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Concentração e cultura da vitória: o Corinthians de Tite volta com Carille
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André Rocha

Foto: Instagram de Fabio Carille

O Corinthians é o time brasileiro desta década – para não deixar dúvidas, de 2011 até agora. Tem dois títulos brasileiros como o Cruzeiro, uma Libertadores como Santos e Atlético Mineiro. Um Mundial como nenhum outro desde 2006. Mais dois paulistas de lambuja.

Acima de tudo, criou uma identidade futebolística, com Mano Menezes e Tite. Uma marca. Organização, solidez defensiva. Tudo executado com um mantra do atual treinador da seleção brasileira: concentração. Leia mais AQUI.

Com as conquistas vem uma cultura de vitória. Aquela confiança no modelo e nos métodos que faz a equipe forte e fragiliza o oponente. Uma certeza de que se o trabalho for feito com correção tudo vai dar certo. Um temor do outro lado quando percebe a competência do adversário.

Foi este o Corinthians que venceu o Grêmio em Porto Alegre e abriu quatro pontos na liderança do Brasileiro. Se o Botafogo vencer o Avaí a distância para o terceiro colocado cairá para oito. Ainda assim, vantagem considerável.

Ainda mais consistente e importante porque o time comandado por Fabio Carille não perde. Já são 23 partidas consecutivas sem derrota. Muitos jogos sem brilho, coletivo ou individual, mas na maioria deles também com pouquíssimos erros.

Foi o que minou aos poucos a confiança gremista e foi calando a Arena. O time de Renato Gaúcho rondava a área, mas não conseguia infiltrar, nem criar a chance cristalina. Por isso os 32 cruzamentos de uma equipe acostumada a jogar com bola no chão.

Luan teve sua área de atuação bem reduzida pela compactação e por um dos “segredos” corintianos há alguns anos: a última linha de defesa com movimentos praticamente perfeitos, jogando próximos e atentos, guardando a região central. É difícil furar.

Mas quando vem a rara chance, é obrigação matar. E aí falhou Geromel na primeira etapa em jogada ensaiada. Depois Luan. Na oportunidade dentro da pequena área com chute fraco e, pouco depois, na cobrança de pênalti mais que hesitante. Uma paradinha insegura e o chute fraco para defesa de Cássio. O destaque do jogo, ainda que não tenha feito nenhuma intervenção espetacular.

Porque o Corinthians tem o foco no erro zero e não perdoa o equívoco ou a infelicidade. Como quando Luan, o personagem do duelo como os gremistas não desejavam e esperavam, facilitou com um toque a infiltração de Paulo Roberto. O substituto de Gabriel de atuação correta atrás e corajosa nas descidas ao ataque, com incrível chance perdida na primeira etapa. O centro da esquerda que Jô não dominou, mas Jadson completou entre as pernas de Marcelo Grohe. Outro trunfo a falhar do desafiante ao líder.

Força coletiva que potencializa o talento, outro lema de Tite. Por mais méritos que Carille demonstre, especialmente na flexibilidade do sistema tático que varia do 4-2-3-1 para o 4-1-4-1 conforme a necessidade e na utilização de jovens da base, é impossível não lembrar de quem aprimorou as ideias de Mano, formou um Corinthians sólido e depois, em 2015, acrescentou criatividade. Continua bem sucedido a serviço da CBF, com a mesma filosofia.

Carille segue a receita e acrescenta os toques pessoais. A vitória em Porto Alegre é simbólica. Com uma competição paralela a menos que Grêmio, Flamengo, Botafogo e Palmeiras para disputar, não é absurdo dizer que já temos um forte candidato ao título. Ou o mesmo dos últimos seis anos.

(Estatísticas: Footstats)


Luan na zona desfalcada do rival pode ser a chave de Grêmio x Corinthians
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André Rocha

Nenhum campeonato de pontos corridos com 20 clubes é decidido na décima rodada. Nem o espanhol, se Barcelona e Real Madrid se enfrentarem, um vença e abra dez pontos na liderança. Mas pode sinalizar tendências.

O Corinthians está invicto há 22 jogos. O Grêmio marcou gols em todos os jogos de 2017 e tem 100% de aproveitamento em sua arena no Brasileiro. Só a disputa no topo da tabela já seria motivo para chamar todos os holofotes para si no fim de semana.

Mas também será um duelo em tática e estratégia. Com um desfalque chave: Gabriel, expulso contra o Bahia. Porque uma mudança sempre altera o entrosamento. Neste caso, das ações com Maycon na proteção da defesa e da própria retaguarda no sistema de coberturas.

