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Real Madrid é o novo gigante estudado e parado. Pochettino achou a fórmula
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André Rocha

O 5-3-1-1 do Tottenham que bloqueou as principais virtudes e explorou as deficiências de um Real Madrid no pior momento da temporada. Especialmente Dele Alli circulando às costas de Casemiro e se aproximando de Harry Kane (Tactical Pad).

Só os próximos jogos dirão se o Real Madrid teve sua confiança abalada pela derrota em Girona no Espanhol. Apenas o tempo é capaz de mostrar ou ao menos sugerir um ponto de virada quando uma grande equipe entra em seu ocaso, ou ao menos um período de oscilação.

Mas o fato é que o bicampeão europeu vive seu pior momento na temporada 2017/2018. Não só por ver o Barcelona disparar na liderança da liga nacional e a grande chance de terminar em segundo no Grupo H da Liga dos Campeões, mas principalmente pela queda de desempenho. Muito pela ausência de Carvajal que tirou força ofensiva pela direita.

Nada, porém, que tire o grande mérito do Tottenham na vitória por 3 a 1 sobre os merengues em Wembley. Porque o treinador argentino Mauricio Pochettino parece ter encontrado a fórmula para superar a equipe de Zidane. Acontece com todos os grandes times: são mapeados, dissecados e vencidos. É o ciclo do futebol. Inevitável com tantas informações disponíveis e profissionais competentes analisando e planejando.

Pochettino não abriu mão da marcação por zona. Nem impediu que o Real terminasse com 57% de posse, 84% de efetividade nos passes e dez finalizações na direção da meta de Hugo Lloris. Mas a distribuição de seus jogadores em campo e a boa execução do plano de jogo criaram muitos problemas para os espanhois.

A começar pela linha de cinco na defesa que virou “moda” na Inglaterra com o sucesso do Chelsea de Antonio Conte. Com os laterais Trippier e Davies bem abertos fechando as descidas dos laterais Achraf e Marcelo, as opções de Zidane no 4-3-1-2 habitual para esgarçar a retaguarda adversária. Também aproveitando o corredor às costas dos oponentes, especialmente Trippier contra Marcelo, como no lance do primeiro gol da partida – com o jogador da equipe inglesa impedido antes se servir Dele Alli.

Davinson Sánchez, Eric Dier, que recuou para a zaga com a saída de Alderweireld, lesionado, logo aos 23 minutos para a entrada de Sissoko, e Vertonghen no centro fechando as diagonais e infiltrações de Cristiano Ronaldo e Benzema, a dupla de ataque bem entrosada com o francês trabalhando para o atual melhor do mundo brilhar.

No meio, um losango não para espelhar o do Real, mas para frear a fluência no setor mais forte do Real Madrid. Harry Winks plantado à frente da defesa negando espaços para a flutuação de Isco. Sissoko marcava pela direita, na zona de Toni Kroos, e Eriksen bloqueava pela esquerda, por onde normalmente circula Luka Modric. Jogadores bem próximos para não deixar brechas.

O jovem e talentoso Dele Alli era a chave para transformar o trabalho sem a bola em transições ofensivas ultravelozes e letais. Porque o meia inglês dificultava a saída de bola rival e circulava às costas de Casemiro para se juntar a Harry Kane, o atacante único do 5-3-1-1 do time londrino. Procurando os lados para abrir espaços e infiltrar em diagonal. Levando vantagem seguida sobre Nacho e Sergio Ramos, a frágil e exposta dupla de zaga merengue.

Sete finalizações no alvo. Duas infiltrações de Alli, uma de Eriksen construíram os 3 a 0 que Cristiano Ronaldo diminuiu. Lloris fez boas defesas, até porque é difícil não ser ameaçado pelo (ainda) melhor time do mundo. Mas o Tottenham mostra para o mundo como bloquear as principais virtudes e explorar as dificuldades do gigante de Madrid.

Com a assinatura de Mauricio Pochettino. Para o Tottenham garantir a classificação e buscar pela principal competição de clubes do planeta o reconhecimento do bom trabalho a longo prazo realizado em Londres.

(Estatísticas: UEFA)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Os clichês do papelão do Real Madrid na derrota histórica em Girona
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André Rocha

Algumas explicações no futebol viram clichês porque passam a ser utilizadas para justificar qualquer contexto. Mas se transformaram num senso comum exatamente pela frequência com que acontecem. Devemos sempre evitar o simplismo, mas às vezes é tão nítido que se torna inevitável.

O Real Madrid entrou de “salto alto” em Girona, na Catalunha. Ou seja, com a fé de que construiria a vitória naturalmente, quando bem entendesse diante de um debutante na primeira divisão e já lutando para não ser rebaixado. Com titulares em campo, a melhor formação – exceto Casilla no lugar de Navas e Achraf no lugar de Carvajal. Pensando, porém, na viagem a Londres para encarar o Tottenham pela Liga dos Campeões, a grande meta na temporada.

A ponto de arriscar uma saída de bola inédita, com Isco se juntando a Modric e Kroos no auxílio aos zagueiros Varane e Sergio Ramos e mandando os laterais Achraf e Marcelo e também Casemiro ao campo de ataque. Quem qualifica o passe desde a defesa recua, os jogadores com mais força e velocidade se projetam.

Mas bastava um passe errado para o time da casa encontrar uma retaguarda totalmente desorganizada. Carimbou a trave duas vezes nos primeiros 45 minutos. Na primeira, enquanto o time lamentava, o contragolpe merengue encontrou Cristiano Ronaldo para a jogada característica pela esquerda: corte para dentro e chute forte. No rebote, gol de Isco.

Parecia que mais um clichê entraria em campo: time pequeno joga como nunca e perde como sempre para o grande, que sai com os três pontos mesmo sem tanto esforço. Foi a impressão do primeiro tempo.

