Blog do André Rocha

Arquivo : rogeriomicale

Atlético Mineiro 2017 é mais um típico projeto de ilusão fadado ao fracasso
Comentários Comente

André Rocha

Foto: André Durão

Rogerio Micale foi demitido depois da derrota por 3 a 1 para o Vitória no Independência. Assumiu em julho com contrato até dezembro. Trabalho que não deu liga, assim como o de seu antecessor Roger Machado. Treinadores de perfis parecidos, que obviamente têm suas cotas de responsabilidade no fraco desempenho em 2017. A começar por terem aceitado o convite para um trabalho com poucas chances de dar certo.

Porque Marcelo Oliveira, com estilo e histórico totalmente distintos, também fracassou no ano anterior. Colocou na Libertadores via Brasileiro e na final da Copa do Brasil, mas a expectativa com o treinador bicampeão brasileiro com o Cruzeiro e ídolo do clube como jogador era de grandes conquistas.

Nem estudioso com pouca rodagem e, consequentemente, títulos. Nem o veterano com currículo e bom gestor de grupo. Simplesmente por ser um típico projeto fadado ao fracasso.

Já aconteceu tantas vezes e não aprendemos – e aí este que escreve se inclui como analista. Em 1985 o Corinthians torrou a grana da venda de Sócrates para a Fiorentina montando times caros, tirando Serginho Chulapa do Santos e Hugo De León do Grêmio, e nada conseguindo. O Flamengo de Edmundo, Sávio e Romário em 1995 é outro exemplo, assim como o bancado pela falida ISL em 200, que reuniu Alex, Denilson, Edilson, Gamarra e Petkovic.

Há também os bem sucedidos, como os Palmeiras de Luxemburgo e Scolari na Era Parmalat. Mas com uma diferença: o investimento era feito em jogadores talentosos e promissores, mas ainda com “fome” na carreira. Oferecendo boas condições de trabalho.

Estrutura nem é o problema do Galo e sua Cidade. O erro é contratar baseado mais na grife, na esperança do jogador consagrado resgatar o desempenho de seu auge anos atrás. Pior ainda é ganhar o selo de favorito aos títulos que disputa não pelo que os atletas construíram juntos, mas por conta do status de cada jogador em separado.

Não é possível juntar o Leonardo Silva de 2013, o Fabio Santos e o Fred de 2012, o Elias de 2009 e o Robinho de 2004. Estamos em 2017. E outra má notícia: se trouxe tem que botar para jogar. Porque o veterano consagrado não costuma lidar bem com o banco de reservas.

Logo vem os questionamentos: o titular, mais jovem e produtivo, “chupou laranja com quem?” Como tirar do time o “presidente da resenha”, o craque que os mais jovens tinham no videogame? Como descartar quem estaciona o carro mais luxuoso na garagem, recebe visitas de outros craques midiáticos na sede e tem um staff que parece um outro time de futebol?

No Galo, o pecado maior foi reunir Robinho e Fred sem entender que no futebol atual ou você tem um típico centroavante com velocidade e intensidade ao redor para acioná-lo, ou tem o atacante veterano que compensa a falta de mobilidade de outros tempos com inteligência e técnica. Mas vai precisar de alguém na frente com mais dinâmica.

Os dois juntos exigem mais sacrifícios dos demais. E logo atrás há um Elias em fase parecida na carreira, um Cazares e Otero buscando protagonismo no futebol brasileiro. Um Yago querendo espaço. Difícil correr sabendo que na mídia, se o time vencer, serão as principais estrelas a ganhar os holofotes. É humano.

Assim como é natural a expectativa criada. O “agora vai!”, a esperança de que será diferente. Mesmo que as características dentro e fora de campo não combinem. E só pelos nomes se transfira uma responsabilidade de conquistas que, no fundo, é irreal.

Porque em 2017 não dá mais para aceitar a contratação sem avaliação criteriosa. Só pelo nome é enorme risco. Assim como contratar o treinador na tentativa e erro, no “vai que cola”. Não é só questão de sorte. Trabalho e estudo sempre ajudam.

Foi o que faltou ao Atlético. Jogou para a galera. A mesma que agora cobra do presidente Daniel Nepomuceno ao funcionário mais humilde. Ninguém engole mais a transferência de responsabilidades, o “contratei os melhores, se não deu certo não é problema meu”. É problema de todos.

E fica novamente o questionamento deste blog: vale tratar estadual como prioridade em abril e maio e se achar superior ao rival com o título, se em dezembro este pode estar celebrando uma conquista de Copa do Brasil ou a vaga do G-6 que parecia reservada para si mesmo, o “favoritão”?

Os nove pontos de distância em relação ao Botafogo, sexto colocado, e os três de vantagem sobre o São Paulo, 17º, dão a dimensão dos objetivos do Galo, agora sem treinador, até o fim do ano. Depois de ser eliminado da Libertadores pelo Jorge Wilstermann que levou oito do River Plate e da Copa do Brasil pelo Bota de orçamento muito inferior.

