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Desta vez o Grêmio foi o “arame liso”. Flamengo passa no limite das forças
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André Rocha

O gol de Everton Ribeiro logo aos cinco minutos no Maracanã, completando assistência meio no susto de Lucas Paquetá, após falha do lateral Bruno Cortez, acabou decidindo o duelo parelho nas quartas de final. Mandou para casa o atual campeão da Libertadores e um dos maiores vencedores da Copa do Brasil.

Mas acabou condicionando o jogo e criando problemas para os dois times. O Flamengo recuou as linhas de seu 4-1-4-1, recuando demais os ponteiros Everton Ribeiro e Vitinho e ficando sem desafogo, já que Henrique Dourado continua com dificuldades para reter a bola na frente e dar sequências às jogadas. Quando não parava em Paquetá a bola batia e voltava.

Para o Grêmio tocar, tocar, tocar… até inverter da direita para esquerda, com Everton atraindo Rodinei para dentro e abrir para Cortez às costas de Everton Ribeiro. Mas foi pela direita a chance mais cristalina, mas concluída para fora por Everton, impedido. O time de Renato Gaúcho teve 60% de posse de bola. Finalizou oito vezes, duas no alvo. Faltou a chance cristalina.

Também por méritos do Fla. Na segunda etapa, coordenou melhor a proteção do setor direito. Rodinei subiu de produção, Paquetá passou a alternar com Everton Ribeiro na volta e negou os espaços. Com Luan sem inspiração, mesmo às vezes encontrando espaços às costas de Cuéllar, o Grêmio foi o autêntico “arame liso”, um problema recorrente do Fla nos últimos tempos. Cercou, cercou e não conseguiu furar o sistema defensivo rubro-negro que teve como principal virtude o resgate da concentração nos movimentos da última linha.

Foi o que sustentou a equipe de Maurício Barbieri, que parece estar no seu limite físico e mental. Por disputar a liderança do Brasileiro, o elenco está rodando pouco. Mas o maior problema é que o time faz muita força para jogar. Os ataques não fluem com facilidade, não há uma bola de segurança para os contragolpes – Vitinho voltou ao Brasil com uma lentidão incomum, a ponto de Marlos Moreno entrar e funcionar melhor como escape. Também não há um goleador que descomplica a disputa.

É um time sem respiro. Se desgasta para defender porque precisa da colaboração de todos para não sobrecarregar Cuéllar. Também cansa para atacar, porque normalmente precisa de muitas finalizações para ir às redes.

Desta vez conseguiu na primeira tentativa. Para “saber sofrer” por mais quase noventa em um jogo interessante em termos técnicos e táticos, porém muito tenso. Há muito a comemorar pelo valor do oponente, historicamente um rival duríssimo. Mas a questão é saber até quando o Fla vai suportar a luta como o único brasileiro com 100% de entrega em todas as frentes.

(Estatísticas: Footstats)


Já é hora de aceitar nossa alma copeira, caótica e amadora no futebol
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André Rocha

Você já foi voto vencido em decisão importante dentro da família, em reunião no trabalho ou de condomínio? Sempre vem aquela sensação de frustração, mas depois você costuma aceitar a conviver com aquilo que rejeita ou apenas discorda da prática.

Pois assim acontece também com quem sonha no futebol brasileiro com um calendário organizado, uma liga nacional forte e rentável. Por pontos corridos para a grande maioria das divisões visando garantir uma temporada completa viabilizando um planejamento de acordo com as receitas. Sem os estaduais, ou ao menos reduzindo bastante as datas e sendo tratados como torneios de pré-temporada para os times grandes.

Mas como pensar nisso se o chamado torcedor médio, ou a média do pensamento da maioria das torcidas, valoriza os torneios regionais, especialmente por causa dos clássicos, e estes geram boa audiência para a emissora que detém os direitos de transmissão que, por isto mesmo, paga uma boa cota?

Como convencer o dirigente a peitar a sua federação se ele prefere a aliança que pode dar uma vantagem aqui, uma arbitragem favorável acolá e fazer uma média com a torcida, podendo dizer no final do ano, se tudo der errado, que ao menos venceu algo na temporada e o rival não?

Como defender uma temporada inteira para o time de menor investimento se, na maioria das vezes, o dirigente pensa que é melhor se garantir com a cota do estadual e a chance de enfrentar os grandes mais vezes ao invés de buscar um crescimento sustentável, ainda que as partidas mais rentáveis se limitem aos possíveis confrontos na Copa do Brasil?