O intervalo, porém, fez mal ao bicampeão europeu. Talvez pela orientação de administrar o resultado mantendo a baixa intensidade, dosando energias. Também a retaguarda mais mexida no lado direito pela saída de Varane para a entrada de Nacho.

Principalmente porque o Girona acreditou. A mudança significativa foi a eficiência no acabamento das jogadas. Primeiro com Stuani, após bela jogada individual de Pons. Depois com Portu, aparentemente impedido na conclusão de letra do chute cruzado do goleador uruguaio. Aos oito e 13 minutos. Virada em cinco minutos.

A senha para Zidane, na primeira partida depois de ser premiado pela FIFA como melhor treinador da temporada 2016/2017, arriscar substituições inusitadas: Lucas Vázquez e Asensio nas vagas de Achraf e Marcelo. Como alas, recuando Casemiro como um terceiro defensor.

Então entrou em campo o último chavão: a retranca do Gironi, recuando ainda mais as linhas da variação do 3-4-3 para o 5-4-1 de Pablo Machín, claramente inspirado em Antonio Conte no Chelsea. Mas defendendo mal, pela tensão de confirmar um feito outrora improvável.

O resultado: pressão descoordenada do favorito, a fibra e a entrega absoluta da “zebra” para administrar o triunfo histórico no primeiro confronto com o maior campeão espanhol. Logo no ápice da tensão na Catalunha. Por isso a festa de título no apito final.

Um vexame do Real Madrid, que relaxou após a sequência de conquistas. Principalmente no Espanhol. Contra o Tottenham é bem provável que seja bem diferente, pela cultura do clube de valorizar mais o torneio continental. Natural, humano. Não é a primeira nem a última equipe que perde um pouco da “fome” e passa a acreditar que as vitórias virão no “piloto automático e sofrem com isso.

Por isso virou clichê.

 

 


Vanderlei Luxemburgo parou no tempo. Por isso ninguém corre mais por ele
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André Rocha

Foto: Carlos Ezequiel Vannoni/Agência O Globo

Vanderlei Luxemburgo está na história do futebol brasileiro por tudo que conquistou, pelo personagem polêmico, multifacetado e com momentos hilários. Por ter comandado o Real Madrid galáctico.

Ele também tem razão, apesar da empáfia, quando se denomina um “cara de vanguarda”. Especialmente nos anos 1990 nenhum treinador brasileiro foi mais criativo e visionário. Desde o primeiro 4-1-4-1 que se tem registro no Brasil (leia mais AQUI), passando pelo uso do “falso nove” com Evair recuando para armar jogadas e abrir espaços para as infiltrações de Edmundo e Edilson, depois Rivaldo, no Palmeiras bicampeão brasileiro 1993/94. Ainda que não seja algo totalmente original, já que o treinador se inspirou no movimento de Roberto Dinamite com os pontas Mauricinho e Romário, este no início da carreira, no Vasco de 1985 a 1987.

Ou Rincón recuando como volante para qualificar a saída de bola no Corinthians 1998, num 4-2-2-2 típico da época que, na prática, se convertia num losango com Vampeta e Ricardinho nos lados e Marcelinho mais solto. O 4-3-1-2 que virou sua marca nos anos 2000 por distribuir melhor os jogadores, como dizia José Mourinho, então melhor técnico do mundo.

No Real Madrid, assim que chegou encontrou o melhor posicionamento para Beckham e Zidane – pelos lados, à frente do “volante-volante” Thomas Gravesen e atrás de Raúl na ponta do losango. Na frente, Owen e Ronaldo. O time que venceu o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho por 4 a 2 no Bernabéu e deu uma esperança de reação em busca do título, mas não houve tempo.

Luxemburgo também teve sacadas interessantes na sua aventura em 1995 de deixar o Palmeiras dominante para comandar o Flamengo de Kléber Leite e Romário. Como posicionar o canhoto Sávio pela ponta direita para usar o recurso de cortar para dentro e finalizar – ninguém tinha pensado nisso antes. Ou alternar Fabinho e Charles Guerreiro como volante e lateral pela direita e Válber e Branco do lado oposto para dosar as energias e, ao menos tempo, confundir a marcação.

Também as polêmicas do ponto eletrônico de Ricardinho no Corinthians e, no Santos, de entrar em campo com 12 jogadores e tirar um só no gramado para dificultar o trabalho do Corinthians no clássico. Sempre pensando à frente, em alguns momentos pelo típico prazer de ser (ou parecer) mais “malandro” que todo mundo.

Além das questões táticas e estratégicas, as palestras motivacionais marcaram sua trajetória e sempre foram elogiadas pelos jogadores que comandou. Algumas bizarras com o olhar de hoje, mas eficientes na proposta de fazer com que seus atletas entrassem concentrados e até “mordidos” para, se preciso, deixar até a vida no campo. Foi pioneiro também no uso do terno e do traje elegante à beira do campo. De fato, um treinador à frente do seu tempo no Brasil.

O pecado de Luxemburgo foi deitar sobre seus louros, desviar um pouco a atenção do campo e tentar ser um “manager” como Alex Ferguson interferindo em negociações. Difícil entender até hoje como um profissional bem remunerado e que dizia sempre que seu objetivo era trabalhar na Europa não se esforçou para aprender sequer o espanhol para adquirir fluência. Seu “portunhol” é piada até hoje em Madrid, assim como seus treinos em caixa de areia e a utilização do 4-2-2-2 na temporada 2005/2006.

