Blog do André Rocha

Arquivo : realmadrid

Messi precisa acordar! O mundo e o futebol mudaram, também por causa dele
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Reuters

Messi foi o melhor do mundo há oito anos sendo campeão espanhol e da Copa do Rei, caindo nas semifinais da Liga dos Campeões e nas quartas de final para a Alemanha na Copa do Mundo da África do Sul. Foi o ano da festa do Barcelona, com Xavi e Iniesta, campeões com a Espanha, formando a trinca de finalistas.

Era o período de encantamento com o argentino genial que evoluiu absurdamente sob o comando de Pep Guardiola. Mesmo sem marcar um gol no Mundial de seleções sua imagem de jogador de uma era seguiu intacta. Cristiano Ronaldo sofreu com lesão grave, eliminação nas oitavas da Champions e desempenho apenas razoável, para seu nível, com Portugal na Copa. Era a primeira temporada no Real Madrid.

Pouco valeu o brilho de Sneijder, que ganhou tudo com a Internazionale e foi um dos artilheiros da Copa pela Holanda, só perdendo o título na prorrogação da final. Sendo decisivo contra o Brasil nas quartas de final. Uma das maiores injustiças da premiação.

Corte para 2018. Luka Modric ganha o prêmio da UEFA como melhor jogador da temporada europeia e está entre os três finalistas do Prêmio The Best da FIFA. Campeão da Champions e vice mundial, como Sneijder. Mohamed Salah, outro finalista dos dois prêmios, nem isso. Eliminado na fase de grupos com seu Egito, não chegou perto de ser campeão inglês com seu Liverpool e perdeu a final do principal torneio de clubes do mundo para o Real Madrid. Mesmo com o golpe sujo de Sergio Ramos que tirou o atacante da decisão ainda no primeiro tempo, não parece algo que chame tanto a atenção.

Mas é. Porque o mundo e o futebol mudaram. Muito. Também por causa do argentino. A Liga dos Campeões ganha um peso cada vez maior na temporada. Por conta da visibilidade e do nível cada vez mais alto do torneio europeu, os campeonatos nacionais perderam relevância. Até por conta dos supertimes que dominam seus países – leia-se Bayern de Munique, PSG e Juventus. Na Espanha, a tendência recente é o Real Madrid focar tudo na Champions e o Barcelona dividir esforços.

Eis o ponto que marca esse novo olhar. Messi foi novamente protagonista no domínio espanhol do Barça. Liga e Copa. Chuteira de Ouro com 34 gols na liga. 46 no total e mais 18 assistências. Mas e daí? O seu talento é que fez subir o sarrafo, o nível de cobrança. Não é mais o suficiente. Pior ainda com a eliminação para a Roma, time de poder de investimento muito inferior e em outra prateleira do cenário mundial. Derrota vexatória por 3 a 0. Mais uma vez ficando de fora até das semifinais.

Na Copa do Mundo, novamente um desempenho bem abaixo de sua excelência. Sua Argentina caiu nas oitavas de final. Para a campeão França justamente na melhor atuação da equipe de Pogba, Griezmann e Mbappé na Copa. Por 4 a 3, sem vexame. Porém não basta mais para Messi. Espera-se muito dele e se decepciona sua avaliação cai a ponto de ficar abaixo de jogadores sem números e conquistas semelhantes.

Imaginava-se que ficaria ao menos entre os três finalistas, como em todas as edições desde 2007. Nem isso. Um momento simbólico, que pede reflexão a Messi. Sua rivalidade com Cristiano Ronaldo fez história e jogou no teto o nível do futebol de clubes na elite europeia nestes dez anos. O mundo cobra Messi que seja campeão da Champions ou do mundo com a albiceleste. Ele precisa ver que mudou. Acordar para uma nova realidade, caso ainda queira ser competitivo no topo, individual e coletivo.

Sua personalidade aponta dois caminhos. Ou o “sangue nos olhos” de 2015, depois do grito de Cristiano Ronaldo (o lendário Síiiiii!) na celebração do prêmio de melhor de 2014 desafiando o rival, para liderar o trio MSN na conquista da tríplice coroa. Ou se conformar em seguir reinando no Barça, aumentando ainda mais os números como o grande jogador da história do clube que o acolheu, pagou seu tratamento para crescer e formou o homem e o atleta. Jogar por gratidão.

Se houver espaços para ele jogar como gosta vem o brilho. Se o adversário nega, Messi circula pelo campo sem produzir grande coisa e vê seu time derrotado. Foi assim nas últimas três temporadas. Começa assim a atual: adversários fáceis na liga, quatro gols e duas assistências. Sem Cristiano Ronaldo, a tendência é nadar de braçadas no Espanhol.

Pode bastar para ele, não para o planeta bola. Messi não vai a Zurique desta vez. Pode estar irado, aliviado ou mesmo indiferente. Quem é capaz de entender o argentino?


Por que a transição de CR7 do Real Madrid para a Juventus não é tão simples
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Twitter/JuventusFC

Cristiano Ronaldo saiu da zona de conforto ao trocar o Real Madrid pela Juventus. Ou para fugir do desconforto de lidar com Florentino Pérez, uma torcida saturada de títulos e, por isso, exigente demais até com o maior artilheiro da história do clube. Ou só para escapar dos altos impostos mesmo.

