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Roger é aposta no Palmeiras. No Brasil todos são, até Guardiola seria
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André Rocha

O Palmeiras sondou Abel Braga, pensou em Jair Ventura como terceira opção. Mas fechou com Roger Machado. Três perfis completamente diferentes. O experiente, bom gestor de vestiário que acredita num time ofensivo mesmo correndo riscos; o jovem que fez bom trabalho num cenário de baixo investimento e montando uma equipe reativa que o clube paulista, em tese, não quer; o construtor de times antenado, mas que ainda não demonstrou ter atingido a maturidade ou não teve o tempo necessário para desenvolver um trabalho longo e consistente.

O presidente Mauricio Galiotte diz que não tem chance de errar em 2018, já que este ano trabalhou numa ideia de Palmeiras com Eduardo Baptista, inclusive em contratações, e já em maio trouxe o campeão brasileiro Cuca de volta com uma proposta de futebol totalmente diferente. Termina com o interino Alberto Valentim, que ainda precisa definir um caminha a seguir.

Mas é difícil acreditar em algum raciocínio além da escolha da “grife” ou do pensamento mágico de que se deu certo em um clube consequentemente será ainda mais bem sucedido em outro com maior capacidade de investimento. É assim que dirigente pensa futebol no Brasil. Exatamente porque a grande maioria não entende.

Por isso o absurdo de dispensar treinador por má campanha em estadual. Porque o resultado é o norte. Simples assim. Quer algo mais sem nexo do que esperar uma derrota para dispensar o profissional no qual não se confia mais?O futebol permite vencer trabalhando mal e perder mesmo num caminho promissor. O desempenho é possível controlar, o resultado não. Há o adversário, a arbitragem, o imponderável, a falha individual que compromete a boa atuação coletiva. O óbvio que parece esquecido.

Todo treinador é aposta no Brasil. Qualquer um. Até Guardiola seria. Porque quem assina o cheque não sabe exatamente o que quer. Ou melhor, sabe. Quer todos os títulos no final do ano. Legítimo. O problema é desconsiderar o caminho. Qual o estilo que pretendo? Os jogadores do elenco se encaixam melhor em qual filosofia? O meu clube tem uma identidade?

Quem pensou antes ou descobriu meio ao acaso tem conseguido transformar desempenho em resultado. O Corinthians campeão brasileiro mais uma vez com uma linha desde Mano Menezes em 2008 chegando ao auge com Tite, mesmo com hiatos nas passagens de Adilson Baptista, Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira.

O Grêmio com uma proposta gestada no clube e desenvolvida por Roger Machado em 2015. No campo e na estrutura do pensar futebol, com o investimento na análise de desempenho. No ano seguinte, o desgaste na gestão de vestiário, um problema crônico da defesa nas jogadas aéreas com bola parada.

Chegou Renato Gaúcho, mais vivido e ídolo maior dos gremistas. Inteligente, manteve a ideia de futebol, ajustou, trouxe os jogadores para perto e está a um empate do título da Libertadores após a conquista da Copa do Brasil no ano passado. Jogando o melhor futebol do país. Um construiu, o outro fez o polimento e aparou as arestas. Méritos de ambos.

O Palmeiras precisa construir. Difícil fazer qualquer previsão porque o treinador foi contratado antes do fim da temporada exatamente para ajudar na montagem do elenco, contratações e dispensas. Quanto à ideia de modelo de jogo, o próprio Roger pode ter refletido, estudado e alterado um ou outro ponto. Mudar para aprimorar.

A incoerência é planejar a temporada e correr risco de demissão em dois meses. Porque o conselheiro quer dar pitaco, o empresário do jogador exige a titularidade, o atacante famoso contratado pela “oportunidade de mercado” não tem as características que combinam com as dos companheiros. Mas tem que jogar, senão vira crise.

E é neste momento que a imprensa merece um parágrafo, ou alguns, em especial. A histeria, o pensamento imediatista e, principalmente, a ignorância sobre os processos no futebol constroem uma massa crítica que destrói qualquer trabalho.

Porque crise dá audiência. Mudança de treinador também. Surgem as especulações, os lobbies, a busca do furo da contratação. A troca é mais notícia que a manutenção e o trabalho paciente, contínuo, de constante aprimoramento. O torcedor se interessa, liga a TV, o rádio, clica nas notícias na internet. Faz a roda da mídia girar. E dane-se se trava as do clube.

Há os decanos que defendem os técnicos amigos de longa data, que atendem o telefone diretamente sem precisar passar por assessoria de imprensa. Assim como existem os novatos radicais que menosprezam todos os veteranos e defendem o novo sem um critério além do conhecimento dos novos métodos de treinamento e das táticas e estratégias mais atuais, ainda que a aplicação na prática não seja das mais eficientes. O “raiz” e o “catedrático”. O pensamento binário no país do Fla-Flu.

Então temos um ciclo: treinador chega com status de popstar, salvador e cria-se o clima de esperança. A estreia é cercada de enorme expectativa, ainda que com poucos dias de trabalho. Se apenas o impacto da mudança melhora o ambiente e surgem as primeiras vitórias já tem o “dedo” do novo comandante. Quando vem a oscilação natural imediatamente surge no noticiário a sequência macabra: “sinal amarelo ou de alerta”, “balança”, “prestigiado”…demitido.

