Blog do André Rocha

Arquivo : rogerioceni

Análise tática: Ponte Preta e Corinthians desconstroem a “moda” do 4-1-4-1
Comentários Comente

André Rocha

Com o sucesso da seleção brasileira sob o comando de Tite, veio a impressão de que o 4-1-4-1 se consolidaria como tendência no futebol brasileiro. Como um dia foi o 4-2-3-1.

Ponte Preta e Corinthians até utilizaram o desenho tático com um volante entre duas linhas de quatro e mais um atacante durante a campanha na fase de grupos do Paulista. Mas bastou chegar os confrontos mais importantes para os treinadores Gilson Kleina e Fabio Carille alterarem o sistema.

Agora são duas linhas de quatro sem a bola que deixam dois jogadores mais adiantados. Para pressionar a saída de bola do adversário, mas também servir como referência para a transição rápida do campo de defesa.

De maneiras distintas, porém. Nos surpreendentes 3 a 0 sobre o favorito Palmeiras no Moisés Lucarelli, a Ponte compactou bem as linhas e não deu refresco ao palmeirense que estivesse com a bola. Pressão para tomar rápido e acelerar buscando o artilheiro William Pottker e Clayson, que saiu da direita para formar uma dupla na frente e criar problemas circulando às costas de Felipe Melo.

Mas sem enfraquecer o setor “abandonado”. Porque Jadson abria para fechar a segunda linha e atacava por dentro, deixando o corredor para as descidas de Jeferson, substituto de Nino Paraíba. Para cima de Zé Roberto, que não contava com o suporte de Dudu.

O Palmeiras de Eduardo Baptista dá a impressão de que confia na posse de bola e no temor que pode causar no oponente por conta de seu elenco de alto nível para o futebol que se joga na América do Sul para não ser atacado.

Só que o time de Campinas atacou e contra-atacou. No ritmo de Fernando Bob, volante elegante que distribui o jogo e aparece na frente. Com Lucca, infiltrando em diagonal para receber linda assistência de Pottker e marcar o segundo gol aos nove.

Porque o primeiro não precisou nem de um minuto para acontecer, com Pottker. Uma blitz na área palmeirense até o desvio do goleador do Paulista ao lado do são-paulino Giberto, com nove. O terceiro com Jeferson após falha grotesca de Zé Roberto. Seis finalizações, cinco no alvo. Três gols. Tudo isso em 33 minutos.

As linhas de quatro da Ponte Preta com todos defendendo no próprio campo, inclusive Clayson e Pottker. Jadson abrindo para bloquear o lado direito e Fernando Bob na proteção da última linha (reprodução TV Globo).

O Corinthians precisou de 45, mais três de acréscimo, no Morumbi para se impor com as mesmas linhas de quatro que adiantaram Rodriguinho para desequilibrar. Primeiro no passe preciso para Jô marcar seu sexto gol na temporada, quatro em clássicos. Depois o chute que Renan Ribeiro não impediu que chegasse às redes no lance final da primeira etapa. Ambos em vacilos de Jucilei, muito lento para a função que exerce na proteção da retaguarda.

A equipe de Carille confia mais no posicionamento. Nem precisa pressionar tanto a bola, porque em seu próprio campo tem os espaços como referência. Permite até o controle da pelota, mas nega brechas ao rival, especialmente na última linha defensiva.

Fabio Carille dá mais liberdade a Rodriguinho no novo desenho tático corintiano. A última linha de defesa segue posicional atrás de outra com quatro jogadores para negar espaços aos adversários (reprodução Premiere).

Bola roubada, a saída em velocidade e em bloco para aproveitar os espaços deixados pelo tricolor que parecia acertar o sistema defensivo. Mas era só a fragilidade dos adversários mesmo.

