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Arquivo : Romário

Tite é mais 1994 que 1982 e 2002
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André Rocha

No programa “Boa Noite Fox” na segunda-feira, Tite disse que entre vencer como em 1994 e perder como em 1982 ele prefere ser campeão como em 2002. Resposta diplomática, fugindo da grande discussão do futebol brasileiro há mais de 20 anos. Que perdura exatamente porque o quinto título mundial conquistado na Ásia não trouxe respostas e foi tratado como um caso isolado, sem legado. Mesmo com sete vitórias.

Aquela equipe de Luiz Felipe Scolari foi montada às pressas, combinando o time que vencera a Venezuela e garantira a vaga no Mundial apenas na última rodada das Eliminatórias e uma ideia guardada por Felipão desde 1999, quando a seleção, então comandada por Vanderlei Luxemburgo, atropelou a Argentina em Porto Alegre por 4 a 2: unir Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo no ataque.

Tite fala tanto em mérito e vencer jogando limpo, que não quer arbitragem ajudando nem prejudicando. Difícil, então, aprovar uma campanha de 100% apoiada em dois grandes erros de arbitragem: o pênalti sobre Luizão convertido por Rivaldo na virada por 2 a 1 sobre a Turquia na estreia e, principalmente, o gol de Wilmots para a Bélgica no primeiro tempo da partida pelas oitavas de final muito mal anulado pela arbitragem do jamaicano Peter Prendergast, que alegou falta do atacante sobre Roque Junior. Um absurdo que facilitou a construção dos 2 a 0 na segunda etapa em lampejos de Rivaldo e Ronaldo.

Brasil 2002 que dependia dos talentos para decidir na frente. Defensivamente, marcava por encaixe e Edmilson variava como zagueiro e volante de acordo com o número de atacantes do adversário. Fazia perseguições individuais e, consequentemente, sofria com buracos na retaguarda. Tudo que Tite não faz.

Então aparecia o goleiro Marcos para salvar. Inclusive na decisão contra uma Alemanha enfraquecida sem Michael Ballack. Antes dos gols de Ronaldo o arqueiro precisou trabalhar para evitar que o adversário abrisse vantagem. Também brilhou no sofrido primeiro tempo contra os belgas.

A seleção de Tite combina muito mais com a de 1994. Não só por ter Taffarel em sua comissão técnica. Questionada pelos resultados apertados e por ter sido a primeira campeã na disputa por pênaltis na história das Copas. Mas que prezava a segurança defensiva, marcava por zona e trabalhava coletivamente, com bola no chão, para potencializar o talento de Bebeto e Romário no ataque.

Só não teve mais posse de bola que a Holanda nas quartas de final. Jogo com o único erro de arbitragem favorável à equipe de Carlos Alberto Parreira: a falta cavada e cobrada por Branco que colocou a mão no rosto de Overmars. Decisiva nos 3 a 2. Mas nos 90 minutos controlou o jogo, abriu 2 a 0 com tranquilidade e permitiu o empate num lapso de desconcentração.

Nos outros jogos dominou os adversários, mesmo no empate por 1 a 1 com a Suécia na primeira fase ou com um homem a menos após a expulsão de Leonardo na vitória sobre os Estados Unidos no dia 4 de julho. Até na final contra a Itália no Estádio Rose Bowl. Paradoxalmente, Romário, o craque da Copa, podia também ter sido o artilheiro e tornado a campanha mais sólida em resultados. Perdeu vários gols, inclusive dois feitos, na semifinal e na grande decisão, já na prorrogação.

Pela falta de um craque no meio-campo ganhou o rótulo de “retranqueira”. Mas tinha solidez defensiva, mesmo com a zaga formada pelos reservas Aldair e Márcio Santos, e criava tantos pelos flancos com as duplas Jorginho-Mazinho e Leonardo/Branco-Zinho como pelo centro com Bebeto e Romário. Todos alimentados pelos ótimos passes de Dunga, outra peça fundamental subestimada.

Tite também tem mais a ver com o universo de 1994 do que com o de 1982, que tanto exalta. Primeiro porque dificilmente veremos sua seleção na Rússia com uma formação que nunca havia estado em campo, como Telê Santana fez na Espanha com o meio-campo formado por Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico com o suporte de Eder pela esquerda e Serginho na frente.

