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Real Madrid campeão, mas com a cabeça no Barcelona. Grêmio fez o que pôde
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André Rocha

O Grêmio teve caráter e entrega, mas faltou Arthur para qualificar o passe e sair da pressão do adversário. Também um plano de trabalho ofensivo para surpreender o favorito. Na falta de espaços, talvez arriscar mais de fora da área além da cobrança de falta com força de Edilson que Keylor Navas não pegaria se fosse no alvo.

E chances não faltaram. Porque o Real Madrid, mesmo com time completo e buscando o título do Mundial de Clubes pela cultura do clube que coleciona troféus, nitidamente jogou com freio de mão puxado. Administrando fôlego, posse, atacando com naturalidade. Mas sem forçar.

Tudo por causa do superclássico no dia 23 pela liga espanhola. Para tentar diminuir a vantagem do Barcelona na liderança. É a mentalidade do europeu, sem grandes comemorações no apito final de cada conquista intercontinental.

O campeão da Libertadores tentou aproveitar isso no início, como na entrada dura de Geromel sobre Cristiano Ronaldo. Claramente para intimidar, mostrar que dificultaria a missão. E o que se viu foi o time merengue evitando as entradas mais duras. Casemiro foi a exceção, levando o único cartão amarelo de sua equipe por uma pancada em Luan.

O camisa sete do Grêmio sentiu o jogo e a sobrecarga na criação sem Arthur. Em alguns minutos ficou perdido entre Casemiro, Modric e Kroos. Restou a luta e o time gaúcho correspondeu. Merece ser recebido com carinho por seu torcedor.

A distância é grande mesmo. Em técnica, tática, leitura de jogo, dinâmica, intensidade. O Real terminou com 65% de posse e 17 finalizações – seis no alvo. Trocou passes no ritmo de Luka Modric, o melhor da decisão. Mas, a rigor, só foi às redes na cobrança de falta de Cristiano Ronaldo que passou entre Luan e Barrios. O português fez um gol bem anulado por impedimento de Benzema e tentou outras jogadas. Mas faltou inspiração.

Ou concentração. A prova de que quando se fala na disparidade entre o futebol jogado aqui e nos principais centros e na grande diferença no tratamento dado ao Mundial, com chancela ou não da FIFA, não é “complexo de vira-latas”. É a realidade, pura e simples. Para o Grêmio era a cereja do bolo antes das férias. Na temporada do Real a viagem aos Emirados Árabes é quase um problema.

O Real Madrid carregava o favoritismo e confirmou a sexta conquista. Mas as atuações pouco consistentes são preocupantes para a sequência da jornada 2017/18. A começar pelo Barcelona, a prioridade do momento.

(Estatísticas: Footstats)


Por que nem em sonho Renato Gaúcho foi melhor que Cristiano Ronaldo
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André Rocha

Imagem: reprodução TV Globo

Renato Portaluppi é um personagem sensacional da história do futebol brasileiro. Irreverente, provocador, controverso, carismático. Incendiou o debate sobre futebol no país desde o ano passado com a frase “quem não sabe estuda, quem sabe vai para a praia”.

Várias bravatas e polêmicas desde que surgiu como jogador no Grêmio em 1982. Com personalidade e confiança. Aos vinte anos já partindo para cima do consagrado Leovegildo Júnior em uma final de Brasileiro. Um ano depois, decidindo o Mundial de Clubes com dois belos gols sobre o Hamburgo em Tóquio após ser protagonista também na conquista da Libertadores.

Este blogueiro viu Renato muitas vezes ao vivo no Maracanã e já o teve como ídolo. Entre os anos 1980 e 1990 chegou a jogar suas peladas de rua com as meias arriadas no meio da canela e imitar os trejeitos do atacante. Inclusive reclamando dos colegas que não passavam a bola.

Agora Renato é o treinador campeão da América e decidindo o Mundial no sábado contra o Real Madrid de Cristiano Ronaldo. Melhor do mundo em 2017, recordista com cinco Bolas de Ouro junto com Messi. Mas o Portaluppi insiste em dizer que foi melhor que o português. E muita gente boa concorda…

Obviamente que com o jogo no sábado o gaúcho não deve se arriscar a provocar gratuitamente a estrela do adversário. Mas nos últimos anos em muitas oportunidades e usando várias justificativas ele se colocou acima do camisa sete do time merengue e da seleção portuguesa.

Sendo assim, o blog humildemente se dá o direito de cumprir sua função jornalística de buscar a versão mais próxima dos fatos dentro de uma comparação subjetiva. Para isto usa algumas das declarações do maior ídolo gremista:

1 – “Na minha época não havia internet para verem minhas jogadas”

Justo. No final da sua carreira a Grande Rede ainda engatinhava. Assim como as emissoras de TV por assinatura. O público dos grandes centros não viram todas as grandes atuações no Grêmio em Estaduais, embora só tenha conquistado os títulos de 1985 e 1986 e visto o rival Inter ganhar três. Mas também não conferiu as suas muitas expulsões e confusões com companheiros e repórteres que tantas vezes prejudicaram o tricolor gaúcho. Sem contar o individualismo tão questionado à época.

Por outro lado, as atuações de Cristiano Ronaldo no Real Madrid e na seleção portuguesa são dissecadas duas vezes por semana. Virtudes e defeitos expostos para o mundo todo, que vê atuações mágicas e gols em profusão. Mas também os erros de passe, os gols perdidos. Tudo exposto, com estatísticas detalhadas. Sem romantismo ou mitificações que ocultam os problemas.

