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Brasil vence Croácia, mas e daí? Não justifica a montanha russa de opiniões
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André Rocha

Minha primeira lembrança de seleção brasileira é a euforia que tomou conta do país quando rodou pela Europa em 1981 e venceu Inglaterra, França e Alemanha. Teve até fogos. A TV Globo, na época com Luciano do Vale, tratou como uma espécie de Copa das Confederações. Um exagero.

Por isso Dunga encarou com tanta seriedade os amistosos assim que assumiu em 2014 para “resgatar a autoestima” por causa dos 7 a 1. Chegou a administrar resultados e guardar três, quatro substituições para ganhar tempo nos últimos minutos e segurar a vitória.

Agora Tite fez praticamente o mesmo contra a Alemanha. Um tal de “fantasma”…Logo a atual campeã mundial, que junto com a Itália, nos melhores e piores momentos, sempre se caracterizaram por não darem a mínima para jogos que não valem pontos. Ou melhor, sempre deram o devido valor.

Amistoso é para observar, testar. Experimentar até o que parece não dar certo, só para ter certeza. Mas aqui a sanha resultadista impressiona. Todo jogo é de campeonato.

Mesmo tão próximo da Copa do Mundo, com todos os jogadores instintivamente segurando a intensidade com o mais que compreensível temor de uma lesão capaz de encerrar o sonho. Como a entrada irresponsável de Kramaric sobre Thiago Silva. Felizmente nada grave, ao que parece.

Mas houve quem se incomodasse no lance muito mais com a saída de bola no chão perto da própria área. “Dá um chutão! Ali não é lugar para brincar…” Claro que um erro em jogo eliminatório no Mundial pode ser fatal. Mas a ligação direta constante também é risco grande, pois entrega a bola e o volume constante do adversário também pode terminar em gol contra.

Outra visão curiosa pelo imediatismo e quase onipresença nas transmissões, debates e redes sociais foi a crítica à escalação do meio-campo com Casemiro, Fernandinho e Paulinho. “Três volantes”. Pronto, automaticamente o time perde criatividade. Independentemente da boa marcação da Croácia no primeiro tempo em Liverpool. Como se a seleção de Modric, Rakitic, Perisic, Kovacic e Manduzic fosse uma qualquer. Ou os jogadores brasileiros não estivessem travados, sem as costumeiras triangulações na execução do 4-1-4-1. Bem diferente da vitória sobre a Alemanha. Com os mesmos três no meio-campo…

Os novos debates serão a “volta da Neymardependência” e “Firmino ou Gabriel Jesus?” Por causa dos gols na vitória por 2 a 0. Como se depender do talento maior não fosse natural e tudo na avaliação do centroavante fosse ir às redes ou não.

O objetivo deste texto não é “cagar regra” sobre o que se deve ou não opinar, muito menos blindar Tite de críticas. Até porque, todos sabemos, ele será julgado pelo resultado e só. Como todos. Como sempre. Assim como não dá para se empolgar e dizer que o setor ofensivo tem que contar com Neymar e Firmino na estreia da Copa. Apenas ressaltar a curiosa montanha russa de emoções e opiniões sobre a seleção quando a Copa vai chegando. Ou em qualquer tempo.

Amistoso é jogo e jogo é guerra. Sempre foi assim e, pelo visto, sempre será.


No Vasco rachado pela política, só a base pode salvar o futebol
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André Rocha

A eleição do presidente Alexandre Campello via Conselho e desrespeitando os votos dos sócios, que elegeram Julio Brant n polêmica eleição da já folclórica “urna sete”, foi uma das páginas mais negras da bela história de democracia e raízes populares do Clube de Regatas Vasco da Gama. Do estádio construído por sua gente, dos jogadores negros e de tantos gestos pioneiros.

