Blog do André Rocha

Arquivo : Romário

De Flávio Costa a Tite, toda escolha é julgada pelo resultado final da Copa
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André Rocha

Foto: CBF/Divulgação

Talvez não houvesse 7 a 1 em 2014 se doze anos antes o chute de Neuville no início do segundo tempo da final da Copa do Mundo, também entre Brasil e Alemanha, não tivesse parado em Marcos e na trave esquerda. Ou alguém imagina Luiz Felipe Scolari voltando tranquilo para seguir sua carreira no país depois de perder a decisão do Mundial na Ásia para uma Alemanha enfraquecida, sem o craque Ballack, e deixando Romário fora da lista final enfrentando um clamor popular poucas vezes visto?

O que seria de Carlos Alberto Parreira em 1994 sem o tetra? Talvez viajasse direto dos Estados Unidos para assumir o Valencia. Certamente lembrariam da falta de um meia criativo como plano B para a irregularidade de Raí. Ou não ter ousado enfiando mais um atacante, Viola ou o menino Ronaldinho, junto com Bebeto e Romário.

Por outro lado, quem lembraria da romaria de políticos em campanha por São Januário na véspera da final de 1950 no Maracanã ainda que o Brasil conquistasse seu primeiro título mundial com um suado empate contra os uruguaios? E quem criticaria Flávio Costa, considerado “carioca” demais pelos paulistas e “vascaíno” demais no Rio de Janeiro?

O mesmo vale para Telê Santana em 1982. Curioso lembrar que até a derrota para a Itália a seleção brasileira era a favorita absoluta ao título, jogando um futebol considerado de outro planeta. Mas bastou ser eliminada para que Waldir Peres, Luisinho, Júnior, Cerezo e Serginho Chulapa fossem contestados como titulares. Meio time. Se Zoff não segurasse sem rebote a cabeçada certeira de Oscar no ataque final e a caminhada fosse segura para o título, estes mesmos jogadores hoje seriam lembrados como os herois de 1970.

Até Zagallo poderia virar alvo se a considerada maior seleção de todos os tempos tivesse sido vencida pelo nervosismo ao sofrer o gol do uruguaio Cubilla que abriu o placar da semifinal no México. Talvez cobrassem Marco Antonio na lateral esquerda no lugar de um Everaldo que se limitava a defender. Ou Paulo César Caju na vaga de Rivelino ou Gérson. Quem sabe até o contestado Dadá Maravilha não seria uma “solução”?

Sem contar Vicente Feola, que apostou em Pelé e Garrincha, dupla que, segundo o psicólogo a serviço da CBD, não teria capacidade cognitiva e equilíbrio emocional para disputar uma Copa. Se a anfitriã Suécia fosse mais um país a usar o fator casa para conquistar um título mundial, algo perfeitamente plausível, é bem provável que por aqui a linha de quatro na defesa e a utilização de um ponta recuando para se juntar à dupla de meio-campistas demorassem bem mais tempo para acontecer. Viraram vanguarda porque o “escrete” voltou com a taça.

No Brasil é corriqueiro dizer que o “se” não entra em campo. Mas a partir do momento que o resultado final norteia toda a análise e surgem os “profetas do acontecido” para dizer o que devia ser feito pelos derrotados e apontar os “segredos” dos vencedores, vale o exercício de imaginar o que seria caso vencidos e campeões trocassem os papéis.

O resultado é consequência das escolhas, sim. Mas também de uma infinidade de fatores, inclusive a sorte. Ou o imponderável. Um detalhe. A bola que bate na trave e quica dentro ou fora da meta. A arbitragem que erra a favor ou contra. Escorregar para fazer ou salvar um gol.

Todas as decisões podem ser questionadas. Antes, durante e depois da competição. O problema está no parâmetro único para este julgamento dos treinadores da seleção brasileira: ganhar ou perder.

Tite pode e diz que aceita ser contestado por não ter levado Arthur e Luan. Ou porque incluiu na lista final Fagner, Taison, Fred…Assume a dificuldade que é escolher. Mas merece respeito por ter trabalhado como nenhum outro treinador na história da seleção brasileira. Ele e sua comissão técnica. Acompanhando jogos in loco, na TV e até treinamentos. Estudando, atualizando, aprimorando. Em menos de dois anos de trabalho. Para enriquecer a análise e embasar as decisões. Com desempenho e resultado em campo sinalizando que a rota está correta. Ao menos até aqui.

Só que nesta terra cinco vezes campeã do mundo a derrota sempre é para si mesmo. Não há mérito do adversário. Basta fazer tudo certo que ninguém nos supera. Ainda que a Alemanha seja campeã do mundo, a Espanha jogue o melhor futebol dos últimos tempos e um português e um argentino estejam fazendo história há uma década. Somos imbatíveis. Se perdermos foi porque alguém errou.

Então se o resultado esperado na Rússia não vier o discurso já estará pronto. Mesmo que Tite mande a campo Roberto Firmino e Douglas Costa, destaques da temporada em Liverpool e Juventus, e eles até saiam do banco para melhorar o desempenho, se vier a eliminação a culpa recairá sobre a presença de Taison entre os reservas.

Usando apenas um exemplo no universo dos clubes, chega a ser engraçado ouvir ou ler que hoje”falta gente no banco para mudar o jogo” e lembrar que em 2006 os torcedores do Internacional explodiram no Orkut, a grande rede social da época, quando Abel Braga chamou o contestado Adriano Gabiru para entrar em campo. Numa final de Mundial de Clubes contra o poderoso Barcelona de Ronaldinho Gaúcho. Podia ter dado bem errado…

Como pode acontecer de tudo na trajetória brasileira em mais uma Copa do Mundo. Só uma coisa não vai mudar. Desde Flávio Costa até Tite. O julgamento será pelo resultado final. E só. Pouco, mas é o que tem para hoje. E ontem. Sempre.


Cristiano Ronaldo, o gênio da grande área no futebol 2.0
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André Rocha

Na décima primeira rodada do Campeonato Espanhol, Lionel Messi tinha 11 gols e Cristiano Ronaldo apenas um. Mesmo assim, o português, segundo o programa “El Transistor”, da rádio “Onda Cero”, teria apostado com colegas do Real Madrid que terminaria a temporada na artilharia da Liga.