Muito menos observaremos todos no ataque na base da intuição deixando generosos espaços para os adversários. E como em 2002, erros graves de arbitragem favoreceram o escrete canarinho, como os pênaltis do zagueiro Luisinho não marcados na estreia contra a então União Soviética e o claríssimo de Junior sobre Maradona quando o placar estava 1 a 0 para os brasileiros sobre os argentinos no Estádio Sarriá.

Para alguém com a leitura de jogo do treinador da seleção brasileira a resposta soou estranha. Talvez seja uma maneira de exaltar Felipão e buscar uma reaproximação com quem admirou tanto e depois se transformou em desafeto.  Mas, honestamente, pensando no que aconteceu em campo e na visão de futebol de Tite é difícil encontrar alguma lógica.


Cristiano Ronaldo, o maior artilheiro “minimalista”. Acima de Romário
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André Rocha

Foto: Curto de La Torre (AFP)

“Não entro em campo para jogar bonito ou bem, entro para fazer gols”. A frase é de Romário, em 2002 quando atuava pelo Fluminense. Nove anos antes, foi chamado de “gênio da grande área” por Johan Cruyff.

Genial e genioso, não teve paciência e foco para ser atleta. Só queria jogar. Quando botou na cabeça que seria o melhor do mundo voou no Barcelona e na seleção brasileira campeã mundial de 1994.

Depois seguiu jogando por prazer, administrando a vida noturna e em campo buscando fazer o essencial. Os treinos físicos e os trabalhos coletivos o irritavam. Ele queria exercitar situações de jogo e, especialmente, se preparar para estar bem colocado na área para o último toque. Às vezes com uma dose de sadismo: o chute saía fraco, mas o suficiente para sair do alcance do goleiro em desespero.

Romário não quis se medir entre os maiores por muito tempo. Voltou ao Brasil como melhor do mundo em 1995, depois ainda se aventurou no Valencia, mas a passagem foi breve. Preferiu retornar à terra na qual tinha o trono garantido. Empilhou gols – mais de mil, segundo suas contas – até o fim da carreira. Cada vez tocando menos na bola, mas sempre letal.

Corte para 2017. Na Europa, no mais alto nível. Em mentalidade, a antítese de Romário. Apesar da semelhança na “marra”. O foco absoluto na carreira, na preparação física. No trabalho. Mas com o mesmo objetivo: estar pronto para o golpe final e decisivo.

Cristiano Ronaldo vinha de um período inconstante na temporada. Antes do confronto com o Bayern de Munique pelas quartas-de-final da Liga dos Campeões, apenas um par de gols do maior artilheiro da história da competição em oito partidas. Na liga espanhola, números melhores: 19 gols em 24 jogos. Pouco, porém, para quem se acostumou a manter uma média igual ou superior a um gol por partida.

Pois o “Penaldo”, apelido maldoso pelos gols de pênalti, acusado por seus “haters” de só marcar contra times pequenos e nos jogos menos importantes, foi às redes nada menos que cinco vezes nos dois confrontos com um gigante do Velho Continente. Sem penalidade máxima.

Sim, estava impedido nos dois decisivos, marcados na prorrogação do Santiago Bernabéu. A arbitragem novamente pesou mando de campo, camisa, marca e mídia no principal torneio de clubes do planeta. Uma lástima.

Mas saltou aos olhos mais uma vez a economia eficiente do goleador português que bateu a marca dos 100 gols na Champions. Nos 180 minutos, ele basicamente só se fez notar nos gols. Ainda que seu instinto de ponta o faça buscar a bola nos flancos e arrancar, as jogadas normalmente não têm sequência. Ou a bola é entregue a um companheiro para que o camisa sete parta para a área adversária.

Cristiano Ronaldo sabe que para superar Messi nas premiações individuais precisa dos títulos no Real Madrid e na seleção, mais os gols. Números. Porque não é possível igualar nas jogadas geniais. Por isso a concentração para não desperdiçar oportunidades.

De cabeça, pé direito ou esquerdo, com bola rolando ou não. O ponta que é o melhor centroavante do mundo. Com a experiência de seus 32 anos, 14 atuando na elite do futebol mundial, vai ficando mais objetivo nos gestos técnicos. Enquanto Messi precisa abrir espaços diante de fortes bloqueios defensivos, o português espera. A falha do rival ou a chance cristalina. Sempre bem posicionado.

