Blog do André Rocha

Arquivo : pontepreta

Liderança do Flamengo significa quase nada além do topo da tabela
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André Rocha

Vitória, América e Ceará. Três rodadas, Duas vitórias, um empate. Sete pontos. Primeiro lugar na tabela de classificação.

Se fosse Corinthians ou Grêmio a ocupar esta colocação significaria pouco além da afirmação da autoridade da dupla formada pelo campeão brasileiro e o da Libertadores através de suas identidades de jogo. Confirmadas com as conquistas estaduais superando seus maiores rivais.

No caso do Flamengo, que terminou 2017 com uma conquista estadual, dois vices e a última vaga direta na fase de grupos do principal torneio continental e que no Carioca deste ano construiu a melhor campanha nos dois turnos vencendo apenas clássicos contra o Botafogo, mas perdendo e sendo eliminado pelo mesmo rival no confronto mais importante, significa quase nada.

Não só pelas muitas fragilidades dos adversários, que neste momento da temporada podem vislumbrar apenas a luta para seguir na Série A. Principalmente por conta da turbulência política, dos problemas no comando do futebol, da inexperiência do treinador Mauricio Barbieri e da própria inconstância tática do time. Sem contar as oscilações no aspecto mental em grandes jogos.

As três partidas até aqui tiveram seus simbolismos. Primeiro a estreia oficial do time sob comando de Barbieri, cercada de expectativas depois de um período de 17 dias sem jogos valendo três pontos. Empate em 2 a 2 contra o Vitória no Barradão com arbitragem polêmica. Na segunda rodada, despedida de Julio César em um Maracanã cheio e nostálgico. E a equipe precisou de intervenções importantes do goleiro para segurar os 2 a 0 sobre o América.

No Castelão, o apoio da massa cearense em contraste com o clima hostil no aeroporto ainda no Rio de Janeiro criou um ambiente positivo para o jogo. Ajudado pelo “efeito Paquetá”. Com o jovem no meio-campo, auxiliando Cuéllar no combate e na construção e dando liberdade a Diego para jogar mais próximo de Henrique Dourado em um 4-1-4-1 que na prática se transformava num 4-2-3-1, a equipe rubro-negra cresceu coletivamente. Mesmo ainda insistindo nos cruzamentos na primeira etapa, colocou mais a bola no chão e construiu os 3 a 0 com naturalidade.

Vinícius Júnior foi outro destaque com um gol fazendo a infiltração em diagonal que se espera dele desde a promoção para o profissional e também o posicionamento perfeito na área para completar a assistência de Rodinei. No terceiro gol, a imagem da rodada com Diego, que confirmou ter sofrido agressão na sexta, comemorando nos braços da torcida. Gesto que pode ser o início de redenção se for acompanhado de evolução no desempenho em campo.

Enfim, um alento. Também a esperança de dias de paz e de que enfim as peças encontrem encaixe – o lado direito com Everton Ribeiro abrindo o corredor para o apoio de Rodinei demonstrou uma sintonia ainda não vista. Necessita, porém, de sequência. Consistência. Começando pelo duelo contra a Ponte Preta pela Copa do Brasil.

Assim como no ano passado, o destino na Libertadores será decisivo para a sequência da temporada. Se cumprir a missão de passar da fase de grupos a atmosfera será outra. Mas se novamente for eliminado tudo se transforma numa grande incógnita para depois da Copa do Mundo.

Por enquanto, a liderança no Brasileiro vale apenas pelo simbolismo de alcançar o topo da tabela, algo que não acontecia desde 2011. Com o time de Vanderlei Luxemburgo, Ronaldinho Gaúcho e Thiago Neves. O de 2018 tem muito mais a provar.


As vitórias “no isotônico” de Corinthians, São Paulo, Santos e Palmeiras
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André Rocha

Gol de Clayson aos 37 minutos do segundo tempo, dez minutos depois de entrar em campo, na virada do Corinthians sobre a Ferroviária no Pacaembu. Diego Souza marcou o primeiro gol do São Paulo em 2018 aos 38 da segunda etapa e Marcos Guilherme fechou a conta aos 44 fora de casa contra o Mirassol.