Como pensar em uma liga forte se os clubes que mais investem priorizam os torneios de mata-mata e escalam reservas no que deveria ser o principal campeonato? De que adianta Zinedine Zidane, tricampeão da Liga dos Campeões com o Real Madrid, dizer que considera o título da liga espanhola da temporada 2016/17 o mais importante da sua curta carreira como treinador porque, segundo ele, a disputa por pontos corridos é a que, de fato, premia o melhor trabalho?

Aqui a lógica é que para vencer as copas bastam quatro ou oito jogos, enquanto no Brasileiro ainda falta um turno inteiro. “Dá tempo de recuperar”, “temos que pensar no tiro curto”. Imediatismo, urgência, torcidas “bipolares” e insanas querendo taças para ontem.

Como discutir trabalhos longos de treinadores se na maioria das vezes a “dança das cadeiras” beneficia a maior parte dos agentes no processo? O dirigente porque “não ficou parado vendo o barco afundar”, o jogador que se cansa dos métodos e da convivência desgastante e gosta do “fato novo”. Os próprios treinadores, ao menos os mais renomados, que reclamam, mas faturam nessa roda viva com bons salários e multas rescisórias altas. Ou mesmo a imprensa, que gera pautas e esquenta os noticiários com as demissões, especulações do novo nome e depois os debates se “agora vai” com o técnico da vez.

Como defender a renovação do mercado de treinadores se os jovens muitas vezes repetem os erros dos veteranos? Ou acabam se perdendo em idealizações, enquanto os mais vividos se adaptam à nossa realidade caótica. Como defender profissionais como Roger Machado e Fernando Diniz se os seus conceitos, ao menos por enquanto, não fizeram eco nos clubes pelos quais passaram e um Renato Gaúcho volta depois de dois anos curtindo a praia e usa seu carisma de maior ídolo da história do Grêmio para resolver com simplicidade problemas que parecem tão complexos? Como duvidar do “messias” Felipão no Palmeiras, ao menos no mata-mata?

Remar contra a maré às vezes cansa. Exigir organização e planejamento para que todas as partes de beneficiem é pregar no deserto enquanto cada um está preocupado apenas com o seu problema. É o nosso jeito, não é fácil mudar. Já é hora de entender, mesmo sem aceitar, a nossa alma no futebol. Copeira, caótica, amadora. Com espasmos aqui e ali de profissionalismo, mas sem algo mais duradouro. Não é acaso que aqui haja tanta “alternância de poder”, sem um clube construindo uma “dinastia”.

E tantos gostam por ter mais equilíbrio, sem a previsibilidade de outras grandes ligas pelo mundo. Ainda que o nível técnico não seja dos melhores. Aliás, o que mais tem por aqui é o fã do “futebol testosterona”. O jogo “pra macho”. Ou seja, porradaria, jogo direto, bola parada, lateral na área adversária, disputa física, ódio ao rival (leia-se inimigo), “contra tudo e todos”, inclusive a imprensa.

E tem que ser sofrido, senão não tem graça. Sem “nhenhenhe” de posse de bola, conceitinho, jogo bonito e outras “frescuras”. É o jogo de Libertadores! Não por acaso tantos odeiam Pep Guardiola e outros treinadores que tentam fazer diferente.

Então que seja! Uma hora a mão cansa de esmurrar a ponta da faca. Felizmente hoje temos acesso ao melhor que o futebol internacional pode oferecer – pela TV ou agora por streaming – para quem vê o jogo e os processos no esporte de outra forma. Dá para todo mundo ser feliz. Melhor assim.


Grêmio sofre com “Everton-dependência”, mas segue vivo na Libertadores
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André Rocha

O gol de Kannemann aos 43 minutos do primeiro tempo trouxe o Grêmio de volta a um jogo que parecia não tão complicado assim, mesmo no Centenário de Quilmes. Mas André perdeu gol feito e, na sequência, o jovem Juan Apaloaza acertou o efeito em um chute espetacular. Na bola parada, os 2 a 0 com o zagueiro Gaston Campi.

O Grêmio teve chances para empatar, com André e o seu substituto, Jael – escolha questionável de Renato Gaúcho, já que o centroavante que começou no banco foi muito bem contra o Flamengo e parecia com as características ideais para o contexto da partida. Com a expulsão do meio-campista Fernando Zuqui aos 31 minutos do segundo tempo, o tricolor gaúcho parecia muito perto do empate, mas não conseguiu transformar a pressão no gol que evitaria o revés.

Porque faltou Everton. Artilheiro do time na temporada com 11 gols, melhor relação finalização/gol do elenco, líder de dribles certos no Brasileiro. Partindo da esquerda é o homem da vitória pessoal, da infiltração em diagonal, do escape nos contragolpes. Com os adversários mais atentos e permitindo menos espaços entre meio-campo e defesa para Luan é o camisa 11 o jogador capaz de quebrar as linhas de marcação do oponente e transformar a posse de bola gremista em contundência na frente. Fundamental!

