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Palmeiras de Felipão é versão aprimorada do campeão brasileiro com Cuca
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André Rocha

Everton faz uma falta tremenda ao Grêmio. É o desafogo dos contragolpes, o ponteiro do drible que desarticula o sistema defensivo adversário. Da infiltração em diagonal para a finalização. Um desfalque imenso para uma partida do tamanho do confronto fora de casa contra o líder do campeonato.

Mas convenhamos que por mais que se dedique e reforce o discurso de que a competição por pontos corridos é importante, a concentração e a intensidade do Grêmio no Brasileiro nunca é a mesma em relação à Libertadores. É cultura, assimilada por Renato Gaúcho, maior ídolo da história do clube, e por seus comandados.

Nada disso, porém, tira os méritos dos 2 a 0 do Palmeiras no Pacaembu. Uma atuação segura, sólida, que permitiu apenas três finalizações do atual campeão sul-americano. Nenhum no alvo. O Alviverde concluiu sete, cinco na direção da meta de Paulo Victor. Nem tanto assim, mas o jogo todo deixou a impressão de que poderia marcar mais gols, mesmo com apenas 40% de posse.

Porque Luiz Felipe Scolari e sua comissão técnica conseguiram fazer o elenco assimilar a proposta de jogo rapidamente e com muita precisão, aditivada pela confiança por conta dos bons resultados. A ponto de poder mesclar cada vez mais titulares e reservas sem queda de desempenho por falta de entrosamento.

Contra o Grêmio, a maior virtude foi a concentração no trabalho sem bola. Depois do sucesso no duelo com o Colo Colo pelas quartas de final da Libertadores, Felipão resolveu seguir apostando na marcação por encaixe. Diante do time de Renato Gaúcho, que no país é quem trabalha no modelo mais próximo do jogo de posição, com toques curtos e mobilidade em pequenos espaços, as perseguições nem precisavam ser tão longas, o que costuma desarrumar mais os setores.

Os duelos, então, ficavam bem definidos: Dudu e Willian voltavam com os laterais Leo Gomes e Marcelo Oliveira, Thiago Santos pegava Luan, Moisés bloqueava Maicon, Bruno Henrique batia com Cícero. Mayke esperava Pepê, o mesmo do lado oposto com Diogo Barbosa contra Alisson. Zagueiros Luan e Gustavo Gómez cuidavam de Jael. Na frente, Deyverson incomodava Geromel e Bressan.

O gremista que recebia a bola era imediatamente pressionado por seu marcador. Nas tentativas de triangulação, quase nunca o Palmeiras permitia o terceiro homem livre – ou seja, aquele que se desmarca e vai receber a bola mais à frente. Impressionante como o time da casa permaneceu ligado durante os noventa minutos.

Bola retomada, muitas ligações diretas. Foram 44 lançamentos na partida. Quase sempre buscando Deyverson no pivô ou Dudu na velocidade. Não por acaso, os dois melhores em campo. Um desequilibrou com gols, outro como o ponteiro que Everton costuma ser para o Grêmio. O centroavante finalizou três vezes, duas no alvo. Nas redes.

O camisa sete, melhor em campo, foi quem mais acertou dribles e passes para finalizações. Cruzou para Deyverson desviar para o primeiro gol. Ganhou da defesa e rolou para Bruno Henrique chutar e Cícero salvar quase sobre a linha. Apesar de ainda insistir muito nas reclamações com a arbitragem, já é candidato a grande destaque individual do campeonato.

Marcação por encaixe, perseguições individuais, ligações diretas, concentração, Dudu desequilibrando. Tudo isso lembra demais a trajetória que terminou com o título em 2016. Sob o comando de Cuca. Campanha fantástica no segundo turno, outra semelhança.

Só que o time de Felipão, pelo menos até aqui, parece uma evolução daquele Palmeiras. Que tinha o talento de Gabriel Jesus, mas nem sempre um pivô como Deyverson para reter a bola e contribuir para o volume ofensivo. Mais leve, sem o peso dos 22 anos sem título brasileiro e o clima tenso que Cuca costuma criar na gestão do elenco, o jogo flui melhor.

Conta também, e muito, o elenco mais qualificado e homogêneo que o de dois anos atrás. Para vencer o Grêmio e praticamente tirá-lo da briga pelo título. Com os 3 a 1 do Internacional sobre o São Paulo no Beira-Rio, sobram três reais candidatos à principal competição nacional. Os dois vencedores das partidas mais importantes do domingo e mais o redivivo Flamengo de Dorival Júnior.