Com os quatro marcados nos 6 a 3 sobre o Girona em mais uma noite de gala no Santiago Bernabéu, o CR7 chegou a 22 gols, ultrapassando Suárez e ficando a três de Messi. Faltando nove partidas. São 18 nos últimos 11 jogos, seis nas últimas duas rodadas. Foi às redes nas últimas seis.

O atacante tem motivos para confiar no próprio taco. O início ruim era parte de um período complicado, com as férias adiadas por conta da disputa da Copa das Federações pela seleção portuguesa. Depois, quando voltava aos poucos à equipe merengue na disputa da Supercopa da Espanha contra o Barcelona foi expulso e acabou ficando de fora de cinco jogos. Suspensão por empurrar o árbitro.

Ciente de que com 33 anos os problemas físicos em consequência do desgaste natural de mais de uma década competindo em alto nível pesam, Cristiano Ronaldo se adapta e prepara para estar no ápice do desempenho no momento decisivo da temporada.

Por conta da campanha invicta do Barcelona, o título espanhol é um sonho quase impossível. Mas isso não o faz entregar menos de 100% sempre que está em campo. O que mais impressiona em Cristiano Ronaldo é a capacidade de concentração.

Repare em seus movimentos. Ele sempre busca o desmarque para surgir livre no momento da conclusão. Para isso não descuida da parte atlética. A explosão é fundamental. Também a força mental que parece se alimentar das críticas e do descrédito para se superar. Mas a maior virtude, sem dúvida, é o domínio de todas as ações dentro da área adversária.

Como atua solto como atacante no 4-4-2 do Real, Cristiano alterna os deslocamentos em diagonal, partindo da direita ou da esquerda, com a infiltração pelo centro para finalizar por baixo ou por cima, aproveitando estatura e impulsão. Tem o timing para concluir antecipando na primeira trave ou esperando na segunda para definir.

Com a má fase e a insegurança de Benzema para finalizar, ele acaba sendo ainda mais beneficiado. Além do seu lado um tanto egoísta. O CR7 é como um jogador de vôlei de praia que força para receber o serviço e consequentemente ser o responsável pelo ataque.

O número de assistências vem caindo a cada temporada. 22 em 2014/15, depois 15, 10 e agora sete. A última girando e dando como pivô a Lucas Vázquez o terceiro gol do Real sobre o Girona. Mas quase sempre induz os companheiros a serví-lo. Como a eficiência costuma ser absurda, quem vai negar?

Johan Cruyff definiu Romário, no auge atuando pelo Barcelona, como o “gênio da grande área”. Não estava errado em 1993/1994. Outros tempos, outro jogo. Outra cabeça do Baixinho, que depois da consagração na Copa do Mundo e da conquista da Bola de Ouro voltou para o futebol brasileiro. Romário que admitiu ter disputado uma final de Liga dos Campeões com a cabeça no Mundial nos Estados Unidos – derrota por 4 a 0 para o Milan em Atenas. Alguém imagina Cristiano Ronaldo fazendo o mesmo?

O futebol atual é o dos setores compactos, do pouco tempo e espaço para jogar, da necessidade da decisão correta e da execução precisa. Se é melhor ou pior que os de outras décadas vai de cada um. Mas a evolução dentro e fora de campo é inquestionável. O futebol 2.0.

E nesta Era o gênio da grande área é Cristiano Ronaldo. O maior artilheiro da história do Real Madrid, da seleção portuguesa e da Liga dos Campeões. Ninguém é mais letal no último toque para as redes adversárias. Média de sete finalizações por partida.

Ainda que Messi em sua fase mais goleadora tenha alcançado o recorde de 91 gols em 2012. O argentino tem cabeça de meia, camisa dez. Ele chega na área, não a ronda como um centroavante. Cristiano é sete, mas tem alma de nove. Cada vez mais.

No Brasil respeitam pouco Cristiano Ronaldo. Vira e mexe surgem jogadores do passado se colocando acima e menosprezando seus feitos, como se a concorrência atual fosse fraca. Como se todos tivessem disputado tudo com um Messi. Sem contar Ibrahimovic, Lewandowski, Eto’o, Neymar, Cavani, Suárez, Diego Costa, Muller, Griezmann, Hazard, Aguero, Robben, Ribéry e tantos outros nessa década disputando sempre no topo.

O “robozão” já foi ponta habilidoso. No auge do Manchester United virou um atacante completo. Criativo e artilheiro. Com o tempo foi aprendendo a ser minimalista. Poucos toques, uma pilha de gols. De todas as maneiras. Pé direito, canhota, cabeça. Cobrando faltas e pênaltis. Antes mais regular, agora aparecendo quando é fundamental.

Se não encanta seus olhos, que sua boca respeite Cristiano Ronaldo. Ele faz por merecer jogo a jogo. Título a título. Gol a gol. É duro apostar contra o português.

(Estatísticas: WhosScored.com)


Sai Vizeu e chega Dourado no Flamengo. Afinal, a base é só para vender?
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André Rocha

Este blogueiro se lembra de ver Romário surgindo no Vasco em 1984 e Djalminha no Flamengo em 1990 nas preliminares do Maracanã. Era visível a ansiedade doa torcedores para vê-los nos profissionais e imaginando trajetórias de sucessos nos clubes. Um estreou nos profissionais em 1985 e foi negociado com o PSV em 1988, o outro subiu depois de ser o craque da Copa SP de 1990 e foi saído da Gávea em 1993.

Dois casos com desfechos bem diferentes, mas que em comum entregaram três anos de futebol no profissional a quem o revelou. Saíram, mas ao menos permitiram que o apaixonado pelo clube sonhasse com a possibilidade de construir uma história, mesmo não tão longa.

Hoje esse sonho é ilusão. O garoto surge antes mesmo do sub-20 já com a obsessão de jogar no exterior, os clubes europeus monitoram e contratam na primeira oportunidade. A única chance que resta é o comprador permitir que fique um tempo para ganhar cancha e minutos entre os adultos.

É o que acontece com Vinícius Júnior no Flamengo. Negociado com o Real Madrid e motivo de orgulho para os dirigentes porque o valor que receberam bancaria o orçamento das divisões de base por anos. Mas e o retorno técnico tão curto, com o jogador saindo aos 18 anos?

Ninguém calcula. E acha natural que agora o Flamengo negocie o atacante Vizeu, 20 anos, com a Udinese e contrate o rodado Henrique Dourado, 28, para a mesma função.