Rogério Ceni vai sofrendo com a “síndrome do caderno em branco”. Toda experiência como treinador é a primeira. Não foi o primeiro clássico Majestoso, mas este vale vaga na decisão. E seu time falhou. Continua mal posicionado atrás. Só valeu pela honestidade de Rodrigo Caio na anulação do amarelo para Jô, que sequer tocou em Renan Ribeiro. Questão de índole.

No segundo tempo subiu a posse para 62%, fez Cássio trabalhar com oito finalizações contra uma e criou espaços e chances até para empatar. Só que não é fácil vazar o melhor sistema defensivo do país até aqui em 2017 e que deve confirmar em Itaquera a vaga na final estadual.

O Palmeiras diminuiu os estragos na segunda etapa em Campinas. Também porque a Ponte preferiu controlar o jogo sem a posse (terminou com 44%) e administrar ótima vantagem para a volta no Allianz Parque. Mas não irreversível.

Para a volta, a melhor receita parece a mesma da ida: marcar e jogar. Com as duas linhas de quatro que fizeram Corinthians e Ponte mais sólidos e objetivos. Desconstruindo a “moda” do 4-1-4-1. Quarenta anos depois do gol histórico de Basílio, podem fazer novamente a final do Paulista.

(Estatísticas: Footstats)

 


Análise tática – São Paulo 1×1 Corinthians: a última linha e o terço final
Comentários Comente

André Rocha

A arbitragem comandada por Vinicius Furlan no Morumbi foi pluripatética, embora menos que a do clássico carioca no Mané Garrincha. Mas o Majestoso reforçou impressões sobre os times neste início de temporada, mesmo com desfalques importantes.

A começar pela fragilidade defensiva do São Paulo de Rogério Ceni que já virou clichê – agora são surreais 20 gols sofridos em 10 partidas no estadual. O duelo com o arquirrival se colocou como um desafio para enfim não ter a meta vazada. O treinador tentou proteger com Jucilei mais plantado, Cícero recuado para garantir mais posse (terminou com 59%) e controle com volante passador.

Velocidade e intensidade no quarteto ofensivo. Tanto para pressionar no momento da perda da bola quanto para acelerar. Thiago Mendes e Wellington Nem alternando entre o lado direito e o centro, Gilberto na referência e Luiz Araújo pela esquerda. Faltou mais visão de jogo e o toque fácil. Também a conclusão precisa do melhor ataque da competição com 24 gols. Desta vez faltou Cueva. E Pratto.

Quando Nem, centralizado, acertou a assistência que fura a defesa, Luiz Araújo parou em Cássio no escanteio que Maicon colocou nas redes e comemorou provocando a torcida corintiana.

Mas depois falhou grosseiramente no posicionamento no gol de Jô. Nem cobriu Araruna no combate a Arana, nem ficou no centro da área junto com Rodrigo Caio na disputa com o centroavante do oponente. Ainda criou uma indefinição para o companheiro de zaga, que não sabia se saía em Rodriguinho ou ficava no centroavante. Nem ao menos se manteve num setor em que pudesse interceptar o cruzamento. Numa zona “morta”, assistiu ao empate e viu seu time murchar.

Maicon não cobriu Araruna, nem interceptou o cruzamento. Ainda criou uma indefinição para Rodrigo Caio – sair em Rodriguinho ou ficar em Jô? Na falha da última linha, o gol corintiano (reprodução TV Globo).

O Corinthians só não aproveitou para construir a virada porque segue sem criatividade e mobilidade na frente com a bola em movimento. Até houve mais revezamento, com os jovens Maycon e Pedrinho trocando de lado, Jadson e Rodriguinho circulando. Mas sem aquele deslocamento que gera superioridade numérica, as triangulações e a infiltração do terço final.

Tudo muito previsível. Piorou com a entrada de Leo Jabá, atacante que parece involuir cada vez que aparece entre os titulares. Já Pedrinho merece mais oportunidades, mesmo perdendo algumas disputas no físico. O time visitante finalizou dez vezes, seis no alvo. Sem chances cristalinas, porém.

