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Trauma ou sede de revanche? Como será o Atlético de Simeone contra o Real?
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André Rocha

Foto: Denis Doyle (Getty Images)

O sorteio das semifinais da Liga dos Campeões promove o quarto encontro consecutivo entre Real e Atlético, o clássico de Madrid. Foram duas finais duríssimas, definidas em prorrogação e pênaltis. Mais um duelo pelas quartas-de final em 2015. 1 a 1 no Calderón, 1 a 0 para os merengues no Bernabéu.

O Atlético vem de três vitórias e um empate no Santiago Bernabéu pelo Espanhol. O retrospecto contra o rival na Era Simeone é de sete vitórias, seis empates e oito derrotas. Equilíbrio absoluto.

Agora a ida no Bernabéu e a definição no Calderón. Em tese, uma vantagem para o Atlético e um cenário nunca vivido pelo Real contra os colchoneros.

Taticamente, sem segredos. Real Madrid terá a bola, trocará passes no meio e buscará as infiltrações com os atacantes acelerando ou abrindo o jogo pelas laterais com Carvajal e Marcelo para furar as compactas linhas de quatro de Simeone que vai tentar controlar o jogo sem a bola esperando a chance de golpear com o talento e a rapidez de Griezmann.

A grande questão é como o Atlético vai se comportar em termos anímicos. Porque o retrospecto, no geral, é de jogos parelhos. Mas na Champions o rival sempre saiu comemorando. Quando os times entrarem em campo no Bernabéu valerá mais a invencibilidade dos visitantes ou o que foi vivido no duelo continental?

O Atlético será todo trauma, todo medo de sair novamente como o vencido ou todo valentia, todo sede de revanche com o “sangue nos olhos” tão cobrado por Simeone? Como será encarar de novo os algozes Sergio Ramos, Cristiano Ronaldo, Marcelo? Os clássicos pela liga espanhola terão peso nesta equação?

As respostas de Madrid virão a partir do dia 2 de maio. Mas se tivesse que investir as fichas, a aposta seria no Atlético. Se sair vivo do Bernabéu que conhece tão bem, a atmosfera do Calderón com Simeone regendo a massa pode fazer a diferença desta vez.

Para fazer a final em Cardiff, provavelmente, contra a Juventus. Favorita contra o Monaco pela chance de domar o time do jovem Kylian Mbappé como o irregular Manchester City de Guardiola e o traumatizado Borussia Dortmund não conseguiram. Sistema defensivo sólido para controlar e qualidade na frente para aproveitar os espaços cedidos pelo time de Leonardo Jardim.


Cristiano Ronaldo, o maior artilheiro “minimalista”. Acima de Romário
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André Rocha

Foto: Curto de La Torre (AFP)

“Não entro em campo para jogar bonito ou bem, entro para fazer gols”. A frase é de Romário, em 2002 quando atuava pelo Fluminense. Nove anos antes, foi chamado de “gênio da grande área” por Johan Cruyff.

Genial e genioso, não teve paciência e foco para ser atleta. Só queria jogar. Quando botou na cabeça que seria o melhor do mundo voou no Barcelona e na seleção brasileira campeã mundial de 1994.

Depois seguiu jogando por prazer, administrando a vida noturna e em campo buscando fazer o essencial. Os treinos físicos e os trabalhos coletivos o irritavam. Ele queria exercitar situações de jogo e, especialmente, se preparar para estar bem colocado na área para o último toque. Às vezes com uma dose de sadismo: o chute saía fraco, mas o suficiente para sair do alcance do goleiro em desespero.

Romário não quis se medir entre os maiores por muito tempo. Voltou ao Brasil como melhor do mundo em 1995, depois ainda se aventurou no Valencia, mas a passagem foi breve. Preferiu retornar à terra na qual tinha o trono garantido. Empilhou gols – mais de mil, segundo suas contas – até o fim da carreira. Cada vez tocando menos na bola, mas sempre letal.

Corte para 2017. Na Europa, no mais alto nível. Em mentalidade, a antítese de Romário. Apesar da semelhança na “marra”. O foco absoluto na carreira, na preparação física. No trabalho. Mas com o mesmo objetivo: estar pronto para o golpe final e decisivo.