O jovem Rodrygo, de 17 anos, saiu do banco para, em seu quarto jogo como profissional, ir às redes e decretar a virada do Santos por 2 a 1 sobre a Ponte Preta em Campinas. Já no Allianz Parque o heroi improvável foi Thiago Santos, volante que marcou duas vezes para o Palmeiras sobre o Red Bull Brasil. O decisivo aos 42 minutos da etapa final.

Três viradas e uma que também pode ser considerada, pela pressão que já vivia o tricolor do Morumbi. Nada incomum em estaduais, especialmente no início. Pelo melhor preparo dos times de menor investimento, que começam a treinar antes, no final do ano anterior. Mas que acabam sucumbindo nos últimos minutos.

Não só pelo apoio das torcidas dos times grandes, do peso da camisa, do elenco mais numeroso e qualificado e outras questões mais ou menos subjetivas. Muitas vezes é o que se costuma chamar no futebol de vitória “no isotônico”. Ou seja, a vantagem na estrutura se faz presente na reta final da partida.

É quando o CT mais bem aparelhado, o material de melhor marca, mesmo uma simples atadura, faz diferença. Mesmo o líquido que repõe melhor o que o atleta perdeu e tira aquele último esforço que o adversário já não consegue. Aquele detalhe que define vencedores e vencidos.

Meio à forceps, os times grandes e mais ricos acabam arrancando os três pontos. Mesmo que sofram na criação de espaços em sistemas defensivos fechados, ainda mais com tão pouco tempo de preparação. A vantagem é grande, muitas vezes um abismo.

Mesmo no Paulista, estadual mais equilibrado do país, Na cidade dos campeões brasileiros nos últimos três anos. Não é só raça ou camisa. A retaguarda também decide.


Palmeiras sobra contra o Flamengo da cultura da derrota em São Paulo
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André Rocha

Os gols de Deyverson no Allianz Parque redimem o Palmeiras das duas derrotas e dois empates que transformaram a chance de ser líder do Brasileiro na volta à luta por uma vaga no G-4. Placar de 2 a 0 construído no primeiro tempo com imposição natural do time mandante. Mesmo com protestos da torcida e utilizando Felipe Melo e Michel Bastos voltando à equipe, sem o ritmo de competição ideal.

Mais uma visita frustrada do Flamengo a São Paulo. Capital, Santos e Campinas. Quatro derrotas e um empate. Contra o lider Corinthians, que teve um gol absurdamente anulado de Jô, mas abdicou do jogo no segundo tempo. E mesmo dominando, os rubro-negros não conseguiram sair com a vitória. Ao menos encerrando uma sequência de derrotas na casa do adversário que poderia ter chegado a meia dúzia.

Incluindo os 4 a 0 em 2016, o único revés na casa dos paulistas. Mas triunfo apenas sobre a Ponte Preta na estreia de Zé Ricardo por 2 a 1. Mais empates contra São Paulo, Santos e Palmeiras. Este último num confronto direto pela liderança que escapou das mãos do Fla no gol de Gabriel Jesus.

Porque sempre parece faltar algo a este time em jogos grandes, importantes. Com exceção, claro, dos clássicos cariocas. Aí sim vemos o inconformismo, a indignação com a derrota. Mesmo considerando o ambiente favorável no Maracanã é muito pouco.

Reinaldo Rueda chegou falando em desenvolver uma mentalidade vencedora. Já reparou que o time “guerreia pouco” nos jogos. Ainda que a Copa Sul-Americana tenha se tornado uma prioridade, a campanha no Brasileiro é decepcionante. Pelos resultados, mas, principalmente, pelo comportamento. A torcida, por mais que se esforce, não consegue se identificar com a equipe. Fica esperançosa contra Flu, Bota e Vasco e depois volta à decepção. Um marasmo.

A rodada começou positiva para o Fla com a derrota do Botafogo para o Atlético Paranaense. O time carioca, porém, não se ajudou. Mais uma vez.

Muito pelos méritos palmeirenses. Com mais cuidados defensivos e o volume de jogo que ganhou com a chegada de Alberto Valentim. Foram 11 finalizações, mesmo número do oponente. Mas sete no alvo, contra apenas uma do ataque “arame liso” do Fla. A posse só igualada no final pelo domínio estéril do adversário. 22 desarmes certos contra 13. Pelo menos mais quatro oportunidades além das finalizações que venceram Diego Alves.