É bem provável que Cristiano Ronaldo não ganhe uma Copa do Mundo ou chegue perto da milésima bola na rede, mesmo contando jogos não oficiais como Romário. Mas como artilheiro “minimalista”, o homem do toque final, o maior goleador da história do Real Madrid já supera o brasileiro.

Porque quer sempre e não de vez em quando. Entre os melhores, no cenário menos confortável. Fazendo cinco no Bayern, não no Barreira, hoje Boavista, de Bacaxá. Para o mundo ver, não no quintal de casa.


Alô, Tite! Cinco momentos em que o auge da seleção chegou antes da Copa
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André Rocha

Brasil Festa Confederacoes 2005

“Que m… que parou” Assim Tite deixou claro na coletiva que gostaria que as eliminatórias sul-americanas seguissem com rodadas próximas e não só em março, quando a seleção brasileira enfrenta Uruguai e Paraguai. Ainda concordou que seria ótimo que a Copa do Mundo começasse ainda em 2016.

De fato, sem nenhuma equipe tão dominante e absoluta, nem a campeão Alemanha,a fase positiva em desempenho e resultados poderia ser bastante favorável. Mas até 2018 na Rússia a estrada é longa – e com armadilhas. Por isso o blog lembra, até para esfriar um pouco o oba oba,  cinco momentos em que o auge do time canarinho chegou antes da Copa:

1981 – As exibições na Europa

Inglaterra, França e Alemanha. O Brasil de Telê Santana superou três forças do continente como visitante e consolidou sua imagem de favorito à conquista na Espanha. Com golaço de Zico, a primeira vitória de um sul-americano no lendário Estádio de Wembley. Depois 3 a 1 nos franceses no Parc des Princes, com novo gol do Galinho, outros de Sócrates e Reinaldo. Antes da bola rolar, Pelé recebeu o prêmio de “Atleta do Século” do jornal “L’Equipe”.

Por fim, os 2 a 1 sobre a então campeã da Eurocopa de 1980 em Stuttgart, com Waldir Peres defendendo duas cobranças de pênalti do antes infalível Paul Breitner. Triunfos que pareciam consolidar a formação com Paulo Isidoro como falso ponta pela direita e Reinaldo no comando do ataque.

No ano seguinte, porém, Telê precisou encaixar Falcão no meio-campo e sacou Isidoro. Com a queda de produção de Reinaldo e a lesão de Careca, Serginho Chulapa virou titular. Não houve exatamente uma queda técnica, mas a seleção parecia mais ajustada com o time que encantou a Europa um ano antes. Talvez tenha faltado uma passada em Roma ou Milão…

1989 – Copa América e time sólido

Depois de um início com muitas críticas e protestos em Salvador por conta da ausência de Charles ou de algum jogador do Bahia campeão brasileiro de 1988, a seleção de Sebastião Lazaroni encontrou abrigo no Recife para vencer o Paraguai por 2 a 0 e partir para o título da Copa América, que não acontecia há 40 anos, superando os mesmos paraguaios, argentinos (com Maradona) e uruguaios no Maracanã.

A formação com três zagueiros, considerava defensiva, contava com Bebeto e Romário aprimorando o entrosamento dos Jogos Olímpicos de Seul um ano antes e marcando todos os gols das quatro vitórias consecutivas que terminaram em taça.

Com a expulsão de Romário contra o Chile pelas eliminatórias, Careca voltou absoluto e o Brasil garantiu sua vaga na Copa e, com vitórias sobre Itália, anfitriã do Mundial no ano seguinte, e a Holanda campeã da Eurocopa no ano anterior, o time sólido virou favorito. Com Muller no ataque e Alemão no meio na vaga de Silas, eliminação nas oitavas de final para a Argentina de Maradona e Caniggia em Turim.

1997 – Dupla “Ro-Ro” encanta o mundo

Ronaldo e Romário. Dois dos maiores atacantes da história do esporte. Juntos e entrosados. Era bonito de ver na seleção campeã da Copa América disputada na Bolívia. Também da Copa das Confederações, disputada na Arábia Saudita e não França, país sede da Copa no ano seguinte.

Os franceses sediaram um torneio no qual o time de Zagallo também deixou boa impressão, empatando com os anfitriões em 1 a 1, com o lendário gol de falta de Roberto Carlos em Barthez, nos eletrizantes 3 a 3 com a Itália e a vitória por 1 a o sobre a Inglaterra, que conquistou o título.