Neste cenário é até difícil tratar a Primeira Liga como um título relevante. E ainda há a chance de novo revés como favorito contra o Londrina que está no meio da tabela na Série B. Outro vexame?

Certeza só de que era fiasco anunciado, com o dom de iludir. Mais um. Será que agora aprendemos todos?


Pânico do Galo com dois homens a mais é retrato do futebol brasileiro
Comentários Comente

André Rocha

Aos 33 minutos do segundo tempo, a expulsão de Willian deixou o Palmeiras com dois homens a menos contra o Atlético Mineiro no Independência. O time da casa já estava com vantagem numérica desde os 40 da primeira etapa com o cartão vermelho apresentado por Leandro Vuaden a Luan Garcia.

A ideia do post não é se ater às decisões do árbitro no confuso 1 a 1 de sábado, com três pênaltis além das duas expulsões e outros lances polêmicos, mas às consequências dentro do jogo. Com um homem a mais, o Galo já vinha encontrando dificuldades e se livrou de sofrer o segundo gol quando Victor pegou a cobrança de pênalti de Deyverson.

Quando o cenário do final da partida apresentou a obrigação de atacar para se impor sobre oito jogadores plantados na própria área protegendo o goleiro Fernando Prass, o time mineiro entrou em pânico. Passou a errar passes seguidos, se afobar chutando de fora da área e levantar bolas a esmo, muitas delas na intermediária.

Para desespero do treinador Rogerio Micale, no comando da equipe há pouco mais de dois meses. Era possível fazer a leitura labial e entender que seus gritos eram para girar a bola até criar o espaço para a infiltração. Em vão, ainda que a forceps tenha criado algumas oportunidades e pudesse até sair com a vitória. Ou derrota, no contragolpe cedido que Moisés, já exausto, não conseguiu aproveitar.

A postura do Galo no final da partida é um retrato do futebol atual praticado no Brasil. No qual ter a bola e a obrigação, pelo contexto da partida, de atacar e propor o jogo é um problema. Quase um fardo. Ou o maior risco de sair derrotado.

As razões são muitas. Desde o pouco tempo para treinar pelo calendário insano que também exige um revezamento maior no elenco e compromete o entrosamento, passando pelas constantes mudanças por conta de uma janela de transferências que parece nunca acabar e a pouca paciência com o trabalho dos treinadores. Pressão absurda por resultados imediatos, ainda mais de elencos montados com altíssimo investimento, como os de Palmeiras e Atlético-MG.

Assim como a percepção de que o futebol jogado nos grandes centros chegou aqui primeiro pela defesa. O trabalho sem a bola que ganhou um salto de evolução com a aproximação das linhas, a participação de todos, a perda da vergonha de recuar os dez homens atrás da linha da bola, a preocupação em congestionar a zona de criação para a infiltração. Também a pressão no campo adversário para dificultar a construção das jogadas desde o seu início.

Como criar espaços em um jogo tão apressado, que vaia a bola atrasada para o goleiro ou os passes trocados pelos zagueiros para tirar o rival do próprio campo? Um sistema defensivo bem posicionado e com movimentos coordenados não é tão difícil de ser treinado e exige um trabalho mais sofisticado de quem tem a bola.

É preciso se movimentar para abrir a brecha e o companheiro aparecer nela no tempo certo. Saber o momento de arriscar o drible que desequilibra. Leitura de jogo. Para isso é preciso inteligência e também sintonia, jogar de memória, se entender no olhar. Só vem com a repetição. Difícil com o entra e sai de peças. Não por acaso o São Paulo de Dorival Júnior, que contratou dezoito jogadores e também o treinador, sofre mais que os outros e a meta que restou em 2017 é escapar do rebaixamento que parece cada vez mais palpável.

Mas o líder Corinthians, ainda absoluto e com boa vantagem, também pena quando tem a bola. Fabio Carille tem time base definido, resgata conceitos dos tempos de Tite e mesmo com a maioria dos titulares tendo atuado sob o comando do atual treinador da seleção brasileira, o fato de ter se tornado o time a ser batido fez com que os adversários estudassem mais os movimentos ofensivos e se concentrassem em bloqueá-los.

Enfrentar o melhor time do campeonato também permite jogar em contragolpes, mesmo em casa. Assim o Santos venceu na Vila Belmiro. Porque os espaços se oferecem para os velocistas que não conseguem pensar quando se deparam com uma parede. Resta levantar a bola na área para arrancar um gol. Ou apostar na bola parada. É pouco. Falta repertório, ousadia. Ideias.

Não por acaso em 73% dos jogos quem fica mais tempo com a bola não vence. Por isso o Galo penou e perdeu a oportunidade de conseguir três pontos e se aproximar do G-6. Segundo o Footstats, terminou a partida com 62% de posse, 20 finalizações. Mas apenas sete no alvo e poucas chances cristalinas. Foi às redes na cobrança de pênalti de Fabio Santos. Efetuou 33 cruzamentos.

Criou pouco porque se livrou da bola. E no final é comum o discurso de que fizeram tudo que foi possível. “Massacramos, mas não deu”. Como se ficar com a posse sem criar nada de concreto representasse alguma superioridade real.

