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Arquivo : Rússia

Rússia segue por seu povo e pela retranca com bola da Espanha
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André Rocha

Aos 12 minutos do primeiro tempo, o gol contra do zagueiro russo Ignashevich em disputa com Sergio Ramos após cobrança de escanteio de Asensio pela direita deixava o duelo pelas oitavas de final à feição da Espanha. Mais uma vez na Copa do Mundo, a bola parada descomplicava o trabalho do time obrigado a atacar contra uma retranca com linhas de handebol.

Mas a Espanha optou desde a escalação inicial por ser cuidadosa com a transição defensiva. Por isso Nacho na lateral direita no lugar de Carvajal, Koke na vaga de Iniesta e Asensio substituindo Thiago Alcântara. Depois do sofrimento na fase de grupos com apenas Busquets protegendo Piqué e Sergio Ramos era até compreensível a cautela na primeira disputa eliminatória.

Só não precisava apelar para uma exacerbação do “tiki taka” da conquista da Copa do Mundo em 2010 e da Eurocopa de 2012 com Vicente Del Bosque. Uma posse defensiva, para evitar os contragolpes do oponente. Estratégia legítima, mas pouco inteligente diante da Rússia assustada e ainda fechada num 5-4-1, só arriscando um pouco com os alas Mario Fernandes e Zhirkov  e Samedov e Golovin tentando se aproximar de Dzyuba no pivô.

Quando Piqué saltou com os braços esticados para bloquear a cabeçada de Dzyuba e cometeu um pênalti tolo convertido pelo centroavante, a Espanha tinha 75% de posse e nenhuma finalização. A Rússia já tinha três, mesmo praticamente sem atacar.

O empate encheu a seleção da casa de confiança para seguir na sua proposta. A Espanha passou a arriscar mais, buscar mobilidade dos meias para acionar Diego Costa e finalizar mesmo sem infiltração. A tônica no segundo tempo e na prorrogação com um pouco mais de agressividade com Rodrigo Moreno e Iago Aspas no ataque, além de Carvajal na lateral direita e Iniesta, que entrou no lugar de David Silva.

Foram 74% de posse no total e 25 finalizações, nove no alvo. Mas nenhuma chance cristalina. Faltou o acabamento preciso – assistência e conclusão. De novo “arame liso”. A Rússia foi cansando física e mentalmente jogando sem a bola. Mesmo com Cheryshev não conseguiu arquitetar o contragolpe esperado. No mesmo 5-4-1 com linhas compactas guardando a própria área até o fim. Correndo e lutando contagiada pelo apoio no estádio em Moscou.

Nos pênaltis, os erros de Koke e Aspas que consagraram Akinfeev. Os russos nem cobraram tão bem, mas De Gea, que levou um frango na estreia em chute de Cristiano Ronaldo, pareceu sem confiança. Explosão no estádio com uma classificação inimaginável antes da competição. Mas justa. Por e para um povo que abraçou o evento.

Porque a Espanha foi covarde quando teve a chance de matar o jogo ou encaminhá-lo muito bem. Preferiu a posse defensiva e inócua. Ou retranca com bola. Mais uma favorita que volta para casa, pagando também pela crise no comando técnico que terminou com Lopetegui demitido e Fernando Hierro como um mero “bombeiro”. Pouco para um torneio tão duro, parelho e imprevisível.

(Estatísticas: FIFA)


Sofrer como favorito e sobrar como “zebra”. Mais Uruguai impossível
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André Rocha

O treinador russo Stanislav Cherchesov facilitou um pouco a tarefa ao rodar o grupo e deixar titulares no banco. Compreensível pela intensidade absurda aplicada pelos donos da casa nas duas primeiras rodadas. Até porque o objetivo inicial era garantir classificação e, na prática, não há muita diferença em enfrentar nas oitavas Espanha ou Portugal, os prováveis classificados do Grupo B.

