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Análise tática: Ponte Preta e Corinthians desconstroem a “moda” do 4-1-4-1
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André Rocha

Com o sucesso da seleção brasileira sob o comando de Tite, veio a impressão de que o 4-1-4-1 se consolidaria como tendência no futebol brasileiro. Como um dia foi o 4-2-3-1.

Ponte Preta e Corinthians até utilizaram o desenho tático com um volante entre duas linhas de quatro e mais um atacante durante a campanha na fase de grupos do Paulista. Mas bastou chegar os confrontos mais importantes para os treinadores Gilson Kleina e Fabio Carille alterarem o sistema.

Agora são duas linhas de quatro sem a bola que deixam dois jogadores mais adiantados. Para pressionar a saída de bola do adversário, mas também servir como referência para a transição rápida do campo de defesa.

De maneiras distintas, porém. Nos surpreendentes 3 a 0 sobre o favorito Palmeiras no Moisés Lucarelli, a Ponte compactou bem as linhas e não deu refresco ao palmeirense que estivesse com a bola. Pressão para tomar rápido e acelerar buscando o artilheiro William Pottker e Clayson, que saiu da direita para formar uma dupla na frente e criar problemas circulando às costas de Felipe Melo.

Mas sem enfraquecer o setor “abandonado”. Porque Jadson abria para fechar a segunda linha e atacava por dentro, deixando o corredor para as descidas de Jeferson, substituto de Nino Paraíba. Para cima de Zé Roberto, que não contava com o suporte de Dudu.

O Palmeiras de Eduardo Baptista dá a impressão de que confia na posse de bola e no temor que pode causar no oponente por conta de seu elenco de alto nível para o futebol que se joga na América do Sul para não ser atacado.

Só que o time de Campinas atacou e contra-atacou. No ritmo de Fernando Bob, volante elegante que distribui o jogo e aparece na frente. Com Lucca, infiltrando em diagonal para receber linda assistência de Pottker e marcar o segundo gol aos nove.

Porque o primeiro não precisou nem de um minuto para acontecer, com Pottker. Uma blitz na área palmeirense até o desvio do goleador do Paulista ao lado do são-paulino Giberto, com nove. O terceiro com Jeferson após falha grotesca de Zé Roberto. Seis finalizações, cinco no alvo. Três gols. Tudo isso em 33 minutos.

As linhas de quatro da Ponte Preta com todos defendendo no próprio campo, inclusive Clayson e Pottker. Jadson abrindo para bloquear o lado direito e Fernando Bob na proteção da última linha (reprodução TV Globo).

O Corinthians precisou de 45, mais três de acréscimo, no Morumbi para se impor com as mesmas linhas de quatro que adiantaram Rodriguinho para desequilibrar. Primeiro no passe preciso para Jô marcar seu sexto gol na temporada, quatro em clássicos. Depois o chute que Renan Ribeiro não impediu que chegasse às redes no lance final da primeira etapa. Ambos em vacilos de Jucilei, muito lento para a função que exerce na proteção da retaguarda.

A equipe de Carille confia mais no posicionamento. Nem precisa pressionar tanto a bola, porque em seu próprio campo tem os espaços como referência. Permite até o controle da pelota, mas nega brechas ao rival, especialmente na última linha defensiva.

Fabio Carille dá mais liberdade a Rodriguinho no novo desenho tático corintiano. A última linha de defesa segue posicional atrás de outra com quatro jogadores para negar espaços aos adversários (reprodução Premiere).

Bola roubada, a saída em velocidade e em bloco para aproveitar os espaços deixados pelo tricolor que parecia acertar o sistema defensivo. Mas era só a fragilidade dos adversários mesmo.

Rogério Ceni vai sofrendo com a “síndrome do caderno em branco”. Toda experiência como treinador é a primeira. Não foi o primeiro clássico Majestoso, mas este vale vaga na decisão. E seu time falhou. Continua mal posicionado atrás. Só valeu pela honestidade de Rodrigo Caio na anulação do amarelo para Jô, que sequer tocou em Renan Ribeiro. Questão de índole.

No segundo tempo subiu a posse para 62%, fez Cássio trabalhar com oito finalizações contra uma e criou espaços e chances até para empatar. Só que não é fácil vazar o melhor sistema defensivo do país até aqui em 2017 e que deve confirmar em Itaquera a vaga na final estadual.