Mas Romário se lesionou num jogo do Flamengo contra o Friburguense, acabou cortado numa polêmica com Zagallo e Zico que durou anos e uma seleção muito irregular acabou chegando à decisão. Nunca saberemos o que aconteceria um Saint-Denis com o craque do mundial anterior em campo para compensar um Ronaldo combalido contra a equipe de Zinedine Zidane.

2005 – O “quadrado mágico” do “Dream Team”

Campeão mundial em 2002. Conquista da Copa América em 2004 no Peru com time reserva, líder das Eliminatórias e campeão da Copa das Confederações com um espetáculo nos 4 a 1 sobre a Argentina.

Ronaldinho Gaúcho absoluto como o melhor do planeta, já sendo comparado a Pelé e Maradona, e Carlos Alberto Parreira encaixando um “quadrado mágico” com Kaká, Ronaldo e Robinho ou Adriano. Comparações com o “Dream Team” americano campeão olímpico de basquete em 1992. Poucas seleções fecharam um ano tão favoritas ao título mundial quanto o Brasil antes da Copa na Alemanha.

Mas veio a preparação confusa desde Weggis, fruto da euforia e da autosuficiência difíceis de segurar com tantas estrelas…e um futebol paupérrimo desde a primeira fase até cruzar novamente com a França de Zidane, desta vez nas quartas de final, e ficar pelo caminho. Sem o tal quadrado, já que Adriano e Robinho começaram no banco e Juninho Pernambucano iniciou a partida em Frankfurt. De novo a frustração.

2013 – A “fórmula mágica” de Felipão

Hino nacional com a torcida cantando o final à capela, pressão sufocante e gol no início do jogo para deixar o estádio ainda mais elétrico, contragolpes com o talento de Neymar e o faro de gol de Fred.

Não tinha como dar errado na Copa disputada no Brasil para enfim apagar o trauma do “Maracanazo” em 1950. A “fórmula mágica” de Luiz Felipe Scolari deu muito certo e atingiu seu ápice nos 3 a 0 sobre a então campeã mundial e bicampeã europeia Espanha no Maracanã. Com Luiz Gustavo e Paulinho colocando Xavi e Iniesta no bolso.

De novo a Copa das Confederações. Ou seria das Ilusões. De novo o Brasil achou que estava pronto para o Mundial um ano antes, desta vez com o agravante de não se testar nas eliminatórias. Novamente o técnico fechou o grupo e os olhos para nítidas quedas técnicas e físicas. Mais uma vez um torneio que é apenas uma pequena amostragem do que pode ser a Copa empolgou o povo que cantou “O campeão voltou!” O resto é história. Trágica.

 

 


Eder consagrou CR7. Lembre outros coadjuvantes que eternizaram gênios
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André Rocha

Cristiano Ronaldo mudou de patamar na história do futebol com a conquista da Eurocopa. Ficou maior. Se Messi não mais jogar pela seleção argentina, este título do português pode colocá-lo acima do seu grande rival nos tantos rankings e eleições individuais que aparecem por aí e sempre existirão.

Porque comparar é um hábito milenar do ser humano, até para criar modelos, padrões e organizar os pensamentos, se situar.

Só que estamos falando de um esporte coletivo. Não há vitória solitária. A frase “Cristiano Ronaldo ganhou a Eurocopa” passa pelo gol de Eder na decisão. Ou o de Traustason, da Islândia contra a Áustria, que jogou o hesitante Portugal da fase de grupos no chaveamento mais acessível, saindo da rota de Itália e Alemanha antes da final.

Os livros estão repletos de casos de coadjuvantes que salvaram gênios da bola eternizados por suas grandes vitórias. Vamos lembrar:

1 – Pelé/Clodoaldo

Copa de 1970, semifinal contra o Uruguai.  Tensão pelo confronto com o algoz em 1950. Gol de Cubilla em falhas de Brito e Félix, primeiro tempo se arrastando para o final e a lendária seleção brasileira a ponto de se desmanchar mentalmente. Atuação sem brilho do Rei, o grande destaque individual no México.

Gerson, meia-armador e organizador da equipe, está bem vigiado e não consegue abastecer o ataque. Em uma conversa rápida com os companheiros surge a ideia: trocar com Clodoaldo e passar a ser volante, atraindo a marcação e desarrumando o meio-campo adversário.