Um engano recorrente que empobrece ainda mais o nosso jogo tão sofrido. Há qualidade, mas ela está sufocada. Sem espaço, tempo, paciência, treino e coragem fica quase impossível. É mais fácil esperar o contragolpe. Ou o acaso proteger.


Quanto maior o desafio, mais forte e concentrado é o Corinthians
Comentários Comente

André Rocha

Mineirão com bom público (45.529 presentes), Atlético Mineiro buscando afirmação, de novo o time desfalcado – embora menos que o esperado, com Guilherme Arana e Maycon em campo. O cenário era relativamente perigoso para o líder Corinthians. A invencibilidade estava em risco.

Mas o que não foi bem entendido no post sobre o empate contra o Flamengo ficou bem claro em Belo Horizonte: quanto maior é o obstáculo, ao menos na aparência, mais concentrado fica o Corinthians. No domingo, o jogo em Itaquera parecia controlado com facilidade pelos problemas técnicos e táticos do adversário. Houve uma desmobilização natural e com as substituições que melhoraram o desempenho do Fla, não era mais possível retomar a força mental. Por isso o sufoco no segundo tempo.

Desta vez um Galo se propondo a resgatar a intensidade na estreia de Rogerio Micale no Mineirão, com Pablo e Gustavo Blanco mantidos depois do triunfo de 2 a 0 sobre o Coritiba, deixou a equipe de Carille atenta e minimizando erros. Como de costume fora de casa neste campeonato – eram seis vitórias e dois empates como visitante.

Até quando o quase sempre preciso Balbuena errou, Fagner estava ligado e dificultou a finalização de Rafael Moura no primeiro tempo. Já quando Arana vacilou no posicionamento pela esquerda, Cássio precisou de sorte para o chute cruzado de Robinho, que entrou na vaga de Elias, não vencer sua meta na segunda etapa.

O Corinthians já vencia o jogo com o 11º gol de Jô em incursão rápida pela direita de Fagner que Maycon preparou para o artilheiro do campeonato. O jovem camisa oito é uma das chaves do equilíbrio e da produção ofensiva. Meio-campista que marca e joga.

Rodriguinho é que não vinha rendendo desde que voltou da seleção e parecia sem mobilidade como o meia central do 4-2-3-1. Sem Jadson e Romero, apesar das atuações mais consistentes de Giovanni Augusto e Clayson em relação ao empate contra o Flamengo, o quarteto ofensivo precisava do desempenho do autor do segundo gol deixando Leonardo Silva no chão.

Uma típica vitória corintiana fora de casa: apenas 42% de posse de bola, mas até finalizando mais, por conta dos espaços proporcionados pelo oponente: 12, quatro no alvo. Também permitiu mais conclusões atleticanas: 15, quatro no alvo. Chance cristalina, porém, só uma. Aquela de Robinho.

Retrato de um time focado, levando tão a sério o já batido discurso de pensar jogo a jogo que a emblemática 19ª rodada chegou e, se não for superado pelo Sport em casa no sábado, será o primeiro “campeão” invicto do turno por pontos corridos com 20 clubes, superando também os 44 do Palmeiras no returno do ano passado.

Não dá para duvidar de mais nada de bom que este Corinthians possa realizar. Quanto mais desafiado, mais forte fica.

(Estatísticas: Footstats)


Sai Roger, entra Rogério no Galo. Segue o conflito conceitos x resultadismo
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Bruno Cantini/CAM

Roger Machado foi demitido pela direção do Atlético Mineiro depois de uma derrota para o Bahia por 2 a 0 no Independência em que teve, segundo o Footstats, 66% de posse de bola, finalizou 23 vezes e teve a combinação infeliz de uma noite nada eficiente de seu artilheiro Fred e a atuação fantástica do goleiro adversário, Jean.

Entrega a equipe com o título mineiro, melhor campanha da fase de grupos da Libertadores e ainda vivo na Copa do Brasil, com vantagem para o confronto da volta, fora de casa, diante do Botafogo. Em 43 jogos, foram 23 vitórias, nove empates e 11 derrotas, com 60% de aproveitamento. O argumento mais forte para a dispensa, porém, foi o baixo aproveitamento dentro do Horto no Brasileiro: quatro derrotas em oito partidas. Preocupante pela necessidade de vitória em Belo Horizonte sobre o Jorge Wilstermann para seguir vivo no torneio continental.

Roger chegou ao Atlético credenciado pelo bom trabalho no Grêmio, construído em 2015 e que enfrentou problemas em 2016. Não por acaso, quando a responsabilidade aumentou e o tempo para treinamentos diminuiu. Antes sucedeu Felipão em uma terra arrasada e perspectiva de apenas lutar contra o rebaixamento. Mudou de patamar e ganhou mais competições para disputar.

E então veio o conflito que vai sufocando os novos treinadores que estão substituindo as velhas grifes no mercado: estudam, adquirem os conceitos, mas contam com uma pré-temporada ainda curta (já foi menor), cobrança por resultados desde os estaduais e ficam sem condições de colocar em prática o que encontram como condição de sucesso em qualquer conteúdo sério sobre o jogo – a repetição em treinamentos para que os jogadores assimilem.