Não há trabalho que se sustente na espetacularização e na pressa. É óbvio que nem todos têm garantia de qualidade a longo prazo. Ainda mais quando falta convicção desde a contratação. O ideal é avaliar dia a dia dentro de uma projeção de, no mínimo, 12 meses. Desempenho, convivência com os comandados, competência da comissão técnica na solução de problemas. Se algo vai muito mal e impede a evolução esperada, aí sim é momento de trocar.

O parâmetro não pode ser apenas o placar final das partidas. Não é justo porque não há como interferir diretamente. Nem o melhor do mundo. Aliás, é patético que no Brasil se coloque as dificuldades impostas por um sistema ineficiente como critério de avaliação: “quero ver o Guardiola aqui com orçamento limitado, jogo em cima de jogo, gramados ruins e pressão de torcida, imprensa e dirigente”. Por isso ele não vem e talvez nunca virá. Porque o melhor quer as melhores condições. É assim no mundo todo, em qualquer profissão.

Mas por aqui pensam diferente. Ou não pensam, querem apenas vencer. Roger Machado é mais uma incógnita num cenário caótico. Boa sorte, porque vai precisar…

 


Atlético Mineiro 2017 é mais um típico projeto de ilusão fadado ao fracasso
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André Rocha

Foto: André Durão

Rogerio Micale foi demitido depois da derrota por 3 a 1 para o Vitória no Independência. Assumiu em julho com contrato até dezembro. Trabalho que não deu liga, assim como o de seu antecessor Roger Machado. Treinadores de perfis parecidos, que obviamente têm suas cotas de responsabilidade no fraco desempenho em 2017. A começar por terem aceitado o convite para um trabalho com poucas chances de dar certo.

Porque Marcelo Oliveira, com estilo e histórico totalmente distintos, também fracassou no ano anterior. Colocou na Libertadores via Brasileiro e na final da Copa do Brasil, mas a expectativa com o treinador bicampeão brasileiro com o Cruzeiro e ídolo do clube como jogador era de grandes conquistas.

Nem estudioso com pouca rodagem e, consequentemente, títulos. Nem o veterano com currículo e bom gestor de grupo. Simplesmente por ser um típico projeto fadado ao fracasso.

Já aconteceu tantas vezes e não aprendemos – e aí este que escreve se inclui como analista. Em 1985 o Corinthians torrou a grana da venda de Sócrates para a Fiorentina montando times caros, tirando Serginho Chulapa do Santos e Hugo De León do Grêmio, e nada conseguindo. O Flamengo de Edmundo, Sávio e Romário em 1995 é outro exemplo, assim como o bancado pela falida ISL em 200, que reuniu Alex, Denilson, Edilson, Gamarra e Petkovic.

Há também os bem sucedidos, como os Palmeiras de Luxemburgo e Scolari na Era Parmalat. Mas com uma diferença: o investimento era feito em jogadores talentosos e promissores, mas ainda com “fome” na carreira. Oferecendo boas condições de trabalho.

Estrutura nem é o problema do Galo e sua Cidade. O erro é contratar baseado mais na grife, na esperança do jogador consagrado resgatar o desempenho de seu auge anos atrás. Pior ainda é ganhar o selo de favorito aos títulos que disputa não pelo que os atletas construíram juntos, mas por conta do status de cada jogador em separado.

Não é possível juntar o Leonardo Silva de 2013, o Fabio Santos e o Fred de 2012, o Elias de 2009 e o Robinho de 2004. Estamos em 2017. E outra má notícia: se trouxe tem que botar para jogar. Porque o veterano consagrado não costuma lidar bem com o banco de reservas.

Logo vem os questionamentos: o titular, mais jovem e produtivo, “chupou laranja com quem?” Como tirar do time o “presidente da resenha”, o craque que os mais jovens tinham no videogame? Como descartar quem estaciona o carro mais luxuoso na garagem, recebe visitas de outros craques midiáticos na sede e tem um staff que parece um outro time de futebol?

No Galo, o pecado maior foi reunir Robinho e Fred sem entender que no futebol atual ou você tem um típico centroavante com velocidade e intensidade ao redor para acioná-lo, ou tem o atacante veterano que compensa a falta de mobilidade de outros tempos com inteligência e técnica. Mas vai precisar de alguém na frente com mais dinâmica.

Os dois juntos exigem mais sacrifícios dos demais. E logo atrás há um Elias em fase parecida na carreira, um Cazares e Otero buscando protagonismo no futebol brasileiro. Um Yago querendo espaço. Difícil correr sabendo que na mídia, se o time vencer, serão as principais estrelas a ganhar os holofotes. É humano.

Assim como é natural a expectativa criada. O “agora vai!”, a esperança de que será diferente. Mesmo que as características dentro e fora de campo não combinem. E só pelos nomes se transfira uma responsabilidade de conquistas que, no fundo, é irreal.

Porque em 2017 não dá mais para aceitar a contratação sem avaliação criteriosa. Só pelo nome é enorme risco. Assim como contratar o treinador na tentativa e erro, no “vai que cola”. Não é só questão de sorte. Trabalho e estudo sempre ajudam.

Foi o que faltou ao Atlético. Jogou para a galera. A mesma que agora cobra do presidente Daniel Nepomuceno ao funcionário mais humilde. Ninguém engole mais a transferência de responsabilidades, o “contratei os melhores, se não deu certo não é problema meu”. É problema de todos.

