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Viva a “Velha Guarda”! Abelão e Renato Gaúcho na liderança do Brasileiro
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André Rocha

Foto: Divulgação Grêmio.

São apenas duas rodadas e a última incompleta, ainda faltando São Paulo x Avaí no Morumbi. A história mostra que qualquer posicionamento inicial na tabela de classificação significa muito pouco. Em 2016, Internacional e Santa Cruz chegaram a disputar a liderança da Série A, para terminarem rebaixados.

Mas não deixa de ser simbólico que Fluminense e Grêmio, comandados por Abel Braga e Renato Gaúcho, exceções à renovação no mercado de treinadores do país, sejam os únicos com 100% de aproveitamento e, por isso, ocupem a liderança – vantagem para o tricolor gaúcho pelo saldo de gols.

E não foram vitórias fáceis, sobre equipes sem maiores aspirações na temporada. O Flu superou Santos no Maracanã e Atlético Mineiro no Independência; o Grêmio venceu o Botafogo em casa e o Atlético Paranaense na Arena da Baixada. Quatro times disputando Libertadores, todos classificados para as oitavas-de-final do torneio continental.

O fato de não pertencerem à escola “atualizada” de técnicos não impede que suas equipes apresentem um futebol moderno. Abel Braga não permite que suas equipes mudem a ideia de jogo quando atuam fora de casa. Em Belo Horizonte, o Fluminense nunca abdicou do ataque, mesmo diante do volume do time da casa.

Fez 2 a 0 no primeiro tempo com as armas de sempre: velocidade pelos flancos, troca de passes com bola no chão no meio-campo, que ganhou Gustavo Scarpa como ponta articulador para auxiliar Sornoza e Wendel, mais o trabalho de pivô de Henrique Dourado, autor do primeiro gol e artilheiro do campeonato com três e da assistência para Richarlison ampliar de cabeça.

Depois sofreu pressão na segunda etapa e resistiu com a bela atuação do jovem zagueiro Nogueira. Sem dinheiro para reforços, a diretoria tricolor convenceu Abel a usar a garotada e vem funcionando. A falta de um elenco mais robusto vem sendo compensando pelas surpresas oriundas de Xerém.

Já Renato Portaluppi fez o Grêmio ressurgir depois da frustração no Estadual, tratado como prioridade mesmo disputando Libertadores – motivado, é claro, pela fragilidade do grupo do time gaúcho no torneio continental.

Arthur foi um achado no meio-campo, com bons passes, poder de marcação e aparições no ataque com qualidade, como no golaço sobre o próprio Fluminense pela Copa do Brasil, após tabelar com Luan e Barrios. Dupla de ataque que vai se afinando no 4-2-3-1 que cada vez mais se trasforma em 4-4-2. Autores dos gols em Curitiba.

Com Ramiro mais meio-campista pela direita apoiando o redivivo Léo Moura e Pedro Rocha mais intenso e vertical, buscando as diagonais a partir do lado esquerdo. O sistema defensivo comandado por Geromel que faz marcação individual, mas novamente Renato consegue que seus comandados estejam tão preparados física e mentalmente que compensem com muito vigor físico.

No duelo pela Copa do Brasil, vantagem de Renato Gaúcho em Porto Alegre. 3 a 1 de virada na melhor partida da quarta-feira, porém um tanto eclipsada por outros confrontos do próprio torneio e, especialmente, pela Libertadores.

Não esperem dos dois treinadores discursos rebuscados, com os termos atualizados dentro da ciência esportiva. Talvez terminem bem longe da disputa pelo título nas 36 rodadas restantes. Em campo, porém, a resposta é mais que positiva no que o esporte tem de eterno: quem joga bem sempre estará mais perto da vitória, por mais caótico que seja o jogo em si.

A diversidade sempre é bem vinda, a experiência nunca deve ser desprezada. Ainda mais quando vem acoplada ao carisma que conquista e convence. Abelão e Renato na ponta de um Brasileiro no ano da graça de 2017. Viva a “Velha Guarda”!


Grêmio, o time da melhor atuação coletiva da primeira rodada da Série A
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André Rocha

Volume de jogo, controle no meio-campo, no ritmo de Arthur e Ramiro. Não fossem os gols perdidos, especialmente por Luan, e o Grêmio teria construído uma goleada histórica.

Diante de um adversário forte e organizado como o Botafogo, a atuação coletiva da equipe de Renato Gaúcho foi a melhor da primeira rodada da Série A. Também a mais consistente do tricolor gaúcho em 2017.