É óbvio que criaria um racha político de consequências imprevisíveis. No poder, o lado mais fraco. Eleito pelas circunstâncias. Para Eurico Miranda perder, mas não permitir que Julio Brant vencesse. Um filme de terror que já teve renúncia de 13 vice-presidentes, agora acena até com possibilidades de impeachment de Campello, questionado pela negociação pouco transparente, segundo conselheiros, de Paulinho com o Bayer Leverkusen e por um suposto empréstimo feito com o ex-vice de patrimônio, Luiz Gustavo.

Estava claro também que tanta turbulência somada à crise financeira respingaria no campo. Ainda que Zé Ricardo tenha feito tudo para blindar seus comandados. Chegar à final do estadual e passar pelas etapas preliminares da Libertadores até sinalizaram a possibilidade de repetir o bom desempenho da reta final do Brasileiro de 2017.

A fase de grupos do torneio continental, porém, trouxe a realidade crua e dura na eliminação precoce com derrotas para Racing, Cruzeiro e Universidad de Chile na pior campanha do clube na competição até aqui. A retaguarda considerada sólida penou com três goleadas por 4 a 0 – Jorge Wilstermann, Racing e, a pior, para o Cruzeiro dentro de São Januário.

Restam Brasileiro e Copa do Brasil. Dentro de um elenco limitado e com a baixa de Paulinho sem reposição à altura, resta a Zé Ricardo deixar de lado uma prática que vem de sua primeira experiência no futebol profissional vindo da base do Flamengo: relegar os jovens a um papel secundário e escalar os mais experientes que deram sustentação ao seu início de trabalho. Antes a “gratidão” ao esforço de Gabriel que negou oportunidades a Lucas Paquetá.

Agora o treinador tem obrigação de dar mais minutos em campo aos jovens Caio Monteiro e Bruno Cosendey, protagonistas da virada sobre o América por 4 a 1 no sábado em São Januário. Não repetir o que fez com Ricardo Graça, de desempenho promissor nas primeiras oportunidades e infeliz como o time todo na goleada sofrida na Bolívia.  Automaticamente ficou atrás de Paulão e Werley na disputa por uma vaga na zaga.

As divisões de base são a tábua de salvação do Vasco neste momento. Tanto no retorno técnico em campo dentro de um elenco desigual e longe da primeira prateleira do futebol nacional quanto na possibilidade de negociação no futuro para salvar os cofres na caixa preta que é a gestão financeira a cada ciclo de um presidente. Foi assim com Eurico Miranda, Roberto Dinamite, agora Campello. O que mais virá por aí?

Se quiser salvar seu emprego e a sobrevivência digna do clube, Zé Ricardo precisa olhar com mais carinho para os meninos que são produtos de uma reestruturação do trabalho de formação. É a perspectiva a curto, médio e longo prazo para a grande incógnita que é o Vasco da Gama.


Goleada em São Januário reflete abismo entre Cruzeiro e Vasco
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André Rocha

Cruzeiro e Vasco empataram sem gols no Mineirão no dia quatro de abril. Jogo duro, com o time visitante ainda contando com Paulinho, joia da base cruzmaltina, cumprindo boa atuação e tendo chances de sair de Belo Horizonte com três pontos. Superando a equipe mandante em momento turbulento por conta da derrota para o rival Atlético na primeira partida da final mineira.

Quase um mês depois o reencontro na Libertadores. O tempo foi cruel com Zé Ricardo, que perdeu Paulinho, lesionado e depois negociado com o Bayer Leverkusen, e viu os problemas políticos e financeiros do clube se somarem às escolhas infelizes do próprio treinador para criar o cenário da inevitável eliminação na fase de grupos.

Depois da surpreendente recuperação no Brasileiro 2017 e da luta nas fases preliminares do torneio continental, o nível do grupo pesou. Racing emergente na Argentina e o Cruzeiro que oscila, mas segue com Mano Menezes no comando técnico e construindo uma identidade que busca unir competitividade e qualidade técnica.

