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Nosso futebol é medroso porque o Brasil sempre tem algo a temer
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André Rocha

“Bola para o mato que o jogo é de campeonato!” Um dos jargões mais conhecidos do futebol do Brasil, com origem na várzea, traz um conceito básico do nosso jeito de ver o esporte: se vale pontos e taça, a ordem é minimizar os riscos. Para que tentar sair tocando e errar?

Um paradoxo no país cinco vezes campeão mundial, que ainda carrega para muitos o rótulo de “jogo bonito”. O detalhe é que por aqui sempre houve uma distinção entre talentosos e os esforçados que deviam correr para os craques decidirem. Os “carregadores de piano” que faziam o serviço sujo, mas entregavam a bola limpinha para quem sabe. No sufoco é chutão para frente mesmo!

Em três momentos da história da seleção brasileira, o medo de ficar para trás foi uma alavanca. Em 1958, a influência dos húngaros na Copa anterior trouxe a linha de quatro na defesa. Somado ao recuo de Zagallo pela esquerda no 4-3-3 que ficou mais nítido quatro anos depois no Mundial do Chile. Cuidados defensivos para o talento de Didi, Garrincha e Pelé decidir na frente.

Mesma lógica de 1970 depois do massacre físico e tático da Copa de 1966 na Inglaterra. O raciocínio básico de Zagallo e comissão técnica era: “se igualarmos na força e na organização venceremos na técnica”. No México, a seleção até hoje considerada a maior de todos os tempos se fechou com todos atrás da linha da bola e matou a grande maioria dos oponentes no segundo tempo em contragolpes velozes.

Depois da traumática Copa de 1982, o mote que encontrou seu ápice em 1994: “vamos fechar a casinha porque se não levarmos gol os nossos craques desequilibram”. Bebeto e Romário nos Estados Unidos. Mas também o trio Ronaldo-Rivaldo-Ronaldinho em 2002 no último título mundial. Decidindo para o Brasil de Felipão com três zagueiros e dois volantes. Sempre a cautela, o pensamento conservador. Fazer o simples no coletivo para que o brilho individual faça a diferença. Não arrisca, só vai na boa.

Lógico que há brilhantes exceções, especialmente nos clubes. Times arrojados, ofensivos como o “Expresso da Vitória” do Vasco nos anos 1940, Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, Cruzeiro de Tostão, o Palmeiras da Academia, o Flamengo de Zico, o São Paulo de Telê Santana e outros. Mas a linha mestra sempre foi “na dúvida, toca pro talento que ele decide”.

Hoje vivemos um dilema na execução desta ideia de futebol. Porque o esporte evoluiu demais nos últimos dez anos, na organização para atacar e defender. Pep Guardiola levou a proposta ofensiva a outro patamar, José Mourinho respondeu com a radicalização do trabalho de compactar setores para proteger sua meta.

Por conta da nossa tradição de acreditar no talento, olhamos com atenção mais para a prática do treinador português. A modernização do “fechar a casinha”. Ser atacado durante a maior parte do tempo virou “saber sofrer”. De Guardiola pegamos a marcação por pressão no campo de ataque. Nenhuma novidade, já que os times do sul têm essa reação após a perda da bola em sua cultura futebolística influenciada justamente pelos europeus.

E na hora de atacar? Ainda acreditamos que é questão de entregar a bola aos mais talentosos. Só que há dois problemas: o primeiro é que os melhores vão para a Europa cada vez mais cedo. O segundo é a relação espaço/tempo. Pela aproximação dos setores e por conta da pressão que o jogador com a bola recebe assim que a recebe é obrigação decidir certo e rápido.

Driblar? Só no local e no momento exatos. De preferência bem perto ou mesmo dentro da área adversária e com apenas um jogador pela frente. Algo cada vez mais raro. Porque para chegar neste ponto é preciso construir a jogada  com precisão e velocidade. Desde a defesa. Toca, se desloca, arrasta a marcação. Ilude com movimentos coletivos, não necessariamente com a finta, a ginga. Pensar no todo e não segmentando os que defendem e atacam. Difícil mudar uma mentalidade de décadas e que foi vencedora tantas vezes.

Mais fácil sair jogando com ligações diretas, tentar ganhar o rebote e avançar alguns metros já no campo adversário. Sem correr o risco de perder a bola perto da própria meta por conta de um passe errado. Minimizar erros, lembra? Por isso vez ou outro ouvimos dos treinadores uma espécie de confissão: “o perigo é quando temos a bola”.

Porque somos medrosos. No futebol e até como nação. Basta olhar a nossa história, quase sempre guiada por temores: da corte portuguesa, da insurreição mineira, do comunismo, do varguismo, da ditadura, do golpe, do imperialismo americano, da volta do partido x ou y ao poder, do fascismo. Votamos por medo, vamos às ruas com ele. Vivemos no susto. Com nossos fantasmas reais ou fictícios.

O futebol é mero reflexo. Por isso os gols estão cada vez mais raros, os jogos mais parelhos definidos em uma bola. Apenas o gol de Barcos para o Cruzeiro nas semifinais da Copa do Brasil, só os dois de Vasco 1×1 Flamengo nos três clássicos estaduais da 25ª rodada do Brasileiro. Poucos se arriscam e quando o fazem viram alvos. Dos rivais, das críticas. Para que mudar? É melhor “trabalhar quietinho”, sem assumir favoritismo. Respeitando todos os adversários. Até temendo. Deixando a bola para eles e ganhando no erro. Mais confortável ser zebra, até para diminuir o pavor da derrota.