Logo contra Luan. Quatro gols e líder em assistências, com seis. O atacante que é meia e joga entre as linhas. Ou seja, se movimenta nos espaços deixados entre a defesa e o meio-campo do adversário. Mais ainda com a presença de Lucas Barrios no centro do ataque do 4-2-3-1 montado por Renato Gaúcho.

Luan que tem seu trabalho facilitado pelo jogo fluido no meio-campo com Michel, Arthur – segundo melhor passador da competição, com 96% de acerto –  e Ramiro, o volante-meia pela direita que abre espaços para o apoio de Léo Moura, agora Edilson com a lesão do lateral veterano. Também facilita a movimentação de Luan e Barrios que atacam aquela brecha e indefinem a marcação.

Time gaúcho que constroi muito volume de jogo atuando em seus domínios. E vai precisar diante do melhor sistema defensivo do país. Com Fabio Carille, que mantém a identidade corintiana construída por Mano Menezes e Tite e foi praticamente pulverizada por Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira.

Que terá Paulo Roberto no lugar de Gabriel e certamente Maycon mais fixo na proteção, dando liberdade a Rodriguinho para se aproximar de Jô. Equipe que apostará forte na compactação, no erro zero com concentração absoluta e na tática da “bola coberta”: pressão no gremista que estiver com a pelota e adiantar as linhas. Se o oponente conseguir sair da dificuldade, a última linha de defesa recua, protege a meta, não se expõe.

Fagner, Balbuena, Pablo e Guilherme Arana. Entrosados e sintonizados nos movimentos que cedem poucos espaços no “funil”, com chamam os treinadores. Ou seja, a área mais central da zona de decisão. Por onde são feitas as diagonais dos ponteiros para finalizar, as tabelas pelo meio e as penetrações de quem vem de trás.

Ofensivamente, o time paulista tem buscado ser mais criativo. Aposta em triangulações, toques rápidos e mobilidade. Com Jadson saindo da direita para dentro, Romero infiltrando em diagonal a partir da esquerda, Rodriguinho e Maycon aparecendo nos espaços vazios, Fagner e Arana intensos no apoio ao ataque.

Na referência, Jô. Em plena forma para reter a bola na frente, fazer o pivô, aproveitar o jogo aéreo e chamar lançamentos para usar a velocidade adquirida com a dedicação ao condicionamento físico. Centroavante decisivo até aqui em clássicos e jogos grandes e que pode ser fundamental.

Ainda mais se Renato Gaúcho perder Kannemann, dúvida por lesão. Impacto no entrosamento com Geromel na defesa titular que só foi vazada nos 3 a 3 contra o Cruzeiro, melhor jogo da Série A em 2017 até aqui. O Grêmio terá postura ofensiva, mas com cuidados. Ramiro e Pedro Rocha fechando com Michel e Arthur uma segunda linha de quatro bem próxima à defesa na recomposição. Guardar o setor de Cortez, que pode ter problemas com o apoio de Fagner e a movimentação dos companheiros quando Jadson sai da direita do ataque.

Em estatísticas, o Corinthians é superior em posse de bola e acerto de passes. Já o Grêmio é mais objetivo, precisa de cinco finalizações para marcar um gol. É o ataque mais positivo, com 23 bolas nas redes adversárias em nove partidas.

Mas a tendência é que os donos da casa tenham a bola e rondem a área corintiana com paciência e acerto nos passes esperando surgir a brecha. A pressa na definição da jogada pode dar o contragolpe que o rival espera. Até porque, objetivamente, a partida, pelo mando de campo e por buscar a liderança, vale mais para o Grêmio. A volta será em Itaquera, sabe lá em quais condições e em que posição na tabela.

Há um favorito, natural pelo mando de campo e por ter em Luan uma peça chave numa zona do rival enfraquecida por uma ausência. Sem desmerecer Paulo Roberto, a falta de Gabriel pode ser decisiva. Não por uma suposta marcação individual sobre o grande destaque gremista, mas pela perda nos movimentos coletivos dentro de um bloqueio por zona que vem sendo executado quase com perfeição. Por isso é a defesa menos vazada, com apenas cinco bolas nas redes de Cássio.

É difícil vencer esse Corinthians. Mas hoje, no país, se há uma equipe capaz da façanha é o Grêmio.