Mas o Uruguai acabou seguindo um roteiro bem conhecido de sua história. Quando entra como favorito, pela história ou por contar com mais qualidade técnica, costuma se complicar. Ainda mais esta seleção de Óscar Tabárez, dependente de espaços para acionar sua dupla Suárez-Cavani.

Contra Egito e Arábia Saudita, triunfos sem brilho. Na estreia, o sofrimento no gol no final de Giménez. Contra os árabes, expectativa de goleada frustrada mesmo com o gol de Suárez logo aos 20 minutos do primeiro tempo. O peso da responsabilidade não costuma fazer bem. Mais confortável a condição de “zebra” para colocar a tradicional fibra e o conhecido poder de superação.

Contra os russos, se a história de bicampeão mundial não permite ser tratado como uma seleção menor, o desempenho das equipes nas duas primeiras rodadas e, principalmente, a condição de visitante entregava ao Uruguai o papel de coadjuvante no espetáculo. Na prática, porém, os sul-americanos novamente subverteram tudo.

Os gols de Suárez e contra de Cheryshev, desviando chute de Laxalt, em 23 minutos condicionaram o jogo na Arena Samara e a expulsão de Smolnikov aos 36 minutos praticamente tirou qualquer chance de reação russa. O segundo tempo chegou a ter momentos de ritmo de treino.

Mas o Uruguai teve boa atuação, a melhor neste Mundial. Retornando a um desenho costumeiro de Tabárez neste ciclo de 12 anos na seleção: o 4-3-1-2, com meio-campo em losango formado por Torreira à frente da defesa, Nández pela direita, Vecino à esquerda e Betancur mais adiantado na ligação com o ataque. Pelas laterais, Cáceres mais contido à direita no suporte a Coates, substituto de Giménez, e Laxalt com liberdade para descer pelo corredor esquerdo.

O jogo ficou mais fluido, com volume e chegando mais vezes aos atacantes. Foram 56% de posse de bola com 87% de efetividade nos passes e 17 finalizações, sete na direção da meta de Akinfeev. Valeu também para Cavani marcar no fim, fechando os 3 a 0, e tirar a ansiedade do artilheiro sem ir às redes.

Tudo certo para as oitavas. Para ambos. É óbvio que os russos vão deixar tudo em campo contra quem vier, mas parece claro que há a sensação de missão cumprida como anfitriã. Já os uruguaios devem entrar bem confortáveis caso os favoritos confirmem suas vagas definindo a classificação pelo saldo de gols.

Diante de Cristiano Ronaldo e os campeões europeus ou da rediviva Espanha dos craques e da posse de bola, a Celeste jogará serena, no cenário que mais aprecia. Para contrariar as previsões.

(Estatísticas: FIFA)


Ingenuidade árabe é a primeira surpresa da Copa. Melhor para a Rússia
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André Rocha

Juan Antonio Pizzi, campeão da Copa América Centenário com o Chile em 2016, fez treinadores idealistas como Paco Jémez, Juan Manuel Lillo, Zdenek Zeman e o nosso Fernando Diniz parecerem pragmáticos na abertura da Copa do Mundo.

Sua Arábia Saudita contrariou todas as previsões de seleções menos tradicionais e jogando como “zebras” fechando espaços com linha de cinco atrás e muita gente protegendo a própria área. Ainda que já tivesse apresentado ao mundo a proposta de tentar jogar. Adiantou os setores e fez saída “lavolpiana” com o volante Abdullah Otayf recuando para auxiliar os zagueiros no início da construção do jogo.

Mas que jogo? As limitações técnicas saltavam aos olhos. Seria como se em 1999 Vanderlei Luxemburgo escalasse na seleção brasileira os “zagueiros-zagueiros” Odvan e João Carlos e o “volante-volante” Nasa do Vasco para trocarem passes e os demais jogadores no campo adversário esperando a bola chegar. Suicídio.