A menos que surja um “fato novo”, a única possibilidade de queda do líder é o contexto da semifinal da Libertadores contra o Boca Juniors e de uma possível decisão continental interferir muito nas rodadas de fim de semana. Hoje parece improvável. Mais fácil os outros dois tropeçarem na ansiedade por taças.

Favoritismo absoluto do Palmeiras, maior que os três pontos de vantagem na tabela sobre o Inter. Returno de oito vitórias e dois empates, 16 gols a favor e apenas cinco contra. Praticamente imune a desfalques, com confiança no teto e tratando o Brasileiro sem obsessão. Não é a prioridade, mas parece ser levado cada vez mais a sério faltando nove rodadas.

(Estatísticas: Footstats)


Grêmio x River deveria ter sido a final de 2017. Agora será duelo gigante
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André Rocha

Renato Gaúcho repetiu na Arena do Grêmio o trio ofensivo do jogo de ida com Alisson e Everton nas pontas e Luan como falso nove. Mas sem Ramiro e Maicon mudou o desenho tático. Alinhou Matheus Henrique e Cícero à frente da defesa e deu liberdade a Thaciano num 4-2-3-1.

Com o meio-campo tão mexido, o time gaúcho sofreu um pouco no início contra um Atlético Tucumán obrigado a adiantar as linhas, porém mais organizado que no jogo em casa. Os argentinos terminaram o primeiro tempo dividindo a posse de bola e finalizando oito vezes, mas apenas duas no alvo.

O Grêmio foi mais eficiente: concluiu nove, quatro no alvo. Duas nas redes. Com Léo Moura como protagonista. Cruzamento na segunda trave, toque de Thaciano e gol de Luan. Depois iniciando a jogada que terminou no passe de Luan para Alisson disparar e sofrer pênalti do goleiro Lucchetti, que acabou expulso com auxílio do VAR. A cobrança precisa de Cícero resolveu o jogo e, dobrando a vantagem conquistada na ida, definiu o confronto já no primeiro tempo.

Na segunda etapa, com um homem a mais foi um passeio em ritmo de treino, com gol contra de Sánchez em finalização de Alisson e o time perdendo outras boas chances até marcar no último ataque em outro pênalti sofrido e convertido por Jael.

Quatro a zero para impor ainda mais respeito. Como esperado desde a definição do confronto, o Grêmio sobrou. Ataque mais positivo com 22 gols, apenas cinco sofridos. Líder do torneio na posse, na troca de passes e nas finalizações. 100% de aproveitamento em casa nesta edição. Encontra equilíbrio na hora de decidir.

Semifinal contra o River Plate. Equipe forte com trabalho consolidado do treinador Marcelo Gallardo. Desde 2014, com títulos da Sul-Americana e Libertadores. Também semifinalista no ano passado. Domínio absoluto no Monumental de Nuñez diante do Lanús: 59% de posse, 12 finalizações contra apenas duas. Nenhuma no alvo do time visitante. Mas só 1 a 0 no placar. Na volta, o Lanús dominou a posse, com 62%, mas novamente finalizou menos – 11 a 8 para o River, cinco no alvo para cada lado. Quatro gols contra apenas dois do então finalista inédito.

A equipe de Gallardo foi superior nos 180 minutos, mas pagou pela falta de contundência, especialmente em seus domínios. O Grêmio nada tinha com isso, dominou a decisão vencendo os dois jogos com autoridade e garantiu o tricampeonato sul-americano.

Vai buscar o tetra enfrentando outro gigante três vezes campeão. Definindo em Porto Alegre a vaga na decisão. Duelo saturado de tradição. O Estudiantes eliminado nas oitavas tem quatro taças no currículo, mas vive fase de transição. O River, não. Comprovou sua força eliminando o Independiente “Rei de Copas” e campeão da Sul-Americana. Parece mais maduro desta vez. Time de Scocco, Pratto, Quintero, Ponzo, Nacho Fernández…

Na teoria, o maior desafio da jornada épica do time de Renato Gaúcho, digna de roteiro de filme, desde setembro de 2016. Devia ter sido a final do ano passado, agora é confronto de difícil prognóstico. Mas com um favorito: o atual campeão.

(Estatísticas: Footstats)


Grêmio muda time, esquema, modelo…só não perde a “casca” na Libertadores
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André Rocha

Sem centroavante disponível para o jogo de ida pelas quartas de final da Libertadores, Renato Gaúcho decidiu resgatar a ideia de Luan como “falso nove”, abandonada desde a grave lesão de Douglas em 2017. Armou um 4-3-3 com Ramiro no meio-campo, abrindo vaga pela direita para Alisson. Com Everton na esquerda, o ataque tinha pontas para acelerar e buscar as infiltrações em diagonal.