Sim, há um cálculo compreensível nesta combinação. Até junho o elenco terá Vizeu e Dourado, além do garoto Lincoln, como centroavantes e depois Paolo Guerrero, caso renove o contrato que vai até agosto, retorna de suspensão no lugar do atleta negociado que parte para a Itália.

Mas não parece loucura o clube vender o jovem promissor para trazer um jogador mais velho que pelas oscilações na carreira não passa de uma grande incógnita? É uma inversão de valores ou este que escreve quer uma utopia?

É óbvio que existe a possibilidade de Vizeu bater, voltar e não vingar como jogador em alto nível e o “Ceifador” empilhar gols e ganhar títulos no novo clube. No futebol tudo pode. Mas cabe a reflexão sobre as divisões de base: é só formar para vender mesmo? Tipo exportação e cada vez mais cedo?

O Santos resistiu com Neymar. Surgiu em 2009, partiu para Barcelona quatro anos depois deixando uma Copa do Brasil e a terceira Libertadores na sala de troféus. Se a negociação não deu o retorno esperado por questões legais, ao menos em campo a resposta foi ótima. Vizeu não é Neymar, talvez nem Vinicius Jr. chegue ao mesmo patamar, mas a lógica teria que ser a mesma.

Se a vontade do jogador tem que prevalecer, por que não buscar um plano de carreira que convença o garoto a ficar mais um pouco? Ou falta vontade para alimentar a criatividade e o único alvo são as cifras?

O futebol evolui e se torna mais complexo em todos os seus aspectos, mas essa nova ordem nacional de vender o jovem para contratar o experiente sempre vai soar muito estranha. Um paradoxo. Desta vez foi o Flamengo. Quem será o próximo?

 


Carpegiani no Flamengo em 2018 é aposta maior que em 1981
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André Rocha

Ao desembarcar no Rio de Janeiro, Reinaldo Rueda disse que foram irresponsáveis e precipitados os que divulgaram a negociação em curso com a federação do Chile. Para horas depois confirmar a saída do Flamengo para comandar a seleção campeã das últimas Copas América.

Se esperou demais pela resposta do treinador colombiano, ao menos o clube agiu rápido e anunciou seu substituto: Paulo César Carpegiani.

68 anos, vindo de um trabalho até interessante no Bahia, embora tenha assumido a equipe na 14º e entregado na 12ª no Brasileiro. Mas nem esta passagem, nem a também curta pelo Coritiba em 2016/17, ambas com a missão de livrar as equipes do rebaixamento, são parâmetros para a sua nova empreitada.

Os motivos são óbvios: visibilidade tão grande quanto as cobranças e maior capacidade de investimento. Mas principalmente a obrigação de jogar como protagonista, no campo de ataque e com posse de bola. Por mais que Coxa e o tricolor baiano tivessem uma proposta ofensiva em muitos momentos, não é o mesmo que carregar a responsabilidade de se impor.

A passagem vitoriosa em 1981/1982 serve ainda menos como referência. Estreante na nova função com apenas 32 anos, comandando aqueles que tinham sido seus companheiros de treinos, jogos e concentrações poucos meses antes. Sucedendo Dino Sani para resgatar os conceitos e a maneira de jogar consagrada por Cláudio Coutinho. A única mudança significativa foi a escalação de Lico montando uma equipe móvel e de toque curto liderada por Zico e com conceitos avançados para a época: sem pontas de ofício, com os laterais Leandro e Júnior liberados para apoiar ao mesmo tempo e um centroavante, Nunes, que não ficava fixo na área e abria espaços para os companheiros que chegavam de trás.

Time que em maio de 1982 “unificou” os títulos, algo só alcançado pelo Santos de Pelé vinte anos antes. Era o último campeão estadual, brasileiro, sul-americano e mundial. Todas as conquistas com Carpegiani. Mas era outro esporte se comparado com o atual. Mais lento, menos intenso e dinâmico.

A segunda passagem, em 2000, foi polêmica pela demissão inexplicável de Carlinhos, campeão estadual e da Copa Mercosul no ano anterior e querido por todos na Gávea. Os jogadores não derrubaram Carpegiani, mas sentiam falta do antigo comandante e, mesmo com o investimento da ISL, um 5 a 1 aplicado pelo Vasco na rodada final da Taça Guanabara com show de Romário num domingo de Páscoa resultou em demissão e fez voltar Carlinhos, que seria bicampeão carioca.

Alguns bons trabalhos, como no Cerro Porteño que o credenciou a comandar a seleção paraguaia na Copa de 1998. Mas também a fama de “Professor Pardal” por improvisações mal sucedidas. Participou da campanha do rebaixamento do Corinthians em 2007. Último título em 2009, o estadual pelo Vitória. Com as transformações recentes no esporte, ainda que no Brasil elas aconteçam de forma bem mais vagarosa, não há como vislumbrar a linha de trabalho do velho/novo treinador rubro-negro.

Carpegiani aprecia jogadores versáteis e exige mobilidade e agilidade na frente. Mas seus times costumam render aproveitando o espaço cedido pelo adversário e não criando brechas para infiltração. Assim foi na execução do 4-1-4-1/4-2-3-1 no Bahia. Ou seja, o mesmo problema dos tempos de Zé Ricardo que Rueda não conseguiu encontrar uma solução.

Sua vantagem em relação à maioria de seus contemporâneos é ser mais antenado com a dinâmica do futebol atual. No Flamengo, o risco de ser tratado com desdém pela lógica boleira de “ganhou o quê?” é menor por ter sido o comandante nas conquistas mais importantes do clube. Foi companheiro no meio-campo e depois treinador de Zico. Certamente terá a aprovação e críticas mais brandas dos ídolos daquela geração, sempre chamados a opinar sobre os rumos do futebol.

Ainda assim, hoje é uma aposta maior do que era há quase 37 anos. Naquele período, sua missão era dar continuidade ao que funcionava. Agora é transformar o jogo burocrático, sem ideias, em algo criativo e moderno. O Flamengo precisava de ruptura, uma guinada de 180 graus na visão de futebol. Na urgência resolveu olhar para o passado, o mais glorioso de sua história.

Uma incógnita do tamanho da missão de Carpegiani.