E fica novamente o questionamento deste blog: vale tratar estadual como prioridade em abril e maio e se achar superior ao rival com o título, se em dezembro este pode estar celebrando uma conquista de Copa do Brasil ou a vaga do G-6 que parecia reservada para si mesmo, o “favoritão”?

Os nove pontos de distância em relação ao Botafogo, sexto colocado, e os três de vantagem sobre o São Paulo, 17º, dão a dimensão dos objetivos do Galo, agora sem treinador, até o fim do ano. Depois de ser eliminado da Libertadores pelo Jorge Wilstermann que levou oito do River Plate e da Copa do Brasil pelo Bota de orçamento muito inferior.

Neste cenário é até difícil tratar a Primeira Liga como um título relevante. E ainda há a chance de novo revés como favorito contra o Londrina que está no meio da tabela na Série B. Outro vexame?

Certeza só de que era fiasco anunciado, com o dom de iludir. Mais um. Será que agora aprendemos todos?


Sai Roger, entra Rogério no Galo. Segue o conflito conceitos x resultadismo
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André Rocha

Foto: Bruno Cantini/CAM

Roger Machado foi demitido pela direção do Atlético Mineiro depois de uma derrota para o Bahia por 2 a 0 no Independência em que teve, segundo o Footstats, 66% de posse de bola, finalizou 23 vezes e teve a combinação infeliz de uma noite nada eficiente de seu artilheiro Fred e a atuação fantástica do goleiro adversário, Jean.

Entrega a equipe com o título mineiro, melhor campanha da fase de grupos da Libertadores e ainda vivo na Copa do Brasil, com vantagem para o confronto da volta, fora de casa, diante do Botafogo. Em 43 jogos, foram 23 vitórias, nove empates e 11 derrotas, com 60% de aproveitamento. O argumento mais forte para a dispensa, porém, foi o baixo aproveitamento dentro do Horto no Brasileiro: quatro derrotas em oito partidas. Preocupante pela necessidade de vitória em Belo Horizonte sobre o Jorge Wilstermann para seguir vivo no torneio continental.

Roger chegou ao Atlético credenciado pelo bom trabalho no Grêmio, construído em 2015 e que enfrentou problemas em 2016. Não por acaso, quando a responsabilidade aumentou e o tempo para treinamentos diminuiu. Antes sucedeu Felipão em uma terra arrasada e perspectiva de apenas lutar contra o rebaixamento. Mudou de patamar e ganhou mais competições para disputar.

E então veio o conflito que vai sufocando os novos treinadores que estão substituindo as velhas grifes no mercado: estudam, adquirem os conceitos, mas contam com uma pré-temporada ainda curta (já foi menor), cobrança por resultados desde os estaduais e ficam sem condições de colocar em prática o que encontram como condição de sucesso em qualquer conteúdo sério sobre o jogo – a repetição em treinamentos para que os jogadores assimilem.

Impossível no calendário de jogos a cada três dias. Ninguém treina, nem recupera. E então o treinador contratado por seu conteúdo e suas novas ideias, neste momento da temporada, precisa ser um mero gestor de vestiário e motivador. No máximo um estrategista para montar seu time jogo a jogo em cima das características dos adversários.

Filosofia? Modelo de jogo?  Isso devia ter sido trabalhado lá atrás, no início do ano. Mas lá também era obrigatório vencer. Roger teve a ilusão de que teria paz e respaldo depois de uma conquista em cima do maior rival e de cumprir a obrigação na Libertadores em um torneio fraco. No país do resultadismo combinado com o imediatismo? Sem chance.

É óbvio que o trabalho não pode ser considerado bom. Roger foi mais um, assim como Paulo Autuori e Diego Aguirre, a penar por querer coordenar e alternar os ritmos no “Galo Doido” que a torcida tanto ama. Quer intensidade máxima no Horto para sufocar o adversário. E dane-se se os treinadores que conseguiram aplicar isso viram seu time perder força ao longo da temporada e não saber controlar jogos que pediam outra postura. Está no imaginário popular.

Roger até cedeu, tirando um pouco a bola do chão. Na última partida foram 53 cruzamentos. Dez a menos que na derrota em casa para o Atlético Paranaense. A necessidade de garantir os três pontos exige soluções mais simples. Aquele arroz com ovo frito para matar a fome. O que incomoda é que nunca aparece o momento para buscar algo mais sofisticado. Não há convicção que resista.

Porque no futebol brasileiro ainda vigora a ideia de que o treinador tem que fazer o simples: fechar a casinha e deixar que os talentos decidam na frente. Fabio Carille se impõe no Corinthians seguindo a linha de Tite, com seus toques pessoais. Trabalhando num time base em que a maioria conhece os conceitos e já havia trabalhado com o treinador da seleção brasileira.

O vice-líder do Brasileiro é o Grêmio. De Renato Gaúcho, que chegou com seu carisma de maior ídolo do clube e contou com a ajuda de Valdir Espinoza e de uma comissão técnica qualificada, inclusive no departamento de análise de desempenho, para saber ouvir, fazer o polimento, ajustar o que estava errado e manter o que existia de bom. Exatamente o legado de Roger construído lá atrás.

