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Cruzeiro de Mano passa o Grêmio e pode repetir Flu 2007, de Renato Gaúcho
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André Rocha

Foto: Denis Dias/Gazeta Press

O Cruzeiro foi o primeiro campeão brasileiro da era dos pontos corridos. O primeiro e único a vencer também a Copa do Brasil, no 2003 mágico da “tríplice coroa”. Quase repetiu o feito em 2014, mas o arquirrival Atlético impediu vencendo a final mineira da Copa do Brasil.

2017 foi o ano do penta no grande torneio nacional de mata-mata, nos pênaltis contra o Flamengo.  Pode também ser o de uma nova grande campanha no Brasileiro depois de duas edições após o bicampeonato flertando mais com Z-4 que com título ou vaga na Libertadores.

Com a vitória por 1 a 0 sobre o Grêmio em Porto Alegre, gol de Rafael Sóbis, eterno ídolo do Internacional, maior rival do adversário, o time de Mano Menezes ultrapassa Santos e o próprio time gaúcho para dormir na vice-liderança do Brasileiro. Se mantiver os bons resultados abrirá uma vaga na Libertadores dentro da competição por pontos corridos.

O mesmo que conseguiu o Fluminense em 2007. Campeão da Copa do Brasil em 6 de junho vencendo o Figueirense em Florianópolis, gol de Roger Machado, hoje treinador. Antecessor de Renato Gaúcho no Grêmio, comandante do tricolor carioca há uma década. O eterno falastrão que no ano seguinte diria que “brincaria” no Brasileiro se vencesse a Libertadores e, com a derrota nos pênaltis para a LDU no Maracanã, terminou o ano sem conquistas. Como corre o risco agora depois de tantas bravatas e autoelogios ao longo da temporada – mas também bom futebol, que parece cada vez mais perdido em funções de tantas alterações na equipe base.

Naquele 2007, porém, Renato conseguiu manter o Flu alerta e, mesmo com vaga assegurada no torneio continental e vendo o São Paulo disparar para o então bicampeonato que viraria tri no ano seguinte, fez ótimo segundo turno. Vencendo, inclusive, o incrível Flamengo de Joel Santana que acabou uma posição acima, pelo número de vitórias. Com isso abriu uma vaga na Libertadores que acabou caindo no colo…do Cruzeiro, à época comandado por Dorival Júnior.

Há uma década, o Grêmio, então sob o comando de Mano Menezes, chegou à final da Libertadores contra o Boca Juniors de forma até surpreendente. Foi, porém, superado pela equipe de Juan Roman Riquelme e não pôde retornar no ano seguinte. Por pouco, já que terminou o Brasileiro em sexto lugar. Dois pontos atrás… do Cruzeiro.

Em dez anos o mundo da bola girou e agora encontra clubes, personagens e contextos parecidos. Como será o desfecho desta vez? O Cruzeiro de Mano Menezes está sereno, o Grêmio de Renato tem motivos para se preocupar. Mas ainda pode virar o jogo bonito em 2017, inclusive encarando o Real Madrid nos Emirados Árabes Unidos. Quem vai saber?


Botafogo: melhor história da Libertadores desta vez não pecou pela covardia
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André Rocha

O time que parecia fadado ao rebaixamento em 2016 depois de voltar da Série B invadiu o G-6 do Brasileiro, tomou a vaga na fase de grupos da Libertadores dos campeões Colo Colo e Olimpia. Encarou e terminou na liderança de um grupo com mais dois vencedores sul-americanos: Atlético Nacional, o atual, e o tradicional Estudiantes.

Ainda o Barcelona de Guayaquil, semifinalista desta edição após tirar a invencibilidade e eliminar o Santos na Vila Belmiro. Nas oitavas de final, a sina persistiu. O gigante Nacional foi outro a ficar pelo caminho. Duas vitórias que fizeram a torcida acreditar até em título.

Não foi possível. Mas, ainda assim, o Botafogo é a melhor história da edição 2017 da Libertadores – só será superada em caso de título do impressionante Jorge Wilstermann. A equipe de Jair Ventura. Organizada, forte mentalmente, jogando sempre no limite. Sem um grande destaque individual, um craque midiático. O clichê é inevitável: time de operários.

Caiu diante do Grêmio que, na média da temporada, joga o melhor futebol do país. E dentro da arena do favorito, o alvinegro fez sofrer. Obrigou Renato Gaúcho a fazer uma substituição ainda no primeiro tempo, tirando Leonardo Moura inócuo pela direita e colocando Everton para ganhar intensidade na frente.