Luan circulando entre o meio e a defesa do Bota, Arthur distribuindo o jogo, Ramiro como o meia pela direita que ajuda os volantes, abre o corredor para Léo Moura e torna o ataque mais móvel, mesmo com a  presença de Lucas Barrios como a referência no ataque.

Dominou a posse de bola no primeiro tempo com 60% e acabou superado no final (51% x 49%), mas aproveitou os espaços cedidos pelo avanço do rival para os contragolpes. Abriu o placar na persistência de Ramiro depois de uma “blitz” com Gatito Fernández salvando, ampliou na segunda etapa com gol de Luan -irregular pelo toque na mão. Mas foram 19 finalizações contra oito – nove a um no alvo.

Triunfo incontestável, também pela atuação fraca do Botafogo que sofre com as improvisações na lateral direita – Emerson Santos desta vez. Camilo reclamou por ser deslocado no meio-campo para encaixar Montillo. Mas agora, atuando na função em que se destacou no ano passado, jogando com liberdade, produz muito pouco.

De novo Rodrigo Pimpão foi sacrificado pela esquerda, voltando na recomposição formando a segunda linha de quatro e sendo a referência de velocidade para os contragolpes. Como precisou ser competitivo no início da temporada pelas etapas eliminatórias da Libertadores antes da fase de grupos, agora o alvinegro oscila.

Mas o mérito é gremista. Renato aproveitou o período sem jogos para ajustes e seu time soube dosar posse e transição ofensiva em velocidade. O primeiro ato no Brasileiro foi promissor.

(Estatísticas: Footstats)

[Em tempo: sim, ainda falta um jogo para finalizar a rodada 1. Mas pelo tamanho do confronto, entre dois times envolvidos em Libertadores, e considerando a solidez gremista, nem Coritiba, nem Atlético-GO tem condições de superar, mesmo que goleie e dê espetáculo. Questão de contexto]


Um Grenal divertido, mas preocupante para Renato e Zago
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André Rocha

Por incrível que pareça, desta vez se viu mais futebol e menos rivalidade exacerbada e violenta do que em outras edições do clássico gaúcho com os times mais qualificados e em melhor momento.

O Grêmio aproveitou o mando de campo e a baixa autoestima do rival pelo inferno da Série B no Brasileiro para se impor no primeiro tempo. Mesmo com o meio-campo dilacerado sem Walace, Maicon e Douglas, o time de Renato Gaúcho teve mais fluência pela mobilidade de Miller Bolaños e Luan na frente. Mas pouco mais que isso.

O Internacional penou com uma formação engessada e muito dependente de D’Alessandro, bem vigiado por Jailton e Michel. Rodrigo Dourado e Charles pouco contribuíam na construção das jogadas e ainda deixavam espaços às costas para a dupla de “falsos noves” gremistas.

Numa transição rápida, Bolaños fez o gol único de um primeiro tempo de posse de bola equilibrada, mas com o Grêmio finalizando nove vezes contra quatro dos colorados, que fizeram mais faltas (nove a cinco) e acertou mais desarmes (13 a sete). Mas não jogou.

O cenário mudou bastante na segunda etapa com Roberson e Nico López nas vagas de Charles e Carlos. Os substitutos formaram um tridente no ataque com Brenner. Uendel recuou no meio com Dourado protegendo D’Alessandro.

Mas a chave foi a movimentação de Nico saindo da direita e infiltrando às costas dos volantes gremistas. O maior volume de jogo fez efeito rápido com a virada em 13 minutos nos gols de Roberson e Brenner, envolvendo com facilidade o sistema defensivo do time da casa.

Renato trocou Pedro Rocha e Michel por Barrios e Fernandinho e mandou o time para o ataque praticamente num 4-2-4. E aí faltou confiança a Antonio Carlos Zago tirando Brenner e colocando o volante Anselmo, voltando a adiantar Uendel para fazer dupla com Carlinhos à esquerda.

Nico López seguiu bem no jogo, mas perdeu o fator surpresa. O contexto voltou a favorecer o Grêmio, que empatou no chute de Fernandinho que Danilo Fernandes aceitou e cresceu ainda mais com o jovem Lincoln no lugar de Jailson. Debaixo de forte chuva, terminou com 17 finalizações contra nove do Inter. Mas o recorte do período de domínio do rival visitante expôs as fragilidades da equipe de Renato.