Impossível no calendário de jogos a cada três dias. Ninguém treina, nem recupera. E então o treinador contratado por seu conteúdo e suas novas ideias, neste momento da temporada, precisa ser um mero gestor de vestiário e motivador. No máximo um estrategista para montar seu time jogo a jogo em cima das características dos adversários.

Filosofia? Modelo de jogo?  Isso devia ter sido trabalhado lá atrás, no início do ano. Mas lá também era obrigatório vencer. Roger teve a ilusão de que teria paz e respaldo depois de uma conquista em cima do maior rival e de cumprir a obrigação na Libertadores em um torneio fraco. No país do resultadismo combinado com o imediatismo? Sem chance.

É óbvio que o trabalho não pode ser considerado bom. Roger foi mais um, assim como Paulo Autuori e Diego Aguirre, a penar por querer coordenar e alternar os ritmos no “Galo Doido” que a torcida tanto ama. Quer intensidade máxima no Horto para sufocar o adversário. E dane-se se os treinadores que conseguiram aplicar isso viram seu time perder força ao longo da temporada e não saber controlar jogos que pediam outra postura. Está no imaginário popular.

Roger até cedeu, tirando um pouco a bola do chão. Na última partida foram 53 cruzamentos. Dez a menos que na derrota em casa para o Atlético Paranaense. A necessidade de garantir os três pontos exige soluções mais simples. Aquele arroz com ovo frito para matar a fome. O que incomoda é que nunca aparece o momento para buscar algo mais sofisticado. Não há convicção que resista.

Porque no futebol brasileiro ainda vigora a ideia de que o treinador tem que fazer o simples: fechar a casinha e deixar que os talentos decidam na frente. Fabio Carille se impõe no Corinthians seguindo a linha de Tite, com seus toques pessoais. Trabalhando num time base em que a maioria conhece os conceitos e já havia trabalhado com o treinador da seleção brasileira.

O vice-líder do Brasileiro é o Grêmio. De Renato Gaúcho, que chegou com seu carisma de maior ídolo do clube e contou com a ajuda de Valdir Espinoza e de uma comissão técnica qualificada, inclusive no departamento de análise de desempenho, para saber ouvir, fazer o polimento, ajustar o que estava errado e manter o que existia de bom. Exatamente o legado de Roger construído lá atrás.

O que ele não soube fazer em Minas Gerais e perdeu o emprego. Mas automaticamente vira sombra de qualquer treinador pressionado na Série A, embora tenha afirmado que não trabalha no Brasil em 2017.

Foto: Jornal O Tempo

Chega Rogério Micale no Galo. Campeão olímpico com a seleção, mas contestado e dispensado pela CBF por conta do fracasso com a sub-20 que não conseguiu classificação para o Mundial da categoria via Sul-Americano. Primeira experiência no futebol profissional em time de Série A. Perfil parecido com o de Roger, com a desvantagem junto a jogadores e imprensa mineira por não ter sido boleiro. Tem o crédito, porém, de já ter trabalhado nas divisões de base do clube. É homem de confiança de André Figueiredo, superintendente de futebol.

Entra direto na roda viva de jogos decisivos sem tempo para treinamentos. Se for pragmático, resgata a intensidade com marcação alta e um estilo mais vertical – ainda que os veteranos do ataque sejam um obstáculo para qualquer ideia mais agressiva e de jogo físico. Mas vai precisar de resultados. Imediatos, claro.

Pode ser mais um a se perder entre conceitos e as cobranças insanas num calendário sem respiro para quem está envolvido em três competições. Sem treinamentos não há novas ideias, apenas mais do mesmo. Precisando vencer para ontem. Eis o paradoxo dos novos comandantes do futebol brasileiro.


Fiasco do Brasil sub-20. A inteligência vale mais que “alegria nas pernas”
Comentários Comente

André Rocha

O maior pecado do técnico Rogério Micale na eliminação brasileira do Sul-Americano no Equador com o empate sem gols contra a Colômbia foi tentar se manter fiel às suas convicções de jogo apoiado, valorizando a posse de bola, sem considerar o contexto: gramados ruins na primeira fase e, principalmente, as características dos jogadores – mais velocidade e força que técnica e raciocínio.

Talvez tenha faltado mais do rubro-negro Lucas Paquetá, maior esperança na organização e criação. Mas é bem provável que o fiasco brasileiro tenha sido novamente uma mera consequência de seu próprio ciclo nas divisões de base.

Desde sempre o que o menino bom de bola ouve é “filho, pega a bola, parte para cima e resolve o problema da sua família”. Depois de um tempo, se confirmar o potencial, o empresário é incluído no pacote de dependentes. O aprendizado inicial é tentar resolver na individualidade para se destacar na multidão.

A questão é que por mais que os profissionais da base estejam se qualificando na preparação dos garotos, a nossa mentalidade atrapalha. Olhamos para um time e sempre buscamos “o cara”, aquele que chama a responsabilidade, que faz a diferença, que decide sozinho. Não vale ser coadjuvante. A velha visão do “patrão” e “empregado”.