É mais um que sobra se aproveitando da cultura da derrota do Flamengo quando vai a São Paulo.

(Estatísticas: Footstats)


Por que o Bahia de Carpegiani é o “time do mês” no Brasil
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André Rocha

O Corinthians é o virtual campeão brasileiro, o Grêmio finalista da Libertadores com grande atuação na partida fora de casa contra o Barcelona de Guayaquil. O Vasco de Zé Ricardo só sofreu uma derrota, exatamente para o líder do campeonato com o gol irregular e polêmico de Jô usando o braço. O São Paulo de Dorival Júnior conseguiu a redenção com o apoio comovente de sua torcida e o talento de Hernanes.

Mas se um time merece um hipotético crachá ou foto na moldura de “time do mês” no Brasil, este é o Bahia. Mais precisamente desde o feriado de 12 de outubro, na estreia de Paulo César Carpegiani no comando técnico. Empate em 2 a 2 contra o Palmeiras no Pacaembu, buscando uma desvantagem de dois gols. Não fossem as defesas de Fernando Prass e o tricolor poderia ter saído de São Paulo com uma virada histórica. O resultado e, principalmente, o desempenho do atual campeão brasileiro custou o emprego de Cuca. E sinalizou a virada baiana.

A partir daí a equipe fez campanha de recuperação que ocasionou um salto na tabela e a consequente mudança de perspectiva: da fuga do Z-4 para a primeira página da tabela e agora o sonho, ainda improvável, com o G-7 e a vaga nas fases preliminares da Libertadores.

Vitórias sobre o líder Corinthians e Ponte Preta em casa, no clássico contra o Vitória na Fonte Nova e fora de casa sobre o Avaí. Empate com o Fluminense no Maracanã e o único revés diante do Flamengo na Ilha do Governador por 4 a 1 num placar um tanto “mentiroso”. No total, quatro vitórias, dois empates e uma derrota. Dez gols marcados, sete sofridos. Aproveitamento de 66%.

Fruto do amadurecimento de uma maneira de jogar, saindo das linhas de quatro e dois atacantes de Preto Casagrande para o 4-1-4-1 montado por Carpegiani com muita mobilidade e rapidez. Antes com Edson entre as linhas de quatro até o volante se lesionar e dar lugar a Renê Júnior.

Na frente, o quinteto formado por Zé Rafael, Vinicius, Allione e Mendoza na linha de meias e Edigar Júnio como referência móvel é a grande chave da mudança. Trocando posições, tabelando, triangulando, aproveitando a velocidade de Mendoza pelos flancos sempre buscando as diagonais nos espaços às costas da defesa adversária. Os meias trocando passes curtos e rápidos fazem o jogo fluir com incrivel desenvoltura.

A consequência de tanta vocação ofensiva é a dificuldade para compactar os setores em alguns momentos e ceder espaços para os adversários, sem maior controle do jogo mesmo em vantagem no placar. É quando aparece Jean com defesas importantes. O goleiro mais acionado do campeonato. 84 intervenções, média de 2,4. Só inferior aos 2,7 de Fernando Miguel, do rival Vitória. Nada que diminua a importância do arqueiro para evitar que os problemas no trabalho sem a bola se transformem em gols dos adversários. Mesmo com a falha no gol de falta de Marquinhos na Ressacada que obrigou o time a buscar a virada por 2 a 1.

O grande destaque, porém, é Edigar Júnio. Média de um gol por partida desde a chegada de Carpegiani. Sete dos dez que marcou até aqui em 22 partidas. Colocando Hernane Brocador no banco depois da devolução de Rodrigão ao Santos. Exatamente porque sua rapidez de raciocínio e execução combina melhor com a de seus companheiros.

O ataque fica mais leve e envolvente e, mesmo sem funcionar como o típico centroavante, a colocação para finalizar as jogadas vem sendo perfeita. Sem contar a precisão, que ajuda a equipe a ser superada apenas pelo Cruzeiro nas finalizações certas – média de cinco por partida. É o terceiro ataque mais positivo com 45 gols, só atrás de Palmeiras e Grêmio. Futebol que agrada as retinas sem deixar de ser competitivo. Com um treinador veterano, porém antenado. Sim, é possível.