Melhor para a Rússia, insegura como anfitriã e tensa numa estreia do Mundial que sedia. A equipe de Stanislav Cherchesov, numa variação básica do 4-2-3-1 para as duas linhas de quatro sem bola, foi ganhando confiança nos muitos erros dos árabes e, principalmente, com o gol de Gazinsky logo aos 11 minutos.

Cheryshev, que substituiu o lesionado Dzagoev aos 22 minutos, aproveitou bem os espaços deixados entre os setores adversários para marcar dois gols. Mário Fernandes, o brasileiro naturalizado, teve algum trabalho na defesa com Al Dawsari e Al Faraj, mas mostrou a habitual desenvoltura nas descidas ao ataque aproveitando todo o corredor direito.

E a Arábia tentando jogar num 4-1-4-1 que sacrificava Otayf sozinho na proteção de uma defesa escancarada. Uma seleção mais qualificada teria feito mais que os 5 a 0 – como, por exemplo, o Uruguai de Cavani e Suárez. Mas para os russos os gols de Dzyuba e Golovin foram motivos para muita festa e algum otimismo para a luta pelas duas vagas do Grupo A.

Porque os árabes e Pizzi mostraram que ainda existe bobo no futebol. A ingenuidade foi a primeira grande surpresa da Copa de 2018.


Lopetegui demitido! Surreal crise espanhola aumenta favoritismo do Brasil
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André Rocha

Bastava deixar tudo encaminhado com transparência e bater o martelo depois da Copa do Mundo para o Real Madrid anunciar Julen Lopetegui como o sucessor de Zidane no comando técnico.

Na Europa não costuma ser tão problemático esses anúncios que no Brasil poderiam provocar crises demolidoras. Como Pep Guardiola anunciado no Bayern de Munique e no Manchester City com a temporada rolando e Jupp Heynckes e Manuel Pellegrini ainda treinando as equipes. Ou Antonio Conte acertado com o Chelsea ainda comandando a Itália na última Eurocopa ou Louis Van Gaal fechado com o Manchester United disputando a Copa do Mundo de 2014.

Mas desta vez criou uma quebra de confiança dentro do grupo da seleção espanhola, que já tem suas tensões naturais entre jogadores de Real e Barcelona. Uma inacreditável falta de tato e sensibilidade. Do Real por ter acertado com o treinador sem avisar à Federação Espanhola e anunciado oficialmente às vésperas do Mundial e, principalmente, de Lopetegui por ter aceitado a proposta depois de esconder a negociação, tendo o contrato renovado recentemente até 2020. Atitude infeliz que  ejetou o treinador do comando da Roja. Demissão anunciada na véspera da abertura da Copa.

Algo inédito, que abala muito o favoritismo espanhol. A seleção que apresentou melhor futebol em 2018. Consolidando os dois anos do ciclo de sucessão de Vicente Del Bosque. Praticamente o mesmo tempo de trabalho de Tite. Mas suficiente para resgatar o estilo e o espírito que se esvaiu depois da conquista da Eurocopa 2012. Agora se transforma em um enorme ponto de interrogação.

Pensando com o olhar brasileiro, é um forte concorrente que, ao menos em tese, se enfraquece para a disputa do Mundial. E já estreando contra Portugal de Cristiano Ronaldo. No pior dos cenários de uma derrota no primeiro jogo, ainda assim não deve ser problema conseguir a classificação disputando vaga com Irã e Marrocos. Mas num hipotético duelo nas oitavas contra um Uruguai ou até diante da anfitriã Rússia já pode se complicar.

Porque é uma troca de comando traumática e sem tempo para buscar uma solução bem pensada. Rubiales está no cargo há poucos meses sucedendo Angel Villar. Prometeu anunciar um nome amanhã. Tão caótico quanto surreal.

Perde o Mundial, ganha o Brasil de Tite. Uma possível final pode ter outro adversário. O futuro dirá.

