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Temporada do Barcelona começa com mais do mesmo, mas precisa ser diferente
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André Rocha

Supercopa da Espanha, baterias começando a aquecer, os muitos jogadores que disputaram a Copa do Mundo voltando aos poucos. O jogo único no Marrocos entre Barcelona e Sevilla manteve o clima de pré-temporada dos amistosos, algo que não costumava existir quando jogado no próprio país.

Ernesto Valverde escalou Arthur de início e deixou Phillipe Coutinho no banco. Um 4-3-3 variando para o 4-4-2 sem a bola com Rafinha abrindo à direita e dando liberdade a Messi. Dembelé foi para o setor esquerdo, formando dupla com Jordi Alba. Do lado oposto, Nelson Semedo fazia todo o corredor.

O gol logo aos oito minutos condicionou o primeiro tempo. Até porque o Sevilla, agora comandado por Pablo Machín, tinha como proposta deixar o adversário com a bola, negar espaços num 5-4-1 compacto e acelerar nos contragolpes. Com os ponteiros Pablo Sarabia e Franco Vázquez, na variação para o 4-3-3, se aproximando de Muriel, o atacante único que serviu Sarabia numa transição ofensiva rápida que terminou com conclusão precisa e a ajuda do VAR para validar o gol legal inicialmente anulado.

Depois o Barcelona ficou com a bola, tentando as inversões em busca dos laterais que chegam ao fundo. Suárez ainda nitidamente fora de ritmo, não conseguia dar sequências às jogadas como de costume e desperdiçou boa chance em chute cruzado. Dembele buscava os dribles para infiltrar em diagonal, mas batia no muro da última linha de defesa do Sevilla até bem coordenada para a primeira partida oficial da temporada.

Messi caminhava ou trotava em campo, buscando espaços entre a defesa e o meio-campo do oponente, por vezes recuando para ajudar na articulação. Só acelerava com a bola colada no pé esquerdo. Ou fazia a tradicional inversão para Alba. Impressiona a qualidade quando interfere no jogo e o respeito que impõe ao adversário, ao menos dentro da Espanha.

Cada vez mais preciso na bola parada. Cobrança de falta do camisa dez na trave esquerda, a bola bateu no goleiro Vaclik e Piqué empatou no rebote. O Barça manteve o domínio, sofrendo com um ou outro contra-ataque. Especialmente pelo setor esquerdo, com o zagueiro francês Lenglet, ex-Sevilla, mais uma contratação para a temporada, sem conseguir fazer a cobertura de Alba com a rapidez e a eficiência de Umtiti.

Arthur sofreu a falta do gol de empate, mas não foi tão bem. Ainda precisa se adaptar à velocidade da circulação da bola no ritmo de competição no mais alto nível. Questão de tempo e entendimento. Deu lugar a Philippe Coutinho e Rafinha saiu para a entrada de Rakitic. Com o 4-4-2 mais próximo da temporada passada e Dembelé indo para o lado direito, saiu o golaço do ponteiro francês em chute forte e preciso.

Gol de título, porque nos acréscimos Ter Stegen fez pênalti em Aleix Vidal, mas Ben Yedder bateu fraco e o goleiro alemão segurou. Mesmo sem uma clara superioridade sobre o adversário, o Barcelona alcançou mais uma conquista. A décima terceira do maior vencedor da história.

Mais do mesmo. Fruto de uma cultura de vitória dentro do país nos últimos anos. Ou desde Guardiola. Contando a partir da temporada 2008/09, são sete conquistas em dez edições do Espanhol. Mais seis taças da Copa do Rei e o mesmo número de Supercopas. Aproveitamento espetacular, mesmo considerando o foco habitual do Real Madrid na Liga dos Campeões e a trajetória bem sucedida deste nos últimos cinco anos.

Mas exatamente por essa sequência de triunfos é que o patamar subiu e a exigência para voltar a ser protagonista na Champions aumentou. Até porque depois do último título em 2015 o time vem caindo antes das semifinais. Nos confrontos contra Atlético de Madri, Juventus e Roma, a impressão de que faltou competitividade. Talvez um pouco mais de intensidade de Messi. Ou um elenco que aumentasse o leque de opções e fosse possível alterar as características da equipe, caso necessário.

Por isso a busca por Arthur, Malcom, Vidal para se somar à base titular que é reconhecidamente forte. Agora com Coutinho desde o início da temporada. Porque precisa ser diferente. Ou voltar ao que já foi. Sem perder o protagonismo na Espanha, mas voltando a dar as cartas no continente. Ir além do “piloto automático” na liga e na Copa. Ou mesmo repetir o grande rival e festejar a conquista mais importante, mesmo que as “domésticas” não venham.

No apito final, a comemoração tímida e protocolar. Mais uma. Parece pouco. O Barcelona tem que sair do marasmo. Inusitado pelas muitas conquistas recentes, mas sem deixar de parecer estagnado.

 


A Copa não vai dar outra chance para o Brasil perder tantos gols
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André Rocha

O primeiro tempo foi de tensão e dificuldades diante do 5-4-1 da Costa Rica que lembrou 2014 contra Itália, Uruguai e Inglaterra. Muita pressão no adversário com a bola, última linha de defesa bem coordenada e saída rápida, especialmente pela direita nas costas de Marcelo.