Mas não deixa de ser um movimento interessante aos 33 anos. Até porque a fome continua a mesma, assim como a indignação nas derrotas – inclusive as individuais, como a perda do prêmio de melhor da Europa para Luka Modric que fez com que ele sequer comparecesse à cerimônia.

Só que não é uma transição fácil. Porque Cristiano Ronaldo estava totalmente inserido em uma mecânica de jogo desenvolvida e aprimorada em cinco anos, com um breve hiato sob o comando de Rafa Benítez entre Carlo Ancelotti e Zinedine Zidane.

O camisa sete se entendia no olhar com Benzema, Marcelo, Modric e Bale. Companheiros desde a primeira conquista da Liga dos Campeões em 2013/14. Praticamente a mesma formação no tricampeonato continental. Escalação igual nas duas últimas finais, algo inédito na história da competição.

Zidane acertou demais ao apostar na repetição, nos movimentos coordenados, no jogar “de memória”. Tudo moldado desde o início para Cristiano Ronaldo ser a estrela. Se ele prefere jogar em dupla na frente com liberdade de movimentação, ora infiltrando em diagonal, ora se posicionando como referência, era assim que o ataque funcionava.

Ele pode não ser o mais talentoso ou genial, mas certamente é o atacante mais inteligente do futebol atual. Posicionamento, desmarque, movimentação. Tudo para estar no lugar certo no momento exato e dar o toque decisivo. Funciona ainda melhor quando os companheiros conhecem os gestos nos detalhes.

É o que falta à equipe de Massimiliano Allegri. Adicione a ansiedade do craque para marcar e dos companheiros para serví-lo depois de três partidas, mesmo com 100% de aproveitamento nos resultados, e o time perde o mais importante para fazer tudo fluir: a naturalidade.

Por enquanto, Cristiano Ronaldo é um corpo estranho. Allegri tenta ajudar colocando Mandzukic, atacante de ofício com perfil parecido com o de Benzema: presente na área adversária, mas habituado ao papel de coadjuvante. Assim não deixa o CR7 isolado como referência na frente auxiliado por Dybala e Douglas Costa, como era o plano original.

Como sempre, ninguém pode acusá-lo de omissão. Corre, luta, contribui coletivamente e já demonstra sinais de liderança junto aos companheiros. Interesse em evoluir rápido também não é problema, já que deixou até a seleção portuguesa em segundo plano e ficou fora dos primeiros amistosos para se dedicar integralmente ao novo clube. Falta o que deve vir com o tempo: sintonia fina, adaptação ao futebol jogado na Itália e o primeiro gol. Cristiano já passou por “secas” no Real, mesmo com tudo a favor. Mas quando a bola começa a entrar…

Bom lembrar que a primeira temporada na Espanha (2009/10) não foi das mais bem sucedidas. Lesão, expulsão, apenas 35 jogos com 33 gols, sem títulos e eliminação nas oitavas de final da Liga dos Campeões para o Lyon. Agora, nove anos mais velho e com expectativas ainda mais altas, fica ainda mais complexo.

São poucas partidas oficiais e a Champions, especialidade do português, nem começou. A pressão é normal com os olhos do planeta voltados para o vencedor dos últimos dois prêmios de melhor do mundo e detentor de cinco no total, que pode virar seis em breve se a FIFA seguir a tendência dos últimos anos e não os critérios da UEFA.

Não é simples. Mas parece questão de tempo para o maior jogador europeu de todos os tempos começar a fazer história nos campos da Itália.

 


Casemiro, o insubstituível. No Real Madrid e na seleção brasileira
Comentários Comente

André Rocha

31 minutos do segundo tempo da decisão em jogo único da Supercopa da Europa em Tallinn, Estônia. Mais um clássico de Madri valendo taça. O placar aponta 2 a 1 para o Real Madrid, com atuação relativamente segura do tricampeão da Liga dos Campeões. Até que a placa de substituição sinaliza que Casemiro, exausto e sentindo problemas musculares pelo esforço depois de um curto período de treinos na volta das férias, deixará o campo para a entrada de Daniel Ceballos.

Dois minutos depois, Marcelo tenta um lençol para trás na linha lateral (!), o Atlético recupera a bola, Sergio Ramos tenta cobrir o setor, mas sai a jogada que termina no empate com Diego Costa. Para em seguida o time de Diego Simeone, comandado pelo auxiliar Germán Burgos à beira do campo, tomar conta do clássico e voar na prorrogação para  fazer 4 a 2 e garantir o título. Com muito volume no meio-campo e gols de Koke e Saúl Níguez.

O primeiro triunfo dos colchoneros na “Era Simeone” sobre o time meregue numa decisão ou confronto de mata-mata continental gerou repercussão imediata. Primeiro exaltando a capacidade de competir do Atlético, com trabalho mais que consolidado e agora um elenco equilibrado e homogêneo para brigar em todas as frentes.

Mas principalmente sugerindo que o revés seria o primeiro símbolo do declínio depois das saídas de Zinedine Zidane do comando técnico, substituído por Julien Lopetegui, e de Cristiano Ronaldo. O treinador mais vencedor, na média de taças e anos no comando, e o maior artilheiro da história do clube mais vencedor do planeta.