Parou no tempo e seus trabalhos foram perdendo qualidade e capacidade competitiva. Quando os conceitos de Pep Guardiola e as respostas de Mourinho, Ancelotti, Klopp e outros treinadores fizeram o futebol evoluir 20 anos em cinco a partir de 2008/09, o brasileiro não percebeu essa revolução. Continuou vendo tudo como antes, como sempre ressalta em suas entrevistas e participações em programas de rádio e TV.

Ficou para trás, preso ao passado. Se não nota, não aplica. Muito menos cria metodologias para que suas equipes joguem, de fato, um futebol atual. Vive do nome, do impacto da mudança quando chega a um clube com sua “grife”. Mas logo que a chacoalhada em motivação passa não há conteúdo para melhorar o desempenho.

O Sport foi só mais uma equipe espaçada, muitas vezes atacando com quarteto ofensivo de um 4-2-3-1, mais um volante ou um lateral. Cinco na frente, cinco atrás. Distantes. Porque Guardiola e outros atualizaram e aprofundaram os conceitos de compactação dos setores de Arrigo Sacchi no Milan do final dos anos 1980, ainda a referência de Luxemburgo, que acha que nada aconteceu.

Para piorar, o temperamento e a vaidade exacerbada de quem já foi e ainda se acha o número um faz com que ele perca força também na gestão do vestiário. Muitos jovens de 19, 20 anos que comanda eram crianças quando ele venceu seu último título relevante: o Brasileiro de 2004 com o Santos. Difícil entender tanta “marra”. A consequência: enquanto outros boleiros veteranos de sua geração conseguem se manter como “paizões”, ele dificulta o relacionamento.

Complica mais ainda reclamando pela imprensa, criticando assessores e outras polêmicas, tantas desnecessárias. Nas vitórias que consegue no início do trabalho chama todos os méritos para si. Quando vem a má fase, a transferência de responsabilidade aparece. “Eu venci, nós empatamos, eles perderam”.

Em Recife o aproveitamento foi fraco: 40%. Em 34 partidas, 11 vitórias, oito empates e 15 derrotas. A última pela Sul-Americana para o Junior Barranquila na Ilha do Retiro, por 2 a 0. Se no Brasil está difícil se impor, que dirá nos torneios continentais que nunca venceu, nem nos tempos áureos.

Agora complicou de vez para Vanderlei Luxemburgo se reinserir no mercado. Porque ninguém mais corre por quem parou no tempo. Dentro e fora de campo. Uma pena.


O “macete” de Cristiano Ronaldo para igualar Messi na premiação da FIFA
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André Rocha

Foto: Carl Recine Livepic/Reuters

A premiação de hoje em Londres, mesmo com todas as mudanças promovidas pela FIFA, será apenas uma mera formalidade.

Cristiano Ronaldo vencerá pela quinta vez igualando Messi porque foi campeão e artilheiro da Liga dos Campeões. Ainda mais porque desta vez foi desequilibrante como em nenhuma das outras três edições que venceu. Nada menos que dez gols contra Bayern de Munique, Atlético de Madri e Juventus nos confrontos decisivos.

Mérito do português e também de Zinedine Zidane, que conseguiu convencer o astro a se poupar ao longo da temporada para chegar voando na reta final. Ainda que isso prejudicasse nos números e na briga pela artilharia. No caso da Champions nem foi o caso, porque o desempenho brilhante fez com que ultrapassasse Messi no topo dos goleadores – 12 gols, um a mais que o argentino.

Cristiano Ronaldo demorou a entender que não seria no número de gols marcados que ele poderia rivalizar com o gênio do Barcelona. Ainda que em 2012 os 90 de Messi de janeiro a dezembro, recorde absoluto num ano, tenham definido a premiação de melhor do mundo, mesmo com o português conquistando o Espanhol com o Real Madrid.

No fim das contas, o “macete” para faturar o prêmio máximo individual é ganhar o maior torneio de clubes do mundo. Cristiano Ronaldo foi consagrado em 2008, 2014, 2016 e será hoje porque venceu e foi protagonista. A conquista da Eurocopa no ano passado foi apenas um “plus”. O mesmo valeu para Messi em 2009, 2011 e 2015.

Cristiano foi eleito em 2013, ano de domínio do Bayern de Munique, por conta dos muitos gols e da atuação antológica pela seleção na repescagem das eliminatórias europeias contra a Suécia num ano de lesões de Messi, apesar da conquista do Espanhol.

Além de 2012, Messi ganhou em 2010 pela falta de um grande destaque individual da Espanha campeã do mundo e por ter vencido o Espanhol, enquanto Ronaldo saiu de mãos abanando em sua primeira temporada no Real Madrid, eliminado nas oitavas da Liga dos Campeões. Talvez Sneijder, campeão continental com a Internazionale e vice do mundo com a Holanda. Talvez tenha faltado a tal “grife” para competir com as grandes estrelas, assim como Iniesta em 2012 campeão da Euro com a Espanha e Ribéry ou Robben na tríplice coroa do Bayern.

Entre os dois ícones desta geração, o torneio continental é a “bola de segurança”. Nesta última temporada o Espanhol veio na carona para não deixar nenhuma dúvida. Cristiano Ronaldo entendeu e desde 2014 recuperou terreno. Vai para a terceira conquista enquanto Messi só venceu uma.

Cinco a cinco. Uma década de domínio da dupla, algo sem precedentes no futebol mundial. Ainda mais se considerarmos que em oito destes rivalizam no mesmo país, protagonizando, no mínimo, dois duelos por temporada.

Pena que tantos percam tempo com comparações e na tolice de odiar um para amar o outro e não desfrutem os jogadores espetaculares que vão deixar muitas saudades quando se retirarem dos campos. Cada um com seu estilo e temperamento. Algo que certamente ficará eternizado em livros e filmes.