O Brasil sempre tem algo a temer. A esperança é que em algum momento desperte o medo de matar a paixão do torcedor e, como consequência, seu interesse por um jogo tão pragmático e que entrega quase nada além do resultado final. Um cenário que já pareceu mais distante.

 

 

 


A “nova ordem nacional” diz que o Palmeiras está bem vivo contra o Cruzeiro
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André Rocha

Ninguém é uma coisa só e, por isso, devemos fugir dos estereótipos. Mas é inegável que Mano Menezes e Luiz Felipe Scolari, embora tenham suas origens no sul do país, têm perfis bem distintos.

Mano é mais “alemão”. Duro, pragmático, frio na maior parte do tempo. Ainda que ande cada vez mais destemperado à beira do campo, especialmente com a arbitragem. Já Felipão é “italiano”: sanguíneo, passional, protetor. Mas igualmente focado no resultado final.

Dois “europeus” que são símbolos do futebol jogado no Brasil. Não por acaso dois dos últimos quatro treinadores da seleção. Como Dunga e Tite, todos do sul.

Porque a “nova ordem nacional” copia o futebol europeu no trabalho sem bola. A sofisticação do “fechar a casinha”. O futebol gaúcho, em especial, sempre teve como característica a organização defensiva, o jogo físico e a pressão sobre o adversário com a bola. Características dos times de Ênio Andrade, Rubens Minelli e outros. Inspirações declaradas da grande maioria dos treinadores bem sucedidos vindos do Rio Grande do Sul.

A vitória do Cruzeiro sobre o Palmeiras no Allianz Parque pela semifinal da Copa do Brasil foi típica. O mando de campo induziu um dos times a avançar suas linhas e arriscar mais. Na entrevista antes da partida, Felipão foi bastante claro: “Precisamos ter cuidados principalmente quando estivermos com a bola”.

Dudu vacilou e o contragolpe foi letal. Toques rápidos, práticos até Barcos tocar na saída de Weverton. Jogada de manual. Com espaços a beleza se faz presente.

Diante de duas linhas de quatro compactas e muita concentração defensiva, o Palmeiras teve dificuldades para impor seu jogo simples e direto. Muitas vezes jogou feio. No geral, o desempenho não foi bom. Porque criar brechas em um “muro” é cada vez mais complexo.

Não basta entregar a bola para o talento resolver na base do drible ou do passe mágico no meio da defesa. Agora há mais corpos condicionados e bem posicionados para bloquear. Em jogos grandes mais ainda. Atacar requer repertório coletivo. Trocas de passes, movimentação, infiltração na hora certa e precisão no acabamento da jogada – assistência e finalização.

Tudo que o time da casa não teve. Mesmo com Lucas Lima no lugar de Thiago Santos aumentando a criatividade e a expulsão de Edilson empurrando ainda mais a equipe mineira para o próprio campo. Com 66% de posse, 19 finalizações contra apenas quatro. Levantando 37 bolas na área de Fábio. Mesmo com bola no travessão em chute de Willian faltou a chance cristalina em jogada construída.

No final, o lance polêmico. Para este que escreve, disputa normal entre Edu Dracena e Fábio. Goleiro não é intocável dentro da área. O árbitro Wagner Reway anulou antes do toque de Antonio Carlos para as redes. Podia ter sido o empate do Palmeiras. Mas também não é o fim do mundo.

O Cruzeiro não tem conseguido se impor no Mineirão. Muito pela proposta de Mano de não correr riscos mesmo quando o cenário é tão favorável. Ficou por um gol de ser eliminado pelo Santos na fase anterior da Copa do Brasil e de ter que disputar com o Flamengo nos pênaltis pela Libertadores.

É melhor se cuidar, porque o Palmeiras está bem vivo e parece mais forte que os outros oponentes eliminados. E Felipão certamente usará o tradicional discurso “contra tudo e todos” para inflamar seu time. Como visitante, a pressão diminui e o jogo costuma fluir melhor. O Cruzeiro tem sentido mais o peso, inclusive do favoritismo. Sempre incômodo no futebol brasileiro.

Confronto muito aberto. A missão do Cruzeiro é entregar em casa a atuação segura que a torcida tanto aguarda. Mas se terminar com a vaga em mais uma decisão do torneio, mesmo com sofrimento, a festa será igual. Porque a exigência no Brasil vai pouco além do resultado final. Mano e Felipão são dois grandes expoentes dessa mentalidade.

(Estatísticas: Footstats)


Internacional e Palmeiras vencem clássicos “típicos” e ganham uma rodada
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André Rocha

Beira-Rio e Allianz Parque foram os palcos dos grandes clássicos da 24ª rodada do Brasileiro. Mesmo prejudicados pelo Grêmio muito desfalcado e o Palmeiras seguindo seu roteiro de colocar mais reservas em campo no fim de semana quando tem jogo de mata-mata em seguida.

Duelos que seguiram o roteiro da maioria dos clássicos e jogos decisivos no país: muita concentração defensiva, jogo simples para minimizar erros e não correr riscos, disputa física com jogadores pilhados para mostrar aos torcedores que estão ligados e, claro, pressão nas arbitragens. Ou seja, seguindo velhos discursos: “clássico não é para jogar, mas para vencer” e “será decidido nos detalhes, quem errar menos sairá com os três pontos”.