Corinthians no último terço: mesmo com os jogadores da linha de meias trocando de posição, o time é previsível no ataque, isolando Jô (reprodução TV Globo).

Mais uma vez, diante do maior volume do adversário, o que garantiu o time de Fabio Carille foi a última linha de defesa bem posicionada. Apesar de um ou outro vacilo de Léo Príncipe, que entrou na vaga de Fagner. Sem os movimentos assimilados, se complicou em algumas coberturas por dentro. Balbuena teve que compensar saindo de sua posição.

Mesmo com espaços às costas do meio-campo por conta de falhas de Gabriel na proteção, o quarteto ofensivo são-paulino teve dificuldades de infiltrar na última linha corintiana quase sempre bem posicionada (reprodução TV Globo).

Mas mesmo com algumas dificuldades de Gabriel na proteção, a defesa conseguiu conter os lances mais agudos. Só não tem os melhores números do Paulista por conta de falhas individuais, como a de Cássio no gol de Maicon. Bem diferente da desorganização são-paulina.

A impressão é de que Ceni pensa futebol com a sua equipe adiantada, fazendo pressão e forçando a ligação direta do rival. Se este consegue transpor esse cerco no próprio campo, tudo fica por conta da rapidez, da qualidade e da intuição de seus defensores. Por isso sofre na última linha.

Sò não penou mais porque o Corinthians tem dificuldades no terço final do campo. Na zona de decisão, onde é preciso ter ideias. Mesmo diante de um sistema defensivo tão caótico. Não por acaso tem média de um gol marcado por jogo na temporada. Ajuda a explicar o 1 a 1. Empate entre os diferentes.

(Estatísticas: Footstats)

 


São Paulo não perdeu para qualquer um e ideias de Ceni precisam de tempo
Comentários Comente

André Rocha

Por maior que Rogério Ceni seja para o São Paulo, sua história como técnico é uma página em branco que começa a ser escrita.

Talvez fosse mais simples começar em uma equipe menor ou nas divisões de base. Já que resolveu começar no clube que o tem como maior ídolo, a proposta de jogo poderia ser mais simples, partindo do básico para o mais complexo.

Mas Ceni é ambicioso, como sempre foi na carreira como goleiro-artilheiro. Quer muito e já. O São Paulo resolveu investir no projeto e agora vai precisar de paciência, mesmo em um cenário de seca de títulos e ansiedade do torcedor.

Porque não é fácil se colocar como protagonista nas partidas. Adiantar linhas, trocar passes, empurrar o adversário para trás, criar espaços. É uma escolha que, como qualquer outra, corre riscos. Ainda mais num início de trabalho.

Pior ainda quando encara uma equipe organizada por um treinador que não abre mão de jogar. O Audax de Fernando Diniz qualifica a saída de bola com o recuo de Pedro Carmona e Léo Arthur e envolve na frente com muita movimentação do trio ofensivo e laterais espetados, chegando à frente com velocidade e muita gente.

Letal para Douglas e Buffarini perdidos pela esquerda e expostos pela lenta recomposição. Muito por conta da qualidade do adversário para sair da defesa para o ataque. Porque a premissa da proposta de Ceni é pressionar na frente para quebrar o passe. Coisa que Chávez, Luiz Araújo, Cueva e Wellington Nem, depois Cícero, não conseguiram.

Só com o recuo natural do Audax depois de abrir 2 a 0 em oito minutos com Marquinho e Carmona é que o tricolor paulista ganhou volume e poder de reação. Com Cícero na vaga de Nem, a bola passou a transitar mais pelo meio e encontrou Chávez duas vezes para empatar.

Na segunda etapa a diferença foi a competência da equipe de Fernando Diniz na bola parada com o gol de Felipe Rodrigues. O São Paulo reagiu com João Schmidt na vaga de Douglas, com Rodrigo Caio recuando para a zaga.

