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Nosso futebol é medroso porque o Brasil sempre tem algo a temer
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André Rocha

“Bola para o mato que o jogo é de campeonato!” Um dos jargões mais conhecidos do futebol do Brasil, com origem na várzea, traz um conceito básico do nosso jeito de ver o esporte: se vale pontos e taça, a ordem é minimizar os riscos. Para que tentar sair tocando e errar?

Um paradoxo no país cinco vezes campeão mundial, que ainda carrega para muitos o rótulo de “jogo bonito”. O detalhe é que por aqui sempre houve uma distinção entre talentosos e os esforçados que deviam correr para os craques decidirem. Os “carregadores de piano” que faziam o serviço sujo, mas entregavam a bola limpinha para quem sabe. No sufoco é chutão para frente mesmo!

Em três momentos da história da seleção brasileira, o medo de ficar para trás foi uma alavanca. Em 1958, a influência dos húngaros na Copa anterior trouxe a linha de quatro na defesa. Somado ao recuo de Zagallo pela esquerda no 4-3-3 que ficou mais nítido quatro anos depois no Mundial do Chile. Cuidados defensivos para o talento de Didi, Garrincha e Pelé decidir na frente.

Mesma lógica de 1970 depois do massacre físico e tático da Copa de 1966 na Inglaterra. O raciocínio básico de Zagallo e comissão técnica era: “se igualarmos na força e na organização venceremos na técnica”. No México, a seleção até hoje considerada a maior de todos os tempos se fechou com todos atrás da linha da bola e matou a grande maioria dos oponentes no segundo tempo em contragolpes velozes.

Depois da traumática Copa de 1982, o mote que encontrou seu ápice em 1994: “vamos fechar a casinha porque se não levarmos gol os nossos craques desequilibram”. Bebeto e Romário nos Estados Unidos. Mas também o trio Ronaldo-Rivaldo-Ronaldinho em 2002 no último título mundial. Decidindo para o Brasil de Felipão com três zagueiros e dois volantes. Sempre a cautela, o pensamento conservador. Fazer o simples no coletivo para que o brilho individual faça a diferença. Não arrisca, só vai na boa.

Lógico que há brilhantes exceções, especialmente nos clubes. Times arrojados, ofensivos como o “Expresso da Vitória” do Vasco nos anos 1940, Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, Cruzeiro de Tostão, o Palmeiras da Academia, o Flamengo de Zico, o São Paulo de Telê Santana e outros. Mas a linha mestra sempre foi “na dúvida, toca pro talento que ele decide”.

Hoje vivemos um dilema na execução desta ideia de futebol. Porque o esporte evoluiu demais nos últimos dez anos, na organização para atacar e defender. Pep Guardiola levou a proposta ofensiva a outro patamar, José Mourinho respondeu com a radicalização do trabalho de compactar setores para proteger sua meta.

Por conta da nossa tradição de acreditar no talento, olhamos com atenção mais para a prática do treinador português. A modernização do “fechar a casinha”. Ser atacado durante a maior parte do tempo virou “saber sofrer”. De Guardiola pegamos a marcação por pressão no campo de ataque. Nenhuma novidade, já que os times do sul têm essa reação após a perda da bola em sua cultura futebolística influenciada justamente pelos europeus.

E na hora de atacar? Ainda acreditamos que é questão de entregar a bola aos mais talentosos. Só que há dois problemas: o primeiro é que os melhores vão para a Europa cada vez mais cedo. O segundo é a relação espaço/tempo. Pela aproximação dos setores e por conta da pressão que o jogador com a bola recebe assim que a recebe é obrigação decidir certo e rápido.

Driblar? Só no local e no momento exatos. De preferência bem perto ou mesmo dentro da área adversária e com apenas um jogador pela frente. Algo cada vez mais raro. Porque para chegar neste ponto é preciso construir a jogada  com precisão e velocidade. Desde a defesa. Toca, se desloca, arrasta a marcação. Ilude com movimentos coletivos, não necessariamente com a finta, a ginga. Pensar no todo e não segmentando os que defendem e atacam. Difícil mudar uma mentalidade de décadas e que foi vencedora tantas vezes.

Mais fácil sair jogando com ligações diretas, tentar ganhar o rebote e avançar alguns metros já no campo adversário. Sem correr o risco de perder a bola perto da própria meta por conta de um passe errado. Minimizar erros, lembra? Por isso vez ou outro ouvimos dos treinadores uma espécie de confissão: “o perigo é quando temos a bola”.