Em ambos, times sem muita ambição e mais preocupados com o trabalho defensivo no primeiro tempo. Mesmo para quem tomava a iniciativa e ficava com a bola – inicialmente os times da casa. Compreensível para o Corinthians que estreava Jair Ventura na casa do rival e buscava um reequilíbrio. Ou, no popular, “fechar a casinha”.

Vitórias dos mandantes que souberam se impor. O líder Internacional manteve sua proposta de jogo, alternando Nico López e William Pottker pelas pontas no 4-1-4-1 habitual, ora ocupando o campo de ataque, ora negando espaços ao maior rival. Até Uendel, substituto do suspenso Iago, colocar na cabeça de Edenilson e decidir.

Porque faltou ao Grêmio de Renato Gaúcho o “punch” de outros momentos. Muito pelas ausências de Kannemann, na seleção argentina, e Maicon por lesão. Também da velocidade e do drible de Everton, a serviço de Tite. Sobraram a fibra do campeão da Libertadores e a boa surpresa do meia Jean Pyerre, que entrou na vaga de Luan deu trabalho a Rodrigo Dourado e Marcelo Lomba. Foram 55% de posse e 12 finalizações contra nove do Colorado, três para cada lado.

Triunfo simbólico para comprovar a força da equipe de Odair Hellmann e tirar a má impressão do empate sem gols com os reservas do Palmeiras na primeira partida em casa contra os times na ponta da tabela.

Até porque a formação que Luiz Felipe Scolari manda a campo no Brasileiro também vai se impondo na autoridade da transformação anímica no clube com a chegada do treinador ídolo e multicampeão. Com Weverton no gol, Felipe Melo no meio e Dudu na frente. Mas usando o fator campo para acuar o rival.

Thiago Santos e Felipe Melo mais fixos liberando Lucas Lima e os laterais Marcos Rocha e Victor Luís. Passes longos, Deyverson no pivô retendo a bola ou partindo para a conclusão. Dudu e Hyoran alternando pelos flancos e buscando as infiltrações em diagonal. Jogo direto, eficiente e que vai desgastando o adversário.

Ainda mais o Corinthians em transição, abalado e que só queria retomar a solidez sem a bola. No 4-2-3-1, com Romero pela esquerda tentando acompanhar Marcos Rocha, que aparecia nas ultrapassagens e também nas cobranças de lateral diretamente na área adversária. Na segunda etapa, a entrada de Moisés no lugar de Thiago Santos deu ainda mais volume ao Alviverde.

Até o passe de Marcos Rocha para a finalização de Deyverson. A mais precisa das 12 do Palmeiras contra apenas quatro do atual campeão brasileiro – nenhuma no alvo. Mesmo verticalizando o jogo quase o tempo todo, o time da casa terminou com 54% de posse. Controlou bem a partida dentro do contexto.

Dudu foi o destaque, com cinco finalizações, um chute no travessão em bela jogada individual e levando vantagem principalmente quando aparecia pela esquerda contra o inseguro Mantuan. Muito diferente do jogador inconstante dos tempos de Roger Machado. Mais um ponto para Felipão.

Mais três para Inter e Palmeiras. Em jogos mais pegados que jogados. Clássicos “típicos”. Vencidos pelas equipes em alta que souberam aproveitar o mando de campo para não deixar o São Paulo retomar a liderança. Ganham uma rodada na busca do título.

(Estatísticas: Footstats)


Bruno Henrique é o “faz-tudo” da vez de Felipão no meio-campo do Palmeiras
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André Rocha

Foto: César Greco/Agência Palmeiras

O Palmeiras começou a descomplicar o jogo contra o Atlético Paranaense no Allianz Parque na volta do intervalo. Luiz Felipe Scolari notou que a dupla Thiago Santos e Felipe Melo à frente da defesa não funcionava tão bem dentro de casa como na vitória como visitante sobre a Chapecoense por 2 a 1 utilizando time praticamente reserva.

Recompôs a dupla de volantes com a entrada de Bruno Henrique na vaga de Thiago Santos. Saindo de um 4-2-3-1 clássico para um 4-1-4-1 mais dinâmico, o time paulista criou volume de jogo e dominou a partida. Subiu a posse de bola de 50% para 53%, finalizou seis vezes, quatro no alvo, contra apenas duas nos primeiros 45 minutos. O Atlético que se recuperou com Tiago Nunes no comando técnico concluiu apenas duas vezes na segunda etapa, nenhuma na direção da meta de Fernando Prass. Foram cinco no primeiro tempo.

O Alviverde construiu os 2 a 0 em duas saídas rápidas dentro da filosofia de um jogo mais direto de Felipão. Na primeira, Dudu pela direita acionou Deyverson, que entrara na vaga de Borja. Belo passe do centroavante em profundidade para Willian tocar na saída de Santos. No final, o “Bigode” sofreria pênalti do goleiro atleticano que Moisés converteu.

Os 17 pontos em 21 possíveis desde a chegada de Scolari alçou o Palmeiras à terceira colocação, ultrapassando um Flamengo em queda livre. Está a três pontos do Internacional, o novo líder. Nas quartas da Libertadores e na semifinal da Copa do Brasil. O sonho de uma inédita tríplice coroa clássica – duas principais competições nacionais e a principal do continente – está mais que vivo.