 


Copa do Mundo deve combinar características da última Euro e da Champions
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André Rocha

A Copa do Mundo tem sua abertura na quinta-feira com a anfitriã Rússia diante da Arábia Saudita. O primeiro duelo já deve dar a tônica do que provavelmente será a fase de grupos na maioria das partidas.

Uma seleção favorita pela camisa, história, tradição e/ou um grupo mais qualificado de jogadores contra uma equipe tratada como “zebra” fechando espaços no próprio campo. Com a cada vez mais frequente linha de cinco ou mesmo a tradicional com quatro defensores, porém com os pontas recuando como laterais formando um cinturão guardando a própria área. Todos os movimentos estudados por departamentos de inteligência cada vez mais equipados e qualificados.

Então o time que ataca busca uma jogada individual mais perto da área do oponente, ou uma virada de bola rápida que surpreenda o sistema defensivo. Se não for possível, os chutes de média e longa distância, a jogada aérea com bola rolando ou parada e o desarme no campo de ataque com transição rápida viram as possíveis soluções para ir às redes. Tudo isso atento ao balanço defensivo para não dar ao rival os espaços tão desejados às costas da retaguarda.

Fica tudo muito condicionado ao primeiro gol. Se a seleção que defende marca aí o bloqueio fica ainda mais sólido, com todos os jogadores num espaço de 20 metros em linhas quase chapadas, como no handebol. Já se o favorito abre o placar aumenta exponencialmente a chance do jogo mudar e os espaços e mais gols aparecerem.

Foi o que aconteceu na última Eurocopa, na França em 2016, com algumas partidas de fato entediantes para quem aprecia uma trocação de ataques e gols e se apega ao esporte mais pela emoção que pelo jogo em si. Apenas oito placares com vantagens iguais ou superiores a dois gols num total de 36 partidas. Média de 1,2 por jogo.

Sim, desta vez haverá Messi, Neymar, Suárez, James Rodríguez, Salah, Guerrero, o jovem Mbappé que surgiu ano passado na França e outros talentos desequilibrantes. Mas também um trabalho defensivo ainda mais concentrado e aprimorado para bloquear a técnica e o improviso.

Por outro lado, se os favoritos em cada grupo conseguirem suas classificações o torneio tende a passar por uma transformação, como a que ocorre quase todo ano na Liga dos Campeões. A partir da primeira “seleção natural” o nível já sobe bastante. Mesmo com a presença de algumas surpresas que se conseguem a vaga a partir das quartas é porque houve mérito.

Imaginemos a partir das oitavas os duelos envolvendo as favoritas Alemanha, Brasil, Espanha e França, mais os talentos belgas, o Uruguai de Cavani, Suárez e agora meio-campistas mais qualificados. Inglaterra, Colômbia, Croácia…A Polônia de Lewandowski e a promissora Dinamarca do meia Eriksen. E ainda Messi e Cristiano Ronaldo no Mundial que provavelmente será o último da dupla de extraterrestres jogando no mais alto nível. Conduzindo Argentina e Portugal. Mas ao contrário do universo dos clubes sem o favoritismo de Barcelona e Real Madrid, o que torna tudo mais imprevisível e eletrizante. Mesmo sem o peso de Holanda e Itália, esta a única ausente do seleto grupo de campeãs. Em jogo único. Segue ou vai para casa.

A torcida é para que este que escreve esteja enganado em sua previsão da primeira fase e os jogos eliminatórios sejam acima das ótimas expectativas. Mas caso o blogueiro tenha razão viveremos uma montanha russa de impressões. Para o deleite dos saudosistas – como se nas décadas anteriores os Mundiais não tivessem peladas homéricas, inclusive com a seleção brasileira – e reclamões de plantão na “chata” primeira fase e depois a apoteose de jogaços na reta final deixando a média positiva.