Porque somos medrosos. No futebol e até como nação. Basta olhar a nossa história, quase sempre guiada por temores: da corte portuguesa, da insurreição mineira, do comunismo, do varguismo, da ditadura, do golpe, do imperialismo americano, da volta do partido x ou y ao poder, do fascismo. Votamos por medo, vamos às ruas com ele. Vivemos no susto. Com nossos fantasmas reais ou fictícios.

O futebol é mero reflexo. Por isso os gols estão cada vez mais raros, os jogos mais parelhos definidos em uma bola. Apenas o gol de Barcos para o Cruzeiro nas semifinais da Copa do Brasil, só os dois de Vasco 1×1 Flamengo nos três clássicos estaduais da 25ª rodada do Brasileiro. Poucos se arriscam e quando o fazem viram alvos. Dos rivais, das críticas. Para que mudar? É melhor “trabalhar quietinho”, sem assumir favoritismo. Respeitando todos os adversários. Até temendo. Deixando a bola para eles e ganhando no erro. Mais confortável ser zebra, até para diminuir o pavor da derrota.

O Brasil sempre tem algo a temer. A esperança é que em algum momento desperte o medo de matar a paixão do torcedor e, como consequência, seu interesse por um jogo tão pragmático e que entrega quase nada além do resultado final. Um cenário que já pareceu mais distante.

 

 

 


A “nova ordem nacional” diz que o Palmeiras está bem vivo contra o Cruzeiro
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André Rocha

Ninguém é uma coisa só e, por isso, devemos fugir dos estereótipos. Mas é inegável que Mano Menezes e Luiz Felipe Scolari, embora tenham suas origens no sul do país, têm perfis bem distintos.

Mano é mais “alemão”. Duro, pragmático, frio na maior parte do tempo. Ainda que ande cada vez mais destemperado à beira do campo, especialmente com a arbitragem. Já Felipão é “italiano”: sanguíneo, passional, protetor. Mas igualmente focado no resultado final.

Dois “europeus” que são símbolos do futebol jogado no Brasil. Não por acaso dois dos últimos quatro treinadores da seleção. Como Dunga e Tite, todos do sul.

Porque a “nova ordem nacional” copia o futebol europeu no trabalho sem bola. A sofisticação do “fechar a casinha”. O futebol gaúcho, em especial, sempre teve como característica a organização defensiva, o jogo físico e a pressão sobre o adversário com a bola. Características dos times de Ênio Andrade, Rubens Minelli e outros. Inspirações declaradas da grande maioria dos treinadores bem sucedidos vindos do Rio Grande do Sul.

A vitória do Cruzeiro sobre o Palmeiras no Allianz Parque pela semifinal da Copa do Brasil foi típica. O mando de campo induziu um dos times a avançar suas linhas e arriscar mais. Na entrevista antes da partida, Felipão foi bastante claro: “Precisamos ter cuidados principalmente quando estivermos com a bola”.

Dudu vacilou e o contragolpe foi letal. Toques rápidos, práticos até Barcos tocar na saída de Weverton. Jogada de manual. Com espaços a beleza se faz presente.

Diante de duas linhas de quatro compactas e muita concentração defensiva, o Palmeiras teve dificuldades para impor seu jogo simples e direto. Muitas vezes jogou feio. No geral, o desempenho não foi bom. Porque criar brechas em um “muro” é cada vez mais complexo.

Não basta entregar a bola para o talento resolver na base do drible ou do passe mágico no meio da defesa. Agora há mais corpos condicionados e bem posicionados para bloquear. Em jogos grandes mais ainda. Atacar requer repertório coletivo. Trocas de passes, movimentação, infiltração na hora certa e precisão no acabamento da jogada – assistência e finalização.

Tudo que o time da casa não teve. Mesmo com Lucas Lima no lugar de Thiago Santos aumentando a criatividade e a expulsão de Edilson empurrando ainda mais a equipe mineira para o próprio campo. Com 66% de posse, 19 finalizações contra apenas quatro. Levantando 37 bolas na área de Fábio. Mesmo com bola no travessão em chute de Willian faltou a chance cristalina em jogada construída.

No final, o lance polêmico. Para este que escreve, disputa normal entre Edu Dracena e Fábio. Goleiro não é intocável dentro da área. O árbitro Wagner Reway anulou antes do toque de Antonio Carlos para as redes. Podia ter sido o empate do Palmeiras. Mas também não é o fim do mundo.