2 – “Jogar o Campeonato Espanhol pelo Real Madrid é fácil, quero ver disputar Libertadores e Brasileiro”

Aqui Renato, talvez de propósito, tenha esquecido de um detalhe importante: Cristiano Ronaldo também joga Liga dos Campeões, o principal torneio de clubes do planeta. Com concorrência forte. E ainda assim é o maior artilheiro da história da competição com 114 gols e tem quatro conquistas. Renato ganhou duas Libertadores, uma como treinador.

Mesmo com todas as dificuldades do torneio sul-americano há três décadas – violência dentro e fora de campo, arbitragens mais que suspeitas e gramados impraticáveis – não há como comparar a competitividade de uma Champions atual, especialmente em suas fases de mata-mata, com a Libertadores de qualquer época.

Renato pode questionar a disparidade de Barcelona e Real Madrid na Espanha. Mas Renato também disputou campeonatos nacionais por grandes times e só venceu a Copa União de 1987.

3 – “Queria vê-lo sendo campeão nos times em que joguei, com salários atrasados, companheiros menos qualificados e gramados ruins”

Aqui a velha mania brasileira de achar que para provar a capacidade os melhores precisam render nos piores cenários. Como um chef de cozinha obrigado a produzir um prato sofisticado em uma cozinha suja, com equipamentos danificados e produtos fora da validade. “Quero ver Guardiola treinando o São Cristóvão!” Não faz sentido. Em qualquer atividade os mais qualificados querem as melhores condições para trabalhar. Porque merecem.

Além disso, Cristiano Ronaldo joga num grande time contra equipes fortíssimas e se destaca. Como na última Champions, marcando dez gols contra Bayern de Munique, Atlético de Madri e Juventus no mata-mata. Não há disparidade. Se compararmos com a realidade brasileira, Renato também foi campeão em timaços. E com menor equilíbrio de forças em termos individuais.

Na própria conquista nacional há 30 anos, Renato jogou no time de Jorginho, Leonardo, Zinho e Bebeto, que seriam campeões mundiais com a seleção em 1994, mais Leandro, Edinho, Andrade e Zico, craques consagrados e veteranos. Mais Aílton, vencedor por onde passou e autor do gol do último título brasileiro do Grêmio em 1996. Uma constelação muito superior às dos seus adversários. Basta recordar que o craque do Internacional, finalista daquele torneio, era Cláudio Taffarel. No Galo semifinalista, Renato “Pé Murcho” era o destaque. Nem sinal de um Messi para concorrer à Bola de Ouro. Da revista Placar.

Aqui vale uma lembrança importante: o brasileiro foi o destaque do Flamengo e ganhou o grande prêmio individual da época. Mas teve sua presença questionada no clube por conta do egoísmo. O técnico Carlinhos chegou a considerar a hipótese de tirá-lo do time e efetivar Alcindo. Foi Zico quem encerrou a discussão ressaltando a importância do camisa sete, que passou a soltar um pouco mais a bola e foi responsável por duas assistências para os quatro gols de Bebeto na reta final. Sem contar a arrancada histórica que decidiu os 3 a 2 contra o Atlético-MG no Mineirão na semifinal.

Prender a bola foi o maior motivo para as muitas críticas a Renato na Roma. Uma única temporada em 1988/89. 23 jogos, zero gols e algumas atuações que viraram piada na Itália. Alegar pouco tempo de adaptação é legítimo. Mas chegar com pose de estrela, declarações polêmicas e, principalmente, a insistência em tentar driblar contra os melhores defensores do mundo foram soluções pouco inteligentes e abreviaram o retorno ao Brasil. Quando foi testado entre os grandes falhou miseravelmente. Veja mais do pífio desempenho de Renato no time da capital NESTE VÍDEO.

Já Cristiano Ronaldo saiu do Sporting aos 18 anos e amadureceu rápido com Alex Ferguson no Manchester United. No início também pecando pelo excesso de dribles e firulas, mas não demorou a compreender o estilo do futebol inglês. Luiz Felipe Scolari na seleção portuguesa também auxiliou neste processo. Na dura Premier League se destacou com o tricampeonato de 2006 a 2009 e venceu sua primeira Bola de Ouro. Em 196 jogos, marcou 84 gols.

4 – “Joguei dez anos na seleção brasileira em alto nível”

Outra meia verdade. De fato, Renato esteve presente em muitas convocações entre 1983 e 1993. Mas pouco tempo como titular absoluto.

Seu melhor momento foi nas Eliminatórias de 1985 nos jogos contra Bolívia e Paraguai. Driblou quem apareceu pela frente e colocou bolas na cabeça de Casagrande. Mas no ano seguinte já não era unanimidade. Telê não gostava do estilo boêmio e, principalmente, do individualismo. Mesmo se não tivesse sido cortado por chegar de madrugada na concentração com Leandro, certamente seria reserva na Copa do Mundo do México. Estava abaixo de Muller, titular na maioria dos jogos daquele Mundial.

Como foi a quinta opção na Itália em 1990. Atrás dos titulares Muller e Careca e até dos lesionados Bebeto e Romário. Jogou apenas alguns minutos contra a Argentina e pouco rendeu.

Renato alega que a disputa na frente era forte na sua época. Sem dúvida o futebol brasileiro era prolífico em atacantes. Mas ele não foi inquestionável sequer na bizarra Copa América de 1991. Disputou vaga no time de Falcão com o não mais que razoável Mazinho, do Bragantino. Em 44 partidas, apenas cinco gols.

Cristiano Ronaldo não teve tanta concorrência na seleção portuguesa. Mas sobra como o maior artilheiro com 79 gols e conseguiu levar o país à maior conquista de sua história: a Eurocopa de 2016. E Renato Gaúcho não teve com a camisa da seleção sequer uma atuação próxima da antológica de Ronaldo nos 3 a 2 sobre a Suécia que garantiram os portugueses na Copa do Mundo no Brasil há três anos.