Óbvio que é um baque para qualquer equipe e fica difícil vislumbrar o que será do Real nesta temporada. Mas ao menos a história do primeiro jogo oficia poderia ter sido bem diferente se Casemiro tivesse condições para seguir em campo.

Porque o volante brasileiro é o grande pilar de sustentação do trabalho defensivo. Principalmente para fazer o balanço, se defendendo dos contragolpes. Pela esquerda, Marcelo desce com tranquilidade porque sabe que Sergio Ramos sairá na cobertura e Casemiro vai recuar e fechar a zona de conclusão do adversário na própria área.

Eis a maior virtude de Casemiro: o senso de colocação e a imposição física para estar sempre no lugar certo e bloquear a finalização ou o passe decisivo do oponente. Simplesmente estar com seu corpo no espaço exato para impedir ou inibir a ação mais contundente.

Não é por acaso que a mudança de Zidane ao efetivar Casemiro à frente da defesa adiantando Luka Modric e Toni Kroos tenha dado tão certo e se mantido ao longo de toda a trajetória vencedora. Carlo Ancelotti e Rafa Benítez tentaram firmar a dupla Kroos-Modric à frente da defesa para ter controle de jogo através da posse de bola. Mas a retaguarda sofria demais.

A troca equilibrou o time. Ainda que seja preciso haver compensações, principalmente na saida de bola. Um dos meias recua para qualificar o passe e Casemiro se adianta. Na prática, muito mais para não atrapalhar do que para contribuir. Não que seja fraco no fundamento mais importante para um meio-campista. Mas como é mais alto e forte não tem a mesma agilidade e precisão de seus companheiros de setor para sair da pressão. E também pode contribuir mais à frente, se juntando ao quarteto ofensivo e até aparecendo na zona de conclusão.

Com a saída de Mateo Kovacic para o Chelsea, o Real Madrid ficou sem um substituto com características ao menos parecidas. Na derrota para o Atlético, mesmo com Modric entrando apenas na segunda etapa, o meio-campo fez água sem a bola e deu espaços demais ao rival. É mais um problema para a temporada. E dos grandes. Casemiro é simplesmente insubstituível.

No clube e também na seleção brasileira. Na Copa do Mundo, o volante foi fundamental para cobrir os espaços deixados por Paulinho e Phillipe Coutinho no meio-campo. Também fechava o meio da área quando Miranda saía na cobertura de Marcelo. Suspenso contra a Bélgica, viu Fernandinho entrar e cumprir uma atuação desastrosa depois do gol contra que marcou. Impossível não imaginar como teria sido o duelo pelas quartas-de-final com o camisa cinco em campo.

O novo ciclo de Tite deve partir da presença de Casemiro entre os convocados. Ainda que a renovação no setor seja inevitável, com Arthur, Paquetá, Fred e outros nomes que possam surgir. É dever também estudar uma reposição que não prejudique tanto o desempenho coletivo.

Porque Casemiro é único. Pode não ser o melhor volante do mundo, mas suas características atendem precisamente as necessidades de Real Madrid e seleção brasileira na função que executa. Outros podem ser as estrelas e chamar para si todas as atenções. Mas quando sua presença discreta se transforma em ausência tudo parece ruir.  Aconteceu de novo na Estônia. Melhor para o Atlético.


Já é hora de aceitar nossa alma copeira, caótica e amadora no futebol
Comentários Comente

André Rocha

Você já foi voto vencido em decisão importante dentro da família, em reunião no trabalho ou de condomínio? Sempre vem aquela sensação de frustração, mas depois você costuma aceitar a conviver com aquilo que rejeita ou apenas discorda da prática.

Pois assim acontece também com quem sonha no futebol brasileiro com um calendário organizado, uma liga nacional forte e rentável. Por pontos corridos para a grande maioria das divisões visando garantir uma temporada completa viabilizando um planejamento de acordo com as receitas. Sem os estaduais, ou ao menos reduzindo bastante as datas e sendo tratados como torneios de pré-temporada para os times grandes.

Mas como pensar nisso se o chamado torcedor médio, ou a média do pensamento da maioria das torcidas, valoriza os torneios regionais, especialmente por causa dos clássicos, e estes geram boa audiência para a emissora que detém os direitos de transmissão que, por isto mesmo, paga uma boa cota?

Como convencer o dirigente a peitar a sua federação se ele prefere a aliança que pode dar uma vantagem aqui, uma arbitragem favorável acolá e fazer uma média com a torcida, podendo dizer no final do ano, se tudo der errado, que ao menos venceu algo na temporada e o rival não?

Como defender uma temporada inteira para o time de menor investimento se, na maioria das vezes, o dirigente pensa que é melhor se garantir com a cota do estadual e a chance de enfrentar os grandes mais vezes ao invés de buscar um crescimento sustentável, ainda que as partidas mais rentáveis se limitem aos possíveis confrontos na Copa do Brasil?

Como pensar em uma liga forte se os clubes que mais investem priorizam os torneios de mata-mata e escalam reservas no que deveria ser o principal campeonato? De que adianta Zinedine Zidane, tricampeão da Liga dos Campeões com o Real Madrid, dizer que considera o título da liga espanhola da temporada 2016/17 o mais importante da sua curta carreira como treinador porque, segundo ele, a disputa por pontos corridos é a que, de fato, premia o melhor trabalho?