O camisa cinco se lança ao ataque, recebe lançamento de Tostão e marca o gol de empate que seria a senha para a virada espetacular no segundo tempo, com atuação mágica de Pelé, que quase marcou um gol antológico, fintando o goleiro Mazurkiewicz sem tocar na bola e por pouco não surpreendeu o goleiro numa saída de bola equivocada.

Caminho aberto para o tri e a consagração do camisa dez. Graças ao companheiro menos badalado do Santos.

2 – Maradona/Olarticoechea

A lembrança marcante como coadjuvante do “Pibe” é de Burruchaga marcando o gol do título sobre a Alemanha na decisão no Estadio Azteca. Mas sem a presença do ala pela esquerda de nome esquisito, talvez a história do jogo mais emblemático da conquista da Argentina em 1986 tivesse sido diferente.

Na memória do planeta, um gol de mão e outro simplesmente o mais espetacular de todas as Copas. Maradona, o herói do triunfo que transcendeu o futebol como vingança por conta da Guerra das Malvinas. Só que o jogo não acabou com o segundo toque de Diego para as redes inglesas.

John Barnes entrou aos 29 minutos do segundo tempo. Em 1984 havia marcado um golaço no Maracanã enfileirando brasileiros na vitória inglesa por 2 a 0. Um ponta talentoso, mas descartado por ser negro. Fez a jogada do gol de Lineker, o sexto do artilheiro daquele Mundial. E faria o do empate, em nova arrancada de Barnes, não fosse o toque salvador de Olarticoecha, tirando do camisa dez inglês que já havia se desmarcado do zagueiro Ruggeri.

O detalhe: quem perdeu a bola na intermediária que gerou esse contragolpe foi…Maradona. Já exausto, assim como seus companheiros. Com o empate, como seria a prorrogação? Não houve. Porque Olarticoecha salvou o “Dios” argentino.

3 – Zidane/Blanc

Zinedine Zidane não perdeu a cabeça e foi expulso apenas na tão tola quanto lendária cabeçada no peito de Materazzi na final da Copa de 2006.

Em 1998, na vitória tranquila por 4 a 0 sobre a Arábia Saudita ainda na segunda partida da fase de grupos pisou em um adversário sem nenhuma necessidade e levou o cartão vermelho. Suspenso por dois jogos.

Ou seja, ficou de fora do duelo contra o Paraguai de Chilavert e Gamarra nas oitavas-de-final. Um dos sistemas defensivos mais sólidos e organizados daquela Copa. Zidane viu sua seleção rondar a área, sofrer e ser obrigada a já na primeira disputa eliminatória jogar uma prorrogação com “morte súbita”.

Um gol paraguaio e o camisa dez que pulverizaria o Brasil na decisão e entraria para o olimpo da bola iria para casa. Mas Laurent Blanc – sim, o ex-técnico do Paris Saint-Germain e ótimo zagueiro – fez o primeiro “golden goal” da história das Copas e salvou a pele de seu compatriota. Oito anos depois, Zizou não teve a mesma sorte e a Itália venceu nos pênaltis.

4 – Beckenbauer/Vogts

Até a decisão da Copa de 1974 em Munique, o craque do torneio era Johan Cruyff, gênio do “Carrossel Holandês”, a última grande revolução do esporte arquitetada fora do campo por Rinus Michels.

No primeiro minuto da final, justificou o status com uma arrancada desde a defesa  – era o último homem quando recebeu a bola! – e ser derrubado por Schwarzenbeck. Pênalti convertido por Neeskens. O primeiro a ser driblado foi Bert Vogts. Lateral direito de origem, mas que por ser um abnegado e incansável marcador foi designado para perseguir o falso centroavante holandês por todos os campos.

Mais ou menos o que Gentile faria com Zico e Maradona oito anos depois. Tempos de marcação individual. Deu certo. Vogts anulou Cruyff, facilitou a vida do líbero Franz Beckenbauer, que liderou sua seleção para a virada por 2 a 1 e consagrou o “Kaiser” com seu único título mundial como jogador.

Em 1990 seria o segundo, depois de Zagallo, a ser campeão como jogador e treinador. Talvez a história tivesse sido bem menos generosa com Beckenbauer se não fosse a dedicação de Vogts no cerco a Cruyff.