Seja como for, Copa do Mundo é como pizza. Até quando é ruim é boa e vale a pena. O maior evento esportivo do planeta que felizmente acontece de quatro em quatro anos e não se banaliza, ao menos por enquanto. Que tudo enfim comece na Rússia!


Recuperação de Neymar fica cada vez mais distante do “Caso Ronaldo 2002”
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André Rocha

Foto: Ricardo Nogueira/FolhaPress

Quando Neymar fraturou o quinto metatarso do pé direito no dia 25 de fevereiro, muitos no Brasil tentaram ver o aspecto positivo da lesão da maior estrela brasileira: a inatividade no PSG poderia dar uma vantagem física ao atacante na Copa do Mundo, evitando o desgaste da reta final da temporada europeia. Ainda estavam em disputa as oitavas de final da Liga dos Campeões.

Inevitável a lembrança do “Caso Ronaldo 2002”. O craque e artilheiro do penta voou na Copa mais descansado enquanto estrelas como Zidane e Figo chegaram esgotados na Ásia depois da conquista da Champions com o Real Madrid. Mesmo vindo de lesões gravíssimas no joelho em 1999/2000. E outra coincidência: a previsão de três meses de recuperação seria o mesmo período em que o Fenômeno ficou fora dos gramados antes da Copa que o consagrou.

Pois estamos no início de junho e o Brasil fará seu primeiro amistoso já dentro do período de preparação exclusiva para o Mundial na Rússia. Domingo, diante da Croácia em Liverpool. Faltando exatamente duas semanas para a estreia contra a Suíça. E Neymar começará no banco.

O jogador parece tranquilo, sempre sorridente nos treinos. A comissão técnica também traça um planejamento para que ele esteja preparado para a estreia. Mas há uma diferença fundamental que distancia cada vez mais o caso do atual camisa dez da seleção de Ronaldo há 16 anos: o período sem jogar na linha do tempo.

Ronaldo se lesionou em 2000 pela Internazionale. Voltou aos campos em julho de 2001. Até o fim daquele ano disputou 13 jogos. Foi uma lesão na coxa esquerda que tirou de ação o atacante no ano da Copa. Mas voltou no final de março, exatamente num amistoso da seleção contra a Iugoslávia. Luiz Felipe Scolari chamou para testar sua condição.

Tudo Ok, ele seguiu com a preparação e disputou o amistoso contra Portugal em abril que consolidou a ideia de Felipão de reunir Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo na frente e dar liberdade aos alas Cafu e Roberto Carlos em um esquema com três zagueiros. O Fenômeno participou do período de treinamentos e chegou inteiro já para a estreia contra a Turquia.

Já Neymar terá que retomar o ritmo de competição durante a Copa. Depois de três meses sem jogar. Por uma lesão que é considerada “chatinha”. Ou seja, por maior que seja o otimismo, a rigor, é uma incógnita. Impossível prever como retornará a grande referência técnica do grupo convocado por Tite.

Junte a isso a lesão de Douglas Costa, o eventual substituto dentro da ideia de ter Philippe Coutinho por dentro na linha de meias do 4-1-4-1 contra seleções mais fechadas, e temos uma preparação um tanto prejudicada para encarar o mais desafio brasileiro: furar linha de cinco defensores. Algo que objetivamente não vimos contra a Rússia, a ponto do adversário, em casa, se arriscar na frente e ceder os espaços que o Brasil aproveitou para fazer 3 a 0.

A vantagem é que, ao contrário de 2002, o modelo de jogo foi consolidado nas Eliminatórias e a dependência de Neymar não é a mesma dos tempos de Felipão em 2014 e de Dunga nos dois primeiros anos do ciclo até a Rússia. É possível até pensar em um Neymar no ritmo e pronto na última partida da fase de grupos. E voando a partir das oitavas, aí sim com vantagem física sobre Messi, Cristiano Ronaldo, Griezmann, Toni Kroos, Isco…

Não deixa, porém, de ser um grande ponto de interrogação até lá. Assim como Ronaldo em 2002. Que ao menos o final desta história seja o mesmo.