Prováveis formações, ainda com a dúvida de Kannemann na zaga gremista: times no 4-2-3-1, donos da casa propondo mais o jogo e tendo a chance de criar problemas para o Corinthians pela movimentação de Luan buscando espaços às costas do meio-campo e explorar o desentrosamento de Paulo Roberto, substituto do suspenso Gabriel (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)


Luan, o jogador do mês no Brasil. Protagonista do Grêmio 100% com titulares
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André Rocha

Fosse em uma empresa, teria sua foto na parede ou no elevador. Ninguém jogou mais bola nos últimos 30 dias no Brasil que Luan.

Antes criticado, até perseguido. Hoje o protagonista da ascensão gremista desde o início do Brasileiro. É possível definir sua função, enquanto o time teve Lucas Barrios na referência do ataque, como meia central do 4-2-3-1 armado por Renato Gaúcho depois da lesão de Douglas. Na prática, porém, o camisa sete é o jogador entrelinhas.

Inteligente para circular às costas dos volantes, tabelar com Barrios, infiltrar no espaço deixado por Ramiro na direita e aparecendo como opção pelos flancos para criar superioridade numérica. Com técnica, habilidade e faro de gol, desequilibra.

Já foi às redes quatro vezes. Mais quatro assistências. Ou seja, participação em quase metade dos 18 gols marcados pela equipe. Com a lesão de Barrios, voltou a atuar como “falso nove”. Não rende tanto por falta de companhia na frente além de Pedro Rocha, mas definiu a vitória sobre o Fluminense por 2 a 0 no Maracanã na bela cobrança de falta. Com confiança, decide também na bola parada.

Se mantiver o rendimento deve ganhar oportunidade na seleção brasileira. No ouro olímpico mostrou sintonia fina com Neymar e Gabriel Jesus. A má notícia para o Grêmio é que certamente já tem clube europeu atento a este crescimento no desempenho. Tem boa leitura de jogo, fundamental para adaptação rápida às grandes ligas.

Enquanto está a serviço do tricolor gaúcho, Luan é o fator de desequilíbrio. O jogador do mês. Não fosse a derrota dos reservas para o Sport, o resultado seria a liderança em sete jogos com 100% de aproveitamento. Com vitórias recentes mais duras e menos espetáculo. Mas ainda o melhor futebol jogado no país.


Grêmio de Renato sofre com o pior da Era Roger, mas vence no modo “copero”
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André Rocha

O Grêmio sentiu os desfalques em sua arena. Edilson finaliza melhor e é forte na bola parada, mas não chega tanto à linha de fundo quanto Léo Moura – fundamental para aproveitar o espaço deixado por Ramiro quando vem para o centro.

Já a opção de Renato Portaluppi para a vaga do lesionado Lucas Barrios foi um tanto controversa. Abriu mão do centroavante mais típico, manteve Everton, autor de três gols em Chapecó, no banco e adiantou Arthur para a meia central, Luan voltou a ser “falso nove” e Maicon entrou no meio-campo.

O resultado prático foi um Grêmio rodando a bola, mas sem opções de infiltração além das diagonais de Pedro Rocha, que teve a melhor oportunidade tentando encobrir o goleiro Jean. Mas na maior parte do tempo a posse foi estéril. A pior faceta da Era Roger.

A escolha, inclusive, corrobora a tese de que o trabalho mantém uma linha mestra de conceitos e ideias, com algumas adaptações e reparos do treinador carismático e experiente. Quando não teve Barrios e Bolaños, Renato voltou à configuração típica do seu antecessor, com Arthur fazendo a função que era de Douglas. Desta vez não deu tão certo.

Também pela maior concentração do adversário, efeito colateral do grande futebol apresentado pela equipe gaúcha. As duas linhas de quatro compactas do Bahia de Jorginho negavam espaços, dificultavam as tabelas e triangulações. Mas a equipe visitante também ameaçava pouco, isolando Edigar Junio. Com alguns momentos de aceleração e habilidade com Zé Rafael e Allione pelos flancos.

Melhorou um pouco para o mandante e favorito no segundo tempo com Everton, Fernandinho e Lincoln. Passou a rondar a área em uma zona mais perigosa e chegou a 16 finalizações, contra apenas seis do Bahia. Diminuiu um pouco a posse, de 66% para 61% definindo mais rapidamente as jogadas. Mais Renato Gaúcho.

O gol da vitória veio no melhor estilo “copero y peleador” tão prezado pelos gremistas. Quarenta minutos do segundo tempo. Cobrança de escanteio, desvio e toque de Cortez, que virou titular com a lesão de Marcelo Oliveira. Ala de outros tempos que hoje cumpre função de lateral, primeiro sendo um defensor. Mas apareceu na área para ajudar sua equipe a arrancar três pontos.