No entanto, mesmo para o atual campeão sul-americano e com trabalho de dois anos consolidado, não é simples mudar um padrão. O Grêmio sofreu no primeiro tempo do Monumental José Fierro contra um Atlético Tucumán intenso e que atacava como se não houvesse amanhã e nem a partida de volta. Trunfo de uma equipe fortíssima em seus domínios – não perdia desde março.

Tanto volume que impôs superioridade na posse sobre um time que preza o controle da bola. Mas a equipe gaúcha não se perdeu. Controlou espaços e esperou a hora de acelerar as transições ofensivas. O primeiro gol em mais um momento inusitado para o Grêmio: bola longa de Maicon, toque de Cícero vencendo a disputa pelo alto para servir Alisson.

A expulsão de Gervásio Núñez com auxílio do VAR por pisar em Alisson caído no gramado esfriou time e torcida. O Grêmio até avançou as linhas, mas definiu mesmo no passe longo de Léo Gomes para Alisson dar assistência e Everton marcar seu quinto gol no torneio continental.

O tricolor gaúcho, criticado tantas vezes na temporada pela posse de bola estéril, terminou com 48% e finalizou menos que o oponente, mesmo com um a mais durante boa parte do segundo tempo: oito contra treze, mas cinco no alvo. Duas nas redes.

A objetividade também tem sua beleza. E o Grêmio venceu bonito na Argentina. Encaminha bem demais a classificação para a nona semifinal. Porque pode mudar escalação, sistema, até o modelo de jogo. O time de Renato Gaúcho só não perde a “casca” na Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)


Internacional e Palmeiras vencem clássicos “típicos” e ganham uma rodada
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André Rocha

Beira-Rio e Allianz Parque foram os palcos dos grandes clássicos da 24ª rodada do Brasileiro. Mesmo prejudicados pelo Grêmio muito desfalcado e o Palmeiras seguindo seu roteiro de colocar mais reservas em campo no fim de semana quando tem jogo de mata-mata em seguida.

Duelos que seguiram o roteiro da maioria dos clássicos e jogos decisivos no país: muita concentração defensiva, jogo simples para minimizar erros e não correr riscos, disputa física com jogadores pilhados para mostrar aos torcedores que estão ligados e, claro, pressão nas arbitragens. Ou seja, seguindo velhos discursos: “clássico não é para jogar, mas para vencer” e “será decidido nos detalhes, quem errar menos sairá com os três pontos”.

Em ambos, times sem muita ambição e mais preocupados com o trabalho defensivo no primeiro tempo. Mesmo para quem tomava a iniciativa e ficava com a bola – inicialmente os times da casa. Compreensível para o Corinthians que estreava Jair Ventura na casa do rival e buscava um reequilíbrio. Ou, no popular, “fechar a casinha”.

Vitórias dos mandantes que souberam se impor. O líder Internacional manteve sua proposta de jogo, alternando Nico López e William Pottker pelas pontas no 4-1-4-1 habitual, ora ocupando o campo de ataque, ora negando espaços ao maior rival. Até Uendel, substituto do suspenso Iago, colocar na cabeça de Edenilson e decidir.

Porque faltou ao Grêmio de Renato Gaúcho o “punch” de outros momentos. Muito pelas ausências de Kannemann, na seleção argentina, e Maicon por lesão. Também da velocidade e do drible de Everton, a serviço de Tite. Sobraram a fibra do campeão da Libertadores e a boa surpresa do meia Jean Pyerre, que entrou na vaga de Luan deu trabalho a Rodrigo Dourado e Marcelo Lomba. Foram 55% de posse e 12 finalizações contra nove do Colorado, três para cada lado.

Triunfo simbólico para comprovar a força da equipe de Odair Hellmann e tirar a má impressão do empate sem gols com os reservas do Palmeiras na primeira partida em casa contra os times na ponta da tabela.

Até porque a formação que Luiz Felipe Scolari manda a campo no Brasileiro também vai se impondo na autoridade da transformação anímica no clube com a chegada do treinador ídolo e multicampeão. Com Weverton no gol, Felipe Melo no meio e Dudu na frente. Mas usando o fator campo para acuar o rival.

Thiago Santos e Felipe Melo mais fixos liberando Lucas Lima e os laterais Marcos Rocha e Victor Luís. Passes longos, Deyverson no pivô retendo a bola ou partindo para a conclusão. Dudu e Hyoran alternando pelos flancos e buscando as infiltrações em diagonal. Jogo direto, eficiente e que vai desgastando o adversário.