Cristiano Ronaldo vinha de um período inconstante na temporada. Antes do confronto com o Bayern de Munique pelas quartas-de-final da Liga dos Campeões, apenas um par de gols do maior artilheiro da história da competição em oito partidas. Na liga espanhola, números melhores: 19 gols em 24 jogos. Pouco, porém, para quem se acostumou a manter uma média igual ou superior a um gol por partida.

Pois o “Penaldo”, apelido maldoso pelos gols de pênalti, acusado por seus “haters” de só marcar contra times pequenos e nos jogos menos importantes, foi às redes nada menos que cinco vezes nos dois confrontos com um gigante do Velho Continente. Sem penalidade máxima.

Sim, estava impedido nos dois decisivos, marcados na prorrogação do Santiago Bernabéu. A arbitragem novamente pesou mando de campo, camisa, marca e mídia no principal torneio de clubes do planeta. Uma lástima.

Mas saltou aos olhos mais uma vez a economia eficiente do goleador português que bateu a marca dos 100 gols na Champions. Nos 180 minutos, ele basicamente só se fez notar nos gols. Ainda que seu instinto de ponta o faça buscar a bola nos flancos e arrancar, as jogadas normalmente não têm sequência. Ou a bola é entregue a um companheiro para que o camisa sete parta para a área adversária.

Cristiano Ronaldo sabe que para superar Messi nas premiações individuais precisa dos títulos no Real Madrid e na seleção, mais os gols. Números. Porque não é possível igualar nas jogadas geniais. Por isso a concentração para não desperdiçar oportunidades.

De cabeça, pé direito ou esquerdo, com bola rolando ou não. O ponta que é o melhor centroavante do mundo. Com a experiência de seus 32 anos, 14 atuando na elite do futebol mundial, vai ficando mais objetivo nos gestos técnicos. Enquanto Messi precisa abrir espaços diante de fortes bloqueios defensivos, o português espera. A falha do rival ou a chance cristalina. Sempre bem posicionado.

É bem provável que Cristiano Ronaldo não ganhe uma Copa do Mundo ou chegue perto da milésima bola na rede, mesmo contando jogos não oficiais como Romário. Mas como artilheiro “minimalista”, o homem do toque final, o maior goleador da história do Real Madrid já supera o brasileiro.

Porque quer sempre e não de vez em quando. Entre os melhores, no cenário menos confortável. Fazendo cinco no Bayern, não no Barreira, hoje Boavista, de Bacaxá. Para o mundo ver, não no quintal de casa.


A força mental e a confiança de que tudo vai dar certo do Real Madrid
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André Rocha

Se desta vez o sorteio da Liga dos Campeões não foi “generoso” colocando o Bayern de Munique de Carlo Ancelotti no caminho, o contexto acabou dando dois presentes para o Real Madrid no jogo de ida das quartas-de-final em Munique. Primeiro a ausência de Lewandowski, artilheiro da Bundesliga com 26 gols. Uma lesão no ombro tirou o centroavante e referência da equipe de Carlo Ancelotti.

Ainda assim, o time bávaro fez bom primeiro tempo. Com Arturo Vidal recuando próximo aos zagueiros para qualificar a saída de bola e acionando o lado direito como o setor forte. Porque os merengues se defendiam em duas linhas de quatro, com Bale voltando à direita e Toni Kroos abrindo pela esquerda. Mas o alemão era lento no movimento e deixava Marcelo sozinho contra Lahm e Robben.

Mesmo com Thomas Muller desconfortável no centro do ataque e uma atuação bem abaixo da média na temporada de Thiago Alcântara, havia volume e presença ofensiva. Vidal apareceu bem ao se antecipar a Nacho, substituto do lesionado Pepe na zaga, e acertar um “tiro” de cabeça que Keylor Navas não impediu.

Mas houve o pecado capital em disputa tão parelha. O segundo “presente” que o Real recebeu: um pênalti inexistente contra, já que não houve toque no braço de Carvajal depois do chute de Ribéry. Vidal isolou. E o Bayern murchou já no final do primeiro tempo. O paradoxo do futebol: se o árbitro Nicola Rizzoli não tivesse errado talvez o time alemão não sentisse tanto a chance desperdiçada de fazer 2 a 0 e abrir vantagem confortável.

Voltou na segunda etapa desorientado. É possível que a falta de adversários à altura na Bundesliga atrapalhe nesses momentos de dificuldade. O  Real, porém, também voltou mais aceso, congestionando o setor esquerdo com Casemiro e Sergio Ramos atentos na cobertura.

