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Felipe Melo, o “gatilho” para os clichês de Libertadores. Menos um
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André Rocha

“É jogo de Libertadores!”

Eis o pai de todos os clichês do maior torneio da América do Sul. Uma espécie de senha ou licença para todo tipo de recurso para vencer. Mesmo a barbárie dentro e fora das quatro linhas. Vale quase tudo, porque ao contrário de tempos remotos hoje existe as muitas câmeras de TV para registrar as situações mais absurdas.

O ápice do “futebol testosterona”. O jogo pra macho! O templo da virilidade. Pancadaria, ligação direta, lateral na área, torcida hostil, pressão na arbitragem…Vence o mais forte, o mais raçudo ou o mais esperto e não o melhor. É o não-jogar. Posse de bola, conceitos, jogo coletivo e mais pensado que sentido? Tudo frescura…

No Allianz Parque, outros clichês que são derivados do primeiro se fizeram presentes. “Se o resultado é favorável faz catimba!” O Palmeiras de Luiz Felipe Scolari, com vantagem de dois gols fora de casa e um homem a menos, trocou apenas 140 passes. Poderia ter gastado o tempo ficando com a bola e envolvendo um Cerro Porteño frágil tecnicamente e envelhecido. Preferiu “congelar” o jogo ganhando cada segundo possível. No final, só sofreu um gol, o primeiro sob o comando de Felipão, e se classificou. Mesmo correndo mais riscos que o recomendável.

Mas para que jogar se “é guerra”? Melhor dizer no final que foram mais experientes e malandros, não melhores. É um mundo paralelo que envolve torcida, dirigentes, boa parte da imprensa…como discutir? Ainda mais com Felipão, que chegou ao Palmeiras para entregar resultado. Cru. A exigência por um jogo mais agradável ao olhos se foi com Roger Machado. Sai a estética, fica o pragmatismo puro.

“Felipe Melo é isso!” De fato, o Palmeiras sabia quem estava contratando e isto ficou claro desde a coletiva de apresentação. Tudo pode acontecer. Tanto um bom desempenho do volante inteligente, de senso coletivo, posicionamento correto e passe preciso quanto o ocorrido aos três minutos de jogo.

Porque o árbitro argentino Germán Delfino não seguiu o clichê “juiz não expulsa na primeira pancada”. A entrada de Felipe Melo em Vítor Cáceres era mesmo passível de vermelho direto. Talvez outro não tivesse coragem para expulsar um atleta do time da casa tão cedo. Mas certamente o volante pagou pelos antecedentes. Faz parte do jogo.

Assim como é do repertório de todas as torcidas o “se não for sofrido perde a graça”. Um jogo de volta que parecia protocolar para garantir a vaga nas quartas de final se transformou numa batalha épica. No final, todos saíram vibrando e até criou-se um clima de “contra tudo e contra todos” por conta da arbitragem. Nada mais emblemático.

Felipe Melo foi o “gatilho” de um combo de clichês de Libertadores. Mas quem se importa? O Palmeiras segue vivo. E “os anti pira”.


Paulo Turra, auxiliar do Palmeiras: “Mourinho aprendeu muito com Felipão”
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André Rocha

A volta de Luiz Felipe Scolari ao Palmeiras após seis anos foi anunciada no dia 26 de julho. mas no dia seguinte chegavam ao clube os auxiliares Paulo Turra e Carlos Pracidelli. Na segunda-feira o primeiro treino e, em seguida, Turra à beira do campo no empate sem gols com o Bahia em Salvador pela Copa do Brasil, competição importante para o clube na temporada. Só depois Felipão chegou de Portugal e fez sua reestreia no o a 0 contra o América pelo Brasileiro.

Cronologia que mostra a relação de sintonia entre o ex-zagueiro, inclusive do Palmeiras, e o chefe Felipão. Sem Flávio Murtosa, que alegou problemas particulares, é Turra, aos 44 anos, quem aplica os treinos ao lado de Pracidelli. Antes, no Guangzhou Evergrande, trabalhava apenas na elaboração. Em entrevista exclusiva ao blog, Paulo Turra descreve a dinâmica de trabalho no novo clube e defende Scolari das críticas mais contundentes nos últimos tempos: o 7 a 1 e uma visão de futebol ultrapassada.

BLOG – O trabalho mais bem sucedido nos últimos dois anos no Brasil é o de Renato Gaúcho no Grêmio. O auxiliar, Alexandre Mendes, cuida da metodologia de treinamentos e do desenvolvimento do modelo de jogo e Renato fica com a decisão final, a parte mais estratégica e de gestão de grupo. A ideia da sua parceria com Felipão e o auxílio do Pracidelli é parecida?

PAULO TURRA – Em linhas gerais, sim. Antes eu cuidava da elaboração e Murtosa da aplicação dos treinamentos. Também observava os adversários, junto com o Pracidelli. Mas o trabalho está todo interligado. Nós também colaboramos, dentro da hierarquia, com a gestão do grupo. Conversamos individualmente, mas também em grupos, como os jogadores de um setor. Podemos também explicar como joga o próximo adversário.