Ao final da 33ª rodada pode ser ultrapassado por São Paulo e Atlético Mineiro e sair da primeira página da tabela. Ainda assim, por todo o contexto e pelas dificuldades de um clube voltando à Série A e fora do eixo financeiro e midiático do futebol no país, o Bahia é o “melhor time de todos os tempos da última semana” no Brasileirão. Ou dos últimos 30 dias.

O 4-1-4-1 do Bahia de Carpegiani, com muita mobilidade na frente, as infiltrações em diagonal de Mendoza, Edigar Junio circulando e os meias Zé Rafael, Allione e Vinicius se aproximando. Sem a bola, quando a vocação ofensiva dificulta a compactação sem a bola, o goleiro Jean aparece para garantir a retaguarda (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)


Brasileiro volta à sua programação normal
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André Rocha

O Corinthians venceu sendo pressionado e com menos posse que o Atlético Paranaense na Arena da Baixada: apenas 38%. Finalizou seis vezes contra 15 do time mandante. Walter pegou pênalti cobrado por Nikão, saiu lesionado e os visitantes terminaram com o terceiro goleiro, Caíque. Mas foi às redes com o heroi improvável Giovanni Augusto, que entrara na vaga de Clayson, que virou titular exatamente por salvar a equipe com gols entrando no segundo tempo.

Volta a disparar na liderança porque o Palmeiras penou diante do Vitória com a insistência de Alberto Valentim com a última linha de defesa avançada contra um ataque veloz e que aproveita os espaços às costas da retaguarda. 3 a 1 no Barradão. Dois de Yago Costa, um de Tréllez. De tanto dizer que o foco era o G-4…

O Santos de Elano segue aleatório como o de Levir Culpi. Mesmo com um pouco mais de cuidado com a posse de bola com Renato à frente da defesa, ainda depende muito das defesas de Vanderlei e dos lampejos na frente. Na quinta assistência de Lucas Lima, o oitavo gol de Ricardo Oliveira. Mas depois vieram os espaços entre os setores, o cansaço e a virada do Vasco de Zé Ricardo, no chutaço de Evander e na bela cobrança de falta de Nenê.

A vice-liderança volta a cair no colo do Grêmio temporariamente mais focado no Brasileiro, embora com a equipe muito mexida. No gol de Ramiro, a vitória em Campinas sobre a Ponte Preta. Oito pontos atrás do líder, mas ainda priorizando outro torneio, a final da Libertadores contra o Lanús.

O time de Fabio Carille volta a criar gordura no topo da tabela, concorrentes vacilando e o Grêmio, quase sem querer, como o anti-Corinthians. O Brasileiro volta à programação normal no pelotão da frente. Mas agora, faltando apenas cinco rodadas, a “grade” não deve mudar muito até o final.

(Estatisticas: Footstats)

 


O Brasileiro da “favoritofobia”. Será o Palmeiras a próxima vítima?
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André Rocha

O Brasileirão começou em maio com favoritismo do campeão Palmeiras, com a volta de Cuca, mais Flamengo e Atlético Mineiro correndo por fora. Times dos elencos milionários, camisas pesadas…e muita responsabilidade.

No campeonato do futebol reativo e dos problemas para criar espaços e jogadas, essa condição sempre foi desconfortável. Inclusive para o Corinthians do turno quase perfeito. Considerado “azarão”, mesmo com o título paulista.

Na virada para o returno, com tempo para treinar por conta do adiamento do jogo contra a Chapecoense, o time de Fabio Carille, enfim, ganhava a condição de favorito absoluto ao título, o sétimo da história do clube. No entanto, além da desmobilização já tratada neste blog (leia AQUI), a obrigação de atacar também minou gradativamente as forças do líder.

Queda consolidada na derrota para a Ponte Preta em Campinas por 1 a 0, com a “lei do ex” vigorando no gol de Lucca. Ainda no topo da tabela, com seis pontos de vantagem. Mas uma vitória do Palmeiras de Alberto Valentim contra o Cruzeiro será suficiente para transferir o bastão, ou devolvê-lo a quem parecia o maior candidato lá na primeira rodada.