O tempo favoreceu o treinador e o elenco celestes. A conquista do Campeonato Mineiro também aliviou a pressão de transformar investimento em desempenho e, por consequência, em resultados. O início da redenção em termos de desempenho se deu nos 7 a o sobre a Universidad de Chile. Beneficiado, sim, pelo gol de Thiago Neves na bola parada logo no início e da vantagem numérica ao longo do jogo. Mas ganhando confiança e uma nova cara.

No mesmo 4-2-3-1, porém com Lucas Silva se juntando a Henrique à frente da defesa, De Arrascaeta pela esquerda sendo o ponta mais articulador e Rafinha mais atacante, se juntando a Sassá, a alternativa à ausência do lesionado Fred. E Thiago Neves solto para desequilibrar, especialmente nas finalizações. Para completar, o crescimento de Egídio para abrir o campo e buscar a linha de fundo pela esquerda.

O lateral levou vantagem no duelo com Yago Pikachu foi responsável por três passes que terminaram em gols na primeira etapa. Leo, Thiago Neves e Sassá. Nas três primeiras finalizações do Cruzeiro em São Januário. Prenúncio da goleada por 4 a 0, completada também por Sassá na segunda etapa. Na quarta e última conclusão na direção da meta de Martín Silva. Para colocar o time mineiro praticamente classificado e na luta pela primeira colocação no Grupo 5 – a definição deve acontecer no confronto direto, desta vez no Mineirão.

Ao Vasco resta a luta com “La U” pela vaga na Copa Sul-Americana. Antes é preciso se reorganizar como clube, para que as diferenças políticas não passem dos bastidores para as arquibancadas e de lá para o campo. Zé Ricardo também precisa repensar suas escolhas. Os reveses e, principalmente, os muitos gols sofridos, têm a cota de responsabilidade do treinador. Mesmo com todos os “incêndios” que precisam ser apagados diariamente.

A fibra livrou de algumas derrotas. Também rendeu 55% de posse e 15 finalizações contra o Cruzeiro. Mas é muito pouco. A noite em São Januário apenas concretizou na frieza do placar o abismo entre os times brasileiros.

(Estatísticas: Footstats)

 


A virada sobre virada do Vasco e os vários jogos dentro de uma partida
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André Rocha

Talvez influenciados pelo segundo tempo dos 3 a 0 sobre o Botafogo no qual se posicionou melhor defensivamente num 5-4-1, Abel Braga e seus comandados definiram desde o início do clássico no Maracanã que o Fluminense teria uma postura mais cuidadosa e baseada em contragolpes na semifinal do Carioca. Até pela vantagem do empate por ter conquistado a Taça Rio.

O Vasco se impôs em boa parte do primeiro tempo também pela nítida preocupação de evitar as jogadas pelos flancos do rival. Rafael Galhardo entrou na lateral direita, adiantando Yago Pikachu e mais Wellington para auxiliar no bloqueio a Ayrton Lucas, Richard e Sornoza. Do lado oposto, Fabrício, Wagner e Desábato tentavam negar espaços a Gilberto, Jadson e Marcos Júnior. Ou seja, impedir que o tricolor construísse seu volume de jogo.

Conseguiu e abriu o placar com Giovanni Augusto, outra surpresa de Zé Ricardo na formação que atuou novamente num 4-2-3-1 com Riascos mais adiantado. Bela jogada de Pikachu pela esquerda e vacilo de Renato Chaves. Mas logo que o Flu adiantou as linhas e se propôs a ser mais agressivo na frente, o lado esquerdo cruzmaltino falhou. Fabrício permitiu que Gilberto chegasse ao fundo e servisse Pedro. O sétimo gol do agora artilheiro isolado do estadual.

O jogo virou e o Flu ficou mais à vontade, ganhou confiança e espaços para arquitetar contragolpes. Na cobrança de falta com a barreira abrindo, Sornoza parecia encaminhar a classificação. A disputa chegou a parecer que penderia em definitivo para o lado de quem vencia e podia até ceder a igualdade no placar.