Muito pela presença de Bruno Henrique. O volante-meia que é fundamental no time de Felipão pela capacidade de auxiliar o volante mais fixo sem bola e se juntar ao meio-campista de articulação para criar as jogadas e também aparecer para a finalização. Função que exige técnica e também vigor para preencher um espaço grande entre as intermediárias.

Uma tradição nas equipes do treinador veterano. Desde Roberto Cavalo no Criciúma campeão da Copa do Brasil 1991, primeira grande conquista de Scolari. Depois Luis Carlos Goiano no Grêmio que venceu a Libertadores em 1995. César Sampaio, quando jogava com Galeano, ou Rogério no Palmeiras em mais uma Copa do Brasil vencida por Felipão. No título de 2012, a função era de Wesley até o volante se contundir. Na final contra o Coritiba, Henrique, zagueiro hoje no Corinthians foi adiantado para o meio e Marcos Assunção ganhou mais liberdade para chegar à frente.

Na seleção brasileira, a troca de Juninho Paulista por Kléberson arredondou o time do título mundial em 2002 na Ásia. Ainda que, na prática, muitas vezes o volante mais fixo tenha sido Edmilson e Gilberto Silva o segundo, na variação do sistema de três zagueiros para linha de quatro. Kléberson, porém, preenchia bem o espaço entre os cinco jogadores mais defensivos e o trio de talentos formado por Rivaldo e os Ronaldos. Dava a “liga”.

Já na Copa das Confederações de 2013, Paulinho foi um dos destaques atuando à frente de Luiz Gustavo e se aproximando do quarteto Hulk-Oscar-Neymar-Fred. No Mundial no Brasil, o volante havia perdido muito rendimento com a troca do Corinthians pelo Tottenham, saiu para a entrada de Fernandinho, que não manteve o nível e os 7 a 1 foram o final trágico para uma equipe desequilibrada. Felipão reencontraria Paulinho nas várias conquistas no futebol chinês com o Guangzhou Evergrande. Com o camisa oito exercendo a mesma função essencial.

Não é por acaso que Bruno Henrique é o melhor passador e o meio-campista que mais finaliza da equipe no Brasileiro. Curiosamente, com Felipão ainda não marcou gols. Talvez pelas maiores atribuições defensivas e por conta do estilo de jogo com menos trocas de passe que dão tempo do volante aparecer na área adversária. A bola chega mais rapidamente e a finalização acaba ficando por conta dos atacantes.

Mas com cinco no Brasileiro e onze na temporada, o capitão foi destaque solitário na fase oscilante, ainda com Roger Machado. Seria o jogador do Palmeiras convocado por Tite para os amistosos contra Estados Unidos e El Salvador para ter um de cada equipe envolvida com a semifinal da Copa do Brasil. O treinador da seleção, porém, optou por dar oportunidades a Fred, Arthur e Fabinho. Não deixa, porém, de ser um reconhecimento ao ótimo momento do camisa 19.

Ainda mais importante pelas características e pelo posicionamento dos companheiros. Moisés na maior parte do tempo se adianta para se juntar ao centroavante buscando a primeira ou segunda bola nas muitas ligações diretas – foram 61 lançamentos contra o Atlético-PR! Já os ponteiros Willian e Dudu ficam mais abertos e buscam as infiltrações em diagonal, aparecendo pouco no meio para colaborar. Cenário diferente dos tempos de Zé Roberto no Criciúma, Carlos Miguel no Grêmio e Zinho no Palmeiras, pontas “falsos” que auxiliavam os meio-campistas. Agora é Bruno Henrique quem cobre os eventuais buracos.

A dúvida está na reposição. O recuo de Moisés com a entrada de Lucas Lima parece a mais viável, embora perca em marcação no meio. Pode ser a opção para partidas em que o jogo exija uma proposta mais ofensiva e de circulação da bola. Se a ideia for se fechar e negar espaços, Thiago Santos e Felipe Melo voltam a ser úteis protegendo a última linha de defesa.

Por enquanto tem funcionado e o Palmeiras ganha força. Muito pela eficiência de Bruno Henrique, o “faz-tudo” da vez de Felipão.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Onde você estava no dia 24 de janeiro?
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André Rocha

Atlético-MG x São Paulo. Internacional x Flamengo. Palmeiras x Atlético-PR. Ainda Santos x Grêmio na quinta-feira. Jogos grandes e importantes para o Brasileiro. Todos os envolvidos são campeões nacionais. A 23ª rodada é daquelas que num campeonato por pontos corridos podem definir muita coisa. Ainda mais no meio da semana, sem mata-mata e times poupando seus atletas.

Mas será disputada em meio à data FIFA. Muita reclamação dos clubes com jogadores convocados por Tite, porém desfalcados também pelos estrangeiros que servem suas seleções. Everton, Kannemann, Arboleda, Paquetá, Cuellar, Trauco, Chará. Mais as ausências comuns por cartões e lesões. Neste último caso, também pelo acúmulo de jogos na temporada.

As principais ligas paradas para as seleções jogarem e a gente aqui descascando batata no porão. De novo. Por quê?