Sem ele, mesmo com o esforço do jovem Pepê – corretamente mantido por Renato depois da boa atuação nos 2 a 0 sobre o Flamengo, o Grêmio fica sem seu elemento desequilibrante, o que tenta algo diferente. E vem conseguindo. O time já havia sentido demais sua falta no segundo tempo em que foi empurrado para o próprio campo pelo Fla na Copa do Brasil e ficou sem a velocidade como desafogo até ceder o empate em casa. A falta de profundidade pela esquerda se agrava quando Marcelo Oliveira ocupa a lateral e não Bruno Cortez.

A “Everton-dependência” é mérito do jogador, mas também de Renato, que perdeu Pedro Rocha, destaque na reta final da conquista da Copa do Brasil em 2016, e ajudou a aprimorar o atacante para assumir a titularidade e ser um dos destaques do título continental. Agora o treinador precisa trabalhar Marinho para se adaptar rapidamente ao modelo de jogo da equipe para ser a reposição sem queda de competitividade – ainda que este tenha atuado bem no time reserva e marcado gol sobre o Fla no sábado.

De qualquer forma, a lesão muscular não é grave e Everton deve estar em campo nos jogos de volta das competições em mata-mata, prioridades do clube na temporada. Com seu atacante mais efetivo, o atual campeão da Libertadores fica mais forte para ir ao Maracanã buscar a vaga no torneio nacional e depois receber e pressionar o jovem time do Estudiantes para seguir na sua trajetória vencedora e já histórica.

(Estatísticas: Footstats)


Volta de Felipão e “Caso Renato Gaúcho” têm semelhanças e diferenças
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André Rocha

Quando foi anunciada a volta de Luiz Felipe Scolari ao Palmeiras depois de seis anos para suceder o demitido Roger Machado, imediatamente surgiu nos debates esportivos e nas redes sociais a discussão sobre o recuo de um grande clube na busca por treinadores mais jovens e antenados.

Impossível não associar ao “Caso Renato Gaúcho”. Não tão vivido quanto Felipão, mas que também parecia fora do mercado brasileiro e se transformou no treinador mais vitorioso dos últimos dois anos em sua volta triunfal ao Grêmio com títulos da Copa do Brasil, Libertadores, Recopa Sul-Americana e Campeonato Gaúcho.

Os casos têm semelhanças, mas também diferenças marcantes. A começar pelo tempo de inatividade. Renato deixou o Fluminense em 2014 depois de um trabalho muito aquém das expectativas e ficou mais de dois anos parado. Já Scolari estava desde 2015 no Guangzhou Evergrande e empilhou títulos: campeão asiático em 2015, tri chinês e mais a Copa e o bi da Supercopa do país. Mesmo em uma liga menos competitiva é um retrospecto respeitável.

Mas Renato tinha algumas vantagens no tricolor gaúcho. É o maior ídolo da história do clube e, principalmente, desenvolveu bons trabalhos nas passagens em 2011 e 2013, garantindo vaga para a Libertadores em campanhas de recuperação. Ao contrário de Felipão no Palmeiras, o treinador encontrou o legado de um trabalho mais estruturado e longo de Roger Machado. Sem contar que num contrato inicial de apenas três meses por conta da eleição no clube não havia tanta pressão para tirar o Grêmio do jejum de 15 anos sem uma conquista relevante desde a Copa de Brasil de 2001.

Por outro lado, Felipão pode repetir com Paulo Turra, seu auxiliar junto com Carlos Pracidelli depois que Murtosa desistiu de acompanhar a comissão técnica do treinador, a parceria mais que bem sucedida de Renato com Alexandre Mendes. Enquanto o assistente, mais estudioso, trabalha na metodologia de treinamentos para manutenção do modelo de jogo, o técnico cuida dos detalhes estratégicos da equipe e, especialmente, da gestão de grupo para manter todos mobilizados. Sem contar o carisma e a coragem para lidar com imprensas e as pressões internas e externas.

Só que a última passagem de Scolari pelo clube paulista em 2012 teve dois lados bem distintos: conquista da Copa do Brasil com uma equipe limitadíssima, mas também a campanha pífia no Brasileiro que encaminhou o rebaixamento. Uma mancha que coloca uma ponta de dúvida no torcedor, assim como o emblemático 7 a 1 para a Alemanha pela seleção brasileira.