Acima de tudo, a equipe de Zidane é muito forte mentalmente. Atual campeã do torneio, líder da liga espanhola. Não é um primor coletivamente, mas todos sabem o que precisam fazer: os laterais defendem e apoiam abertos para espaçar a marcação, os meio-campistas trabalham a bola, o trio de ataque acelera e se procura para tabelas. Futebol simples e eficiente, respaldado no talento.

Como é Cristiano Ronaldo, que apareceu e fez a diferença já aos dois minutos completando passe de Carvajal. Especialmente depois da expulsão de Javi Martínez, por duas faltas seguidas punidas com cartões, o que era uma oscilação emocional virou desmanche e o Real passeou.

Recuperou a posse de bola (terminou com 51%) e finalizou nada menos que 16 vezes em pouco mais de 45 minutos, contra duas do time da casa. O centésimo gol de Ronaldo na Champions podia ter vindo na conclusão que Neuer tirou com o braço lembrando uma manchete de vôlei.

Mas o português não perde a concentração e, segundos depois, finalizou de novo e a bola passou entre as pernas de Neuer. Cem gols em competições europeias de clubes – 98 na Champions e dois pela Supercopa. Fenômeno, mesmo sem um desempenho tão notável nesta edição quanto nas últimas.

Ainda houve um gol bem anulado de Sergio Ramos. Mas a virada em Munique parece ter definido o confronto. Porque o Real Madrid de Zidane tem qualidade e entrosamento, mas também a confiança de que tudo vai dar certo. É quase impossível que dê tudo tão errado no Santiago Bernabéu.

(Estatísticas: UEFA)

 


Real de Zidane aprendeu a jogar La Liga. Mas tem Griezmann no Bernabéu…
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André Rocha

O título da Liga dos Campeões é e será a grande lembrança para o Real Madrid da temporada 2015/2016. Ainda que a conquista tenha vindo sem um desempenho tão sólido, inferior ao da conquista de “La Décima”. Mas houve um feito relevante que acabou esquecido por não ter rendido taça.

Zidane sucedeu Rafa Benítez em 2016 e começou sua trajetória com cinco vitórias e dois empates. Na rodada seguinte, derrota. A única. Porque emendou nada menos que doze vitórias, inclusive por 2 a 1 sobre o Barcelona no Camp Nou. Ficou a um mísero ponto do time catalão, que faturou o bicampeonato.

Na atual temporada alcançou mais quatro triunfos. Com os 12, igualou as 16 vitórias seguidas do Barcelona comandado por Pep Guardiola na temporada 2010/2011. Na 31ª rodada, a liderança com 22 vitórias, seis empates e só duas derrotas. Tem um jogo a cumprir, fora de casa contra o Celta de Vigo.

Uma campanha espetacular com Zidane. Em 51 jogos, 39 vitórias, oito empates e quatro derrotas. Nada menos que 84% de aproveitamento. Definitivamente, o clube que nos últimos anos cresce no mata-mata e dispersa nos pontos corridos aprendeu a jogar a liga. Mas o título que não vem desde 2011/2012 está em risco.

Porque o Atlético de Madrid é uma pedra no sapato do time merengue. Por incrível que pareça, o derrotado em duas finais de Champions e que levou 3 a 0 no Vicente Calderón no turno, triplete de Cristiano Ronaldo, complica tudo no Santiago Bernabéu.

Na temporada passada, a única derrota do Real Madrid sob o comando de Zidane na liga espanhola. A rigor, foi o que tirou o título. Ainda que Zidane tivesse jogado a toalha da disputa e focado na Champions. Mas foi vencendo, vencendo…e quase chegou.

Agora o Real vinha de 14 jogos de invencibilidade e os colchoneros chegavam ao Bernabéu com cinco vitórias consecutivas. Duelo fundamental para o Atlético tentar uma última arrancada em busca do título que faturou em 2014 e o Real garantir a vantagem antes do superclássico no próximo final de semana.

Os visitantes começaram surpreendendo atacando o lado de Marcelo com Ferreira Carrasco e forçando os erros de passe do rival com marcação agressiva. Mas logo se recolheu nas duas linhas de quatro, porém recuando muito os atacantes Griezmann e Fernando Torres.

Com isso perdia a capacidade de construir os contragolpes com bolas longas às costas da defesa. O Real avançou as linhas e passou a jogar como gosta: trabalhando os passes no meio com Casemiro, Modric e Kroos para acelerar na frente com o trio BBC ou pelos flancos com Carvajal e Marcelo.