O Brasil podia ter sofrido mais nos primeiros 45 minutos, não fosse a ineficiência ofensiva do adversário. Simplesmente nenhuma finalização na direção da meta de Alisson. Incluindo o chute de Borges pra fora na jogada mais bem concatenada. Exatamente o que faltou à seleção de Tite. Sem infiltração, sem abrir o jogo. A destacar apenas o passe em profundidade de Casemiro para a única diagonal de Neymar, mas Keylor Navas chegou antes.

Tudo mudou na volta do intervalo, não só pela entrada de Douglas Costa. Mas intensidade e mobilidade. Paulinho passou a encontrar espaços para infiltrar, Fagner chegou bem à frente e centrou para Gabriel Jesus cabecear no travessão. A primeira de uma série de chances que se convertidas descomplicariam o jogo.

Com Firmino no lugar de Paulinho, o desespero em busca do gol salvador. Número absurdo de cruzamentos: 42. O cenário ficou ainda mais complexo com o pênalti bem anulado pelo árbitro Bjorn Kuipers. Neymar, mais uma vez, tentou trocar a sequência do lance por uma falta. Houve toque de Gonzalez, sim, mas o camisa dez ao notar o braço no peito joga o corpo para trás. Se tentasse seguir haveria a chance de finalização. A confusão só aumentou a tensão, inclusive de Neymar, que levou amarelo.

Quando parecia que o Brasil repetiria 1978 com dois empates nas duas primeiras partidas e correria um sério risco de eliminação na fase de grupos como em 1966, valeu a presença na área dos dois centroavantes. Centro de Marcelo, Firmino ajeitou, a bola passou por Jesus e Coutinho acabou com a agonia. O gol de Neymar nos acréscimos completando assistência de Douglas Costa foi mera consequência do alívio.

Vitória fundamental. Mas é bem provável que a Copa do Mundo não dê outra chance de perder tantos gols. 23 finalizações. Nove no alvo, melhorando o aproveitamento em relação à estreia. Mas foram duas finalizações de Neymar à frente de Navas com liberdade. Uma de Coutinho.

Em um torneio marcado até aqui pelo equilíbrio e pela solidez defensiva das “zebras” é obrigatório ser mais preciso. No desempenho já há duas referências: os primeiros 20 minutos contra a Suíça e o início do segundo tempo contra a Costa Rica. Falta o acabamento.

Sem comparações técnicas e históricas, mas Peru e Marrocos já estão eliminados por conta dos ataques “arame liso”. É preciso fazer o ajuste fino. Com a primeira vitória, a ansiedade pode atrapalhar menos contra a Sérvia.

(Estatísticas: FIFA)


Brasil empata na estreia como em 1978. Mas só não venceu sofrendo em 1994
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André Rocha

A primeira observação sobre o empate por 1 a 1 na estreia da Copa do Mundo 2018 é que havia um adversário do outro lado. Algo óbvio, mas que no Brasil costuma ser desprezado. Empatamos ou perdemos sempre para nós mesmos, nunca há mérito do adversário.

A Suíça tem base consolidada, entrosamento e jogadores interessantes como os laterais Lichtsteiner e Rodríguez, o meio-campista Xhaka e Shaqiri, ponta canhoto cortando da direta para dentro que criou problemas para Marcelo, Casemiro e Miranda com sua movimentação. Fez atuação correta e aproveitou os erros brasileiros.

Equívocos técnicos provocados nitidamente por ansiedade, pressão por vitória. Inevitável depois de um 7 a 1 em casa. Mesmo com a transformação sob o comando de Tite. A Copa muda os parâmetros e a seleção sentiu.

Mesmo com um bom começo, de volume de jogo interessante e o lado esquerdo forte ofensivamente. Como no gol de Philippe Coutinho, com a bola indo e voltando ao setor até a bela finalização do camisa 11, o meia por dentro ao lado de Paulinho no 4-1-4-1.

Mas surpreendentemente oscilou no segundo tempo em um mantra de Tite desde o Corinthians: concentração. Inclusive no gol da Suíça. A disputa entre Zuber e Miranda era passível de falta. Este que escreve não marcaria, mas a reclamação é aceitável. Houve, porém, um descuido geral. Mais uma vez na bola aérea.

Depois foi ansiedade. Melhorou a produção no meio com Renato Augusto no lugar de Paulinho. Casemiro vinha bem, mas saiu por conta do amarelo e do risco de vermelho na cobertura de Marcelo contra Shaqiri. Fernandinho, outro personagem dos 7 a 1, foi outro a demonstrar nítida ansiedade. Firmino que entrou no lugar de Gabriel Jesus foi mais um a esbarrar na afobação. Péssimo aproveitamento coletivo nas finalizações: quatro no alvo de 20.

E Neymar foi um contraponto a esta eletricidade. Por isso a incógnita sobre sua condição física na primeira partida oficial depois de três meses. Em seu estado normal, Neymar partiria para cima, talvez até atrapalhasse o time com individualismo e irritação. Ainda mais sofrendo dez das 19 faltas cometidas pelos suíços. Mas pareceu um tanto passivo e preocupado. Ora com mão na panturrilha, ora fazendo cara feia como se sentisse o pé. Estranho…

É a primeira vez que várias gerações veem o Brasil não vencer em uma estreia de Mundial. A última foi em 1978, o famoso jogo em que o árbitro encerrou a partida quando Zico completou uma cobrança de escanteio. Também 1 a 1 com a Suécia. Depois só vitórias. Mas quase todas com sofrimento.