O que ele não soube fazer em Minas Gerais e perdeu o emprego. Mas automaticamente vira sombra de qualquer treinador pressionado na Série A, embora tenha afirmado que não trabalha no Brasil em 2017.

Foto: Jornal O Tempo

Chega Rogério Micale no Galo. Campeão olímpico com a seleção, mas contestado e dispensado pela CBF por conta do fracasso com a sub-20 que não conseguiu classificação para o Mundial da categoria via Sul-Americano. Primeira experiência no futebol profissional em time de Série A. Perfil parecido com o de Roger, com a desvantagem junto a jogadores e imprensa mineira por não ter sido boleiro. Tem o crédito, porém, de já ter trabalhado nas divisões de base do clube. É homem de confiança de André Figueiredo, superintendente de futebol.

Entra direto na roda viva de jogos decisivos sem tempo para treinamentos. Se for pragmático, resgata a intensidade com marcação alta e um estilo mais vertical – ainda que os veteranos do ataque sejam um obstáculo para qualquer ideia mais agressiva e de jogo físico. Mas vai precisar de resultados. Imediatos, claro.

Pode ser mais um a se perder entre conceitos e as cobranças insanas num calendário sem respiro para quem está envolvido em três competições. Sem treinamentos não há novas ideias, apenas mais do mesmo. Precisando vencer para ontem. Eis o paradoxo dos novos comandantes do futebol brasileiro.


Empate é o retrato do Atlético Mineiro na temporada. Na hora de decolar…
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André Rocha

Roger Machado seguiu o planejamento traçado para o jogo contra o Botafogo no Nílton Santos: deixou Cazares e Fred, desgastados pela viagem a Cochabamba, no banco de reservas. Também Alex Silva, titular na Libertadores, mas permitindo o retorno do titular Marcos Rocha.

No entanto, com a rodada favorável que poderia dar oportunidade de subir da oitava para a quinta posição, com a mesma pontuação do Palmeiras, e a proposta do Botafogo de, mesmo em casa e com a maioria dos titulares, manter a ideia de jogar reagindo à iniciativa do adversário, tomou conta da partida.

Com Elias ao lado de Rafael Carioca à frente da defesa, Yago e Marlone nas pontas e Robinho solto como atacante circulando pelos flancos e se aproximando de Rafael Moura, o Atlético Mineiro teve a chance de definir o jogo no primeiro tempo com o gol de Marlone em chute que desviou em Emerson Silva e no pênalti desperdiçado por Rafael Moura.

Ou defendido por Jefferson, ídolo alvinegro vindo de inatividade de 14 meses substituindo Gatito Fernández. Melhor em campo e protagonista de um Botafogo sem ideias quando ficou em desvantagem no placar. Ficou com a posse de bola, teve Camilo no início do segundo tempo e depois Guilherme na vaga do extenuado Pimpão e Marcos Vinicius no lugar de Lindoso, mantendo a estrutura tática, porém com jogadores mais ofensivos que se aproximavam de Roger.

Mas criou muito pouco. Se limitou ao abafa com lançamentos e cruzamentos a esmo, rebatidos pela defesa atleticana, que ganhou consistência com Adilson no lugar de Yago – Elias voltou para o lado direito – e desafogo com a dupla Cazares e Fred saindo do banco para qualificar os contragolpes. Só que desta vez o equatoriano entrou descansado fechando o setor esquerdo e mantendo Robinho livre na frente.

Exatamente os dois que desperdiçaram contragolpes no final e consagraram o nome de Jefferson. Também deram a sensação de que o Galo havia dado chances demais ao time da casa, que não costuma desistir. No pênalti sobre Marcos Vinicius, Victor ainda fez a defesa na cobrança de Roger, mas nada pôde fazer no rebote que sua retaguarda não conseguiu afastar. Outro vacilo. Nos acréscimos.

Foi a terceira finalização no alvo do Bota em dez tentativas. O Galo chutou seis que fizeram Jefferson brilhar, num total de nove. Claro que houve muitos méritos do arqueiro veterano, ainda mais retornando depois de tanto tempo. Mas é impressionante como o Galo de Roger perde oportunidades de se afirmar na temporada.

Mesmo com título estadual, melhor campanha na fase de grupos da Libertadores e com vantagem para a volta das quartas da Copa do Brasil contra o próprio Botafogo (se repetir o 1 a 1 estará classificado), não desperta confiança no desempenho. É capaz de oscilar dentro das partidas. A combinação técnico promissor + elenco qualificado ainda não conseguiu dar a liga que prometia.

O Atlético podia entrar no G-6 – o Santos venceu o São Paulo na Vila Belmiro e subiu para quarto. Ficou em oitavo com o gosto amargo de dois pontos perdidos pelas circunstâncias da disputa em Engenho de Dentro. Um retrato da equipe em 2017.

(Estatísticas: Footstats)


Palmeiras e Galo: oscilações que minam a confiança longe de casa
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André Rocha

O Atlético Mineiro de Roger Machado encontrou há algum tempo uma estrutura com o quarteto ofensivo formado por Elias, Cazares, Robinho e Fred. Sofre, porém, com os desfalques na retaguarda. Especialmente Marcos Rocha, que nunca foi exímio defensor, mas encontra menos dificuldades que Alex Silva.