As substituições seguiram um roteiro óbvio. Vasco se jogando à frente com Andrés Rios, Thiago Galhardo e Paulinho, a joia vascaína que foi às redes no belo gol de empate em tabela rápida com Wellington. Fluminense trocando o trio ofensivo e mandando a campo Marlon, Douglas e Pablo Dyego. Seguir fechado e manter o fôlego na frente para explorar os espaços que apareciam cada vez mais generosos.

O Vasco tentou um abafa, o Flu ameaçou em contra-ataques. Equilíbrio na posse de bola (51% x 49%), 11 finalizações tricolores, 14 vascaínas – duas na direção da meta de Martín Silva, seis do Vasco no alvo. Na última da partida, a tentativa aleatória, na ligação direta desesperada. Todos cansados e guiados muito mais pelo instinto do que por um plano racional. Outro jogo à parte dentro do contexto. A bola encontrou o heroi improvável: Fabrício, substituto de Henrique que era vaiado pela torcida. 3 a 2.

Os tricolores lamentarão a cautela de Abel e as chances desperdiçadas, os vascaínos exaltarão a coragem de Zé Ricardo e a perseverança dos vencedores. Mas no fundo não passa de análise tomando como base apenas o resultado. Poderia ter acontecido qualquer coisa em mais um embate eletrizante no esvaziado Carioca.

O Vasco virou sobre a virada do Flu. Saiu vivo nos vários jogos dentro de uma mesma partida e vai à decisão contra o Botafogo. A terceira entre os clubes em quatro anos. De novo teremos um campeão sem vencer turno. Azar de quem assinou o regulamento e não se garantiu no campo.

(Estatísticas: Footstats)


Brasil vence, mas não fura linha de cinco da Rússia como Tite queria
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André Rocha

Não é nada fácil colocar em prática algo tão complexo como o jogo de posição em pouco tempo. Problema do ciclo de apenas dois anos de Tite e uma certa demora para trabalhar esses conceitos, só depois do “susto” contra a Inglaterra. E sempre é mais complicado desequilibrar sem Neymar, o maior talento brasileiro.

Por isso a seleção sofreu no primeiro tempo e, objetivamente, não furou a linha de cinco da Rússia como Tite queria: trocando passes, com meio-campistas buscando jogo entre as linhas e ponteiros bem abertos esgarçando a marcação adversária. Paciência até infiltrar e finalizar.

Imaginava-se os laterais atacando por dentro, mas Marcelo desceu mais aberto. Talvez porque Tite pense em Neymar circulando mais e procurando o centro, criando a necessidade do lateral ser o responsável pela amplitude. Preocupante mesmo foi o desempenho de Daniel Alves. Confuso, errando passes fáceis, arriscando lançamentos sem sentido. Sem contar o posicionamento defensivo às vezes desatento.

Casemiro também merece um capítulo à parte. Na construção das jogadas contribui pouco. E ainda obriga jogadores que neste conceito deveriam receber a bola mais adiantados a voltar para articular. Nesta ideia Fernandinho seria mais interessante. Só que com os lapsos defensivos dos laterais é preciso ter alguém mais seguro na proteção dos zagueiros. Efeito colateral.

Como o Brasil, então, construiu os 3 a 0? Da maneira como o futebol viveu seus melhores momentos nos últimos dez anos: bola parada no gol de Miranda que abriu o placar, completando desvio de Thiago Silva, e a velocidade nas transições ofensivas quando a seleção anfitriã da Copa do Mundo se empolgou com as deficiências brasileiras e largou um pouco o ferrolho.

Deu ao jogador brasileiro o que ele mais precisa: espaços. Aí apareceram os pontas Willian e Douglas Costa em velocidade, Coutinho achou as brechas para conduzir e Paulinho para infiltrar. O meio-campista do Barcelona sofreu o pênalti que Coutinho converteu e completou mais um contragolpe brasileiro.