Em 1982, 1986 e 2002 precisou do “apito amigo”. Pênaltis não marcados contra a União Soviética na Espanha, gol mal anulado da Espanha no México e pênalti “maroto” em Luisão diante da Turquia no início da trajetória do penta na Ásia. Contra a Suécia em 1990, o Brasil de Lazaroni abriu 2 a 0, mas não foi bem nos 2 a 1. Assim como contra a Coréia do Norte em 2010.

Em 1998, a Escócia deu trabalho nos 2 a 1 do time de Zagallo e o desempenho do “quadrado mágico” formado por Kaká, Ronaldinho, Adriano e Ronaldo contra a Croácia na Alemanha em 2006 foi sofrível na vitória por 1 a 0. O mesmo adversário na abertura da Copa no Brasil com o susto no início com o gol contra de Marcelo e dependendo de Neymar para construir a virada por 3 a 1.

Resultado e desempenho sólido apenas no tetra em 1994 nos Estados Unidos: 2 a 0 com autoridade sobre a Rússia, gols de Romário e Raí. Na maioria dessas vitórias sofridas, atuações piores que a da estreia na Rússia. Mas o desespero resultadista de torcida e imprensa vai criar um ambiente de pressão e cobrança desproporcional para a segunda rodada da fase de grupos. Por causa de um empate que, mesmo com todos os problemas, tivesse se transformado em três pontos seria tratado com alívio como “vitória sofrida”. Chances não faltaram.

É do jogo. Cabe ao Brasil de Tite tirar a pressão do primeiro jogo e vencer Costa Rica e Sérvia. Para manter a tradição de passar da fase de grupos desde 1966. Mas principalmente evoluir o desempenho para chegar forte na hora de decidir.

(Estatísticas: FIFA)


As boas respostas brasileiras no ótimo teste final contra a Áustria
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André Rocha

A seleção austríaca chamava atenção antes do amistoso em Viena pelas sete vitórias seguidas, inclusive sobre a Alemanha. E tinha a utilidade de ser mais uma experiência da seleção de Tite contra a linha de cinco na defesa.

Mas a Áustria apresentou mais que isto no primeiro tempo. Especialmente a pressão na saída de bola em vários momentos e uma jogada que não resultou em gols, mas mostrou que pode ser, ou continuar sendo, um problema para o Brasil: a jogada de Alaba buscando o fundo pela esquerda e cruzando na segunda trave procurando Arnautovic na zona de Marcelo, mais baixo e com suas habituais dificuldades de posicionamento. O ala Lainer também conseguiu algumas infiltrações nas costas do lateral esquerdo.

Defensivamente a resposta brasileira foi a concentração e a atuação segura de Thiago Silva, Miranda e Casemiro. Compensando também Danilo, ainda hesitante tanto no posicionamento atrás quanto no apoio por dentro, deixando Willian mais aberto. Assim como a pressão logo após a perda da bola. Com um pouco menos de intensidade por conta da proximidade da Copa do Mundo.

Na frente, a dificuldade para infiltrar com tabelas, triangulações e ultrapassagens diante de um sistema defensivo postado. Mesmo sem Fernandinho e com Coutinho por dentro na linha de meias do 4-1-4-1. O mérito foi trabalhar com paciência, sem se desorganizar. E encontrar nos chutes de fora da área e nas bolas paradas as soluções para furar o bloqueio. Tentou com Casemiro e Philippe Coutinho. Thiago Silva errou a cabeçada na cobrança de escanteio de Neymar.

Na jogada individual do camisa dez que sobrou para Paulinho, a melhor chance até Marcelo arriscar de longe no rebote de um escanteio e, na dúvida da arbitragem se a bola bateu em Sebastian Prödl ou o zagueiro interferiu no lance, Gabriel Jesus finalizou com estilo, marcando seu décimo gol com a camisa verde amarela.

Pronto. Problema resolvido. Com a vantagem, a Áustria se abriu e, com espaços, o Brasil é letal nas transições ofensivas. Ainda mais com Neymar solto, com fome e inspirado. Linda jogada pessoal no segundo gol, já na segunda etapa. Outro contragolpe e o terceiro com Coutinho.

Podia ter saído mais com o clima mais de amistoso depois das substituições e da Áustria jogando a toalha. Mas não era hora de forçar nada, mesmo para os reservas querendo mostrar serviço. Tite já tinha suas respostas. Dentro do contexto das favoritas evitarem se enfrentar tão próximo do Mundial, foi o melhor teste possível. Para efetuar as últimas correções e, principalmente, definir a maneira de enfrentar adversários fechados.

Deve ser a tônica na primeira fase. E o Brasil mostrou que não está no auge, nem é hora para isto. Mas está pronto para iniciar a trajetória na busca do hexa.


Mais importantes que os 23 são os 14 (ou 15) usados jogo a jogo na Copa
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André Rocha

A lista de Tite é boa e coerente. Embora, a rigor, não seja a definitiva. É tudo que a comissão técnica não quer, mas pode ser alterada até a estreia por alguma lesão ou qualquer outro problema, até particular. A expectativa criada, porém, é mais que compreensível no país cinco vezes campeão mundial.

Mas o fato é que os 23 não vão jogar. No máximo aquela terceira partida da fase de grupos com a seleção brasileira já classificada. Ou se vier o caos de uma sequência de lesões ou um desempenho tão ruim que obrigue o treinador a mexer profundamente na base durante o torneio. Improvável, ainda mais com Tite.