BLOG – Vocês já utilizam o WhatsApp ou outro recurso para disponibilizar material diretamente no celular do atleta?

PAULO TURRA – Ainda não, embora o Felipão esteja pensando em fazer algo neste sentido. Por enquanto conversamos individualmente, mas contando com o auxílio dos profissionais da Análise de Desempenho. Só para dar um exemplo, vamos conversar com três ou quatro jogadores sobre algumas dificuldades que encontramos no jogo contra o Bahia aqui em São Paulo. Mas também tem o outro lado: Lucas Lima evoluiu muito nas infiltrações por trás da defesa neste último jogo, contra o Vitória. Ele costuma voltar para buscar a bola nos pés dos volantes, até dos zagueiros, pisou muito mais na área adversária e ali ele é mais letal e pode nos ajudar.

BLOG – Como é a dinâmica dos treinamentos?

PAULO TURRA – Chegamos aqui com bastante antecedência para prepararmos tudo. A ideia é trabalhar 50% na assimilação do modelo de jogo e os outros 50% com ajustes de acordo com o adversário. Também evitamos o campo reduzido em todas as práticas, usando muitas vezes a largura total do campo para que tenhamos algo mais próximo da realidade da partida, especialmente nas inversões de jogo. O primeiro gol contra o Vitória, por exemplo, saiu de uma jogada treinada. Passamos informações concretas para que sejam assimiladas com mais facilidade e, principalmente, trabalhamos muito o lado mental do atleta. Pedimos para que mentalizem bem o que praticaram nos treinos e precisam fazer nos jogos.

BLOG – Que legado vocês receberam do trabalho do antecessor, Roger Machado?

PAULO TURRA – O Palmeiras é um clube muito bem estruturado. Na Análise de Desempenho temos o Gustavo e o Rafael, profissionais competentes que em três ou quatro reuniões entenderam rapidamente o que pretendemos. Quanto ao legado do Roger, eu posso dizer que foi uma espécie de “troca de favores” porque tenho certeza que quando ele assumiu o Grêmio em 2015 recebeu um trabalho pronto e bem feito do Felipão, inclusive em termos de estrutura do Centro de Treinamentos. Aprendeu e deu sequência. No futebol não existe certo ou errado, mas ideias complementares. Quem é inteligente pega o melhor de cada treinador.

BLOG – É óbvio que para convidá-lo para ser seu auxiliar, certamente Felipão tem ideias sobre futebol parecidas com as suas. Mas o quanto elas são semelhantes ou alinhadas?

PAULO TURRA – São bem próximas, de fato. Mas quando há divergência falamos normalmente. Todo mundo tem algo a aprender e Felipão me dá liberdade para discordar quando achar que devo. Com o devido respeito, pois é um profissional vencedor e que está na história do futebol. Mas minhas equipes (treinou times como Brusque, Avaí e Cianorte) também tinham um volante e um atacante de referência, como são Felipe Melo e Borja ou Deyverson. Outros detalhes também, como o lateral do lado oposto ao que está atacando fechando como terceiro zagueiro. Conhecia como amigo do futebol, já tínhamos ideias parecidas e desde que começamos a trabalhar juntos na China essa sintonia aumentou.

BLOG – Tanto que ele recentemente não aceitou que você retornasse a China como treinador, correto?

PAULO TURRA – Exatamente. A proposta nem chegou a mim. Felipão recebeu por e-mail, negou e depois me contou, sem nem dizer qual era o nome do clube chinês. Mas eu não sairia mesmo. Estou feliz no Palmeiras e sei que ele precisa de mim, ainda mais sem o Murtosa. Seria uma ingratidão. Quero seguir no Brasil, onde para mim é um dos lugares em que o futebol é melhor jogado.

BLOG – Você observa jogos e relata para o Felipão. No episódio do 7 a 1 na Copa do Mundo de 2014, os observadores Roque Júnior e Alexandre Gallo relataram sobre a força da Alemanha no meio-campo e a capacidade de preencher espaços no campo de ataque e Felipão descartou preencher o meio-campo e apenas trocou Neymar por Bernard. A decisão foi do Felipão, que muitas vezes se guia pela intuição – e também já venceu muito desta forma, diga-se. Como funciona com você?

PAULO TURRA – Ele ouve muito, mas é quem decide por ser o chefe. Honestamente nunca vi uma decisão dele por intuição. Pelo contrário, considero o Felipão muito atualizado, antenado. Não tem nada de ultrapassado. E a meu ver a derrota para a Alemanha não aconteceu por causa da entrada do Bernard. Foi uma conjunção de fatores.

BLOG – Você sempre que pode cita José Mourinho como uma referência de treinador. Que outros profissionais você e também o Felipão consideram como influentes na maneira atual de trabalhar no futebol?

PAULO TURRA – Para mim o Mourinho, sem dúvida, é uma referência. Mas com Felipão creio que seja o contrário. O Mourinho é um grande admirador dele. Aprendeu muito com ele quando treinava o Porto e Felipão estava em Portugal trabalhando na seleção, já como campeão do mundo pelo Brasil. Basta ver suas equipes, com os atacantes como os primeiros defensores, pressionando muito os adversários. Adota também a prática de forçar o adversário a jogar pelo lado e dali não sair mais. Lembra quem era o volante do Porto? Costinha, que depois Felipe levou para a seleção. Sempre um atacante de referência, dois jogadores velozes pelos lados. São visões de futebol muito próximas, inclusive na gestão de grupo.