Também mandar um recado ao oponente: posso estar desorganizado, mas não tenho medo. O mesmo que o Botafogo fez na ida no Estádio Nilton Santos. Com Leo Valencia no lugar de Rodrigo Lindoso deixou mais espaços para o Grêmio controlar o meio-campo com o ótimo Arthur. Deixava, porém, o Grêmio alerta. Na prática, uma formação é sempre uma espécie de carta de intenções. Nela estava escrita que o Botafogo não se acovardaria em nenhum momento.

Porque o medo, ou a cautela excessiva, foi o grande pecado da doída eliminação para o Flamengo na Copa do Brasil. Mesmo descontando tudo que envolvia um clássico estadual valendo vaga num torneio nacional e o abismo de poder de investimento entre os clubes, foi incompreensível a postura diante de um rival que já havia demonstrado insegurança em outros momentos da temporada, especialmente na eliminação na fase de grupos da Libertadores.

A grande chance de vencer seria levar o duelo para o psicológico. Pressionar, acuar. Ainda que fosse em momentos chaves. Jair Ventura preferiu esperar. No Engenho de Dentro e no Maracanã. Aguardou tanto que o imponderável chegou no drible mágico de Berrío e no chute fraco de Diego que venceu Gatito Fernández.

Escaldado, não repetiu a atitude no torneio continental. Mesmo contra uma equipe superior à rubro-negra. A eliminação veio em gol único. Bola parada que é o ponto mais frágil de um sistema defensivo sólido. Mas em nenhum momento houve massacre do time mais forte. Segundo o Footstats, foram 57% de posse gremista e 15 finalizações, um terço no alvo. O Bota, porém, respondeu com 11, quatro na direção da meta de Marcelo Grohe. Barrios foi a diferença.

Mas desta vez não há do que se arrepender. A lamentar, talvez, a falta de contundência no ataque. O chute na trave de Bruno Silva. Podia ter vindo outro “milagre”. Mas Jair Ventura e seus comandados deixaram 100% em campo. Com a coragem dos grandes.

Agora é reunir forças para voltar ao G-6 no Brasileiro para quem sabe reescrever a história. Desta vez mais forte e respeitado. Mais glorioso. Mais Botafogo.

 


Botafogo 0x0 Grêmio: empate no conflito entre o possível e o desejado
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André Rocha

O Botafogo de Jair Ventura sabia que precisava adicionar um pouco de coragem e presença no campo de ataque no Nílton Santos para não repetir o erro da semifinal da Copa do Brasil contra o Flamengo e também pelos desfalques importantes do adversário que aumentavam as chances de vitória para levar vantagem para a volta. Mas também tinha noção de quem um jogo de controle de espaços seria viável pensando nos 180 minutos.

O Grêmio tinha noção de que precisava ter mais cuidados defensivos por não contar com Geromel, Michel e Luan, porém a ideia de ir às redes no Estádio Nilton Santos e encaminhar a classificação era sedutora, até pela proposta de jogo que automatiza movimentos independentemente da escalação. Trabalhar a bola, triangular, deslocar, atacar em bloco.

O resultado foi um conflito entre o possível e o esperado. Uma incerteza que até deu algum tempero à disputa.

Porque o jogo teve mais espaços entre as linhas de marcação, mais “trocação” que o esperado. Jair Ventura trocou Lindoso por Leo Valencia. Manteve a estrutura do 4-3-1-2 desmembrado em duas linhas de quatro sem a bola, porém bloqueando menos a entrada da área e chegando na frente com mais gente. O problema, novamente, foi a falta de criatividade e da eficiência nas conclusões – apenas cinco, nenhuma na direção da meta de Marcelo Grohe. Apesar da entrega de sempre de Rodrigo Pimpão e Roger.

O Grêmio com Bressan na zaga, Jailson à frente da defesa e Leonardo Moura, aos 39 anos, como meia central. No entanto, quem dominou o meio-campo foi Arthur. Marcando, jogando, apoiando e aparecendo sempre livre. O melhor em campo, embora Fernandinho também tenha desequilibrado o sistema defensivo do oponente com dribles e velocidade. Protagonistas de um domínio com 54% de posse e 11 finalizações, quatro no alvo. Consequentemente fazendo de Gatito Fernández mais uma vez o grande destaque da equipe carioca.