Aqui a lógica é que para vencer as copas bastam quatro ou oito jogos, enquanto no Brasileiro ainda falta um turno inteiro. “Dá tempo de recuperar”, “temos que pensar no tiro curto”. Imediatismo, urgência, torcidas “bipolares” e insanas querendo taças para ontem.

Como discutir trabalhos longos de treinadores se na maioria das vezes a “dança das cadeiras” beneficia a maior parte dos agentes no processo? O dirigente porque “não ficou parado vendo o barco afundar”, o jogador que se cansa dos métodos e da convivência desgastante e gosta do “fato novo”. Os próprios treinadores, ao menos os mais renomados, que reclamam, mas faturam nessa roda viva com bons salários e multas rescisórias altas. Ou mesmo a imprensa, que gera pautas e esquenta os noticiários com as demissões, especulações do novo nome e depois os debates se “agora vai” com o técnico da vez.

Como defender a renovação do mercado de treinadores se os jovens muitas vezes repetem os erros dos veteranos? Ou acabam se perdendo em idealizações, enquanto os mais vividos se adaptam à nossa realidade caótica. Como defender profissionais como Roger Machado e Fernando Diniz se os seus conceitos, ao menos por enquanto, não fizeram eco nos clubes pelos quais passaram e um Renato Gaúcho volta depois de dois anos curtindo a praia e usa seu carisma de maior ídolo da história do Grêmio para resolver com simplicidade problemas que parecem tão complexos? Como duvidar do “messias” Felipão no Palmeiras, ao menos no mata-mata?

Remar contra a maré às vezes cansa. Exigir organização e planejamento para que todas as partes de beneficiem é pregar no deserto enquanto cada um está preocupado apenas com o seu problema. É o nosso jeito, não é fácil mudar. Já é hora de entender, mesmo sem aceitar, a nossa alma no futebol. Copeira, caótica, amadora. Com espasmos aqui e ali de profissionalismo, mas sem algo mais duradouro. Não é acaso que aqui haja tanta “alternância de poder”, sem um clube construindo uma “dinastia”.

E tantos gostam por ter mais equilíbrio, sem a previsibilidade de outras grandes ligas pelo mundo. Ainda que o nível técnico não seja dos melhores. Aliás, o que mais tem por aqui é o fã do “futebol testosterona”. O jogo “pra macho”. Ou seja, porradaria, jogo direto, bola parada, lateral na área adversária, disputa física, ódio ao rival (leia-se inimigo), “contra tudo e todos”, inclusive a imprensa.

E tem que ser sofrido, senão não tem graça. Sem “nhenhenhe” de posse de bola, conceitinho, jogo bonito e outras “frescuras”. É o jogo de Libertadores! Não por acaso tantos odeiam Pep Guardiola e outros treinadores que tentam fazer diferente.

Então que seja! Uma hora a mão cansa de esmurrar a ponta da faca. Felizmente hoje temos acesso ao melhor que o futebol internacional pode oferecer – pela TV ou agora por streaming – para quem vê o jogo e os processos no esporte de outra forma. Dá para todo mundo ser feliz. Melhor assim.


Temporada do Barcelona começa com mais do mesmo, mas precisa ser diferente
Comentários Comente

André Rocha

Supercopa da Espanha, baterias começando a aquecer, os muitos jogadores que disputaram a Copa do Mundo voltando aos poucos. O jogo único no Marrocos entre Barcelona e Sevilla manteve o clima de pré-temporada dos amistosos, algo que não costumava existir quando jogado no próprio país.

Ernesto Valverde escalou Arthur de início e deixou Phillipe Coutinho no banco. Um 4-3-3 variando para o 4-4-2 sem a bola com Rafinha abrindo à direita e dando liberdade a Messi. Dembelé foi para o setor esquerdo, formando dupla com Jordi Alba. Do lado oposto, Nelson Semedo fazia todo o corredor.

O gol logo aos oito minutos condicionou o primeiro tempo. Até porque o Sevilla, agora comandado por Pablo Machín, tinha como proposta deixar o adversário com a bola, negar espaços num 5-4-1 compacto e acelerar nos contragolpes. Com os ponteiros Pablo Sarabia e Franco Vázquez, na variação para o 4-3-3, se aproximando de Muriel, o atacante único que serviu Sarabia numa transição ofensiva rápida que terminou com conclusão precisa e a ajuda do VAR para validar o gol legal inicialmente anulado.

Depois o Barcelona ficou com a bola, tentando as inversões em busca dos laterais que chegam ao fundo. Suárez ainda nitidamente fora de ritmo, não conseguia dar sequências às jogadas como de costume e desperdiçou boa chance em chute cruzado. Dembele buscava os dribles para infiltrar em diagonal, mas batia no muro da última linha de defesa do Sevilla até bem coordenada para a primeira partida oficial da temporada.

Messi caminhava ou trotava em campo, buscando espaços entre a defesa e o meio-campo do oponente, por vezes recuando para ajudar na articulação. Só acelerava com a bola colada no pé esquerdo. Ou fazia a tradicional inversão para Alba. Impressiona a qualidade quando interfere no jogo e o respeito que impõe ao adversário, ao menos dentro da Espanha.