A forceps. À la Grêmio. Para alcançar a vice-liderança e já ensaiar uma polarização na disputa da ponta da tabela com o Corinthians. Quem sabe até o dia 25, quando as equipes se encontram também em Porto Alegre?

(Estatísticas: Foostats)

 

 


O toque de midas de Renato Gaúcho no Grêmio
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André Rocha

Everton substituiu o lesionado Lucas Barrios aos 14 minutos da segunda etapa na Arena Condá. Aos 15 marcou o terceiro gol, no minuto seguinte o quarto e, depois do gol de pênalti de Reinaldo, transformou em goleada um jogo duríssimo até então, definido em bola parada e falhas dos goleiros Jandrei e Marcelo Grohe, aproveitadas por Michel (um golaço!) e Luiz Antonio.

Mais gols de Arthur Caike e Luan para fechar os 6 a 3. O Grêmio chega aos 12 pontos, supera a Chape e está atrás do Corinthians na tabela da Série A. Mas os titulares alcançam 100% de aproveitamento. Os reservas até abriram 2 a 0 sobre o Sport em Recife, mas acabaram sofrendo a virada. A intenção era guardar energias para a volta da Copa do Brasil no Maracanã contra o Fluminense. Nem foi preciso, no primeiro tempo o confronto já estava definido.

Porque Renato Gaúcho parece estar vivendo uma fase de Rei Midas, depois da frustração no Gauchão – o treinador chegou a poupar titulares na Libertadores para priorizar o torneio estadual, mas sequer chegou à decisão. Com tempo para treinar, preparou a equipe resgatando virtudes da arrancada que chegou ao título da Copa do Brasil.

Segue a impressão de que o encaixe do estilo do maior ídolo do clube ao trabalho que Roger Machado deixou foi perfeito. Ficaram os conceitos, o trabalho coletivo, o jogo entre linhas de Luan, o gosto pela troca de passes. Chegou o que faltava: gestão de vestiário, eficiência nas bolas paradas ofensivas e defensivas e mais efetividade no ataque.

O resultado é o melhor futebol praticado no país nos últimos 30 dias. Com Leonardo Moura e Cortez, típicos alas, fazendo o trabalho como laterais, primeiro defendendo e depois atacando. Achando em Michel e Arthur os volantes que compensam as ausências de Walace e Maicon e por vezes até superam em desempenho a dupla do ano passado.

Tem Ramiro como chave tática como um volante aberto pela direita que auxilia Michel e Arthur, abre espaço para Léo Moura e os deslocamentos de Barrios e Luan às costas do lateral esquerdo adversário. Na esquerda, Pedro Rocha voando, infiltrando em diagonal.

Um jogo fluido, bonito de ver, que acelera e cadencia conforme a necessidade. Time inteligente, que encontra soluções de acordo com o que o jogo exige. Ataque mais positivo do Brasileirão, com média de três gols por rodada.

Mérito de Renato, que mantém o discurso boleiro e fanfarrão. Mas em campo há um jogo pensado, que não é construído em coletivos e rachões, na base da intuição. E aí entram a comissão técnica, o setor de inteligência e análise de desempenho. Trabalho em equipe.

Sim, são cinco rodadas. O Grêmio tem Libertadores e Copa do Brasil para desgastar física e mentalmente na sequência da temporada. Mas hoje o que Renato Portaluppi toca vira ouro. Como a entrada de Everton em Chapecó.


Caiu o “sobrevivente” Dorival Júnior. Afinal, tem hora certa para terminar?
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André Rocha

Assistindo ao clássico paulista em Itaquera, em determinado momento, ainda com o jogo empatado sem gols, veio à mente a seguinte conclusão: “Dorival Júnior não consegue tirar mais nada desse Santos”.

Impressionava como a proposta de jogo baseada em posse de bola tinha se tornado previsível, enfadonha. Sem Lucas Lima também perdia lucidez e rapidez de execução, mesmo considerando a queda de rendimento do meia. Algo precisava ser feito.

A troca no comando técnico foi a primeira opção no meu raciocínio solto, no livre pensar. Logo recriminado pela razão. Afinal, era o trabalho mais longo entre as equipes da Série A. Um “sobrevivente”. E tudo que cobramos é tempo para o treinador implementar seu modelo de jogo e fazer sua equipe jogar “de memória”.