Brasil vence, mas não fura linha de cinco da Rússia como Tite queria
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André Rocha

Não é nada fácil colocar em prática algo tão complexo como o jogo de posição em pouco tempo. Problema do ciclo de apenas dois anos de Tite e uma certa demora para trabalhar esses conceitos, só depois do “susto” contra a Inglaterra. E sempre é mais complicado desequilibrar sem Neymar, o maior talento brasileiro.

Por isso a seleção sofreu no primeiro tempo e, objetivamente, não furou a linha de cinco da Rússia como Tite queria: trocando passes, com meio-campistas buscando jogo entre as linhas e ponteiros bem abertos esgarçando a marcação adversária. Paciência até infiltrar e finalizar.

Imaginava-se os laterais atacando por dentro, mas Marcelo desceu mais aberto. Talvez porque Tite pense em Neymar circulando mais e procurando o centro, criando a necessidade do lateral ser o responsável pela amplitude. Preocupante mesmo foi o desempenho de Daniel Alves. Confuso, errando passes fáceis, arriscando lançamentos sem sentido. Sem contar o posicionamento defensivo às vezes desatento.

Casemiro também merece um capítulo à parte. Na construção das jogadas contribui pouco. E ainda obriga jogadores que neste conceito deveriam receber a bola mais adiantados a voltar para articular. Nesta ideia Fernandinho seria mais interessante. Só que com os lapsos defensivos dos laterais é preciso ter alguém mais seguro na proteção dos zagueiros. Efeito colateral.

Como o Brasil, então, construiu os 3 a 0? Da maneira como o futebol viveu seus melhores momentos nos últimos dez anos: bola parada no gol de Miranda que abriu o placar, completando desvio de Thiago Silva, e a velocidade nas transições ofensivas quando a seleção anfitriã da Copa do Mundo se empolgou com as deficiências brasileiras e largou um pouco o ferrolho.

Deu ao jogador brasileiro o que ele mais precisa: espaços. Aí apareceram os pontas Willian e Douglas Costa em velocidade, Coutinho achou as brechas para conduzir e Paulinho para infiltrar. O meio-campista do Barcelona sofreu o pênalti que Coutinho converteu e completou mais um contragolpe brasileiro.

Alisson, Thiago Silva e Miranda salvaram alguns ataques e o Brasil podia ter marcado mais gols, inclusive na primeira infiltração do jogo, com Gabriel Jesus recebendo passe longo de Daniel Alves. Com as linhas postadas, só a desatenção russa deu chances ao Brasil.

Todo teste é válido para observações. Até para perceber as dificuldades para executar o que se planeja. Contra a Alemanha os desafios serão outros, ainda que Joachim Low arme sua seleção com cinco na defesa. É clássico mundial. Jogo para vislumbrar o que pode vir em fases finais da Copa.

Mas para enfrentar Suíça, Costa Rica e Sérvia na primeira fase as dúvidas continuam. Furar linha de cinco segue como um desafio.

 


Tite acerta nas novidades no meio-campo, mas é incoerente nos “brasileiros”
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André Rocha

A boa notícia da convocação da seleção brasileira para os amistosos contra Rússia e Alemanha é que Tite está com o leque aberto e os olhos atentos. Sem grupo fechado. Até porque há conceitos novos a trabalhar e, a rigor, o que aconteceu nas eliminatórias sul-americanas não pode ser o único parâmetro de avaliação. Está claro que o amistoso em Wembley contra a Inglaterra praticamente reserva mudou muita coisa na cabeça do treinador.

É óbvio que o Brasil pode ser eliminado no Mundial por uma seleção do nosso continente. Jogo único, tensão, os times podem mudar até lá. Mas o parâmetro é a Europa. A maneira como ocupam espaços, se defendem e fazem suas transições ofensivas. Mesmo no mundo globalizado, sem grandes segredos em termos táticos e estratégicos, há diferenças e Tite está atento.