Cada vez mais preciso na bola parada. Cobrança de falta do camisa dez na trave esquerda, a bola bateu no goleiro Vaclik e Piqué empatou no rebote. O Barça manteve o domínio, sofrendo com um ou outro contra-ataque. Especialmente pelo setor esquerdo, com o zagueiro francês Lenglet, ex-Sevilla, mais uma contratação para a temporada, sem conseguir fazer a cobertura de Alba com a rapidez e a eficiência de Umtiti.

Arthur sofreu a falta do gol de empate, mas não foi tão bem. Ainda precisa se adaptar à velocidade da circulação da bola no ritmo de competição no mais alto nível. Questão de tempo e entendimento. Deu lugar a Philippe Coutinho e Rafinha saiu para a entrada de Rakitic. Com o 4-4-2 mais próximo da temporada passada e Dembelé indo para o lado direito, saiu o golaço do ponteiro francês em chute forte e preciso.

Gol de título, porque nos acréscimos Ter Stegen fez pênalti em Aleix Vidal, mas Ben Yedder bateu fraco e o goleiro alemão segurou. Mesmo sem uma clara superioridade sobre o adversário, o Barcelona alcançou mais uma conquista. A décima terceira do maior vencedor da história.

Mais do mesmo. Fruto de uma cultura de vitória dentro do país nos últimos anos. Ou desde Guardiola. Contando a partir da temporada 2008/09, são sete conquistas em dez edições do Espanhol. Mais seis taças da Copa do Rei e o mesmo número de Supercopas. Aproveitamento espetacular, mesmo considerando o foco habitual do Real Madrid na Liga dos Campeões e a trajetória bem sucedida deste nos últimos cinco anos.

Mas exatamente por essa sequência de triunfos é que o patamar subiu e a exigência para voltar a ser protagonista na Champions aumentou. Até porque depois do último título em 2015 o time vem caindo antes das semifinais. Nos confrontos contra Atlético de Madri, Juventus e Roma, a impressão de que faltou competitividade. Talvez um pouco mais de intensidade de Messi. Ou um elenco que aumentasse o leque de opções e fosse possível alterar as características da equipe, caso necessário.

Por isso a busca por Arthur, Malcom, Vidal para se somar à base titular que é reconhecidamente forte. Agora com Coutinho desde o início da temporada. Porque precisa ser diferente. Ou voltar ao que já foi. Sem perder o protagonismo na Espanha, mas voltando a dar as cartas no continente. Ir além do “piloto automático” na liga e na Copa. Ou mesmo repetir o grande rival e festejar a conquista mais importante, mesmo que as “domésticas” não venham.

No apito final, a comemoração tímida e protocolar. Mais uma. Parece pouco. O Barcelona tem que sair do marasmo. Inusitado pelas muitas conquistas recentes, mas sem deixar de parecer estagnado.

 


Vanderlei Luxemburgo deve parar de reclamar de “hoje em dia”
Comentários Comente

André Rocha

Santos e Palmeiras pensaram em Vanderlei Luxemburgo para o comando técnico de suas equipes. Fecharam com Cuca e Felipão, respectivamente. Mais uma oportunidade de reflexão para o treinador veterano, fora do mercado desde outubro do ano passado ao ser demitido pelo Sport. Ou, melhor ainda, de uma reciclagem. Buscar um “turning point” sinalizando mudanças na visão de futebol e no comportamento.

Mas Vanderlei prefere estar na mídia. Quase onipresente nos programas esportivos, em TV aberta e fechada. Agora também no Youtube. Apenas para escancarar sua estagnação. Não sai do lugar porque está com os olhos sempre voltado para o passado. Seus feitos, suas sacadas, conquistas. Todos históricos e respeitáveis, ainda mais se considerarmos de onde veio e que patamar alcançou. Só que passaram.

Quanto ao presente, apenas reclamações. Do “hoje em dia”. “Não temos mais o drible”, “falta talento”, “não há nada de novo em termos táticos”, “tudo isso eu já fazia”.  Também lamenta a geração atual: “só querem saber de rede social”, “são mimados, não aceitam bronca”. Chega ao ponto de criticar os treinadores que estudam. Fazer curso? Nunca! Ele é quem deveria ser o professor…

Vanderlei foi um dos melhores do país, para este que escreve o melhor, quando vivia intensamente o presente e, principalmente, sinalizava o futuro. Queria a seleção brasileira e depois trabalhar na Europa. Conseguiu, porém falhou nos dois projetos. Agora, aos 66 anos, parece sem objetivo. Ou apenas voltar a trabalhar. Afirmou que faria o Santos voar se o clube fechasse com ele.

Mas como acreditar? Se não há nada novo, o que ele pode oferecer de diferente em relação aos concorrentes? Experiência sem conceitos atuais? Liderança sem jogo de cintura para lidar com os atletas? Para complicar, a dificuldade de trabalhar em equipe sem se intrometer nos outros setores do clube. Em especial nas negociações de jogadores.

Luxemburgo corre o risco de entrar no ciclo de Joel Santana: ser tratado como fenômeno de entretenimento e não mais um treinador de futebol. Há muitas pessoas que assistem aos vídeos do seu canal do Youtube para se divertir. De fato, ele sempre foi carismático. Um personagem sensacional. O conteúdo, porém, fica em segundo plano. Até porque ele está em todos os lugares falando as mesmas coisas que diz há anos.

