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O que falta ao Flamengo para vencer além das fronteiras do Rio de Janeiro
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André Rocha

Mais uma vez em 2017 o Flamengo deixou uma vitória escapar por pequenos detalhes que fazem diferença, especialmente numa decisão.

Seja o problema crônico de não ter um jogo coletivo bem elaborado, com triangulações, ultrapassagens, trabalho de pivô…O time, com Zé Ricardo ou Rueda, vive fundamentalmente das jogadas aéreas. Com bola parada ou rolando. Foi assim com Réver em Avellaneda e de novo com Lucas Paquetá depois de uma cobrança de falta de Diego. Mais um gol do jovem atacante em decisão, assim como foi na ida contra o Cruzeiro na Copa do Brasil.

O “arame liso” também se fez presente no Maracanã. 56% de posse, 18 finalizações. Mas só três no alvo. Exatamente porque o time não cria a jogada surpreendente que facilita a vida de quem vai concluir. E quando Everton apareceu na frente de Campaña o chute não foi preciso. Numa final o time que precisa finalizar, em média, oito vezes para ir às redes vai sofrer mais. Cerca, mas para furar é difícil.

Com tantas dificuldades para ser contundente na frente, as falhas defensivas costumam custar caro. O pênalti de Cuéllar sobre Meza que Barco converteu para empatar e garantir o 17º título internacional do “Rei de Copas” foi um tanto duvidoso, mas não resta dúvida que o volante colombiano foi imprudente na disputa. Podia ter sido pior, se Juan não tivesse salvado falha grotesca de Réver que terminou na cavadinha de Gigliotti e o salto espetacular do zagueiro veterano.

O mais do mesmo seguiu com a falta de criatividade de Diego. O camisa dez não dá fluência às jogadas, sequer arrisca um passe rápido e vertical que fura a defesa, mesmo quando os companheiros dão opção. Só aparece na bola parada. E não tem a leitura para perceber que seria mais útil entrando na área para finalizar. Recua, prende a bola, atrasa a transição ofensiva e quase sempre toca de lado, para os laterais levantarem na área adversária. Um elo fraco rubro-negro ao longo da temporada. Impressiona como ainda tem o nome aventado para a lista final de Tite para a Copa do Mundo na Rússia.

O Fla do elenco milionário e experiente nos últimos minutos dependeu de Vinicius Júnior, Paquetá, Vizeu e Lincoln. Com Everton Ribeiro, principal contratação para a temporada, se arrastando e errando jogadas primárias. Uma prova de que a ida ao mercado não foi das mais felizes. O departamento de futebol segue devendo.

O Independiente foi melhor coletivamente nos 180 minutos e a mentalidade vencedora ajudou a construir os 3 a 2 agregado que garantiu o segundo troféu do torneio continental. Para o Flamengo restou novamente a frustração. Termina o ano apenas com a conquista do Carioca. Simbólico para mostrar que a reestruturação financeira e o maior poder de investimento não mudaram o patamar nos cenários nacional e internacional. O clube segue como o maior vencedor no estado, na competição menos relevante na temporada. E só.

Falta dar o salto de competitividade em alto nível. Ser forte e vencedor além das fronteiras do Rio de Janeiro deve ser a prioridade para 2018. A começar por priorizar a Libertadores e deixar um pouco de lado o campeonato tão valorizado em abril, maio…e esquecido no final da temporada. O ano foi de fracassos. Não tapar o sol com a peneira é um bom primeiro passo.

(Estatísticas: Footstats)


Flamengo leva virada pelas laterais. Mas jogo será outro no Maracanã
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André Rocha

O que mais chamou atenção no Independiente do treinador Ariel Holan na virada por 2 a 1 sobre o Flamengo em Avellaneda pela partida de ida da final da Copa Sul-Americana foram as trocas de posicionamento de alguns jogadores ao longo da partida.

Os ponteiros Benítez e Barcos inverteram o lado, o meia Meza ficou mais avançado, perto do centroavante Emmnauel Gigliotti. Sánchez Miño, meia pela esquerda no 4-1-4-1/4-3-3, foi parar do lado direito. No segundo tempo, o lateral esquerdo Tagliafico ficou mais preso para o apoio do zagueiro Gastón Silva.