O trabalho no Grêmio em 2014/15, também não terminou bem. Abriu espaço para Roger Machado, sucedido por Renato. Agora é Scolari quem substitui Roger, mas em um cenário bem mais complexo. No olho do furacão.

O treinador da conquista da Libertadores em 1999, porém, tem muitos créditos e chega com aura de messias. Um toque de sebastianismo em ambiente político conturbado. O típico “escudo” que todo dirigente quer para sair do foco da ira de um torcedor que quer ver o alto investimento se traduzindo em títulos e se desiludiu com a volta frustrante de Cuca no ano passado. A cobrança será proporcional à esperança.

Mas tem boas chances de funcionar, especialmente nas disputas de mata-mata. No nosso futebol brasileiro passional e um tanto caótico, já está claro que se houver química e a dosagem certa de razão e emoção tudo pode dar muito certo. Aconteceu com Renato Gaúcho, por que não com Felipão?


Os problemas de Roger Machado e do Palmeiras não combinam
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André Rocha

Foto: Thiago Ribeiro/Estadão

A demissão de Roger Machado depois da derrota do Palmeiras por 1 a 0 para o Fluminense no Maracanã não pode ser considerada injusta em uma análise geral.  A equipe enfrentava problemas crônicos no momento de controlar as partidas e seguia deixando espaços demais entre os setores, além de sofrer com falhas de posicionamento na última linha de defesa. Em termos mentais também parecia frágil, sempre mais perto de sucumbir do que de arrancar os três pontos na fibra, embora tenha conseguido contra o Atlético Mineiro no domingo.

Porque Roger dá a impressão de estar vivendo um dilema em sua ainda curta carreira de treinador. Seus trabalhos não se afirmam com o passar do tempo. No Grêmio durou mais porque no primeiro ano não houve exigências. Recebeu terra arrasada de Luiz Felipe Scolari e praticamente com o mesmo elenco montou um time com ideias claras, modelo de jogo bem assimilado e que chegou a ter momentos de encantar torcida e analistas.

Subiu de patamar, inclusive nas expectativas. Mas entrou em um ciclo negativo até a demissão, embora tenha deixado o legado na maneira de jogar. À distância parece não conseguir fazer as correções pontuais e acaba quebrando a relação de confiança com os atletas, em relação à qualidade do trabalho. Foi o diagnóstico de sua passagem pelo Atlético Mineiro. Novamente um início muito bom, mas quando veio a oscilação as cobranças por conta de um elenco estelar, para o nível do futebol jogado no Brasil, diminuíram a paciência e, pressionado, não conseguiu entregar a evolução no desempenho.

Tanto lá quanto agora, os resultados no geral nem são ruins. Repetiu a melhor campanha na fase de grupos na Libertadores. Segue vivo na Copa do Brasil e com mais de um turno para reagir no Brasileiro. O que se questiona é a estagnação e alguns indícios de problemas na gestão do grupo. Algo para se trabalhar em um clube com mais paciência e fora do olho do furacão.

Então chegamos ao cenário dentro do Palmeiras. De pura esquizofrenia. Prometeram um time imbatível com arena própria e rentável e investidor forte. Ainda mais depois de vencer a Copa do Brasil e o Brasileiro em seguida ainda sem abrir os cofres o quanto poderia. Quando se impôs no mercado nacional e sul-americano, na cabeça do palmeirense o mínimo a conquistar era tudo.

Para complicar o ambiente insano, o rival Corinthians – vivendo crise financeira, mas com uma identidade de futebol desenvolvida ao longo dos anos –  venceu Brasileiro e dois paulistas. Agora caiu, porém o São Paulo, outro rival da cidade, sobe e pode assumir a liderança da principal competição nacional. Ou seja, o Alviverde não consegue ocupar o espaço que todos acreditavam que seria seu naturalmente.

A velha mania de achar que tudo se resume a dinheiro. Maior poder aquisitivo é igual a vitórias e títulos. Na Era Parmalat funcionou assim nos melhores momentos. Na fase do investimento da Crefisa está mais difícil. Cuca quando voltou foi tratado como o messias, salvador. Não conseguiu. Agora os alvos parecem ser Abel Braga e Felipão.

Pode dar certo, nada é impossível. Depois do retorno triunfal de Renato Gaúcho ao Grêmio, como duvidar? Mas talvez a maior contribuição dos dois treinadores veteranos agora seria, com o jeito franco e direto de “paizão” de ambos, tentar explicar a torcedores e dirigentes que não há fórmula mágica para vencer e que existe trabalho e investimento também nos concorrentes.

O Palmeiras quer tudo e Roger vem sofrendo quando a cobrança aumenta. Problemas que não combinam. Não podia mesmo dar certo.