BLOG – Mas que outro treinador você poderia citar como alguém fazendo um bom trabalho capaz de agregar coisas ao que vocês fazem?

PAULO TURRA – São vários, difícil citar. Mas nunca vi o Felipão criticar o trabalho de um treinador, seja lá quem for. Já vi, sim, elogiando. Como fez com o Marcelo Caranhato, do Cianorte, quando eu o apresentei. Mas Simeone seria um deles, pela capacidade de armar seu time de forma compacta. Também Fabio Capello pela experiência, o André Villas-Boas, entre outros.

BLOG – O Palmeiras tem usado um time mais “alternativo” no Brasileiro e outro aparentemente mais completo, perto do que o Felipão considera o titular, nos torneios de mata-mata. Será essa a tônica até o final da temporada?

PAULO TURRA – Pensamos jogo a jogo. O grupo é bom, a maioria já conhecíamos de acompanhar jogos no Brasil. Eles absorveram as ideias muito rapidamente. O que fazemos é pensar na melhor formação possível considerando todos os aspectos, especialmente as informações do Departamento Médico e de Fisiologia. Se tiver um maior risco de lesão a gente segura. Queremos todos o mais próximo possível dos 100% fisicamente para poder manter o bom rendimento que estamos conseguindo neste início de trabalho. Não há prioridade, vamos brigar nas três frentes da melhor maneira possível.

 


Já é hora de aceitar nossa alma copeira, caótica e amadora no futebol
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André Rocha

Você já foi voto vencido em decisão importante dentro da família, em reunião no trabalho ou de condomínio? Sempre vem aquela sensação de frustração, mas depois você costuma aceitar a conviver com aquilo que rejeita ou apenas discorda da prática.

Pois assim acontece também com quem sonha no futebol brasileiro com um calendário organizado, uma liga nacional forte e rentável. Por pontos corridos para a grande maioria das divisões visando garantir uma temporada completa viabilizando um planejamento de acordo com as receitas. Sem os estaduais, ou ao menos reduzindo bastante as datas e sendo tratados como torneios de pré-temporada para os times grandes.

Mas como pensar nisso se o chamado torcedor médio, ou a média do pensamento da maioria das torcidas, valoriza os torneios regionais, especialmente por causa dos clássicos, e estes geram boa audiência para a emissora que detém os direitos de transmissão que, por isto mesmo, paga uma boa cota?

Como convencer o dirigente a peitar a sua federação se ele prefere a aliança que pode dar uma vantagem aqui, uma arbitragem favorável acolá e fazer uma média com a torcida, podendo dizer no final do ano, se tudo der errado, que ao menos venceu algo na temporada e o rival não?

Como defender uma temporada inteira para o time de menor investimento se, na maioria das vezes, o dirigente pensa que é melhor se garantir com a cota do estadual e a chance de enfrentar os grandes mais vezes ao invés de buscar um crescimento sustentável, ainda que as partidas mais rentáveis se limitem aos possíveis confrontos na Copa do Brasil?

Como pensar em uma liga forte se os clubes que mais investem priorizam os torneios de mata-mata e escalam reservas no que deveria ser o principal campeonato? De que adianta Zinedine Zidane, tricampeão da Liga dos Campeões com o Real Madrid, dizer que considera o título da liga espanhola da temporada 2016/17 o mais importante da sua curta carreira como treinador porque, segundo ele, a disputa por pontos corridos é a que, de fato, premia o melhor trabalho?

Aqui a lógica é que para vencer as copas bastam quatro ou oito jogos, enquanto no Brasileiro ainda falta um turno inteiro. “Dá tempo de recuperar”, “temos que pensar no tiro curto”. Imediatismo, urgência, torcidas “bipolares” e insanas querendo taças para ontem.

Como discutir trabalhos longos de treinadores se na maioria das vezes a “dança das cadeiras” beneficia a maior parte dos agentes no processo? O dirigente porque “não ficou parado vendo o barco afundar”, o jogador que se cansa dos métodos e da convivência desgastante e gosta do “fato novo”. Os próprios treinadores, ao menos os mais renomados, que reclamam, mas faturam nessa roda viva com bons salários e multas rescisórias altas. Ou mesmo a imprensa, que gera pautas e esquenta os noticiários com as demissões, especulações do novo nome e depois os debates se “agora vai” com o técnico da vez.

Como defender a renovação do mercado de treinadores se os jovens muitas vezes repetem os erros dos veteranos? Ou acabam se perdendo em idealizações, enquanto os mais vividos se adaptam à nossa realidade caótica. Como defender profissionais como Roger Machado e Fernando Diniz se os seus conceitos, ao menos por enquanto, não fizeram eco nos clubes pelos quais passaram e um Renato Gaúcho volta depois de dois anos curtindo a praia e usa seu carisma de maior ídolo da história do Grêmio para resolver com simplicidade problemas que parecem tão complexos? Como duvidar do “messias” Felipão no Palmeiras, ao menos no mata-mata?