Faltou o básico, mas previsível pelo contexto: mais qualidade para a jogada diferente e a finalização precisa. Empate sem gols que inverte a lógica, ou a restabelece para os 90 minutos finais em Porto Alegre: Grêmio provavelmente completo e se instalando no campo do Botafogo, que vai fazer seu jogo de compactação, concentração absoluta e transições em velocidade em busca do golpe letal.

Um cenário mais confortável para os dois, mas que também trará mais armadilhas e menos tempo de recuperação. Nenhuma certeza, só a esperança de mais futebol por uma vaga na semifinal da Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Grêmio perde leveza “praiana”, Cruzeiro de Mano Menezes vence duelo tático
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André Rocha

Foto: Washington Alves/Light Press

Você já leu neste blog algumas vezes nos últimos meses elogios à naturalidade com que o Real Madrid de Zinedine Zidane propõe e executa sua maneira de jogar. No Brasil, sem nenhum tipo de comparação, quem chega mais perto disto é o Grêmio. Muito por conta do modelo já bem trabalhado e assimilado.

Em casa ou fora, a equipe de Renato Gaúcho costuma trabalhar a bola ou acelerar os contragolpes conforme a necessidade com um estilo fluido, leve. Mesmo com a vantagem depois da vitória por 1 a 0 em sua arena, foi o que se viu no primeiro tempo do Mineirão.

Lembrava a espontaneidade do confronto do ano passado na mesma fase da Copa do Brasil. Nos 2 a 0 no mesmo Mineirão. Sem Douglas distribuindo as jogadas e indo às redes, mas com Luan circulando e achando Barrios livre no lance chave que podia ter mudado a história do duelo. O paraguaio desperdiçou.

Mano Menezes tentou conter o volume de jogo gremista preenchendo o meio-campo. Henrique, Hudson e Robinho. Elber e Alisson nas pontas. Thiago Neves como “falso nove”. Talvez para ficar mais próximo da meta adversária. Ou preocupar os volantes Michel e Arthur e indefinir as ações da zaga sem Geromel e com Bressan ao lado de Kannemann.

Funcionou pouco porque Neves, mesmo com a inegável qualidade nas finalizações e sua capacidade criativa, não é jogador com leitura de jogo e de espaços para executar a função. Em muitos lances se enfiava como centroavante e ficava de costas para a defesa. Ainda assim, incomodou Marcelo Grohe com um chute perigoso.

Como Elber e Alisson são condutores de bola e não se projetam à frente ou em diagonal chamando lançamentos como Pedro Rocha costuma fazer do lado gaúcho, o Cruzeiro não tinha profundidade nas ações ofensivas. Ainda assim, teve mais posse de bola (54%) e finalizou seis vezes contra quatro.

E aí Renato Gaúcho, contaminado pela praga do “jogo para ganhar (ou classificar) e não jogar” e talvez preocupado com a responsabilidade que assumiu junto com a direção do clube de apostar tudo no mata-mata – Copa do Brasil e Libertadores – deixando o Brasileiro de lado, fez seu time perder a naturalidade e priorizar o resultado na segunda etapa.

Pecado capital. Mano trocou Elber por Raniel e ganhou mais presença física na frente, liberando Thiago Neves para chegar de trás. Mas o camisa trinta foi decisivo mesmo na cobrança de escanteio pela direita que encontrou Hudson para marcar o gol único da partida.

Renato não fez substituições conservadoras. Trocou Bressan por Bruno Rodrigo no final, mas antes mandou a campo Fernandinho e Everton nas vagas de Ramiro e Barrios para acelerar as transições ofensivas. O Grêmio, porém, não finalizou na segunda etapa. Foi dominado. O time mineiro repetiu as seis conclusões do primeiro tempo, mas desta vez apenas duas no alvo.

Podia ter definido a vaga com Raniel e Arrascaeta, que entrou na vaga de Alisson. Sobis substituiu Hudson nos últimos minutos para buscar uma pressão final ou bater pênalti. Abriu a série acertando, assim como Fernandinho.

Edilson e Everton acertaram as traves, Grohe pegou as cobranças de Robinho e Murilo. Arthur e Raniel foram precisos. No duelo dos talentos, Luan novamente falhou em um pênalti decisivo e a defesa de Fabio foi a senha para a festa depois que Thiago Neves deslocou Grohe.