Vitória em jogaço traz a resposta para o Palmeiras: faltava confiança
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André Rocha

Foi o melhor jogo do Brasileirão 2018 até aqui. Mesmo com a queda de qualidade na segunda etapa com a saída de Maicon. O Grêmio, que vem sofrendo sem Ramiro, perdeu ainda mais força no meio-campo. E Arthur também deixou o campo, restando ao time de Renato Gaúcho partir para o “abafa” nos minutos finais.

Nada que tire o mérito da vitória do Palmeiras por 2 a 0, no reencontro de Roger Machado com a Arena do tricolor. Com sua equipe em nenhum momento se limitando a defender. Apostando nos movimentos de Hyoran e Dudu cortando da ponta para dentro e Willian se movimentando e finalizando muito. Além dos dois gols, duas finalizações nas traves de Marcelo Grohe no primeiro tempo. Agora tem seis e é artilheiro da competição junto com Roger Guedes.

O grande destaque da segunda vitória seguida do alviverde, depois da virada por 3 a 1 sobre o São Paulo. Trazendo a resposta para a dúvida que persistia. Time mal treinado ou falta de confiança? A pressão sobre Maicon e Arthur prejudicando a fluência gremista e a velocidade nas ações ofensivas, desde os passes no meio com Felipe Melo e Bruno Henrique, mostraram claramente a estratégia para o duelo. Ainda que 29 faltas, nove sobre Luan, tenha sido um exagero. O desempenho coletivo, porém, foi consistente.

Foram oito finalizações, mas cinco no alvo. Posse dividida e acertou apenas vinte passes a menos que o adversário. Desarmou, interceptou e driblou mais. Jogando de igual para igual contra uma equipe que mesmo desfalcada seguia intimidando em seus domínios.

Resgatando a força mental para se impor e encerrar uma sequência de 15 partidas sem derrotas em casa do campeão da Libertadores. Também se recolocar matematicamente na condição natural de um dos favoritos ao título. E, o mais importante, ganhar confiança e créditos para o momento de pressão absurda que vem a cada derrota. Algo desproporcional, sem propósito e que pouco ajuda na evolução do desempenho. Ainda mais no Brasileirão do perde-ganha. Que sirva de aprendizado para a sequência da temporada.

(Estatísticas: Footstats)

[Em tempo: SIM, o Palmeiras também tinha desfalques – Antonio Carlos, Edu Dracena, Diogo Barbosa, Keno, Borja… É importante deixar claro, ainda que o texto seja só elogios à atuação palmeirense e a menção às ausências gremistas tenha um contexto dentro da frase. Afinal, no Brasil do pensamento binário para muitos torcedores o que não é elogio só pode ser perseguição ou coisa de “anti”.]


É o melhor Grêmio que vi jogar, mesmo que não se torne o maior da história
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André Rocha

Renato Gaúcho costuma dizer que o Grêmio em que jogou nos anos 1980 era melhor que o atual porque na época havia mais craques. Opinião que merece respeito. Afinal, ele atuou em um e dirige o outro. Mas este que escreve viu, inclusive em estádio, jogar a equipe campeã da Libertadores em 1983, finalista do torneio continental do ano seguinte e do Brasileiro em 1982.

Podia ser competitiva, guerreira, eficiente. Mas na bola jogada a equipe atual sobra. Inclusive em comparação com outras, com a também campeã da América em 1995. Começando pelo meio-campo, com Maicon, Arthur e Luan. Jogadores muito melhores que China, Bonamigo, Osvaldo, Vilson Tadei, Tita…Também Dinho, Emerson, Arilson, Luis Carlos Goiano, Carlos Miguel…

É bonito ver o atual campeão sul-americano jogar. E que bom quando Renato Gaúcho coloca os titulares também no Brasileiro. Infelicidade do Santos, que saiu da Arena em Porto Alegre com um 5 a 1, fora o baile.

Não que a equipe de Jair Ventura tenha se entregado desde o início. Procurou fechar bem os espaços, com duas linhas de quatro compactas e deixando Gabigol e a joia Rodrygo mais adiantados. Conseguiu relativamente bem, apesar da dificuldade para sair jogando diante da pressão do time da casa.

Até Maicon colocar no ângulo de Vanderlei em chute de fora da área, mais um recurso de uma equipe cada vez mais completa. Infelicidade no gol de Jean Motta logo na sequência, em chute que desviou em Kannemann. Mas tranquilidade e confiança para seguir jogando e construir a goleada na segunda etapa.