A resposta genérica é o calendário inchado. Mas podemos ser mais específicos. Onde você estava no dia 24 de janeiro deste ano?

Nesta quarta feira, na qual os times poderiam estar fazendo sua pré-temporada com tranquilidade – em especial o Grêmio, que entrou de férias depois dos demais porque disputou o Mundial de Clubes -, o São Paulo venceu em casa o Mirassol por 2 a 0, o Corinthians fez 2 a 1 sobre a Ferroviária. Mesmo placar da vitória do Palmeiras sobre o Red Bull Brasil no dia seguinte, enquanto o Santos perdia por 1 a o para o São Bento.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro o Flamengo vencia o Bangu por 1 a 0, o Vasco era derrotado pela Cabofriense por 2 a 1 e o Fluminense empatava sem gols com a Portuguesa da Ilha. Na quinta, vitória do Botafogo sobre o Macaé por 2 a 1. No Rio Grande do Sul, o Grêmio perdeu para o Avenida por 3 a 2 e o Internacional foi superado pelo Caxias por 2 a 1. Em Minas, o Cruzeiro enfiava 5 a 0 no Uberlândia e o Atlético, na quinta, perdia para o Villa Nova por 1 a 0.

Você lembra dessas partidas? Com todo o respeito que as equipes de menor investimento merecem, não dá para dizer que foi uma rodada de meio de semana perdida? A maioria de jogos deficitários, alguns com os grandes utilizando reservas e resultados que pouco interferiram no destino dos clubes dentro da temporada. Mesmo para quem valoriza os estaduais, até pelas boas cotas de TV, não dá para negar que foram datas jogadas no lixo.

Pois é…Se o seu time vai jogar hoje ou amanhã dentro de uma data FIFA, na qual poderia estar recuperando e treinando para se fortalecer e apresentar um desempenho melhor na volta do campeonato, é por causa desse 24 (e 25) de janeiro que só alimenta uma estrutura federativa ultrapassada, pouco eficiente e eficaz na gestão do futebol brasileiro.

É chato bater sempre na mesma tecla. Mas enquanto os mesmos erros forem cometidos pelos clubes que aceitam ser explorados e exauridos, nada fazem pensando no todo e só reclamam quando se sentem prejudicados será inevitável. Mais do mesmo. Uma pena.


Volta do Grêmio titular salva mais um Brasileiro “água de salsicha”
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André Rocha

Sim, o São Paulo foi heroico sem Nenê e Everton no quarteto ofensivo e perdendo Diego Souza expulso ainda no primeiro tempo contra o Fluminense no Morumbi. Na fibra conseguiu o empate com Tréllez, o reserva que já descomplicou outras partidas e é mais um recurso de Diego Aguirre.

Está com jeito de campeão e Internacional e Flamengo, os concorrentes principais no momento, aumentam essa impressão deixando pontos pelo caminho e falhando em partidas em que deviam confirmar a força na disputa. Mais Palmeiras e Cruzeiro ainda envolvidos com Copa do Brasil e Libertadores.

Para os são-paulinos, o cenário é maravilhoso. E há muitos méritos do time em um clube gigante sem conquistas relevantes há tanto tempo. Especialmente na personalidade e na força mental. Se protagonizar o sétimo título do tricolor do Morumbi não é justo colocar ressalvas ou asteriscos – a menos que algo excepcional aconteça neste returno.

Mas o rendimento é o mais do mesmo da “água de salsicha” que tem sido as últimas edições do Brasileiro. Ainda mais com as competições mata-mata sendo disputadas o ano todo. Calendário inchado, pouco tempo para treinar, pressão por resultados imediatos, torcidas insanas nos estádios e redes sociais. É pensar no próximo jogo da competição tratada como prioridade. Fazer o simples sem muita margem de evolução.

A exceção é o Grêmio. Mesmo com oscilações ao longo da temporada e a dura adaptação à perda de Arthur para o Barcelona, o time de Renato Gaúcho continua jogando, na média, o melhor futebol do país. Trabalho menos longevo que o de Mano Menezes no Cruzeiro, porém mais assimilado e conseguindo manter o rendimento acima dos demais.

É o único capaz de proporcionar espetáculos como os 4 a 0 sobre o Botafogo. Sim, adversário frágil em Porto Alegre. Mas quantas vezes os demais concorrentes envolveram com tanta facilidade os oponentes mais fracos e ainda brindando o público com belas tabelas, triangulações e dribles?

Maicon assumindo a organização, Luan encontrando espaços entre a defesa e o meio-campo adversários – mesmo sem a fase de melhor da América em 2017. Na frente, enfim Jael se firmando como titular e Everton Cebolinha como o elemento desequilibrante partindo da esquerda para criar e finalizar. Alta posse de bola, ocupação do campo de ataque, mas também com solidez defensiva. Subiu para o quinto ataque mais positivo e segue como a equipe menos vazada.

Caiu na Copa do Brasil para o Flamengo, sim. Sendo inferior aos rubro-negros nos 180 minutos, mas tendo períodos de domínio e colocando o adversário em risco. Sem abrir mão da sua maneira de jogar que nos melhores momentos combina beleza e eficiência como nenhum outro no Brasil.

É claro que há outros times em ascensão e que merecem ser lembrados, como o Atlético Paranaense de Tiago Nunes e o Santos de Cuca. Mas com outros objetivos no campeonato. Há pouco ficar longe do Z-4, agora alcançar o G-6. Difícil sonhar mais alto que isso.