Remar contra a maré às vezes cansa. Exigir organização e planejamento para que todas as partes de beneficiem é pregar no deserto enquanto cada um está preocupado apenas com o seu problema. É o nosso jeito, não é fácil mudar. Já é hora de entender, mesmo sem aceitar, a nossa alma no futebol. Copeira, caótica, amadora. Com espasmos aqui e ali de profissionalismo, mas sem algo mais duradouro. Não é acaso que aqui haja tanta “alternância de poder”, sem um clube construindo uma “dinastia”.

E tantos gostam por ter mais equilíbrio, sem a previsibilidade de outras grandes ligas pelo mundo. Ainda que o nível técnico não seja dos melhores. Aliás, o que mais tem por aqui é o fã do “futebol testosterona”. O jogo “pra macho”. Ou seja, porradaria, jogo direto, bola parada, lateral na área adversária, disputa física, ódio ao rival (leia-se inimigo), “contra tudo e todos”, inclusive a imprensa.

E tem que ser sofrido, senão não tem graça. Sem “nhenhenhe” de posse de bola, conceitinho, jogo bonito e outras “frescuras”. É o jogo de Libertadores! Não por acaso tantos odeiam Pep Guardiola e outros treinadores que tentam fazer diferente.

Então que seja! Uma hora a mão cansa de esmurrar a ponta da faca. Felizmente hoje temos acesso ao melhor que o futebol internacional pode oferecer – pela TV ou agora por streaming – para quem vê o jogo e os processos no esporte de outra forma. Dá para todo mundo ser feliz. Melhor assim.


Volta de Felipão e “Caso Renato Gaúcho” têm semelhanças e diferenças
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André Rocha

Quando foi anunciada a volta de Luiz Felipe Scolari ao Palmeiras depois de seis anos para suceder o demitido Roger Machado, imediatamente surgiu nos debates esportivos e nas redes sociais a discussão sobre o recuo de um grande clube na busca por treinadores mais jovens e antenados.

Impossível não associar ao “Caso Renato Gaúcho”. Não tão vivido quanto Felipão, mas que também parecia fora do mercado brasileiro e se transformou no treinador mais vitorioso dos últimos dois anos em sua volta triunfal ao Grêmio com títulos da Copa do Brasil, Libertadores, Recopa Sul-Americana e Campeonato Gaúcho.

Os casos têm semelhanças, mas também diferenças marcantes. A começar pelo tempo de inatividade. Renato deixou o Fluminense em 2014 depois de um trabalho muito aquém das expectativas e ficou mais de dois anos parado. Já Scolari estava desde 2015 no Guangzhou Evergrande e empilhou títulos: campeão asiático em 2015, tri chinês e mais a Copa e o bi da Supercopa do país. Mesmo em uma liga menos competitiva é um retrospecto respeitável.

Mas Renato tinha algumas vantagens no tricolor gaúcho. É o maior ídolo da história do clube e, principalmente, desenvolveu bons trabalhos nas passagens em 2011 e 2013, garantindo vaga para a Libertadores em campanhas de recuperação. Ao contrário de Felipão no Palmeiras, o treinador encontrou o legado de um trabalho mais estruturado e longo de Roger Machado. Sem contar que num contrato inicial de apenas três meses por conta da eleição no clube não havia tanta pressão para tirar o Grêmio do jejum de 15 anos sem uma conquista relevante desde a Copa de Brasil de 2001.

Por outro lado, Felipão pode repetir com Paulo Turra, seu auxiliar junto com Carlos Pracidelli depois que Murtosa desistiu de acompanhar a comissão técnica do treinador, a parceria mais que bem sucedida de Renato com Alexandre Mendes. Enquanto o assistente, mais estudioso, trabalha na metodologia de treinamentos para manutenção do modelo de jogo, o técnico cuida dos detalhes estratégicos da equipe e, especialmente, da gestão de grupo para manter todos mobilizados. Sem contar o carisma e a coragem para lidar com imprensas e as pressões internas e externas.

Só que a última passagem de Scolari pelo clube paulista em 2012 teve dois lados bem distintos: conquista da Copa do Brasil com uma equipe limitadíssima, mas também a campanha pífia no Brasileiro que encaminhou o rebaixamento. Uma mancha que coloca uma ponta de dúvida no torcedor, assim como o emblemático 7 a 1 para a Alemanha pela seleção brasileira.

O trabalho no Grêmio em 2014/15, também não terminou bem. Abriu espaço para Roger Machado, sucedido por Renato. Agora é Scolari quem substitui Roger, mas em um cenário bem mais complexo. No olho do furacão.

O treinador da conquista da Libertadores em 1999, porém, tem muitos créditos e chega com aura de messias. Um toque de sebastianismo em ambiente político conturbado. O típico “escudo” que todo dirigente quer para sair do foco da ira de um torcedor que quer ver o alto investimento se traduzindo em títulos e se desiludiu com a volta frustrante de Cuca no ano passado. A cobrança será proporcional à esperança.