O Cruzeiro não tem conseguido se impor no Mineirão. Muito pela proposta de Mano de não correr riscos mesmo quando o cenário é tão favorável. Ficou por um gol de ser eliminado pelo Santos na fase anterior da Copa do Brasil e de ter que disputar com o Flamengo nos pênaltis pela Libertadores.

É melhor se cuidar, porque o Palmeiras está bem vivo e parece mais forte que os outros oponentes eliminados. E Felipão certamente usará o tradicional discurso “contra tudo e todos” para inflamar seu time. Como visitante, a pressão diminui e o jogo costuma fluir melhor. O Cruzeiro tem sentido mais o peso, inclusive do favoritismo. Sempre incômodo no futebol brasileiro.

Confronto muito aberto. A missão do Cruzeiro é entregar em casa a atuação segura que a torcida tanto aguarda. Mas se terminar com a vaga em mais uma decisão do torneio, mesmo com sofrimento, a festa será igual. Porque a exigência no Brasil vai pouco além do resultado final. Mano e Felipão são dois grandes expoentes dessa mentalidade.

(Estatísticas: Footstats)


Onde você estava no dia 24 de janeiro?
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André Rocha

Atlético-MG x São Paulo. Internacional x Flamengo. Palmeiras x Atlético-PR. Ainda Santos x Grêmio na quinta-feira. Jogos grandes e importantes para o Brasileiro. Todos os envolvidos são campeões nacionais. A 23ª rodada é daquelas que num campeonato por pontos corridos podem definir muita coisa. Ainda mais no meio da semana, sem mata-mata e times poupando seus atletas.

Mas será disputada em meio à data FIFA. Muita reclamação dos clubes com jogadores convocados por Tite, porém desfalcados também pelos estrangeiros que servem suas seleções. Everton, Kannemann, Arboleda, Paquetá, Cuellar, Trauco, Chará. Mais as ausências comuns por cartões e lesões. Neste último caso, também pelo acúmulo de jogos na temporada.

As principais ligas paradas para as seleções jogarem e a gente aqui descascando batata no porão. De novo. Por quê?

A resposta genérica é o calendário inchado. Mas podemos ser mais específicos. Onde você estava no dia 24 de janeiro deste ano?

Nesta quarta feira, na qual os times poderiam estar fazendo sua pré-temporada com tranquilidade – em especial o Grêmio, que entrou de férias depois dos demais porque disputou o Mundial de Clubes -, o São Paulo venceu em casa o Mirassol por 2 a 0, o Corinthians fez 2 a 1 sobre a Ferroviária. Mesmo placar da vitória do Palmeiras sobre o Red Bull Brasil no dia seguinte, enquanto o Santos perdia por 1 a o para o São Bento.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro o Flamengo vencia o Bangu por 1 a 0, o Vasco era derrotado pela Cabofriense por 2 a 1 e o Fluminense empatava sem gols com a Portuguesa da Ilha. Na quinta, vitória do Botafogo sobre o Macaé por 2 a 1. No Rio Grande do Sul, o Grêmio perdeu para o Avenida por 3 a 2 e o Internacional foi superado pelo Caxias por 2 a 1. Em Minas, o Cruzeiro enfiava 5 a 0 no Uberlândia e o Atlético, na quinta, perdia para o Villa Nova por 1 a 0.

Você lembra dessas partidas? Com todo o respeito que as equipes de menor investimento merecem, não dá para dizer que foi uma rodada de meio de semana perdida? A maioria de jogos deficitários, alguns com os grandes utilizando reservas e resultados que pouco interferiram no destino dos clubes dentro da temporada. Mesmo para quem valoriza os estaduais, até pelas boas cotas de TV, não dá para negar que foram datas jogadas no lixo.

Pois é…Se o seu time vai jogar hoje ou amanhã dentro de uma data FIFA, na qual poderia estar recuperando e treinando para se fortalecer e apresentar um desempenho melhor na volta do campeonato, é por causa desse 24 (e 25) de janeiro que só alimenta uma estrutura federativa ultrapassada, pouco eficiente e eficaz na gestão do futebol brasileiro.

É chato bater sempre na mesma tecla. Mas enquanto os mesmos erros forem cometidos pelos clubes que aceitam ser explorados e exauridos, nada fazem pensando no todo e só reclamam quando se sentem prejudicados será inevitável. Mais do mesmo. Uma pena.