5 – “Eu rendia bem nas três posições do ataque, ele só funciona pela esquerda”

Sem sombra de dúvidas o maior equívoco na análise feita por Renato em 2014, no programa “Bola da Vez” na ESPN Brasil . Certamente agora, estudando o atacante para tentar pará-lo, deve ter mudado de opinião. Cristiano Ronaldo foi Bola de Ouro em 2008 atuando a maior parte do tempo aberto na direita pelos Red Devils. Mas participava de intensa movimentação na frente, aparecendo no meio ao alternar com Rooney.

Na reta final da temporada 2008/09, foi deslocado para o centro do ataque. Mesmo jogando de costas para a defesa a contragosto, levou o time inglês à decisão com grande atuação na semifinal contra o Arsenal em Londres: 3 a 1, com dois gols e uma assistência.

De fato, é pela esquerda que o português rende melhor, infiltrando em diagonal, cortando para dentro e finalizando. Mas a excelência em todos os setores do ataque fizeram os técnicos Paulo Bento na seleção e Carlo Ancelotti, e agora Zinedine Zidane no Real Madrid darem cada vez mais liberdade de movimentação ao camisa sete. E ele segue desequilibrando, aumentando a média de gols, quebrando recordes. Inclusive como maior artilheiro da história do Mundial de Clubes com seis tentos

Renato sempre funcionou bem pelas pontas. Buscando a linha de fundo ou cortando para dentro para chutar. Mas no centro só foi render mais no final da carreira. Especialmente em 1995, no Fluminense campeão carioca e semifinalista do Brasileiro. Atrás do centroavante, fosse Ézio, Leonardo ou Valdeir. Quando já não tinha tanta força física e velocidade, mas compensava com boa colocação e visão de jogo. Só aí apareceram os bons passes no centro.

Cristiano é mais completo. Finaliza bem de pé direito e de canhota. Faz gols de cabeça e em cobranças de faltas e pênaltis. Se preciso participa da articulação de jogadas pelos dois lados e aparece no centro para finalizar. Faz tudo muito melhor e mais rápido que Renato.

O massacre nos números dispensa comentários: Renato fez cerca de 192 gols em toda a carreira, por Grêmio, Flamengo, Botafogo, Cruzeiro, Atlético-MG, Fluminense, Bangu e seleção. Ronaldo só no Real tem incríveis 420 gols em 413 jogos, média superior a um por partida. E mais 114 assistências. Muito para quem no Brasil é menosprezado e tratado como um mero fazedor de gols. “Um Dadá Maravilha com grife” já foi dito sobre um dos maiores da história.

De todos os jogadores que colocaram Renato no banco da seleção brasileira, talvez apenas Romário, no auge de 1993 e 1994, barrasse o português. Talvez…Este que escreve não viu melhor finalizador que Cristiano Ronaldo.

Por isso não é possível levar a sério a comparação. Ou é dever resgatar e detalhar acontecimentos para quem não viu Renato em ação. Desculpe, Gaúcho…Mas nem em sonho você foi melhor. Resta a chance de superar a estrela madridista, mas à beira do campo comandando os gremistas. Quem sabe?

[Este post é uma atualização do publicado em 4 de fevereiro de 2014. Veja AQUI o original]


Susto no Real Madrid veio na semifinal. Má notícia para o Grêmio
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André Rocha

Nunca saberemos se com o goleiro Al Khaseif durante os 90 minutos o Al Jazira não conseguiria o feito inacreditável que ensaiou em um primeiro tempo que só o futebol é capaz de proporcionar.

O Real teve 71% de posse de bola e finalizou 15 vezes contra duas –  sete no alvo. Mas Al Khaseif fez pelo menos cinco defesas importantes, além de dois lances irregulares em que a bola foi para as redes. Em um contragolpe rápido, o gol de Romarinho.

Podia ter virado dois a zero não fosse o impedimento, por centímetros, de Boussoufa. O meia pela direita do 5-4-1 do time árabe que, além da atuação impressionante do goleiro, teve como mérito um sistema defensivo organizado para fechar as infiltrações pelo meio ou diagonal. Por isso a maioria das oportunidades do Real foram consequência de jogadas pelos lados. Primeira etapa de 28 cruzamentos, 60 no total.

A virada do time merengue se deu pelo abismo de intensidade e preparação física entre as equipes. Também pela saída de Khaseif aos cinco da segunda etapa para a entrada de Al Senaani. No primeiro ataque do bicampeão europeu depois da troca de goleiros no adversário, Modric achou Cristiano Ronaldo e veio o empate.

Com Lucas Vázquez, Asensio e Bale, este entrando antes do planejamento inicial que previa o aproveitamento do galês só no sábado, a bela jogada que terminou no gol do camisa onze. Virada com sofrimento, mas um tanto inevitável. Foram nada menos que 32 finalizações. Quatro bolas na trave numa noite infeliz de Karin Benzema.

A má notícia para o Grêmio é que o susto no grande favorito no Mundial de Clubes veio antes da final. A tendência é que o Real Madrid entre completo, com Carvajal, Sergio Ramos e Toni Kroos que ficaram no banco. Mas a principal mudança deve ser na concentração e na seriedade, especialmente nas finalizações. Sem dar chances para o azar.

O time de Renato Gaúcho ainda pode fazer história, mas a missão, em tese, ficou mais complicada.

(Estatísticas: Footstats)


Grêmio sofre sem Arthur, mas cumpre sua missão. Agora o que vier é lucro
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André Rocha

O Grêmio sentiu demais a falta de Arthur  na maior parte do jogo. Mas quando o Pachuca começou a sentir o esforço dos 120 minutos da vitória sobre o Wydad Casablanca, Renato Gaúcho compensou o meio-campo menos qualificado com força e velocidade na frente. Mais uma feliz alteração na iluminada temporada 2017.