Por isso o acerto nas escolhas do meio-campo para observação. Fred tem as características de “ritmista” que ele quer para o setor. Sabe acelerar e desacelerar o jogo e no Shakhtar Donetsk atua mais numa linha intermediária de articulação. Já Anderson Talisca é meia central de uma linha de três num 4-2-3-1. JJoga mais adiantado, buscando as brechas entre o meio e a defesa do oponente. Assim funciona no Besiktas. Ambos times que se classificaram para o mata-mata da Liga dos Campeões. Fred, inclusive, pode seguir na competição se ultrapassar a Roma no confronto das oitavas de final. Junto com Taison, mais uma vez incluído na lista.

Ou seja, estão no contexto europeu. Da dinâmica, do posicionamento, do movimento buscando espaço entre as linhas, da circulação de bola, da busca do passe que quebra o sistema de marcação posicionado com quatro ou cinco na última linha. Ou seja, da leitura de jogo e dos espaços a ocupar e atacar.

Independentemente do nível técnico, gosto pessoal ou identificação de cada um, é consenso que o futebol jogado aqui parece outro esporte em relação à Europa. O leitor pode questionar se é melhor ou pior. Mas diferente não há dúvidas. Também por causa do clima, gramados, imediatismo e outros problemas bem nossos. Há também dificuldades bem deles…

Mas o que espera o Brasil na Copa é o jeito europeu de jogar futebol. É preciso se adaptar e nada melhor que contar com jogadores que atuam por lá. No mais alto nível, de preferência.

Por isso é difícil entender a opção por Fagner na lateral direita. Com Danilo disponível e que poderia ser mais um jogador a colaborar com Tite para a assimilação do jogo de posição por jogar no Manchester City de Pep Guardiola. Mesmo não sendo titular, teria muito a acrescentar como o reserva de Daniel Alves. Fagner não comprometeu quando o treinador precisou, mas nem vive sua melhor fase para compensar a diferença entre o que é jogado aqui e lá.

Pior ainda Rodrigo Caio, em mau momento no São Paulo disputando o Paulista. A impressão que deixa é que a honestidade demonstrado no caso do fair play com Jô virou uma credencial eterna para o zagueiro. Para arriscar melhor seria insistir com Jemerson, mesmo fazendo temporada bem hesitante no Monaco.

Geromel é um caso à parte. Vive fase esplendorosa no Grêmio. Fundamental na conquista da Libertadores, bom desempenho contra o Real Madrid no Mundial de Clubes e cresce em jogos grandes. Mas taticamente o time de Renato Gaúcho trabalha na defesa quebrando a última linha para os jogadores perseguirem os adversários. Não guarda posicionamento marcando por zona. Pode ser um problema, ainda que o zagueiro tenha atuado por oito anos no futebol do Velho Continente. De qualquer forma vale o teste, por merecimento.

E Luan? Bem, o melhor jogador da última Libertadores e campeão olímpico como um dos destaques em 2016 não convenceu Tite. Segundo ele, nos treinamentos foi “engolido” e não se adaptou à função pelo lado. Por dentro a concorrência é grande, a movimentação é diferente e a atuação sofrível contra o Real Madri, no único contato com o mais alto nível do futebol mundial, depõe muito contra o camisa sete do Grêmio, de talento inquestionável. Mas só isto não basta.

Willian José é mais uma novidade interessante dentro da nova linha de raciocínio de Tite. Se é preciso ter uma referência na área com maior estatura, que seja alguém atuando na Espanha e não Diego Souza, que não é centroavante de ofício e nem titular absoluto do São Paulo – ao menos o comandado por Dorival Júnior. William não é um primor técnico, mas conhece a dinâmica de abrir espaços e atuar como pivô sem deixar cair a intensidade.

