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Eles não podem errar! A dura transição do mercado de treinadores no Brasil
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André Rocha

Quando Zé Ricardo chamou Matheus Sávio para dar instruções enquanto a torcida do Flamengo no Serra Dourada pedia a entrada da joia Vinícius Júnior, o treinador sabia que corria riscos por suas convicções.

Afinal, se o time fosse eliminado da Copa do Brasil, independentemente do rendimento do jovem atacante, que entrou muito mal contra o San Lorenzo na traumática derrota na Libertadores, as chances de ser demitido cresceriam exponencialmente.

Mas Sávio, assim como contra o Atlético Mineiro no Maracanã, na estreia do Campeonato Brasileiro, colocou um cruzamento no fundo das redes do goleiro Felipe do Atlético-GO. O choro copioso do jogador foi sintomático. É muita pressão para quem ainda está no início de sua trajetória entre os profissionais.

O mesmo vale para os treinadores. No país do futebol de resultados, o comandante passa de “boa novidade” e “atualizado” para “estagiário” e “rolando lero” a cada semana. Mesmo que a sua equipe esteja organizada e o placar adverso tenha vindo por uma infelicidade na defesa ou chances perdidas na frente.

Ou até se eles se equivocarem, algo absolutamente natural. No mais imprevisível e caótico dos esportes, o que foi treinado baseado em observação e análise pode dar errado por uma noite ruim do atleta e aquela mudança aleatória, mais por conta da intuição, pode terminar em vitória. Para quem tem bagagem já é um desafio, imagine para novatos.

Eles simplesmente não podem errar. Seja Zé Ricardo, Roger Machado, Eduardo Baptista…Mesmo Jair Ventura, com enorme crédito no Botafogo, quando tentou mudar a maneira de jogar contra o Barcelona de Guayaquil no Estádio Nilton Santos e saiu derrotado as críticas vieram pesadas.

A transição no mercado de treinadores é dura. Depois dos 7 a 1 que mandaram Luiz Felipe Scolari para a China e da queda em desempenho e resultados de grifes como Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho e até Marcelo Oliveira, apesar dos títulos com Cruzeiro e Palmeiras, um buraco foi aberto para uma leva de profissionais com conceitos atualizados, vendo e pensando o futebol como é jogado nos grandes centros.

Um jogo mais coletivo e que trabalha com informações e gestão na comissão técnica. Menos com carisma e discursos motivacionais. Quando o resultado acontece, tudo isso é louvado. Se não, bate a saudade dos velhos nomes e de fórmulas antigas. Como se o que deu certo na década passada necessariamente dará em 2017.

O cenário é complexo. Dá para contar nos dedos de uma das mãos os treinadores do país que conseguem unir vivência como ex-jogador, conteúdo atual, sensibilidade na gestão de grupo e da comissão técnica. Ou seja, no auge da carreira. O melhor deles está na CBF.

Por conta de todas as dificuldades citadas, as experiências com estrangeiros não foram felizes – vide Diego Aguirre, Ricardo Gareca, Edgardo Bauza, Juan Carlos Osorio, entre outros. Quando estão começando a aprender o idioma para se comunicar já estão passando no RH e voltando para casa.

Simplesmente não há paciência, porque falta convicção para acreditar num projeto de longo prazo. Roger Machado e Zé Ricardo acharam que teriam um pouco mais de paz e respaldo para trabalhar por conta de conquistas nos estaduais. Mas basta uma sequência de resultados ruins e tudo é esquecido.

Ainda mais em clubes dos quais se espera muito. Pela capacidade de investimento e ilusão alimentada por departamentos de marketing e também por nós da imprensa, o torcedor passa a crer que seu time de coração conta com um elenco estelar e que basta o treinador distribuir certo as camisas e não atrapalhar para tudo acontecer.

Não é assim que funciona. Estar atualizado nas ideias e métodos ajuda a não ser surpreendido, a minimizar a aleatoriedade do jogo. Mas não garante nada. Muito menos onde não se valoriza filosofia e identidade, só o placar final e a conquista que vão gerar memes e zoações. Até tudo ser esquecido no próximo jogo.

Por ora, Dorival Júnior é o sobrevivente na Série A, comandando o Santos desde julho de 2015. Já Ney Franco foi demitido do Sport depois de perder a Copa do Nordeste para o Bahia com menos de dois meses de trabalho. Treinadores com rodagem de mais de uma década. Paulo Autuori, com mais de quarenta anos à beira do campo, cansou. “A rotina consome”, explicou. Vai ser gestor no Atlético-PR e abre espaço para Eduardo Baptista.

Paciência não significa ser permissivo e deixar de cobrar o desempenho que chega ao resultado. Os profissionais são bem remunerados para isso. O ponto nevrálgico é o imediatismo, a incapacidade de observar um lastro de evolução, vislumbrar um futuro melhor. Tudo ainda se resume à tentativa e erro. Até acertar. Para ontem.