Mas tem boas chances de funcionar, especialmente nas disputas de mata-mata. No nosso futebol brasileiro passional e um tanto caótico, já está claro que se houver química e a dosagem certa de razão e emoção tudo pode dar muito certo. Aconteceu com Renato Gaúcho, por que não com Felipão?


Os problemas de Roger Machado e do Palmeiras não combinam
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André Rocha

Foto: Thiago Ribeiro/Estadão

A demissão de Roger Machado depois da derrota do Palmeiras por 1 a 0 para o Fluminense no Maracanã não pode ser considerada injusta em uma análise geral.  A equipe enfrentava problemas crônicos no momento de controlar as partidas e seguia deixando espaços demais entre os setores, além de sofrer com falhas de posicionamento na última linha de defesa. Em termos mentais também parecia frágil, sempre mais perto de sucumbir do que de arrancar os três pontos na fibra, embora tenha conseguido contra o Atlético Mineiro no domingo.

Porque Roger dá a impressão de estar vivendo um dilema em sua ainda curta carreira de treinador. Seus trabalhos não se afirmam com o passar do tempo. No Grêmio durou mais porque no primeiro ano não houve exigências. Recebeu terra arrasada de Luiz Felipe Scolari e praticamente com o mesmo elenco montou um time com ideias claras, modelo de jogo bem assimilado e que chegou a ter momentos de encantar torcida e analistas.

Subiu de patamar, inclusive nas expectativas. Mas entrou em um ciclo negativo até a demissão, embora tenha deixado o legado na maneira de jogar. À distância parece não conseguir fazer as correções pontuais e acaba quebrando a relação de confiança com os atletas, em relação à qualidade do trabalho. Foi o diagnóstico de sua passagem pelo Atlético Mineiro. Novamente um início muito bom, mas quando veio a oscilação as cobranças por conta de um elenco estelar, para o nível do futebol jogado no Brasil, diminuíram a paciência e, pressionado, não conseguiu entregar a evolução no desempenho.

Tanto lá quanto agora, os resultados no geral nem são ruins. Repetiu a melhor campanha na fase de grupos na Libertadores. Segue vivo na Copa do Brasil e com mais de um turno para reagir no Brasileiro. O que se questiona é a estagnação e alguns indícios de problemas na gestão do grupo. Algo para se trabalhar em um clube com mais paciência e fora do olho do furacão.

Então chegamos ao cenário dentro do Palmeiras. De pura esquizofrenia. Prometeram um time imbatível com arena própria e rentável e investidor forte. Ainda mais depois de vencer a Copa do Brasil e o Brasileiro em seguida ainda sem abrir os cofres o quanto poderia. Quando se impôs no mercado nacional e sul-americano, na cabeça do palmeirense o mínimo a conquistar era tudo.

Para complicar o ambiente insano, o rival Corinthians – vivendo crise financeira, mas com uma identidade de futebol desenvolvida ao longo dos anos –  venceu Brasileiro e dois paulistas. Agora caiu, porém o São Paulo, outro rival da cidade, sobe e pode assumir a liderança da principal competição nacional. Ou seja, o Alviverde não consegue ocupar o espaço que todos acreditavam que seria seu naturalmente.

A velha mania de achar que tudo se resume a dinheiro. Maior poder aquisitivo é igual a vitórias e títulos. Na Era Parmalat funcionou assim nos melhores momentos. Na fase do investimento da Crefisa está mais difícil. Cuca quando voltou foi tratado como o messias, salvador. Não conseguiu. Agora os alvos parecem ser Abel Braga e Felipão.

Pode dar certo, nada é impossível. Depois do retorno triunfal de Renato Gaúcho ao Grêmio, como duvidar? Mas talvez a maior contribuição dos dois treinadores veteranos agora seria, com o jeito franco e direto de “paizão” de ambos, tentar explicar a torcedores e dirigentes que não há fórmula mágica para vencer e que existe trabalho e investimento também nos concorrentes.

O Palmeiras quer tudo e Roger vem sofrendo quando a cobrança aumenta. Problemas que não combinam. Não podia mesmo dar certo.


Flamengo comprova sua força, Palmeiras segue na “montanha russa” de emoções
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André Rocha

O Flamengo sem seus três zagueiros experientes e também o lesionado Diego claramente sentiu a pressão do ambiente nos primeiros minutos no Allianz Parque. O treinador Mauricio Barbieri também sacou Henrique Dourado para aproveitar Filipe Vizeu o máximo de minutos antes da partida para a Udinese. O resultado foi um time bastante jovem, com seis oriundos das divisões de base. Por isso, assustado nos primeiros vinte minutos.

Mas quem errou foi Rodinei, que tinha várias opões para cortar um cruzamento da direita e tomou a pior decisão: um golpe de cabeça fraco, no pé de Dudu. Longe do adversário, deu espaços para o cruzamento que encontrou Bruno Henrique e deste para Willian ir às redes aos seis minutos.