O Colorado sofreu mais ao longo da partida. Mesmo com ótimos 15 minutos na segunda etapa, ficou claro que a reconstrução precisa ser ampla para formar um time consistente. O trabalho de Zago está no início e a insegurança pode ser encarada com natural.

Mas não deixa de ser preocupante. Para os dois. Mesmo num Grenal divertido, exatamente pelas falhas de ambos.

(Estatísticas: Footstats)

 


Por um debate mais tolerante, plural e com conteúdo em 2017
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André Rocha

No ano em que os resultados premiaram o desempenho das equipes dos estudiosos Micale e Tite na seleção brasileira, veio Renato Gaúcho no final com a conquista da Copa do Brasil e seu discurso de exaltação ao talento que minimiza o esforço.

No meio termo, Cuca foi campeão brasileiro fiel às suas convicções, como marcação individual e jogadas aéreas ensaiadas até em cobranças de lateral, mas adaptando conceitos atuais como pressão no campo de ataque e meio-campo mais qualificado. E o melhor: admitindo mesmo depois da conquista que precisa estudar e se aprimorar.

Tudo para lembrar que no Brasil e em qualquer canto que se jogue futebol é possível vencer de várias maneiras. “O futebol é generoso” costuma dizer Paulo Autuori, outro técnico com saldo positivo em 2016.

Mas o resultado deve mesmo encerrar qualquer discussão? O líder ou o campeão não pode ser questionado? Tem sempre razão? Em um jogo tão aleatório e imprevisível, o desempenho nem sempre tem relação direta com o placar final.

É preciso entender o papel do analista, que é chamado todo o tempo a opinar e trabalha com fotografias instantâneas da temporada. Afirmar que um time está jogando melhor naquele momento não significa que levará a taça, nem que será justo pelo desempenho em toda a competição.

Ao mesmo tempo, este que escreve reconhece que exagerou ao dizer que o Palmeiras poderia ser um campeão “pela porta dos fundos”. Melhor seria substituir por “sem brilho e sem números”. Àquela altura o time corria risco de perder a condição de melhor ataque, maior número de vitórias e outras estatísticas. Mas “porta dos fundos” foi demais, talvez pela aversão ao resultadismo precoce de Cuca e seus comandados, alimentado por 22 anos sem títulos brasileiros.

Quem é obrigado a se posicionar o tempo todo sobre algo que muda a cada instante invariavelmente vai dizer alguma bobagem. Sempre, porém, com imenso respeito à instituição. Sem clubismo, pelo menos deste blogueiro. Acredite: com o tempo, é mais fácil o jornalista se trair torcendo por suas convicções do que pelo time que fez com que ele se apaixonasse pelo esporte. É da vaidade humana.

Uma tolice, pois o futebol está aí sempre para dar uma rasteira nas nossas idealizações. Por isso é tão inútil esse Fla-Flu estudiosos x boleiros. Porque não adianta falar a língua dos jogadores sem conteúdo nos treinos, assim como o técnico que prefere os livros ao contato pessoal dificilmente terá a confiança dos seus comandados.

O mesmo vale para o comentarista que trata o futebol como um mero jogo de xadrez. Tão equivocado quanto alguns geradores de obviedades que menosprezam a inteligência de quem está ouvindo. Ou só dizem o que o torcedor quer ouvir, numa relação fornecedor-cliente. Pior ainda os que confundem leveza e humor com piadas grotescas que sempre acabam ofendendo alguém.

O torcedor não tem as obrigações do jornalista. Mas é importante entender que se ele quer interferir na vida do clube, seja como sócio-torcedor ou através dos muitos canais de comunicação que existem hoje, é preciso saber mais. Não dá para colocar tudo na conta do técnico “burro” ou do time “sem vergonha”.

Se assistir apenas aos jogos do seu time, sem entender minimamente a evolução do esporte em todas as áreas, a crítica será sempre rasa. Ou saturada de saudosismo, dos tempos em que o time era o melhor. A velha visão de que tudo no passado era mais bonito. Basta pesquisar na internet, com jogos na íntegra disponíveis, para perceber que felizmente tudo evolui. Por isso fica mais complexo.

Que no ano que chega sejamos mais tolerantes e plurais, respeitando e aprendendo com quem tem algo a transmitir. Com rivalidade, mas sem antagonismos radicais no debate. Sempre valorizando o conteúdo, que é ouro em tempos de tanta informação circulando.