Eis o perigo. Amanhã todos os olhos estarão voltados para o Allianz Parque e o time alviverde enfrentará um cenário complexo: obrigação de vencer como favorito e enfrentando um adversário forte, franco-atirador pelo título da Copa do Brasil e com o treinador Mano Menezes pronto para estacionar um ônibus na frente da própria área.

Nos triunfos contra Atlético-GO e Ponte Preta era o time em crise, depois da demissão de Cuca. Diante dos reservas do Grêmio em Porto Alegre, o favoritismo era relativo pelo mando de campo e a responsabilidade não era tão grande. Amanhã a conversa é outra. Se vencer fica a três pontos do maior rival e, tanto na bola jogada quanto no aspecto anímico, passa a ser o grande favorito ao bicampeonato.

A história da competição mostra que a missão não é tão fácil. Como será o amanhã? Responda quem puder.

Por isso o time mais consistente do Brasileiro é o Botafogo. Exatamente porque é reconhecido por sua solidez e competitividade, mas nunca favorito. Até porque na maior parte do campeonato dividiu atenções com Copa do Brasil e Libertadores. Sempre correndo por fora, com elenco no limite e orçamento limitado. Sempre concentrado, mas quase nunca tenso.

Porque o Brasileiro 2017 é o da “favoritofobia”. Quem será a próxima vítima?


Palmeiras vai se desintoxicando do “Cucabol”. Se o Corinthians vacilar…
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André Rocha

As vitórias sobre o lanterna Atlético-GO fora e Ponte Preta em casa ainda não são parâmetros para uma avaliação mais profunda do trabalho de Alberto Valentim no Palmeiras.

Mas alguns sinais já são bastante positivos. A começar pela valorização do controle da bola e precisão nos passes. A posse nos dois jogos teve média de 57% do tempo. A quantidade de passes também aumentou: 551 em Goiânia, 434 no Pacaembu. Média de 93% na efetividade. Bem acima da média de 364 e 88% de acertos.

O maior tempo com a bola não teve como consequência um menor número de finalizações para a equipe que tinha um estilo essencialmente vertical: foram 15 contra o Atlético e 14 diante da Ponte. Pouco acima da média de 12 por jogo.

No entanto, não é fácil se desintoxicar do “Cucabol”, que nunca se resumiu apenas aos cruzamentos e às cobranças de lateral na área adversária, que continuam sendo utilizadas.

O interino Alberto Valentim quer um sistema defensivo mais posicionado, com linhas compactas e sem as perseguições individuais tão longas que são a marca do treinador campeão brasileiro de 2016. Natural que os jogadores instintivamente ainda deixem seu setor para “caçar” um adversário. Egídio sofreu bastante e a Ponte Preta encontrou no lado esquerdo alviverde o melhor “atalho” para criar oportunidades.

O time também segue recorrendo às ligações diretas e eventualmente apressa a conclusão das ações de ataque sem rodar a bola e criar o espaço para a chance cristalina. Afinal, para a maioria dos atletas foram 14 meses de um estilo rústico e apenas quatro com Eduardo Baptista tentando alterar uma maneira de jogar. Sem respaldo e com muita pressão.

Valentim terá mais tranquilidade e confiança para convencer os atletas a praticar um futebol mais atual. Não há mais a sombra do sucesso do “Porco Doido”. As soluções até aqui são simples, porém inteligentes: qualidade e mobilidade na execução da proposta de jogo baseada num sistema 4-2-3-1.

No meio-campo com Bruno Henrique e Tche Tche alternando proteção à retaguarda e apoio e Moisés mais adiantado, acionando os ponteiros Keno e Dudu, que sempre buscam as diagonais se aproximando do centroavante – Willian e depois Borja, que voltou a marcar e com um trabalho ofensivo mais ajustado pode enfim render o que se espera do colombiano.

Keno é o grande destaque até aqui. Um gol e quatro assistências. Participação nos cinco gols marcados. O ponta que volta na recomposição auxiliando o lateral Mayke e se apresenta à frente, ora aberto, ora entrando no “facão”. O crescimento coletivo potencializado as individualidades.