Depois Gilberto entrou na vaga de Chávez e aí Ceni teve que abrir mão de sua ideia e partir para uma espécie de “Muricybol” dos seus tempos de tricampeão brasileiro, despejando bolas na área adversária. Muito pelo cansaço de sempre correr atrás do resultado.

Também porque é preciso refletir sobre o contexto brasileiro na hora de pensar num modelo de jogo. O calor e os gramados desgastam mais quem joga na base de pressão e movimentação para criar espaços. Intensidade, porém com pausas de controle de jogo com posse de bola e uma marcação mais compacta no próprio campo.

O São Paulo foi superior na posse (55%) e teve mais que o dobro de finalizações – 27  a 12, dez a sete no alvo. Mas morreu no pênalti em Gabriel Leite que Carmona converteu. De qualquer forma, os 4 a 2 na Arena Barueri não são o fim do mundo, nem razão para Rogério Ceni mudar tudo e rasgar sua proposta, que não é simples. A fase é de aprendizado. Do time em relação à nova forma de jogar e do treinador na nova função. Precisa de tempo.

Acima de tudo, fazer algo tão raro por estas bandas: reconhecer os méritos do vencedor. O Audax foi superior e Fernando Diniz é um técnico mais pronto, que vai aprendendo com os erros sem abrir mão de sua filosofia. Em um país menos conservador quando o assunto é futebol já teria oportunidade num clube de maior investimento.

O São Paulo acreditou em Ceni. Só que a fase dos milagres na meta fazem parte do passado. O comandante ainda não está pronto.

(Estatísticas: Footstats)

 

 

 

 

 


A primeira imagem do São Paulo de Ceni é animadora. Só faltou acabamento
Comentários Comente

André Rocha

O analista de futebol trabalha com o momento. Fotografias de cenários. Chamado a opinar quase diariamente, precisa ter uma visão do todo, mas fundamentalmente observar o que está acontecendo e tentar perceber tendências.

A foto da estreia de Ceni trouxe imagens interessantes: linhas adiantadas, pressão sobre o adversário com a bola, velocidade na transição ofensiva. Protagonismo que envolveu o River Plate nos primeiros 45 minutos com a formação considerada titular.

E o novo treinador já mostrou uma prática influenciada por Jorge Sampaoli, um de seus “gurus”: contra apenas um atacante (Lucas Alario), dois zagueiros ficam mais fixos para garantir superioridade numérica atrás – Maicon e Breno. O terceiro, na teoria, seria Rodrigo Caio, que foi adiantado como volante para qualificar a saída de bola à frente da retaguarda.

O uruguaio Rodrigo Mora também é atacante, mas circula mais pelos flancos. Por isso Ceni optou por segurar um pouco os alas Bruno e Buffarini como laterais, fazendo diagonais de cobertura, mas se projetando nas ações ofensivas.

Na frente, destaque para Wellington Nem, canhoto pela direita cortando para dentro. Rapidez e criatividade. Luiz Araujo tentava fazer o mesmo pela esquerda, porém entrando mais na área rival se juntando a Chávez. Em números, um 4-3-3.

Não faltou criatividade, mesmo sem um típico articulador. Cueva é meia que pensa correndo e teve o suporte de Thiago Mendes. Mas com bola retomada na frente, mobilidade e trabalho coletivo o time soube criar espaços.

Sobraram gols perdidos. Desde o pênalti sobre Nem cobrado por Cueva que o goleiro Bologna defendeu logo aos quatro minutos, passando pelas chances desperdiçadas por Luiz Araujo e Chávez. O volume de jogo que encurralou o adversário não encontrou o acabamento para ir às redes.

Trabalho para Michael Beale, auxiliar inglês de Ceni obcecado por fundamentos, precisão técnica. Não vai ensinar ninguém a finalizar, mas pode criar treinos para aprimorar o que for possível.