Cruzeiro na decisão do torneio nacional. A sua sétima. Vai tentar superar novamente o Flamengo, como em 2003. Desta vez sem o timaço da tríplice coroa, a única da história – campeão estadual, brasileiro e da Copa do Brasil. Mas com  recuperação na temporada, enfim mostrando mais consistência no desempenho.

Méritos de Mano Menezes, que venceu o duelo tático quando Renato resolveu duelar na estratégia, no jogo mais denso e fez seu Grêmio perder as maiores virtudes: leveza e naturalidade. Como uma tarde de verão na praia que o ídolo gremista tanto ama.

A noite terminou pesada. Resta a obrigação de ir bem na Libertadores, objetivo maior e agora único. A menos que o Brasileiro volte a ser importante. Ainda que pareça tarde demais.

(Estatísticas: Footstats)

 


Força no mata-mata não torna Grêmio superior ao Corinthians
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André Rocha

A prioridade que as equipes têm dado à competição nacional e às internacionais de mata-mata vem induzindo à conclusão de que o Grêmio, por estar nas quartas de final da Libertadores e na semifinal da Copa do Brasil, além de ocupar a segunda colocação do Brasileiro, seria a melhor equipe do país.

Se o parâmetro fosse o futebol praticado, uma análise subjetiva baseada na preferência pessoal, seria até aceitável, embora ainda discutível. Afinal, o time de Renato Gaúcho tem um estilo envolvente e postura ofensiva. Agrada as retinas, de fato. Mas considerar apenas os resultados, atribuindo pesos aos campeonatos e concluindo que a média das campanhas é superior, gera algumas distorções.

O Grêmio enfrentou um grupo na Libertadores mais que acessível, com o Guarani paraguaio, Deportes Iquique e Zamora. Teve uma única derrota por 2 a 1 para o Iquique na desértica Calama, com arbitragem questionável, e chegou a poupar titulares no empate com o Guarani fora de casa priorizando o estadual que não conquistou. Mas ao menos viu o Internacional não alcançar o heptacampeonato ao ser derrotado nos pênaltis pelo Novo Hamburgo, o algoz tricolor na semifinal.

Nas oitavas do torneio continental, superou o Godoy Cruz, argentino que aproveitou a carona da campanha do Atlético Mineiro, a melhor da fase anterior, para alcançar a vaga. Duas vitórias apertadas, com susto em Porto Alegre pelo gol sofrido logo no início. Ou seja, cumpriu sua obrigação de favorito absoluto.

Na Copa do Brasil, classificação automática para as oitavas de final e atuações consistentes com 100% de aproveitamento contra Fluminense e Atlético Paranaense. Mas, convenhamos, o time de garotos de Abel Braga e a irregular equipe rubro-negra que só agora consegue uma sequência de boas atuações sob o comando de Fabiano Soares não representaram grandes desafios para o time de Renato Gaúcho a ponto de alçá-lo à condição de melhor equipe do país.

Nem a vitória em casa por 1 a 0 sobre o Cruzeiro na semifinal. Resultado que nada garante para a volta no Mineirão, apesar do favoritismo natural diante do time de Mano Menezes que não consegue inspirar confiança na temporada.

No duelo que colocou de fato o seu poder à prova, o Grêmio falhou. Foi derrotado e controlado dentro de sua arena pelo Corinthians. Líder absoluto do Brasileiro, campeão do estadual mais forte do país. Ainda vivo na Sul-Americana. O porém foi a eliminação precoce na Copa do Brasil. Sem derrotas em 180 minutos e revés nos pênaltis. Para o Internacional, que mesmo em um ano infernal de Série B, também não foi derrotado pelo arquirrival – empate em 2 a 2 no único confronto, pela primeira fase do Gaúcho.

O time paulista, porém, mostra consistência em toda a temporada. Porque apesar do desprezo dos que clamam pela volta do mata-mata até no Brasileiro, é na liga por pontos corridos que o mais forte se impõe. Pela regularidade, sem pagar por uma noite ruim ou apenas infeliz numa disputa de pênaltis.

Aproveitamento de 82,5%, melhor campanha em um turno na fórmula atual com 20 clubes. Invicto. Melhor mandante, superando inclusive o próprio Grêmio na décima rodada. Com gol de Jadson, cobrança de pênalti de Luan que Cássio defendeu. Grande atuação do time de Fabio Carille, especialmente no primeiro tempo, com destaque para Paulo Roberto, substituto do volante Gabriel. Triunfo do melhor jogo coletivo do país.