Ainda mais o Corinthians em transição, abalado e que só queria retomar a solidez sem a bola. No 4-2-3-1, com Romero pela esquerda tentando acompanhar Marcos Rocha, que aparecia nas ultrapassagens e também nas cobranças de lateral diretamente na área adversária. Na segunda etapa, a entrada de Moisés no lugar de Thiago Santos deu ainda mais volume ao Alviverde.

Até o passe de Marcos Rocha para a finalização de Deyverson. A mais precisa das 12 do Palmeiras contra apenas quatro do atual campeão brasileiro – nenhuma no alvo. Mesmo verticalizando o jogo quase o tempo todo, o time da casa terminou com 54% de posse. Controlou bem a partida dentro do contexto.

Dudu foi o destaque, com cinco finalizações, um chute no travessão em bela jogada individual e levando vantagem principalmente quando aparecia pela esquerda contra o inseguro Mantuan. Muito diferente do jogador inconstante dos tempos de Roger Machado. Mais um ponto para Felipão.

Mais três para Inter e Palmeiras. Em jogos mais pegados que jogados. Clássicos “típicos”. Vencidos pelas equipes em alta que souberam aproveitar o mando de campo para não deixar o São Paulo retomar a liderança. Ganham uma rodada na busca do título.

(Estatísticas: Footstats)


Volta do Grêmio titular salva mais um Brasileiro “água de salsicha”
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André Rocha

Sim, o São Paulo foi heroico sem Nenê e Everton no quarteto ofensivo e perdendo Diego Souza expulso ainda no primeiro tempo contra o Fluminense no Morumbi. Na fibra conseguiu o empate com Tréllez, o reserva que já descomplicou outras partidas e é mais um recurso de Diego Aguirre.

Está com jeito de campeão e Internacional e Flamengo, os concorrentes principais no momento, aumentam essa impressão deixando pontos pelo caminho e falhando em partidas em que deviam confirmar a força na disputa. Mais Palmeiras e Cruzeiro ainda envolvidos com Copa do Brasil e Libertadores.

Para os são-paulinos, o cenário é maravilhoso. E há muitos méritos do time em um clube gigante sem conquistas relevantes há tanto tempo. Especialmente na personalidade e na força mental. Se protagonizar o sétimo título do tricolor do Morumbi não é justo colocar ressalvas ou asteriscos – a menos que algo excepcional aconteça neste returno.

Mas o rendimento é o mais do mesmo da “água de salsicha” que tem sido as últimas edições do Brasileiro. Ainda mais com as competições mata-mata sendo disputadas o ano todo. Calendário inchado, pouco tempo para treinar, pressão por resultados imediatos, torcidas insanas nos estádios e redes sociais. É pensar no próximo jogo da competição tratada como prioridade. Fazer o simples sem muita margem de evolução.

A exceção é o Grêmio. Mesmo com oscilações ao longo da temporada e a dura adaptação à perda de Arthur para o Barcelona, o time de Renato Gaúcho continua jogando, na média, o melhor futebol do país. Trabalho menos longevo que o de Mano Menezes no Cruzeiro, porém mais assimilado e conseguindo manter o rendimento acima dos demais.

É o único capaz de proporcionar espetáculos como os 4 a 0 sobre o Botafogo. Sim, adversário frágil em Porto Alegre. Mas quantas vezes os demais concorrentes envolveram com tanta facilidade os oponentes mais fracos e ainda brindando o público com belas tabelas, triangulações e dribles?

Maicon assumindo a organização, Luan encontrando espaços entre a defesa e o meio-campo adversários – mesmo sem a fase de melhor da América em 2017. Na frente, enfim Jael se firmando como titular e Everton Cebolinha como o elemento desequilibrante partindo da esquerda para criar e finalizar. Alta posse de bola, ocupação do campo de ataque, mas também com solidez defensiva. Subiu para o quinto ataque mais positivo e segue como a equipe menos vazada.

Caiu na Copa do Brasil para o Flamengo, sim. Sendo inferior aos rubro-negros nos 180 minutos, mas tendo períodos de domínio e colocando o adversário em risco. Sem abrir mão da sua maneira de jogar que nos melhores momentos combina beleza e eficiência como nenhum outro no Brasil.

É claro que há outros times em ascensão e que merecem ser lembrados, como o Atlético Paranaense de Tiago Nunes e o Santos de Cuca. Mas com outros objetivos no campeonato. Há pouco ficar longe do Z-4, agora alcançar o G-6. Difícil sonhar mais alto que isso.