Enquanto isso, segue a roda vida, a máquina de moer técnicos. Zé Ricardo escapou no gol de Matheus Sávio. Quem será o próximo?


Maracanã elétrico de Libertadores faz a diferença para o Flamengo
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André Rocha

Torcida não ganha jogo sem resposta do time em campo. Mas a atmosfera criada pela massa rubro-negra no Maracanã lotado por mais de sessenta mil pagantes, desde o mosaico simulando o gol de Zico na final da Libertadores em 1981, nitidamente desestabilizou o Atlético Paranaense no início da partida.

O Flamengo sentiu a ausência de Everton e Mancuello nem tanto pela improvisação no meio-campo de Trauco pela esquerda no 4-2-3-1. O peruano cumpriu bem a missão pelo lado e fechando o meio e encaixou lindo lançamento para Guerrero ir às redes logo aos seis minutos e subir ainda mais o tom das arquibancadas.

O problema era Renê na lateral esquerda, claramente sentindo o peso do jogo e sofrendo ora com Nikão, ora com Douglas Coutinho em uma equipe paranaense igualmente desfalcada, sem Otávio e Felipe Gedoz no meio-campo, mas compensando com bom desempenho com Matheus Rossetto.

Instintivamente o Fla buscava mais o lado direito, mas Gabriel não conseguia dar o melhor acabamento às jogadas. Mas quando Arão infiltrou no tempo certo, o cruzamento, mesmo com desvios, encontrou Diego para a finalização perfeita do segundo gol. Aos 15 minutos, para deixar o adversário ainda mais zonzo. O camisa dez ainda acertou o travessão e um bom passe vertical para Guerrero.

Por isso aumenta a preocupação com sua lesão no joelho. Sem ele e com Matheus Sávio, a equipe penou para acertar as transições ofensivas em velocidade na segunda etapa e surpreendentemente encontrou em Marcelo Cirino, substituto de Gabriel, uma válvula de escape para cima do frágil Sidcley.

Paulo Autuori tentou dar agilidade na frente com Grafite e João Paulo e volume no meio com Luiz Otávio. Faltou contundência ao time que teve 54% de posse, porém finalizou apenas três vezes, duas no alvo. Incluindo o gol de Nikão, completando, impedindo, jogada pela direita que iniciou com falha de Renê na saída de bola.

O Fla foi eficiente, acertou na direção da meta de Weverton sete das dez conclusões. Nos minutos finais, incluindo cinco de acréscimo, a calma para tocar a bola mesmo com a improvisação de Márcio Araújo no lugar do lesionado Pará, que deu lugar a Cuéllar e deixou o time ainda mais desfigurado.

A torcida jogou junto e o apito final foi celebrado com alívio e do tamanho da importância da vitória que alça o time à liderança do Grupo 4 com o empate entre Universidad Católica e San Lorenzo.

Em disputa tão parelha no jogo e no grupo, o Maracanã elétrico de Libertadores fez a diferença para o Flamengo.

(Estatísticas: Footstats)


Weverton salva Atlético Paranaense de pagar pelo mito do “time cascudo”
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André Rocha

Weverton Millonarios CAP

Como entender que um time com vantagem mínima para o jogo de volta na casa do adversário e mais 2640 metros de altitude em Bogotá, precisando de vigor físico e velocidade nos contragolpes, escale dois veteranos na frente e sofrer durante praticamente todo o jogo?

O Atlético Paranaense até teve bom início, ocupando o campo de ataque, trocando passes e criando oportunidade com os ponteiros do 4-2-3-1 montado por Paulo Autuori: de Nikão para a cabeça de Pablo e grande defesa do goleiro Nicolás Vikonis.

Mas se complicou quando o Millonarios adiantou linhas e passou a forçar pelos flancos com as duplas Palacios e Nuñez pela direita e Machado e Quiñonez do lado oposto, acionados pelo meia Rojas, mais o suporte de Jhon Duque, o autor do belo gol da vitória no tempo normal que igualou tudo nos pênaltis.

O lance vai ficar marcado pelo corte seco no jovem lateral Sidcley antes da finalização. Mas Autuori e sua equipe taticamente pagaram pelo mito do “time cascudo”. A tese de que para jogar Libertadores tem obrigação de ser experiente. Como se fosse outro jogo. Mas continua sendo futebol.

Faltou rapidez na frente com Carlos Alberto e Grafite e força no meio para resistir ao volume da equipe colombiana, com Otávio sobrecarregado pela queda física de Lucho González, de 36 anos, até as entradas de Matheus Rossetto e Felipe Gedoz nas vagas do argentino e de Nikão, que caiu muito de produção depois do bom início. Sacrificado por ser a única referência de velocidade.

O Millonarios teve 61% de posse e 28 finalizações, mas só sete no alvo. Muito por abusar da velocidade da bola na altitude, porém sem direção. Acertou 12 desarmes contra apenas quatro do time brasileiro. O Atlético não teve intensidade para reagir.