Emblemático para marcar a distância entre as mais fortes equipes do Brasil em 2017. Hoje o Corinthians está à frente.

 

 


Grêmio restabelece a verdade do campeonato. Hoje é mais time que o Flamengo
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André Rocha

O Grêmio vive um dilema na temporada. A alma de “copero y peleador” tende a privilegiar Libertadores e Copa do Brasil, mas o desempenho no Brasileiro mostra que é possível fazer ótima campanha e ainda buscar o título.

A derrota para o líder Corinthians em casa na décima rodada abalou a convicção e veio o revés em São Paulo, com os reservas, para o Palmeiras. Na sequência, a atuação espetacular do goleiro Douglas do Avaí que combinada com dois contragolpes dos visitantes impôs mais um jogo em sua arena sem pontuar.

Ainda assim, parecia claro que em meio às tantas oscilações dos candidatos a “anti-Corinthians” o time de Renato Portaluppi ainda era o mais qualificado. Provou isso na Arena da Ilha do Governador.

Sofrendo, sim. Porque enquanto teve um mínimo de organização o Flamengo pressionou, rondou a área. Terminou com 56% de posse e finalizou 21 vezes, nove no alvo. Ainda a bomba de Everton no travessão. Mas sem a chance cristalina. Também pela falta de Guerrero, mais como o pivô que dá sequência aos ataques do que propriamente como finalizador. Leandro Damião novamente decepcionou entrando de início.

O Grêmio cometeu 19 faltas contra onze da equipe mandante. Finalizou apenas quatro vezes, três no alvo. Teve no goleiro Léo, substituto de Marcelo Grohe, um dos destaques na disputa.

Mas não o maior. Porque Luan fez a diferença no gol único da partida. Quinto dele no campeonato. Ganhou dos volantes Márcio Araújo e Cuéllar, “tabelou” com Trauco e bateu fraco, no canto do jovem goleiro Thiago que não defendeu. O camisa sete desequilibrou, mesmo perdendo chance cristalina de matar o jogo na segunda etapa.

Contragolpe iniciado por um erro grosseiro de Diego, que cumpriu sua pior atuação com a camisa do Flamengo. Além da falta dos passes criativos que este blog tanto cobra do meia, também falhou em lances bobos, simples. Atrapalhou ainda mais com a vontade de ajudar e moral que tem no elenco. Continuou sendo o responsável pelas bolas paradas e não foi substituído.

Erro de Zé Ricardo, que repetiu as “soluções” de Cuca no dérbi paulista de ontem. Empilhou atacantes e esvaziou o meio-campo com as entradas de Filipe Vizeu, Mancuello e do estreante Geuvânio nas vagas de Cuéllar, Márcio Araújo e Trauco. Levantou 23 bolas na área na segunda etapa, 35 no total. De novo os cruzamentos quando não há espaços. Faltam ideias, fica tudo entregue às individualidades.

Desorganização controlada pelo time gaúcho. Renato, que usou essa prática costumeira no futebol brasileiro contra o Corinthians, desta vez reoxigenou o meio-campo com Jailson no lugar do extenuado Arthur e depois trocou Barrios por Everton para acelerar os contragolpes. Nem foi preciso.

Porque o Flamengo, assim como o Palmeiras, tem poder de investimento, mas o dinheiro não garante boas escolhas dentro de campo. Cai da vice-liderança porque não consegue dar o salto de desempenho. Sobrecarregado na criação, Everton Ribeiro desta vez não rendeu. Também errou muito no time que pecou coletivamente por falhas individuais.

O Grêmio restabelece a verdade do Brasileiro. Ainda que mais à frente priorize outras competições e perca a segunda colocação. Hoje é mais time que o Flamengo e só fica abaixo do líder absoluto.

(Estatísticas: Footstats)


Concentração e cultura da vitória: o Corinthians de Tite volta com Carille
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André Rocha

Foto: Instagram de Fabio Carille

O Corinthians é o time brasileiro desta década – para não deixar dúvidas, de 2011 até agora. Tem dois títulos brasileiros como o Cruzeiro, uma Libertadores como Santos e Atlético Mineiro. Um Mundial como nenhum outro desde 2006. Mais dois paulistas de lambuja.

Acima de tudo, criou uma identidade futebolística, com Mano Menezes e Tite. Uma marca. Organização, solidez defensiva. Tudo executado com um mantra do atual treinador da seleção brasileira: concentração. Leia mais AQUI.