Só que no futebol atual, por mais que se tenha Messi, Cristiano Ronaldo, Suárez, Neymar, Ibrahimovich, Hazard e outros talentos desequilibrantes, “o cara” é cada vez mais o time. A ideia de jogo que vai potencializar e fazer aparecer o jogador diferente.

Por isso a necessidade de uma leitura de jogo cada vez mais precisa. A exata noção da importância de cada um no funcionamento do modelo de jogo. Saber que passar e se deslocar oferecendo opção ao companheiro vai ser mais importante que o drible em dois terços do campo. Só no último, mais próximo do gol, a vitória pessoal será essencial para furar as linhas de marcação cada vez mais compactas.

Saber o que fazer também ajuda a não se desesperar na hora da dificuldade. Era nítida a tensão dos meninos da seleção sub-20 por conta dos problemas graves na construção do jogo apoiado que Micale exige. Porque o garoto, culturalmente, é cobrado para decidir sozinho. Habilidade ou força e velocidade, rompendo as defesas. Vencendo as dificuldades na marra ou no jeitinho que é só nosso.

Tudo para conseguir um contrato na Europa e sair daqui jogando bola e aprender lá a fazer o jogo. Coletivo. Discurso comum entre os novos e os ex-boleiros. Às vezes surge um Gabriel Jesus, talentoso e inteligente praticamente na mesma proporção que se encaixa rápido em qualquer lugar – Palmeiras, seleção olímpica, principal, Manchester City. Mas é exceção.

Não é acaso a nossa maior carência em alto nível: os meio-campistas cerebrais, que jogam de área a área e ditam o ritmo. Fazem o jogo coletivo acontecer. Como estimular o menino se o mais rápido, o mais forte e o mais driblador é que vão ganhar os holofotes e as melhores oportunidades?

A visão do futuro não é apocalíptica e há avanços nos métodos de treinamento nas divisões de base do país. Também há mais competições para colocar tudo em prática. Não parece a hora de defenestrar Micale e voltar a encher a CBF de ex-boleiros sem formação e preparo.

O problema maior do processo segue sendo a transição e a afirmação dos mais promissores no profissional. Muito porque o empresário e a família querem que o craque sub chegue com banca entre os adultos. Ou só passe por lá em busca do sonho maior: a independência financeira nos centros mais rentáveis.

David Neres já entrou no time principal do São Paulo com status de estrela e, no meio do Sul-Americano, foi vendido ao Ajax. Difícil imaginar a cabeça do garoto para seguir no torneio de base com a primeira grande meta cumprida. Seleção principal, Copa do Mundo? Lá na frente e se for conveniente.

Uma busca individual em uma visão pouco coletiva. De mundo, que passa pela educação formal, em casa e entra no campo. Em um futebol de alto nível cada vez mais associativo, de união de forças, combinação de características. Um paradoxo.

Por isso a inconstância, a irregularidade de alternar um título mundial sub-2o em 2011, um vice em 2015 e duas eliminações no Sul-Americano, em 2013 e agora. Um sinal de que está na hora de começar a privilegiar a inteligência em campo. Ela vale bem mais que “alegria nas pernas”.


Por um debate mais tolerante, plural e com conteúdo em 2017
Comentários Comente

André Rocha

No ano em que os resultados premiaram o desempenho das equipes dos estudiosos Micale e Tite na seleção brasileira, veio Renato Gaúcho no final com a conquista da Copa do Brasil e seu discurso de exaltação ao talento que minimiza o esforço.

No meio termo, Cuca foi campeão brasileiro fiel às suas convicções, como marcação individual e jogadas aéreas ensaiadas até em cobranças de lateral, mas adaptando conceitos atuais como pressão no campo de ataque e meio-campo mais qualificado. E o melhor: admitindo mesmo depois da conquista que precisa estudar e se aprimorar.

Tudo para lembrar que no Brasil e em qualquer canto que se jogue futebol é possível vencer de várias maneiras. “O futebol é generoso” costuma dizer Paulo Autuori, outro técnico com saldo positivo em 2016.

Mas o resultado deve mesmo encerrar qualquer discussão? O líder ou o campeão não pode ser questionado? Tem sempre razão? Em um jogo tão aleatório e imprevisível, o desempenho nem sempre tem relação direta com o placar final.

É preciso entender o papel do analista, que é chamado todo o tempo a opinar e trabalha com fotografias instantâneas da temporada. Afirmar que um time está jogando melhor naquele momento não significa que levará a taça, nem que será justo pelo desempenho em toda a competição.

Ao mesmo tempo, este que escreve reconhece que exagerou ao dizer que o Palmeiras poderia ser um campeão “pela porta dos fundos”. Melhor seria substituir por “sem brilho e sem números”. Àquela altura o time corria risco de perder a condição de melhor ataque, maior número de vitórias e outras estatísticas. Mas “porta dos fundos” foi demais, talvez pela aversão ao resultadismo precoce de Cuca e seus comandados, alimentado por 22 anos sem títulos brasileiros.