Mas o que efetivamente ajudou a construir a virada após o gol de Réver logo aos oito minutos de jogo em bela cabeçada completando centro de Trauco foi a mobilidade dos jogadores do time argentino em progressão, com a equipe atacando. Principalmente pelos flancos e, em especial, no setor do lateral peruano da equipe brasileira.

Bustos, Barco, Meza, Benítez, Miño…todos caíram no lado em que estava Trauco. Tabelando, triangulando, em ultrapassagens ou vencendo o lateral do confronto direto, o um contra um. Cenário ainda mais dramático pela lentidão de Lucas Paquetá na recomposição.

Reinaldo Rueda optou por não repetir o 4-3-2-1, desenho tático dos 2 a 0 sobre o Junior em Barranquilla na semifinal. Manteve Paquetá na linha de meias pela esquerda no 4-2-3-1 para se defender em duas linhas de quatro, deixando Diego mais avançado e próximo a Filipe Vizeu. Mas deixou espaços demais no setor e abandonou Trauco à própria sorte no primeiro tempo.

O móvel 4-1-4-1 do Independiente com muitas combinações pelos flancos, especialmente o direito para cima de Trauco. Flamengo sofreu com a lentidão de Paquetá na recomposição no habitual 4-2-3-1 rubro-negro e deu espaços demais depois de abrir o placar com Réver (Tactical Pad).

No único contragolpe cedido pelo Fla, na firula desnecessária de Everton Ribeiro, o sistema defensivo se viu desorganizado e Trauco mal posicionado. Passe de Meza para Benítez servir Gigliotti livre para empatar num primeiro tempo de 60% de posse do Independiente e oito finalizações contra cinco dos visitantes – duas para cada lado no alvo. Chamou atenção nos primeiros 45 minutos os 19 cruzamentos do time mandante.

No único contragolpe cedido pelo Flamengo no primeiro tempo, Meza encontrou Benítez no espaço que devia ser ocupado por Trauco na cobertura para servir Gigliotti no gol de empate do Independiente (Reprodução TV Globo)

Um sinal de que o caminho da virada do “Rei de Copas” seria pelos flancos. E veio logo aos sete minutos. Vacilo de Willian Arão, o pior em campo, no apoio a Pará; jogada individual de Barco e belo gol de Meza, finalizando da meia esquerda. Virada para sacudir estádio.

Mas surpreendentemente o time que apenas treinou durante oito dias, inclusive poupando todos os titulares no campeonato argentino, começou a diminuir o ritmo a partir dos 20 minutos da segunda etapa. Não mais as combinações rápidas pelas pontas, nem o belo trabalho de pivô de Gigliotti, que lutou sozinho na frente. O rendimento caiu ainda mais com as substituições de Holan.

O Flamengo, com Everton no lugar de Paquetá e Vinicius Júnior na vaga de Diego, com Everton Ribeiro centralizando, cresceu e podia ter empatado. O desempenho melhorou a ponto de Rueda não fazer a terceira substituição. Surpreendente para quem enfrentou partidas decisivas seguidas, com viagens a Colômbia e Salvador.

Finalizou mais na segunda etapa – seis a cinco e, novamente, duas no alvo para cada lado. Recuperou posse de bola, subindo para 44% no total. Cresceu porque ocupou mais o campo de ataque e encontrou espaços principalmente entre a defesa e o meio adversário quando os ponteiros buscavam o jogo por dentro. Faltou criar a chance cristalina para empatar o duelo.

Flagrante do Flamengo encontrando espaços entre as linhas do time argentino para Everton Ribeiro receber sem pressão e servir Vizeu às costas da defesa. Faltou a conclusão precisa do ataque do time brasileiro (Reprodução TV Globo).

O desenho do jogo, porém, sinaliza que o confronto derradeiro no Maracanã será diferente. Não necessariamente melhor para os rubro-negros.