Que o torcedor não seja tratado como uma criança mimada, que não pode ser contrariada. Que os profissionais de futebol lidem melhor com críticas construtivas. Que nós, analistas, estejamos atentos ao que o esporte oferece de objetivo, matemático, mas também ao lúdico e ao imponderável. Não é vergonha dizer que uma bola que bateu no travessão e não entrou por centímetros foi apenas sorte de quem deixou de sofrer o gol. Simples assim.

Por isso estamos aqui falando dessa parte importante de nossas vidas. Imprevisível como cada dia de cada semana de cada mês. De cada bola que rola. Do ano que vira no calendário para lembrar que podemos fazer melhor, mesmo sem garantia de vitória no final dos 90 minutos.

Até 2017!


O campeão tem sempre razão?
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André Rocha

Renato Gaucho Gremio campeao

Final da Copa do Mundo de 1954 no Estádio Wankdorf em Berna, Suíça. 43 minutos do segundo tempo. A lenda húngara, Ferenc Puskas, mesmo com o tornozelo inchado que quase o tirou da final por uma pancada na goleada por 8 a 3 sobre a mesma Alemanha da decisão, marca o gol que seria do empate.

A arbitragem marca impedimento. Para muitos inexistente, inclusive o saudoso jornalista Luiz Mendes, presente no estádio como único locutor brasileiro. Podia ter evitado o “Milagre de Berna” e quem sabe o que aconteceria depois?

Estádio Sarriá, Barcelona. Último lance de Itália 3×2 Brasil. Jogando pelo empate, a seleção de Telê Santana parte para o abafa derradeiro. Cobrança de falta de Eder, o zagueiro Oscar sobe mais que todos e acerta um golpe de cabeça no canto. Seria o gol da classificação da equipe que encantou o mundo na Copa de 1982.

Não foi por uma das mais impressionantes defesas da história das Copas. A mais incrível sem rebote. Dino Zoff pegou de um jeito inusitado, parando a bola num movimento de cima para baixo e evitou que ela cruzasse a linha e também a chegada de Sócrates e Zico.

Stamford Bridge, maio de 2009. O Chelsea vencia o Barcelona por 1 a 0 e, com o empate sem gols no Camp Nou, se classificaria para a final da Liga dos Campeões não fosse um golaço de Iniesta já nos acréscimos.

Jogo com uma das arbitragens mais polêmicas de todos os tempos, com pelo menos três pênaltis claros não marcados para os Blues, que colocou o time de Guardiola e Messi na decisão do torneio continental que garantiria a tríplice coroa e o início da trajetória de um dos maiores times de todos os tempos.

Três entre tantos exemplos de partidas definidas em detalhes, em fatos aleatórios. Uma bola que separou campeões e derrotados. Que criou ou destruiu legados, fez heróis, mudou a história do esporte.

Corte para 2016. O Grêmio de Renato Gaúcho conquista a Copa do Brasil e encerra um duro período de 15 anos sem títulos nacionais. Campanha sólida, especialmente fora de casa na reta final. Melhor equipe da competição. Incontestável.

Na comemoração, o sempre bravateiro Renato Gaúcho chamou para si todas as atenções ao afirmar: “quem sabe, sabe; quem não sabe vai para a Europa estudar”. Gerou enorme polêmica, mas nem ele deve acreditar nisso. Sem contar que o propósito de estudar e se aperfeiçoar é algo pessoal, de foro íntimo. Uma escolha.

O blog prefere um outro recorte da fala do maior ídolo gremista: “Disseram que estavam trazendo um treinador que estava jogando futevôlei. E agora? E aí?”

Eis o ponto: a taça encerra qualquer discussão? O campeão tem sempre razão? Renato é um fanfarrão desde os tempos de jogador, um personagem sensacional que nunca se levou muito a sério nem devemos dissecar o que ele diz, ainda mais no calor da conquista. Mas vale a reflexão.

E o contexto da base montada pelo trabalho de Roger? E a importância de Valdir Espinosa e outros profissionais? E a prioridade que o Palmeiras deu ao Brasileiro tornando a disputa nas quartas-de-final menos complicada? E a desorganização do Atlético Mineiro com Marcelo Oliveira no jogo de ida da decisão em Belo Horizonte?