O Grêmio está a seis pontos do São Paulo faltando 16 rodadas. Diferença perfeitamente reversível, mas com a Libertadores como obsessão do clube e  boas possibilidades de eliminar o Tucumán para chegar às semifinais, a falta de foco e a utilização de reservas em jogos importantes devem tirar o fôlego para uma arrancada. Só se os suplentes encaixarem bons jogos nesses hiatos. Fica mais difícil com a competição afunilando, momento em que times lutando para não cair dão a vida por pontos.

Tudo é risco e a competição tratada como prioridade não é fácil de vencer. Pode até terminar o ano apenas com as conquistas do Gaúcho e da Recopa Sul-Americana e ver um Cruzeiro ou Palmeiras como o time do ano faturando as taças no mata-mata. No país do futebol de resultados talvez falem até em “fracasso”.

Ainda assim, seguirá ostentando o futebol mais agradável às retinas. A salvação até aqui de mais um Brasileiro achatado por baixo em técnica e tática.


Não precisava ser tão sofrido, mas é assim que o Grêmio ama na Libertadores
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André Rocha

Os primeiros minutos em Quilmes dos 180 disputados entre Grêmio e Estudiantes pelas oitavas de final sinalizavam uma classificação tranquila do atual campeão da Libertadores. Posse de bola, personalidade e proposta ofensiva. Chance clara desperdiçada por André. Mas golaço de Apaloaza na sequência.

No final do primeiro tempo, Kannemann diminuiu para 2 a 1  – Campi havia ampliado no melhor momento da equipe argentina na partida e no confronto. Segundo tempo de pressão gremista, ainda maior depois da expulsão de Zuqui. Não veio o empate, mas trouxe esperança para a volta em Porto Alegre.

Fé que virou certeza com o golaço de Everton aos seis minutos completando bela assistência de Jael. De novo um ótimo início do time de Renato Gaúcho, envolvendo e criando espaços entre os setores do 5-3-2 montado por Leandro Benítez. Mas dois minutos depois Jailson errou, o sempre seguro Geromel falhou no “pé de ferro” e Lucas Rodriguez avançou para tocar na saída de Marcelo Grohe.

Um time sem experiência e confiança de títulos teria desmanchado mentalmente com um anticlimax tão pesado. Parecia que era noite para tudo dar errado. Uma impressão crescente de que a ventura estava ao lado dos argentinos.

Não para o Grêmio. Time, Renato e torcida. Mesmo com tensão, o Grêmio seguiu atacando. Com Alisson na vaga de Ramiro, que talvez tenha cumprido sua pior atuação com a camisa tricolor. Depois André e Pepê substituindo Leo Moura e Jailson. Empilhou atacantes no 3-1-4-2 com Cortez como terceiro zagueiro e dois centroavantes enfiados. Kannemann correndo, gritando e lutando por todos. O melhor em campo.

O time da casa manteve a média de 70% de posse de bola e teve boas oportunidades no universo de 23 finalizações, oito no alvo. Mas exagerou nos cruzamentos: 45 no total, 27 na segunda etapa. Diante de um adversário exausto e inexperiente, não era para sofrer tanto e só conseguir o gol nos acréscimos para levar para a decisão por pênaltis. Na bola parada com Luan colocando na cabeça de Alisson. Uma falta boba de Facundo Sánchez.

Mas quem se importou na Arena? A explosão e a atmosfera perfeita para ser 100% na disputa. Depois de apenas o acerto de Cícero contra o Atlético Paranaense no sábado nas últimas cinco cobranças. Campi isolou, nem foi necessária a intervenção de Grohe. Cinco a três.

Já era sofrido o suficiente. O Grêmio é favorito contra o Atlético Tucumán nas quartas, também pelo jogo de volta em casa. Talvez a trajetória seja menos tensa. Se acontecer, time e torcida certamente guardarão na memória a noite da adrenalina e da apoteose que alimentou o mito do “Imortal Tricolor” nas oitavas. Porque os erros e acertos construíram o cenário tão amado pelo campeão da América.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Grêmio 1×1 Cruzeiro- melhor jogo da quarta, salvo pela semana sem mata-mata
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André Rocha

Ainda que Mano Menezes tenha poupado Dedé, Henrique e Edilson e guardado Lucas Silva, Robinho e Thiago Neves no banco para o segundo tempo, o Cruzeiro foi para a Arena do Grêmio com uma formação competitiva. Eliminado da Copa do Brasil , o Grêmio de Renato Gaúcho entrou com todos os titulares.

