retaguarda bem posicionada, o time desde o ano passado apela para os cruzamentos sucessivos. Não há ideias.

Antes da partida, a média era de 22 bolas levantadas. Só no primeiro tempo foram 28. Chegou a 47 no final. No desespero, Cuca empilhou atacantes tirando volantes, adiantou o zagueiro Mina com centroavante e…tome bola na área! Teve 61% de posse, finalizou 18 vezes, mas faltou a chance cristalina, a ação ofensiva bem trabalhada.

Cuca tem razão ao lamentar as ausência de Vitor Hugo, Moisés e Gabriel Jesus em relação ao time campeão brasileiro do ano passado. O zagueiro que compensava todos os problemas ocasionados pelos ultrapassados encaixes individuais com velocidade, concentração e vigor físico. O meio-campista que acertava passes, chutes e as cobranças de lateral na área. E o melhor atacante atuando no país em 2016. Sem as individualidades resta muito pouco de uma ideia de jogo pobre e anacrônica.

Por isso o Corinthians sobra. Não é exemplo de gestão nem ostenta patrocínio forte, mas tem identidade dentro do campo. Uma ideia que vai sendo aprimorada por Fabio Carille, auxiliar dos “construtores” Mano Menezes e Tite. 35 pontos em 39 possíveis. Invicto, não sofre gols há sete partidas. Ataca quando precisa e chega a 23 gols marcados, igualando o Grêmio que ainda joga na rodada.

Campanha histórica em 13 rodadas. É o grande favorito ao título. Mas mesmo que a taça não venha, que o modelo de jogo alinhado ao que de mais atual se pratica nos principais centros e base de ideias da seleção brasileira líder das eliminatórias sul-americanas seja a referência para um futebol mais bem jogado no país.

No dérbi, o presente venceu o passado.

(Estatísticas: Footstats)