Controlou com 56% de posse, finalizou seis vezes contra cinco. Mas quatro no alvo contra apenas um do Atlético. A melhor com Cristiano Ronaldo tirando do alcance de Oblak, mas o zagueiro Savic salvando de cabeça sobre a linha.

Para ir às redes na segunda etapa, foi preciso apelar para a grande arma do time de Zidane: as jogadas aéreas com bola parada. São 25 gols desta forma na temporada. Na 11ª assistência de Toni Kroos, o gol de cabeça do zagueiro….Não, desta vez não foi de Sergio Ramos. Belo golpe de cabeça de Pepe, que saiu lesionado após choque com Toni Kroos.

Por incrível que pareça, o milionário Real Madrid de Florentino Pérez piorou com as substituições: Além de Nacho na vaga do zagueiro luso-brasileiro, Lucas Vázquez e Isco substituíram Bale e Kroos. Perdeu volume e controle.

Simeone ganhou mobilidade entre a defesa e o meio-campo do adversário com duas substituições: Correa na vaga de Saúl Níguez e Thomas no lugar de Ferando Torres. Na flutuação do argentino às costas de Modric e fora do alcance de Casemiro, o passe para Griezmann, adiantado como centroavante, empatar. Sim, o “carrasco” da derrota na temporada passada.

Agora são três vitórias e o empate em 1 a 1 no Bernabéu nos últimos quatro jogos. O “freguês” na Liga dos Campeões e que sofre com o rival quando joga em seus domínios pode ajudar o Barcelona novamente.

O trio MSN e seus companheiros agora só dependem de si para buscar o tricampeonato. Se vencerem o Málaga igualam na liderança com 72 pontos. Se superarem os merengues em Madrid,  ultrapassam e nem dependem mais do jogo a menos do Real, já que o critério de desempate é o confronto direto.

E aí pouco valerá o aproveitamento fantástico de Zidane como treinador na liga. Porque tem o Atlético e Griezmann pelo caminho…


Vinícius Júnior não pode ser Neymar. Porque Santos não é Flamengo
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André Rocha

Quando o Flamengo foi eliminado pelo Corinthians nas quartas-de-final da Copa SP – com Vinicius Júnior, joia da base e destaque do time nas fases anteriores, desperdiçando duas chances claras – este que escreve viu no Twitter comentários nesta linha: “Fomos enganados pelo novo Negueba”.

Também foi possível pescar na rua a seguinte observação de um senhor, na casa dos 50 anos: “O garoto até que é habilidoso, mas nunca será um Adílio”.

Vinicius Júnior tem 16 anos, foi artilheiro e craque do Sul-Americano sub-17. Entre os profissionais que trabalham com base – treinadores, auxiliares, observadores, jornalistas – é praticamente uma unanimidade: o menino é um fenômeno, com potencial para no futuro concorrer aos principais prêmios individuais. Não por acaso, Barcelona, Real Madrid e outros gigantes europeus estão atentos aos seus movimentos.

Em campo, a qualidade e versatilidade saltam aos olhos: o menino rende nas pontas, na articulação e até jogando como referência. É habilidoso, inventivo, preciso nos fundamentos e tem leitura de jogo. Serve tão bem quanto finaliza. Forte também na bola parada.

Por isso já desperta uma enorme curiosidade e, por conta da carência de um talento deste quilate no ataque do time principal, especialmente nas pontas, já há um lobby pela utilização do atacante pelo técnico Zé Ricardo.

O Flamengo trata com cuidado. Vinicius não está inscrito nem no Estadual, nem na fase de grupos da Libertadores. Mas o clube também vive um dilema: tem contrato até 2019, tenta prorrogá-lo por mais um ano, mas se demorar muito a utilizá-lo pode vê-lo partir sem entregar todo seu talento entre os adultos.

A grande questão é que o rubro-negro tem certas particularidades: a primeira é contar com a maior torcida do país e tudo que acontece de bom e ruim ganhar uma repercussão imensa. E dentro do imediatismo do nosso futebol, a urgência é amplificada também. Com toda essa expectativa, qualquer jovem talentoso pode ser execrado se errar em um jogo importante. E o erro é parte do processo de amadurecimento.