Porque a tendência é que o Independiente seja menos móvel e ofensivo e mais prudente e conservador no posicionamento. Inicialmente deve utilizar a configuração mais eficiente na fase defensiva e veloz na saída para o ataque. Já o Flamengo, com uma semana de preparação e estádio lotado, tem como desafio transformar a pressão da massa em apoio desde o início. Com intensidade e proposta ofensiva, mas sem se desorganizar atrás.

Para isso vai precisar de uma participação mais efetiva de Everton Ribeiro e Diego na articulação. Impressionante como a temporada vai chegando ao fim e a dupla que devia ser responsável pela criação não consegue afinar a sintonia. Com o cansaço pela forte sequência de jogos o problema parece se agravar. Mas final é o momento de superação, ainda mais para quem está devendo.

O time argentino, de forte cultura vencedora em copas, vai tentar repetir 1995 quando comemorou a Supercopa dos Campeões no Maracanã sobre o Flamengo na última tentativa dos rubro-negros de conquistar um título no ano de seu centenário. Só que desta vez não traz para o Rio de Janeiro uma vantagem de dois gols. Se repetir o placar de 22 anos atrás – 1 a 0, gol de Romário, então melhor jogador do mundo – a decisão vai para a prorrogação.

Contra a tradição e o peso da camisa do rival neste tipo de disputa, o Fla terá que mostrar a força mental e a indignação com a derrota, ou da perda do título, dos clássicos cariocas e das últimas partidas. Para voltar a celebrar uma conquista internacional, algo que não acontece desde a Copa Mercosul de 1999. Desta vez em casa, como não aconteceu nem na Libertadores de 1981. Missão difícil, mas possível.

(Estatísticas: Footstats)

 


Arame liso, pecho frio, elos fracos. Roteiro do Flamengo segue o mesmo
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André Rocha

Para quem não acompanha este que escreve nas redes sociais e está chegando agora ao blog, segue um “glossário” para os termos citados no título do post:

Arame liso – Cerca, mas não fura. Não machuca ninguém. O Flamengo segue com um ataque que precisa de muitas oportunidades para ir às redes. Na derrota por 2 a 0 para o Vitória na Arena da Ilha do Governador, Vizeu, substituto do lesionado Guerrero, perdeu duas chances claras na primeira etapa, ainda com empate sem gols. Para uma equipe pressionada e sem confiança, não sair na frente e trazer a torcida para perto foi fatal.

Pecho frio – Termo muito usado na Argentina. Peito frio. Ou time que se abate nas dificuldades, não encontra forças para se recuperar. Nos jogos mais equilibrados este perfil menos guerreiro, que aceita a derrota sem a indignação própria dos grandes times, faz diferença. É anímico. E fica claro inclusive nas entrevistas do treinador Zé Ricardo e dos jogadores. Conformismo.

Elos fracos – Jogadores que erram seguidamente e comprometem a equipe. Muralha, Rafael Vaz, Rodinei, Márcio Araújo…A lista é extensa, e torna ainda mais questionável a ideia de que o elenco é forte, um dos melhores do país. Novo revés por falhas individuais. Willian Arão, escalado na função de Márcio Araújo, errou feio no passe, Yago não perdoou e acertou no ângulo de Diego Alves. Depois Rever vacilou na disputa com Tréllez e cometeu pênalti. Duvidoso, mas marcável. A cobrança perfeita de Neilton resolveu o jogo.

Neste cenário, pouco adianta a mudança de nomes, embora a saída de Márcio Araújo tenha melhorado a construção das jogadas desde a defesa e fez a equipe circular mais a bola, sem apelar para os cruzamentos aleatórios. A impressão é de que Cuéllar seria mais apto à função que Arão. Assim como Berrío mostrou quando entrou que é mais útil que Geuvânio vindo de lesão.

Arriscar para sair da mesmice, buscar evolução sem se render à mediocridade habitual é sempre saudável. Mas como se impor quando o domínio não se traduz em gols, os erros individuais desmontam o sistema defensivo e a equipe não encontra forças para reagir? O Vitória, mais organizado e confiante depois da chegada de Vágner Mancini, foi apenas mais um a aproveitar, também por seus próprios méritos.