Foram dez trocas na volta do intervalo, depois Buffarini saiu para a entrada de Foguete. Como quase sempre acontece em amistosos, o jogo perde intensidade e interesse com tantas mudanças.

O River equilibrou, criou oportunidades aproveitando mais espaços entre os setores são-paulinos e o natural desentrosamento. Carimbou as traves duas vezes, inclusive no lance derradeiro com Martínez.

Valeu para Ceni ter a confirmação de que o jovem Shaylon será muito útil e constatar que Lucão está mais maduro na retaguarda. O treinador ainda espera pelo talentoso David Neres, a serviço da seleção sub-20.

Na decisão interminável de pênaltis pela vaga na final do torneio contra o Corinthians, vitória por 8 a 7 nas mãos de Sidão. Mas o resultado é secundário. Importante foi o bom desempenho na primeira etapa. A primeira imagem. Só faltou o acabamento.


São Paulo é a maior incógnita para 2017. Mas pode ser a melhor surpresa
Comentários Comente

André Rocha

Ceni_SPFC_Treinador

Rogério Ceni sempre teve liderança, poder de articulação, capacidade de se comunicar, vivência de campo e moral de maior ídolo do São Paulo. Além disso, foi atrás de conhecimento para se qualificar no novo ofício.

Só que a história mostra que nada disso garante o sucesso como treinador. Este que escreve mantém a opinião de que seria melhor começar nas divisões de base ou em um clube menor, para ganhar cancha e se preparar para o desafio de comandar um clube grande.

Logo onde construiu sua história. Logo num período sem conquistas relevantes, com a torcida carente, exigente e esperançosa de que o goleiro vencedor resgatará a rotina de títulos.

O São Paulo é a maior incógnita para a próxima temporada porque não há parâmetros, um currículo anterior para termos noção das possibilidades de Ceni comandando fora de campo.

Mas pode dar muito certo, principalmente pela carta de intenções na escolha de seus auxiliares. Não porque Michael Beale e Charles Hembert são estrangeiros, mas pelo perfil dos profissionais e o que eles podem acrescentar ao nosso futebol.

Especialmente o inglês, ex-técnico do sub-23 do Liverpool. Pelo seu trabalho na base do Chelsea e dos Reds e pela capacidade de ajudar na qualificação dos treinamentos do time. Mas principalmente por uma visão de vanguarda em relação às divisões de base: a necessidade do aprimoramento técnico, de fundamentos, para chegar pronto ao profissional.

Porque em um jogo cada vez mais tático e intenso, a precisão técnica é que define vencidos e vencedores nos detalhes, na chance de gol que não é desperdiçada, no passe certo desde a defesa que constroi a jogada de ataque e não o contragolpe adversário. Com esta visão de futuro, o tricolor do Morumbi pode sair na frente.

Já Hembert inicialmente será uma espécie de interlocutor entre Beale e os jogadores, mas também um gestor responsável por logística e questões burocráticas, com experiência em grandes eventos.

O francês também é treinador, com licença da Football Association. Sua rede de contatos será importantíssima para Ceni, que pretende manter o intercâmbio com o futebol europeu e se manter antenado ao que há de mais atual em todos os aspectos do esporte.

Fica a dúvida se haverá tempo e paciência num país que só respeita os “gringos” e as novas ideias se  o resultado vier imediatamente. Também se Ceni, de personalidade centralizadora, saberá ouvir seus assistentes e delegar poderes nos momentos de pressão.

É um projeto ambicioso, de médio a longo prazo, ainda que os garotos que estão subindo tenham entregado desempenho e títulos na base e possam dar retorno nesta primeira temporada. Especialmente o talentoso David Neres, que já mostrou personalidade e capacidade de desequilibrar na reta final do Brasileiro.