Por outro lado, se entrar brilhando a euforia pode deslumbrar, desviar o foco. O assédio aumenta exponencialmente e pode distrair até a boa cabeça que Vinicius demonstra ter. É preciso cuidado.

E lembrar que até o maior ídolo do clube não se afirmou imediatamente. Zico estreou no profissional em 1971, com 18 anos, voltou à base e só foi se consolidar aos 21 anos, ganhando o Carioca e sendo Bola de Ouro da Placar. A geração mais vencedora do clube, sem querer, também cria dificuldades.

Porque o Flamengo segue à espera do novo messias que conduzirá o time novamente ao titulo da Libertadores e à hegemonia nacional. Todo garoto que surge é comparado a Zico, Junior, Leandro, Andrade e Adílio. Como Vinicius pelo senhor que ouvi na rua. Essa nostalgia, essa régua tão alta na exigência já custou a carreira de muita gente boa formada na Gávea. Inclusive Negueba, citado no início deste texto. De “alegria nas pernas” a “peladeiro”.

As comparações são inevitáveis também entre Vinícius Júnior e Neymar, que coloca o “Jr.” na camisa e inspirou o menino a fazer o mesmo. Alguns até avaliam o rubro-negro acima do santista, na mesma idade, em capacidade de desequilibrar.

Só que Neymar surgiu inserido em outro contexto. O Santos reverencia Pelé, campeão mundial aos 17 anos pela seleção e multicampeão pelo clube, mas sem tanto saudosismo. Porque existiu a geração de Pita e Juary, a de Diego e Robinho e em 2010 explodiu a de Neymar e Ganso. Com Robinho, que poderia ser um parâmetro de comparação, de volta a Santos e aceitando ser coadjuvante, no campo, das duas jovens estrelas nas conquistas da Copa do Brasil e do Paulista.

A repercussão é diferente, a cobrança também. Por ter dado certo outras vezes, quando surge um garoto talentoso ele ganha carinho e confiança para se desenvolver. Está no DNA do alvinegro praiano o apoio aos “Meninos da Vila”. Se errar a crítica virá, mas não tão pesada. Sem massacre.

Por isso Vinícius Júnior pode conquistar na próxima década os prêmios que hoje Messi e Cristiano Ronaldo negam a Neymar e a qualquer terráqueo que jogue futebol. Mas certamente construirá sua trajetória de maneira bem diferente do atual camisa onze do Barcelona.

Porque Santos e Flamengo são gigantes vencedores do Brasil, mas têm diferenças cruciais. Na história, na quantidade de gente envolvida em suas coisas. Especialmente no trato com os garotos. Por isso a cautela com Vinícius precisa ser triplicada. Até excessiva. Para evitar um novo erro que seria cruel para o clube e para o futebol brasileiro.


Quartas da Champions: duelos de gigantes e entre semelhantes
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André Rocha

ATLÉTICO DE MADRID x LEICESTER CITY – Dureza para os dois times. Para o Atlético porque entra como favorito absoluto, obrigado a propor jogo e dar o contragolpe. Para o Leicester também, já que será azarão, mas não tanto como se encarasse um gigante como Bayern, Barcelona e Real Madrid.

Interessante para ver essa versão do time de Simeone, que ocupa o campo de ataque e valoriza mais a posse de bola no ritmo de Saúl Ñíguez, mas sem deixar de ser compacto e concentrado, diante do campeão inglês que só joga em velocidade, vai entregar tudo no trabalho defensivo para definir em casa com o melhor de Vardy e Mahrez.

FAVORITO – Atlético de Madrid

BORUSSIA DORTMUND x MONACO – Duelo de intensidade máxima e vocação ofensiva, com times se arriscando dentro e fora de casa. Porém sem tanto controle de jogo. Ou seja, quem abrir vantagem na ida sofrerá se quiser administrá-la na volta.

Dembelé e Aubameyang contra Bernardo Silva e Mbappé. Thomas Tuchel versus Leonardo Jardim. Confronto sem a pompa dos duelos de gigantes, mas que promete demais. Muitos gols. Time alemão leva pequena vantagem pela cancha maior na competição.

FAVORITO – Borussia Dortmund

BAYERN DE MUNIQUE X REAL MADRID – Simplesmente 16 títulos em campo. Carlo Ancelotti, o mentor e campeão de “la decima”, contra Zidane, o aprendiz e atual vencedor. Dois times com camisa e experiência. Mas é difícil imaginar alguma novidade tática, já que são treinadores mais administradores que construtores.