Com as conquistas vem uma cultura de vitória. Aquela confiança no modelo e nos métodos que faz a equipe forte e fragiliza o oponente. Uma certeza de que se o trabalho for feito com correção tudo vai dar certo. Um temor do outro lado quando percebe a competência do adversário.

Foi este o Corinthians que venceu o Grêmio em Porto Alegre e abriu quatro pontos na liderança do Brasileiro. Se o Botafogo vencer o Avaí a distância para o terceiro colocado cairá para oito. Ainda assim, vantagem considerável.

Ainda mais consistente e importante porque o time comandado por Fabio Carille não perde. Já são 23 partidas consecutivas sem derrota. Muitos jogos sem brilho, coletivo ou individual, mas na maioria deles também com pouquíssimos erros.

Foi o que minou aos poucos a confiança gremista e foi calando a Arena. O time de Renato Gaúcho rondava a área, mas não conseguia infiltrar, nem criar a chance cristalina. Por isso os 32 cruzamentos de uma equipe acostumada a jogar com bola no chão.

Luan teve sua área de atuação bem reduzida pela compactação e por um dos “segredos” corintianos há alguns anos: a última linha de defesa com movimentos praticamente perfeitos, jogando próximos e atentos, guardando a região central. É difícil furar.

Mas quando vem a rara chance, é obrigação matar. E aí falhou Geromel na primeira etapa em jogada ensaiada. Depois Luan. Na oportunidade dentro da pequena área com chute fraco e, pouco depois, na cobrança de pênalti mais que hesitante. Uma paradinha insegura e o chute fraco para defesa de Cássio. O destaque do jogo, ainda que não tenha feito nenhuma intervenção espetacular.

Porque o Corinthians tem o foco no erro zero e não perdoa o equívoco ou a infelicidade. Como quando Luan, o personagem do duelo como os gremistas não desejavam e esperavam, facilitou com um toque a infiltração de Paulo Roberto. O substituto de Gabriel de atuação correta atrás e corajosa nas descidas ao ataque, com incrível chance perdida na primeira etapa. O centro da esquerda que Jô não dominou, mas Jadson completou entre as pernas de Marcelo Grohe. Outro trunfo a falhar do desafiante ao líder.

Força coletiva que potencializa o talento, outro lema de Tite. Por mais méritos que Carille demonstre, especialmente na flexibilidade do sistema tático que varia do 4-2-3-1 para o 4-1-4-1 conforme a necessidade e na utilização de jovens da base, é impossível não lembrar de quem aprimorou as ideias de Mano, formou um Corinthians sólido e depois, em 2015, acrescentou criatividade. Continua bem sucedido a serviço da CBF, com a mesma filosofia.

Carille segue a receita e acrescenta os toques pessoais. A vitória em Porto Alegre é simbólica. Com uma competição paralela a menos que Grêmio, Flamengo, Botafogo e Palmeiras para disputar, não é absurdo dizer que já temos um forte candidato ao título. Ou o mesmo dos últimos seis anos.

(Estatísticas: Footstats)


Luan na zona desfalcada do rival pode ser a chave de Grêmio x Corinthians
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André Rocha

Nenhum campeonato de pontos corridos com 20 clubes é decidido na décima rodada. Nem o espanhol, se Barcelona e Real Madrid se enfrentarem, um vença e abra dez pontos na liderança. Mas pode sinalizar tendências.

O Corinthians está invicto há 22 jogos. O Grêmio marcou gols em todos os jogos de 2017 e tem 100% de aproveitamento em sua arena no Brasileiro. Só a disputa no topo da tabela já seria motivo para chamar todos os holofotes para si no fim de semana.

Mas também será um duelo em tática e estratégia. Com um desfalque chave: Gabriel, expulso contra o Bahia. Porque uma mudança sempre altera o entrosamento. Neste caso, das ações com Maycon na proteção da defesa e da própria retaguarda no sistema de coberturas.

Logo contra Luan. Quatro gols e líder em assistências, com seis. O atacante que é meia e joga entre as linhas. Ou seja, se movimenta nos espaços deixados entre a defesa e o meio-campo do adversário. Mais ainda com a presença de Lucas Barrios no centro do ataque do 4-2-3-1 montado por Renato Gaúcho.