O campeão da CONCACAF surpreendeu com Jara, mais centroavante, na vaga do rápido Sagal no ataque. Imaginava-se o time mexicano especulando mais e acelerando os contragolpes diante do campeão da Libertadores, mas sobrou coragem para montar um 4-1-4-1 com Urretaviscaya pela direita e Guzmán mais adiantado, alinhado a Honda na articulação.

A mudança do treinador Diego Alonso empurrou os volantes Jaílson e Michel para o campo gremista e dificultou ainda mais as transições ofensivas do time brasileiro, sobrecarregando Luan. O Grêmio também nitidamente sentia a tensão da estreia. Mas o Pachuca, assim como no jogo anterior, controlou a posse no primeiro tempo (58%), mas finalizou pouco – apenas duas vezes contra cinco. Nenhuma no alvo em 45 minutos.

O jogo seguiu na mesma toada na segunda etapa, até o Pachuca dar os primeiros sinais de cansaço. A senha para Renato Gaúcho trocar o cuidado na proteção da defesa pela velocidade e mais presença ofensiva em busca da vitória ainda nos 90 minutos: tirou Barrios e Michel e colocou Jael e Everton. Ramiro recuou para jogar com Jaílson, Fernandinho inverteu o lado e Everton foi para o lado esquerdo, com Jael como referência na frente. Na prorrogação, Leonardo Moura substituiu Edilson para o time seguir atacando pela direita. Proposta ofensiva atrás do gol.

Não foi possível no tempo normal, mas diante de um adversário ainda mais exaurido, sobraram espaços para Everton receber pela esquerda, cortar para dentro e fazer um belo gol, o da classificação. Confirmada sem sustos depois da expulsão de Guzmán.

O Grêmio cumpriu sua missão, não sendo frustrado na intenção de enfrentar o campeão europeu, como aconteceu com Internacional, Atlético Mineiro e Atlético Nacional. Agora o que vier é lucro, a menos que o Real Madrid protagonize um vexame sem precedentes sendo eliminado na semifinal pelo Al Jazira de Romarinho.

Na mais que provável decisão de sábado contra o time merengue, o Grêmio encontrará o cenário mais confortável: de franco atirador, sem maiores responsabilidades. Se perder, até de goleada, a disparidade de investimento, aliada ao cansaço pela prorrogação e a ausência de Arthur, serão “álibis” mais que válidos. Mas se vencer não é absurdo dizer que o feito de Renato Gaúcho será maior do que os dois gols sobre o Hamburgo em 1983.

O clichê é inevitável: será a luta Davi x Golias. Mas é sempre mais prudente não duvidar do Grêmio.

(Estatísticas: FIFA)

 


Pachuca na semifinal! Mas o grande adversário do Grêmio segue o mesmo
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André Rocha

Sem meias palavras: foram 120 minutos duros de assistir. No primeiro tempo de Pachuca x Wydad Casablanca em Abu Dhabi, a FIFA teve que inventar uma finalização que, a rigor, foi um cruzamento na direção do gol. O time mexicano não conseguia criar espaços, apesar de propor o jogo. O time ainda sente muita falta do jovem meia Hirving Lozano, negociado com o PSV Eindhoven. O marroquino, campeão africano, tinha espaços, mas não conseguia concatenar contragolpes, muito menos acionar a estrela Bencharki na frente.

Mesmo com o Wydad contando com apenas dez homens desde os 24 minutos da segunda etapa, após a expulsão do volante Nakach, o gol do Pachuca só saiu aos seis do segundo tempo da prorrogação. Quando, enfim, o uruguaio Urretaviscaya chegou ao fundo pela direita com liberdade para colocar na cabeça de Victor Guzmán.

Subindo por trás de Franco Jara, o centroavante de referência que entrou no segundo tempo na vaga de Ángelo Sagal, o chileno que foi o atacante móvel à frente do japonês Keisuke Honda no 4-2-3-1 montado pelo treinador Diego Alonso na formação inicial.

Nada demais. Mas os times que chegam às semifinais contra os campeões europeu e sul-americano dificilmente impressionam. Só que nos últimos tempos, no caso do confronto com o campeão da Libertadores, isto vem contando a favor.

Porque já passou pela estreia e o que podia restar de tensão vai embora com o confortável status de “zebra”. E se havia alguma obrigação de vencer no primeiro jogo, agora a condição é de franco atirador. Nada a perder.

Ou seja, a responsabilidade estará toda com o Grêmio. Desde a criação do Mundial de Clubes da FIFA, todos os brasileiros encontraram dificuldades na semifinal. Mesmo o Santos nos 3 a 1 sobre o Kashima Reysol em 2011 não atropelou, teve períodos de jogo controlado pelo adversário. Internacional e Atlético Mineiro ficaram pelo caminho em 2010 e 2013. Na última edição, o Atlético Nacional sequer conseguiu se classificar contra o Real Madrid. Atropelamento do Kashima Antlers por 3 a 0.

Para o Grêmio não correr riscos de vexame é importante manter a força mental e encarar como um jogo decisivo, sem assumir mais responsabilidades do que o contexto exige. Entrar com personalidade e foco no jogo. Renato Gaúcho deve exigir de seus comandados que sequer passe pela cabeça a intenção de poupar energias e evitar contusões pensando na grande decisão. É semifinal e deve ser tratada com esse peso, mesmo com todo favoritismo.

O campeão da CONCACAF  entra na rota do tricampeão da América. Mas para seguir no sonho de fazer o planeta azul pela segunda vez, o grande adversário do Grêmio segue o mesmo: os próprios nervos.