Por isso vale mesmo pensar nos 14 ou 15, no caso de prorrogação nos jogos eliminatórios que permitirá quatro substituições, que entrarão em campo jogo a jogo.

O universo neste momento inicial é de 17 atletas. Alisson no gol. Se foi titular sem sequência de jogos, imagine depois de uma fantástica temporada na Roma. Danilo ou Fagner disputando a vaga de Daniel Alves – e se um deles se afirmar talvez nem se alternem. Marquinhos, Thiago Silva e Miranda na zaga. Marcelo na lateral esquerda. No meio, o triângulo não deve fugir de Casemiro, Paulinho, Fernandinho, Renato Augusto e Philippe Coutinho.

Na primeira fase, a tendência contra equipes fechadas é Coutinho por dentro no mesmo 4-1-4-1 e Willian abrindo o campo pela direita. Com Danilo atacando naturalmente por dentro, podendo emular os movimentos de Daniel Alves. Até por ter atuado como volante e meia em momentos na carreira. Em jogos maiores e eliminatórios mais à frente, a possibilidade de entrar Fernandinho ou Renato Augusto, que perdeu terreno mas basta mostrar desempenho para voltar a concorrer. Tudo para dar liberdade ao infiltrador Paulinho.E aí Coutinho pode voltar ao lado direito para circular e buscar os espaços entre a defesa e o meio-campo do adversário.

Na frente, Gabriel Jesus e Neymar iniciando. Roberto Firmino e Douglas Costa como as prováveis primeiras opções. Ou podendo até estar juntos em campo num momento de necessidade. E aí entra uma questão primordial na preparação até a estreia.

Tite não é exatamente um comandante intuitivo e inovador. Quase impossível tentar algo inédito dentro da Copa do Mundo. Por isso precisa testar no período de treinamentos todas as opções nos mais variados contextos. Como jogar com um homem a mais, um a menos. Perdendo por um ou mais gols num jogo eliminatório necessitando de um “abafa” para buscar o placar. Ou uma formação para suportar pressão e se defender de sequência de cruzamentos com vantagem no placar.

É legítimo questionar ausências, como Luan e Arthur do Grêmio. Ou mesmo presenças. Mas o fato é que o contexto de menos dois anos de trabalho reduziu bastante o espectro de experiências e observações. E na prática cinco ou seis jogadores podem nem entrar em campo na Rússia. Tite certamente não vai externar essa visão, mas sua torcida é para não precisar. Ederson vai precisar de sorte. Cássio mais ainda. Assim como Geromel, Filipe Luís, Fred e Taison devem dar suas contribuições apenas nos treinos.

Agora é pensar na oportunidade de estar com os jogadores pelo período mais longo dentro da trajetória de Tite. Para aprimorar tudo. Compactar setores, trabalhar coberturas, combinar triangulações, ultrapassagens, jogadas em profundidade, viradas de jogo para surpreender, o melhor momento para utilizar o drible e desequilibrar. Entrosar, jogar sem pensar. Afinar também a gestão de grupo, consolidar lideranças.

Depois é competir. Jogo a jogo. Com a partida disputada influenciando a seguinte. Analisando e reavaliando o trabalho, considerando também o adversário. Preparando para as situações imprevisíveis do futebol. Buscando desempenho para construir resultado.

O que se espera é que a emoção e a razão conduzam ao hexa. Ou ao melhor resultado possível. Porque o Brasil é apenas um dos favoritos em um Mundial que deve atingir nível altíssimo na reta final e tudo pode ser resolvido num detalhe. O resto é jogo de dados. Sorte. Não dá para descartar o imponderável, a favor ou contra.

 


Brasil vence, mas não fura linha de cinco da Rússia como Tite queria
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André Rocha

Não é nada fácil colocar em prática algo tão complexo como o jogo de posição em pouco tempo. Problema do ciclo de apenas dois anos de Tite e uma certa demora para trabalhar esses conceitos, só depois do “susto” contra a Inglaterra. E sempre é mais complicado desequilibrar sem Neymar, o maior talento brasileiro.

Por isso a seleção sofreu no primeiro tempo e, objetivamente, não furou a linha de cinco da Rússia como Tite queria: trocando passes, com meio-campistas buscando jogo entre as linhas e ponteiros bem abertos esgarçando a marcação adversária. Paciência até infiltrar e finalizar.

Imaginava-se os laterais atacando por dentro, mas Marcelo desceu mais aberto. Talvez porque Tite pense em Neymar circulando mais e procurando o centro, criando a necessidade do lateral ser o responsável pela amplitude. Preocupante mesmo foi o desempenho de Daniel Alves. Confuso, errando passes fáceis, arriscando lançamentos sem sentido. Sem contar o posicionamento defensivo às vezes desatento.

Casemiro também merece um capítulo à parte. Na construção das jogadas contribui pouco. E ainda obriga jogadores que neste conceito deveriam receber a bola mais adiantados a voltar para articular. Nesta ideia Fernandinho seria mais interessante. Só que com os lapsos defensivos dos laterais é preciso ter alguém mais seguro na proteção dos zagueiros. Efeito colateral.