 


Há um “atalho” para Jair Ventura vencer respeitando o DNA do Santos
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André Rocha

Imagem: Divulgação Santos

Joel Santana adora citar em entrevistas, programas de TV e rádio e eventos dos quais participa o Vasco que comandou em 1987, num período curto mas marcante, como exemplo de time ofensivo que armou para contestar a fama de “retranqueiro”.

De fato era uma equipe com vocação para o ataque. Apesar de ter durado apenas uma Taça Guanabara, a escalação ficou na memória deste blogueiro que viu este time ao vivo, algumas vezes no estádio: Acácio; Paulo Roberto, Donato, Fernando e Mazinho; Dunga, Geovani e Tita; Mauricinho, Roberto Dinamite e Romário.

Mas havia um segredo típico do treinador, já malandro e “matreiro” aos 39 anos em sua primeira chance como treinador no Brasil. Mesmo contra times pequenos em São Januário, a equipe cruzmaltina recuava as linhas cinicamente, Dinamite voltava atraindo a atração dos zagueiros e Geovani ou o próprio centroavante lançava os ponteiros Mauricinho e Romário em velocidade com a chegada rápida de Tita. Assim marcou 24 gols em 13 partidas.

Joel tem razão ao dizer que seu Vasco campeão do primeiro turno e que depois, treinado por Sebastião Lazaroni, conquistaria o estadual tinha, na prática, quatro atacantes. Mas a maneira de jogar era baseada em organização defensiva e contragolpes. Quando precisou sair para o jogo contra o Fluminense ainda com a base tri carioca e campeã brasileira, levou um contundente 3 a 0 em contra-ataques.

A mesma dificuldade que fez penar o Botafogo de Jair Ventura desde que o jovem treinador de 38 anos sucedeu Ricardo Gomes em 2016, na primeira oportunidade no comando de um time profissional. Quase sempre que adiantou suas linhas, tentou trocar mais passes e não definir a jogada mais rapidamente, o desempenho teve uma queda significativa.

O melhor cenário no Estádio Nilton Santos, especialmente na Libertadores, era quando o “abafa” inicial com marcação no campo adversário fazia o alvinegro abrir o placar e depois ficar confortável atraindo o oponente e aproveitando as transições ofensivas em velocidade.

Mesmo sem títulos e a vaga no torneio continental para 2018, o bom trabalho em uma avaliação geral deu visibilidade a Jair. Também despertou o interesse do Santos, agora presidido por José Carlos Peres. Novo mandatário que afirmou várias vezes que o perfil do novo treinador deveria ser de respeito ao DNA ofensivo do clube e trabalho com os jovens oriundos das divisões de base.

A segunda exigência de Peres não é problema para Jair, que, até pelas limitações orçamentárias do Botafogo, deu chances à garotada e obteve boas respostas. No Santos é empreitada que costuma dar certo com quem tem sensibilidade para mandar a campo no momento certo. Mas quanto ao DNA…

O trabalho de Jair não o credencia a armar um Santos que crie espaços nas defesas rivais através de troca de passes com paciência e mobilidade. O treinador sempre afirmou que não mudava sua proposta no Botafogo porque as características dos jogadores não casavam com o estilo. Argumento legítimo, mas quando tentou mudar faltou repertório. Não só do time, mas também do comandante.

O que não significa que não possa se reinventar. Ou entregar um time competitivo, bem coordenado atrás para não fazer o goleiro Vanderlei trabalhar tanto. Mas também é possível ser forte no ataque. Ou no contragolpe. Acionando Bruno Henrique pelos flancos. Mesmo sem os passes de Lucas Lima e a presença de área de Ricardo Oliveira.

No Paulista pode aproveitar o status de “zebra” – já estão chamando de “quarta força”, o que pode ser um bom presságio – por conta da menor capacidade de investimento em comparação com os rivais. Mas na falta de recursos é preciso ter criatividade para repor ausências importantes. Inclusive de Zeca, que interessa ao Flamengo.

Se alcançar vitórias, alguma conquista relevante e muitos gols, mesmo nos contra-ataques, quem vai se importar na Vila Belmiro com uma mera questão filosófica? Nem o novo presidente…

Jair Ventura não conta neste início de trabalho com o talento que sobrava no Vasco de Joel Santana há mais de três décadas, mas pode usar o mesmo “atalho”, com uma dose de pragmatismo, para se adequar respeitando a tradição santista de marcar muitos gols. Com ou sem estrelas.


Adriano Imperador e a síndrome do “ah, se ele quisesse…”
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André Rocha

O leitor deste blog nunca se deparou com uma linha sequer por aqui sobre Adriano Imperador. Simplesmente porque o espaço existe desde 2015 e o atacante não joga profissionalmente, com muito boa vontade, desde a passagem de quatro jogos e um gol pelo Atlético Paranaense em 2014 – ano passado atuou pelo Miami United por duas partidas e fez um gol, mas é difícil incluir seriamente no currículo.

A rigor, o último ato relevante de Adriano foi o gol pelo Corinthians sobre o Atlético Mineiro na virada por 2 a 1 que ajudou demais na conquista do Brasileiro em 2011. Portanto, tecnicamente é um ex-jogador. Como o blog não costuma caçar cliques através da espetacularização de uma história de vida recente que não pertence ao esporte,  não há razão para falar dele. Para o bem ou para o mal.

Mas ele voltou à pauta. A festa de Zico no Maracanã e a presença do “Didico”, mesmo com atraso na chegada, voltou a despertar em muitos a esperança de vê-lo novamente em ação. Com 35 anos e sem jogar regularmente desde 2010. A fé embalada pela nostalgia de um jogo amistoso, com senhores se divertindo no campo, muitas vezes caminhando, numa brincadeira com um fim muito nobre, de solidariedade. Mas que não pode ser levada a sério pensando no mundo real e competitivo.

É claro que Adriano pode construir uma reviravolta épica, um último ato grandioso caso alguém queira pagar pra ver. Mas racionalmente é muito improvável.  Porque ele é mais um grande personagem cuja biografia merece ser transformada em livro e filme. Mas objetivamente não escapa da síndrome brasileira do “ah, se ele quisesse…”

Este que escreve cresceu ouvindo que Garrincha foi melhor que Pelé porque quando a seleção brasileira precisou em 1962 na ausência do camisa dez, o ponta das pernas tortas desequilibrou na conquista do bicampeonato no Chile. Mas uma breve pesquisa do jornalista avaliando feitos, conquistas, regularidade e até o confronto direto nos duelos entre Santos e Botafogo desconstrói o discurso. Porque pelos mais variados motivos Pelé quis mais que Garrincha.