Mesmo que a marcação individual tenha ficado para trás, é impossível não imaginar duelos como Bale x Alaba e a luta no meio-campo com Casemiro, Modric, Kroos de um lado; Xabi Alonso, Vidal e Thiago Alcântara do outro. Mais Robben contra Marcelo. Quem controlar a posse não leva vantagem necessariamente. Aposta na “sede” dos bávaros de recuperar o domínio europeu e no retrospecto positivo no confronto.

FAVORITO – Bayern de Munique

BARCELONA X JUVENTUS – A reedição da final da temporada 2014/15. Mas desta vez com o time catalão sem a consistência da última conquista e a equipe que domina a Itália há tempos mais cascuda e querendo revanche da decisão no Estádio Olímpico de Berlim.

A Juve parece ter uma formação mais equilibrada, com Mandzukic sendo o centroavante que infiltra pela esquerda para se juntar a Higuaín e Dybala no centro e receber as bolas de Cuadrado e Daniel Alves, que conhece muito bem o adversário. Mas o Barça, apesar das oscilações e dos problemas defensivos, tem o tridente genial e a sensação de que pode tudo depois dos 6 a 1 sobre o PSG.

FAVORITO – Barcelona

 

 


O maior zagueiro-artilheiro manda para casa o Napoli do “falso nove”
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André Rocha

O primeiro tempo em Napoles foi de intensidade máxima do time da casa e, principalmente, da movimentação do belga Mertens como “falso nove”, recuando e abrindo espaços para a ultrapassagem do trio Callejón-Hamsik-Insigne. Enlouquecendo Casemiro, Pepe e Sergio Ramos.

Emblemática no gol único nos primeiros 45 minutos. Infiltração precisa de Insigne. Uma das quatro finalizações na direção da meta de Keylor Navas, no total de onze contra cinco – quatro a dois no alvo.

Faltava um gol para o envolvente Napoli do ótimo técnico Maurizio Sarri e o San Paolo parecia pronto para criar a atmosfera que construiria a virada histórica na segunda etapa. Mas no outro lado havia o atual campeão europeu.

Um time gelado que parecia engessado e lento e passou a competir mais. Com Cristiano Ronaldo e Benzema alternando na esquerda e no centro, com o francês mais pelo lado. Modric mais ágil e Toni Kroos participativo.

E tem Sergio Ramos. Impressionante seu tempo de bola nas jogadas aéreas. A impulsão também ajuda a se impor. O movimento tem força e precisão. Dois escanteios dos pés de Kroos, um gol e outro golpe desviado por Mertens. Em cinco minutos.

A disputa acabou pelo efeito surpresa que anestesiou o estádio. Com técnica e organização, o Real controlou o jogo. Mertens murchou, Morata fechou a conta nos acréscimos. Os 6 a 2 no agregado do confronto das oitavas-de-final são um exagero pelo que se jogou. Cristiano Ronaldo segue devendo gols e bola nesta edição da Liga dos Campeões.

Mas os merengues impõem respeito pelaa camisa com as onze taças. Também têm talento e confiança para fazer mais com menos. E conta com um “supertrunfo”: Sergio Ramos, que sofreu com o “falso nove”, mas foi novamente o autêntico e maior zagueiro-artilheiro decisivo para salvar sua equipe mais uma vez.

(Estatísticas: UEFA)

 


Futebol não é só tática! Na alma, Sevilla encerra a invencibilidade do Real
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André Rocha

Zidane surpreendeu ao mandar a campo pela primeira vez o seu Real Madrid com três zagueiros. Ou uma linha de cinco atrás, tendência recente com o sucesso do Chelsea de Antonio Conte na Premier League.

A lógica é simples: se o adversário trabalha a bola para encontrar espaços, infiltrar nos últimos vinte metros e finalizar, por que não ter mais jogadores para evitar a jogada mais importante? A receita de Mourinho e tantos outros treinadores para parar Barcelona e as equipes de Guardiola ou qualquer time que queira a bola.

Como o Sevilla de Jorge Sampaoli, que é equipe de posse, linhas adiantadas e circulação de bola com tabelas e triangulações no ritmo do redivivo Nasri, que, junto com N’Zonzi, afundou Ganso no banco. Até encontrar as diagonais em velocidade de Ben Yedder, artilheiro da equipe, e Vitolo. Atacantes abertos que encontram parcerias nos flancos com os laterais Mariano e Escudero. Proposta ofensiva.