Quem vencerá a próxima, no “tira-teima”? Os dois já sabem qual é o “atalho”, mesmo em ano de Copa do Mundo. Quem sabe numa épica e inédita decisão entre Barcelona e Real Madrid em Kiev para parar o planeta? Não custa sonhar.


Se é momento para testes, por que não um Brasil à la Real Madrid?
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André Rocha

Foto: Ricardo Botelho (FolhaPress)

Para o jogo contra a Bolívia em La Paz na quinta-feira, Tite confirma a mudança forçada – Alex Sandro no lugar dos lesionados Marcelo e Filipe Luís na lateral esquerda – e uma por opção: Thiago Silva na vaga de Marquinhos, formando a zaga com Miranda.

A outra alteração em relação à última rodada das Eliminatórias é o retorno de Philippe Coutinho ao lado direito da linha de meias do 4-1-4-1 à frente de Casemiro. Com a saída de Willian, a mudança de perfil, como afirma o próprio treinador: “Tenho um mais vertical e agudo, que ataca os espaços (Willian), e outro mais construtor (Coutinho)”.

Coutinho constroi porque é meia. Dos bons. Mas costuma render melhor partindo da esquerda ou do centro. Na própria seleção, seus grandes momentos, incluindo o golaço sobre a Argentina, foi saindo do lado direito para circular às costas dos volantes adversários. Quando abre ainda fica desconfortável, não tem o timing para as combinações com Daniel Alves.

Tite deixa claro que sua convicção é na qualificação deste 4-1-4-1 até a Copa, com a variação do desenho tático para o 4-2-3-1 com Coutinho por dentro e Willian pela direita. Legítimo, até pelo pouco tempo de trabalho até aqui e menos ainda até o Mundial da Rússia.

Mas por que não um teste para ter um coelho na cartola, algo para surpreender os rivais que certamente depois de confirmarem suas vagas na Copa vão dissecar um dos candidatos ao título? E isto é possível sem mexer na formação titular.

O Real Madrid conquistou Espanhol e Liga dos Campeões na temporada europeia passada e cresceu na reta final quando Zinedine Zidane, sem o lesionado Gareth Bale, colocou Isco em seu lugar. Com isso mudou também o sistema: de um 4-3-3 rígido, com Casemiro na proteção e dois meio-campistas mais organizadores – Modric e Kroos – e o trio “BBC” na frente. para um 4-3-1-2 mais flexível, com ou sem a bola.

Porque Isco ganhou liberdade para circular e também permitiu que Cristiano Ronaldo não fosse nem centroavante, nem ponteiro, mas atacante numa dupla com Benzema. Trocando de lado, buscando as diagonais, tabelando. A  troca deu liberdade aos laterais Carvajal e Marcelo para apoiarem ao mesmo tempo, abrindo o sistema defensivo adversário.

Sem a bola, duas linhas de quatro. A do meio-campo bastante móvel,em função do posicionamento de Isco no retorno. Se ele volta pela direita, Casemiro e Modric fecham o meio e Kroos abre à esquerda; se retorna pela esquerda é Modric quem abre pela direita e Kroos se junta ao volante brasileiro no centro. Quando Isco recompõe centralizado, Casemiro se adianta na compactação e Modric e Kroos fecham os flancos.

O 4-3-1-2 com Isco se aproximando da dupla Cristiano Ronaldo-Benzema e voltando na recomposição formando uma linha de quatro móvel com Casemiro, Modric e Kroos, de acordo com o posicionamento do camisa 22 na recomposição (Tactical Pad).

Tudo executado com naturalidade e inteligência, como atua o time merengue, especialmente nos jogos grandes, decisivos. É uma equipe que se adapta às necessidades da disputa e sabe jogar com posse, instalado no campo de ataque, ou em transições ofensivas rápidas, aproveitando os espaços às costas da defesa do oponente.

Na seleção, Coutinho pode ser Isco, jogando solto, sem a obrigação de ficar ou partir do setor direito. Com isso se aproximaria mais da dupla Gabriel Jesus-Neymar, todos com autonomia para circular e procurar espaços para surpreender as retaguardas com tabelas, triangulações, infiltrações em diagonal dos atacantes.

Tite não gosta de tirar Neymar do setor esquerdo. De fato, é onde a estrela brasileira mais rende. Mas a liberdade para o talento nunca é improdutiva e as trocas com Gabriel Jesus, as diagonais mais curtas, mesmo saindo da esquerda, podem tornar o camisa dez ainda mais letal. Mais próximo da meta adversária.

Sem a bola, a lógica seria a mesma do atual bicampeão europeu: Coutinho se juntaria a Casemiro, Paulinho e Renato Augusto e a distribuição dos quatro na linha à frente da defesa se daria de acordo com o camisa onze, No caso da seleção poderia haver outra referência: o posicionamento de Paulinho e Renato Augusto, que costumam trocar muito. De lado e de função. Paulinho recua para usar seu poder de marcação. Já com Renato mais atrás o objetivo é ganhar um organizador e qualificar a saída de bola.

O meio-campo em losango na seleção teria a mesma dinâmica do Real Madrid, com Philippe Coutinho como meia de ligação e referência para a composição da segunda linha de quatro no momento defensivo. Na frente, Gabriel Jesus e Neymar com liberdade e nas laterais Daniel Alves e Marcelo aproveitando os corredores abertos (Tactical Pad).

Tite tem Casemiro e Marcelo, quando este voltar, para obter ainda mais detalhes sobre a execução. Sem contar que a referência continua sendo o seu amigo Carlo Ancelotti, já que a base do modelo de jogo, ainda que tenha amadurecido e se aprimorado, vem do italiano, que tinha Zidane como auxiliar em sua passagem pelo clube, de 2013 a 2015. Ou seja, não seria algo a surgir “do nada”.