Alisson, Thiago Silva e Miranda salvaram alguns ataques e o Brasil podia ter marcado mais gols, inclusive na primeira infiltração do jogo, com Gabriel Jesus recebendo passe longo de Daniel Alves. Com as linhas postadas, só a desatenção russa deu chances ao Brasil.

Todo teste é válido para observações. Até para perceber as dificuldades para executar o que se planeja. Contra a Alemanha os desafios serão outros, ainda que Joachim Low arme sua seleção com cinco na defesa. É clássico mundial. Jogo para vislumbrar o que pode vir em fases finais da Copa.

Mas para enfrentar Suíça, Costa Rica e Sérvia na primeira fase as dúvidas continuam. Furar linha de cinco segue como um desafio.

 


A perna quebrada de João Paulo e as “regras não escritas” da arbitragem
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André Rocha

Dois minutos de jogo no Estádio Nílton Santos. Rildo quebrou a perna direita de João Paulo. Sem eufemismos ou desculpas. Movimento de cima para baixo, com velocidade e intensidade. Pode não ter sido intencional, mas o atacante do Vasco assumiu o risco de agredir um colega de profissão.

Muitos ex-árbitros hoje comentaristas, muitas vezes en passant  numa colocação, costumam dizer que os apitadores evitam expulsar no início de um clássico para “não estragar o espetáculo”. Ou seja, uma decisão costumeira que não consta nas regras do jogo. É bem possível que o árbitro Leonardo Garcia Cavalheiro tenha seguido o “conselho”.

Ou talvez porque o meia não estivesse gritando de dor e os colegas não colocassem a mão na cabeça em desespero, já que a fratura na tíbia e na fíbula não foi exposta. Como já se ouviu também dos comentaristas que quando a reclamação é geral e acintosa é porque houve alguma irregularidade. O árbitro e sua equipe estão lá para quê, afinal?

O fato é que apenas o cartão amarelo foi aplicado. Na TV, sem necessidade de replay, foi possível notar a gravidade da entrada e da lesão. Era para expulsar direto. Sem conversa. E punição exemplar, de preferência ficando de fora dos gramados pelo mesmo período de tempo do agredido.

Rildo seguiu em campo e ficou visado, não só pela torcida do Bota que vaiava cada vez que o ponteiro pegava na bola. Os jogadores do Botafogo passaram a entrar mais duro no adversário e, aos 18 minutos, veio o choque com Marcinho que provocou a luxação do ombro esquerdo e obrigou o atacante a deixar o campo.

Só que o Vasco seguiu com onze homens em campo. Entrou Paulinho, joia da base que marcou o gol da vitória do time cruzmaltino por 3 a 2. Sobre a equipe de Alberto Valentim que falhou grosseiramente no bloqueio defensivo, mas sofreu demais sem o organizador, o “ritmista” de seu meio-campo. O Botafogo perdeu bem mais sem seu camisa oito. O mínimo para tamanho prejuízo seria enfrentar o adversário com um homem a menos. É para isto que existe o árbitro.

Tudo muito desnecessário. Por causa dessas “regras não escritas” da arbitragem para contemporizar e não se comprometer. Infelizmente, isto nem o VAR poderá evitar. Pior para o futebol.

 


Gols de Willian e Messi mostram que planos de Chelsea e Barça deram errado
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André Rocha

Desde que as bolinhas apontaram mais um confronto Chelsea x Barcelona pela Liga dos Campeões, o cenário previsto era claro e lógico: time catalão com a bola e a equipe londrina fechada e saindo em velocidade explorando os espaços às costas da adiantada defesa do rival. Com a afirmação de um Barça mais pragmático na Espanha e a necessidade de uma vitória dos Blues no Stamford Bridge para resgatar a confiança abalada imaginou-se uma alteração nas propostas das equipes.