Mas logo em seguida, já com a partida encerrada em dois a zero para o então líder Corinthians, que perderia novamente esta condição no saldo de gols para a impressionante Chapecoense que alcançou o mesmo placar no Mineirão sobre o mesmo Cruzeiro que a eliminara da Copa do Brasil na quinta-feira, veio a reflexão:

Afinal, qual é o momento de se dar por encerrado o ciclo de um treinador? Costumamos dizer que é, no mínimo, uma temporada. Dorival já estava chegando a dois anos. Qual era a margem de evolução? Apesar da campanha invicta na Libertadores, em um grupo fraquíssimo, parecia claro que a equipe não alcançava e dificilmente alcançaria um bom rendimento.

Também por causa do equívoco do comandante santista ao se deixar seduzir pela ideia da formação do time “cascudo” para o torneio continental. A contratação de Leandro Donizete sempre pareceu um ato contrário aos princípios de Dorival e até à história vitoriosa do Santos. Virando as costas para as divisões de base, ainda que a safra atual não seja das mais talentosas. Contratando um volante obsoleto, mas com liderança e “pegada”.

Na realidade do futebol brasileiro, a queda no desempenho em 2017 só se sustentaria com um passado recente de conquistas relevantes. Não foi o caso. Apenas um estadual e a frustração em 2015 com a perda da vaga que parecia certa na Libertadores, via Copa do Brasil ou Brasileiro. Recuperada com a campanha sólida no ano seguinte e a segunda colocação. Impressionante pelas muitas perdas por lesões, negociações, convocações. Faltou, porém, a taça importante para respaldar a paciência.

Porque em qualquer ramo é preciso apresentar resultados que são consequência do bom desempenho. Ou ao menos um rendimento que sugira momentos melhores no futuro. Se não for assim, o que cobrar? Como avaliar? Onde estará o mérito?

É a pergunta que se faz ao observar o Arsenal mantendo Arsene Wenger por mais dois anos. Vai chegar a 23 no comando do time londrino. Mudou o estilo e a história do clube, merece todas as homenagens. Mas a realidade é que entrega menos desempenho e resultados a cada temporada. Cada vez mais irregular e sem conquistas relevantes além das copas nacionais.

A consequência é que os Gunners saíram da rota de grandes contratações, mesmo as promessas, do futebol mundial. Um Vinicius Júnior, por exemplo, não se empolgaria com uma proposta de Wenger. Porque ele tem 16 e há 13 o Arsenal não vence uma Premier League e desta vez nem a classificação para a Liga dos Campeões veio como consolo. E quando os concorrentes fraquejaram na temporada passada, quem aproveitou foi o Leicester City.

Ou seja, a insistência vem sendo nociva ao clube. Qual a margem de crescimento? Imaginar o Arsenal campeão com Wenger é tão improvável quando o Leicester ganhar com Claudio Ranieri. Só uma incrível conjunção dos astros. Muito pouco para a história do clube. Já passou da hora de trocar e o Arsenal parece perdido. Como quem empurra um casamento esfacelado por comodismo e pelo medo do desconhecido.

Por aqui exageram no imediatismo, nas contratações e demissões sem convicção. Mas às vezes funcionam. Como no Grêmio de Renato Gaúcho, que recebeu um time de Roger Machado com muitas virtudes e alguns problemas. O maior ídolo do clube chegou com seu carisma e inteligência para acertar o vestiário, ajustar o que estava errado e hoje o clube celebra o título da Copa do Brasil, a volta à Libertadores e o futebol mais interessante do país no último mês.  Conseguiria com a manutenção de Roger? Nunca saberemos.

O que a experiência de vida diz é que a mudança pode ser muito saudável. Para o casal que se permite tentar ser mais feliz com novos parceiros. Para um livro que necessita de um segundo olhar, como as editoras costumam fazer nas revisões de textos – porque às vezes os olhos estão “viciados” e deixam passar alguns erros. Natural, humano.

Dorival e Santos descruzam seus caminhos. O profissional não deve ficar muito tempo desempregado por sua notória competência. Triste por resultar em um cenário no qual apenas Flamengo e Atlético-GO tenham seus treinadores há mais de um ano. Talvez toda a cadeia produtiva do nosso futebol esteja acostumada com isso – dirigente, jogadores, imprensa e os próprios técnicos. Por isso o pensamento automático do blogueiro. É provável que estejamos todos errados.

Mas se entender com o tempo nunca é fácil. Sempre haverá o “se” em forma de incerteza. Porque a convicção que não vira teimosia é virtude rara, dos sábios e maduros. Quem sabe um dia chegaremos lá?


Viva a “Velha Guarda”! Abelão e Renato Gaúcho na liderança do Brasileiro
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André Rocha

Foto: Divulgação Grêmio.