5 – Romário/Branco

Quando se fala de grandes atuações individuais em Copas do Mundo, as lembranças recaem sobre Maradona em 1986, Garrincha em 1962 e Romário em 1994, tal a dependência da seleção brasileira treinada por Carlos Alberto Parreira.

Nos Estados Unidos, o camisa onze foi protagonista em praticamente todas as partidas. Na final contra a Itália perdeu gol feito, mas carregava o mundo nas costas naquela tarde tórrida no Rose Bowl. Foi corajoso na decisão por pênaltis ao pedir para bater sem ser um dos cobradores escolhidos.

Mas, a rigor, a sólida equipe só se viu fragilizada em um único momento daquela Copa: as quartas-de-final contra a Holanda: 2 a 0, com golaço de Romário, que virou 2 a 2 em poucos minutos por total desconcentração da defesa. Os 24 anos sem títulos pesaram como nunca. Time desorganizado e exposto.

Até Branco cavar uma falta em um lance que mais pareceu infração do lateral esquerdo, que largou a mão no rosto de um adversário. Cobrança forte e precisa, choro do gaúcho que superou problemas físicos para substituir Leonardo, expulso nas oitavas contra os Estados Unidos.

Romário fez contorcionismo para sair da bola. Imaginem se ela explodisse nas costas do Baixinho e fosse para fora…

Nunca saberemos. Porque o futebol é imprevisível como a vida. E nas pequenas vitórias do cotidiano dependemos de tanta gente…Assim como os gênios da bola precisaram de companheiros menos famosos para ocuparem seus tronos. Vale a lembrança.

 


Romário, 50 anos: o eterno fazedor de gols
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André Rocha

Romario

Um domingo de dezembro de 1984, o Vasco iria decidir a Taça Rio contra o América no velho Maracanã para definir o Carioca com a dupla Fla-Flu. Dia de acompanhar o irmão cruzmaltino, já que o futebol já era um vicio, e chegar cedo pela importância do jogo. Mas havia um motivo a mais.

“Vamos ver um garoto na preliminar que está arrebentando nos juniores”. Era um baixinho, já com andar de malandro aos 18 anos. Um tanto insolente, preguiçoso, abusado. Mas quando a bola chegava dentro da grande área do adversário….

Voltaria a ouvir sobre Romário no ano seguinte. Sul-Americano sub-20, campeão e artilheiro com cinco gols. No Mundial, cadê? Cortado pelo técnico Gilson Nunes por indisciplina. Perdeu a chance de ser campeão com Taffarel, Silas, Muller…

Típico Romário. Gols, talento, técnica e uma inteligência privilegiada dentro do campo. Tanta segurança que fazia do artilheiro um iceberg à frente do goleiro. Chutando de bico, de peito de pé, de chapa, de cabeça…Fora de campo, porém, o pavio acendia por qualquer coisa.

As escolhas profissionais também foram polêmicas e explosivas. Só Romário voltaria do Barcelona como melhor jogador e campeão do mundo para voltar ao Brasil e com a camisa do Flamengo ter certeza que não concorreria mais ao prêmio. Mas seria feliz.

E rei. Fazer o que quiser sem maiores contestações. Porque ser exaltado como o “gênio da grande área” por ninguém menos que Johan Cruyff na Espanha dizia muito pouco para ele. Afinal, quem é esse holandês?

Confiança. Arrogância. Pensar pela própria cabeça. Contraditório. Talvez por isso tão genial em campo. Esse era Romário. Ídolo máximo de uma geração, não a minha. Mas no imaginário popular há três imagens marcantes: a vitória sobre o Uruguai depois de prometer colocar o Brasil na Copa de 1994, a chegada com o título nos Estados Unidos com a bandeira nacional e o retorno apoteótico no ano seguinte para jogar no time mais popular do país.

Que deixaria em nova polêmica para voltar ao clube que o revelou e construir uma relação de amor e ódio até o milésimo gol. Até o chute derradeiro em 2008, depois da artilharia do Brasileiro pelo Vasco em 2005, aos 39 anos. Sentimentos que caminham juntos quando envolvem Romário. Este que escreve já chorou de gratidão, mas também raiva do eterno camisa onze.

Mas não podia ficar em silêncio e deixar passar os 50 anos do melhor atacante que viu jogar. Ou o eterno fazedor de gols. Para mim, desde 1984. Para sempre Romário.


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