Como o Brasil, então, construiu os 3 a 0? Da maneira como o futebol viveu seus melhores momentos nos últimos dez anos: bola parada no gol de Miranda que abriu o placar, completando desvio de Thiago Silva, e a velocidade nas transições ofensivas quando a seleção anfitriã da Copa do Mundo se empolgou com as deficiências brasileiras e largou um pouco o ferrolho.

Deu ao jogador brasileiro o que ele mais precisa: espaços. Aí apareceram os pontas Willian e Douglas Costa em velocidade, Coutinho achou as brechas para conduzir e Paulinho para infiltrar. O meio-campista do Barcelona sofreu o pênalti que Coutinho converteu e completou mais um contragolpe brasileiro.

Alisson, Thiago Silva e Miranda salvaram alguns ataques e o Brasil podia ter marcado mais gols, inclusive na primeira infiltração do jogo, com Gabriel Jesus recebendo passe longo de Daniel Alves. Com as linhas postadas, só a desatenção russa deu chances ao Brasil.

Todo teste é válido para observações. Até para perceber as dificuldades para executar o que se planeja. Contra a Alemanha os desafios serão outros, ainda que Joachim Low arme sua seleção com cinco na defesa. É clássico mundial. Jogo para vislumbrar o que pode vir em fases finais da Copa.

Mas para enfrentar Suíça, Costa Rica e Sérvia na primeira fase as dúvidas continuam. Furar linha de cinco segue como um desafio.

 


Messi 600 e histórico! Mas dependência do Barcelona já passa do ponto
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André Rocha

O jogo decisivo da temporada para o Atlético de Madri reforça a impressão de que o modelo de Diego Simeone está desgastado depois de sete temporadas.

No Camp Nou, repetiu a estratégia de sempre contra o Barcelona: adianta linhas e pressiona saída de bola. Se o adversário ultrapassa esse bloqueio, se recolhe em duas linhas de quatro compactas para negar espaços, principalmente para Messi.

Mas com cinco pontos atrás na tabela era preciso mais e o time visitante não entregou. Só no segundo tempo, perdendo por 1 a 0, partiu para o desespero mantendo o 4-4-2, porém com Correa na ponta direita e Gameiro fazendo dupla com Diego Costa.

E Griezmann…Depois de sete gols nas últimas duas partidas era de se esperar mais do francês. Assumir o protagonismo, tentar algo diferente. Mas o camisa sete foi o atacante com liberdade atrás de Diego Costa e depois o ponteiro pela esquerda. A rigor, nada produziu.

Melhor para o Barcelona pragmático de Ernesto Valverde. Treinador que voltou a sacrificar Philippe Coutinho de início pela direita na linha de meio-campo. Só inverteu de lado por causa da lesão de Iniesta ainda no primeiro tempo.

Paulinho estava no banco, mas entrou…André Gomes. O blogueiro já desistiu de entender. Não melhora a produção pelo flanco, com ou sem a bola. É lento, tanto para buscar espaços às costas da defesa quanto para fazer a bola circular. Um corpo estranho em campo. Com Suárez lutando, mas pouco inspirado na luta contra Giménez e Godín, sobrou para Messi.

Qualquer time no planeta dependeria do argentino. Na história do esporte poucas equipes não teriam o genial camisa dez como seu maior destaque. Mas este Barcelona tem passado do ponto. Não é por acaso que é o artilheiro da liga espanhola com 24 gols e líder também em assistências, com doze.

Messi recua para organizar e distribuir. Se avança e encontra espaços entre a defesa e o meio do adversário parte para a decisão da jogada. Ou arranca e serve o último passe, ou toca rápido e aparece na área para finalizar.

Ou tenta resolver tudo sozinho. No clássico que encaminha o título espanhol foi o que aconteceu. Buscou a jogada individual, sofreu a falta e cobrou com a precisão que só aumenta. Terceiro gol seguido desta forma, tirando do alcance do ótimo goleiro Oblak.

O 600º gol na carreira em partidas oficiais. Histórico. Mas ele não é super homem, embora pareça um extraterrestre. Muito menos com 30 anos. Não dá para depender tanto, ainda que o talento transborde.

Abrindo oito pontos no topo da tabela, mais a vantagem no confronto direto, é o momento de descansar um pouco Messi. Administrar a liderança na liga e focar na Champions. Mas principalmente buscar soluções ofensivas para não viver de seu craque maior. A inversão de bola para Jordi Alba já está manjada pelos rivais. Sobra muito pouco.

Valverde tem que abrir o leque. Ou rezar para o maior jogador da história do Barcelona seguir fazendo seus milagres. Até quando ele aguenta?

 

 


Vá se preparando! Vem aí o Brasil de Tite com jogo de posição e no 2-3-5
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André Rocha

Foto: EPA

Tite concedeu as últimas entrevistas exclusivas antes da convocação para os amistosos contra Rússia e Alemanha em março. Depois vai se concentrar no trabalho e só ouviremos o treinador em coletivas até a Copa.

Em todas foi possível pescar algo das ideias do comandante da seleção. Está mais que clara sua obsessão por furar linhas de cinco depois de bater no muro da Inglaterra em Wembley. Este blog se dá o direito de recordar que foi o primeiro espaço a alertar para a dificuldade que seria enfrentar as retrancas “handebol”  – leia ou lembre AQUI.

A boa notícia é que Tite já tem um norte a seguir: o jogo de posição. Ou localização. Um conceito complexo de futebol que tem origem na escola holandesa e Pep Guardiola virou o grande expoente e disseminador atualizando o que lhe foi ensinado por Johan Cruyff quando foi seu técnico no Barcelona nas décadas de 1980/90.