Mas o Mané é mais fácil de ser idolatrado por ser o lado mais fraco na história. O que não exorcizou seus fantasmas, mas naquele breve despertar foi o heroi das massas, identificadas com a trajetória de mais perdas e tropeços que redenções. De fato, é uma história mais sedutora, com doses de drama e humor.

Não destroi, porém, a sensação de talento mal aproveitado, que com foco e profissionalismo poderia ter produzido muito mais. Guardando as devidas proporções e respeitando os contextos, o mesmo poderia ser dito sobre Ronaldinho Gaúcho, Renato Portaluppi, Edmundo, Romário, Sócrates e até Maradona. Todos com algo em comum: em um determinado momento da carreira resolveram levar o futebol a sério, entregando 100%, e naqueles espasmos, uns mais longos e outros nem tanto,  brilharam intensamente.

Por causa disso são colocados em pedestais quase intangíveis, como se caso eles levassem a carreira sempre a sério teriam aquele desempenho do auge até o fim. Sem oscilações. “Se ele quisesse…” ou “se comparar no talento é imbatível”.

Só que talento sem realizações, sem a transpiração para ajudar a inspiração, é estéril. O que o craque inconstante poderia ter produzido só existe na cabeça de cada um. Vale mais a seriedade de Pelé, Zico, Messi, Cristiano Ronaldo, Kaká, Bebeto e outros exemplos de profissionais – também com cada um em seu patamar e em comparação com seus pares contemporâneos. Ainda que a história para contar não seja tão romântica. Afinal, enquanto os “malditos” viviam suas aventuras e vidas erráticas, os trabalhadores estavam treinando ou em repouso.

Adriano parece querer viver uma utopia: passar os dias com seus amigos nas favelas e praias do Rio de Janeiro e no fim de semana se materializar no Maracanã com a camisa do Flamengo fazendo gols e partindo para o abraço dos que o amam. Só que há um processo, como tudo na vida. Muito suor para banhar a magia.

Assim ele parece não querer, ou conseguir. Só resta mesmo a imaginação. “Se ele quisesse…”


Tite é mais 1994 que 1982 e 2002
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André Rocha

No programa “Boa Noite Fox” na segunda-feira, Tite disse que entre vencer como em 1994 e perder como em 1982 ele prefere ser campeão como em 2002. Resposta diplomática, fugindo da grande discussão do futebol brasileiro há mais de 20 anos. Que perdura exatamente porque o quinto título mundial conquistado na Ásia não trouxe respostas e foi tratado como um caso isolado, sem legado. Mesmo com sete vitórias.

Aquela equipe de Luiz Felipe Scolari foi montada às pressas, combinando o time que vencera a Venezuela e garantira a vaga no Mundial apenas na última rodada das Eliminatórias e uma ideia guardada por Felipão desde 1999, quando a seleção, então comandada por Vanderlei Luxemburgo, atropelou a Argentina em Porto Alegre por 4 a 2: unir Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo no ataque.

Tite fala tanto em mérito e vencer jogando limpo, que não quer arbitragem ajudando nem prejudicando. Difícil, então, aprovar uma campanha de 100% apoiada em dois grandes erros de arbitragem: o pênalti sobre Luizão convertido por Rivaldo na virada por 2 a 1 sobre a Turquia na estreia e, principalmente, o gol de Wilmots para a Bélgica no primeiro tempo da partida pelas oitavas de final muito mal anulado pela arbitragem do jamaicano Peter Prendergast, que alegou falta do atacante sobre Roque Junior. Um absurdo que facilitou a construção dos 2 a 0 na segunda etapa em lampejos de Rivaldo e Ronaldo.

Brasil 2002 que dependia dos talentos para decidir na frente. Defensivamente, marcava por encaixe e Edmilson variava como zagueiro e volante de acordo com o número de atacantes do adversário. Fazia perseguições individuais e, consequentemente, sofria com buracos na retaguarda. Tudo que Tite não faz.

Então aparecia o goleiro Marcos para salvar. Inclusive na decisão contra uma Alemanha enfraquecida sem Michael Ballack. Antes dos gols de Ronaldo o arqueiro precisou trabalhar para evitar que o adversário abrisse vantagem. Também brilhou no sofrido primeiro tempo contra os belgas.

A seleção de Tite combina muito mais com a de 1994. Não só por ter Taffarel em sua comissão técnica. Questionada pelos resultados apertados e por ter sido a primeira campeã na disputa por pênaltis na história das Copas. Mas que prezava a segurança defensiva, marcava por zona e trabalhava coletivamente, com bola no chão, para potencializar o talento de Bebeto e Romário no ataque.

Só não teve mais posse de bola que a Holanda nas quartas de final. Jogo com o único erro de arbitragem favorável à equipe de Carlos Alberto Parreira: a falta cavada e cobrada por Branco que colocou a mão no rosto de Overmars. Decisiva nos 3 a 2. Mas nos 90 minutos controlou o jogo, abriu 2 a 0 com tranquilidade e permitiu o empate num lapso de desconcentração.

Nos outros jogos dominou os adversários, mesmo no empate por 1 a 1 com a Suécia na primeira fase ou com um homem a menos após a expulsão de Leonardo na vitória sobre os Estados Unidos no dia 4 de julho. Até na final contra a Itália no Estádio Rose Bowl. Paradoxalmente, Romário, o craque da Copa, podia também ter sido o artilheiro e tornado a campanha mais sólida em resultados. Perdeu vários gols, inclusive dois feitos, na semifinal e na grande decisão, já na prorrogação.

Pela falta de um craque no meio-campo ganhou o rótulo de “retranqueira”. Mas tinha solidez defensiva, mesmo com a zaga formada pelos reservas Aldair e Márcio Santos, e criava tantos pelos flancos com as duplas Jorginho-Mazinho e Leonardo/Branco-Zinho como pelo centro com Bebeto e Romário. Todos alimentados pelos ótimos passes de Dunga, outra peça fundamental subestimada.

Tite também tem mais a ver com o universo de 1994 do que com o de 1982, que tanto exalta. Primeiro porque dificilmente veremos sua seleção na Rússia com uma formação que nunca havia estado em campo, como Telê Santana fez na Espanha com o meio-campo formado por Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico com o suporte de Eder pela esquerda e Serginho na frente.