Não há nada de novo no futebol para Luxemburgo. Logo, o Vanderlei não pode apresentar uma novidade ou algo interessante. Para quem quer voltar ao mercado e ser respeitado, o cenário está complexo. Seria melhor preservar a imagem e, principalmente, tentar se atualizar. Não em frente às câmeras ou na internet, mas no campo de jogo.

Afinal, insistir com as mesmas práticas esperando resultados diferentes nunca deu muito certo. Para qualquer um, em qualquer área. Mesmo que em breve apareça um clube interessado, as chances de dar certo são bem remotas. Vanderlei Luxemburgo se acha diferente. O mercado também o vê assim, mas não do jeito que ele pensa. Ainda há tempo para mudar, mas tem que ser rápido.


Onde há fome de Champions, lá está Cristiano Ronaldo
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Divulgação/ Juventus

O fim da relação entre Cristiano Ronaldo e Real Madrid é a prova de que até os casamentos mais bem sucedidos passam por desgastes. Os mortais, os comuns normalmente aceitam uma vida sem o desafio da conquista diária. Colocam outras vantagens, inclusive a estabilidade e a ciência das virtudes e defeitos da parceria.

Não para Florentino Pérez, certamente incomodado pela falta de negociações nas últimas janelas de transferências por conta da sede de entrosamento e sintonia de Zinedine Zidane. Bi da Liga dos Campeões repetindo a escalação em duas finais, algo inédito. Mais ainda para um clube comprador e um presidente viciado em times galácticos.

Muito menos para o CR7. Competitivo em tudo. Quer sempre o topo. Dos prêmios individuais, da artilharia, entre os mais bem pagos. Também quer ser amado. E os aplausos da torcida na Arena Juventus depois de seu gol antológico de bicicleta certamente pesaram na hora de escolher a Juventus. Ainda que seja um negócio de 105 milhões de euros por um jogador de 33 anos.

Ou melhor, um atleta. De força inesgotável, foco inigualável. Treinamento, alimentação, repouso, força mental. Tudo cuidado com profissionalismo, sem concessões. Gestão de carreira impecável. Para seguir no mais alto nível até quando for possível – e como é difícil imaginar até quando isto vai durar com tamanha disciplina e uma estupenda mentalidade vencedora.

Acima de tudo, para continuar vencendo o principal torneio de clubes do planeta. O grande trunfo na disputa pelo prêmio de melhor do mundo. Está claro que Cristiano Ronaldo quer desenhar uma história única na Champions. Ser o maior vencedor e por clubes diferentes para que ninguém duvide que a força está com ele, não com o time. Ainda que o atacante cada vez mais dependa dos companheiros para decidir com sua ímpar capacidade de concluir as jogadas.

Mesmo para o gigante Real Madrid de 13 títulos será difícil manter o espírito competitivo depois de um tricampeonato. O tetra pode até vir, mas em um elenco renovado, com protagonistas querendo acrescentar a conquista no currículo. Com Ronaldo ficaria a impressão de uma fé no “piloto automático” que não existe no mais alto nível.

Foi assim na saída do Manchester United sem forças para rivalizar com o Barcelona de Guardiola e Messi e já caminhando para o fim da Era Alex Ferguson. Na época, o Real estava há sete temporadas sem vencer a Champions e encarava uma sequência de eliminações nas oitavas de final. Ele chegou e reescreveu a história.

Agora a escolha do português não podia ser melhor. A Juventus rica e estruturada, mas já saturada de conquistas nacionais com um hepta da Série A italiana vai focar tudo na Liga dos Campeões que não conquista desde 1996. A presença de Ronaldo e toda a visibilidade embutida aumentam o poder de atrair outros talentos, incluindo colegas de Real. Difícil até vislumbrar uma formação titular de Massimilano Allegri com a nova estrela.

É óbvio que é impossível prever se haverá química entre craque, clube e companheiros. Os títulos podem demorar um pouco, como aconteceu em Madri. A saída de Buffon é baixa importante, na história e no vestiário. Mas em tese a presença de alguém tão vencedor vai estimular o crescimento de todos, especialmente Dybala. Falta ao argentino de 24 anos a chama que sobra no maior artilheiro da história da seleção portuguesa e do Real Madrid.

Para quem ama o esporte, fica o “luto” pelo fim da maior rivalidade local de todos os tempos entre gênios de uma mesma época. Messi e Cristiano Ronaldo disputando a mesma liga nacional com dois duelos garantidos por temporada em gigantes como Barcelona e Real Madrid. Um roteiro de filme. Acabou. Pelo menos não haverá remorso de quem curtiu cada embate sem a preocupação de ficar desqualificando um para exaltar o outro.

Buffon partiu lamentando que o CR7 tivesse encerrado por duas vezes o sonho continental da Velha Senhora. Agora o gênio da grande área do século 21, de impressionantes 451 gols em 438 jogos no time merengue vai se testar em Turim. Porque onde há fome de Champions, lá está Cristiano Ronaldo.

 


Já é hora de parar de passar pano em Lionel Messi
Comentários Comente

André Rocha

Ele é o melhor jogador que este blogueiro viu em ação ao vivo desde que começou a ver futebol com um mínimo de discernimento, lá pelos anos 1980. Mas mesmo neste pedestal os gênios não podem ficar isentos de críticas.