Quem é obrigado a se posicionar o tempo todo sobre algo que muda a cada instante invariavelmente vai dizer alguma bobagem. Sempre, porém, com imenso respeito à instituição. Sem clubismo, pelo menos deste blogueiro. Acredite: com o tempo, é mais fácil o jornalista se trair torcendo por suas convicções do que pelo time que fez com que ele se apaixonasse pelo esporte. É da vaidade humana.

Uma tolice, pois o futebol está aí sempre para dar uma rasteira nas nossas idealizações. Por isso é tão inútil esse Fla-Flu estudiosos x boleiros. Porque não adianta falar a língua dos jogadores sem conteúdo nos treinos, assim como o técnico que prefere os livros ao contato pessoal dificilmente terá a confiança dos seus comandados.

O mesmo vale para o comentarista que trata o futebol como um mero jogo de xadrez. Tão equivocado quanto alguns geradores de obviedades que menosprezam a inteligência de quem está ouvindo. Ou só dizem o que o torcedor quer ouvir, numa relação fornecedor-cliente. Pior ainda os que confundem leveza e humor com piadas grotescas que sempre acabam ofendendo alguém.

O torcedor não tem as obrigações do jornalista. Mas é importante entender que se ele quer interferir na vida do clube, seja como sócio-torcedor ou através dos muitos canais de comunicação que existem hoje, é preciso saber mais. Não dá para colocar tudo na conta do técnico “burro” ou do time “sem vergonha”.

Se assistir apenas aos jogos do seu time, sem entender minimamente a evolução do esporte em todas as áreas, a crítica será sempre rasa. Ou saturada de saudosismo, dos tempos em que o time era o melhor. A velha visão de que tudo no passado era mais bonito. Basta pesquisar na internet, com jogos na íntegra disponíveis, para perceber que felizmente tudo evolui. Por isso fica mais complexo.

Que no ano que chega sejamos mais tolerantes e plurais, respeitando e aprendendo com quem tem algo a transmitir. Com rivalidade, mas sem antagonismos radicais no debate. Sempre valorizando o conteúdo, que é ouro em tempos de tanta informação circulando.

Que o torcedor não seja tratado como uma criança mimada, que não pode ser contrariada. Que os profissionais de futebol lidem melhor com críticas construtivas. Que nós, analistas, estejamos atentos ao que o esporte oferece de objetivo, matemático, mas também ao lúdico e ao imponderável. Não é vergonha dizer que uma bola que bateu no travessão e não entrou por centímetros foi apenas sorte de quem deixou de sofrer o gol. Simples assim.

Por isso estamos aqui falando dessa parte importante de nossas vidas. Imprevisível como cada dia de cada semana de cada mês. De cada bola que rola. Do ano que vira no calendário para lembrar que podemos fazer melhor, mesmo sem garantia de vitória no final dos 90 minutos.

Até 2017!


O Brasil de Neymar ganha o ouro e um time. Agora é com Tite!
Comentários Comente

André Rocha

Somos eternos insatisfeitos. A medalha de ouro em casa era a meta, a ponto de poupar o nosso craque maior em um torneio oficial da seleção principal. Instantes depois da catarse no Maracanã após a cobrança de Neymar, a pergunta surge: e agora?

A final em 120 minutos deixa lições. A Alemanha, mesmo sem remanescentes dos 7 a 1, mostrou as nossas deficiências de sempre: dificuldade de criar espaços jogando coletivamente e sofrer quando a disputa vai para o emocional. Os alemães jogavam agrupados, pressionavam o adversário com a bola assim que entrava na sua intermediária e induziam o quarteto ofensivo brasileiro a tentar o drible e não a tabela.

Bola roubada, saída rápida com Meyer às costas de Walace e Renato Augusto e os pontas Brant e Gnabry buscando as diagonais. Ainda ameaçavam nas jogadas aéreas. Três bolas no travessão de Weverton.

O Brasil tinha Neymar. Buscando para articular, procurando mais o lado esquerdo. Desequilibrando na cobrança de falta que também tocou no travessão. Mas entrou e explodiu o Maracanã. Salvando uma atuação ruim ofensivamente no primeiro tempo.

Porque além da tensão de uma final que ganhou um peso de Copa do Mundo pelo contexto, os meninos Gabriel e Gabriel Jesus ainda precisam aprender muito no senso coletivo. Deslocar no tempo certo para dar opção, saber a hora de tocar de primeira, mesmo pressionado. Luan também errou, inclusive na finalização fraca em cima do zagueiro Süele na outra oportunidade nos primeiros 45 minutos.

Mas voltavam pelas pontas formando uma linha de quatro à frente da defesa. A seleção brasileira foi um time sem a bola e no espírito. Pressão imediata na perda da bola, disciplina e atenção na recomposição.

Segundo tempo com o plano claro de esperar a Alemanha e aproveitar os espaços. Mas com muitos erros de passe, mesmo com Renato Augusto recuando na linha dos zagueiros para qualificar a saída. Não por acaso, o camisa cinco foi o melhor brasileiro por ter a leitura de jogo e visão tática mais apuradas.