Sem o típico “pivozão”, Cuca faz o Santos trabalhar para o redivivo Gabigol
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André Rocha

Sem a maratona de Copa do Brasil e Libertadores, a tendência é o Santos de Cuca ganhar corpo. Mesmo sem muito tempo para trabalhar até aqui, já é possível notar uma melhor organização no 4-1-4-1. Sem tantas perseguições longas que quebram a última linha de defesa, prática habitual do treinador.

Nos 3 a 0 sobre o frágil Vasco na segunda partida sob o comando de Alberto Valentim, o time paulista marcou os gols através de combinações pelos flancos como devem ser: aproximação, ultrapassagem e passe para trás do fundo para quem chega de trás. Duas pela direita, uma pela esquerda. Gabriel Barbosa, o Gabigol, chegou três vezes. Agora tem dez gols e é um dos artilheiros do Brasileiro, ao lado de Pedro do Fluminense.

Redivivo por uma ideia de jogo que potencializa suas virtudes. Joga solto na frente, com Sánchez e Pituca adicionando inteligente ao meio-campo e Rodrygo e Sasha fazendo diagonais partindo das pontas para se juntar ao camisa dez na área adversária. Sem a bola, duas linhas de quatro com Sánchez aberto e um dos ponteiros voltando do lado oposto.

Sem o típico “pivozão” que Cuca costuma usar em seus times para disputar pelo alto nas ligações diretas, o Santos troca passes, movimenta as peças e tenta pressionar para roubar a bola na frente e chegar rapidamente à área adversária.

Assim controlou o jogo no Maracanã e foi efetivo. 48% de posse, nove finalizações, cinco no alvo. Três nas redes de Martín Silva, que poderiam ser quatro se Gabriel não perdesse gol feito no contragolpe. Óbvio que o descoordenado trabalho defensivo de um Vasco constantemente mexido, inclusive no comando técnico, colaborou para a fluência ofensiva do alvinegro praiano. Não por acaso é uma equipe constantemente vazada. São 32 sofridos, abaixo apenas de Sport (34) e Vitória (40). Tão preocupante quanto a aproximação do Z-4.

Não tira, porém, os méritos do Santos que pula, ao menos por enquanto, para a primeira página da tabela do Brasileiro. Ainda tendo um jogo a cumprir – justamente contra o Vasco, em São Paulo. Com praticamente um turno a cumprir, o G-6 é meta mais que palpável. Ainda mais com o “sprint” do redivivo Gabigol.

(Estatísticas: Footstats)


Santos é só mais um clube brasileiro preso na bolha de vitimismo e cinismo
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André Rocha

O Santos fez vergonha no Pacaembu. Porque é um clube com imagem a zelar. Da Conmebol não se espera nada.

Do Alvinegro Praiano aguardamos até hoje as providências necessárias. Dele e dos outros grandes. Que rompam com federações, CBF e até Conmebol. Todas elas precisam dos clubes brasileiros. Os que têm torcida, camisa, representatividade, força comercial…e parece que não sabem.

São submissos. Por uma migalha aqui e ali. O Santos aplaudiu a canetada de Ricardo Teixeira unificando os títulos nacionais desde 1959. O Palmeiras suplica à FIFA o reconhecimento da Copa Rio como Mundial. O Flamengo ficou mendigando o título brasileiro de 1987.

E a culpa é sempre dos outros. Certamente vão xingar este que escreve pelo que disse no parágrafo acima. No caso dos mais preguiçosos, só pelo título do post. É sempre contra tudo e todos. Uma paixão cega e, por isso, quase sempre pouco inteligente. Porque iniciativas consistentes para se livrar dos obstáculos não existem.

Transferir responsabilidade é cômodo, uma boa bengala. A bolha do vitimismo é um lugar seguro e quentinho. Assim como a do cinismo de quem debochou do Santos, mas pode ser punido pela fraqueza política da CBF no continente daqui a pouco. Hoje ainda. Assim como muitos santistas riram, por exemplo, da arbitragem mais que questionável de Carlos Amarilla contra o Corinthians pela Libertadores 2013.

A ira de parte da torcida pela punição já era esperada. Mas não pode ser relativizada porque a Conmebol é tendenciosa e corrupta. Sempre foi e não vai mudar enquanto os clubes não agirem. Só que esperar união é utopia em um cenário no qual cada um só está preocupado em resolver o seu problema. E só “não tem sangue de barata” para quebrar estádio. Romper com o status quo? Para quê?