O Grêmio está a seis pontos do São Paulo faltando 16 rodadas. Diferença perfeitamente reversível, mas com a Libertadores como obsessão do clube e  boas possibilidades de eliminar o Tucumán para chegar às semifinais, a falta de foco e a utilização de reservas em jogos importantes devem tirar o fôlego para uma arrancada. Só se os suplentes encaixarem bons jogos nesses hiatos. Fica mais difícil com a competição afunilando, momento em que times lutando para não cair dão a vida por pontos.

Tudo é risco e a competição tratada como prioridade não é fácil de vencer. Pode até terminar o ano apenas com as conquistas do Gaúcho e da Recopa Sul-Americana e ver um Cruzeiro ou Palmeiras como o time do ano faturando as taças no mata-mata. No país do futebol de resultados talvez falem até em “fracasso”.

Ainda assim, seguirá ostentando o futebol mais agradável às retinas. A salvação até aqui de mais um Brasileiro achatado por baixo em técnica e tática.


Felipe Melo, o “gatilho” para os clichês de Libertadores. Menos um
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André Rocha

“É jogo de Libertadores!”

Eis o pai de todos os clichês do maior torneio da América do Sul. Uma espécie de senha ou licença para todo tipo de recurso para vencer. Mesmo a barbárie dentro e fora das quatro linhas. Vale quase tudo, porque ao contrário de tempos remotos hoje existe as muitas câmeras de TV para registrar as situações mais absurdas.

O ápice do “futebol testosterona”. O jogo pra macho! O templo da virilidade. Pancadaria, ligação direta, lateral na área, torcida hostil, pressão na arbitragem…Vence o mais forte, o mais raçudo ou o mais esperto e não o melhor. É o não-jogar. Posse de bola, conceitos, jogo coletivo e mais pensado que sentido? Tudo frescura…

No Allianz Parque, outros clichês que são derivados do primeiro se fizeram presentes. “Se o resultado é favorável faz catimba!” O Palmeiras de Luiz Felipe Scolari, com vantagem de dois gols fora de casa e um homem a menos, trocou apenas 140 passes. Poderia ter gastado o tempo ficando com a bola e envolvendo um Cerro Porteño frágil tecnicamente e envelhecido. Preferiu “congelar” o jogo ganhando cada segundo possível. No final, só sofreu um gol, o primeiro sob o comando de Felipão, e se classificou. Mesmo correndo mais riscos que o recomendável.

Mas para que jogar se “é guerra”? Melhor dizer no final que foram mais experientes e malandros, não melhores. É um mundo paralelo que envolve torcida, dirigentes, boa parte da imprensa…como discutir? Ainda mais com Felipão, que chegou ao Palmeiras para entregar resultado. Cru. A exigência por um jogo mais agradável ao olhos se foi com Roger Machado. Sai a estética, fica o pragmatismo puro.

“Felipe Melo é isso!” De fato, o Palmeiras sabia quem estava contratando e isto ficou claro desde a coletiva de apresentação. Tudo pode acontecer. Tanto um bom desempenho do volante inteligente, de senso coletivo, posicionamento correto e passe preciso quanto o ocorrido aos três minutos de jogo.

Porque o árbitro argentino Germán Delfino não seguiu o clichê “juiz não expulsa na primeira pancada”. A entrada de Felipe Melo em Vítor Cáceres era mesmo passível de vermelho direto. Talvez outro não tivesse coragem para expulsar um atleta do time da casa tão cedo. Mas certamente o volante pagou pelos antecedentes. Faz parte do jogo.

Assim como é do repertório de todas as torcidas o “se não for sofrido perde a graça”. Um jogo de volta que parecia protocolar para garantir a vaga nas quartas de final se transformou numa batalha épica. No final, todos saíram vibrando e até criou-se um clima de “contra tudo e contra todos” por conta da arbitragem. Nada mais emblemático.

Felipe Melo foi o “gatilho” de um combo de clichês de Libertadores. Mas quem se importa? O Palmeiras segue vivo. E “os anti pira”.


Santos é só mais um clube brasileiro preso na bolha de vitimismo e cinismo
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André Rocha

O Santos fez vergonha no Pacaembu. Porque é um clube com imagem a zelar. Da Conmebol não se espera nada.

Do Alvinegro Praiano aguardamos até hoje as providências necessárias. Dele e dos outros grandes. Que rompam com federações, CBF e até Conmebol. Todas elas precisam dos clubes brasileiros. Os que têm torcida, camisa, representatividade, força comercial…e parece que não sabem.

São submissos. Por uma migalha aqui e ali. O Santos aplaudiu a canetada de Ricardo Teixeira unificando os títulos nacionais desde 1959. O Palmeiras suplica à FIFA o reconhecimento da Copa Rio como Mundial. O Flamengo ficou mendigando o título brasileiro de 1987.

E a culpa é sempre dos outros. Certamente vão xingar este que escreve pelo que disse no parágrafo acima. No caso dos mais preguiçosos, só pelo título do post. É sempre contra tudo e todos. Uma paixão cega e, por isso, quase sempre pouco inteligente. Porque iniciativas consistentes para se livrar dos obstáculos não existem.