Aliás, cabe um parêntese: o técnico mais vencedor do futebol brasileiro nos últimos quatro anos, com dois títulos brasileiros e uma Copa do Brasil, deixou o Galo coberto de críticas e com cinco minutos de jogo em Porto Alegre já foi possível perceber uma equipe com setores mais bem coordenados pelo jovem técnico Diogo Giacomini.

Em um esporte absolutamente imprevisível, por isso tão arrebatador, no qual vitórias e glórias se definem numa bola que bate no travessão e cruza ou não a linha, numa decisão da arbitragem em fração de segundos e em tantos outros mínimos detalhes, o troféu, ainda que seja o objetivo final de qualquer competição, é sempre um argumento sem resposta?

A história mostra que alguns derrotados no placar final colaboraram mais com a evolução do futebol e são mais lembrados que os campeões. Alguns vencedores são até hoje questionados por seus métodos. Multicampeões pragmáticos quando citados nada mais têm a oferecer do que as conquistas. É suficiente?

Renato merece respeito por sua história e faz mesmo jus a uma estátua na Arena do Grêmio. Que vá comemorar com amigos, a filha Carol e curtir as férias. O torcedor mais motivos ainda tem para celebrar, zoar os rivais. Vencer é delicioso e fundamental na formação de novos torcedores. Sem contar a visibilidade, novas receitas e tantas outras coisas.

Mas futebol não é só isso. Nem pode ser. Por isso o post se encerra com trecho de uma reflexão de Marcelo Bielsa no livro “Los 11 caminos ao gol”, de Eduardo Rojas, muito bem resgatada pelo colega Gustavo Carratte no perfil do seu ótimo Conexão Fut no Twitter. Um técnico com um currículo mais recheado de ensinamentos que títulos.

“Na vida há muito mais derrotas que vitórias e é preciso entender isso. Portanto, endeusar alguém que acaba de triunfar, alçando-o a um patamar acima dos demais acaba confundindo quem o vê fazendo isso. As pessoas são indecisas sobre as coisas e quando forem questionadas sobre como alcançar os êxitos elas só saberão que é preciso vencer, sendo incapazes de dizer quais valores cultivar e o que fazer para chegar até lá”.


O que é de Roger, o que é de Renato. O que não é de Marcelo Oliveira
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André Rocha

Era difícil acreditar na redenção de Renato Gaúcho em um trabalho de três meses. Sem estudo e maiores atualizações para comandar uma equipe trabalhada por Roger Machado em conceitos modernos.

O futebol é espetacular porque não tem verdades absolutas. Foi exatamente na combinação do que o antecessor deixou com o polimento do olhar mais vivido do maior ídolo da história do clube que o Grêmio se arrumou para buscar o título nacional que não vinha há quinze anos.

De Roger, os movimentos já memorizados de apoio ao jogador com a bola, criação de linhas de passe, profundidade, abrir o jogo para espaçar a marcação adversária. De Renato, a gestão de grupo, o carisma que mobiliza, o ajuste defensivo com soluções mais simples, embora se note a compactação dos melhores momentos da campanha surpreendente no ano passado. As correções nas jogadas aéreas. O que era preciso.

Por isso não é justo tirar méritos do atual treinador, mas seria cruel não lembrar da semente plantada por Roger. O resultado prático é um time bem coordenado, com Walace e Maicon qualificando a saída e negando espaços à frente da defesa. Volantes passadores e eficientes.

As linhas de quatro sem a bola deixando Douglas e Luan participando sem a bola mais na pressão sobre os defensores. Ramiro é muito mais um volante que atua aberto e ajuda Edilson a bloquear pelo setor direito e deixou o time um pouco mais equilibrado, sem esvaziar o meio-campo. Já Pedro Rocha é o ponta agudo na transição ofensiva, partindo em diagonal a partir da esquerda para finalizar.

O ponteiro foi o personagem dos 3 a 1 sobre o Atlético no Mineirão que encaminha a conquista tão esperada. Dois gols aproveitando a bagunça defensiva do oponente, uma chance cristalina perdida à frente de Victor e a tola expulsão que trouxe o Galo de volta ao jogo na segunda etapa.

Porque só o acaso, os eventos aleatórios que tornam o futebol tão previsível e apaixonante poderiam recolocar a equipe de Marcelo Oliveira na disputa. O treinador vencedor, bom gestor de grupo, que incentiva o talento e a improvisação de seus jogadores. Mas que não consegue organizar minimamente um sistema defensivo nem fazer seu time controlar o jogo.