Um time confiante e seguro teria amassado o líder do campeonato até os 15 minutos. O Palmeiras, também com desfalques importantes, até tentou, pressionando muito Lucas Paquetá, que novamente prendeu demais a bola, e atacando com volume, fazendo Diego Alves trabalhar muito. Mas quando a equipe de Roger Machado é obrigada a diminuir a pressão o time controla mal o jogo. Murcha. E a torcida, que também não confia muito, deixa a arena morna.

Foi o suficiente para que o organizado time de Barbieri, novamente no 4-1-4-1, encontrasse no lado direito com Rodinei e a aproximação de Jean Lucas a válvula de escape, enquanto Everton Ribeiro passou a aproveitar os espaços às costas de Felipe Melo e Bruno Henrique, os volantes do 4-2-3-1 alviverde, que estavam muito concentrados em não dar brechas a Paquetá.

O primeiro tempo terminou com 53% de posse do Fla e seis finalizações, quatro na direção da meta de Jailson. Destaque para o Palmeiras nos 12 desarmes certos, o dobro do adversário. Foi o que sustentou a vantagem.

De novo a intensidade e a torcida quente no início do segundo tempo. Mas foi esfriando, esfriando…E o Flamengo tomou conta. Empatou no gol do jovem zagueiro Matheus Thuler subindo mais que Thiago Martins pregado no chão e completando escanteio de Rodinei. Podia ter virado não fosse o individualismo de Paquetá e um chute fraco sem goleiro de Vinícius Júnior, novamente disperso e reclamando muito da arbitragem. Ainda uma finalização perigosa de Everton Ribeiro.

Na reta final, Barbieri preferiu administrar o empate. Trocou Arão por Jean Lucas, depois tirou Vizeu e colocou Marlos Moreno para tentar acelerar os contragolpes e, por fim, Jonas na vaga de Everton Ribeiro. Roger tentou com Lucas Lima, Artur e Papagaio, mas apenas num abafa sem grande criatividade. Time muito tenso com o peso da responsabilidade. Terminou com mais finalizações – 14 a 13, cinco no alvo. Mas a maioria muito deficiente, inclusive de Bruno Henrique livre na entrada da área rubro-negra. Saiu bem longe.

Nos acréscimos, a confusão geral que terminou nas expulsões de Jailson, Dudu e do zagueiro reserva Luan do lado do time mandante e Cuéllar, Jonas e Henrique Dourado, também no banco, pelos visitantes. Desnecessário. Mas o fraquíssimo árbitro Bráulio da Silva Machado não teve peito para dar mais minutos com Moisés na meta alviverde.

O Fla também não reclamou. O empate foi resultado satisfatório, fechando os primeiros 12 jogos com surpreendentes 27 pontos para o contexto do início do Brasileiro. Pelos desfalques, o time demonstrou solidez e consciência. Faltou contundência. Algo a melhorar na volta, sem Vizeu e, provavelmente, Vinicius Júnior.

O Palmeiras segue com oito pontos de distância para o líder. Podia ser pior pelo que aconteceu na partida. A missão de Roger e de todos no clube é aproveitar a pausa pra a Copa do Mundo e tentar estabilizar o time mentalmente e minimizar a “montanha russa” emocional que torna tudo tão incerto e inconstante.

(Estatísticas: Footstats)


Vitória em jogaço traz a resposta para o Palmeiras: faltava confiança
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André Rocha

Foi o melhor jogo do Brasileirão 2018 até aqui. Mesmo com a queda de qualidade na segunda etapa com a saída de Maicon. O Grêmio, que vem sofrendo sem Ramiro, perdeu ainda mais força no meio-campo. E Arthur também deixou o campo, restando ao time de Renato Gaúcho partir para o “abafa” nos minutos finais.

Nada que tire o mérito da vitória do Palmeiras por 2 a 0, no reencontro de Roger Machado com a Arena do tricolor. Com sua equipe em nenhum momento se limitando a defender. Apostando nos movimentos de Hyoran e Dudu cortando da ponta para dentro e Willian se movimentando e finalizando muito. Além dos dois gols, duas finalizações nas traves de Marcelo Grohe no primeiro tempo. Agora tem seis e é artilheiro da competição junto com Roger Guedes.

O grande destaque da segunda vitória seguida do alviverde, depois da virada por 3 a 1 sobre o São Paulo. Trazendo a resposta para a dúvida que persistia. Time mal treinado ou falta de confiança? A pressão sobre Maicon e Arthur prejudicando a fluência gremista e a velocidade nas ações ofensivas, desde os passes no meio com Felipe Melo e Bruno Henrique, mostraram claramente a estratégia para o duelo. Ainda que 29 faltas, nove sobre Luan, tenha sido um exagero. O desempenho coletivo, porém, foi consistente.

Foram oito finalizações, mas cinco no alvo. Posse dividida e acertou apenas vinte passes a menos que o adversário. Desarmou, interceptou e driblou mais. Jogando de igual para igual contra uma equipe que mesmo desfalcada seguia intimidando em seus domínios.