Em Cochabamba, o ex-lateral do América-MG penou contra o brasileiro Serginho, depois Ruddy Cardozo. E ainda cometeu um pênalti, desses autorizados pelas novas orientações da FIFA, saltando com o braço aberto e a bola batendo em sua mão.

Uma atuação catastrófica. Pelo seu setor saiu a cobrança de lateral na área, não a usual dos últimos tempos, mas um lançamento para Bergese finalizar e Álvarez acertar de bicicleta no rebote do corte de Gabriel sobre a linha.

O 4-2-3-1 atleticano que está se tornando comum no futebol brasileiro, com um meio-campista (Elias) de um lado e um atacante (Robinho) do outro, consegue ter fluência na frente quando chega em bloco.

Mas na altitude de 2600 metros na Bolívia ficou mais complicado e muitas vezes se viu Elias mais preso para não ter que infiltrar na frente e Robinho nem sempre voltando e ficando na frente com Cazares e Fred, que também produziram pouco.

Foram 13 finalizações, uma a mais que o time da casa. Incluindo a cabeçada na trave de Rafael Moura, que entrou na vaga de Fred. Mas apenas uma na direção da meta de Olivares. O Galo deve ser mais eficiente em Belo Horizonte, ainda mais se forçar as jogada aéreas, ponto fraco dos bolivianos.

Deixou, no entanto, uma impressão de que um pouco mais de confiança, mesmo diante de um time que é reconhecidamente forte em seus domínios, com vitórias sobre Palmeiras, Tucumán e Peñarol, poderia ter rendido ao menos um ponto e serenidade para a volta.

Porque, apesar da melhor campanha geral na fase de grupos, este Atlético de Roger oscila demais. Não apresenta consistência para se impor independentemente do contexto, mesmo com a recuperação no Brasileiro, subindo seis posições com a vitória por 3 a 1 sobre o Cruzeiro no clássico e voltando à primeira página da tabela. Sem contar a vantagem construída em casa sobre o Botafogo nas quartas de final da Copa do Brasil.

Mesmo caso do Palmeiras, quarto colocado na competição nacional, ainda vivo na Copa do Brasil. Mas inconstante a ponto de cumprir boa atuação na primeira etapa em Guayaquil. Mesmo sem Guerra, que voltou ao Brasil para cuidar do filho hospitalizado por afogamento. A transição ofensiva ganhava qualidade com Dudu e encontrava Willian para finalizar. Como na melhor oportunidade dos primeiros 45 minutos em chute cruzado.

Cuca trocou Zé Roberto, escalado no meio-campo para Juninho cumprir a função de lateral-zagueiro pela esquerda tão prezada por Cuca, por Roger Guedes. Michel Bastos e Keno entraram nas vagas de Dudu e Borja. Ou seja, trocas em todo o ataque. Para se defender mais que o recomendável, permitindo que o time equatoriano rondasse a área, terminando a partida com 56% de posse.

Até achar o gol de Jonatan Alvez no chute que desviou em Thiago Santos, o volante “cão de guarda” que virou titular. Na oitava e última finalização do time mandante, o dobro do campeão brasileiro – três no alvo para cada lado.

A questão é que o jogo alviverde não flui, nem tem ao menos a capacidade competitiva do ano passado, apesar dos 24 desarmes certos contra apenas nove do Barcelona. E o contexto para o duelo final em São Paulo poderia ser pior, caso o árbitro houvesse marcado pênalti no toque de braço de Mina.

O que é preocupante para a volta no Allianz Parque é que, ao contrário do Jorge Wilstermann, o Barcelona mostrou força como visitante na fase de grupos. Inclusive vencendo o líder Botafogo no Estádio Nilton Santos. Exatamente quando o alvinegro tentou mudar sua maneira de jogar e saiu para propor o jogo. Acabou surpreendido como o Palmeiras não tem o direito de repetir por sua capacidade de investimento. Sair nas oitavas do torneio continental seria um fracasso para repensar tudo.

É possível virar no modo “Porco Doido” empurrado pela torcida pode fazer em 90 minutos o que alcançou em vinte ao buscar três gols  e o empate contra o Cruzeiro. Mas há o risco exatamente por Cuca ainda não ter construído uma equipe confiável. Intensa e constante. Sem Gabriel Jesus, Moisés, Vitor Hugo e tempo para treinar e ajustar o elenco muito heterogêneo fica bem mais complicado.

A missão é acessível para Palmeiras e Galo, apesar do calendário massacrante. Até agosto é obrigatório oscilar menos para que as equipes cheguem mais inteiras nos jogos que, no pior cenário, podem custar a temporada.

(Estatísticas: Footstats)


Grêmio de Renato sofre com o pior da Era Roger, mas vence no modo “copero”
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André Rocha

O Grêmio sentiu os desfalques em sua arena. Edilson finaliza melhor e é forte na bola parada, mas não chega tanto à linha de fundo quanto Léo Moura – fundamental para aproveitar o espaço deixado por Ramiro quando vem para o centro.

Já a opção de Renato Portaluppi para a vaga do lesionado Lucas Barrios foi um tanto controversa. Abriu mão do centroavante mais típico, manteve Everton, autor de três gols em Chapecó, no banco e adiantou Arthur para a meia central, Luan voltou a ser “falso nove” e Maicon entrou no meio-campo.