Ledo engano. Tão logo rolou a bola o Barcelona se instalou no campo de ataque, girando e tocando em busca de um espaço para Messi entre as linhas do 5-4-1 montado por Antonio Conte. Paulinho voltava pela direita no 4-4-1-1 habitual de Ernesto Valverde, mas atacava por dentro tentando criar superioridade numérica no meio e sobrecarregar Kante e Fábregas no cerco a Messi.

O volante-meia brasileiro só apareceu numa cabeçada completando centro de Messi pela esquerda. Uma das três finalizações do Barça na primeira etapa, nenhuma no alvo. Mesmo com 90% de aproveitamento nos passes. O Chelsea concluiu o dobro. Uma na direção da meta de Ter Stegen e dois chutes de Willian nas traves.

Tudo isso com 29% do tempo com a bola. E a curiosidade: mesmo com uma formação moldada para os contragolpes com Hazard no centro do ataque, Willian e Pedro nas pontas e sem uma referência na frente, o time de Conte foi mais envolvente e perigoso atacando em bloco.

Abriu o placar na segunda etapa com uma marca do Barça de outros tempos, principalmente da Era Guardiola: escanteio curto. Hazard encontrou Willian livre na entrada da área e na terceira tentativa ele não falhou. Falha primária do sistema defensivo do time visitante que é montado para atacar, ter a bola e roubá-la na pressão no campo adversário. Quando pressionado sempre sofre.

Então por que o time da casa não tentou se impor mais? Com 40% de posse e mais coragem poderia ter construído um placar para, aí sim, administrar no Camp Nou. Subiu um pouco a posse na segunda etapa (32%) e finalizou mais quatro vezes, uma no alvo – o gol de Willian. Podia ter se arriscado mais.

Pagou no erro na saída de bola do zagueiro Christensen, que pela esquerda cruzou uma bola em frente à própria área que, forte, passou por Fábregas, mas encontrou Iniesta antes de Azpilicueta. Resposta rápida do time da paciência com a bola e passe do meia para Messi empatar. Quarto gol na Liga dos Campões, primeiro na carreira contra os Blues.

Rara oportunidade em que o gênio argentino teve espaço. Ele depende disto para criar e finalizar. Com Alba, a válvula de escape pela esquerda, bem vigiado por Moses e Willian, além da cobertura de Azpilicueta, o camisa dez sofreu mais ainda. Porque ele é senhor, mas também “escravo” do jogo entrelinhas – relembre AQUI.

Então por que não recuar eventualmente as linhas para atrair o adversário em sua casa para dar a Messi as lacunas entre os setores do adversário que precisa para desequilibrar? Talvez a mudança de mentalidade faça a equipe até se defender melhor…

Ou seja, os gols e o jogo em si mostraram que os planos de jogo foram engessados e previsíveis. E deram errado. Quando o contexto do jogo apresentou situações diferentes, Willian e Messi colocaram nas redes. Lições que ficam para a volta de um confronto muito aberto.

Porque o Chelsea pode complicar muito a vida do adversário se sair mais para jogar. Assim como o Barça, com o placar inicial favorável, pode resgatar uma ideia mais cuidadosa que vem utilizando eventualmente na temporada e matar o duelo e o confronto nos contragolpes com Messi e Suárez.

Quem se adaptar melhor ao contexto sai na frente pela vaga nas quartas de final da Champions.

(Estatísticas: UEFA)


O Vasco organizado para ataque e contra-ataque vai cumprindo sua missão
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André Rocha

Nos últimos tempos os times brasileiros vêm aprimorando e atualizando o trabalho defensivo compactando setores, fechando espaços com a participação de todos, fazendo laterais se posicionarem primeiro como defensores e outras ações sem a bola.

O problema é que a parte ofensiva na maioria das vezes fica entregue à intuição dos jogadores, sem muito jogo associativo e mentalidade focada no coletivo para o individual desequilibrar. Por isso as muitas bolas levantadas na área adversária e poucas tabelas e infiltrações.