Quem lê este blog há pelo menos dois anos sabe das minhas ressalvas a Cuca. Como treinador, gestor de pessoas e figura pública. Mas ontem foi perfeito na entrevista, assumindo enquanto profissional do clube a cota de responsabilidade deste. Cuca que foi vitimista tantas vezes ontem surpreendeu. Ponto para ele. Que não seja punido pela sinceridade.

Foi só mais uma noite no Pacaembu. Tão lamentável quanto o pensamento minúsculo de quem dirige gigantes que hibernam enquanto os ratos fazem a festa.


Neymar não “mata” centroavantes como Mano Menezes pensa. O problema é outro
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André Rocha

Foto: Antonio Scorza/AFP

Desde quando surgiu em 2009 até agora, Neymar disputou 551 jogos por Santos, Barcelona, Paris Saint-Germain e seleções brasileiras (olímpica e principal). Marcou 337 gols e serviu 180 assistências.

Muitos passes para gols. De André, Zé Love, Fred, Suárez, Messi, Cavani, Mbappé e Gabriel Jesus. Em 2010, seu recorde no Brasil: 20. Em 2016/17, última pelo Barcelona, o maior equilíbrio: 20 gols e 21 assistências, líder neste último quesito entre as principais ligas da Europa.

Logo, fica difícil concordar com Mano Menezes, em sua participação como convidado de Galvão Bueno no programa “Bem Amigos” do SporTV,  quando afirmou que o craque brasileiro “não prepara jogadas para o centroavante, só para ele decidir”. Em resposta a um questionamento sobre a falta de gols de Gabriel Jesus na Copa do Mundo.

Muricy Ramalho, hoje comentarista do canal de esportes, interferiu bem discordando e citando as assistências de Neymar tanto no período em que foi seu jogador no Santos quanto jogando no futebol europeu e na seleção.

Não é este o ponto. Neymar é a estrela e centraliza as jogadas, sim. Também é exímio finalizador e é normal que marque mais gols até que o centroavante. O que prejudica Neymar é o individualismo lá no início do processo. Culpa também de sua formação.

Porque ele é a estrela da companhia desde sempre. Na base foi moldado para decidir, assumir a responsabilidade. “Vai para cima!” é o que ouve desde criança. Por isto escolheu o lado esquerdo do campo para jogar. O flanco é menos congestionado para receber e partir com a bola no seu pé direito para dentro.

Repare no seu comportamento nos gramados do mundo. Recebe a bola e analisa rapidamente se é possível progredir através de dribles. Se está bem cercado pelo adversário, toca para o lado ou para trás e espera. Seu time roda a bola. Se voltar para ele há uma nova tentativa. Caso os caminhos estejam fechados ele desiste de novo.

Até surgir a chance de arrancar em diagonal ou para a ponta depois cortando para dentro quando estiver mais perto da área adversária. Só na zona de decisão é que Neymar resolve se vai passar ou ele mesmo finalizar. Ou seja, o caminho é solitário e individualista, sim. Mas no final ele também pode ser solidário e servir um companheiro.

Onde Neymar erra? Primeiro quando não tem paciência para esperar e tenta abrir a defesa à forceps. Bate no muro e perde a bola ou sofre falta. E exagera na reclamação e nas caras e bocas. Muito esforço para pouco rendimento.

Falta jogo associativo. Tocar a bola, se deslocar, dar opção de passe entre as linhas do adversário. Trabalhar coletivamente na intermediária ofensiva. Ser um elemento importante, mas dentro de um modelo de jogo. O mais próximo que chegou foi no Barcelona que tinha Messi como estrela. Ou no início da “Era Tite” na seleção

No Santos, inclusive com Muricy, com a camisa verde amarela e agora no PSG, a noção de protagonismo que aprendeu cedo: “Toca em mim!” Ele é o ataque. O passe final ou a conclusão. Se Neymar não está no auge físico e técnico fica mais complicado.

Por isso o sacrifício de Gabriel Jesus na Copa do Mundo. Não raro os momentos em que Neymar ficou solto na frente poupando energias. Como no final do trabalho interrompido de Mano Menezes na CBF em 2012 para a volta de Felipão e Parreira. Talvez seja o melhor neste ciclo até 2022 com Tite. Não por “matar” o centroavante, como Mano pensa.