Renato Augusto segue na cota da confiança do treinador, mas terá um último teste importante. Se fraquejar e algum novo nome entrar bem corre sério risco até de ficar fora da Copa. No mais, a lamentar a ausência de Neymar para o primeiro experimento do jogo de posição brasileiro. Boa oportunidade para Douglas Costa.

Faltam pouco mais de três meses para a estreia do Mundial da Rússia e Tite ainda carrega muitas dúvidas, de nomes e de jogo. Mesmo com incoerências, pode acreditar, isto é muito bom!


Cristiano Ronaldo segue voando. Portugal deve agradecer ao Real Madrid
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André Rocha

Foto: Ivan Sekretarev (AP Photo)

Na estreia da Copa das Confederações contra o México, Fernando Santos escalou a seleção portuguesa mais experiente, próxima à formação que venceu a Eurocopa.

Só que o futebol é dinâmico e hoje mandar a campo João Moutinho, Nani e Quaresma com Adrien, Bernardo e André Silva disponíveis é um crime lesa-pátria. Fernando efetuou a correção para a segunda partida, contra os anfitriões.

Rússia que respeitou o campeão continental e mandou para o banco as opções ofensivas Poloz e Erokhin, titulares na vitória sobre a Nova Zelândia na estreia por 2 a 0 para montar um 5-4-1/3-4-3 à la Chelsea de Conte para negar espaços com muita compactação defensiva e saída rápida pela direita com Samedov e Golovin.

Mas, do lado oposto, Kudryashov e Kombarov vacilaram na movimentação para fechar a diagonal de Cristiano Ronaldo, que fez o gol único da partida. Jogada iniciada com inversão de Bernardo Silva para o cruzamento de Raphael Guerreiro que encontrou a estrela máxima do torneio.

Infiltrando pela direita. Porque Cristiano convenceu Fernando Santos a repetir na seleção o que Zidane fez no Real Madrid: dar total liberdade ao seu melhor atacante. Antes, o camisa sete iniciava pela esquerda num 4-3-3 e se juntava ao centroavante em um movimento programado. Agora ele atua solto na frente, alternando com outro atacante. No time merengue, Benzema. Na seleção, o jovem e promissor André Silva.

Cristiano Ronaldo voou na reta final da temporada europeia e mantém o desempenho com a camisa de seu país. Antes, chegava esfalfado, destruído por jogar todas para duelar nas estatísticas e recordes com Messi. Agora está inteiro para buscar o que realmente importa: títulos. Não que ele precise da Copa das Confederações para confirmar a Bola de Ouro, que já é dele.

Na recomposição, duas linhas de quatro com André Gomes fazendo a compensação pela esquerda, Bernardo à direita como no Monaco – e como lembra Messi nos gestos técnicos! William e Adrien no centro, protegendo Cédric, Pepe, Bruno Alves e Guerreiro.

Portugal empilhou chances, teve 62% de posse e quatro finalizações a dois, três contra nenhuma no alvo, no primeiro tempo. Finalizou mais oito vezes na segunda etapa, Cristiano Ronaldo perdeu duas chances claras que podiam até ter encaminhado uma goleada.

Acabou sofrendo com uma Rússia sem ideias, mas presença ofensiva com Poloz e Erokhin, mais Bukharov. No abafa, bolas levantadas na área de Rui Patrício, finalizou seis vezes no segundo tempo, subiu a posse para 42% e fez o adversário correr o risco de novo empate no final, como os mexicanos conseguiram.

Ainda assim, a formação inicial é um bom norte para Fernando Santos, que deve agradecer ao Real Madrid. Não só pela “inspiração” no posicionamento de Cristiano Ronaldo, mas pelo planejamento de fazer o craque “fominha” descansar ao longo da temporada e chegar em junho ainda voando fisicamente. No auge, Cristiano pode comemorar mais uma conquista em 2017.

(Estatísticas: FIFA)


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