A resposta merengue foi Nacho entrando na zaga com Varane e Sergio Ramos. Carvajal e Marcelo eram alas no ataque e quase pontas quando o Real Madrid avançava a marcação e pressionava no campo de ataque. Sem a bola, formavam o cinturão de proteção da meta de Keylor Navas com o suporte de Casemiro, preciso nos desarmes.

O time visitante e líder do Espanhol não se incomodava em perder o meio-campo e deixar o mandante controlar a posse (56% no primeiro tempo). A ideia era evitar a ação ofensiva trabalhada que cria a oportunidade cristalina, o adversário na cara do gol.

Conseguiu na primeira etapa. O momento mais perigoso foi com N’Zonzi em cobrança de escanteio. Já o Real, nos contragolpes às costas de Mariano, teve duas espetadas de Cristiano Ronaldo e Benzema. Só faltou a conclusão precisa para coroar o jogo controlado.

A segunda etapa começou com intensidade máxima do time de Sampaoli, muita movimentação e uma bola roubada que virou contragolpe e Ben Yedder, pela primeira vez com espaços às costas de Nacho, parou em Navas.

Taticamente, porém, o Real seguia dono do plano mais bem executado. Logo ameaçou em dois contragolpes até o pênalti do goleiro Sergio Rico em Carvajal, após vacilo de Escudero. Confusão, catimba, provocação de Vitolo, mas nada impediu que Cristiano Ronaldo cobrasse com a precisão costumeira.

Zidane trocou o exausto Kroos por Kovacic. Poderia ter tirado Benzema e colocado Morata para ganhar fôlego nos contragolpes, mas o controle era do Real. Mesmo com Sampaoli arriscando tudo com Sarabia no lugar de Iborra, mas para abrir à direita e enviar Ben Yedder para se juntar no centro do ataque a Jovetic, que substituiu Franco Vázquez.

O Sevilla se mandou, correu riscos com os lentos zagueiros Pareja e Rami contra Cristiano Ronaldo. Mas futebol não é só tática ou estratégia. É também alma, fibra e atmosfera no estádio. E o Ramón Sánchez-Pijzuán ferveu no gol contra de Sergio Ramos, vaiado o jogo todo pelas provocações na Copa do Rei e ainda por conta da saída conturbada do clube. Na bola parada, quando o “abafa” era a única saída.

Com o Real tonto vendo o herói de tantas conquistas recentes com gols nos últimos minutos desta vez ser o vilão e acuado pelos gritos vindo das arquibancadas e pela entrega dos jogadores dentro, veio a virada no chute de Jovetic que Navas espalmou para dentro.

Sim, Sampaoli foi feliz ao colocar presença física na área adversária para ter mais chances de finalizar. Mas isso qualquer treinador faria. Fazer o óbvio às vezes é mérito também.

Zidane provavelmente será responsabilizado pela primeira derrota após 40 jogos. Talvez um técnico mais vivido fizesse o time parar o jogo, quem sabe com trocas no final para ganhar tempo. Porém na estratégia ele acertou mais que errou no duelo contra um dos melhores treinadores do planeta, que rapidamente já faz o Sevilla mudar de patamar no país e no continente.

Mas o futebol é espetacular por essas histórias errantes, sem roteiro definido. Instável, emocionante, imprevisível. Que deixa tudo em suspense, em aberto. Como ficou o Espanhol com o Sevilla voltando à vice-liderança e trazendo o Barça para perto do Real Madrid. Temos um campeonato.

(Estatísticas: Whoscored.com)

 


Cristiano Ronaldo é o craque do presente e referência para o futuro
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André Rocha

cristiano-ronaldo

Lionel Messi é um gênio atemporal e o grande jogador desta era, na visão deste que escreve. Um dos melhores da história. Como Maradona será sempre lembrado como o maior dos anos 1980 e 1990, ainda que Platini, Zico, Van Basten, Matthaus e outros tenham conquistado premiações individuais e títulos com seus times e seleções no período.

O maior mérito de Cristiano Ronaldo, consagrado o melhor de 2016 pela “France Football” e agora pela FIFA, é ter a exata noção de como rivalizar com o argentino: nos números e nos títulos de equipes. E na seleção, com a Eurocopa do ano passado agora separando os dois. Conquistando como zebra o que o outro não conseguiu na condição de favorito.