O Palmeiras diminuiu os estragos na segunda etapa em Campinas. Também porque a Ponte preferiu controlar o jogo sem a posse (terminou com 44%) e administrar ótima vantagem para a volta no Allianz Parque. Mas não irreversível.

Para a volta, a melhor receita parece a mesma da ida: marcar e jogar. Com as duas linhas de quatro que fizeram Corinthians e Ponte mais sólidos e objetivos. Desconstruindo a “moda” do 4-1-4-1. Quarenta anos depois do gol histórico de Basílio, podem fazer novamente a final do Paulista.

(Estatísticas: Footstats)

 


Santos parece ter regredido. Ponte ensina como não ser um time engessado
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André Rocha

Ponte Preta forte pela direita para cima do improvisado Jean Mota, o que prendeu Thiago Maia no meio e isolou Lucas Lima na armação das jogadas. Santos engessado no 4-2-3-1, Ponte mais móvel e criativa no 4-1-4-1. Muito pela agilidade de William Pottker na frente (Tactical Pad).

Segundo o Footstats, o Santos teve 64% de posse de bola no Moisés Lucarelli, mas só finalizou quatro vezes, metade na direção da meta de Aranha. A Ponte Preta concluiu 12, o triplo. Podia ter construído um placar mais confortável para a volta das quartas de final do Paulista.

Porque o time de Dorival Júnior parece ter regredido na execução de seu modelo de jogo. É engessado, previsível. Sem Zeca e com Jean Mota improvisado na lateral esquerda, precisou prender Thiago Maia ao lado de Renato à frente da defesa para conter os avanços de Nino Paraíba se juntando a Clayson e Jadson pela direita no 4-1-4-1 armado por Gilson Kleina.

Com isso, isolou Lucas Lima na articulação. Também porque Vitor Bueno parece ter esquecido que é meia de formação e, empolgado pelos gols marcados desde que se firmou como titular, só quer ficar na frente para buscar a diagonal e finalizar. Não colabora na articulação, circulando para mexer com a marcação adversária.

O Santos só saiu da mesmice quando inverteu os pontas e Bruno Henrique foi para o lado direito. Assim criou para Ricardo Oliveira. À esquerda, Vitor Bueno também apareceu e o time quase empatou.

A Ponte marcou seu gol no primeiro tempo. Atacando pela direita. Belo passe para a infiltração de Nino Paraíba, que serviu William Pottker para marcar seu oitavo gol. Agora é artilheiro isolado do estadual. Goleador que não fica fixo entre os zagueiros. Procura os flancos, abre espaços, induz as diagonais dos pontas Clayson e Lucca e chama a aproximação dos meias Jadson e Elton.

Entre as linhas de quatro, Fernando Bob protege a defesa e distribui o jogo com classe e precisão. Coisa que Renato não conseguiu fazer por outro problema que indica uma involução do alvinegro praiano: a saída de bola.

Agora com os laterais Victor Ferraz e Jean Mota com um posicionamento mais conservador, sem o recuo de Renato e os zagueiros Lucas Veríssimo e David Braz abrindo. Provavelmente para não desorganizar a frágil defesa na perda da bola e transição ofensiva do adversário.

Só que, paradoxalmente, com um meia na lateral esquerda como Jean Mota, a equipe perdeu o trabalho dos laterais por dentro que confundia a marcação e desafogava Lucas Lima. Resultado prático: time mais lento e sem alternativas.

Melhorou a dinâmica no segundo tempo com Kayke e Rafael Longuine – Copete entrou na vaga de Vitor Bueno no intervalo. Mas nada substancial. O jogo não flui, está travado pelas próprias dificuldades santistas.

Já Kleina manteve seu time inquieto. Primeiro com Pottker recuando para jogar à direita e dando mais liberdade para Clayson. Depois, com os veteranos Renato Cajá, em sua quarta passagem pelo clube campineiro, e Wendel, se repaginou num 4-3-1-2, com Cajá mais solto e os atacantes abertos. Mesmo com a saída de Pottker lesionado para a entrada de Lins.

Uma aula de como não se acomodar nem facilitar a vida do oponente. Sem a bola, intensidade e 15 desarmes corretos contra oito. Teve a chance de ampliar, mas ficou no 1 a 0 que parece pouco para o domínio e o controle do jogo.

Pode sofrer no Pacaembu. Principalmente se o Santos aprender e resgatar virtudes que parecem esquecidas em 2017.