É complexo, mas tem lógica. Desde que passou a existir o time grande e o pequeno no futebol surgiu o duelo ataque x defesa. A equipe com mais recursos e/ou tradição é obrigada a ocupar o campo adversário porque o menor, por opção ou instinto, vai se retrancar concentrando jogadores para proteger a própria meta.

O jogo de posição procura dar inteligência e ordem na hora de atacar. O que você precisa para enfrentar uma retranca?

Primeiro uma saída de bola com qualidade para se instalar no campo de ataque sem correr o risco de um erro de passe pegar o time saindo e, consequentemente, desarrumado e exposto. Para isso, o goleiro com técnica de passador é fundamental para auxiliar e ser um homem a mais na construção. Tite tem Alisson e Ederson, excepcionais.

Uma vez no campo adversário, qual a necessidade? Jogadores próximos, criar superioridade numérica no setor em que está a bola, iniciar a jogada de um lado e terminar do outro. Tudo para iludir um time com nove ou dez homens de linha em cerca de cinquenta metros.

O que é a amplitude? Ter jogadores bem abertos para que o oponente não fique confortável bloqueando a zona mais perigosa que é a central. Alargar o campo também abre mais brechas para infiltrar.

Aí entra a profundidade, que não é só chegar à linha de fundo pelos flancos. Mais importante é entrar no espaço às costas da defesa para finalizar. Pelo meio ou através das diagonais. Sem isso só restariam os chutes de média e longa distância, outra arma poderosa contra ferrolhos.

Para criar, o jogo entrelinhas. Nada mais do que os jogadores procurarem os espaços entre os setores do adversário para receber a bola com liberdade, sem pressão. Especialmente os meio-campistas mais criativos para encontrar liberdade e dar o passe qualificado para a assistência ou a finalização. Aquilo que Messi faz como ninguém e Neymar vem desenvolvendo no PSG.

E como se defender? Bem, se o time está com praticamente todos os jogadores no outro lado, bem longe da própria meta, você tem que matar a origem do contragolpe. Aí entra o “perde e pressiona” que começa com o jogador que perdeu a bola ou quem estiver mais próximo dela. Abafar para não ser surpreendido.

Se o time toca, roda a bola e pressiona para recuperá-la rapidamente, a tendência é ter mais posse que o adversário. Ou seja, é uma consequência natural e não um fim em si mesma. Por isso Guardiola disse detestar o “tiki-taka”. Porque no jogo de posição, como vimos, tudo tem um porquê.

Dito tudo isso, não deixa de ser irônico que tantos no Brasil acreditem que o treinador catalão copia o futebol brasileiro. Aquele que sempre abriu retrancas no drible, no improviso. Tudo que Guardiola não quer. Ou apenas no lugar certo.

A sofisticação no ato de atacar gerou como resposta a inteligência na hora de defender. José Mourinho tirou o estigma da vergonha da retranca. Para parar o Barça histórico, linhas praticamente chapadas com no mínimo oito jogadores bloqueando os espaços certos. Se o objetivo final do jogo de posição é infiltrar na área, nada mais lógico que distribuir jogadores na região mais perigosa para evitar. Por isso a linha de cinco.

Que pode virar até de sete quando essa linha fica mais estreita, com jogadores mais próximos, e os dois meias ou ponteiros voltam pelos lados como laterais. É a hora em que vira linha de handebol.

O Brasil voltou a figurar na lista de favoritos com a recuperação comandada por Tite. E exatamente por esse favoritismo que o treinador brasileiro precisou estudar e introduzir conceitos antes pouco explorados. Não é por acaso que antes Carlo Ancelotti fosse sua referência e hoje seja Guardiola e o Manchester City.

Está claro que o time base terá que ser alterado com essa mudança de paradigma. Daniel Alves e Marcelo são laterais construtores, palavras de Tite. Ou seja, organizam mais e tendem a procurar o centro, não atacam tão abertos. Paulinho infiltra por dentro. Philippe Coutinho sai da direita para o meio. Neymar pela esquerda também corta para o pé direito. Gabriel Jesus é atacante de infiltrar nos espaços às costas da defesa. Que espaço numa linha de cinco?

Foi o problema contra a Inglaterra. O antídoto, ao menos na primeira fase contra Suíça, Costa Rica e Sérvia? Um sistema ultraofensivo que remete aos primórdios do futebol: o 2-3-5. Ou “pirâmide”. A antítese da linha de cinco atrás. Ou melhor, a inversão. Cinco no ataque. Na prática, é o adiantar e reorganizar as linhas do 4-1-4-1/4-3-3. Guardiola aplicou em todas as suas equipes sempre que enfrentou defesas mais fechadas.

Funciona assim: os dois zagueiros ocupam a linha média. Mais à frente, laterais atacando mais por dentro, como meio-campistas. No Bayern de Munique, Lahm e Alaba. Tite terá os dois melhores do mundo: Daniel Alves e Marcelo. Criando e também sendo os primeiros a ajudar os zagueiros no caso da surpresa de um contra-ataque.

Fazendo companhia a um volante, ou médio, com papel fundamental: é o homem da distribuição das jogadas, da inversão de lado, do desafogo, da opção de volta da bola para concatenar outro ataque. O titular é Casemiro, mas pode vir a ser Fernandinho, mais habituado a executar o jogo de posição como primeiro articulador.