Não é raro ver o Galo se defendendo com apenas seis jogadores, setores distantes, sem pressão, com erros graves de posicionamento. Capaz de levar numa decisão de torneio nacional um gol de fim de pelada, o segundo de Pedro Rocha arrancando sozinho e com incrível facilidade.

Aí não há garra de Leandro Donizete, talento de Robinho, presença de área de Pratto, o apoio de Júnior Urso e defesas de Victor que resolvam sempre. Nem o belo gol do zagueiro Gabriel que alimentou uma esperança de novo “milagre”. É claro que Luan, Otero e Fred fizeram falta, mas a facilidade com que o Grêmio atuou, especialmente no primeiro tempo, é inviável no futebol atual. Ainda mais numa final.

O terceiro gol, num contragolpe no final do jogo em bela jogada do ótimo Geromel que encontrou Everton livre é aceitável pelo contexto. Ainda que o time mineiro contasse com um homem a mais. Mas para a volta na Arena do Grêmio parece a pá de cal. Só não dá para garantir a quinta Copa do Brasil do tricolor gaúcho porque isso é futebol.

Até a capacidade de reação do Galo nas conquistas recentes precisa ser relativizada, porque as viradas sempre aconteceram em Belo Horizonte. Como visitante fica quase impossível. Também por conta do que faltou taticamente à equipe de Marcelo Oliveira.

Sobrou o Grêmio. De Renato e de Roger. Moderno e com alma. Com jeito de campeão.

 

 


A vitória da praia sobre o curso na UEFA. O futebol é democrático!
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André Rocha

Mano Menezes foi para a UEFA estudar no período em que ficou sem trabalhar. Fez o correto, o que se espera de um bom treinador: buscou o aperfeiçoamento, intercâmbio.

Mas isto não garante sucesso. A trajetória profissional se constrói dia a dia, decisão a decisão. E Mano foi infeliz no Mineirão contra o Grêmio pelo jogo de ida das semifinais da Copa do Brasil.

Primeiro ao nitidamente se deixar abalar emocionalmente com o gol “qualificado” do adversário que complicava o confronto. Passou a reclamar além da conta com os comandados e, para variar, com a arbitragem. Transmitiu tensão e insegurança.

Depois a decisão trágica: trocar Lucas, que, de fato, não ia bem, mas colocar Alisson e abrir um clarão do lado direito que Leo não conseguiu cobrir. Desorganizou todo o time num confuso 3-4-3 com Arrascaeta e Robinho praticamente ocupando os mesmos espaços.

Matou qualquer chance de fluência no jogo cruzeirense e cedeu os espaços que o oponente queria para definir o jogo e encaminhar a classificação para a final.

O Grêmio de Renato Gaúcho. Que tomou conta dos passos da filha, foi à praia e viu futebol apenas pela TV. Sem maiores preocupações com cursos e estudos.

Chegou, arrumou o sistema defensivo, trabalhou a parte física e as bolas paradas. Manteve os conceitos de sempre. Mas com simplicidade e coerência preservou virtudes do trabalho de Roger Machado.

Como a longa troca de passes que terminou no chute primoroso de Luan, atacante no 4-2-3-1 “torto” com Ramiro mais preso pela direita que Pedro Rocha à esquerda. Flutuando entre o meio e a defesa celeste e alternando com Douglas. Como nos melhores momentos gremistas em 2015.

Mas seria covardia atribuir apenas ao ex-treinador os méritos pela bela ação ofensiva. Assim como a compactação bem coordenada dos setores que controlou o jogo até Douglas decidir em contragolpe envolvendo uma retaguarda perdida.

Com 47% de posse de bola, a equipe gaúcha finalizou sete vezes, três na direção da meta de Rafael. Duas nas redes. Contra cinco cruzeirenses, nenhuma no alvo. Atuação pífia de um time que não consegue ser regular e consistente.

Caminho aberto para a busca do pentacampeonato do clube e do bi pelo técnico “praiano”. O estudioso Mano terá que rever conceitos e comportamentos para lutar por uma classificação histórica. Hoje improvável.

Mas o futebol é tão imprevisível quanto democrático. Sem fórmula ou manual. Por isso tão apaixonante.

(Estatísticas: Footstats)


Técnico de time grande e ambicioso não pode parar no tempo
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André Rocha

Bastou a classificação da dupla Gre-Nal comandada por Renato Gaúcho e Celso Roth para as semifinais da Copa do Brasil e a goleada sofrida pelo Manchester City de Guardiola para surgirem os defensores da “Velha Guarda” com o discurso do “ódio ao futebol moderno” dentro de campo.