“Não foi justo, Messi marcou mais gols e deu mais assistências no ano”. Cristiano Ronaldo foi artilheiro da Liga dos Campeões, o torneio mais importante entre os clubes, com 16 gols. Só não foi o recorde por um gol para igualar…Cristiano Ronaldo, que marcou 17 em 2013/14.

“Só marca de pênalti e gol fácil”. Quanto o argentino daria de sua fortuna por uma conclusão na pequena área sem goleiro ou pela penalidade não desperdiçada na final da Copa América Centenário contra o Chile?

“Não foi decisivo nas finais de Champions e Eurocopa”. Sem os três contra o Wolfsburg pelos merengues e os dois, um de letra, mais uma assistência na primeira fase da Euro diante da Hungria no empate em 3 a 3 e nem haveria decisões para disputar.

O português é craque com estatísticas e momentos geniais a menos de um mês de completar 32 anos por saber amadurecer com inteligência. Trabalha obsessivamente para seguir como um espetacular atleta, mantendo um baixíssimo índice de gordura e alto desempenho. Mas, ao mesmo tempo, já procura os atalhos em campo.

O objetivo é estar inteiro, física e mentalmente, para ser decisivo. Cristiano Ronaldo hoje sabe o momento de estar na ponta e buscar a diagonal e a hora de se enfiar na área adversária como centroavante. Mas também pode fechar uma linha de meio num 4-1-4-1 pela esquerda e se entregar ao trabalho defensivo, como fez, por exemplo, nos 2 a 1 sobre o Barcelona na temporada passada.

O maior artilheiro da história do Real Madrid e da seleção portuguesa também sinaliza o caminho que está por vir. Com o jogo cada vez mais intenso em alto nível e o calendário inchado por FIFA e UEFA, o jogador precisa ser um superatleta para suportar a carga e também encontrar forças e fôlego para aprimorar os fundamentos sempre que possível sem o risco de exaurir os músculos. Profissionalismo absoluto.

Precisão técnica, o lema do futebol nos próximos anos. A marca desta máquina de gols, já uma lenda. Quatro vezes o melhor do mundo. Craque do presente e referência para o futuro.

 

 


Procura-se um time para Lionel Messi
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André Rocha

Lionel Messi tem 13 gols no Espanhol e dez na Champions League em 20 partidas – 14 pela liga nacional, seis no torneio continental. Em 2016 foi às redes 59 vezes e serviu 31 assistências em 61 jogos.

No empate com o Villareal com arbitragem polêmica que fez o Barcelona perder a segunda colocação para o Sevilla de Sampaoli, evitou uma derrota que podia ter sido trágica com uma fantástica cobrança de falta no final da partida.

Na Argentina, salvou a seleção no último jogo de 2016 com um golaço, também em cobrança de falta que está virando especialidade, e mais duas assistências nos 3 a 0 sobre a Colômbia que fez a albiceleste ao menos ficar na zona de classificação na repescagem das eliminatórias sul-americanas.

Messi viu Cristiano Ronaldo faturar a Bola de Ouro da “France Football” e provavelmente levar amanhã em Zurique também o prêmio da FIFA. Porque Real Madrid e Portugal conquistaram os títulos mais importantes da Europa na temporada. Equipes que nos momentos decisivos trabalharam coletivamente e não dependeram tanto de sua estrela maior.

Já Barça e Argentina precisam demais de seu camisa dez pela falta de uma proposta de jogo que não necessite tanto do brilho de seu craque. O time catalão porque está mais que previsível e o técnico Luis Enrique não encontra alternativas para variar as ações ofensivas e surpreender os rivais nos jogos mais complicados. Na seleção, o trabalho de Edgardo Bauza, ainda no início, sofre por falta de repertório.

Sem desempenho da equipe, Messi precisa buscar mais o jogo e partir com bola dominada para tentar a vitória pessoal ou usar sua visão de jogo privilegiada para colocar um companheiro na cara do gol. Agora adiciona as cobranças de falta em seus múltiplos recursos para desequilibrar. Ou igualar as forças entre times organizados e suas equipes, talentosas, mas capengas no jogo coletivo.

Eis o paradoxo de Messi: para recuperar o domínio dos prêmios individuais, o gênio argentino precisa de um time. Na acepção da palavra. Para potencializar seu enorme talento e não sobreviver por causa dele.