Pachuca no 4-2-3-1 com dificuldades para criar espaços, tentando acionar Urretaviscaya para acelerar pela direita. Mesmo com a expulsão no segundo tempo de Nakach, volante do 4-2-3-1 do Wydad Casablanca. Mas contra o Grêmio o time mexicano deve encontrar mais espaços para jogar (Tactical Pad).


O “fator Renato Gaúcho”
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André Rocha

Independentemente do que acontecer no Mundial Interclubes, o único brasileiro campeão da Libertadores como jogador e treinador merece a tão sonhada estátua do clube que o tem como maior ídolo da história. Inclusive ele nem precisava pedir tanto. É algo que não se exige. Conquista. E ele já fez jus.

Mesmo antes do tricampeonato continental. Pelas digitais, pelo sangue e suor na primeira conquista da América, na única do Mundial e nos bons trabalhos em 2010 e 2013 como treinador. Ainda que o jeitão carioca cultivado ao longo dos anos fuja do estereótipo do clube e da cidade.

Renato Portaluppi merece todas as homenagens do Grêmio e do futebol brasileiro. Mais que isso, deveria a partir de agora dar nome ao fator da imprevisibilidade no esporte. Exatamente o que o torna mais apaixonante.

Porque era difícil, quase impossível, imaginar o sucesso nesse retorno ao tricolor gaúcho. Dois anos sem comandar uma equipe, vindo de um trabalho muito ruim no Fluminense em 2014. Desconectado do futebol atual. Contrato de apenas três meses por conta das incertezas do futuro após a eleição. A impressão era de que o próprio clube não botava muita fé na escolha.

Principalmente porque pela personalidade do novo comandante, a tendência seria desmontar o bom trabalho de consolidação de uma maneira de jogar construído por Roger Machado. Herdeiro de uma passagem frustrante de Luiz Felipe Scolari. Ou seja, trazer Renato soava como uma nova volta ao passado. Um retrocesso.

Mas Renato não incorreu no equívoco de Felipão, que colocou demais a mão no esforço do Grêmio, desde Enderson Moreira em 2014, de criar uma identidade de jogo. Inteligente, manteve os alicerces e mirou no acabamento da obra dentro do campo: time mais contundente e rápido no ataque, concentrado defensivamente e atento nas jogadas aéreas com bola parada. Os problemas minaram a gestão do antecessor.

O vestiário não era problema. Sempre foi mestre em chamar os jogadores para perto, motivá-los com carinho ou provocação. Conhece o cheiro, tem sensibilidade. Foi sempre seu maior trunfo como treinador. Preenchida outra lacuna de Roger, que reconheceu internamente que havia perdido o grupo. Sempre um erro letal.

Conquista da Copa do Brasil com autoridade. Primeiro título nacional depois de 15 anos. Manutenção para o ano seguinte, com moral para, agora sim, fazer do seu jeito.

No estadual, a busca de um time mais com a sua cara: menos posse de bola, ainda mais vertical. Buscando diretamente uma referência no ataque para ganhar a segunda bola e definir mais rapidamente as ações de ataque. As primeiras tentativas não foram muito felizes e ele foi convencido a retornar ao plano original.

Talvez por isso a resistência e os atritos com o departamento de análise de desempenho que ficaram escancaradas após o “caso drone” e, em seguida, a saída de Eduardo Cecconi, responsável pelo setor e alçado à condição de chefe por Roger. O treinador que trouxe a análise para o processo decisório da comissão técnica. Com o departamento forte a assinatura do estilo de jogo não podia, nem pode ser só do Portaluppi.

Não, Roger não é campeão da Copa do Brasil, muito menos da Libertadores. Os méritos são de Renato, porque o futebol não se resume ao modelo de jogo. Renato acertou um carro com boa estrutura, mas precisando de ajustes para ganhar estabilidade e força. Mas é dever reconhecer que sem a ideia assimilada pela base do elenco de jogo apoiado, triangulações e Luan circulando entre a defesa e o meio-campo adversário a missão seria bem mais complicada.

No país do Fla-Flu, da intolerância e do pensamento binário, que despreza os vários tons de cinza entre o preto e o branco, não existem as nuances, as interseções. Ou Renato é Deus, ou você é apenas uma “viúva do Roger”. Não é, nem pode ser assim.

Agora surgem os “profetas do acontecido”, os que sempre acreditaram. É claro que eles existiam em setembro de 2016, mas movidos por uma fé no messias. No maior ídolo. Ou por ser fã do personagem Renato Gaúcho, o fanfarrão, homem das mais de mil mulheres, das tiradas geniais, das bravatas. Que para a imprensa troca o estudo pela praia, mas manda espionar os adversários.

A razão não sugeria uma empreitada tão feliz. O contexto ajudou a virar do avesso e reescrever a história.

Por isso fica a lição. Dentro de qualquer análise sempre terá que ser incluído o “fator Renato Gaúcho” de imprevisibilidade. Do “errado”, em tese, que na prática pode dar muito certo. Algo que existe em qualquer setor. É da vida. Mas só o futebol é capaz de proporcionar com tamanha intensidade. Ainda bem.


As três lições do passeio do Grêmio tricampeão da América
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André Rocha

O golaço de Luan foi emblemático no passeio do Grêmio no primeiro tempo da vitória por 2 a 1 sobre o Lanús em La Fortaleza. Velocidade, técnica e confiança diante de um rival atordoado. Para encaminhar o tricampeonato da Libertadores.