É legítimo preferir um estilo mais rústico e tradicional a algo mais atual. Acontece em todas as áreas da vida que se relacionam com a estética. Inclusive o futebol. Em tempos de pluralidade de opiniões nas redes sociais também soa diferente, original e “descolado”.

Só que para um time grande, mesmo entendendo a particularidade da presença dos dois treinadores nos gigantes gaúchos – contratos de curta duração pelo ano eleitoral – soa pobre a pretensão apenas de se livrar de rebaixamento, chegar ao G-6 do Brasileiro ou à fase final de um torneio nacional de mata-mata.

O que se espera, ou idealiza, em um clube de massa é um trabalho a médio/longo prazo com dois objetivos que podem caminhar juntos ou não: marcar época com grandes conquistas (Libertadores e Mundial) e/ou entrar para a história com um estilo inovador ou espetacular.

Às vezes tudo funciona como numa espécie de clique e em pouco tempo é formada uma equipe que fica na memória do torcedor. Qual o último time realmente encantador no país? O Santos de 2010. Dorival Júnior assumiu no início do ano e rapidamente entregou uma máquina de gols: Rafael; Pará, Edu Dracena, Durval e Alex Sandro; Arouca e Wesley; Robinho, Ganso e Neymar; André. Campeã paulista e da Copa do Brasil.

Outro exemplo de “meteoro” que se eternizou: Palmeiras de 1996, campeão paulista com mais de 100 gols comandado por Vanderlei Luxemburgo. De Velloso; Cafu, Sandro, Cléber e Júnior; Amaral, Flávio Conceição, Djalminha e Rivaldo; Muller e Luisão. Tantas vezes mais citado que os times campeões brasileiros em 1993 e 1994.

Pergunte a um vascaíno de mais de 40 anos se não se recorda do campeão da Taça Guanabara de 1987: Acácio; Paulo Roberto, Donato, Fernando e Mazinho; Dunga, Geovani e Tita; Mauricinho, Roberto Dinamite e Romário. Até hoje o treinador daquela “SeleVasco”, Joel Santana, lembra em participações em debates e programas de TV da equipe mais ofensiva que comandou para se defender do rótulo de “retranqueiro”. Disputou um turno de estadual.

Isso sem contar os exemplos mais clássicos de seleções que não venceram a Copa do Mundo, porém são mais exaltadas, analisadas e mencionadas nos livros sobre o esporte do que as campeães: Hungria de 1954, a Holanda de 1974 e Brasil de 1982.

Todos esses times, em maior ou menor escala, traziam consigo algo novo ou ousado. Diferente. Porque desde sempre o pragmatismo é muito pouco para nós, humanos. Em tese, bichos que sentem e pensam. Queremos a beleza para ao menos tangenciar a eternidade.

Sim, esse discurso pode soar muito romântico e filosófico. Retornemos então aos títulos. Levar a taça para casa. Simples e direto. Mesmo assim é preciso estar alinhado ao que está acontecendo no planeta bola.

Tomemos o último exemplo bem sucedido no Brasil: o Corinthians de Tite, campeão brasileiro, da Libertadores e Mundial entre 2011 e 2012. Um time menos empolgante que o do ano passado, comandado pelo mesmo técnico, porém reinventado depois de um ano “sabático” e apostando mais na criatividade.

Mesmo mais “duro”, chegou ao topo do mundo no universo dos clubes por jogar um futebol atual: compacto, intenso e bem coordenado. Com capacidade para competir e buscar ser o melhor. Ok, foi feliz ao encarar o Chelsea no duelo derradeiro e não um Bayern, Real Madrid ou Barcelona. Mas cumpriu sua missão.

Ao contrário do Atlético Mineiro de Cuca e Ronaldinho Gaúcho. Time com conceitos arcaicos como marcação individual, volantes essencialmente marcadores (Pierre e Leandro Donizete) para compensar a inércia do craque do time sem a bola, mas fracos na construção do jogo. Muitas ligações diretas procurando Jô e linhas espaçadas.

Campeão da Libertadores sempre sofrendo fora de casa, mas encontrando uma fórmula mágica em Belo Horizonte: intensidade absoluta, pressão sufocante, comunhão comovente com a torcida sob o lema “Eu acredito!” e o goleiro Victor para salvar quando tudo parecia perdido.