Everton, outra vez Maicon em cobrança de falta, André e Arthur. Jogando ao natural. Tocando, girando, dando opção para o jogador que está com a bola. Execução do 4-2-3-1 cada vez mais ajustada. Acelerando e desacelerando quando preciso. 61% de posse, 18 finalizações – metade na direção da meta de Vanderlei. 574 passes, com 93% de acertos.

O Grêmio gosta da bola e o futebol agradece. Se renderá mais taças o futuro dirá. Mas é o melhor Grêmio que vi jogar, mesmo que não se torne o maior da história.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Grêmio e Atlético-PR: um zero a zero para só se falar de futebol
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André Rocha

A maior prova de respeito do Renato Gaúcho campeão da América por Fernando Diniz e seu Atlético Paranaense foi o Grêmio completo, concentrado e repetindo a marcação implacável no campo de ataque da final da Libertadores contra o Lanús.

Só assim para impor a superioridade de quase dois anos de trabalho do atual treinador. Mais de três se pensarmos em um estilo que veio com Roger Machado e ganhou polimento, consciência e objetividade com Renato. Não porque Diniz seja um gênio ou mago. Apenas quer seu time jogando futebol durante noventa minutos, em qualquer estádio.

A atuação mais consistente do time que pratica o melhor futebol do país terminou sem gols, apesar das 20 finalizações – apenas seis na direção da meta do goleiro Santos. O Atlético Paranaense se recuperou na segunda etapa e só não impôs mais dificuldades pela expulsão de Camacho.

Com inferioridade numérica e atletas já desgastados por uma disputa intensa, Diniz não foi romântico nem suicida. Priorizou o ponto na Arena do Grêmio. Porque isso faz parte do futebol competitivo. Assim como a revolta pela primeira etapa de domínio absoluto do adversário. E certamente o discurso de Renato exaltando o grande jogo seria bem diferente se fosse numa partida de ida de um mata-mata sem gol qualificado, por exemplo. O pragmatismo também faz parte do jogo. Só não precisa ser o elemento único.

Algumas ideias básicas precisam ser resgatadas no Brasil. A primeira é de que a busca por um futebol ofensivo, capaz de envolver o adversário e chegar à meta do oponente nada tem de romântico ou idealista. Muito menos é algo condicionado a quanto o clube pode gastar contratando os mais valiosos jogadores. Ou seja, um privilégio das potências europeias. É apenas uma das muitas formas de se praticar o esporte bretão e buscar o objetivo final que é a vitória. Com suas virtudes, defeitos e riscos.

Diniz vai um pouco além, quer seus jogadores resgatando aquele prazer original de ter a bola e se divertir dentro da responsabilidade de um trabalho. Algo que tantos fazem nas mais diversas atividades humanas em todo o planeta. E está provado que o rendimento aumenta exatamente quando no exercício profissional o indivíduo nem lembra que é pago para fazer aquilo. Faria até de graça se não tivesse contas para quitar.

Um contraponto nesse ambiente em que parece que tudo tem que ser sofrido. Nesta mesma segunda rodada do Brasileirão tivemos um clássico nacional entre Palmeiras e Internacional no Pacaembu. Gol único de Dudu no primeiro tempo. Celebração? Para o jogador não havia clima para isto diante de tanta tensão e cobrança. O momento máximo do mais emocionante dos esportes não passava de uma obrigação. Onde estava o prazer?

A mentalidade imediatista e que trata o resultado como um fim em si mesmo dificulta o entendimento de que o jogo é um processo. Eventualmente acontece num clique, na reunião e identificação imediata dos talentos. Também é possível vencer trabalhando mal e na base do sofrimento. Mas o que o Grêmio consegue fazer não se constroi de uma hora para outra. O Atlético está no início de sua trajetória.

Precisa ter margem de erro para o aprendizado e a correção. No Brasil parece um pecado mortal. A urgência é tão grande que se o time gaúcho tivesse vencido por um a zero com o chute de Luan no primeiro tempo que parou no travessão depois de um equívoco na saída de bola atleticana para muitos já seria motivo para demitir Diniz. A perda de um ponto dentro de um campeonato com 38 rodadas é mais importante que a consolidação de um modelo de jogo que pode render mais vitórias e pontos lá na frente. Que já conquistou quatro em duas rodadas.

Talvez por isso o zero a zero. Para que seja lembrado apenas pelo futebol praticado. Sem a arbitragem ou qualquer outra questão periférica como protagonista. Onde os desenhos táticos foram quase irrelevantes diante da dinâmica, da mobilidade e também da simplicidade de alguns movimentos que mostraram o óbvio: se um companheiro dá opção, o passe fica mais fácil. E passando o time progride em direção à meta adversária de forma mais coordenada. Não precisa ser gênio, nem craque. Apenas querer e saber fazer.