Na frente, cinco jogadores. Que não funcionam em linha, é claro. Dois ponteiros para dar a amplitude citada acima, já que os laterais atacarão por dentro. Na seleção pode ser um pouco diferente: pela direita, Willian, que dentro desta ideia parece cada vez mais titular, bem aberto e Daniel Alves por dentro. Do lado oposto, Marcelo pode aparecer pelo flanco porque será um desperdício Neymar ficar isolado como um ponta para participar menos do jogo e dar o último passe. Precisa ter liberdade.

Porque a ideia central desta proposta é a bola chegar ao jogador posicionado e não o contrário. Ainda que haja movimentos de ida e volta, como os meias por dentro. Philippe Coutinho parece certo como um desses homens buscando espaços entre as linhas. Aberto como ponta, sem procurar o centro, vai ficar ainda mais deslocado, desconfortável. Deve ficar com a vaga de Renato Augusto, que perdeu espaço e confiança de Tite. O outro seria Paulinho, mas a dificuldade para participar do controle do jogo com a bola que mostra no Barcelona tende a dificultar a manutenção da titularidade. A menos que Tite sacrifique a criatividade em nome da força e do timing para aparecer na frente.

Por isso a busca do “ritmista”. O outro meia que fará a bola chegar na frente com qualidade. Acelerando e desacelerando, ditando o ritmo. Se não tem alguém com as características de David Silva em alto nível, o treinador procura esse jogador em Diego, Lucas Lima, Fred (Shakhtar Donetsk) ou Jadson. Também pode ser Arthur do Grêmio. Por erros na nossa formação de meio-campistas este deve ser o nosso grande “gargalo” na Copa do Mundo.

No centro do ataque, Gabriel Jesus como jogador do último toque como funciona no City, e a adaptação ao estilo é uma vantagem, ou Firmino abrindo espaços, recuando para tabelar com os meio-campistas e permitindo as infiltrações em diagonal dos ponteiros. Ou mesmo os dois numa proposta ainda mais ousada para ter dois finalizadores.

Uma das formações possíveis no 2-3-5 para colocar em prática o jogo de posição: Willian e Neymar nas pontas para dar amplitude, mas com o camisa dez ganhando liberdade para circular e Marcelo atacando pelo flanco esquerdo. Fernandinho seria o titular como o volante por dominar os conceitos no Manchester City de Guardiola, grande referência de Tite na montagem da seleção para furar linha de cinco na defesa (Tactical Pad).

Sim, parece tarde para tamanha revolução. Muitos conceitos para poucos jogos e treinamentos. Mas é isto ou bater no muro como em Wembley. A boa notícia é que boa parte dos jogadores já praticou o jogo de posição nos seus clubes em algum momento. A questão é fazer juntos.

Arriscado demais? Tudo pode ruir numa saída rápida de contra-ataque? Claro, mas o Brasil sempre correu este risco em Copas. Quem se abre contra a camisa cinco vezes campeã mundial? A Holanda, que não estará na Rússia, a Argentina pela rivalidade e, talvez, Espanha e França. A grande maioria espera para surpreender. Então nenhum país precisa mais dominar o jogo de posição que o nosso.

Tite sabe disso e deve estar sendo duro se desapegar de certas convicções. Mas segue debruçado sobre os conceitos, os mais avançados na prática do esporte na atualidade, que já vêm sendo abordados nas entrevistas do técnico – e já há quem reclame dele estar “abrindo o jogo”, como se as outras seleções, ao menos as grandes, não tivessem equipes de análise de desempenho com softwares avançados para observar isso no campo, onde mais importa.

Até o início do Mundial serão transferidos para os debates sobre futebol na TV, no rádio, na internet. Já é possível vislumbrar, sem exageros, o maior embate ideológico da história do nosso jornalismo esportivo.

De um lado os que estão conectados ao futebol atual jogado nos principais centros do mundo, com seus excessos e preciosismos na maneira de comunicar ou não, e os que renegam tudo por saudosismo, pensamento conservador, preguiça ou seja lá o que for e menosprezam reduzindo tudo a modismos, neologismos, invenções, etc.

No final, como tudo no futebol brasileiro, o resultado é que vai falar mais alto. Se vier o hexa será a chance do país dar um salto conceitual com a valorização do estudo e da evolução. Se perder, e como perder, virá o discurso de sempre que ajuda a travar o desenvolvimento do esporte por aqui.

Portanto, vá se preparando! O Brasil de Tite, ainda que mais por necessidade que convicção, vai sacudir e virar do avesso as estruturas do nosso jogo.

 

 

 


O primeiro gol de Philippe Coutinho pelo Barcelona, com a “benção” de Messi
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André Rocha

Ernesto Valverde precisou de 45 minutos para perceber que o futebol coletivo do Barcelona era prejudicado pela nulidade de André Gomes jogando aberto pela direita na linha de meio-campo. Por isso sua equipe teve problemas no primeiro tempo no Estádio Mestalla pela semifinal da Copa do Rei.

Também porque o Valencia, necessitando reverter desvantagem de 1 a 0 construída no Camp Nou, se arriscou com o brasileiro naturalizado espanhol Rodrigo Moreno atuando como uma espécie de “falso nove” tentando alimentar Zaza e Vietto na frente. Dinâmica que dificultava a saída de Jordi Alba para atacar pela esquerda com a cobertura de Umtiti e Busquets centralizado na proteção.