Histórico pela conquista continental. Mas na disputa do Mundial, quando precisou de conteúdo tático e não tinha o Horto como trunfo…passeio do Raja Casablanca na semifinal e sequer a chance de disputar a decisão contra o Bayern de Munique de Guardiola.

No Brasil, especialmente em política, religião e futebol, o estudo e o esforço para se informar e atualizar muitas vezes são taxados como enfadonhos ou ligados à “tecnocracia” e descartados em nome do carisma, da espontaneidade ou da ditadura do humor em tempos recentes. Também importantes, mas que dificilmente se sustentam sozinhos por muito tempo.

Por isso não dá para aceitar um treinador, no ano da graça de 2016, afirmar que não há inovações no futebol e que tudo que acontece hoje é o mesmo que ocorria há duas décadas.

Direito de Roth, Scolari, Luxemburgo e outros veteranos não apreciar o estilo de Guardiola. Mas descartar todo o futebol atual, inclusive a escola mais intensa e vertical de Mourinho, Ancelotti, Klopp e Simeone, é ignorância voluntária. Ou preguiça mesmo.

Técnico de time grande precisa estar atento, conectado, sintonizado para pensar e sonhar do mesmo tamanho. Para ser ambicioso é proibido parar no tempo.


O Grêmio à moda antiga de Renato Gaúcho
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André Rocha

Renato Gaucho 2016

Renato Portaluppi aceitou voltar a treinar o Grêmio com o Valdir Espinosa como coordenador técnico para um contrato de três meses em ano eleitoral sucedendo Roger Machado. O velho “mandato tampão”. Ou bombeiro.

Chegou com seu carisma e o status de maior ídolo do clube, mais de dois anos sem comandar um time após a passagem pífia pelo Fluminense em 2014. Comerciais, praia, os ciúmes da filha Carolina que já viraram lenda. Futebol, apenas pela TV. Atualização? Nem sinal.

No campo isso ficou visível logo no início. Renato continua um treinador com os mesmos conceitos de seus trabalhos na década passada: muito valor à preparação física, detalhista na bola parada e adepto da marcação por encaixe, com perseguições individuais. Sem maiores preocupações com posse de bola, muito mais reativo. Ou seja, um futebol dos tempos do auge do “Muricybol” no Brasil.

Um enorme contraste com as ideias atuais de Roger que colocaram o Grêmio surpreendentemente na Libertadores deste ano, mas até pela inexperiência do jovem treinador não conseguiu construir um trabalho a longo prazo pelo desgaste, inclusive na gestão de grupo.

Especialidade de Renato, que agrega, mobiliza e motiva com seu estilo fanfarrão – aquele tio que chega no churrasco brincando com todo mundo, contando vantagem e atraindo todas as atenções para si. Por ele o time pode até correr errado, mas se entrega tanto que acaba compensando qualquer problema na execução.

Eis o Grêmio semifinalista da Copa do Brasil eliminando o mistão do Palmeiras no Allianz Parque. Com Ramiro ora meia, ora volante pela direita num 4-2-3-1 “torto” que isolou Luan na frente. Sofrendo para conter as jogadas bem trabalhadas pelo time de Cuca e levando um gol na jogada aérea tão treinada por Renato.

O golpe de cabeça de Thiago Martins classificaria o alviverde, não fosse a duríssima e desnecessária entrada de Alione em Everton que rendeu um cartão vermelho direto para o argentino.

Emblemático que o gremista agredido – substituto de Pedro Rocha que perdeu chance cristalina no primeiro tempo em raro contragolpe tricolor – marcasse o gol do empate e da classificação. Com Renato já fora de campo, expulso após tantas reclamações – outra marca do técnico que não muda.

Teimoso, com um estilo arcaico mas que funciona na prática, ao menos no curto prazo. Até o fim do ano e do contrato pode render mais uma Copa do Brasil para o técnico, que venceu com o Fluminense em 2007, e para o maior campeão junto com o Cruzeiro, exatamente seu adversário na semifinal.

A quinta conquista do time gaúcho seria melhor que uma vaga no G-6 do Brasileiro que obrigaria a disputar as fases preliminares no novo formato do torneio continental.

Um Grêmio à moda antiga. Como uma amante que Renato Gaúcho sempre consegue seduzir em Porto Alegre. Até dezembro esse amor pode terminar na conquista nacional que não chega para o clube desde 2001.


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