Transferir responsabilidade é cômodo, uma boa bengala. A bolha do vitimismo é um lugar seguro e quentinho. Assim como a do cinismo de quem debochou do Santos, mas pode ser punido pela fraqueza política da CBF no continente daqui a pouco. Hoje ainda. Assim como muitos santistas riram, por exemplo, da arbitragem mais que questionável de Carlos Amarilla contra o Corinthians pela Libertadores 2013.

A ira de parte da torcida pela punição já era esperada. Mas não pode ser relativizada porque a Conmebol é tendenciosa e corrupta. Sempre foi e não vai mudar enquanto os clubes não agirem. Só que esperar união é utopia em um cenário no qual cada um só está preocupado em resolver o seu problema. E só “não tem sangue de barata” para quebrar estádio. Romper com o status quo? Para quê?

Quem lê este blog há pelo menos dois anos sabe das minhas ressalvas a Cuca. Como treinador, gestor de pessoas e figura pública. Mas ontem foi perfeito na entrevista, assumindo enquanto profissional do clube a cota de responsabilidade deste. Cuca que foi vitimista tantas vezes ontem surpreendeu. Ponto para ele. Que não seja punido pela sinceridade.

Foi só mais uma noite no Pacaembu. Tão lamentável quanto o pensamento minúsculo de quem dirige gigantes que hibernam enquanto os ratos fazem a festa.


São Paulo e Internacional sofrem com a “síndrome do favoritismo”
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André Rocha

Quantas vezes você já ouviu logo após alguma conquista ou grande vitória no futebol brasileiro um jogador ou treinador, ainda na emoção e adrenalina do triunfo, falar que “ninguém acreditava na gente, mas trabalhamos quietinhos e está aí o resultado!” ou coisa parecida?

É muito comum porque faz parte da nossa cultura. Dos cinco títulos mundiais da seleção brasileira, a rigor, apenas o de 1962 foi com o favoritismo da conquista de 1958 e da base mantida. Ainda assim, teve que superar o abalo da perda de Pelé por lesão no Mundial do Chile.

Ser zebra é cômodo, não traz grandes responsabilidades. O trabalho motivacional tem um alvo fácil: “eles”, os que não acreditam e menosprezam. Mais fácil mobilizar, manter todos concentrados. Até uma raiva no limite certo colabora para competir mais forte.

No cenário do favoritismo só há exigências. De resultados e, na maioria das vezes, de espetáculo. Uma cobrança estética que é inviável por aqui pela falta de continuidade dos trabalhos, as constantes mudanças no elenco e a saída para o exterior dos mais talentosos ou que estejam se destacando.

São Paulo e Internacional não podiam ser considerados favoritos antes do Brasileiro. Até o Flamengo era uma incógnita, pela perda do Carioca e a demissão de Paulo César Carpegiani, sucedido pelo jovem Maurício Barbieri. O rubro-negro acabou surpreendendo nas primeiras doze rodadas antes da Copa do Mundo. Mesmo com alto investimento, a liderança conquistada com bom desempenho era inesperada.

Bastou retornar com o peso da expectativa, associada à saída de Vinícius Júnior para o Real Madrid e alimentada pela galhofa da torcida com o mantra “Segue o líder!”, para o rendimento cair. Com o “agosto negro” emendando partidas da Série A com Libertadores e Copa do Brasil, o desgaste completou o serviço.

Subiu o São Paulo e, no “vácuo”, o Internacional. Dedicados apenas ao Brasileirão, se transformaram nos times a serem batidos. Responsabilidade desconfortável mesmo para clubes grandes, porém com torcidas sofridas e sem grandes expectativas a curto prazo. De repente todos os holofotes estavam virados para a dupla de redivivos.

Junte a isso os modelos de jogo de Diego Aguirre e Odair Hellmann mais voltados para o controle de espaços, marcação com intensidade e saídas para o ataque em velocidade e temos duas equipes que sofrem quando precisam ocupar o campo de ataque e criar. Sem contar a instabilidade emocional e a insegurança para se impor.

Mais uma vez, o paradoxo: os resultados são construídos de uma maneira até a equipe alcançar o topo. Uma vez lá, para mantê-los é preciso mudar o estilo. O contexto exige, com adversários fechados. Agora o “franco atirador” está do outro lado.

Não por acaso o São Paulo empatou com o Paraná fora de casa e sofreu para vencer o Ceará no Morumbi. Nem jogou mal, apesar das 36 bolas levantadas na área do oponente, mas a dificuldade imposta, mesmo por times lutando para se manter na primeira divisão, é maior. As virtudes e defeitos são mais estudados. Além disso, como estimular e mobilizar se agora todos respeitam e muitos até temem? Não há nada a superar quando se está no topo.

Ou mesmo perto dele. O Internacional encarou seu primeiro grande duelo dos seis que terá no Beira-Rio neste returno. Expectativa e favoritismo, até pela opção de Luiz Felipe Scolari de escalar um Palmeiras repleto de reservas no Brasileiro para priorizar os torneios de mata-mata. Para complicar, a pressão por conta da vitória do São Paulo no jogo das 11h.

Resultado: um time tenso e ainda mais travado pela postura ofensiva do visitante, que finalizou 15 vezes contra oito, mesmo com apenas 42% de posse de bola. O Colorado hesitou quando mais se esperava dele. Talvez a ansiedade pela busca de um título que não vem desde 1979 justamente no ano da volta do inferno da Série B tenha pesado. Mas a partir de agora, já escaldado e sem preocupar tanto os adversário, é possível que as partidas ganhem menos peso.