O resultado prático foi um Grêmio rodando a bola, mas sem opções de infiltração além das diagonais de Pedro Rocha, que teve a melhor oportunidade tentando encobrir o goleiro Jean. Mas na maior parte do tempo a posse foi estéril. A pior faceta da Era Roger.

A escolha, inclusive, corrobora a tese de que o trabalho mantém uma linha mestra de conceitos e ideias, com algumas adaptações e reparos do treinador carismático e experiente. Quando não teve Barrios e Bolaños, Renato voltou à configuração típica do seu antecessor, com Arthur fazendo a função que era de Douglas. Desta vez não deu tão certo.

Também pela maior concentração do adversário, efeito colateral do grande futebol apresentado pela equipe gaúcha. As duas linhas de quatro compactas do Bahia de Jorginho negavam espaços, dificultavam as tabelas e triangulações. Mas a equipe visitante também ameaçava pouco, isolando Edigar Junio. Com alguns momentos de aceleração e habilidade com Zé Rafael e Allione pelos flancos.

Melhorou um pouco para o mandante e favorito no segundo tempo com Everton, Fernandinho e Lincoln. Passou a rondar a área em uma zona mais perigosa e chegou a 16 finalizações, contra apenas seis do Bahia. Diminuiu um pouco a posse, de 66% para 61% definindo mais rapidamente as jogadas. Mais Renato Gaúcho.

O gol da vitória veio no melhor estilo “copero y peleador” tão prezado pelos gremistas. Quarenta minutos do segundo tempo. Cobrança de escanteio, desvio e toque de Cortez, que virou titular com a lesão de Marcelo Oliveira. Ala de outros tempos que hoje cumpre função de lateral, primeiro sendo um defensor. Mas apareceu na área para ajudar sua equipe a arrancar três pontos.

A forceps. À la Grêmio. Para alcançar a vice-liderança e já ensaiar uma polarização na disputa da ponta da tabela com o Corinthians. Quem sabe até o dia 25, quando as equipes se encontram também em Porto Alegre?

(Estatísticas: Foostats)

 

 


O toque de midas de Renato Gaúcho no Grêmio
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André Rocha

Everton substituiu o lesionado Lucas Barrios aos 14 minutos da segunda etapa na Arena Condá. Aos 15 marcou o terceiro gol, no minuto seguinte o quarto e, depois do gol de pênalti de Reinaldo, transformou em goleada um jogo duríssimo até então, definido em bola parada e falhas dos goleiros Jandrei e Marcelo Grohe, aproveitadas por Michel (um golaço!) e Luiz Antonio.

Mais gols de Arthur Caike e Luan para fechar os 6 a 3. O Grêmio chega aos 12 pontos, supera a Chape e está atrás do Corinthians na tabela da Série A. Mas os titulares alcançam 100% de aproveitamento. Os reservas até abriram 2 a 0 sobre o Sport em Recife, mas acabaram sofrendo a virada. A intenção era guardar energias para a volta da Copa do Brasil no Maracanã contra o Fluminense. Nem foi preciso, no primeiro tempo o confronto já estava definido.

Porque Renato Gaúcho parece estar vivendo uma fase de Rei Midas, depois da frustração no Gauchão – o treinador chegou a poupar titulares na Libertadores para priorizar o torneio estadual, mas sequer chegou à decisão. Com tempo para treinar, preparou a equipe resgatando virtudes da arrancada que chegou ao título da Copa do Brasil.

Segue a impressão de que o encaixe do estilo do maior ídolo do clube ao trabalho que Roger Machado deixou foi perfeito. Ficaram os conceitos, o trabalho coletivo, o jogo entre linhas de Luan, o gosto pela troca de passes. Chegou o que faltava: gestão de vestiário, eficiência nas bolas paradas ofensivas e defensivas e mais efetividade no ataque.

O resultado é o melhor futebol praticado no país nos últimos 30 dias. Com Leonardo Moura e Cortez, típicos alas, fazendo o trabalho como laterais, primeiro defendendo e depois atacando. Achando em Michel e Arthur os volantes que compensam as ausências de Walace e Maicon e por vezes até superam em desempenho a dupla do ano passado.

Tem Ramiro como chave tática como um volante aberto pela direita que auxilia Michel e Arthur, abre espaço para Léo Moura e os deslocamentos de Barrios e Luan às costas do lateral esquerdo adversário. Na esquerda, Pedro Rocha voando, infiltrando em diagonal.

Um jogo fluido, bonito de ver, que acelera e cadencia conforme a necessidade. Time inteligente, que encontra soluções de acordo com o que o jogo exige. Ataque mais positivo do Brasileirão, com média de três gols por rodada.

Mérito de Renato, que mantém o discurso boleiro e fanfarrão. Mas em campo há um jogo pensado, que não é construído em coletivos e rachões, na base da intuição. E aí entram a comissão técnica, o setor de inteligência e análise de desempenho. Trabalho em equipe.

Sim, são cinco rodadas. O Grêmio tem Libertadores e Copa do Brasil para desgastar física e mentalmente na sequência da temporada. Mas hoje o que Renato Portaluppi toca vira ouro. Como a entrada de Everton em Chapecó.


Eles não podem errar! A dura transição do mercado de treinadores no Brasil
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André Rocha

Quando Zé Ricardo chamou Matheus Sávio para dar instruções enquanto a torcida do Flamengo no Serra Dourada pedia a entrada da joia Vinícius Júnior, o treinador sabia que corria riscos por suas convicções.