Resgatando a força mental para se impor e encerrar uma sequência de 15 partidas sem derrotas em casa do campeão da Libertadores. Também se recolocar matematicamente na condição natural de um dos favoritos ao título. E, o mais importante, ganhar confiança e créditos para o momento de pressão absurda que vem a cada derrota. Algo desproporcional, sem propósito e que pouco ajuda na evolução do desempenho. Ainda mais no Brasileirão do perde-ganha. Que sirva de aprendizado para a sequência da temporada.

(Estatísticas: Footstats)

[Em tempo: SIM, o Palmeiras também tinha desfalques – Antonio Carlos, Edu Dracena, Diogo Barbosa, Keno, Borja… É importante deixar claro, ainda que o texto seja só elogios à atuação palmeirense e a menção às ausências gremistas tenha um contexto dentro da frase. Afinal, no Brasil do pensamento binário para muitos torcedores o que não é elogio só pode ser perseguição ou coisa de “anti”.]


Vitória do Cruzeiro e o dilema do Palmeiras: mal treinado ou sem confiança?
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André Rocha

As ausências de Henrique e De Arrascaeta no Cruzeiro e de Felipe Melo e Borja no Palmeiras contribuíram para um jogo no Mineirão com ambos enfrentando problemas na construção das jogadas desde a defesa e terminando, como consequência, com a dificuldade de criar espaços quando o adversário está postado sem a bola.

A diferença no gol da vitória celeste foi a dobra de Edilson e Robinho pela direita contra Victor Luís que não teve o auxílio de Dudu. Cruzamento que encontrou Rafael Sóbis e a virada que tirou de Jaílson. A mais eficiente das dez finalizações cruzeirenses, uma das duas no alvo. Dudu saiu de campo logo após a falha na recomposição para a entrada de Moisés, mas podia ter sido protagonista no belo chute que Fabio espalmou no início da segunda etapa. A melhor das seis dos visitantes, metade na direção da meta cruzeirense.

Um detalhe decidiu. Também a organização da equipe de Mano Menezes, controlando os espaços e negando a chance cristalina ao adversário depois de abrir o placar. Usando o banco com boas opções, como Bruno Silva pela direita, Ariel Cabral no meio e Raniel lutando na frente, pressionando os passes dos zagueiros. A falta de criatividade do oponente ajudou.

E aí entra o grande dilema palmeirense: a falta de confiança por conta de uma pressão absurda a cada resultado negativo tira a coragem dos jogadores de arriscar ou o modelo é que é engessado em uma posse de bola inócua (terminou com 53%) e falta de mobilidade na execução do 4-2-3-1?

Difícil avaliar quando destaques como Lucas Lima e Dudu arriscam tão pouco. Pior ainda se Keno, o ponteiro que ousa no drible, entra em campo visivelmente com problemas físicos. Sem as inversões de Felipe Melo a troca de passes fica previsível. Mas cabe a Roger Machado encontrar soluções para não repetir o ciclo de seus trabalhos no Grêmio e no Atlético Mineiro: bom início e o trabalho vai definhando com o tempo. Sem reação dos jogadores importantes nem alterações significativas que façam o time reagir.

Melhor para o Cruzeiro, que com duas vitórias depois de um início ruim já se aproxima do pelotão da frente. Com foco e titulares em campo é equipe competitiva. Desta vez nem precisou de um gol no início como elemento facilitador. Mesmo com jogo parelho conseguiu se impor.

É o que tem faltado ao Palmeiras. Mesmo classificado na Copa do Brasil e com a melhor campanha na fase de grupos – outra coincidência em relação à passagem de Roger pelo Atlético Mineiro. Quando a corda aperta o time sente e tem fraquejado. Sem confiança por estar mal treinado ou o desempenho é ruim por causa da pressão? É preciso descobrir, tecer o diagnóstico correto. E rápido!

(Estatísticas: Footstats)


Vitória para o Palmeiras virar a chave do Paulista e, enfim, evoluir
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André Rocha

Há vitórias no futebol que são mais importantes pelo significado do que pela afirmação de uma maneira de jogar. O Palmeiras precisava de um triunfo em jogo considerado grande para, enfim, virar a chave da final paulista e ganhar paz e confiança para trabalhar e, enfim, evoluir.

Os 2 a 0 sobre o Boca Junior em La Bombonera vão inebriar os analistas de resultados pela raridade que é superar a equipe xeneize em seu lendário estádio. Mas não foram construídos com atuação sólida. A equipe continua com problemas na saída de bola e na construção das jogadas. Muito pela tensão, pelo medo de errar em um ambiente saturado de pressão.

Mas soube explorar as muitas deficiências coletivas do frágil time argentino, que vive das jogadas individuais de Pavón. Defensivamente, concedeu espaços generosos concedidos pelos flancos por conta de um ultrapassado 4-3-1-2 armado por Guillermo Schelotto.

Assim Marcos Rocha recebeu com total liberdade para colocar a bola na cabeça de Keno no primeiro gol. No segundo, passe longo aleatório, saída atrapalhada do goleiro Rossi e rebote para Willian tentar e Lucas Lima conseguir na segunda finalização, com categoria.

Apesar da falta de dinâmica do meia mais adiantado e próximo de Borja no 4-2-3-1 de Roger Machado. Vive de espasmos, assim como a equipe. Precisa de consistência, integração entre os setores, fluência. Sem “quebrar” a bola. Sem medo. Sem precisar tanto das intervenções do goleiro Jailson.