A retaguarda sofria e os ataques pela direita eram previsíveis, dependentes do apoio de Sergi Roberto e das aparições de Messi no setor. Faltou fluência ofensiva, mesmo com o controle da posse de bola – importante para administrar a vantagem no confronto.

Tudo mudou em três minutos com Philippe Coutinho em campo na vaga do português na volta do intervalo. Ainda que o brasileiro não se sinta confortável pela direita, no primeiro ataque apareceu na segunda trave para completar centro de Suárez pela esquerda e encaminhar a classificação do Barça para a 10ª final do torneio em 13 anos. Primeiro gol pelo novo clube. Já sendo decisivo.

Interessante notar que até Paulinho entrar no lugar de Iniesta e Coutinho enfim ser deslocado para o lado esquerdo, Messi novamente usou toda sua leitura de jogo para permitir que o camisa 14 saísse da direita para circular pelo centro às costas dos volantes adversários, como faz na seleção. Exatamente no espaço em que o gênio argentino gosta de atuar.

Para gerar o espaço, Messi ficava aberto pela direita recebendo e acionando os companheiros. De certa forma também descansando em campo. Mas dando uma prova de que entende a importância do talentoso meia brasileiro no elenco de Valverde. Uma espécie de aval do craque do time.

Depois bastou ao Barcelona seguir controlando o jogo com posse e sofrendo apenas um ataque mais contundente, com Cillessen fazendo grande defesa. No final, falha do zagueiro Gabriel Paulista, mais uma assistência de Suárez e gol de Rakitic. Ainda houve tempo para estreia de Yerri Mina entrando no lugar de Piqué.

Com vaga na decisão da Copa nacional e o título espanhol bem encaminhado pela larga vantagem na liderança, o Barça pode concentrar todos os esforços no duelo com o Chelsea pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Favoritismo natural pelo bom momento contrastando com a séria crise no time inglês, mas a história mostra que costuma ser um duelo perigoso.

Mais ainda sem a opção de Coutinho, ainda que no banco. Resta ao brasileiro seguir seu processo de adaptação ao novo clube. Com gols e a “benção” de Lionel Messi.


Coutinho pela direita, um dos problemas do Barcelona em virada dramática
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André Rocha

Ernesto Valverde deve ter feito duas anotações sobre o primeiro tempo da virada por 2 a 1 no Camp Nou sobre o Alavés:

A primeira e a mais definitiva: nunca mais reunir numa partida em casa quatro típicos jogadores de meio-campo como Rakitic, Paulinho, o estreante na liga espanhola Philippe Coutinho e Iniesta, sem um ponteiro mais agudo como Dembelé e utilizando laterais que não abrem o campo e pouco buscam o fundo do campo, como Semedo e Digne.

Por isso as trocas nas laterais já no intervalo: Sergi Roberto e Jordi Alba entraram e esgarçaram a marcação do adversário. O equívoco da formação inicial criou uma limitação nas ações de ataque e abriu o time no lance do gol de Guidetti. Porque ao perceber que ninguém acelerava buscando o fundo do campo, Umtiti resolveu se aventurar na frente, mas com o Barça instalado no campo do oponente. Bola perdida, contragolpe letal no passe de Ibai Goméz e finalização atrapalhada, porém feliz do camisa dez.

O Barcelona também travou pelo desentrosamento, mas principalmente pelo desconforto de Coutinho atuando pela direita. A impressão é de que Valverde não viu um jogo do brasileiro na seleção comandada por Tite. Em tese, ele é o ponta direita em um 4-1-4-1, mas sempre se sai melhor quando deixa o setor para circular às costas dos volantes adversários e seu futebol explode quando parte da esquerda para dentro buscando a finalização ou o passe.

Por isso Tite já testou Willian aberto na ponta e Coutinho por dentro, algo que deve ser pensado com carinho principalmente para a primeira fase da Copa do Mundo na Rússia contra adversários bem fechados. Ainda mais com Neymar conduzindo cada vez mais a bola e muitas vezes buscando o jogo por dentro.

Considerando que Valverde já disse algumas vezes que Messi tem liberdade para jogar onde bem entender é possível concluir que o gênio argentino, ao notar os problemas do novo companheiro para ocupar o setor, passou a circular mais pela direita, lembrando seus tempos de ponta articulador no auge do trio MSN. Tudo para consertar uma escalação bastante infeliz.

Na segunda etapa, com outros laterais e depois Paco Alcacer na vaga de Coutinho, que jogou 65 minutos como planejado, o time blaugrana pressionou e virou com gols de seus artilheiros: Suárez completando jogada fantástica de Iniesta pela esquerda e Messi cobrando falta. Bela vitória também pela boa atuação do Alavés, que teve a chance de sair para o intervalo com vantagem mais ampla.

É natural oscilar coletivamente e ficou claro que Busquets faz falta na proteção da retaguarda, mais pelo posicionamento do que pela capacidade de desarmar. Mas atacar sem abrir o campo e insistir com Coutinho pela direita provavelmente foram opções que Valverde riscou de seu caderno. Rodar o elenco é saudável se as características dos jogadores combinarem e eles estiverem bem posicionados.

Não foi o caso da noite em Barcelona que era de festa e virou drama, mas com final feliz.