Luan que tem seu trabalho facilitado pelo jogo fluido no meio-campo com Michel, Arthur – segundo melhor passador da competição, com 96% de acerto –  e Ramiro, o volante-meia pela direita que abre espaços para o apoio de Léo Moura, agora Edilson com a lesão do lateral veterano. Também facilita a movimentação de Luan e Barrios que atacam aquela brecha e indefinem a marcação.

Time gaúcho que constroi muito volume de jogo atuando em seus domínios. E vai precisar diante do melhor sistema defensivo do país. Com Fabio Carille, que mantém a identidade corintiana construída por Mano Menezes e Tite e foi praticamente pulverizada por Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira.

Que terá Paulo Roberto no lugar de Gabriel e certamente Maycon mais fixo na proteção, dando liberdade a Rodriguinho para se aproximar de Jô. Equipe que apostará forte na compactação, no erro zero com concentração absoluta e na tática da “bola coberta”: pressão no gremista que estiver com a pelota e adiantar as linhas. Se o oponente conseguir sair da dificuldade, a última linha de defesa recua, protege a meta, não se expõe.

Fagner, Balbuena, Pablo e Guilherme Arana. Entrosados e sintonizados nos movimentos que cedem poucos espaços no “funil”, com chamam os treinadores. Ou seja, a área mais central da zona de decisão. Por onde são feitas as diagonais dos ponteiros para finalizar, as tabelas pelo meio e as penetrações de quem vem de trás.

Ofensivamente, o time paulista tem buscado ser mais criativo. Aposta em triangulações, toques rápidos e mobilidade. Com Jadson saindo da direita para dentro, Romero infiltrando em diagonal a partir da esquerda, Rodriguinho e Maycon aparecendo nos espaços vazios, Fagner e Arana intensos no apoio ao ataque.

Na referência, Jô. Em plena forma para reter a bola na frente, fazer o pivô, aproveitar o jogo aéreo e chamar lançamentos para usar a velocidade adquirida com a dedicação ao condicionamento físico. Centroavante decisivo até aqui em clássicos e jogos grandes e que pode ser fundamental.

Ainda mais se Renato Gaúcho perder Kannemann, dúvida por lesão. Impacto no entrosamento com Geromel na defesa titular que só foi vazada nos 3 a 3 contra o Cruzeiro, melhor jogo da Série A em 2017 até aqui. O Grêmio terá postura ofensiva, mas com cuidados. Ramiro e Pedro Rocha fechando com Michel e Arthur uma segunda linha de quatro bem próxima à defesa na recomposição. Guardar o setor de Cortez, que pode ter problemas com o apoio de Fagner e a movimentação dos companheiros quando Jadson sai da direita do ataque.

Em estatísticas, o Corinthians é superior em posse de bola e acerto de passes. Já o Grêmio é mais objetivo, precisa de cinco finalizações para marcar um gol. É o ataque mais positivo, com 23 bolas nas redes adversárias em nove partidas.

Mas a tendência é que os donos da casa tenham a bola e rondem a área corintiana com paciência e acerto nos passes esperando surgir a brecha. A pressa na definição da jogada pode dar o contragolpe que o rival espera. Até porque, objetivamente, a partida, pelo mando de campo e por buscar a liderança, vale mais para o Grêmio. A volta será em Itaquera, sabe lá em quais condições e em que posição na tabela.

Há um favorito, natural pelo mando de campo e por ter em Luan uma peça chave numa zona do rival enfraquecida por uma ausência. Sem desmerecer Paulo Roberto, a falta de Gabriel pode ser decisiva. Não por uma suposta marcação individual sobre o grande destaque gremista, mas pela perda nos movimentos coletivos dentro de um bloqueio por zona que vem sendo executado quase com perfeição. Por isso é a defesa menos vazada, com apenas cinco bolas nas redes de Cássio.

É difícil vencer esse Corinthians. Mas hoje, no país, se há uma equipe capaz da façanha é o Grêmio.

Prováveis formações, ainda com a dúvida de Kannemann na zaga gremista: times no 4-2-3-1, donos da casa propondo mais o jogo e tendo a chance de criar problemas para o Corinthians pela movimentação de Luan buscando espaços às costas do meio-campo e explorar o desentrosamento de Paulo Roberto, substituto do suspenso Gabriel (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)


Luan, o jogador do mês no Brasil. Protagonista do Grêmio 100% com titulares
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André Rocha

Fosse em uma empresa, teria sua foto na parede ou no elevador. Ninguém jogou mais bola nos últimos 30 dias no Brasil que Luan.