Apenas ganhar jogo coletivo e um talento admirável que define jogadas. Com gols e assistências.

 


Cruzeiro pragmático vence Santos (ainda) sem identidade
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André Rocha

O duelo na Vila Belmiro com chuva pelas quartas da Copa do Brasil marcava a estreia de Cuca no Santos. Contra o trabalho mais longo da Série A: do Cruzeiro, com Mano Menezes no comando técnico desde julho de 2016.

Por isso as linhas avançadas e a marcação por pressão nos primeiros minutos do time mineiro, mesmo como visitante. No 4-2-3-1 habitual, com Robinho pela direita participando mais da articulação e dando liberdade a Thiago Neves e De Arrascaeta para se aproximarem de Hernán Barcos.

Mas aos poucos o Cruzeiro foi cedendo campo ao time mandante. Um pouco de insegurança por conta das derrotas para Corinthians e São Paulo depois das vitórias sobre América e Atlético-PR logo após a volta da Copa do Mundo. Muito pela grande marca de seu treinador: o pragmatismo.

Desde a primeira passagem, ainda em 2015, Mano Menezes deixa a impressão de que pode fazer seu time entregar mais, porém o time prioriza o resultado. Sem o “gol qualificado” no torneio, ir às redes fora de casa nem era tão importante assim.

Mas foi, com Raniel em bela virada. O substituto de Barcos deu mais rapidez e mobilidade no ataque. Não pode ser reserva, pois suas características casam melhor com as dos companheiros. Gol justamente quando o Santos era melhor em campo.

No primeiro tempo parecia clara a falta de identidade em campo do time da casa. O conflito entre a maneira de jogar de Jair Ventura e o que Cuca pensa e aplica em seus times. Por isso a opção pelo 4-1-4-1 que adiantava Renato como um meia ao lado de Diego Pituca e tinha Bruno Henrique pela esquerda no ataque e o revezamento entre Rodrygo e Gabriel Barbosa à direita e no centro do ataque. Dependia fundamentalmente das individualidades.

Na saída de bola, adiantava os laterais Victor Ferraz e Dodô e recuava Renato e Alison para ajudar os zagueiros David Braz e Gustavo Henrique. Dificuldade no início, mas aos poucos foi se ajustando e aproveitando o recuo gradativo do adversário. Cresceu quando Cuca trocou Renato, extenuado no campo molhado, por Daniel Guedes. A primeira intervenção do novo treinador foi deslocar Victor Ferraz para o meio-campo, talvez tendo em mente a prática de Dorival Júnior de fazer seu lateral direito apoiar por dentro.

Por ali saiu a jogada para a finalização de Gabriel que obrigou Fábio a grande defesa. Na primeira descida cruzeirense após o susto, o gol que encaminha a classificação que deve ser confirmada no Mineirão. Triunfo com 38% de posse cinco finalizações, duas no alvo, contra nove santistas – também apenas duas na direção da meta de Fábio. Não foi um grande jogo.

Típico do atual campeão do torneio. Pode não funcionar sempre e até dar a impressão de entregar menos que pode pela qualidade do elenco para o nível do futebol jogado no país. Mas é uma identidade e vem alcançando resultados.

Tudo o que Cuca não tem como “herança”. Por isto precisará de ainda mais trabalho. Recebeu terra arrasada e precisa reorganizar quase tudo. Olhando pelo lado positivo, a provável eliminação da Copa do Brasil pode dar o que o treinador campeão brasileiro de 2016 mais precisa: tempo. Até porque há Libertadores e mais de um turno no Brasileiro para salvar a temporada.

(Estatísticas: Footstats)


Vanderlei Luxemburgo deve parar de reclamar de “hoje em dia”
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André Rocha

Santos e Palmeiras pensaram em Vanderlei Luxemburgo para o comando técnico de suas equipes. Fecharam com Cuca e Felipão, respectivamente. Mais uma oportunidade de reflexão para o treinador veterano, fora do mercado desde outubro do ano passado ao ser demitido pelo Sport. Ou, melhor ainda, de uma reciclagem. Buscar um “turning point” sinalizando mudanças na visão de futebol e no comportamento.

Mas Vanderlei prefere estar na mídia. Quase onipresente nos programas esportivos, em TV aberta e fechada. Agora também no Youtube. Apenas para escancarar sua estagnação. Não sai do lugar porque está com os olhos sempre voltado para o passado. Seus feitos, suas sacadas, conquistas. Todos históricos e respeitáveis, ainda mais se considerarmos de onde veio e que patamar alcançou. Só que passaram.