Muito menos observaremos todos no ataque na base da intuição deixando generosos espaços para os adversários. E como em 2002, erros graves de arbitragem favoreceram o escrete canarinho, como os pênaltis do zagueiro Luisinho não marcados na estreia contra a então União Soviética e o claríssimo de Junior sobre Maradona quando o placar estava 1 a 0 para os brasileiros sobre os argentinos no Estádio Sarriá.

Para alguém com a leitura de jogo do treinador da seleção brasileira a resposta soou estranha. Talvez seja uma maneira de exaltar Felipão e buscar uma reaproximação com quem admirou tanto e depois se transformou em desafeto.  Mas, honestamente, pensando no que aconteceu em campo e na visão de futebol de Tite é difícil encontrar alguma lógica.


Cristiano Ronaldo, o maior artilheiro “minimalista”. Acima de Romário
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André Rocha

Foto: Curto de La Torre (AFP)

“Não entro em campo para jogar bonito ou bem, entro para fazer gols”. A frase é de Romário, em 2002 quando atuava pelo Fluminense. Nove anos antes, foi chamado de “gênio da grande área” por Johan Cruyff.

Genial e genioso, não teve paciência e foco para ser atleta. Só queria jogar. Quando botou na cabeça que seria o melhor do mundo voou no Barcelona e na seleção brasileira campeã mundial de 1994.

Depois seguiu jogando por prazer, administrando a vida noturna e em campo buscando fazer o essencial. Os treinos físicos e os trabalhos coletivos o irritavam. Ele queria exercitar situações de jogo e, especialmente, se preparar para estar bem colocado na área para o último toque. Às vezes com uma dose de sadismo: o chute saía fraco, mas o suficiente para sair do alcance do goleiro em desespero.

Romário não quis se medir entre os maiores por muito tempo. Voltou ao Brasil como melhor do mundo em 1995, depois ainda se aventurou no Valencia, mas a passagem foi breve. Preferiu retornar à terra na qual tinha o trono garantido. Empilhou gols – mais de mil, segundo suas contas – até o fim da carreira. Cada vez tocando menos na bola, mas sempre letal.

Corte para 2017. Na Europa, no mais alto nível. Em mentalidade, a antítese de Romário. Apesar da semelhança na “marra”. O foco absoluto na carreira, na preparação física. No trabalho. Mas com o mesmo objetivo: estar pronto para o golpe final e decisivo.

Cristiano Ronaldo vinha de um período inconstante na temporada. Antes do confronto com o Bayern de Munique pelas quartas-de-final da Liga dos Campeões, apenas um par de gols do maior artilheiro da história da competição em oito partidas. Na liga espanhola, números melhores: 19 gols em 24 jogos. Pouco, porém, para quem se acostumou a manter uma média igual ou superior a um gol por partida.

Pois o “Penaldo”, apelido maldoso pelos gols de pênalti, acusado por seus “haters” de só marcar contra times pequenos e nos jogos menos importantes, foi às redes nada menos que cinco vezes nos dois confrontos com um gigante do Velho Continente. Sem penalidade máxima.

Sim, estava impedido nos dois decisivos, marcados na prorrogação do Santiago Bernabéu. A arbitragem novamente pesou mando de campo, camisa, marca e mídia no principal torneio de clubes do planeta. Uma lástima.

Mas saltou aos olhos mais uma vez a economia eficiente do goleador português que bateu a marca dos 100 gols na Champions. Nos 180 minutos, ele basicamente só se fez notar nos gols. Ainda que seu instinto de ponta o faça buscar a bola nos flancos e arrancar, as jogadas normalmente não têm sequência. Ou a bola é entregue a um companheiro para que o camisa sete parta para a área adversária.

Cristiano Ronaldo sabe que para superar Messi nas premiações individuais precisa dos títulos no Real Madrid e na seleção, mais os gols. Números. Porque não é possível igualar nas jogadas geniais. Por isso a concentração para não desperdiçar oportunidades.

De cabeça, pé direito ou esquerdo, com bola rolando ou não. O ponta que é o melhor centroavante do mundo. Com a experiência de seus 32 anos, 14 atuando na elite do futebol mundial, vai ficando mais objetivo nos gestos técnicos. Enquanto Messi precisa abrir espaços diante de fortes bloqueios defensivos, o português espera. A falha do rival ou a chance cristalina. Sempre bem posicionado.

É bem provável que Cristiano Ronaldo não ganhe uma Copa do Mundo ou chegue perto da milésima bola na rede, mesmo contando jogos não oficiais como Romário. Mas como artilheiro “minimalista”, o homem do toque final, o maior goleador da história do Real Madrid já supera o brasileiro.

Porque quer sempre e não de vez em quando. Entre os melhores, no cenário menos confortável. Fazendo cinco no Bayern, não no Barreira, hoje Boavista, de Bacaxá. Para o mundo ver, não no quintal de casa.


Alô, Tite! Cinco momentos em que o auge da seleção chegou antes da Copa
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André Rocha

Brasil Festa Confederacoes 2005

“Que m… que parou” Assim Tite deixou claro na coletiva que gostaria que as eliminatórias sul-americanas seguissem com rodadas próximas e não só em março, quando a seleção brasileira enfrenta Uruguai e Paraguai. Ainda concordou que seria ótimo que a Copa do Mundo começasse ainda em 2016.

De fato, sem nenhuma equipe tão dominante e absoluta, nem a campeão Alemanha,a fase positiva em desempenho e resultados poderia ser bastante favorável. Mas até 2018 na Rússia a estrada é longa – e com armadilhas. Por isso o blog lembra, até para esfriar um pouco o oba oba,  cinco momentos em que o auge do time canarinho chegou antes da Copa:

1981 – As exibições na Europa

Inglaterra, França e Alemanha. O Brasil de Telê Santana superou três forças do continente como visitante e consolidou sua imagem de favorito à conquista na Espanha. Com golaço de Zico, a primeira vitória de um sul-americano no lendário Estádio de Wembley. Depois 3 a 1 nos franceses no Parc des Princes, com novo gol do Galinho, outros de Sócrates e Reinaldo. Antes da bola rolar, Pelé recebeu o prêmio de “Atleta do Século” do jornal “L’Equipe”.