Problema e solução! Pontas fazem Flamengo sofrer, mas decidem
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André Rocha

Que bela atuação coletiva da Ponte Preta de Eduardo Baptista! Forte no meio com João Vítor mais plantado e Thiago Galhardo e Wendel como meias. Execução moderna do 4-1-4-1 com setores muito próximos.

Mas em Cariacica o Flamengo teve como mérito a manutenção da postura ofensiva, mesmo sofrendo diante de um adversário organizado, sem perder a concentração. Foi às redes cedo na bola parada com Gabriel, que revezava pelos flancos com Everton.

Zé Ricardo não abre mão dos seus pontas. Jogadores que buscam o fundo, esgarçam a defesa do oponente. Buscam a diagonal para finalizar e tentar a tabela com os meias. Só que erram muito. A lógica do elenco pediria um meia, Mancuello ou Alan Patrick, pelo lado vindo por dentro para ajudar Diego na articulação. Mas o técnico insiste.

O resultado prático é Willian Arão no sacrifício, mais contido e passador e Diego sendo obrigado a dominar de costas para a marcação, girar, dar um ou dois toques na bola para dar sequência à jogada. Foi o jogador do Fla que mais perdeu a bola e sofreu faltas. Penou com o meio compacto da Ponte, que fez o time paulista reagir e ter boas chances de empatar, a melhor com Rhayner.

Ponte organizada num 4-1-4-1 compacto para encaixotar Diego na criação e sair em velocidade. Flamengo seguiu atacando pelos lados com paciência, mesmo com erros técnicos num primeiro tempo equilibrado (Tactical Pad).

Ponte Preta organizada num 4-1-4-1 compacto para encaixotar Diego na criação e sair em velocidade. Flamengo seguiu atacando pelos lados com paciência, mesmo com erros técnicos num primeiro tempo equilibrado (Tactical Pad).

Mas vai insistindo, de forma coordenada. Com Pará mais efetivo pela direita que Jorge do lado oposto. Gabriel passou mal no intervalo e deu lugar a Marcelo Cirino. Mesma proposta, com Damião voltando, fazendo o pivô e de novo a bola procurando um dos lados.

Atento na marcação – 21 desarmes corretos contra 11 da Ponte. Perseverante para seguir atacando, mas ser surpreendido num contragolpe letal: reposição espetacular de Aranha para Pottker, substituto de Roger, dominar colocando na frente e batendo cruzado, perfeito. Baptista arriscou com Felipe Azevedo no lugar de João Vítor, depois recompôs com Abuda na vaga de Rhayner.

Zé Ricardo apelou para a única ousadia que se permite: Mancuello no lugar de Márcio Araújo, recuando Arão e dando companhia a Diego. A outra mudança, em tese, foi mais do mesmo: Everton por Fernandinho. Um ponta pelo outro.

Mas decisiva na prática. Pela insistência, por não abrir mão dos três pontos para seguir lutando no topo. Centro de Cirino, bicicleta desajeitada de Diego, gol de Fernandinho no rebote. A última das 17 finalizações rubro-negras. De novo o camisa 31 que garantiu a classificação na Sul-Americana.

Do ponta que pode errar tecnicamente e cria problemas coletivos. Mas cumpre sua função tática e ainda está na área para ser a solução e manter o Flamengo vivo na caça ao líder Palmeiras.

No final, a pressão rubro-negra com linhas adiantadas, acuando a Ponte Preta até o gol de Fernandinho. Mérito do Fla foi nunca abdicar do ataque, mesmo com a boa atuação do adversário (Tactical Pad).

No final, a pressão rubro-negra com linhas adiantadas, acuando a Ponte Preta até o gol de Fernandinho. Mérito do Fla foi nunca abdicar do ataque, mesmo com a boa atuação do adversário (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)


Corinthians paga por problema crônico nos times de Cristóvão Borges
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André Rocha

O blogueiro se obriga a ser repetitivo sobre o Corinthians de Cristóvão Borges. Ou melhor, praticamente todas as equipes do treinador, exceto o Vasco. Porque no período sabático de estudos o técnico sedimentou uma ideia de jogo.

Só não consegue evoluir por um problema crônico e grave, já ressaltado neste espaço: optar por jogar com linhas adiantadas, mas sem pressionar o adversário que está com a bola (leia mais AQUI).