Quanto ao presente, apenas reclamações. Do “hoje em dia”. “Não temos mais o drible”, “falta talento”, “não há nada de novo em termos táticos”, “tudo isso eu já fazia”.  Também lamenta a geração atual: “só querem saber de rede social”, “são mimados, não aceitam bronca”. Chega ao ponto de criticar os treinadores que estudam. Fazer curso? Nunca! Ele é quem deveria ser o professor…

Vanderlei foi um dos melhores do país, para este que escreve o melhor, quando vivia intensamente o presente e, principalmente, sinalizava o futuro. Queria a seleção brasileira e depois trabalhar na Europa. Conseguiu, porém falhou nos dois projetos. Agora, aos 66 anos, parece sem objetivo. Ou apenas voltar a trabalhar. Afirmou que faria o Santos voar se o clube fechasse com ele.

Mas como acreditar? Se não há nada novo, o que ele pode oferecer de diferente em relação aos concorrentes? Experiência sem conceitos atuais? Liderança sem jogo de cintura para lidar com os atletas? Para complicar, a dificuldade de trabalhar em equipe sem se intrometer nos outros setores do clube. Em especial nas negociações de jogadores.

Luxemburgo corre o risco de entrar no ciclo de Joel Santana: ser tratado como fenômeno de entretenimento e não mais um treinador de futebol. Há muitas pessoas que assistem aos vídeos do seu canal do Youtube para se divertir. De fato, ele sempre foi carismático. Um personagem sensacional. O conteúdo, porém, fica em segundo plano. Até porque ele está em todos os lugares falando as mesmas coisas que diz há anos.

Não há nada de novo no futebol para Luxemburgo. Logo, o Vanderlei não pode apresentar uma novidade ou algo interessante. Para quem quer voltar ao mercado e ser respeitado, o cenário está complexo. Seria melhor preservar a imagem e, principalmente, tentar se atualizar. Não em frente às câmeras ou na internet, mas no campo de jogo.

Afinal, insistir com as mesmas práticas esperando resultados diferentes nunca deu muito certo. Para qualquer um, em qualquer área. Mesmo que em breve apareça um clube interessado, as chances de dar certo são bem remotas. Vanderlei Luxemburgo se acha diferente. O mercado também o vê assim, mas não do jeito que ele pensa. Ainda há tempo para mudar, mas tem que ser rápido.


Santos de Jair Ventura é o time mais previsível do Brasil
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André Rocha

O Santos está nas quartas de final da Copa do Brasil e terminou com líder do Grupo 6 da Libertadores. Começou mal o Brasileiro, mas em seis rodadas e com uma parada para a Copa do Mundo pela frente o impacto é menor. O clube, porém, vive uma crise. Quase existencial.

Jair Ventura fala em “cobrança por show”, Gabigol critica vaias da torcida. Mas o fato é que a desconfiança que existia em relação à capacidade do treinador fazer sua equipe jogar com posse de bola no campo de ataque quando necessário, mesmo com elenco mais qualificado em relação ao Botafogo, se transformou num fato. Inquestionável.

Muito simples jogar tudo na conta da ausência de um “camisa dez” para justificar a criatividade quase nula e dependência de espaços e falhas do adversário para chegar na frente em condições de finalizar. Mas o que falta ao time, de fato, é o chamado jogo entre linhas.

Eduardo Sasha e Gabigol, mais que o garoto Rodrygo, tentam compensar voltando pelo centro para ajudar Vitor Bueno ou Jean Mota na articulação. Mas há pouca mobilidade e fluência entre a defesa e o meio-campo adversários. Sem triangulações, busca do homem livre. O time roda a bola, que chega nos laterais Daniel Guedes ou Victor Ferraz e Dodô e sai o cruzamento. Ou a tentativa de um lançamento às costas da defesa para um dos três atacantes. Ou tentar na bola parada. Sem espaços o time toca, gira e até finaliza, mas não consegue criar a chance cristalina, que facilita a conclusão.

Com isso temos o time mais previsível do Brasil entre os grandes clubes. Não é ser “retranqueiro”, mas sim sofrer para jogar como protagonista. Algo obrigatório na maioria dos jogos pela camisa santista, a condição de grande. O “DNA” vem na carona, na cultura do clube e na preferência do torcedor. A questão está longe de ser estética. O desempenho simplesmente não satisfaz, apesar dos resultados nos torneios de mata-mata que vão dando sobrevida ao treinador.