Até porque o sistema não seria algo inédito para o comandante canarinho. Com outra dinâmica, o 4-4-2 com o meio-campo em losango já foi utilizado. O mais marcante no Internacional campeão da Copa Sul-Americana em 2008 e vice da Copa do Brasil no ano seguinte. Com Sandro ou Edinho plantado à frente da defesa, Magrão e Guiñazu pelos lados e D’Alessandro como “enganche”, articulando para a dupla Taison-Nilmar. Tempos de menos compactação e mais encaixes e perseguições individuais, mas ainda um 4-3-1-2.

Uma possibilidade, nada complexa. Algo para sair um pouco do plano original e da sua variação mais conhecida. Sem mudar a escalação ou afetar o entrosamento. Porém mexendo nas peças para ter uma alternativa. Por que não um Brasil à la Real Madrid?


Carvajal e Roger: porque o futebol é gigante, mas há coisas maiores na vida
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André Rocha

Roger é o artilheiro do Botafogo no Brasileiro com 10 gols. Referência do ataque, liderança positiva, exemplo de superação. Carvajal é a válvula de escape pela direita do Real Madrid bicampeão europeu e da seleção espanhola tentando recuperar protagonismo no cenário mundial. Jogadores fundamentais, cada um em seu contexto. Talvez vivendo o ápice de suas carreiras.

O brasileiro foi diagnosticado com tumor renal, o espanhol com um vírus que afetou seu sistema cardíaco. Saem de cena para se cuidar e é bem provável que só voltem aos campos em 2018. Ausências que certamente serão sentidas por suas equipes. Talvez o Botafogo sofra para se manter no G-6 e o Real Madrid perca mais pontos e veja o Barcelona se distanciar na liderança do Espanhol para não mais perdê-la.

Ou quem sabe todos se agigantem, lutem e corram pelos companheiros afastados por força maior das batalhas nos campos e as metas coletivas sejam alcançadas, até superadas.

E daí? Os dois, em continentes distantes, são humanos, essencialmente. Sentem medo, frustração por deixar de fazer, ainda que temporariamente, o que mais amam. A insegurança natural da dúvida: será que volto? Como retornarei aos gramados? E se perder o status que tenho hoje e construí com sacrifício?

Por isso precisam de força, das melhores energias. Ainda que Roger vença o jogo todo dia com sua filha Giulia, 11 anos e deficiente visual. Dupla que emocionou o país pelo amor e por ver o lado bom das coisas. Atacante que pensou em abandonar a carreira e o fundo do poço fez nascer um profissional e um homem melhores. Na nossa inesgotável capacidade de nos reinventar.

Já a vitória de Carvajal é outra: no Real que sempre foi clube comprador e só agora, com Zidane, olha um pouco mais para suas divisões de base, o lateral amassou barro, penou com poucas oportunidades e acabou negociado com o Bayer Leverkusen em 2012 para um ano depois ser recontratado por quem o revelou, não aproveitou e se arrependeu. Certamente aprendeu com as idas e vindas.

Porque o futebol é gigante, mas há coisas maiores na vida. Ainda que sejamos tão pequenos tantas vezes. Nos sensibilizamos com a tragédia da Chapecoense que vai completar um ano, mas hoje o time está aí na roda viva do Brasileiro, ainda com risco de rebaixamento, e não dimensionamos mais a perda esportiva como antes. No aspecto humano, a guerra de familiares com a direção exigindo tratamento mais justo. Seguimos aos trancos e barrancos.

Todos os times brasileiros demonstraram nas redes sociais solidariedade a Roger. Mas por que tem que ser sempre na hora da dor, do sofrimento? Por que não somos mais sensíveis e menos pragmáticos e competitivos no cotidiano, ainda que o objetivo do jogo seja fundamentalmente vencer o adversário?

Vencer, não odiar. Só nesta hora o Flamengo estende a mão ao rival Botafogo depois de tantas provocações e mortes de torcedores? Só assim para muitos na Espanha deixarem o ressentimento histórico do Real Madrid e direcionarem um olhar piedoso para um de seus atletas? Só Só aprendemos apanhando e derramando lágrimas?

Só na dor extrema respeitamos minuto de silêncio, não brigamos em estádios, deixamos de lado os preconceitos, os tabus, as rivalidades que passam do ponto, ficamos menos intolerantes e violentos física e verbalmente?

Ou ainda, só nos sensibilizamos pelo atleta famoso, que está na mídia? E os jogadores subempregados ou desempregados no país e no planeta bola? Ou os anônimos sofrendo em hospitais públicos sucateados, talvez com as mesmas enfermidades desses dois atletas? Não merecem o mesmo olhar nosso? Não fazem jus a um texto como este?

Que Roger e Carvajal encontrem paz e força para superarem a adversidade. Que o futebol sirva para aumentar a corrente positiva por eles, seus familiares e amigos que estarão juntos na batalha. Que seus corpos, instrumentos de trabalho, voltem ativos e perfeitos. Que as mentes e os espíritos fiquem mais fortes.

Mas, principalmente, que todos reflitamos sobre a capacidade de dar o tamanho devido às coisas e pessoas sem precisar do sofrimento como choque de realidade. No fim das contas é o que mais precisamos. Para ontem.


Real Madrid, a “Lei de Guardiola” e o risco de repetir fiasco com Mourinho
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André Rocha

Foto: Getty Images

Pep Guardiola teve sua primeira experiência em um time de primeira divisão com o Barcelona na temporada 2008/2009. De lá para cá disputou oito ligas nacionais: quatro na Espanha, três na Alemanha e uma na Inglaterra. Mais um ano sabático em 2012/13. Venceu seis. Ou três quartos.