Lionel Messi vem desperdiçando seu talento descomunal com um comportamento indecifrável no campo em momentos difíceis. Não exatamente jogos complicados em tese. Mas se sua equipe não torna as coisas acessíveis coletivamente, a capacidade do camisa dez fica limitada. Não é ele quem conduz seu time a reagir, mas o entorno precisa transformá-lo em protagonista.

Não significa que seja omisso. Sempre tenta. Ainda mais na quase sempre descoordenada e/ou limitada seleção argentina. Volta para articular, distribui e aparece na área para buscar a finalização. Mas repare que os movimentos são sempre os mesmos, os gestos técnicos iguais. Se os espaços entrelinhas não aparecem, se o adversário nega as opções de passe, se o dia não é dos melhores, como no empate em 1 a 1 com a Islândia na estreia da Copa do Mundo, Messi não inventa algo fora do seu vasto repertório. Normalmente se entrega.

Sim, ele finalizou 11 vezes na partida. Sim, a seleção de Jorge Sampaoli não tem ideias bem assimiladas, até pelo curto trabalho, e, por isto, não joga de memória. Mas, ora bolas, é o Messi. A exigência precisa ser a mais alta. Não basta tentar e se esforçar. Precisa decidir. E não pode desperdiçar a oportunidade de resolver a partida na cobrança de pênalti que consagrou o goleiro Halldorsson. Ainda mais quando a equipe depende tanto dele.

Já é hora de parar de passar pano em Lionel Messi. Uma certa conivência de quem se encanta com o que faz nos melhores momentos. Descendo quando convém o nível do sarrafo que tem que ficar no topo na cobrança por desempenho e resultados. A fama de bom moço, tímido e discreto, bem diferente do narcisismo midiático de Cristiano Ronaldo e Neymar, também cativa.

É óbvio que seu currículo recheado de conquistas não é de um perdedor. O questionamento é em relação ao comportamento em momentos específicos e muito importantes. Não é por acaso que nas ligas por pontos corridos ele supere Cristiano Ronaldo de longe. Messi é constante e regular. Nos últimos dez anos. O problema é quando a coisa sai do roteiro esperado.

“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, como está no imaginário popular. Ele não é super herói, mas quando vemos a atitude e a força mental de Cristiano Ronaldo contra a Espanha e também na trajetória que culminou no tricampeonato da Liga dos Campeões conquistado pelo Real Madrid fica claro que tem faltado algo a Messi.

Independe do entorno, do cenário, dos problemas da AFA. Messi precisa se indignar mais com a derrota enquanto é possível revertê-la. Não adianta chorar mirando chilenos e alemães na celebração de seus títulos. Ou ficar atônito com a eliminação do Barcelona para a Roma na última edição da Champions. Vexatória, se considerarmos as prateleiras dos clubes no futebol europeu.

Ainda há dois jogos da fase de grupos e as disputas eliminatórias, caso a Argentina se classifique. Sim, porque a Croácia já assumiu a liderança do Grupo C ao vencer a Nigéria por 2 a 0. Se não encontrar soluções para seus muitos problemas, o risco de eliminação da bicampeã mundial na primeira fase, repetindo o fiasco de 2002, é real.

Messi pode reverter o quadro e ainda ser o craque do Mundial na Rússia. Impossível duvidar de sua capacidade de fazer magia com o pé esquerdo. Cabe ao gênio reescrever sua história recente repleta de fracassos no mais alto nível. Afastar o rótulo de “pecho frio” que ele mesmo vem colando na sua imagem. O primeiro passo é abandonar a postura blasé, como se nada estivesse acontecendo. Como seus fãs querem fazer parecer.

É a última chance em Copa do Mundo de entrar no Olimpo dos maiores. Cristiano Ronaldo demonstra que já entendeu. Lionel Messi precisa despertar.

 


Lopetegui demitido! Surreal crise espanhola aumenta favoritismo do Brasil
Comentários Comente

André Rocha

Bastava deixar tudo encaminhado com transparência e bater o martelo depois da Copa do Mundo para o Real Madrid anunciar Julen Lopetegui como o sucessor de Zidane no comando técnico.

Na Europa não costuma ser tão problemático esses anúncios que no Brasil poderiam provocar crises demolidoras. Como Pep Guardiola anunciado no Bayern de Munique e no Manchester City com a temporada rolando e Jupp Heynckes e Manuel Pellegrini ainda treinando as equipes. Ou Antonio Conte acertado com o Chelsea ainda comandando a Itália na última Eurocopa ou Louis Van Gaal fechado com o Manchester United disputando a Copa do Mundo de 2014.

Mas desta vez criou uma quebra de confiança dentro do grupo da seleção espanhola, que já tem suas tensões naturais entre jogadores de Real e Barcelona. Uma inacreditável falta de tato e sensibilidade. Do Real por ter acertado com o treinador sem avisar à Federação Espanhola e anunciado oficialmente às vésperas do Mundial e, principalmente, de Lopetegui por ter aceitado a proposta depois de esconder a negociação, tendo o contrato renovado recentemente até 2020. Atitude infeliz que  ejetou o treinador do comando da Roja. Demissão anunciada na véspera da abertura da Copa.