Fosse num final de semana de Brasileiro com mata-mata no meio e muito provavelmente teríamos uma disputa morna, com equipes formadas apenas por suplentes e sem tanto interesse assim. A tabela salvou o melhor jogo desta quarta-feira pela abertura do returno do Brasileirão.

Equipes com os trabalhos mais longevos na Série A e propostas bem definidas: Grêmio com a bola instalado no campo de ataque buscando os espaços entrelinhas que o Cruzeiro tentava negar com marcação compacta e muita concentração sem a bola esperando a chance de espetar nas transições ofensivas em velocidade.

Time visitante fechado em duas linhas, com De Arrascaeta mais próximo de Barcos e Bruno Silva e Rafinha pelos flancos acompanhando Bruno Cortez e Léo Moura. Principalmente para que Ezequiel pudesse acompanhar Everton quando ele infiltrasse da esquerda para dentro. Luan buscava brechas às costas de Lucas Romero e Ariel Cabral, mas nunca encontrava boa conexão com André, injustificável insistência de Renato. Jailson saía para pressionar os meio-campistas adversários e Maicon organizava.

Primeiro tempo com o jogo mais à feição do Cruzeiro. Controle de espaços, o Grêmio com 67% de posse, mas apenas três finalizações, uma no alvo. Time mineiro concluiu seis, cinco na direção da meta de Paulo Victor. A mais eficiente e bela de Bruno Silva, em típica ação que executava no Botafogo ano passado, vindo da direita para concluir.

Na segunda etapa a partida cresceu muito com o time gaúcho buscando ser mais objetivo. E foi como costuma ser nos últimos tempos: com Everton Cebolinha infiltrando ou conduzindo da esquerda para dentro e finalizando com precisão. O atacante convocado por Tite pode não ser o jogador mais talentoso em atividade no Brasil, mas sem dúvida vem sendo o mais desequilibrante. Sétimo gol no campeonato.

Foram seis finalizações gremistas, nenhuma do Cruzeiro, mesmo com a entrada dos três titulares. A virada poderia ter saído no pênalti de Egídio em Alisson, que entrou na vaga de Leo Moura com Ramiro fazendo a ala pela direita. Mas Luan bateu mal e Fabio pegou. De novo a estrela do tricolor gaúcho desperdiçando a cobrança – desde 2017 são 13, com seis acertos apenas. Um problema para Renato Gaúcho, já que o aproveitamento em pênaltis durante os noventa minutos vem sendo sofrível – foi a quarta cobrança seguida sem bola na rede.

O empate acabou refletindo o equilíbrio de forças. Clubes com forte cultura copeira que ainda podem se cruzar na Libertadores. Felizmente o calendário, por coincidência, permitiu na semana sem mata-mata mais um belo confronto entre dois dos times mais competitivos do Brasil.

(Estatísticas: Footstats)


Desta vez o Grêmio foi o “arame liso”. Flamengo passa no limite das forças
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André Rocha

O gol de Everton Ribeiro logo aos cinco minutos no Maracanã, completando assistência meio no susto de Lucas Paquetá, após falha do lateral Bruno Cortez, acabou decidindo o duelo parelho nas quartas de final. Mandou para casa o atual campeão da Libertadores e um dos maiores vencedores da Copa do Brasil.

Mas acabou condicionando o jogo e criando problemas para os dois times. O Flamengo recuou as linhas de seu 4-1-4-1, recuando demais os ponteiros Everton Ribeiro e Vitinho e ficando sem desafogo, já que Henrique Dourado continua com dificuldades para reter a bola na frente e dar sequências às jogadas. Quando não parava em Paquetá a bola batia e voltava.

Para o Grêmio tocar, tocar, tocar… até inverter da direita para esquerda, com Everton atraindo Rodinei para dentro e abrir para Cortez às costas de Everton Ribeiro. Mas foi pela direita a chance mais cristalina, mas concluída para fora por Everton, impedido. O time de Renato Gaúcho teve 60% de posse de bola. Finalizou oito vezes, duas no alvo. Faltou a chance cristalina.

Também por méritos do Fla. Na segunda etapa, coordenou melhor a proteção do setor direito. Rodinei subiu de produção, Paquetá passou a alternar com Everton Ribeiro na volta e negou os espaços. Com Luan sem inspiração, mesmo às vezes encontrando espaços às costas de Cuéllar, o Grêmio foi o autêntico “arame liso”, um problema recorrente do Fla nos últimos tempos. Cercou, cercou e não conseguiu furar o sistema defensivo rubro-negro que teve como principal virtude o resgate da concentração nos movimentos da última linha.