São apenas duas rodadas e a última incompleta, ainda faltando São Paulo x Avaí no Morumbi. A história mostra que qualquer posicionamento inicial na tabela de classificação significa muito pouco. Em 2016, Internacional e Santa Cruz chegaram a disputar a liderança da Série A, para terminarem rebaixados.

Mas não deixa de ser simbólico que Fluminense e Grêmio, comandados por Abel Braga e Renato Gaúcho, exceções à renovação no mercado de treinadores do país, sejam os únicos com 100% de aproveitamento e, por isso, ocupem a liderança – vantagem para o tricolor gaúcho pelo saldo de gols.

E não foram vitórias fáceis, sobre equipes sem maiores aspirações na temporada. O Flu superou Santos no Maracanã e Atlético Mineiro no Independência; o Grêmio venceu o Botafogo em casa e o Atlético Paranaense na Arena da Baixada. Quatro times disputando Libertadores, todos classificados para as oitavas-de-final do torneio continental.

O fato de não pertencerem à escola “atualizada” de técnicos não impede que suas equipes apresentem um futebol moderno. Abel Braga não permite que suas equipes mudem a ideia de jogo quando atuam fora de casa. Em Belo Horizonte, o Fluminense nunca abdicou do ataque, mesmo diante do volume do time da casa.

Fez 2 a 0 no primeiro tempo com as armas de sempre: velocidade pelos flancos, troca de passes com bola no chão no meio-campo, que ganhou Gustavo Scarpa como ponta articulador para auxiliar Sornoza e Wendel, mais o trabalho de pivô de Henrique Dourado, autor do primeiro gol e artilheiro do campeonato com três e da assistência para Richarlison ampliar de cabeça.

Depois sofreu pressão na segunda etapa e resistiu com a bela atuação do jovem zagueiro Nogueira. Sem dinheiro para reforços, a diretoria tricolor convenceu Abel a usar a garotada e vem funcionando. A falta de um elenco mais robusto vem sendo compensando pelas surpresas oriundas de Xerém.

Já Renato Portaluppi fez o Grêmio ressurgir depois da frustração no Estadual, tratado como prioridade mesmo disputando Libertadores – motivado, é claro, pela fragilidade do grupo do time gaúcho no torneio continental.

Arthur foi um achado no meio-campo, com bons passes, poder de marcação e aparições no ataque com qualidade, como no golaço sobre o próprio Fluminense pela Copa do Brasil, após tabelar com Luan e Barrios. Dupla de ataque que vai se afinando no 4-2-3-1 que cada vez mais se trasforma em 4-4-2. Autores dos gols em Curitiba.

Com Ramiro mais meio-campista pela direita apoiando o redivivo Léo Moura e Pedro Rocha mais intenso e vertical, buscando as diagonais a partir do lado esquerdo. O sistema defensivo comandado por Geromel que faz marcação individual, mas novamente Renato consegue que seus comandados estejam tão preparados física e mentalmente que compensem com muito vigor físico.

No duelo pela Copa do Brasil, vantagem de Renato Gaúcho em Porto Alegre. 3 a 1 de virada na melhor partida da quarta-feira, porém um tanto eclipsada por outros confrontos do próprio torneio e, especialmente, pela Libertadores.

Não esperem dos dois treinadores discursos rebuscados, com os termos atualizados dentro da ciência esportiva. Talvez terminem bem longe da disputa pelo título nas 36 rodadas restantes. Em campo, porém, a resposta é mais que positiva no que o esporte tem de eterno: quem joga bem sempre estará mais perto da vitória, por mais caótico que seja o jogo em si.

A diversidade sempre é bem vinda, a experiência nunca deve ser desprezada. Ainda mais quando vem acoplada ao carisma que conquista e convence. Abelão e Renato na ponta de um Brasileiro no ano da graça de 2017. Viva a “Velha Guarda”!


Grêmio, o time da melhor atuação coletiva da primeira rodada da Série A
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André Rocha

Volume de jogo, controle no meio-campo, no ritmo de Arthur e Ramiro. Não fossem os gols perdidos, especialmente por Luan, e o Grêmio teria construído uma goleada histórica.

Diante de um adversário forte e organizado como o Botafogo, a atuação coletiva da equipe de Renato Gaúcho foi a melhor da primeira rodada da Série A. Também a mais consistente do tricolor gaúcho em 2017.

Luan circulando entre o meio e a defesa do Bota, Arthur distribuindo o jogo, Ramiro como o meia pela direita que ajuda os volantes, abre o corredor para Léo Moura e torna o ataque mais móvel, mesmo com a  presença de Lucas Barrios como a referência no ataque.