Uma conquista que deixa três grandes lições para o futebol brasileiro:

1 – A identidade

O Grêmio tem uma forma de jogar. E não importa mais se tem a assinatura de Roger Machado ou de Renato Gaúcho. Porque depois dessa conquista é difícil imaginar o clube abandonando essa ideia de jogo apoiado, vocação ofensiva e valorização da qualidade técnica, simbolizada especialmente por Arthur e Luan. Com fibra e entrega, mas sem exagerar no culto à truculência, ao jogo físico e menos bonito que costuma se impor no sul do país. No primeiro tempo fantástico em Lanús, foram 10 finalizações com apenas 45% de posse de bola. Seis desarmes certos contra nenhum do Lanús.  Talento, eficiência e vontade.

2 – A personalidade

“Nós somos o Grêmio, não o River Plate”. Se Renato Portaluppi teve um papel preponderante na decisão, foi o de transmitir a confiança de maior ídolo e campeão sul-americano e mundial em 1983. O Grêmio só se entrincheirou no final, depois das lesões de Arthur e Bressan e da expulsão de Ramiro. Se entrasse assustado não aproveitaria o desespero do time argentino nos primeiros 45 minutos. Marcou em dois contragolpes, o primeiro em grande arrancada de Fernandinho, mas nunca deixou de jogar no ataque.

3 – O foco no jogo com calma

Não há razão para entrar na pilha dos argentinos, enfrentar na Libertadores como quem vai para uma guerra. Como o próprio Grêmio nas duas finais que perdeu, para Independiente e Boca Juniors. Hoje há câmeras por todos os lados, qualquer ilegalidade será observada. Basta jogar futebol. Com intensidade e concentração. Duro, mas na bola. Quando o Lanús percebeu que o tricolor gaúcho não sairia de sua proposta entrou em parafuso. Desta vez foram os “hermanos” a se apequenar numa final de Libertadores. Porque viu do outro lado a calma e o foco no que é essencial: o jogo.

Por isso o futebol é tão apaixonante. Quem diria que, em setembro de 2016, um contrato com Renato Gaúcho vindo da praia, como ele disse, por apenas três meses num ano de eleição no clube terminaria nos títulos de Copa do Brasil e Libertadores. O que parece impossível sempre pode acontecer para queimar dedos e línguas.

Parabéns, Renato! Primeiro brasileiro campeão como jogador e treinador Comemorem, tricampeões! Mas nem tanto, porque ainda tem o Mundial Interclubes. Quem agora vai duvidar que o planeta pode voltar a ser azul depois de 34 anos?

(Estatísticas: Footstats)


Roger é aposta no Palmeiras. No Brasil todos são, até Guardiola seria
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André Rocha

O Palmeiras sondou Abel Braga, pensou em Jair Ventura como terceira opção. Mas fechou com Roger Machado. Três perfis completamente diferentes. O experiente, bom gestor de vestiário que acredita num time ofensivo mesmo correndo riscos; o jovem que fez bom trabalho num cenário de baixo investimento e montando uma equipe reativa que o clube paulista, em tese, não quer; o construtor de times antenado, mas que ainda não demonstrou ter atingido a maturidade ou não teve o tempo necessário para desenvolver um trabalho longo e consistente.

O presidente Mauricio Galiotte diz que não tem chance de errar em 2018, já que este ano trabalhou numa ideia de Palmeiras com Eduardo Baptista, inclusive em contratações, e já em maio trouxe o campeão brasileiro Cuca de volta com uma proposta de futebol totalmente diferente. Termina com o interino Alberto Valentim, que ainda precisa definir um caminha a seguir.

Mas é difícil acreditar em algum raciocínio além da escolha da “grife” ou do pensamento mágico de que se deu certo em um clube consequentemente será ainda mais bem sucedido em outro com maior capacidade de investimento. É assim que dirigente pensa futebol no Brasil. Exatamente porque a grande maioria não entende.

Por isso o absurdo de dispensar treinador por má campanha em estadual. Porque o resultado é o norte. Simples assim. Quer algo mais sem nexo do que esperar uma derrota para dispensar o profissional no qual não se confia mais?O futebol permite vencer trabalhando mal e perder mesmo num caminho promissor. O desempenho é possível controlar, o resultado não. Há o adversário, a arbitragem, o imponderável, a falha individual que compromete a boa atuação coletiva. O óbvio que parece esquecido.

Todo treinador é aposta no Brasil. Qualquer um. Até Guardiola seria. Porque quem assina o cheque não sabe exatamente o que quer. Ou melhor, sabe. Quer todos os títulos no final do ano. Legítimo. O problema é desconsiderar o caminho. Qual o estilo que pretendo? Os jogadores do elenco se encaixam melhor em qual filosofia? O meu clube tem uma identidade?

Quem pensou antes ou descobriu meio ao acaso tem conseguido transformar desempenho em resultado. O Corinthians campeão brasileiro mais uma vez com uma linha desde Mano Menezes em 2008 chegando ao auge com Tite, mesmo com hiatos nas passagens de Adilson Baptista, Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira.

O Grêmio com uma proposta gestada no clube e desenvolvida por Roger Machado em 2015. No campo e na estrutura do pensar futebol, com o investimento na análise de desempenho. No ano seguinte, o desgaste na gestão de vestiário, um problema crônico da defesa nas jogadas aéreas com bola parada.

Chegou Renato Gaúcho, mais vivido e ídolo maior dos gremistas. Inteligente, manteve a ideia de futebol, ajustou, trouxe os jogadores para perto e está a um empate do título da Libertadores após a conquista da Copa do Brasil no ano passado. Jogando o melhor futebol do país. Um construiu, o outro fez o polimento e aparou as arestas. Méritos de ambos.

O Palmeiras precisa construir. Difícil fazer qualquer previsão porque o treinador foi contratado antes do fim da temporada exatamente para ajudar na montagem do elenco, contratações e dispensas. Quanto à ideia de modelo de jogo, o próprio Roger pode ter refletido, estudado e alterado um ou outro ponto. Mudar para aprimorar.