A partida parou pouco e o tempo passou rápido para quem assistiu com olhos de ver. Sem a ânsia do gol. Do “jogaço” em que não há uma bola na rede como consequência de jogada construída. Para muitos, se houver oito gols, quatro para cada lado, marcados de forma aleatória, na ligação direta ou na furada grotesca do zagueiro é o que vale. Legítimo apreciar apenas a emoção instantânea do futebol. Extrair só a adrenalina.

O que se pede aqui não é unanimidade nem ditadura de uma maneira de jogar. Há várias e todas com seu valor. O post só espera respeito à essência do esporte que é o jogo. O que Grêmio e Atlético Paranaense praticaram com excelência em Porto Alegre. Mesmo sem os maiores orçamentos do país. Mesmo sem bolas nas redes.

(Estatísticas: Footstats)


A arte de Arthur no Mineirão e o “desperdício” do Grêmio no Brasileiro
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André Rocha

Foto: Daniel Coelho/Agência PressDigital/GFBPA)

Arthur acertou 96 passes e errou apenas dois na vitória do Grêmio sobre o Cruzeiro por 1 a 0 no Mineirão abrindo a Série A do Brasileiro 2018. Números que dizem menos que a arte do jovem meio-campista de 21 anos, já negociado ao Barcelona, de controlar e ditar o ritmo de jogo.

Com Maicon e Ramiro e mesmo sem Luan, substituído por Cícero, fez o time de Renato Gaúcho atuar como protagonista fora de casa diante de um dos candidatos em potencial ao título nacional. Chegou a ter 70% de posse e fechou a primeira etapa com 61%. Finalizou pouco, apenas cinco vezes, duas no alvo, contra 13 do adversário – só três na direção da meta de Marcelo Grohe.

Na bela ação de Ramiro, o desvio de Cícero e o gol do estreante André. Ratificando no placar uma superioridade clara do campeão da Libertadores e gaúcho sobre o da Copa do Brasil e mineiro que, mais uma vez, ficou devendo futebol em um grande desafio. O tricolor tem uma maneira definida de jogar que vai se aprimorando com o entrosamento de uma base pouco mexida ao longo do tempo. Mesmo sem Geromel, gripado, e depois Kannemann, expulso, a retaguarda sofreu pouco.

Também porque conta com o meio-campista mais completo e promissor do país. Arthur é um luxo em campo. Passes curtos e longos. Para trás criando espaços, para o lado mantendo o controle e para a frente acelerando os ataques. É para Tite olhar com carinho e pensar. Na seleção brasileira não há ninguém com as mesmas características. O mais próximo é Renato Augusto, que perdeu espaço por não acompanhar a competitividade dos demais atuando na China.

O futebol jogado no Brasil pode não ser parâmetro. Mas a inteligência de Arthur em campo é um norte seguro para o Grêmio. Depois que voltou à equipe titular o desempenho coletivo só cresce. Não é por acaso que o gigante catalão, com tradição em meio-campistas talentosos da estirpe de Xavi e Iniesta, tenha desembolsado cerca de 30 milhões de euros acreditando ter um jogador pronto e com um grande lastro de evolução.

Arthur fica no Rio Grande do Sul até o final do ano. Ou seja, poderia disputar o todo Brasileirão. Com chances reais de título ao lado do atual campeão Corinthians e mais alguém que surgir forte no caminho. O problema é que o clube tem uma cultura que despreza os pontos corridos.

Quando foi vice em 2008 e 2013, o tricolor gaúcho não disputou Copa do Brasil ou Libertadores em paralelo. Agora, na primeira rodada, Renato Gaúcho já poupou Luan e afirmou o discurso de dar descanso a atletas ao longo da competição. Mesmo garantindo que entra em todos os campeonatos para vencer, está claro que quando for preciso novamente mandará a campo reservas nos pontos corridos. O foco será manter uma colocação que garanta a vaga para a próxima edição do torneio continental no caso de não vencer as outras competições.

Parece pouco. O Grêmio é um caso único entre os clubes do país: possui mais conquistas da Libertadores que do Brasileiro. Três a dois. O último em 1996, ainda com a fórmula de etapas eliminatórias. Agora, pelo visto, só há alguma chance se ficar de fora dos outros torneios a tempo de uma arrancada nos pontos corridos. Ou conseguir o feito de se manter competitivo em todas as frentes. Improvável.

O Grêmio é copeiro e deve se orgulhar muito desta cultura. Mas não deixa de ser um “desperdício” imaginar que ficaremos privados do melhor do campeão sul-americano em vários jogos da principal competição nacional. Inclusive do talento de Arthur.