O Vasco de Zé Ricardo vem conseguindo as duas coisas nas etapas preliminares da Libertadores. A despeito da fragilidade dos adversários, o time se posiciona para atacar de forma coordenada, pelos dois lados do campo e aproveitando o melhor de cada jogador.

Nos 4 a 0 sobre o Jorge Wilstermann em São Januário com clima de duelo continental, o time cruzmaltino de início abriu os laterais Yago Pikachu e Henrique para espaçar a marcação do oponente. Também movimentou Wagner, Evander e Paulinho, o trio de meias do 4-2-3-1, buscando os espaços entre os setores do 5-4-1 do time boliviano e Andrés Rios fazendo o pivô e abrindo espaços. Posse de bola, inversão do lado da jogada e pressão logo após a perda da bola.

Futebol atual. Ainda que com alguma dificuldade na saída de bola com Paulão no lugar do suspenso Erazo. O zagueiro, porém, compensou com a costumeira presença de área para abrir o placar. Depois um erro na tática de impedimento comandada por Alex “Pirulito” Silva terminou no gol de Paulinho para acabar de descomplicar o primeiro tempo.

Segunda etapa com o treinador Roberto Mosquera desmanchando a linha de cinco e mandando a campo os atacantes Chávez e Álvarez para se juntarem ao brasileiro Lucas Gaúcho. Mas em um “abafa” sem muita organização e qualidade para furar a defesa bem protegida por Desábato e com Ricardo Graça na zaga cada vez mais seguro.

Zé Ricardo colocou Riascos, Rildo e Thiago Galhardo para acelerar os contragolpes e matou o jogo no final com Pikachu mais que readaptado à lateral direita e Rildo. 4 a 0 para deixar a vaga mais que encaminhada. Em Sucre, o Jorge Wilstermann terá pouco mais que os 2.800 metros de altitude para buscar um milagre.

Improvável. O Vasco vai ganhando encaixe, não tem o Carioca para atrapalhar e é difícil imaginar um time de Zé Ricardo desconcentrado a ponto de facilitar tanto. O Vasco vai cumprindo a missão de chegar à fase de grupos, algo que parecia complicado pelo momento político do clube, mas em campo se resolve com organização. Para atacar e contra-atacar. Como deve ser.


O que será do Vasco? Ou é para tudo se acabar na quarta-feira?
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André Rocha

A gestão Eurico Miranda no Vasco termina oficialmente na terça-feira, dia 16. A já “lendária” urna sete da eleição foi desconsiderada pela Justiça e Julio Brant, se nada mudar até lá, deve assumir a presidência.

A grande questão é como será o 2018 do Vasco a partir da sucessão. O empresário Carlos Leite é aliado do “clã” Miranda e vai tirando jogadores importantes do clube. Primeiro Anderson Martins para o São Paulo, depois Madson para o Grêmio. Jovens como Mateus Vital, Guilherme Costa, Paulo Vítor e Paulinho podem seguir o mesmo caminho. Se surgirem propostas a tendência é que  não fiquem.

No âmbito administrativo há outras complicações, com informações de retiradas de equipamentos de São Januário, corte de fornecimento de energia elétrica e outros danos ao patrimônio do clube. Sem contar os salários atrasados. Clima de fim de festa, com um nítido descaso de quem sai.

Mais uma vez, os interesses do Vasco e dos cruzmaltinos ficam de lado pela guerra política. Estranho amor este, condicionado ao poder. O que sobrará para Zé Ricardo trabalhar? A pré-temporada, já curta, fica comprometida mesmo que Brant e a nova diretoria consigam reposições, como já fechou com Erazo, emprestado pelo Atlético Mineiro, sonha com um projeto midiático para Samuel Eto’o e se aproxima de Deco, ex-jogador e agora empresário.

No último dia de janeiro já tem jogo decisivo no Chile contra o Universidad de Concepción. Com o Vasco de volta à Libertadores depois de seis anos. Os que estão de saída parecem não se importar tanto assim.