A incoerência é planejar a temporada e correr risco de demissão em dois meses. Porque o conselheiro quer dar pitaco, o empresário do jogador exige a titularidade, o atacante famoso contratado pela “oportunidade de mercado” não tem as características que combinam com as dos companheiros. Mas tem que jogar, senão vira crise.

E é neste momento que a imprensa merece um parágrafo, ou alguns, em especial. A histeria, o pensamento imediatista e, principalmente, a ignorância sobre os processos no futebol constroem uma massa crítica que destrói qualquer trabalho.

Porque crise dá audiência. Mudança de treinador também. Surgem as especulações, os lobbies, a busca do furo da contratação. A troca é mais notícia que a manutenção e o trabalho paciente, contínuo, de constante aprimoramento. O torcedor se interessa, liga a TV, o rádio, clica nas notícias na internet. Faz a roda da mídia girar. E dane-se se trava as do clube.

Há os decanos que defendem os técnicos amigos de longa data, que atendem o telefone diretamente sem precisar passar por assessoria de imprensa. Assim como existem os novatos radicais que menosprezam todos os veteranos e defendem o novo sem um critério além do conhecimento dos novos métodos de treinamento e das táticas e estratégias mais atuais, ainda que a aplicação na prática não seja das mais eficientes. O “raiz” e o “catedrático”. O pensamento binário no país do Fla-Flu.

Então temos um ciclo: treinador chega com status de popstar, salvador e cria-se o clima de esperança. A estreia é cercada de enorme expectativa, ainda que com poucos dias de trabalho. Se apenas o impacto da mudança melhora o ambiente e surgem as primeiras vitórias já tem o “dedo” do novo comandante. Quando vem a oscilação natural imediatamente surge no noticiário a sequência macabra: “sinal amarelo ou de alerta”, “balança”, “prestigiado”…demitido.

Não há trabalho que se sustente na espetacularização e na pressa. É óbvio que nem todos têm garantia de qualidade a longo prazo. Ainda mais quando falta convicção desde a contratação. O ideal é avaliar dia a dia dentro de uma projeção de, no mínimo, 12 meses. Desempenho, convivência com os comandados, competência da comissão técnica na solução de problemas. Se algo vai muito mal e impede a evolução esperada, aí sim é momento de trocar.

O parâmetro não pode ser apenas o placar final das partidas. Não é justo porque não há como interferir diretamente. Nem o melhor do mundo. Aliás, é patético que no Brasil se coloque as dificuldades impostas por um sistema ineficiente como critério de avaliação: “quero ver o Guardiola aqui com orçamento limitado, jogo em cima de jogo, gramados ruins e pressão de torcida, imprensa e dirigente”. Por isso ele não vem e talvez nunca virá. Porque o melhor quer as melhores condições. É assim no mundo todo, em qualquer profissão.

Mas por aqui pensam diferente. Ou não pensam, querem apenas vencer. Roger Machado é mais uma incógnita num cenário caótico. Boa sorte, porque vai precisar…

 


Grêmio vence na fase emocional do jogo. Lanús confia demais no fator campo
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André Rocha

Os analistas costumam cometer um erro, assumido por este que escreve, de construir a prévia de um jogo em seus aspectos tático, técnico e estratégico levando em consideração apenas as formações iniciais e as práticas habituais de atletas e treinadores. Ou seja, a fase mais racional do jogo.

Que pode durar cinco minutos caso saia um gol, uma expulsão…Ou a partida já comece com um certo caos, como um “abafa” do mandante aproveitando a eletricidade da torcida em um estádio lotado. O futebol é essa “cachaça” mundial justamente pela imprevisibilidade.

O Grêmio entrou em sua Arena para a primeira etapa da decisão da Libertadores disposto a sufocar o Lanús desde a saída de bola “Lavolpiana” do time do treinador Jorge Almirón. Com Luan incomodando Marcone e Barrios apertando os zagueiros Rolando Garcia e Braghieri. Se não conseguia roubar a bola, a dupla mais avançada do 4-2-3-1 habitual ao menos quebrava a troca de passes e forçava a ligação direta. Ou o recuo para o goleiro Andrada. Quase resultou em gol duas vezes, com Ramiro e Arthur, esta a melhor oportunidade gremista no primeiro tempo.

O time argentino era paciente, mesmo na tensão natural de uma primeira decisão do principal torneio do continente. Na maior parte do tempo trocou passes curtos e só esticava na esquerda para o ponteiro Acosta, o melhor do setor ofensivo na execução do 4-3-3/4-1-4-1.

O problema era que o organizador, Martínez, jogava uma rotação abaixo da intensidade do jogo e perdia bolas seguidas para Jailson, volante mais físico escolhido por Renato Gaúcho para se impor entre as intermediárias. Sand também não ajudava, sendo dominado em praticamente todas as disputas com Geromel e Kannemann.

Mas quando saía da pressão criava problemas para a última linha defensiva do time da casa. E na bola parada teve a grande oportunidade dos primeiros 45 minutos: escanteio da direita, cabeçada perfeita de Braghieri que Marcelo Grohe salvou com uma defesa quase tão espetacular quanto a da vitória sobre o Barcelona em chute de Ariel na pequena área. Foram apenas duas finalizações, mas no alvo. O Grêmio concluiu três, nenhuma na direção da meta de Andrada.

O tricolor gaúcho conseguiu voltar ainda mais aceso e intenso para o segundo tempo. O Lanús, talvez pelos erros na saída de bola, resolveu não arriscar, alongar os passes com mais frequência e esperar o desespero do mandante.