Sobrou eficiência nas cobranças de pênalti e, principalmente, competência de Weverton na defesa da cobrança do zagueiro Franco, mais a sorte no chute de Nuñez no travessão. O Atlético segue vivo em busca da fase de grupos da Libertadores, mas sofreu mais que o esperado na Colômbia.

Que sirva de lição para o desafio na terceira fase, contra Universitário do Peru ou o paraguaio Deportivo Capiatá.

Millonarios forte pelos flancos, empurrando o Atlético que não tinha velocidade nos contragolpes com Carlos Alberto e Grafite na frente e Lucho González sobrecarregando Otávio no meio-campo (Tactical Pad).

Millonarios forte pelos flancos, empurrando o Atlético que não tinha velocidade nos contragolpes com Carlos Alberto e Grafite na frente e Lucho González sobrecarregando Otávio no meio-campo (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)


Autuori retoma tema calendário, mas problema não é o jogo da segunda-feira
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André Rocha

O Atlético Paranaense entrou no G-4 com a vitória sobre o Cruzeiro por 3 a 0 construída com autoridade e controle de jogo no segundo tempo. Mas o técnico Paulo Autuori não parecia tão satisfeito e na entrada ao vivo no programa da emissora detentora dos direitos de transmissão na TV fechada, o Sportv, reclamou do jogo marcado para segunda à noite.

Quem já conversou com Autuori sabe da sua opinião sobre o que ele chama da banalização do futebol com jogos em todos os dias da semana. Segundo ele, não há mais um tempo para arejar a mente e se criar uma expectativa saudável para um grande jogo devido à massificação.

Questionamento respeitável. E retomar o tema calendário é sempre saudável. Mas, na prática, mudou pouco para seu Atlético a preparação para a partida no Mineirão. Até teve um saldo positivo, já que ganhou mais um dia. Mais pertinente foi a reclamação anterior, do adiamento do segundo tempo da partida contra a Chapecoense para a quinta-feira à tarde, quando a manhã seria mais razoável por minimizar os prejuízos na rodada seguinte.

É notório o poder da televisão na ordem dos jogos de cada rodada. A influência, por questões comerciais, é desproporcional. Não por acaso os clubes mais organizados procuram outras fontes de receita para se tornarem autossustentáveis e dependerem menos das cotas.

Só que o problema está longe de ser os jogos às segundas. Se no meio da semana os times atuarem na quinta e depois no domingo, dá na mesma que jogar domingo, quarta e sábado.

Mais passível de discussão é a distribuição de jogos nos domingos às 11h. Por envolver desgaste físico e logística complicada, deveria haver um revezamento, com todos jogando o mesmo número de partidas, ou quase isso.  Não é o caso. Ainda assim, não é o olho do furacão.

A grande questão continua a mesma: os estaduais inchados consumindo quatro meses da temporada, de fevereiro a maio, e obrigando a encavalar datas de Copa do Brasil, Brasileiro, Libertadores e Sul-Americana e invadir as datas FIFA, prejudicando exatamente os clubes competentes que, em boa fase, cedem os jogadores para as seleções. Punem o formador e o investidor.

A adequação ao calendário europeu é tema polêmico. Este que escreve defende uma temporada de teste para se avaliar todas as questões, como, por exemplo, presença de público, audiência na TV, lógística e desgaste dos jogadores atuando no verão em partidas intensas numa fase intermediária do campeonato brasileiro.

Ao final do debate entre Autuori e o apresentador Galvão Bueno, este leu um trecho de nota oficial da CBF afirmando que “calendário é tema complexo tratado continuamente com muita seriedade, sempre buscando conciliar todos os interesses”. Será mesmo todos?

O colega Luis Filipe Chateaubriand, estudioso do calendário brasileiro, colunista do Lance sobre o tema e ex-colaborador do Bom Senso FC, foi convocado para um grupo de trabalho da CBF. Participou de algumas reuniões e desistiu. Palavras dele: “Saí porque vi que a proposta é por mudanças tópicas, se tanto. Acredito que nosso calendário precisa de mudanças profundas”.

Difícil, quase impossível. Os estaduais inchados mantêm a estrutura federativa. O clubes pequenos são beneficiados jogando contra os grandes, embora a maioria seja prejudicada na sequência sem ter algo relevante a disputar nos outros sete meses do ano. Este vota no presidente da Federação que vota no presidente da CBF e a estrutura segue intacta. A TV, com os estaduais para transmitir, exige que os principais times, ou os que entregam maior audiência, usem seus principais jogadores – com a Globo fez com o Flamengo este ano.

Que a iniciativa de união dos clubes seja concreta, sem que as rivalidades dos dirigentes-torcedores atrapalhem o processo de amadurecimento do futebol brasileiro. Tardio, mas cada vez mais urgente.

 


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