Walace errou, depois Marquinhos – o primeiro na Olimpíada. Não por acaso, a equipe de Rogério Micale sofreu seu primeiro gol. Meyer, novamente nas costas de Walace.

A melhor notícia da decisão é que o Brasil não se desmanchou mentalmente com o empate. Pelo contrário, cresceu com Felipe Anderson à direita na vaga de Gabriel, que errou em contragolpes seguidos. Depois Micale trocou o esgotado Jesus por Rafinha para liberar Neymar, que deu três passes geniais para chances cristalinas. Felipe Anderson e Rafinha sentiram e erraram à frente do goleiro Horn.

Domínio completo na prorrogação, até Neymar tentar um pique e mancar. Inteligente, os alemães avançaram as linhas e trocaram passes. Mas também não tinham pernas para tentar algo mais. De qualquer forma, foram 120 minutos de bom futebol no Maracanã.

Também belas cobranças de pênaltis até Weverton pegar o chute do artilheiro Petersen. Não podia haver melhor roteiro para Neymar. De nome riscado na camisa do menino para o gol do título. Fez a pré-temporada depois das férias na preparação, sentiu a falta de ritmo nos primeiros jogos, sofreu aberto à esquerda tendo que dar piques e receber a bola toda hora para a jogada individual. Ouviu críticas de todos os lados, até quando guardou o silêncio.

Com liberdade, cresceu como passador. E fez o que dele se esperava: decidiu. O craque e o personagem do título inédito.

Mas agora com um time acompanhando. Méritos de Micale. Técnico de conceitos e convicções que compensaram a inexperiência além da base. Mostra que o caminho é o do conteúdo, do trabalho. Da gestão de grupo também. Mas não só o discurso de motivação e “virem-se!”

Com pouco mais de um mês com o grupo completo entregou resultado e desempenho. Mesmo descontando a fragilidade dos adversários em casa. O que seria capaz em um ciclo de quatro anos? Talvez de aprimorar o jogar “de memória”, que é algo impossível na seleção. Um desafio.

Agora com Tite. Não com todos os campeões olímpicos, mas aproveitando e polindo os meninos. Com conceitos e muito mais vivência, ao menos em clubes. Para trazer Thiago Silva e Marcelo de volta, aproveitar os melhores e formar outra equipe para as Eliminatórias. Que pode ser forte em um clima mais leve, com cultura de vitória após tantos reveses e vexames.

Para o Brasil, o ouro é a cor da esperança.

 

 


A “estreia” do Brasil do passe facilitou o espetáculo em Salvador
Comentários Comente

André Rocha

Dirão que a mudança foi anímica. “Mais raça”. Ou de casa, com o calor de Salvador. Podem também colocar na conta das mudanças de Rogério Micale: os gremistas Walace e Luan que, de fato, alteraram a dinâmica ofensiva. Ou tirar os méritos do jovem técnico e creditar ao papo com Tite antes do jogo.

Mas a grande transformação mesmo na seleção olímpica nos 4 a 0 sobre a Dinamarca foi na execução inteligente do modelo de jogo. Menos bolas longas e jogadas individuais, mais passes e deslocamentos. Menos pressa. Mesmo na pressão psicológica até abrir o placar e ir às redes depois de 105 minutos.

Ajudou muito o posicionamento de Neymar, centralizado e alternando com Luan às costas dos volantes adversários e procurando Gabriel à direita e Jesus pela esquerda, que sempre buscavam as diagonais.

Colaborou também a atuação soberba de Renato Augusto, em perfeita sintonia com Walace, outro monstro em campo. Camisa cinco distribuindo e liderando. Sem procurar o lado direito e fazendo Zeca centralizar como no empate contra o Iraque. Laterais aproveitando os corredores.

Especialmente Douglas Santos, autor de duas assistências em aparições pela esquerda, para Gabriel e Luan. Jesus começou tenso, errou a passada e o pé numa finalização à frente do goleiro Hojbjerg. Mas tocou bonito para concluir bela jogada de Zeca e Luan à direita. No final recebeu bela enfiada de Neymar e serviu Gabriel no quarto gol.

Um espetáculo do “caos organizado” que Micale idealizou. Sim, facilitado pela baixa intensidade dos dinamarqueses. Sem pressão no homem da bola e atenção no posicionamento, escancarando espaços entre as linhas em qualquer tabela ou ultrapassagem. Também o estado do gramado, bem melhor que no Mané Garrincha.

Mas com o mérito brasileiro de priorizar o passe. Contra a África do Sul na estreia, 540 certos e 42 errados. Diante do Iraque, 505 corretos e 36 equivocados. Desta vez foram 686 acertos, apenas 29 erros. Os números não dizem tudo sempre, mas estes são emblemáticos.

Retrato do jogo coletivo que fez todos brilharem. Próxima missão: Colômbia, quartas-de-final. Arena Corinthians, sábado. Disputa eliminatória. É dever manter a calma e o foco no campo como na “estreia” na Fonte Nova.