Jair sempre cita Diego Simeone como sua referência. O treinador argentino também conviveu com problemas para fazer seu Atlético de Madri criar espaços. Resolveu com mudança no perfil de contratações e de captação nas divisões de base, mas também na dinâmica da equipe. Hoje Griezmann é um dos “reis” do jogo entrelinhas na Europa, circulando fácil às costas do meio-campo do oponente. Questão de tempo, aprendizado, evolução.

É óbvio que a volta de Bruno Henrique e a contratação de um meia criativo podem dar um encaixe melhor à equipe e Jair Ventura, um jovem treinador em ascensão, pode evoluir e encontrar soluções criativas tornar a posse de bola da equipe mais objetiva. Mas o rendimento ofensivo até aqui beira a indigência.

Em um grupo que se mostrou acessível, apesar de clubes tradicionais como Estudiantes e Nacional, marcar apenas seis gols no mesmo número de partidas chega a ser ridículo. Nenhum no fraquíssimo Real Garcilaso. Apenas um ponto conquistado contra o time peruano. Justamente pela dificuldade por conta da obrigação de atacar. Sintomático.

Nas estatísticas do torneio continental é apenas o 18º que mais finaliza. Os melhores números estão nos passes certos: 92,2%  de efetividade, o sexto melhor. Muito por conta dos toques laterais, simples. Que são importantes, mas apenas como uma circulação de bola em busca do essencial: a infiltração. De preferência no funil, na zona mais perigosa – pode dentro ou nas penetrações em diagonal. Raridade no alvinegro praiano.

Uma das camisas que mais “fedem” a gol no planeta vive um período de ocaso. O primeiro passo para a mudança é admitir o problema, ainda que só internamente. A carência é de ideias, mais que de peças. O Santos precisa voltar a se reconhecer em campo.

(Estatísticas: Footstats)


É o melhor Grêmio que vi jogar, mesmo que não se torne o maior da história
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André Rocha

Renato Gaúcho costuma dizer que o Grêmio em que jogou nos anos 1980 era melhor que o atual porque na época havia mais craques. Opinião que merece respeito. Afinal, ele atuou em um e dirige o outro. Mas este que escreve viu, inclusive em estádio, jogar a equipe campeã da Libertadores em 1983, finalista do torneio continental do ano seguinte e do Brasileiro em 1982.

Podia ser competitiva, guerreira, eficiente. Mas na bola jogada a equipe atual sobra. Inclusive em comparação com outras, com a também campeã da América em 1995. Começando pelo meio-campo, com Maicon, Arthur e Luan. Jogadores muito melhores que China, Bonamigo, Osvaldo, Vilson Tadei, Tita…Também Dinho, Emerson, Arilson, Luis Carlos Goiano, Carlos Miguel…

É bonito ver o atual campeão sul-americano jogar. E que bom quando Renato Gaúcho coloca os titulares também no Brasileiro. Infelicidade do Santos, que saiu da Arena em Porto Alegre com um 5 a 1, fora o baile.

Não que a equipe de Jair Ventura tenha se entregado desde o início. Procurou fechar bem os espaços, com duas linhas de quatro compactas e deixando Gabigol e a joia Rodrygo mais adiantados. Conseguiu relativamente bem, apesar da dificuldade para sair jogando diante da pressão do time da casa.

Até Maicon colocar no ângulo de Vanderlei em chute de fora da área, mais um recurso de uma equipe cada vez mais completa. Infelicidade no gol de Jean Motta logo na sequência, em chute que desviou em Kannemann. Mas tranquilidade e confiança para seguir jogando e construir a goleada na segunda etapa.

Everton, outra vez Maicon em cobrança de falta, André e Arthur. Jogando ao natural. Tocando, girando, dando opção para o jogador que está com a bola. Execução do 4-2-3-1 cada vez mais ajustada. Acelerando e desacelerando quando preciso. 61% de posse, 18 finalizações – metade na direção da meta de Vanderlei. 574 passes, com 93% de acertos.

O Grêmio gosta da bola e o futebol agradece. Se renderá mais taças o futuro dirá. Mas é o melhor Grêmio que vi jogar, mesmo que não se torne o maior da história.

(Estatísticas: Footstats)