Na derrota por 2 a 0 para a Ponte Preta em Campinas, novamente o Corinthians pagou. Logo aos 18 minutos. Lançamento de Thiago Galhardo, com Cristian marcando à distância, para Roger às costas da defesa, Balbuena tenta evitar a conclusão, faz falta e é expulso. É possível questionar o rigor do árbitro Luiz Flávio de Oliveira, mas não a falha defensiva. Ali acabou a disputa.

Flagrante do início da jogada que terminou na expulsão de Balbuena que praticamente encaminhou a vitória da Ponte: Thiago Galhardo não é pressionado por Cristian e tem espaço e tempo para acionar Roger às costas de Yago. O zagueiro paraguaio já chega vendido e faz falta, punida com o cartão vermelho (reprodução Premiere).

Flagrante do início da jogada que terminou na expulsão de Balbuena que praticamente encaminhou a vitória da Ponte: Thiago Galhardo não é pressionado por Cristian e tem espaço e tempo para acionar Roger às costas de Yago. O zagueiro paraguaio, que não aprece na imagem, já chega vendido e faz falta, punida com o cartão vermelho (reprodução Premiere).

Os gols de Roger e Clayson, um em cada tempo, foram meras formalidades. A Ponte de Eduardo Baptista – bem treinada, com setores coordenadas e rápida na saída para o ataque – confirma o momento de alta: quatro jogos seguidos, seis em casa sem derrota. Incluindo o empate com o Atlético Mineiro pela Copa do Brasil.

Absoluta no Moisés Lucarelli, com 58% de posse, 14 finalizações contra duas. O mesmo número de desarmes certos, o dobro dos visitantes. Triunfo construído com naturalidade.

Porque faltou pressão na bola do rival. Como atenuante, mas não desculpa, para Cristóvão, a constatação de que há toda uma cultura futebolística no Brasil que prejudica essa prática, que requer humildade e senso coletivo.

Desde a base, o jogador é ensinado a não sair para o bote. Recomendação útil para os defensores na última linha, mas que se espalhou por todo o campo com as perseguições individuais. Afinal, um drible acarreta o efeito dominó que vai estourar no zagueiro da sobra. Sem contar a humilhação de quem é driblado.

Por isso o hábito de cercar ou recuar e não aceitar ser driblado para um colega recuperar a bola na cobertura. É esta a essência da compactação: um movimento coletivo. Como um time. Difícil de conscientizar no país das individualidades. Ainda.

O Corinthians sofre e deve sair do G-4. Momento para Cristóvão refletir se vale a pena continuar tentando ser contracultura na roda viva do futebol brasileiro ou optar pelo simples e resgatar princípios de jogo de Tite, apostando num posicionamento defensivo mais cuidadoso.

Já sabemos o que significa persistir no erro.

(Estatísticas: Footstats)


Fair Play no Brasil é utopia porque transcende o resultado
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André Rocha

Fair Play é Jogo Limpo. Envolve princípios éticos e uma dose de elegância. Transcende o resultado e até o jogo em si.

Por isso é utopia no Brasil. Como algo tão subjetivo, até nobre, vai conviver com a obsessão pelo resultado, único parâmetro para definir quem é competente, quem vira o ano empregado ou os que não serão perseguidos pela própria torcida?

A análise do lance polêmico no Beira-Rio que definiu a vitória do Internacional por 1 a o, gol de Vitinho, não permite hipocrisia: a Ponte Preta tentou ganhar tempo com as câimbras de Biro Biro, sim. Argel Fucks é um dos símbolos do futebol pragmático, do maquiavelismo de “os fins justificam os meios” e, precisando da vitória, nunca devolveria a bola. Por fim, o árbitro Ricardo Marques Ribeiro interferiu em algo que, em tese, não lhe dizia respeito. Abusou da sua autoridade ao definir que time ficaria com a pelota.

Não houve inocentes. Ou ingênuo é quem acredita no Fair Play por aqui. Até mesmo quando a bola é devolvida, quase sempre o objetivo é tirar vantagem pressionando a cobrança de lateral no campo adversário. Tem a ver com “jeitinho”, “malandragem”. Também com o nosso imediatismo, essa ansiedade de querer tudo e agora.

Para piorar, a visão de que o futebol é uma espécie de mundo paralelo, anárquico, onde tudo é possível e a desonestidade, os preconceitos e todas as nossas mazelas morais devem ser relativizadas “no calor do jogo”.

Não é, ou não deveria ser. Enquanto não aprendemos, o jogo segue sem vencedores. Ainda que alguém fique com os três pontos.

 


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