A outra boa notícia é o aproveitamento de quem sabe jogar. Felipe Melo voltou a ser utilizado. Arouca também surge como opção depois de nove meses fora por lesão. Agora não é mais preciso ter fôlego para marcar correndo o jogo todo.

Sem complicar. Porque não é preciso criar algo tão elaborado para se destacar no deserto de ideias do futebol jogado no Brasil. Com a qualidade que tem nas mãos, Valentim pode construir uma equipe com condições de apresenta o melhor futebol do campeonato nesta reta final.

E se o Corinthians vacilar…São nove pontos de diferença entre os rivais na tabela. Com um confronto direto, em Itaquera. Se o líder continuar sem evolução no desempenho e, consequentemente, aproveitamento nos resultados é possível sonhar.

Caso não dê tempo para buscar o título, garantir a vaga direta na fase de grupos da Libertadores e, principalmente, entregar uma equipe mais preparada e moderna para o próximo treinador, caso não seja efetivado, são duas metas interessantes para Valentim. O trabalho até aqui é curto, porém promissor. Ainda mais para quem recebeu um “legado” tão complicado.

(Estatísticas: Footstats)


Não há time mais aleatório no Brasileirão que o Santos
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André Rocha

Gol sofrido aos quatro minutos de jogo no Moisés Lucarelli, numa rara hesitação do goleiro Vanderlei que Naldo aproveitou. Depois um domínio territorial com média de 63% de posse e seis finalizações contra duas da Ponte Preta, mas sem muitas ideias e deixando brechas entre os setores na execução confusa do 4-2-3-1 habitual para contragolpes que o adversário não soube dar acabamento.

O time de Eduardo Baptista tentava controlar os espaços num 4-1-4-1 organizado e forte pela direita com Nino Paraíba e Emerson para cima do frágil Zeca. Pelo setor, a estocada que encontrou Lucca livre na área para perder gol feito. Na volta, a nona assistência de Bruno Henrique, desta vez pela direita, e mais um gol de Ricardo Oliveira. No minuto final do primeiro tempo transformando um 2 a 0 que não seria nada absurdo em um empate por 1 a 1 que também carregava uma certa lógica.

Porque não há time mais aleatório nesta edição do Brasileiro que o Santos. Time da trocação, do jogo aberto, da aposta na qualidade do quarteto ofensivo, da dupla de zaga formada por Lucas Veríssimo e David Braz, ainda que expostos, e do goleiro Vanderlei.

E por que ainda disputa o título, ao menos na matemática? Porque o nível geral é fraco e nesta proposta de bater e levar cria mais problemas para os adversários mais reativos que outros quando tem a obrigação de atacar. Como não há uma equipe tão superior no trabalho coletivo, nem o líder Corinthians, o Santos vai pontuando e se mantendo no pelotão da frente.

Podia ter vencido em Campinas. No segundo tempo de postura mais agressiva da Ponte, com Eduardo Baptista trocando Emerson Sheik por Leo Gamalho e deslocando Lucca para o lado direito. Depois tirando os meias Naldo e Jean Patrick e colocando Jadson e Felipe Saraiva para reoxigenar o meio-campo e seguir atacando. Mesmo depois da tola expulsão de Fernando Bob que reagrupou o time num 4-4-1.

Levir seguiu em silêncio, pelos problemas de saúde, e não fez nenhuma substituição. Zero. Mesmo com o desgaste por conta da intensidade do oponente e até por necessidade em uma equipe não ajustada.

E quase saiu com a vitória, se o “garçom” Bruno Henrique não perdesse gol feito completando mal centro preciso de Lucas Lima da direita. Na 12ª finalização de um time com inegável vocação ofensiva, mas que parece tomar decisões sem um plano. O tempo todo. Como se contasse com o acaso para proteger o talento e a vontade de vencer.

Quem entende esse Santos?

(Estatísticas: Footstats)


Análise tática: Ponte Preta e Corinthians desconstroem a “moda” do 4-1-4-1
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André Rocha

Com o sucesso da seleção brasileira sob o comando de Tite, veio a impressão de que o 4-1-4-1 se consolidaria como tendência no futebol brasileiro. Como um dia foi o 4-2-3-1.