Qualificar o elenco que entregou pouco em 2016 com contratações pontuais. Como Sidão, que chega para repetir no clube o que fez no Botafogo: substituir o goleiro ídolo, o que Denis definitivamente não conseguiu.  Mais os garotos, dosando juventude e experiência pode dar muito certo. Com conceitos, gestão moderna e inteligente dentro e fora de campo. Sem deixar a turbulência política atrapalhar.

Difícil prever o futuro no Morumbi, mas ferramentas não faltam para fazer do São Paulo a melhor surpresa de 2017 no Brasil.

 


O patrão ficou maluco! E não é Black Friday
Comentários Comente

André Rocha

Daniel Nepomuceno Galo

Primeiro foi Levir Culpi, demitido do Fluminense faltando quatro rodadas para o final do campeonato.  Entrou o eterno interino Marcão. Todos imaginavam que seria a última dispensa de treinador do Brasileiro 2016.

Mas na rodada seguinte o Internacional trocou Celso Roth por “Lisca Doido”. Para ter a primeira finalização contra o Corinthians em Itaquera aos 15 minutos do segundo tempo. Precisando da vitória.

Agora o São Paulo, depois de garantir Ricardo Gomes no cargo com os 4 a 0 sobre o Corinthians no Morumbi, muda os planos e demite o treinador para dar a primeira oportunidade a Rogério Ceni. Uma clara decisão política porque não há como imaginar o desempenho do ídolo na nova função.

Já o Galo dispensa Marcelo Oliveira antes do segundo jogo da decisão da Copa do Brasil e com o time ainda com chances de G-3 no Brasileiro. Assume Diego Giacomini, da base. Precisou levar um gol “de rachão” de Pedro Rocha e cair a mística de imbatível em Belo Horizonte para acordar.

O que mais impressiona é que, com exceção de Rogério Ceni, nenhum dos substitutos foi escolhido já pensando no planejamento de 2017, o que seria o mais lógico. No caso do Colorado é desespero mesmo.

A visão imediatista de dirigentes, torcedores e jornalistas já é notória, até virou clichê. Mas desta vez os clubes se superaram. Talvez o sucesso de Renato Gaúcho, contratado por apenas três meses e muito próximo de conquistar o título que o Grêmio busca há 15 anos, esteja influenciando nessas decisões intempestivas de contratar a curto prazo. Mas é uma exceção à regra, com todos as suas particularidades.

De tudo que foi dito sobre estas demissões, o que mais chamou a atenção foi a declaração de Daniel Nepomuceno, presidente do Galo: “A gente está vendo o processo. Ah, demitiu, mas demitiu tarde, ah, mas demitiu cedo. Não é simples assim. Nunca é 100%. Para quem acompanha futebol há tantos anos como vocês não é fácil.”

Alguém entendeu?

O patrão ficou maluco! E não é Black Friday…

 


Carta aberta a Rogério Ceni: volte às origens, comece no Sinop
Comentários Comente

André Rocha

Rogerio Ceni Sinop

Caro Rogério Ceni,

Não sou muito adepto deste recurso da carta aberta, até porque muito provavelmente não chegará a você. Muito menos deve mudar sua decisão. Mas vale o exercício, o registro.

A demissão de Ricardo Gomes antes do fim da temporada parece mesmo a senha para o anúncio de seu nome como novo treinador do São Paulo. A notícia para encher o torcedor de esperança nesta virada de ano. Voltar a ser o time da fé.

Pela liderança, pelo cuidado na administração da carreira, pelo amor ao clube e pela dedicação a tudo que faz tem muita chance de dar certo. Até porque o nível por aqui nem é tão alto assim. O melhor está na CBF. A sua visão de jogo demonstrada no campo e nas entrevistas e a busca de conhecimento na Europa, embora por um tempo relativamente curto, são bons indícios.

Mas, você sabe bem: as expectativas serão imensas, desproporcionais para um iniciante. Lembre que Guardiola foi espetacular em sua primeira experiência. Mas isto é a exceção. E o catalão não foi o maior ídolo da história do Barcelona. Será muito peso, mesmo para um gigante como você.