Algo inédito, que abala muito o favoritismo espanhol. A seleção que apresentou melhor futebol em 2018. Consolidando os dois anos do ciclo de sucessão de Vicente Del Bosque. Praticamente o mesmo tempo de trabalho de Tite. Mas suficiente para resgatar o estilo e o espírito que se esvaiu depois da conquista da Eurocopa 2012. Agora se transforma em um enorme ponto de interrogação.

Pensando com o olhar brasileiro, é um forte concorrente que, ao menos em tese, se enfraquece para a disputa do Mundial. E já estreando contra Portugal de Cristiano Ronaldo. No pior dos cenários de uma derrota no primeiro jogo, ainda assim não deve ser problema conseguir a classificação disputando vaga com Irã e Marrocos. Mas num hipotético duelo nas oitavas contra um Uruguai ou até diante da anfitriã Rússia já pode se complicar.

Porque é uma troca de comando traumática e sem tempo para buscar uma solução bem pensada. Rubiales está no cargo há poucos meses sucedendo Angel Villar. Prometeu anunciar um nome amanhã. Tão caótico quanto surreal.

Perde o Mundial, ganha o Brasil de Tite. Uma possível final pode ter outro adversário. O futuro dirá.

 


Seis lições que o Real Madrid deixa para as seleções da Copa do Mundo
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Kai Pfaffenbach/Reuters

Sergio Ramos à parte – ou aproveitando apenas o melhor de um dos grandes zagueiros do futebol mundial -, o Real Madrid impõe com o tricampeonato e os quatro títulos nas últimas cinco edições uma supremacia única na Era Champions League do maior torneio de clubes do mundo. Tempos em que clubes são maiores que as seleções, ainda que a Copa do Mundo siga imbatível no tamanho e na repercussão, até por acontecer com menos frequência.

O time de Zinedine Zidane ganhou três Ligas dos Campeões e apenas uma liga espanhola. É de mata-mata. Ou só de “mata”, como provou nas finais que venceu. Como será para as seleções no Mundial da Rússia a partir das oitavas de final. Por isto o blog destaca seis lições que esta equipe deixa para os países envolvidos, especialmente o grupo de favoritos:

1 – Todo pecado será castigado

Errar contra o Real costuma ser letal. Até rimou. Mas tem sido assim. É um time que não perdoa vacilos. PSG, Juventus, Bayern de Munique e Liverpool. Todos tiveram períodos de domínio ou de equilíbrio e sucumbiram em falhas, individuais ou coletivas. Assim também nas outras duas conquistas. Já os equívocos dos merengues não foram aproveitados com a mesma competência. Em 180 minutos, imagine em, no máximo, 120 a importância de minimizar erros. A precisão, como sempre, será fundamental.

2 – A força da mente

O gigante de Madri se alimenta de confiança que proporciona conquistas que aumentam a força mental. Para sair de situações complicadas e também atropelar quando o oponente baixa a guarda. Tantas vezes a desorganização dos setores em campo foi compensada com uma autoridade que intimida. Até os árbitros, diga-se. Mas não deixa de ser um mérito. Tantas vitórias transmitem a certeza de que no fim tudo terminará bem e joga a insegurança natural em um jogo grande para o outro lado.

3 – O talento é fundamental

Zidane foi um dos maiores jogadores da história do esporte. Tinha um talento especial que quando foi potencializado pelo coletivo produziu maravilhas nos gramados do planeta. Como treinador manteve esta convicção e explora o melhor de seus atletas. Porque uma bicicleta de Cristiano Ronaldo, um voleio de Bale, uma assistência de Kroos e um drible de Marcelo podem desmoronar qualquer modelo de jogo. Ainda que nenhum país consiga reunir craques como os clubes bilionários, quem tem qualidade deve explorá-la muito bem.

4 – A melhor notícia é não ter novidades

Os mesmos onze titulares em duas finais de Liga dos Campeões. Só o Real Madrid conseguiu. E a base mudou bem pouco desde 2014. O entrosamento também foi um trunfo. Para jogar ao natural, “de memória”. No universo de seleções é ainda mais importante, pela impossibilidade do trabalho diário ao longo das temporadas. Não por acaso, Espanha e Alemanha venceram os últimos mundiais usando Barcelona e Bayern de Munique como bases. A renovação é inevitável, mas quanto menos mexer durante a Copa, melhor.

5 – Fase de grupos não diz muita coisa

Nas últimas duas conquistas, o Real não terminou na liderança do seu grupo na primeira etapa do torneio continental. Ficou atrás do Borussia Dortmund em 2016 e do Tottenham no ano passado. Ainda que a Copa não tenha a pausa de dois meses, nem sorteio de confrontos, a lógica segue a mesma: jogos eliminatórios são de outra natureza, envolvem outras valências e a tradição costuma contar muito. No universo das seleções, com seu grupo seleto de campeões mundiais, mais ainda. Fase de grupos é para se classificar.

6 – Serenidade e simplicidade no comando

Se há algo para Pep Guardiola, sempre pilhado demais na Champions, e outros treinadores pelo mundo devem aprender com Zidane é que num ambiente que já carrega pressão descomunal por envolver paixão e muito dinheiro, quanto mais calma o comando passar, melhor. E mesmo quando promove variações táticas ou na proposta de jogo, o treinador merengue faz com simplicidade, para que os atletas entendam e executem. Sem chamar para si os holofotes. Até porque não há revolução a ser feita numa Copa do Mundo. É jogar com calma e atenção nos detalhes.