(Estatísticas: Footstats)

Com Neymar centralizado, Gabriel Jesus pela esquerda, laterais aproveitando os corredores e Renato Augusto liderando a posse de bola. O jogo coletivo baseado no passe que envolveu a Dinamarca em Salvador (Tactical Pad).

Com Neymar centralizado, Gabriel Jesus pela esquerda, laterais aproveitando os corredores e Renato Augusto liderando a posse de bola. O jogo coletivo baseado no passe que envolveu a Dinamarca em Salvador (Tactical Pad).


Brasil é o único bobo no futebol e precisa partir do mais básico
Comentários Comente

André Rocha

Em 2016 só existe um bobo no futebol: certo país que parece viver num mundo paralelo, parado no tempo em que se vencia, até goleava, só pelo peso da camisa e na base do talento individual.

No Brasil ainda há a crença de que o triunfo virá no piloto automático, que o adversário sem tradição entrará derrotado porque vai enfrentar a seleção cinco vezes mundial. E se não acontecer é demérito do favorito. “Faltou raça”, “a geração é fraca”, saudosismo. As negações são muitas.

Só que já é hora de acordar. Não Rogério Micale e os jogadores, inseridos no contexto do jogo atual, com equilíbrio no mundo todo. Mas todos que criam essa atmosfera insuportável de pressão.

“Em casa, tem que golear o Iraque!” Como, se este tem a base da seleção semifinalista do mundial sub-20 de 2013 e um trabalho coletivo muito mais consolidado que a reunião de bons jogadores que Micale tenta transformar em equipe?

“Ah, porque é o Brasil!” Até quando vamos nos enganar e criar uma realidade virtual que destroi nossos jogadores mentalmente? Vamos queimar geração atrás de geração? Vamos acabar com a carreira de Gabriel Jesus que Guardiola levou para o Manchester City? Vamos viver da saudade de Pelé, Garrincha, Romário e Ronaldo e execrar Neymar, que é tratado como o futuro do Barcelona? Quem está errado? O mundo inteiro?

É preciso partir do mais básico: é uma disputa de 90 minutos, onze contra onze, vence quem marca mais gols. Só há jogo tranquilo quando é facilitado por quem constroi naturalmente uma goleada. Com jogo coletivo bem pensado e trabalhado. Não a forceps, nunca mais na base do pensamento mágico, na mística, na verde e amarela, na jogada individual. Esqueçamos isso!

Se não mudar a mentalidade, perder a chance do ouro olímpico em casa será apenas mais um revés para ficar remoendo como um tolo. Sem sair do lugar.

 


Euforia, soberba, surpresa, desespero: velho roteiro que atrapalha o Brasil
Comentários Comente

André Rocha

Aconteceu de novo. A seleção brasileira, agora olímpica, viveu expectativa desmedida e midiática e um clima de euforia para a estreia no Mané Garrincha.

Como se não houvesse um adversário do outro lado. “Ah, é a África do Sul!” Aquela nossa soberba que não tem conserto, nem com 7 a 1. Se não for um campeão mundial a seleção brasileira tem obrigação de golear jogando no piloto automático. Mesmo sem conhecer quem está do outro lado.

Veio então a surpresa – não de Rogério Micale e seus comandados, que já haviam enfrentado os africanos –  pelo oponente organizado, com postura cautelosa. Sem medo, porém. Porque estamos em 2016, não há mais o desconhecido, o temor apenas pelo peso da camisa.

Os rivais compactaram as linhas, sabiam que a equipe de Micale adiantaria a defesa e tentou surpreender com a velocidade e os deslocamentos de Modiba, Masuku, Dolly e Mothiba, o quarteto ofensivo do 4-2-3-1.

O 4-3-3 brasileiro ficou espaçado no primeiro tempo. Também abusou das ligações diretas, dos cruzamentos e das tentativas individuais, principalmente de Neymar. Porque a tensão induz a agir instintivamente. Por 45 minutos, todo o jogo coletivo trabalhado ficou na Granja Comary. Por causa do desespero.

Recuperação na segunda etapa com Luan e Rafinha no meio e fazendo a bola chegar ao trio ofensivo com mais mobilidade. Com a expulsão do volante Mvala, virou ataque contra defesa. E aí faltou calma a Gabriel Jesus para não jogar na trave um gol feito.

Também duas broncas. Uma nos companheiros por procurar demais o Neymar. Outra no próprio camisa dez por tentar sempre um toque ou drible a mais. Sim, foi o brasileiro que mais pegou na bola e finalizou. Mesmo sem ritmo de jogo depois das férias, exagerou no individualismo. Quando soltou rápido serviu Gabriel em outra boa chance.

O gol para salvar a estreia não saiu. Então as vaias e um discurso apocalíptico já ecoam. Contra o Iraque, obrigação de golear. Do cenário atual, sai a euforia e entra ainda mais pressão. Em casa, a chance de jogar ao natural é nenhuma. Só atrapalha.

Os garotos e o técnico novato que se acostumem. É sempre assim.