Dominou a posse de bola no primeiro tempo com 60% e acabou superado no final (51% x 49%), mas aproveitou os espaços cedidos pelo avanço do rival para os contragolpes. Abriu o placar na persistência de Ramiro depois de uma “blitz” com Gatito Fernández salvando, ampliou na segunda etapa com gol de Luan -irregular pelo toque na mão. Mas foram 19 finalizações contra oito – nove a um no alvo.

Triunfo incontestável, também pela atuação fraca do Botafogo que sofre com as improvisações na lateral direita – Emerson Santos desta vez. Camilo reclamou por ser deslocado no meio-campo para encaixar Montillo. Mas agora, atuando na função em que se destacou no ano passado, jogando com liberdade, produz muito pouco.

De novo Rodrigo Pimpão foi sacrificado pela esquerda, voltando na recomposição formando a segunda linha de quatro e sendo a referência de velocidade para os contragolpes. Como precisou ser competitivo no início da temporada pelas etapas eliminatórias da Libertadores antes da fase de grupos, agora o alvinegro oscila.

Mas o mérito é gremista. Renato aproveitou o período sem jogos para ajustes e seu time soube dosar posse e transição ofensiva em velocidade. O primeiro ato no Brasileiro foi promissor.

(Estatísticas: Footstats)

[Em tempo: sim, ainda falta um jogo para finalizar a rodada 1. Mas pelo tamanho do confronto, entre dois times envolvidos em Libertadores, e considerando a solidez gremista, nem Coritiba, nem Atlético-GO tem condições de superar, mesmo que goleie e dê espetáculo. Questão de contexto]


Um Grenal divertido, mas preocupante para Renato e Zago
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André Rocha

Por incrível que pareça, desta vez se viu mais futebol e menos rivalidade exacerbada e violenta do que em outras edições do clássico gaúcho com os times mais qualificados e em melhor momento.

O Grêmio aproveitou o mando de campo e a baixa autoestima do rival pelo inferno da Série B no Brasileiro para se impor no primeiro tempo. Mesmo com o meio-campo dilacerado sem Walace, Maicon e Douglas, o time de Renato Gaúcho teve mais fluência pela mobilidade de Miller Bolaños e Luan na frente. Mas pouco mais que isso.

O Internacional penou com uma formação engessada e muito dependente de D’Alessandro, bem vigiado por Jailton e Michel. Rodrigo Dourado e Charles pouco contribuíam na construção das jogadas e ainda deixavam espaços às costas para a dupla de “falsos noves” gremistas.

Numa transição rápida, Bolaños fez o gol único de um primeiro tempo de posse de bola equilibrada, mas com o Grêmio finalizando nove vezes contra quatro dos colorados, que fizeram mais faltas (nove a cinco) e acertou mais desarmes (13 a sete). Mas não jogou.

O cenário mudou bastante na segunda etapa com Roberson e Nico López nas vagas de Charles e Carlos. Os substitutos formaram um tridente no ataque com Brenner. Uendel recuou no meio com Dourado protegendo D’Alessandro.

Mas a chave foi a movimentação de Nico saindo da direita e infiltrando às costas dos volantes gremistas. O maior volume de jogo fez efeito rápido com a virada em 13 minutos nos gols de Roberson e Brenner, envolvendo com facilidade o sistema defensivo do time da casa.

Renato trocou Pedro Rocha e Michel por Barrios e Fernandinho e mandou o time para o ataque praticamente num 4-2-4. E aí faltou confiança a Antonio Carlos Zago tirando Brenner e colocando o volante Anselmo, voltando a adiantar Uendel para fazer dupla com Carlinhos à esquerda.

Nico López seguiu bem no jogo, mas perdeu o fator surpresa. O contexto voltou a favorecer o Grêmio, que empatou no chute de Fernandinho que Danilo Fernandes aceitou e cresceu ainda mais com o jovem Lincoln no lugar de Jailson. Debaixo de forte chuva, terminou com 17 finalizações contra nove do Inter. Mas o recorte do período de domínio do rival visitante expôs as fragilidades da equipe de Renato.

O Colorado sofreu mais ao longo da partida. Mesmo com ótimos 15 minutos na segunda etapa, ficou claro que a reconstrução precisa ser ampla para formar um time consistente. O trabalho de Zago está no início e a insegurança pode ser encarada com natural.

Mas não deixa de ser preocupante. Para os dois. Mesmo num Grenal divertido, exatamente pelas falhas de ambos.