Afinal, se o time fosse eliminado da Copa do Brasil, independentemente do rendimento do jovem atacante, que entrou muito mal contra o San Lorenzo na traumática derrota na Libertadores, as chances de ser demitido cresceriam exponencialmente.

Mas Sávio, assim como contra o Atlético Mineiro no Maracanã, na estreia do Campeonato Brasileiro, colocou um cruzamento no fundo das redes do goleiro Felipe do Atlético-GO. O choro copioso do jogador foi sintomático. É muita pressão para quem ainda está no início de sua trajetória entre os profissionais.

O mesmo vale para os treinadores. No país do futebol de resultados, o comandante passa de “boa novidade” e “atualizado” para “estagiário” e “rolando lero” a cada semana. Mesmo que a sua equipe esteja organizada e o placar adverso tenha vindo por uma infelicidade na defesa ou chances perdidas na frente.

Ou até se eles se equivocarem, algo absolutamente natural. No mais imprevisível e caótico dos esportes, o que foi treinado baseado em observação e análise pode dar errado por uma noite ruim do atleta e aquela mudança aleatória, mais por conta da intuição, pode terminar em vitória. Para quem tem bagagem já é um desafio, imagine para novatos.

Eles simplesmente não podem errar. Seja Zé Ricardo, Roger Machado, Eduardo Baptista…Mesmo Jair Ventura, com enorme crédito no Botafogo, quando tentou mudar a maneira de jogar contra o Barcelona de Guayaquil no Estádio Nilton Santos e saiu derrotado as críticas vieram pesadas.

A transição no mercado de treinadores é dura. Depois dos 7 a 1 que mandaram Luiz Felipe Scolari para a China e da queda em desempenho e resultados de grifes como Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho e até Marcelo Oliveira, apesar dos títulos com Cruzeiro e Palmeiras, um buraco foi aberto para uma leva de profissionais com conceitos atualizados, vendo e pensando o futebol como é jogado nos grandes centros.

Um jogo mais coletivo e que trabalha com informações e gestão na comissão técnica. Menos com carisma e discursos motivacionais. Quando o resultado acontece, tudo isso é louvado. Se não, bate a saudade dos velhos nomes e de fórmulas antigas. Como se o que deu certo na década passada necessariamente dará em 2017.

O cenário é complexo. Dá para contar nos dedos de uma das mãos os treinadores do país que conseguem unir vivência como ex-jogador, conteúdo atual, sensibilidade na gestão de grupo e da comissão técnica. Ou seja, no auge da carreira. O melhor deles está na CBF.

Por conta de todas as dificuldades citadas, as experiências com estrangeiros não foram felizes – vide Diego Aguirre, Ricardo Gareca, Edgardo Bauza, Juan Carlos Osorio, entre outros. Quando estão começando a aprender o idioma para se comunicar já estão passando no RH e voltando para casa.

Simplesmente não há paciência, porque falta convicção para acreditar num projeto de longo prazo. Roger Machado e Zé Ricardo acharam que teriam um pouco mais de paz e respaldo para trabalhar por conta de conquistas nos estaduais. Mas basta uma sequência de resultados ruins e tudo é esquecido.

Ainda mais em clubes dos quais se espera muito. Pela capacidade de investimento e ilusão alimentada por departamentos de marketing e também por nós da imprensa, o torcedor passa a crer que seu time de coração conta com um elenco estelar e que basta o treinador distribuir certo as camisas e não atrapalhar para tudo acontecer.

Não é assim que funciona. Estar atualizado nas ideias e métodos ajuda a não ser surpreendido, a minimizar a aleatoriedade do jogo. Mas não garante nada. Muito menos onde não se valoriza filosofia e identidade, só o placar final e a conquista que vão gerar memes e zoações. Até tudo ser esquecido no próximo jogo.

Por ora, Dorival Júnior é o sobrevivente na Série A, comandando o Santos desde julho de 2015. Já Ney Franco foi demitido do Sport depois de perder a Copa do Nordeste para o Bahia com menos de dois meses de trabalho. Treinadores com rodagem de mais de uma década. Paulo Autuori, com mais de quarenta anos à beira do campo, cansou. “A rotina consome”, explicou. Vai ser gestor no Atlético-PR e abre espaço para Eduardo Baptista.

Paciência não significa ser permissivo e deixar de cobrar o desempenho que chega ao resultado. Os profissionais são bem remunerados para isso. O ponto nevrálgico é o imediatismo, a incapacidade de observar um lastro de evolução, vislumbrar um futuro melhor. Tudo ainda se resume à tentativa e erro. Até acertar. Para ontem.

Enquanto isso, segue a roda vida, a máquina de moer técnicos. Zé Ricardo escapou no gol de Matheus Sávio. Quem será o próximo?


Carille, Zé Ricardo, Roger, Beto Campos: o legado de Tite nos estaduais
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André Rocha

Objetivamente, nenhum dos quatro treinadores que conquistaram os títulos estaduais em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul utilizou o 4-1-4-1 que virou o desenho tático “de cabeceira” de Tite no Corinthians campeão brasileiro de 2015 e agora na seleção brasileira.