Um erro, porque o Grêmio e sua torcida foram crescendo no jogo. A equipe chegou a 16 desarmes certos, dez a mais que os visitantes. Atacava, perdia, retomava e voltava a atacar. Para não perder fôlego e pressão na frente, Renato trocou Barrios, Fernandinho e Jailson – este já com amarelo e “pedindo” para ser expulso – por Jael, Everton e Cícero. Com mais força na disputa pelo alto, passou a insistir num jogo mais direto.

A disputa entrou na sua fase emocional. Quando vem o cansaço, um certo desentrosamento pelas substituições – ainda que Almirón tenha feito apenas uma, aos 34 do segundo tempo trocando Velázquez por Aguirre – e uma desorganização movida pela necessidade. O time satisfeito com o resultado instintivamente defende mais a própria área, quem precisa reverter o placar ou construir uma vantagem mínima em casa num mata-mata se lança à frente já sem muita coordenação.

De tanto insistir o Grêmio alcançou seu gol de uma maneira improvável para qualquer analista: o time que gosta da bola no chão e da troca de passes fez a ligação direta com Edilson até Jael escorar e Cícero tirar de Andrada. Gol típico do futebol britânico dos anos 1980. Na fibra, na entrega, a forceps o time do iluminado Renato conseguiu. Foram sete finalizações na segunda etapa contra zero dos visitantes.

Deve sofrer na volta em Lanús. O time argentino venceu todas em casa desde as oitavas de final contra o Strongest. Empatou fora com os bolivianos e foi derrotado por San Lorenzo e River Plate. Confia no fator campo. Até demais. Correu riscos nas fases anteriores, podia ter saído de Porto Alegre com uma desvantagem maior caso o pênalti claro sobre Jael no final fosse marcado pela confusa arbitragem comandada por Julio Bascuñan.

Mas agora é decisão. Vale taça. O Grêmio tem a tradição de dois títulos e quatro finais. Para o Lanús é tudo novo. Renato não terá Kannemann, suspenso. Almirón também perdeu o zagueiro Braghieri com três amarelos. Equilíbrio de forças. Desta vez a razão estará com o Grêmio para tentar controlar o jogo. Haverá espaço para acelerar. Os argentinos já mostraram que em seus domínios são poderosos para subverter tudo. Também são fortes na fase emocional. Como será?

A final está aberta. E o analista, felizmente, não leva nenhuma certeza para o duelo da semana que vem em La Fortaleza.

(Estatísticas: Footstats)


A lição do Grêmio em Guayaquil: toda hora é hora para atacar
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André Rocha

Virou clichê no futebol mundial, com exceção das grandes potências europeias que atacam em qualquer campo, a máxima de que os 15 ou 20 primeiros minutos como visitante são para suportar a pressão inicial do time da casa com apoio da sua torcida.

Só que o cenário provoca tensão também no mandante, pela necessidade de alcançar um resultado positivo pensando na volta. E o Barcelona entrou apavorado no Monumental de Guayaquil. Pelo retrospecto ruim como mandante na Libertadores, pela ausência do artilheiro Jonatan Álvez, substituído por Ariel Nahuelpan. Principalmente pela consciência que encarava o adversário mais forte com que cruzou no torneio.

O Grêmio praticamente completo, apenas com Jailson no meio-campo na vaga de Michel, sem ritmo de competição após longa inatividade e começando no banco. Com Luan passeando entre as linhas do espaçado time equatoriano e Arthur alternando os ritmos no meio-campo.

Mas principalmente sem esperar ou pedir licença para atacar, mesmo longe de Porto Alegre numa semifinal de Libertadores. Aos sete, o gol de Luan com Cortez descendo pela esquerda; Ramiro, Lucas Barrios e Fernandinho na área e o camisa sete chegando para tirar do alcance do goleiro Máximo Banguera.

Arqueiro que armou mal a barreira e se posicionou ainda pior na cobrança de falta de Edilson, 13  minutos depois. Aos 20 minutos, o Grêmio vencia por 2 a 0. Depois abdicou um pouco do jogo, preferiu controlar espaços e levou alguns sustos, não aproveitados pelo “pecho frio” meia argentino Damian Díaz e um Barcelona apressado e sem confiança. Ainda assim, o time anfitrião teve 66% de posse e oito finalizações, o dobro da equipe brasileira. Mas apenas duas no alvo, uma a menos que os gremistas, mais precisos.

Cirúrgicos na defesa de Marcelo Grohe aos cinco minutos da segunda etapa em chute de Ariel. Uma das mais espetaculares que este que escreve viu em mais de três décadas acompanhando futebol. Na volta, transição rápida e mais um de Luan, o melhor em campo. Com a equipe descendo em bloco, com Edilson cruzando rasteiro para trás e três companheiros na área. De novo não escolhendo o melhor momento para chegar à frente.

Os 3 a 0 derrubaram animicamente o Barcelona. O time de Renato Gaúcho botou a bola no chão, entraram Leonardo Moura, Michel e Cícero para renovar o fôlego e a chance de ampliar foi palpável. Finalizou cinco vezes no segundo tempo contra as mesmas oito do adversário no primeiro tempo, porém com oportunidades mais cristalinas.

Nem foi preciso. Só uma tragédia sem precedentes tira o Grêmio da decisão sul-americana após dez anos. Porque se no Equador não escolheu momento para atacar, em casa a vocação ofensiva será colocada em campo ainda mais naturalmente.

Fica a lição para o futebol brasileiro: menos “pilha” errada e medo longe de seus domínios, mais bola no chão e autoridade para impor a superioridade técnica. Sem temor nem escolha da hora para atacar. Toda hora é hora. Como deve ser.

(Estatísticas: Footstats)