A vitória que confirma a classificação e praticamente garante a liderança do Grupo 8 da fase de grupos da Libertadores pode ser uma primeira etapa de transformação. Do ambiente externo condicionado a resultados transferindo calma para o campo. Para o trabalho enfim seguir com foco no desempenho. Na evolução. Tudo que o Palmeiras precisa.


Palmeiras precisa de calma, que nunca foi sinônimo de apatia
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André Rocha

O título brasileiro de 2016 já foi a coroação de uma nova etapa na vida do Palmeiras, uma sequência da conquista da Copa do Brasil no ano anterior. Ainda que com treinadores diferentes, primeiro Marcelo Oliveira e depois Cuca.

Mas 2017 chegou e, com mais investimentos em busca do título da Libertadores, que seria a evolução de um trabalho, o patamar de cobrança deu um salto proporcional ao que se gastou. Mas não condizia com o amadurecimento de uma identidade.

Marcelo Oliveira, Cuca, Eduardo Baptista, volta de Cuca, Alberto Valentim e agora Roger Machado. Seis trocas de treinador em três anos. Características e momentos na carreira bem diferentes. Não há linha de trabalho aí. Um fio condutor. Mais contratações em profusão, com jogadores superestimados ou descartados com uma amostragem pequena de partidas. Porque não há consistência coletiva para potencializar a qualidade individual.

Pior ainda é essa panela de pressão com fogo alto, sempre próxima da explosão. Há quem defenda esse clima beligerante como “coisa de time grande”. Como se a calma para tomar decisões pudesse ser confundida com apatia, conformismo.

Longe disso. Nunca foi. Pressão normal, sim. Quando a exigência é infinitamente maior do que o que se pode entregar naquela etapa do processo é a senha para uma eterna busca, trocando tudo e chegando a lugar algum.

Quando Roger parecia começar a encontrar um norte que faria a equipe crescer e impor a superioridade do conjunto de suas individualidades, veio a avalanche de um clássico decisivo saturado de rivalidade e tensão. Logo o Corinthians, este sim, time com identidade e, mesmo perdendo peças e não fazendo a reposição do mesmo nível por problemas financeiros, segue sua filosofia.

O clube preferiu surtar. Desde o presidente. Por causa de um pênalti não marcado, de Ralf sobre Dudu. Sem ninguém se dar ao trabalho de se perguntar algo básico: com os jogadores com os nervos em frangalhos será que a penalidade seria convertida? A julgar pelo estado emocional de Dudu e Lucas Lima, lideranças técnicas que falharam na decisão por pênaltis, difícil prever.

Contra o Boca Juniors, a forte impressão de que o time foi tragado por essa onda de cobranças ou do desvio de foco do campo com o presidente Mauricio Galiotte culpando a Federação Paulista por mais um título perdido em sua gestão. Não é questão de avaliar se o protesto é justo ou não. Mas o que vai contribuir para a sequência da temporada?

Atuação coletiva fraca, com equívocos por nítida ansiedade que atrapalha a concentração dos atletas. E fica difícil acertar em tomadas de decisão e na parte técnica com um entorno tão complicado. Dudu e Lucas Lima de novo ficaram devendo. Keno acabou se destacando não só pelo gol, mas pela confiança em meio ao caos. Uma exceção.

Mas aí Antonio Carlos falhou novamente. O zagueiro que ganhou a vaga e parecia se firmar exatamente quando o coletivo começava a crescer errou no gol de Rodriguinho no Allianz Parque e vacilou de novo na jogada que terminou nas redes de Jailson com Tevez completando assistência de Pavón. Dois minutos depois do gol alviverde, já nos acréscimos.

Sintomático. Um gol no início do dérbi, outro no fim do jogo mais esperado da primeira fase do torneio continental. Será que com um ambiente menos complexo a chance do jogador entrar mais focado no jogo não aumentaria e, consequentemente, a margem de erro não reduziria?

Difícil avaliar quando a derrota para o Corinthians por 2 a 0 ainda na fase de grupos, sem grandes prejuízos, vira motivo para caça às bruxas. Joga-se a culpa nos jogadores, na falta de “raça”, na arbitragem, no azar… E ninguém tem a curiosidade de ver o que funciona no rival para dar certo tantas vezes. Não pode ser só o “apito amigo”…

É hora de virar a página do estadual, mesmo que obtenha vitória na Justiça pela anulação da final, e focar no que é importante para lá na frente atingir os objetivos: o trabalho. As escolhas, a sequência do desenvolvimento das ideias com convicção. Aprimorar os métodos, focar no jogo. A torcida pode ter pressa de vencer. Quem dirige sabe, ou deve saber, que um título pode pipocar aqui e ali. O futebol é tão incrível que premia até quem trabalha errado. Mas para os resultados aparecerem com mais frequência não basta gastar. Essa equação dinheiro + camisa = títulos não é tão simples assim.

É preciso pensar e executar. Com calma, mas também firmeza de propósitos. Tudo que tem faltado ao Palmeiras.