Mas as ideias de Adenor Leonardo Bacchi estão lá. As mais marcantes: última linha de defesa posicional no Corinthians de Fabio Carille, ex-auxiliar de Tite. O jogo apoiado, baseado em triangulações pelos lados do campo, mesmo sem tantas incursões por dentro dos ponteiros, no Flamengo de Zé Ricardo, outro que sempre cita o técnico 100% com a seleção brasileira como inspiração.

No Atlético Mineiro de Roger, a capacidade de se adaptar às circunstâncias, propondo ou sendo mais reativo, encaixando um terceiro volante para liberar Elias e tentando dar pausas ao “Galo Doido”. Por fim, um Beto Campos no supreendente Novo Hamburgo que sempre cita o técnico da seleção como referência e faz sua equipe se defender bem, mas também não abdicar do jogo.

Nos quatro discursos, sempre a palavra “mágica”: desempenho. E outra quase tão importante: concentração. Entrar focado nos movimentos coletivos para o time não se espaçar. Força mental para se adequar às dificuldades e ao contexto dos jogos. Ter sempre um norte: jogar bem sempre será o melhor caminho para conseguir vitórias e títulos.

Com méritos, sem atalhos ou subterfúgios, jogando ao natural. Equilibrando ataque e defesa. Entregando mais que só o resultado. Falando do jogo em si, transmitindo conceitos, abertos ao novo. Cada um à sua maneira.

É inspirador ver os pilares de Tite se espalhando entre os treinadores no futebol brasileiro. Nos quatro principais estaduais, o legado do melhor do país terminou em taças.


O que é de Roger, o que é de Renato. O que não é de Marcelo Oliveira
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André Rocha

Era difícil acreditar na redenção de Renato Gaúcho em um trabalho de três meses. Sem estudo e maiores atualizações para comandar uma equipe trabalhada por Roger Machado em conceitos modernos.

O futebol é espetacular porque não tem verdades absolutas. Foi exatamente na combinação do que o antecessor deixou com o polimento do olhar mais vivido do maior ídolo da história do clube que o Grêmio se arrumou para buscar o título nacional que não vinha há quinze anos.

De Roger, os movimentos já memorizados de apoio ao jogador com a bola, criação de linhas de passe, profundidade, abrir o jogo para espaçar a marcação adversária. De Renato, a gestão de grupo, o carisma que mobiliza, o ajuste defensivo com soluções mais simples, embora se note a compactação dos melhores momentos da campanha surpreendente no ano passado. As correções nas jogadas aéreas. O que era preciso.

Por isso não é justo tirar méritos do atual treinador, mas seria cruel não lembrar da semente plantada por Roger. O resultado prático é um time bem coordenado, com Walace e Maicon qualificando a saída e negando espaços à frente da defesa. Volantes passadores e eficientes.

As linhas de quatro sem a bola deixando Douglas e Luan participando sem a bola mais na pressão sobre os defensores. Ramiro é muito mais um volante que atua aberto e ajuda Edilson a bloquear pelo setor direito e deixou o time um pouco mais equilibrado, sem esvaziar o meio-campo. Já Pedro Rocha é o ponta agudo na transição ofensiva, partindo em diagonal a partir da esquerda para finalizar.

O ponteiro foi o personagem dos 3 a 1 sobre o Atlético no Mineirão que encaminha a conquista tão esperada. Dois gols aproveitando a bagunça defensiva do oponente, uma chance cristalina perdida à frente de Victor e a tola expulsão que trouxe o Galo de volta ao jogo na segunda etapa.

Porque só o acaso, os eventos aleatórios que tornam o futebol tão previsível e apaixonante poderiam recolocar a equipe de Marcelo Oliveira na disputa. O treinador vencedor, bom gestor de grupo, que incentiva o talento e a improvisação de seus jogadores. Mas que não consegue organizar minimamente um sistema defensivo nem fazer seu time controlar o jogo.

Não é raro ver o Galo se defendendo com apenas seis jogadores, setores distantes, sem pressão, com erros graves de posicionamento. Capaz de levar numa decisão de torneio nacional um gol de fim de pelada, o segundo de Pedro Rocha arrancando sozinho e com incrível facilidade.

Aí não há garra de Leandro Donizete, talento de Robinho, presença de área de Pratto, o apoio de Júnior Urso e defesas de Victor que resolvam sempre. Nem o belo gol do zagueiro Gabriel que alimentou uma esperança de novo “milagre”. É claro que Luan, Otero e Fred fizeram falta, mas a facilidade com que o Grêmio atuou, especialmente no primeiro tempo, é inviável no futebol atual. Ainda mais numa final.

O terceiro gol, num contragolpe no final do jogo em bela jogada do ótimo Geromel que encontrou Everton livre é aceitável pelo contexto. Ainda que o time mineiro contasse com um homem a mais. Mas para a volta na Arena do Grêmio parece a pá de cal. Só não dá para garantir a quinta Copa do Brasil do tricolor gaúcho porque isso é futebol.

Até a capacidade de reação do Galo nas conquistas recentes precisa ser relativizada, porque as viradas sempre aconteceram em Belo Horizonte. Como visitante fica quase impossível. Também por conta do que faltou taticamente à equipe de Marcelo Oliveira.

Sobrou o Grêmio. De Renato e de Roger. Moderno e com alma. Com jeito de campeão.