Ponte Preta e Corinthians até utilizaram o desenho tático com um volante entre duas linhas de quatro e mais um atacante durante a campanha na fase de grupos do Paulista. Mas bastou chegar os confrontos mais importantes para os treinadores Gilson Kleina e Fabio Carille alterarem o sistema.

Agora são duas linhas de quatro sem a bola que deixam dois jogadores mais adiantados. Para pressionar a saída de bola do adversário, mas também servir como referência para a transição rápida do campo de defesa.

De maneiras distintas, porém. Nos surpreendentes 3 a 0 sobre o favorito Palmeiras no Moisés Lucarelli, a Ponte compactou bem as linhas e não deu refresco ao palmeirense que estivesse com a bola. Pressão para tomar rápido e acelerar buscando o artilheiro William Pottker e Clayson, que saiu da direita para formar uma dupla na frente e criar problemas circulando às costas de Felipe Melo.

Mas sem enfraquecer o setor “abandonado”. Porque Jadson abria para fechar a segunda linha e atacava por dentro, deixando o corredor para as descidas de Jeferson, substituto de Nino Paraíba. Para cima de Zé Roberto, que não contava com o suporte de Dudu.

O Palmeiras de Eduardo Baptista dá a impressão de que confia na posse de bola e no temor que pode causar no oponente por conta de seu elenco de alto nível para o futebol que se joga na América do Sul para não ser atacado.

Só que o time de Campinas atacou e contra-atacou. No ritmo de Fernando Bob, volante elegante que distribui o jogo e aparece na frente. Com Lucca, infiltrando em diagonal para receber linda assistência de Pottker e marcar o segundo gol aos nove.

Porque o primeiro não precisou nem de um minuto para acontecer, com Pottker. Uma blitz na área palmeirense até o desvio do goleador do Paulista ao lado do são-paulino Giberto, com nove. O terceiro com Jeferson após falha grotesca de Zé Roberto. Seis finalizações, cinco no alvo. Três gols. Tudo isso em 33 minutos.

As linhas de quatro da Ponte Preta com todos defendendo no próprio campo, inclusive Clayson e Pottker. Jadson abrindo para bloquear o lado direito e Fernando Bob na proteção da última linha (reprodução TV Globo).

O Corinthians precisou de 45, mais três de acréscimo, no Morumbi para se impor com as mesmas linhas de quatro que adiantaram Rodriguinho para desequilibrar. Primeiro no passe preciso para Jô marcar seu sexto gol na temporada, quatro em clássicos. Depois o chute que Renan Ribeiro não impediu que chegasse às redes no lance final da primeira etapa. Ambos em vacilos de Jucilei, muito lento para a função que exerce na proteção da retaguarda.

A equipe de Carille confia mais no posicionamento. Nem precisa pressionar tanto a bola, porque em seu próprio campo tem os espaços como referência. Permite até o controle da pelota, mas nega brechas ao rival, especialmente na última linha defensiva.

Fabio Carille dá mais liberdade a Rodriguinho no novo desenho tático corintiano. A última linha de defesa segue posicional atrás de outra com quatro jogadores para negar espaços aos adversários (reprodução Premiere).

Bola roubada, a saída em velocidade e em bloco para aproveitar os espaços deixados pelo tricolor que parecia acertar o sistema defensivo. Mas era só a fragilidade dos adversários mesmo.

Rogério Ceni vai sofrendo com a “síndrome do caderno em branco”. Toda experiência como treinador é a primeira. Não foi o primeiro clássico Majestoso, mas este vale vaga na decisão. E seu time falhou. Continua mal posicionado atrás. Só valeu pela honestidade de Rodrigo Caio na anulação do amarelo para Jô, que sequer tocou em Renan Ribeiro. Questão de índole.

No segundo tempo subiu a posse para 62%, fez Cássio trabalhar com oito finalizações contra uma e criou espaços e chances até para empatar. Só que não é fácil vazar o melhor sistema defensivo do país até aqui em 2017 e que deve confirmar em Itaquera a vaga na final estadual.

O Palmeiras diminuiu os estragos na segunda etapa em Campinas. Também porque a Ponte preferiu controlar o jogo sem a posse (terminou com 44%) e administrar ótima vantagem para a volta no Allianz Parque. Mas não irreversível.