Por fim, os 2 a 1 sobre a então campeã da Eurocopa de 1980 em Stuttgart, com Waldir Peres defendendo duas cobranças de pênalti do antes infalível Paul Breitner. Triunfos que pareciam consolidar a formação com Paulo Isidoro como falso ponta pela direita e Reinaldo no comando do ataque.

No ano seguinte, porém, Telê precisou encaixar Falcão no meio-campo e sacou Isidoro. Com a queda de produção de Reinaldo e a lesão de Careca, Serginho Chulapa virou titular. Não houve exatamente uma queda técnica, mas a seleção parecia mais ajustada com o time que encantou a Europa um ano antes. Talvez tenha faltado uma passada em Roma ou Milão…

1989 – Copa América e time sólido

Depois de um início com muitas críticas e protestos em Salvador por conta da ausência de Charles ou de algum jogador do Bahia campeão brasileiro de 1988, a seleção de Sebastião Lazaroni encontrou abrigo no Recife para vencer o Paraguai por 2 a 0 e partir para o título da Copa América, que não acontecia há 40 anos, superando os mesmos paraguaios, argentinos (com Maradona) e uruguaios no Maracanã.

A formação com três zagueiros, considerava defensiva, contava com Bebeto e Romário aprimorando o entrosamento dos Jogos Olímpicos de Seul um ano antes e marcando todos os gols das quatro vitórias consecutivas que terminaram em taça.

Com a expulsão de Romário contra o Chile pelas eliminatórias, Careca voltou absoluto e o Brasil garantiu sua vaga na Copa e, com vitórias sobre Itália, anfitriã do Mundial no ano seguinte, e a Holanda campeã da Eurocopa no ano anterior, o time sólido virou favorito. Com Muller no ataque e Alemão no meio na vaga de Silas, eliminação nas oitavas de final para a Argentina de Maradona e Caniggia em Turim.

1997 – Dupla “Ro-Ro” encanta o mundo

Ronaldo e Romário. Dois dos maiores atacantes da história do esporte. Juntos e entrosados. Era bonito de ver na seleção campeã da Copa América disputada na Bolívia. Também da Copa das Confederações, disputada na Arábia Saudita e não França, país sede da Copa no ano seguinte.

Os franceses sediaram um torneio no qual o time de Zagallo também deixou boa impressão, empatando com os anfitriões em 1 a 1, com o lendário gol de falta de Roberto Carlos em Barthez, nos eletrizantes 3 a 3 com a Itália e a vitória por 1 a o sobre a Inglaterra, que conquistou o título.

Mas Romário se lesionou num jogo do Flamengo contra o Friburguense, acabou cortado numa polêmica com Zagallo e Zico que durou anos e uma seleção muito irregular acabou chegando à decisão. Nunca saberemos o que aconteceria um Saint-Denis com o craque do mundial anterior em campo para compensar um Ronaldo combalido contra a equipe de Zinedine Zidane.

2005 – O “quadrado mágico” do “Dream Team”

Campeão mundial em 2002. Conquista da Copa América em 2004 no Peru com time reserva, líder das Eliminatórias e campeão da Copa das Confederações com um espetáculo nos 4 a 1 sobre a Argentina.

Ronaldinho Gaúcho absoluto como o melhor do planeta, já sendo comparado a Pelé e Maradona, e Carlos Alberto Parreira encaixando um “quadrado mágico” com Kaká, Ronaldo e Robinho ou Adriano. Comparações com o “Dream Team” americano campeão olímpico de basquete em 1992. Poucas seleções fecharam um ano tão favoritas ao título mundial quanto o Brasil antes da Copa na Alemanha.

Mas veio a preparação confusa desde Weggis, fruto da euforia e da autosuficiência difíceis de segurar com tantas estrelas…e um futebol paupérrimo desde a primeira fase até cruzar novamente com a França de Zidane, desta vez nas quartas de final, e ficar pelo caminho. Sem o tal quadrado, já que Adriano e Robinho começaram no banco e Juninho Pernambucano iniciou a partida em Frankfurt. De novo a frustração.

2013 – A “fórmula mágica” de Felipão

Hino nacional com a torcida cantando o final à capela, pressão sufocante e gol no início do jogo para deixar o estádio ainda mais elétrico, contragolpes com o talento de Neymar e o faro de gol de Fred.

Não tinha como dar errado na Copa disputada no Brasil para enfim apagar o trauma do “Maracanazo” em 1950. A “fórmula mágica” de Luiz Felipe Scolari deu muito certo e atingiu seu ápice nos 3 a 0 sobre a então campeã mundial e bicampeã europeia Espanha no Maracanã. Com Luiz Gustavo e Paulinho colocando Xavi e Iniesta no bolso.

De novo a Copa das Confederações. Ou seria das Ilusões. De novo o Brasil achou que estava pronto para o Mundial um ano antes, desta vez com o agravante de não se testar nas eliminatórias. Novamente o técnico fechou o grupo e os olhos para nítidas quedas técnicas e físicas. Mais uma vez um torneio que é apenas uma pequena amostragem do que pode ser a Copa empolgou o povo que cantou “O campeão voltou!” O resto é história. Trágica.

 

 


Eder consagrou CR7. Lembre outros coadjuvantes que eternizaram gênios
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André Rocha

Cristiano Ronaldo mudou de patamar na história do futebol com a conquista da Eurocopa. Ficou maior. Se Messi não mais jogar pela seleção argentina, este título do português pode colocá-lo acima do seu grande rival nos tantos rankings e eleições individuais que aparecem por aí e sempre existirão.

Porque comparar é um hábito milenar do ser humano, até para criar modelos, padrões e organizar os pensamentos, se situar.

Só que estamos falando de um esporte coletivo. Não há vitória solitária. A frase “Cristiano Ronaldo ganhou a Eurocopa” passa pelo gol de Eder na decisão. Ou o de Traustason, da Islândia contra a Áustria, que jogou o hesitante Portugal da fase de grupos no chaveamento mais acessível, saindo da rota de Itália e Alemanha antes da final.