(Estatísticas: Footstats)


Qualquer projeção para o Brasileirão é chute, puro e simples
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André Rocha

Todo ano era a mesma tortura. Fim dos estaduais e logo aparecia alguém pedindo projeções para o Brasileirão. Título, vagas na Libertadores, rebaixados. Em maio. Para um campeonato que acaba no fim de novembro. Com uma janela de transferências que parece nunca fechar. Agora Libertadores, Sul-Americana e Copa do Brasil durando o ano todo.

E quem é pago para analisar tinha que recorrer ao tiro no escuro. Para ser cobrado depois porque para muita gente quem trabalha com futebol tem que ser adivinho e cravar o que vai acontecer, mesmo com tantas variáveis possíveis. Como se jornalistas de Economia ou Política tivessem que prever todas as oscilações de mercado ou diplomáticas e traçar um cenário preciso até o fim do ano para serem considerados minimamente competentes.

Na era dos memes e da zoeira que sempre carrega um pouco de covardia, mas dá para tirar de letra, o que é dito ou escrito tem que valer por seis meses. Se errar logo vêm os mantras “tá fácil ser jornalista”, “por isso não exigem diploma” e outras pérolas dos “jênios” da internet. Os profetas do acontecido que ficam calados no conforto do anonimato para garantirem que sabiam lá atrás e quem é pago para isso tinha que carregar a mesma certeza.

Mas como imaginar o que virá? Mesmo descontando toda a imprevisibilidade do esporte, no Brasil é ainda mais complicado. Imaginem os guias da competição já furados com as prováveis saídas de Everton do Flamengo para o São Paulo, de Maycon do Corinthians para o Shakhtar Donetsk e de Roger do Internacional para o Corinthians.

Sem contar que o time que joga o melhor futebol do país, o Grêmio, até por sua cultura copeira, deve novamente poupar jogadores na competição por pontos corridos e priorizar Libertadores e Copa do Brasil. E o Corinthians, atual campeão e favorito natural, desta vez não terá o respiro do ano passado e também dividirá esforços. Com elencos mexidos o tempo todo.

E os grandes orçamentos, como Flamengo e Palmeiras, regidos pelos humores e arroubos de dirigentes-torcedores, embalados por redes sociais? Com escolhas mais políticas que técnicas. Sem ideias ou norte, ao menos por enquanto. Só agora começam a entender a importância de ter uma identidade, como o Cruzeiro de Mano Menezes vai tentando implementar, mas também muito condicionado a resultados, até pelo alto investimento na formação do elenco.

São Paulo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Internacional, Atlético Mineiro, Bahia, Chapecoense, Vitória e o Atlético Paranaense de Fernando Diniz formam um “blocão” de incógnitas que podem circular entre zona de Libertadores e Z-4. Como de costume, Ceará, Paraná e América-MG, os times que subiram além do “gigante redimido”, são cantados como bolas da vez para cair pela famosa dificuldade de se manter depois do acesso. Ainda que Enderson Moreira e Marcelo Chamusca tenham trabalhos consolidados em seus clubes e possam, sim, tornar suas equipes competitivas. Quem vai saber?

Para completar, um campeonato com seus desequilíbrios por forças das circunstâncias. Como um time encarar os reservas do Grêmio e outro sofrer diante da equipe principal de Renato Gaúcho focada naquela rodada específica. Ou o time beneficiado pela perda do mando de campo do adversário. Três pontos que podem fazer toda diferença. Na tabela ou no estado de ânimo de uma equipe.

Por isso o equilíbrio que gera a emoção que muitos confundem como qualidade ou virtude. Será que nossos times vão usar a concentração e a organização não só para defender e teremos times atacando melhor? Ou será novamente o campeonato do futebol reativo, de contragolpe? Nenhum time vive e viverá mais este dilema do que o Santos do DNA ofensivo, mas agora comandado pelo pragmático Jair Ventura.

Com pressão por resultados, viagens e mais viagens e pouco tempo em campo para treinar é difícil imaginar algo mais elaborado. Por mais que os treinadores da nova safra tentem. E ainda tem o vestiário, ambiente sempre espinhoso e que diz muito da verdade do campo. Por isto a lacuna ainda não preenchida pelos jovens comandantes buscando afirmação para substituírem de vez os da “Velha Guarda”.

A sorte está lançada. Vejamos quem será o mais competente, contando também com a proteção tão bem-vinda do acaso. Palpites? Ainda bem que desta vez ninguém pediu nada ao blogueiro. Projeção a esta altura é chute, puro e simples. Melhor analisar rodada a rodada. Até porque quem pensa jogo a jogo sempre está mais perto da taça nesta loucura que é o Brasileirão.