Eurico Miranda se vai, ou deve ir. Mas deixa enorme desafio para Julio Brant: é preciso evitar uma nova gestão desastrosa do futebol para garantir sua viabilidade. Sua existência. Ou é para tudo se acabar na quarta-feira?


Coutinho na sucessão de Iniesta é o Barcelona entrando de vez na nova era
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André Rocha

Agora é oficial! Como nossos Pedro Ivo Almeida e Thiago Fernandes cravaram, Philippe Coutinho é do Barcelona por cerca de 620 milhões de reais (leia AQUI). Contrato de cinco anos. Assim já é possível analisar o contexto e as possíveis consequências desta negociação que tem tudo para ser a mais bombástica na janela de inverno europeu.

Se o meia brasileiro, staff e familia planejaram uma transição com menos pressão, sem Liga dos Campeões e desgaste, também para chegar na Copa do Mundo mais inteiro o raciocínio foi perfeito. A impressão, porém, é de que mais uma vez falou alto a urgência de realizar o sonho de atuar no gigante catalão com histórico enorme de brasileiros se destacando, sem contar o medo de que uma lesão grave prejudicasse o negócio.

Para o clube é uma contratação para fechar as feridas da saída de Neymar para o PSG. Outro brasileiro talentoso e midiático, embora bem menos que Neymar, para agradar acionistas e torcedores ao redor do mundo. Também vender camisas e a própria imagem. Estampar um rosto além de Messi e Suárez nas ações promocionais. Business.

Mas tem campo também nesta escolha. Porque ao analisar como o time blaugrana vem atuando e o que Ernesto Valverde planejou no início da temporada com Dembelé, teve que mudar pela lesão do ponteiro e agora deve retomar, a tendência é que Coutinho suceda uma lenda do clube: Iniesta.

Com a saída de Neymar, o eixo ofensivo do Barcelona mudou. Antes o brasileiro era o ponta mais agressivo pela esquerda. Do lado oposto, Rakitic aproveitava o corredor deixado por Messi, saída do meio e fazia dupla com o lateral – primeiro Daniel Alves, depois uma enorme interrogação após a saída deste para a Juventus. Sem a bola, duas linhas de quatro com Rakitic e Neymar pelos lados dando liberdade a Messi e Suárez.

No início da temporada 2017/2018, a ideia era abrir Dembelé à direita, Rakitic e Busquets centralizados e Iniesta pela esquerda. Não como um ponta, mas outro meia deixando todo o lado esquerdo para o apoio de Jordi Alba. Com a entrada de Paulinho no meio, Rakitic foi para o lado direito e Iniesta seguiu pela esquerda.

É aí que entra Coutinho. Assim como Rakitic chegou em 2014 para Xavi ficar no banco e jogar menos na reta final da carreira, o brasileiro deve fazer o mesmo com o camisa oito de 33 anos. Mais intensidade e rapidez pela esquerda. Habilidade, mudança de direção, imprevisibilidade.

Até porque Messi corre cada vez menos e é mais armador. Precisa de mais gente acelerando ao seu redor. Coutinho é meia que pensa correndo e prefere o lado esquerdo para articular e também cortar para dentro e finalizar de pé direito. Na configuração anterior do Barça teria que se adequar mais rapidamente às trocas de passes curtos e seria um armador na linha de três, com a preocupação de não ocupar o espaço de Neymar. Agora vai poder usar suas características para agregar e tornar o time mais vertical. Na hora certa.

Busquets inicia as jogadas com passe limpo, a bola chega a Messi que terá Dembelé, Paulinho ou Rakitic, Suárez e agora Coutinho para acionar em velocidade. A circulação da bola vai ficar mais rápida, assim como a definição das jogadas. Se precisar de paciência e toque num jogo posicional contra times mais fechados e menos perigosos nos contragolpes entra Iniesta descansado, sem tantos minutos na temporada.

Uma proposta para cada jogo. Futebol por demanda. Com Philippe Coutinho, o Barcelona entra de vez na nova era do esporte.