Os livros estão repletos de casos de coadjuvantes que salvaram gênios da bola eternizados por suas grandes vitórias. Vamos lembrar:

1 – Pelé/Clodoaldo

Copa de 1970, semifinal contra o Uruguai.  Tensão pelo confronto com o algoz em 1950. Gol de Cubilla em falhas de Brito e Félix, primeiro tempo se arrastando para o final e a lendária seleção brasileira a ponto de se desmanchar mentalmente. Atuação sem brilho do Rei, o grande destaque individual no México.

Gerson, meia-armador e organizador da equipe, está bem vigiado e não consegue abastecer o ataque. Em uma conversa rápida com os companheiros surge a ideia: trocar com Clodoaldo e passar a ser volante, atraindo a marcação e desarrumando o meio-campo adversário.

O camisa cinco se lança ao ataque, recebe lançamento de Tostão e marca o gol de empate que seria a senha para a virada espetacular no segundo tempo, com atuação mágica de Pelé, que quase marcou um gol antológico, fintando o goleiro Mazurkiewicz sem tocar na bola e por pouco não surpreendeu o goleiro numa saída de bola equivocada.

Caminho aberto para o tri e a consagração do camisa dez. Graças ao companheiro menos badalado do Santos.

2 – Maradona/Olarticoechea

A lembrança marcante como coadjuvante do “Pibe” é de Burruchaga marcando o gol do título sobre a Alemanha na decisão no Estadio Azteca. Mas sem a presença do ala pela esquerda de nome esquisito, talvez a história do jogo mais emblemático da conquista da Argentina em 1986 tivesse sido diferente.

Na memória do planeta, um gol de mão e outro simplesmente o mais espetacular de todas as Copas. Maradona, o herói do triunfo que transcendeu o futebol como vingança por conta da Guerra das Malvinas. Só que o jogo não acabou com o segundo toque de Diego para as redes inglesas.

John Barnes entrou aos 29 minutos do segundo tempo. Em 1984 havia marcado um golaço no Maracanã enfileirando brasileiros na vitória inglesa por 2 a 0. Um ponta talentoso, mas descartado por ser negro. Fez a jogada do gol de Lineker, o sexto do artilheiro daquele Mundial. E faria o do empate, em nova arrancada de Barnes, não fosse o toque salvador de Olarticoecha, tirando do camisa dez inglês que já havia se desmarcado do zagueiro Ruggeri.

O detalhe: quem perdeu a bola na intermediária que gerou esse contragolpe foi…Maradona. Já exausto, assim como seus companheiros. Com o empate, como seria a prorrogação? Não houve. Porque Olarticoecha salvou o “Dios” argentino.

3 – Zidane/Blanc

Zinedine Zidane não perdeu a cabeça e foi expulso apenas na tão tola quanto lendária cabeçada no peito de Materazzi na final da Copa de 2006.

Em 1998, na vitória tranquila por 4 a 0 sobre a Arábia Saudita ainda na segunda partida da fase de grupos pisou em um adversário sem nenhuma necessidade e levou o cartão vermelho. Suspenso por dois jogos.

Ou seja, ficou de fora do duelo contra o Paraguai de Chilavert e Gamarra nas oitavas-de-final. Um dos sistemas defensivos mais sólidos e organizados daquela Copa. Zidane viu sua seleção rondar a área, sofrer e ser obrigada a já na primeira disputa eliminatória jogar uma prorrogação com “morte súbita”.

Um gol paraguaio e o camisa dez que pulverizaria o Brasil na decisão e entraria para o olimpo da bola iria para casa. Mas Laurent Blanc – sim, o ex-técnico do Paris Saint-Germain e ótimo zagueiro – fez o primeiro “golden goal” da história das Copas e salvou a pele de seu compatriota. Oito anos depois, Zizou não teve a mesma sorte e a Itália venceu nos pênaltis.

4 – Beckenbauer/Vogts

Até a decisão da Copa de 1974 em Munique, o craque do torneio era Johan Cruyff, gênio do “Carrossel Holandês”, a última grande revolução do esporte arquitetada fora do campo por Rinus Michels.

No primeiro minuto da final, justificou o status com uma arrancada desde a defesa  – era o último homem quando recebeu a bola! – e ser derrubado por Schwarzenbeck. Pênalti convertido por Neeskens. O primeiro a ser driblado foi Bert Vogts. Lateral direito de origem, mas que por ser um abnegado e incansável marcador foi designado para perseguir o falso centroavante holandês por todos os campos.

Mais ou menos o que Gentile faria com Zico e Maradona oito anos depois. Tempos de marcação individual. Deu certo. Vogts anulou Cruyff, facilitou a vida do líbero Franz Beckenbauer, que liderou sua seleção para a virada por 2 a 1 e consagrou o “Kaiser” com seu único título mundial como jogador.

Em 1990 seria o segundo, depois de Zagallo, a ser campeão como jogador e treinador. Talvez a história tivesse sido bem menos generosa com Beckenbauer se não fosse a dedicação de Vogts no cerco a Cruyff.

5 – Romário/Branco

Quando se fala de grandes atuações individuais em Copas do Mundo, as lembranças recaem sobre Maradona em 1986, Garrincha em 1962 e Romário em 1994, tal a dependência da seleção brasileira treinada por Carlos Alberto Parreira.

Nos Estados Unidos, o camisa onze foi protagonista em praticamente todas as partidas. Na final contra a Itália perdeu gol feito, mas carregava o mundo nas costas naquela tarde tórrida no Rose Bowl. Foi corajoso na decisão por pênaltis ao pedir para bater sem ser um dos cobradores escolhidos.

Mas, a rigor, a sólida equipe só se viu fragilizada em um único momento daquela Copa: as quartas-de-final contra a Holanda: 2 a 0, com golaço de Romário, que virou 2 a 2 em poucos minutos por total desconcentração da defesa. Os 24 anos sem títulos pesaram como nunca. Time desorganizado e exposto.

Até Branco cavar uma falta em um lance que mais pareceu infração do lateral esquerdo, que largou a mão no rosto de um adversário. Cobrança forte e precisa, choro do gaúcho que superou problemas físicos para substituir Leonardo, expulso nas oitavas contra os Estados Unidos.

Romário fez contorcionismo para sair da bola. Imaginem se ela explodisse nas costas do Baixinho e fosse para fora…

Nunca saberemos. Porque o futebol é imprevisível como a vida. E nas pequenas vitórias do cotidiano dependemos de tanta gente…Assim como os gênios da bola precisaram de companheiros menos famosos para ocuparem seus tronos. Vale a lembrança.