(Estatísticas: Footstats)

 


Por um debate mais tolerante, plural e com conteúdo em 2017
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André Rocha

No ano em que os resultados premiaram o desempenho das equipes dos estudiosos Micale e Tite na seleção brasileira, veio Renato Gaúcho no final com a conquista da Copa do Brasil e seu discurso de exaltação ao talento que minimiza o esforço.

No meio termo, Cuca foi campeão brasileiro fiel às suas convicções, como marcação individual e jogadas aéreas ensaiadas até em cobranças de lateral, mas adaptando conceitos atuais como pressão no campo de ataque e meio-campo mais qualificado. E o melhor: admitindo mesmo depois da conquista que precisa estudar e se aprimorar.

Tudo para lembrar que no Brasil e em qualquer canto que se jogue futebol é possível vencer de várias maneiras. “O futebol é generoso” costuma dizer Paulo Autuori, outro técnico com saldo positivo em 2016.

Mas o resultado deve mesmo encerrar qualquer discussão? O líder ou o campeão não pode ser questionado? Tem sempre razão? Em um jogo tão aleatório e imprevisível, o desempenho nem sempre tem relação direta com o placar final.

É preciso entender o papel do analista, que é chamado todo o tempo a opinar e trabalha com fotografias instantâneas da temporada. Afirmar que um time está jogando melhor naquele momento não significa que levará a taça, nem que será justo pelo desempenho em toda a competição.

Ao mesmo tempo, este que escreve reconhece que exagerou ao dizer que o Palmeiras poderia ser um campeão “pela porta dos fundos”. Melhor seria substituir por “sem brilho e sem números”. Àquela altura o time corria risco de perder a condição de melhor ataque, maior número de vitórias e outras estatísticas. Mas “porta dos fundos” foi demais, talvez pela aversão ao resultadismo precoce de Cuca e seus comandados, alimentado por 22 anos sem títulos brasileiros.

Quem é obrigado a se posicionar o tempo todo sobre algo que muda a cada instante invariavelmente vai dizer alguma bobagem. Sempre, porém, com imenso respeito à instituição. Sem clubismo, pelo menos deste blogueiro. Acredite: com o tempo, é mais fácil o jornalista se trair torcendo por suas convicções do que pelo time que fez com que ele se apaixonasse pelo esporte. É da vaidade humana.

Uma tolice, pois o futebol está aí sempre para dar uma rasteira nas nossas idealizações. Por isso é tão inútil esse Fla-Flu estudiosos x boleiros. Porque não adianta falar a língua dos jogadores sem conteúdo nos treinos, assim como o técnico que prefere os livros ao contato pessoal dificilmente terá a confiança dos seus comandados.

O mesmo vale para o comentarista que trata o futebol como um mero jogo de xadrez. Tão equivocado quanto alguns geradores de obviedades que menosprezam a inteligência de quem está ouvindo. Ou só dizem o que o torcedor quer ouvir, numa relação fornecedor-cliente. Pior ainda os que confundem leveza e humor com piadas grotescas que sempre acabam ofendendo alguém.

O torcedor não tem as obrigações do jornalista. Mas é importante entender que se ele quer interferir na vida do clube, seja como sócio-torcedor ou através dos muitos canais de comunicação que existem hoje, é preciso saber mais. Não dá para colocar tudo na conta do técnico “burro” ou do time “sem vergonha”.

Se assistir apenas aos jogos do seu time, sem entender minimamente a evolução do esporte em todas as áreas, a crítica será sempre rasa. Ou saturada de saudosismo, dos tempos em que o time era o melhor. A velha visão de que tudo no passado era mais bonito. Basta pesquisar na internet, com jogos na íntegra disponíveis, para perceber que felizmente tudo evolui. Por isso fica mais complexo.

Que no ano que chega sejamos mais tolerantes e plurais, respeitando e aprendendo com quem tem algo a transmitir. Com rivalidade, mas sem antagonismos radicais no debate. Sempre valorizando o conteúdo, que é ouro em tempos de tanta informação circulando.

Que o torcedor não seja tratado como uma criança mimada, que não pode ser contrariada. Que os profissionais de futebol lidem melhor com críticas construtivas. Que nós, analistas, estejamos atentos ao que o esporte oferece de objetivo, matemático, mas também ao lúdico e ao imponderável. Não é vergonha dizer que uma bola que bateu no travessão e não entrou por centímetros foi apenas sorte de quem deixou de sofrer o gol. Simples assim.

Por isso estamos aqui falando dessa parte importante de nossas vidas. Imprevisível como cada dia de cada semana de cada mês. De cada bola que rola. Do ano que vira no calendário para lembrar que podemos fazer melhor, mesmo sem garantia de vitória no final dos 90 minutos.

Até 2017!