Porque o favoritismo joga contra, ainda mais nos pontos corridos. No mata-mata há a imprevisibilidade, a chance do time menos poderoso se impor em casa ou surpreender fora. Na liga quem está na frente passa a ser tratado como a referência.

Repare nos últimos campeões: o Corinthians era chamado de “quarta força” em 2017, mas quando disparou na ponta sofreu contra equipes menores, principalmente em casa, pela obrigação de atacar. A vitória chave, sobre o Palmeiras, veio quando o time, mesmo ainda na primeira colocação, foi tratado como “zebra” por conta má fase. Fabio Carille mexeu no time, voltou a unir todos em torno de um “inimigo” e o triunfo no clássico encaminhou o hepta.

No ano anterior, o Palmeiras de Cuca liderava, mas parecia o azarão com o Flamengo atraindo toda atenção para si com o papo do “cheirinho”. Justamente o que manteve todos no Alviverde ligados e sem dar chance ao azar. Com a conquista e o aumento de investimento no elenco, mudou de patamar e, pressionado, não venceu mais nada.

Voltando à exigência por espetáculo, curioso observar que com Roger Machado havia uma cobrança por um estilo vistoso que não se vê com a volta de Felipão. Agora é futebol de resultados e só. Com menos pressão é possível pensar em novas conquistas.

Veja o Flamengo. Quando Eduardo Bandeira de Mello assumiu em 2013, a promessa era de títulos em dois anos, depois de equacionar dívidas e aumentar as receitas. Pois foi justamente no primeiro ano, com o elenco que foi possível montar dentro da austeridade financeira, que veio o único título nacional desta gestão: a Copa do Brasil. Desacreditado e arrancando na reta final. Agora, com uma contratação de impacto por ano desde 2015, o Fla coleciona fracassos no mais alto nível.

Por aqui vale muito o dito popular “quem tudo quer nada tem”. Mais fácil fingir que não pode, fazer o papel de coitadinho. Antes São Paulo e Internacional podiam blefar, agora não têm para onde correr. É preciso conviver e saber lidar com a “síndrome do favoritismo” tipicamente brasileira. Na segunda rodada do returno, o tricolor do Morumbi se saiu melhor e aumentou a vantagem na liderança.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Corinthians precisa estabelecer metas realistas para salvar temporada
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André Rocha

Foto: Marcos Ribolli /Globoesporte.com

Há uma crise no Corinthians e é bobagem negá-la. Problemas de gestão financeira combinados com visibilidade de triunfos recentes enfraqueceram o time com baixas importantes – Carille, Rodriguinho e Balbuena, principalmente. O sucessor no comando técnico, Osmar Loss, é a prova de que estar inserido na estrutura e conhecer por dentro a mecânica do time em campo não significa sucesso imediato por “piloto automático”.

É estranho ver o clube que faturou três títulos brasileiros nos últimos oito anos mais próximo da zona de rebaixamento do que da liderança – são oito pontos de distância do G-6 e sete do Z-4.  Fica cada vez mais claro que regularidade está longe de ser o forte da equipe atual. A solidez defensiva e a precisão cirúrgica nos ataques ficaram pelo caminho.

Mas a temporada não está perdida. Longe disso. É possível salvá-la com mais um título para a vasta coleção dos últimos anos e fechar 2018 com duas conquistas. Sim, a Copa do Brasil. Semifinal contra o Flamengo com a volta em São Paulo. Ainda que os rubro-negros tenham vencido os dois últimos encontros, o retrospecto recente é mais que favorável. Até em 2016, ano complicado pela perda de Tite e as escolhas infelizes de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira como sucessores, foram quatro pontos conquistados no Brasileiro contra o time de Zé Ricardo que à época perseguia o Palmeiras na liderança.

Se conseguir a vaga na final há 50% de chances de um clássico paulista contra o Palmeiras. Rivalidade à flor da pele, ainda a discussão da final do Paulista na Justiça. Uma disputa mais mental do que técnica ou tática. Agora há Felipão do outro lado, mas a moral dos triunfos recentes está com o Corinthians. Contra um Cruzeiro que pode ainda estar envolvido com Libertadores também há chances, ainda mais se decidir novamente em casa.

No Brasileiro é preciso ser realista e administrar uma campanha de manutenção na Série A.  Basta entender com humildade que desta vez os adversários importantes são os que estão na segunda metade da tabela e não no topo. Já na Libertadores, o que vier é lucro, a partir da volta contra o Colo Colo em São Paulo. Improvável que num ano tão conturbado o Corinthians arranque para um bicampeonato enfrentando os clubes mais fortes do país e do continente.

Respaldado pela diretoria, ao menos por enquanto, Loss precisa de calma e discernimento para pensar num time mais pragmático e forte no mata-mata. Jogando simples, retomando a concentração defensiva, especialmente nas jogadas aéreas da bola parada e sendo pragmático no ataque. No mais é dar confiança para os pilares Cássio, Fagner, Ralf, Jadson e Romero. Atletas experientes e com mentalidade vencedora.

Ou seja, resgatar a essência da identidade corintiana. Um ano caótico ainda pode terminar bem para o time brasileiro mais vencedor desta década.