Antes criticado, até perseguido. Hoje o protagonista da ascensão gremista desde o início do Brasileiro. É possível definir sua função, enquanto o time teve Lucas Barrios na referência do ataque, como meia central do 4-2-3-1 armado por Renato Gaúcho depois da lesão de Douglas. Na prática, porém, o camisa sete é o jogador entrelinhas.

Inteligente para circular às costas dos volantes, tabelar com Barrios, infiltrar no espaço deixado por Ramiro na direita e aparecendo como opção pelos flancos para criar superioridade numérica. Com técnica, habilidade e faro de gol, desequilibra.

Já foi às redes quatro vezes. Mais quatro assistências. Ou seja, participação em quase metade dos 18 gols marcados pela equipe. Com a lesão de Barrios, voltou a atuar como “falso nove”. Não rende tanto por falta de companhia na frente além de Pedro Rocha, mas definiu a vitória sobre o Fluminense por 2 a 0 no Maracanã na bela cobrança de falta. Com confiança, decide também na bola parada.

Se mantiver o rendimento deve ganhar oportunidade na seleção brasileira. No ouro olímpico mostrou sintonia fina com Neymar e Gabriel Jesus. A má notícia para o Grêmio é que certamente já tem clube europeu atento a este crescimento no desempenho. Tem boa leitura de jogo, fundamental para adaptação rápida às grandes ligas.

Enquanto está a serviço do tricolor gaúcho, Luan é o fator de desequilíbrio. O jogador do mês. Não fosse a derrota dos reservas para o Sport, o resultado seria a liderança em sete jogos com 100% de aproveitamento. Com vitórias recentes mais duras e menos espetáculo. Mas ainda o melhor futebol jogado no país.


Grêmio de Renato sofre com o pior da Era Roger, mas vence no modo “copero”
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André Rocha

O Grêmio sentiu os desfalques em sua arena. Edilson finaliza melhor e é forte na bola parada, mas não chega tanto à linha de fundo quanto Léo Moura – fundamental para aproveitar o espaço deixado por Ramiro quando vem para o centro.

Já a opção de Renato Portaluppi para a vaga do lesionado Lucas Barrios foi um tanto controversa. Abriu mão do centroavante mais típico, manteve Everton, autor de três gols em Chapecó, no banco e adiantou Arthur para a meia central, Luan voltou a ser “falso nove” e Maicon entrou no meio-campo.

O resultado prático foi um Grêmio rodando a bola, mas sem opções de infiltração além das diagonais de Pedro Rocha, que teve a melhor oportunidade tentando encobrir o goleiro Jean. Mas na maior parte do tempo a posse foi estéril. A pior faceta da Era Roger.

A escolha, inclusive, corrobora a tese de que o trabalho mantém uma linha mestra de conceitos e ideias, com algumas adaptações e reparos do treinador carismático e experiente. Quando não teve Barrios e Bolaños, Renato voltou à configuração típica do seu antecessor, com Arthur fazendo a função que era de Douglas. Desta vez não deu tão certo.

Também pela maior concentração do adversário, efeito colateral do grande futebol apresentado pela equipe gaúcha. As duas linhas de quatro compactas do Bahia de Jorginho negavam espaços, dificultavam as tabelas e triangulações. Mas a equipe visitante também ameaçava pouco, isolando Edigar Junio. Com alguns momentos de aceleração e habilidade com Zé Rafael e Allione pelos flancos.

Melhorou um pouco para o mandante e favorito no segundo tempo com Everton, Fernandinho e Lincoln. Passou a rondar a área em uma zona mais perigosa e chegou a 16 finalizações, contra apenas seis do Bahia. Diminuiu um pouco a posse, de 66% para 61% definindo mais rapidamente as jogadas. Mais Renato Gaúcho.

O gol da vitória veio no melhor estilo “copero y peleador” tão prezado pelos gremistas. Quarenta minutos do segundo tempo. Cobrança de escanteio, desvio e toque de Cortez, que virou titular com a lesão de Marcelo Oliveira. Ala de outros tempos que hoje cumpre função de lateral, primeiro sendo um defensor. Mas apareceu na área para ajudar sua equipe a arrancar três pontos.

A forceps. À la Grêmio. Para alcançar a vice-liderança e já ensaiar uma polarização na disputa da ponta da tabela com o Corinthians. Quem sabe até o dia 25, quando as equipes se encontram também em Porto Alegre?

(Estatísticas: Foostats)