Mesmo que seus detratores relativizem tudo que o treinador venceu pela qualidade dos jogadores – talentos que ele ajudou a desenvolver ou evoluir e o maior exemplo é Lionel Messi – é um retrospecto impressionante para um profissional que ainda não completou dez anos de rodagem.

Por isso merece respeito sua tese de que “o título (da liga) se ganha nas oito últimas rodadas e se perde nas oito primeiras”.  Ainda que em várias delas, especialmente com o Bayern de Munique, seu time tenha vencido praticamente de ponta a ponta.

O Real Madrid de Zinedine  Zidane iniciou a temporada de forma primorosa, vencendo Barcelona e Manchester United e conquistando as Supercopas da Espanha e da Europa com sobras e jogando um futebol que conciliou arte e competitividade. Teve a bola contra os ingleses e no superclássico em Madrid e matou o time catalão nos contragolpes no Camp Nou. Sinalizava uma manutenção do domínio do país e no continente.

No entanto, os resultados nas cinco primeiras rodadas do Espanhol são decepcionantes: duas vitórias, dois empates e uma derrota, para o Real Betis de Quique Setién no Santiago Bernabéu. Em termos de desempenho, ao menos no único revés com a equipe mais completa, não houve queda acentuada. Faltou eficiência nas finalizações – foram 27, 12 de Cristiano Ronaldo e pelo menos três chances que o português não costuma desperdiçar.

Certamente Zidane não contava com tantos pontos perdidos, mas talvez o início menos intenso para voar no final da temporada faça parte do planejamento, com em 2016/17. Ou na recuperação em sua temporada de estreia, quando ficou a um mísero ponto do campeão Barça. A diferença é que quando assumiu sucedendo Rafa Benítez estava apenas dois pontos atrás dos blaugranas e a quatro do então líder Atlético de Madrid.

Agora são sete pontos. Distância considerável, ainda que com um ponto a menos em relação à fatídica jornada de 2012/2013. O ano do fiasco por conta do desgaste de José Mourinho com o elenco merengue que fez a equipe derrapar e o Barcelona, comandado por Tito Vilanova depois da saída de Guardiola, aproveitou para disparar e não perder mais. Terminou com 100 pontos, 15 a mais que o Real.

Os mesmos 100% de aproveitamento em cinco partidas, com gols de Messi em profusão. A mesma fome culé depois de perder o título na temporada anterior. Agora talvez pese um certo relaxamento madridista após tantas conquistas. Ou o foco, até pela cultura do clube, no tricampeonato inédito da Liga dos Campeões.

Seja como for, o inicio é preocupante e precisa de recuperação já a partir do jogo contra o Alavés fora de casa neste sábado. Para não valer a “Lei de Guardiola” e o Barcelona nem precise das oito últimas rodadas para confirmar seu 25º título nacional e se aproximar mais do grande rival, que ostenta a marca de 33 troféus. A conferir.


O que o Real de CR7 tem a ensinar ao PSG no caso Neymar x Cavani
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André Rocha

No dia 29 de agosto de 2009, Cristiano Ronaldo estreava oficialmente pelo Real Madrid. Na vitória por 3 a 2 sobre o Deportivo La Coruña, o craque português, então com 24 anos e já uma Bola de Ouro no curriculo pelo Manchester United, marcou seu primeiro gol com a camisa merengue.

Em cobrança de pênalti. Com a camisa nove, herança de Di Stéfano, ídolo eterno dos madridistas. Sem a sete, que pertencia a Raúl González, outra bandeira do time da capital espanhola. A oito era de Kaká e a onze de Karin Benzema. Quarteto ofensivo contratado para marcar a nova era galáctica do clube no retorno de Florentino Pérez à presidência. O treinador era Manuel Pellegrini.

Comando que deixou bem claro, desde o princípio, que Cristiano Ronaldo, então a mais cara contratação da história do esporte (94 milhões de euros), seria a estrela maior. Cobrador de pênaltis e faltas. A equipe jogaria para voltar a vencer no continente e fazer do português o protagonista do futebol mundial, superando Messi.

No Paris Saint-Germain, a impressão é de que houve algum ruído na comunicação. Neymar chegou com o pagamento da multa rescisória de 222 milhões de euros ao Barcelona e toda pompa e circunstância. Mas mesmo com os olhos do mundo voltados para o brasileiro, que recebeu a camisa dez e a promessa de protagonismo pelo dono do clube, o sheik do Catar Al-Kelaifi, já ficou claro que Cavani, artilheiro e grande destaque na última temporada, não cederá o posto de cobrador oficial de pênaltis.

Nem abrirá mão de se colocar como a referência no centro do ataque para seguir como o goleador máximo da equipe de Unai Emery. Pelo visto, a fase de se conformar com o papel de coadjuvante foi embora com a saída de Ibrahimovic para o Manchester United.

Na vitória por 2 a 0 sobre o Lyon no Parc des Princes, o pedido de Neymar, a recusa de Cavani e o chute do camisa nove defendido pelo goleiro Anthony Lopes antes de bater no travessão. Em uma cobrança de falta, o uruguaio quis tomar à frente e Daniel Alves precisou tirar a bola e entregá-la ao camisa dez. No vestiário, segundo o jornal L’Équipe, houve o desentendimento entre os dois atacantes.

A impressão é de que houve falha na gestão do elenco ou alguém está sendo insubordinado. Porque normalmente os cobradores são definidos pelo treinador no vestiário exatamente para evitar conflitos. Difícil entender.

Ou é bem simples: a fogueira de vaidades pode estar consumindo o projeto de poder do Paris Saint-Germain na Europa já no início desta nova etapa. Faltou jogar limpo. Deixar claro a divisão de funções e atribuições com os novos contratados.