Por isso eu deixo aqui uma humilde sugestão: volte às origens, comece no Sinop, lá no Mato Grosso. Jogou a Série D deste ano. Chegue com toda sua visibilidade, atraia os holofotes para o clube que lhe revelou. Seria um gesto nobre, grato. Dos grandes. Inicie uma nova carreira de baixo, com mais margem de erro. Porque você é mito, mas não infalível. Nem na meta você era perfeito. Ninguém é.

No São Paulo vão olhar para o banco ou para a área técnica esperando os feitos do goleiro artilheiro. As defesas, a precisão nas cobranças de faltas e pênaltis. O grito que partia da meta orientando a retaguarda agora vai ficar mais longe. E pode acreditar: no calor do jogo, no imediatismo do torcedor, na dor de uma derrota não vão lhe perdoar.

Mesmo que a reverência transforme uma possível vaia num silêncio doído, vai machucar. E lembre do que fizeram com Ricardo Gomes: garantiram o cargo depois dos 4 a 0 sobre o Corinthians, agora o bilhete azul. Assim que funciona o futebol brasileiro. E o São Paulo deixou de ser diferente há um bom tempo. Ainda mais em ano eleitoral como 2017.

Olhe o que aconteceu com Dinamite como presidente do Vasco, Zico como diretor de futebol do Flamengo, Falcão no Internacional. O Renato Gaúcho no Grêmio é um bom exemplo para o momento, só que ele começou efetivamente a carreira de treinador em 2000 e só foi assumir o tricolor gaúcho dez anos depois.

Por isso pense. Ainda dá tempo de mudar de ideia e começar diferente. O Sinop seria uma espécie de divisão de base como treinador. Para você amadurecer sem virar vidraça tão rápido. Sem arranhar em três jogos a mitologia construída em quase três décadas. Sem entrar no moedor com a carne tão inteira.

Respeitosamente

 


Ceni: pés revolucionários, maior atuação com as mãos, sempre controverso
Comentários Comente

André Rocha

Rogerio Ceni

Rogério sempre fala o que pensa. Muitas vezes defendeu de forma incondicional e acrítica a única camisa que vestiu. Em outras pareceu mais se importar com seus números e metas do que com o São Paulo, especialmente no final da carreira.

Ceni revolucionou a posição com a qualidade no passe, a coragem para atuar adiantado e os muitos gols, de falta e pênalti. Não por acaso sua despedida dos campos repercute em todo o planeta bola.

Mesmo reserva de Marcos em 2002 e de Dida em 2006 na seleção brasileira. Preterido em 1998 por Zagallo. Talvez por, mesmo jovem, ter se posicionado contra uma brincadeira infantil de veteranos. Goleiro é “cargo de confiança” do treinador. Faltou sorte com a verde e amarela.

Sobraram competência e talento na maior atuação. Na maior decisão em 25 anos de carreira: vitória sobre o Liverpool no Mundial Interclubes. Há dez anos em Yokohama. O planeta era tricolor, do Ceni que fez pelo menos três defesas espetaculares. Com as mãos. Para lembrar a todos que era também grande na essência do ofício.

Entre tantos outros feitos e recordes. Mito da torcida, mesmo com retrospecto desfavorável contra o Corinthians, apesar do centésimo gol da carreira no maior rival. Sem contar as muitas falhas, algumas decisivas. Mais uma prova de que a condição de ídolo não respeita convenções ou regras. Simplesmente é. Ele foi o maior em vermelho, preto e branco.

O sempre controverso Ceni. Que tantos veneram, outros amam odiar. Polêmico à frente de um microfone. Inovador com os pés, salvador com as mãos. Inconstante. Humano.

Vai fazer falta. Mas pode voltar em breve, longe da meta. Quem vai saber o que esperar de Rogério?


< Anterior | Voltar à página inicial | Próximo>