O roteiro de fracasso do Flamengo continua intacto. A nau do futebol do clube parece à deriva. Mesmo com chances de título ainda na Copa do Brasil e na Sul-Americana, qualquer mudança de rota parece tardia. Porque os defeitos seguem os mesmos. Há tempos.


Problemas do Flamengo desconcentram Corinthians em jogo maluco. Empate ruim
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André Rocha

Antes de qualquer análise da disputa em si, é dever ressaltar o erro grotesco, imperdoável da equipe de arbitragem liderada por Ricardo Marques Ribeiro no gol absurdamente mal anulado do Corinthians. Jô recebe passe de Maycon três metros (!) atrás da linha da bola.

Ainda que o mesmo Jô tenha aberto o placar logo em seguida aproveitando passe de Balbuena, o crônico erro de posicionamento da defesa rubro-negra permitindo a infiltração e o estreante Diego Alves mal colocado, não dá para dizer que o mandante não foi prejudicado.

Porque o Flamengo se abateu tanto por ter permitido a finalização na primeira jogada bem coordenada pelo adversário que teria se desmanchado se o gol tivesse sido validado. Difícil prever o que aconteceria na sequência.

Mas também não dá para descartar a hipótese do líder do campeonato ter antecipado a postura conservadora, confiando na capacidade de controlar os espaços e de negar as finalizações com os movimentos perfeitos da última linha de defesa.

Futebol é louco e apaixonante pelas surpresas que reserva conforme o jogo anda. O Flamengo sem ideias e evolução, com Márcio Araújo inoperante na fase ofensiva, com direito a uma finalização bizarra com total liberdade, e Diego girando, prendendo a bola e travando o jogo novamente.

O Corinthians repousou no resultado, acomodado pelas fragilidades do oponente, perdendo força na saída para os contragolpes depois da troca de Marquinhos Gabriel, lesionado, por Giovanni Augusto. Especialmente sentindo falta de Romero, que ataca os espaços certos em velocidade. Clayson se esforçou, mas não conseguiu manter o desempenho. Rodriguinho, o meia central atrás do centroavante no 4-2-3-1, novamente ficou devendo.

No segundo tempo, as entradas de Willian Arão e Berrío nas vagas de Cuéllar e Trauco distribuíram melhor o Flamengo em campo. Everton ocupava todo flanco esquerdo e seu xará, o Ribeiro, se juntava a Diego e Guerrero no centro para articular e rondar a área corintiana.

Sim, mais uma vez o time de Zé Ricardo exagerou nos cruzamentos. Foram 41 no total. No 30º saiu o belo gol de Rever com assistência de Juan, que antes obrigara Cássio a uma defesaça. Mas a grande oportunidade foi em jogada bem trabalhada com bola no chão, em velocidade, passando por Berrío, Guerrero e Arão. Diego, porém, errou feio na finalização, perdendo gol feito. Mais uma atuação bem abaixo da média do meia. Mas só saiu com dores na mão para a entrada de Vinicius Júnior.

O jogo ficou aberto com o Corinthians tentando atacar para sair do sufoco. Mas desta vez a descoordenação dos setores não permitiu que os substitutos Pedrinho e Camacho fizessem subir o desempenho pelo aspecto físico. Ainda assim, a chance da vitória caiu nos pés de Jô em novo chute cruzado, mas desta vez Diego Alves estava bem posicionado. Na sequência, pixotada de Pedro Henrique, o elo fraco na defesa corintiana, e bola no travessão.

O empate deixa a impressão, mais uma vez, de que o Flamengo tem potencial para render muito mais em termos coletivos. Na segunda etapa, foi quem fez o melhor time da competição mais sofrer e ver sua invencibilidade de fato em risco. Teve 55% de posse e finalizou 15 vezes, mas só duas no alvo contra nove do Corinthians, três na direção da meta de Diego Alves.

Porque os desfalques pesaram na equipe de Fabio Carille e os problemas rubro-negros nitidamente desconcentraram os donos da casa em Itaquera. Jogo maluco, com altos e baixos. Ações e respostas inesperadas. Um erro capital da arbitragem. Um ponto para cada lado que não satisfaz ninguém.

(Estatísticas: Footstats)


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