Em comum com o Real de 2009, o excesso de peças ofensivas que parecem não encaixar: Draxler, Mbappé e a dupla sul-americana.  Raúl foi o primeiro a sair, depois Kaká. Ficaram Benzema e Cristiano Ronaldo que mais tarde formariam o trio “BBC” com Gareth Bale. Aí sim deu liga, mesmo com os atritos comuns entre estrelas milionárias.

O treinador também dá a impressão de que não tem o perfil, nem estofo para administrar um vestiário tão estelar e complexo. Depois de Pellegrini, o Real foi atrás do explosivo e midiático José Mourinho. Com o português conseguiu superar a barreira das oitavas de final da Liga dos Campeões depois de seis eliminações consecutivas e interromper a sequência de títulos espanhois do Barcelona de Pep Guardiola em 2012.

Mas só foi encontrar o equilíbrio e “La Decima”Liga dos Campeões com Carlo Ancelotti quase cinco anos depois da chegada de Cristiano Ronaldo e um time mais equilibrado que agora chega ao apogeu comandado por Zinedine Zidane. Com o português genial a meses de conquistar sua quinta Bola de Ouro.

O PSG vai precisar de ainda mais paciência porque não tem a história e o peso da camisa do Real Madrid. E, pelo menos por enquanto, Neymar não tem o tamanho de CR7. Mesmo com o sucesso no Sevilla, Unai Emery não parece ter o peso no comando para a ambição do clube. Neste primeiro atrito mais sério entre as estrelas pouco se ouviu falar do espanhol.

É bem possível que o sonho da Champions não se realize nesta temporada. Cabe ao clube francês aprender a corrigir a rota, mas seguir avançando para vencer as principais competições e consagrar Neymar. Como o Real Madrid que não se arrepende do investimento que fez há oito anos e tem muito a ensinar ao “novo rico” na arte de administrar sua constelação.

 


História mostra que favoritismo um ano antes da Copa do Mundo é pura ilusão
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André Rocha

Entre dezembro de 1981 e outubro de 1983, a Itália disputou 16 partidas. Nenhuma vitória nas seis primeiras, sem triunfos nas seis últimas. Venceu apenas quatro: Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha. Exatamente as que lhe deram o terceiro título mundial na Copa da Espanha.

Favoritismo? Zero, mesmo com a manutenção de boa parte do grupo da Copa de 1978 que venceu a campeão e anfitriã Argentina e terminou em quarto perdendo dois jogos, para Holanda e Brasil, por detalhes. Mas nas Eliminatórias ficou atrás da antiga Iugoslávia. Não há dúvidas, era zebra. Até pelo escândalo de manipulação de resultados, o “Totonero”, que comprometeu o futebol do país.

Parecido com o de 2006 que rebaixou a campeã Juventus e também tirou qualquer favoritismo de uma Azzurra igualmente forte e talentosa comandada por Marcelo Lippi. Outro título inesperado, quando o Brasil era favorito.

Aliás, chegar como principal candidato só fez bem ao Brasil no Chile em 1962. Ainda assim, com superação da ausência de Pelé. Garrincha e o “apito amigo” contra a Espanha ajudaram a construir o bicampeonato. O último, sendo o outro em 1934/38 dos italianos.

A Alemanha pode repetir o feito na Rússia. A conquista da Copa das Confederações reforçou a impressão de que a renovação está sendo bem conduzida por Joachim Low. Com Kimmich no lugar de Lahm e Toni Kroos suprindo a aposentadoria de Schweinsteiger. Mais Draxler, Brant, Stindl, Werner, Hector se juntando a Ozil, Muller, Hummels, Neuer.

Se em 2014 a chegada de Pep Guardiola ao Bayern de Munique foi influência clara no modelo de jogo alemão, desta vez a inspiração, ou variação do estilo, parece vir da Inglaterra, mas de um treinador italiano: o 5-4-1/3-4-3 do Chelsea de Antonio Conte. Para propor o jogo ou reagir de acordo com as circunstâncias. Um time inteligente.

Como já era há três anos, mas foi um tanto menosprezado pelo revés na Eurocopa dois anos antes na semifinal contra a Itália de Balotelli. A ponto de transformar a final da Copa das Confederações entre Brasil e Espanha em uma espécie de “tira-teima” entre a campeã mundial e bi da Eurocopa e o anfitrião buscando recuperar protagonismo.

A seleção de Luiz Felipe Scolari venceu e foi mais uma a se iludir com a conquista. Como Dunga em 2009 e Parreira em 2005. A convicção de que o grupo estava fechado e o trabalho pronto só necessitando de manutenção foi ilusória. Porque o que define os rumos do Mundial é a temporada europeia que se encerra com a Copa.

Basta lembrar a queda de rendimento de Paulinho e Fred e o período de adaptação de Neymar no Barcelona que minaram as forças de um trabalho de um ano e meio, incompleto. Assim como o de Tite agora, que acabou de completar doze meses. Dois anos perdidos com Dunga que podem fazer falta.

Porque haverá menos testes e chances de observação. Ou tempo para o amadurecimento da proposta de jogo. É um processo que vai queimando etapas por necessidade. O treinador assumiu precisando de resultados e evolução rápida. Pelo próprio mérito, as nove vitórias seguidas nas Eliminatórias alçaram a equipe diretamente do risco de ficar de fora de sua primeira Copa do Mundo à condição de uma das favoritas.

Mais rápido que isso só em 1993, quando os 2 a 0 sobre o Uruguai com atuação antológica de Romário levaram o escrete canarinho do futuro incerto ao protagonismo. Em uma partida, por conta de um atacante genial que depois confirmou seu estrelato com a taça que não vinha há 24 anos e a Bola de Ouro como melhor do mundo.