Para a volta, a melhor receita parece a mesma da ida: marcar e jogar. Com as duas linhas de quatro que fizeram Corinthians e Ponte mais sólidos e objetivos. Desconstruindo a “moda” do 4-1-4-1. Quarenta anos depois do gol histórico de Basílio, podem fazer novamente a final do Paulista.

(Estatísticas: Footstats)

 


Santos parece ter regredido. Ponte ensina como não ser um time engessado
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André Rocha

Ponte Preta forte pela direita para cima do improvisado Jean Mota, o que prendeu Thiago Maia no meio e isolou Lucas Lima na armação das jogadas. Santos engessado no 4-2-3-1, Ponte mais móvel e criativa no 4-1-4-1. Muito pela agilidade de William Pottker na frente (Tactical Pad).

Segundo o Footstats, o Santos teve 64% de posse de bola no Moisés Lucarelli, mas só finalizou quatro vezes, metade na direção da meta de Aranha. A Ponte Preta concluiu 12, o triplo. Podia ter construído um placar mais confortável para a volta das quartas de final do Paulista.

Porque o time de Dorival Júnior parece ter regredido na execução de seu modelo de jogo. É engessado, previsível. Sem Zeca e com Jean Mota improvisado na lateral esquerda, precisou prender Thiago Maia ao lado de Renato à frente da defesa para conter os avanços de Nino Paraíba se juntando a Clayson e Jadson pela direita no 4-1-4-1 armado por Gilson Kleina.

Com isso, isolou Lucas Lima na articulação. Também porque Vitor Bueno parece ter esquecido que é meia de formação e, empolgado pelos gols marcados desde que se firmou como titular, só quer ficar na frente para buscar a diagonal e finalizar. Não colabora na articulação, circulando para mexer com a marcação adversária.

O Santos só saiu da mesmice quando inverteu os pontas e Bruno Henrique foi para o lado direito. Assim criou para Ricardo Oliveira. À esquerda, Vitor Bueno também apareceu e o time quase empatou.

A Ponte marcou seu gol no primeiro tempo. Atacando pela direita. Belo passe para a infiltração de Nino Paraíba, que serviu William Pottker para marcar seu oitavo gol. Agora é artilheiro isolado do estadual. Goleador que não fica fixo entre os zagueiros. Procura os flancos, abre espaços, induz as diagonais dos pontas Clayson e Lucca e chama a aproximação dos meias Jadson e Elton.

Entre as linhas de quatro, Fernando Bob protege a defesa e distribui o jogo com classe e precisão. Coisa que Renato não conseguiu fazer por outro problema que indica uma involução do alvinegro praiano: a saída de bola.

Agora com os laterais Victor Ferraz e Jean Mota com um posicionamento mais conservador, sem o recuo de Renato e os zagueiros Lucas Veríssimo e David Braz abrindo. Provavelmente para não desorganizar a frágil defesa na perda da bola e transição ofensiva do adversário.

Só que, paradoxalmente, com um meia na lateral esquerda como Jean Mota, a equipe perdeu o trabalho dos laterais por dentro que confundia a marcação e desafogava Lucas Lima. Resultado prático: time mais lento e sem alternativas.

Melhorou a dinâmica no segundo tempo com Kayke e Rafael Longuine – Copete entrou na vaga de Vitor Bueno no intervalo. Mas nada substancial. O jogo não flui, está travado pelas próprias dificuldades santistas.

Já Kleina manteve seu time inquieto. Primeiro com Pottker recuando para jogar à direita e dando mais liberdade para Clayson. Depois, com os veteranos Renato Cajá, em sua quarta passagem pelo clube campineiro, e Wendel, se repaginou num 4-3-1-2, com Cajá mais solto e os atacantes abertos. Mesmo com a saída de Pottker lesionado para a entrada de Lins.

Uma aula de como não se acomodar nem facilitar a vida do oponente. Sem a bola, intensidade e 15 desarmes corretos contra oito. Teve a chance de ampliar, mas ficou no 1 a 0 que parece pouco para o domínio e o controle do jogo.

Pode sofrer no Pacaembu. Principalmente se o Santos aprender e resgatar virtudes que parecem esquecidas em 2017.