Foi o que sustentou a equipe de Maurício Barbieri, que parece estar no seu limite físico e mental. Por disputar a liderança do Brasileiro, o elenco está rodando pouco. Mas o maior problema é que o time faz muita força para jogar. Os ataques não fluem com facilidade, não há uma bola de segurança para os contragolpes – Vitinho voltou ao Brasil com uma lentidão incomum, a ponto de Marlos Moreno entrar e funcionar melhor como escape. Também não há um goleador que descomplica a disputa.

É um time sem respiro. Se desgasta para defender porque precisa da colaboração de todos para não sobrecarregar Cuéllar. Também cansa para atacar, porque normalmente precisa de muitas finalizações para ir às redes.

Desta vez conseguiu na primeira tentativa. Para “saber sofrer” por mais quase noventa em um jogo interessante em termos técnicos e táticos, porém muito tenso. Há muito a comemorar pelo valor do oponente, historicamente um rival duríssimo. Mas a questão é saber até quando o Fla vai suportar a luta como o único brasileiro com 100% de entrega em todas as frentes.

(Estatísticas: Footstats)


Já é hora de aceitar nossa alma copeira, caótica e amadora no futebol
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André Rocha

Você já foi voto vencido em decisão importante dentro da família, em reunião no trabalho ou de condomínio? Sempre vem aquela sensação de frustração, mas depois você costuma aceitar a conviver com aquilo que rejeita ou apenas discorda da prática.

Pois assim acontece também com quem sonha no futebol brasileiro com um calendário organizado, uma liga nacional forte e rentável. Por pontos corridos para a grande maioria das divisões visando garantir uma temporada completa viabilizando um planejamento de acordo com as receitas. Sem os estaduais, ou ao menos reduzindo bastante as datas e sendo tratados como torneios de pré-temporada para os times grandes.

Mas como pensar nisso se o chamado torcedor médio, ou a média do pensamento da maioria das torcidas, valoriza os torneios regionais, especialmente por causa dos clássicos, e estes geram boa audiência para a emissora que detém os direitos de transmissão que, por isto mesmo, paga uma boa cota?

Como convencer o dirigente a peitar a sua federação se ele prefere a aliança que pode dar uma vantagem aqui, uma arbitragem favorável acolá e fazer uma média com a torcida, podendo dizer no final do ano, se tudo der errado, que ao menos venceu algo na temporada e o rival não?

Como defender uma temporada inteira para o time de menor investimento se, na maioria das vezes, o dirigente pensa que é melhor se garantir com a cota do estadual e a chance de enfrentar os grandes mais vezes ao invés de buscar um crescimento sustentável, ainda que as partidas mais rentáveis se limitem aos possíveis confrontos na Copa do Brasil?

Como pensar em uma liga forte se os clubes que mais investem priorizam os torneios de mata-mata e escalam reservas no que deveria ser o principal campeonato? De que adianta Zinedine Zidane, tricampeão da Liga dos Campeões com o Real Madrid, dizer que considera o título da liga espanhola da temporada 2016/17 o mais importante da sua curta carreira como treinador porque, segundo ele, a disputa por pontos corridos é a que, de fato, premia o melhor trabalho?

Aqui a lógica é que para vencer as copas bastam quatro ou oito jogos, enquanto no Brasileiro ainda falta um turno inteiro. “Dá tempo de recuperar”, “temos que pensar no tiro curto”. Imediatismo, urgência, torcidas “bipolares” e insanas querendo taças para ontem.

Como discutir trabalhos longos de treinadores se na maioria das vezes a “dança das cadeiras” beneficia a maior parte dos agentes no processo? O dirigente porque “não ficou parado vendo o barco afundar”, o jogador que se cansa dos métodos e da convivência desgastante e gosta do “fato novo”. Os próprios treinadores, ao menos os mais renomados, que reclamam, mas faturam nessa roda viva com bons salários e multas rescisórias altas. Ou mesmo a imprensa, que gera pautas e esquenta os noticiários com as demissões, especulações do novo nome e depois os debates se “agora vai” com o técnico da vez.

Como defender a renovação do mercado de treinadores se os jovens muitas vezes repetem os erros dos veteranos? Ou acabam se perdendo em idealizações, enquanto os mais vividos se adaptam à nossa realidade caótica. Como defender profissionais como Roger Machado e Fernando Diniz se os seus conceitos, ao menos por enquanto, não fizeram eco nos clubes pelos quais passaram e um Renato Gaúcho volta depois de dois anos curtindo a praia e usa seu carisma de maior ídolo da história do Grêmio para resolver com simplicidade problemas que parecem tão complexos? Como duvidar do “messias” Felipão no Palmeiras, ao menos no mata-mata?