Mas a grande favorita era a Itália de Roberto Baggio, o grande jogador do ano anterior. Assim como em 2002 as apostas recaíam sobre Argentina e França, que em 1998 superou em casa o Brasil de Ronaldo, candidatíssimo ao bi. Sob o comando de Platini, os franceses eram os favoritos em 1986. Mas havia um Maradona pelo caminho. Gênio que colocou a Argentina na final em 1990, mas havia uma Alemanha na decisão para confirmar a alternância de poder.

Resumo da ópera: falar em favoritismo no ano anterior é puro chute. Até porque este Mundial tende a não repetir os dois últimos, com as vencedoras tendo como bases as melhores equipes do mundo à época. Espanha do Barcelona e Alemanha do Bayern de Munique. Com entrosamento, movimentos já executados de memória. Seleções maduras, com craques no esplendor.

Mesmo os espanhois em 2010 não chegaram com tal status. Nema conquista da Euro 2008 minimizou o fato de não fazer parte do seleto grupo de campeões. A derrota para os Estados Unidos que tirou a chance de um duelo contra o Brasil de Dunga no ano anterior fez da grande seleção daquele período uma incógnita. Talvez por isso tenha triunfado.

Agora a Alemanha titular, em tese, tem apenas Neuer, Kimmich, Hummels e Muller do time bávaro. Na Espanha,  Barcelona e Real Madrid dominam naturalmente, mas o time merengue bicampeão europeu também cede apenas quatro: Carvajal, Sergio Ramos, Isco e Asensio. A França poderia se basear em PSG e Monaco, mas as mudanças na janela de transferência pulverizaram qualquer chance de ter uma ou duas equipes como referências.

O Brasil, como bem disse Renato Augusto numa coletiva recente, está “no bolo”. É candidato, como foi até no fiasco de 1990. Um ano antes, vencera a Copa América e Itália e Holanda, outras favoritas. Mas sucumbiu no Mundial pela queda técnica e lesões de seus grandes destaques: Bebeto, Careca e Romário.

Contexto, circunstâncias, o imponderável.Tudo isso pesa em um ano. Por isso é tão difícil pensar em junho de 2018. O dinamismo do mundo atual já é absurdo. No futebol mais ainda. Mais prudente celebrar a evolução brasileira e evitar falar em grupo fechado, sistema definido ou qualquer coisa que sugira uma estabilidade que não se sustenta. Serve apenas como linha mestra para não se perder no planejamento.

A Copa não começa agora. Melhor segurar a ansiedade e respeitar a sequência e o tempo de cada seleção. A pressa, neste caso, é ainda mais inimiga.


Barcelona, há vida sem Neymar. E Philippe Coutinho
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André Rocha

O Liverpool recusou a proposta do Barcelona que chegaria a 160 milhões de euros por Philippe Coutinho. O meia brasileiro era parte do plano do clube catalão para repor a saída de Neymar para o PSG. Ficou apenas com Ousmane Dembelé, contratado ao Borussia Dortmund.

Com Coutinho, Ernesto Valverde teria mais uma peça para agregar mais rapidez e intensidade ao estilo Barça, ideia que parece cada vez mais clara por conta dos jogadores que despertaram interesse e até pelo que vem apresentando neste início de temporada 2017/2018.

No Dortmund, Dembelé era o atacante a acelerar pelos flancos dentro da ideia de ataque posicional do treinador Thomas Tuchel. Exatamente o que quer Valverde. O francês não dribla nem é tão inventivo e artilheiro quanto Neymar, porém é mais vertical e capaz de mudar o ritmo das ações ofensivas.

Deve atuar pela esquerda no trio ofensivo, com Suárez e Messi alternando no centro e à direita. Mantendo também o trabalho defensivo, auxiliando Jordi Alba e formando uma linha de quatro ao se juntar aos três meio-campistas.

Um destes pode ser Paulinho, no vácuo das oscilações de Ivan Rakitic e do declínio físico de Andrés Iniesta. Para defender e, dentro da proposta de troca mais rápida de passes, infiltrar como elemento surpresa para finalizar. O entendimento com Messi pode ser bem interessante.

Assim como o movimento do argentino da direita para dentro abrindo o corredor para as ultrapassagens de Sergi Roberto, Aleix Vidal ou Nelson Semedo, lateral português contratado e ainda sem inspirar confiança. Mas potencialmente o melhor no apoio. Algo a ser trabalhado.

A combinação de características pode dar liga. Vigor físico para compensar o envelhecimento da base titular. Paulinho correndo por Busquets e Iniesta. Dembelé voando no entendimento com Messi e Suárez. Fatos novos para chacoalhar o que parece inerte.

É óbvio que coletivamente segue bem atrás do Real Madrid, como ficou claro nos duelos pela Supercopa da Espanha. Mas ao longo da temporada é possível se tornar mais competitivo e versátil. Principalmente se as baixas por lesões e suspensões não forem tão numerosas, já que o elenco segue curto e desigual.

Chances de título? No Espanhol, para recuperar a hegemonia terá que contar com uma queda de desempenho dos merengues, mas também uma hesitação do Atlético de Madrid de Diego Simeone.  Isso se não surgir uma surpresa como mais um obstáculo. Ou o Sevilla, agora com Eduardo Berizzo no lugar de Jorge Sampaoli no comando técnico, se colocar efetivamente como candidato a protagonista.

Na Liga dos Campeões vai depender dos cruzamentos no mata-mata, já que  não deve encontrar maiores problemas contra Sporting e Olympiacos e vai decidir a liderança do Grupo D com a Juventus. Tudo vai depender da evolução da equipe dentro da proposta de jogo que combina posse de bola e mais agressividade.

O Barcelona não carrega o favoritismo de outros tempos. Mas ainda há Messi. E vida sem Neymar. E Coutinho.