Remar contra a maré às vezes cansa. Exigir organização e planejamento para que todas as partes de beneficiem é pregar no deserto enquanto cada um está preocupado apenas com o seu problema. É o nosso jeito, não é fácil mudar. Já é hora de entender, mesmo sem aceitar, a nossa alma no futebol. Copeira, caótica, amadora. Com espasmos aqui e ali de profissionalismo, mas sem algo mais duradouro. Não é acaso que aqui haja tanta “alternância de poder”, sem um clube construindo uma “dinastia”.

E tantos gostam por ter mais equilíbrio, sem a previsibilidade de outras grandes ligas pelo mundo. Ainda que o nível técnico não seja dos melhores. Aliás, o que mais tem por aqui é o fã do “futebol testosterona”. O jogo “pra macho”. Ou seja, porradaria, jogo direto, bola parada, lateral na área adversária, disputa física, ódio ao rival (leia-se inimigo), “contra tudo e todos”, inclusive a imprensa.

E tem que ser sofrido, senão não tem graça. Sem “nhenhenhe” de posse de bola, conceitinho, jogo bonito e outras “frescuras”. É o jogo de Libertadores! Não por acaso tantos odeiam Pep Guardiola e outros treinadores que tentam fazer diferente.

Então que seja! Uma hora a mão cansa de esmurrar a ponta da faca. Felizmente hoje temos acesso ao melhor que o futebol internacional pode oferecer – pela TV ou agora por streaming – para quem vê o jogo e os processos no esporte de outra forma. Dá para todo mundo ser feliz. Melhor assim.


Grêmio sofre com “Everton-dependência”, mas segue vivo na Libertadores
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André Rocha

O gol de Kannemann aos 43 minutos do primeiro tempo trouxe o Grêmio de volta a um jogo que parecia não tão complicado assim, mesmo no Centenário de Quilmes. Mas André perdeu gol feito e, na sequência, o jovem Juan Apaloaza acertou o efeito em um chute espetacular. Na bola parada, os 2 a 0 com o zagueiro Gaston Campi.

O Grêmio teve chances para empatar, com André e o seu substituto, Jael – escolha questionável de Renato Gaúcho, já que o centroavante que começou no banco foi muito bem contra o Flamengo e parecia com as características ideais para o contexto da partida. Com a expulsão do meio-campista Fernando Zuqui aos 31 minutos do segundo tempo, o tricolor gaúcho parecia muito perto do empate, mas não conseguiu transformar a pressão no gol que evitaria o revés.

Porque faltou Everton. Artilheiro do time na temporada com 11 gols, melhor relação finalização/gol do elenco, líder de dribles certos no Brasileiro. Partindo da esquerda é o homem da vitória pessoal, da infiltração em diagonal, do escape nos contragolpes. Com os adversários mais atentos e permitindo menos espaços entre meio-campo e defesa para Luan é o camisa 11 o jogador capaz de quebrar as linhas de marcação do oponente e transformar a posse de bola gremista em contundência na frente. Fundamental!

Sem ele, mesmo com o esforço do jovem Pepê – corretamente mantido por Renato depois da boa atuação nos 2 a 0 sobre o Flamengo, o Grêmio fica sem seu elemento desequilibrante, o que tenta algo diferente. E vem conseguindo. O time já havia sentido demais sua falta no segundo tempo em que foi empurrado para o próprio campo pelo Fla na Copa do Brasil e ficou sem a velocidade como desafogo até ceder o empate em casa. A falta de profundidade pela esquerda se agrava quando Marcelo Oliveira ocupa a lateral e não Bruno Cortez.

A “Everton-dependência” é mérito do jogador, mas também de Renato, que perdeu Pedro Rocha, destaque na reta final da conquista da Copa do Brasil em 2016, e ajudou a aprimorar o atacante para assumir a titularidade e ser um dos destaques do título continental. Agora o treinador precisa trabalhar Marinho para se adaptar rapidamente ao modelo de jogo da equipe para ser a reposição sem queda de competitividade – ainda que este tenha atuado bem no time reserva e marcado gol sobre o Fla no sábado.

De qualquer forma, a lesão muscular não é grave e Everton deve estar em campo nos jogos de volta das competições em mata-mata, prioridades do clube na temporada. Com seu atacante mais efetivo, o atual campeão da Libertadores fica mais forte para ir ao Maracanã buscar a vaga no torneio nacional e depois receber e pressionar o jovem time do Estudiantes para seguir na sua trajetória vencedora e já histórica.

(Estatísticas: Footstats)