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Foco, tempo e até desespero devem nortear segundo turno do Brasileirão
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André Rocha

O Corinthians está com o Brasileiro nas mãos. Até aqui, pelo menos, é aquele caso em que tudo conspira a favor. Inclusive a pausa entre um turno e outro para recuperar e treinar a equipe por conta da viagem da Chapecoense. Com Grêmio, Santos e Flamengo envolvidos em outras competições e Palmeiras na ressaca da eliminação da Libertadores com 14 pontos atrás que podem virar 17, o atual líder disparado pode até se planejar para buscar também o título da Sul-Americana.

Competição que ainda envolve outros cinco brasileiros. Com dois confrontos nacionais  – Sport x Ponte Preta e Flamengo x Chapecoense – que podem reduzir a quarto para as quartas de final. Mesmo número de times na disputa das semifinais da Copa do Brasil. Um a mais que nas quartas da Libertadores.

Dez times dividindo atenções, outros dez disputando somente o Brasileiro. Com apenas quatro rodadas de dezenove no meio da semana. Parece claro que o foco e o tempo para treinar têm grandes chances de fazer a diferença e até superar o nível técnico e tático das equipes.

Sem contar o desespero. Aquele que, pela dificuldade na tabela, torna o adversário difícil de ser batido. Sim, a fuga do Z-4. Que parece ter o Atlético-GO condenado, mas ainda matematicamente vivo, dependendo de uma arrancada que hoje soa improvável. Um olhar mais atento à tabela, porém, revela que o Fluminense, disputando a Sul-Americana, está apenas cinco pontos à frente da Chapecoense, 17ª colocada e com um jogo a menos.

Qualquer vacilo será fatal. É onde mora a esperança são-paulina. Mesmo com todos os equívocos e com a equipe oscilando até psicologicamente, há qualidade, especialmente de Hernanes desequilibrando nas últimas vitórias, e agora tempo para se preparar. O que Dorival Júnior mais precisava. E nada mais para distrair. Uma sequência de bons resultados e pode até sobrar uma vaga na Sul-Americana.

A disputa pelas seis primeiras colocações ganha novos postulantes, como os Atléticos, mineiro e paranaense. Os únicos junto com o Palmeiras entre os onze primeiros com foco absoluto na Série A. Uma vantagem considerável em meio a tanto equilíbrio, com exceção do Corinthians.

A Primeira Liga não deu certo pelo servilismo dos clubes à CBF e agora se encontra soterrada pelos demais torneios. Para muitos será um engodo, um problema de logística. Hoje soa como um prêmio de consolação, uma taça para não deixar 2017 de mãos abanando. Vale menos que o estadual.

O maior desafio, sem dúvida, é o do Botafogo. Com elenco não tão robusto, um clássico carioca no torneio nacional e um duelo brasileiro na Libertadores contra o Grêmio, uma das melhores equipes do país. A um ponto do G-6, que seria a garantia de volta ao torneio continental independentemente do desempenho no mata-mata. Mas a seis da zona de rebaixamento, o que exige um certo cuidado.

Neste cenário, o returno reserva alguns jogos que serão esvaziados pela utilização de reservas e outros que podem ganhar contornos épicos, com times até com tempo para se preparar, mas tão envolvidos emocionalmente que não resistirão ao maldito “jogo para ganhar e não para jogar”. Valendo a vida. Para quem gosta de emoção e não torce o nariz para a fórmula de pontos corridos será um prato cheio.

Se nos dois extremos da tabela os destinos de Corinthians e Atlético-GO parecem selados, todo o resto carrega suas dúvidas e um contexto construído jogo a jogo. Dependente de outras competições, que agora contemplam toda temporada. Vejamos o que o novo calendário reservará à nossa liga neste primeiro ano.


Com Levir Culpi, Santos cresce no modo “briga de rua”: jogo de trocação
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André Rocha

O Santos de Dorival Júnior prezava posse de bola e troca de passes. Na reta final do trabalho de quase dois anos, o domínio era inócuo pela baixa efetividade da equipe que rodava, tocava, mas não finalizava e deixava a defesa exposta.

Levir chegou e não mudou o DNA ofensivo da equipe, algo até cultural no clube. Nas últimas partidas, incluindo os 3 a 0 sobre o Bahia, até arriscou mais encaixando Emiliano Vecchio no lugar de Thiago Maia, negociado com o Lille.

A execução do 4-3-3, porém, é vertical, direta. Não controla o jogo com a bola, ainda que seja o líder em posse e o segundo em acertos de passes na competição – muito mais pelo volume de jogo e pela vontade de atacar, dentro ou fora de casa, sem contar os altos índices nas quatro partidas ainda sob o comando do antecessor.

Também não há controle de espaços, com o time bem posicionado na fase defensiva. Por isso Vanderlei trabalha tanto e é o melhor goleiro da Série A. Assim como explica os muitos erros de Lucas Lima em lançamentos e cruzamentos. Força a assistência o tempo todo, buscando Kayke no centro do ataque ou os pontas Copete e Bruno Henrique jogando invertidos para infiltrar em diagonal.

O camisa dez tem só dois passes para gols – Bruno Henrique tem cinco. Mas é quem faz o time acelerar o tempo todo, agora com auxílio de Vecchio e a proteção de Yuri à frente da retaguarda.

O Bahia terminou o jogo no Pacaembu lotado com 51% de posse e 14 finalizações contra onze do time mandante. Mas Bruno Henrique aproveitou uma trinca de ações ofensivas rápidas, com pelo menos três santistas na área adversária para resolver a partida. O alvinegro praiano melhorou muito sua relação finalizações/gols: agora precisa de oito conclusões para ir às redes.

O Santos cresce e luta na parte de cima do Brasileiro no modo “briga de rua”. Aposta na trocação, no jogo aberto acreditando na força de seu ataque e no momento espetacular de seu goleiro para derrubar os rivais.  Até porque o mantra atual do futebol nacional é não ficar com a bola e jogar em transições o tempo todo.

Não chega a ser um “Peixe Doido”, como o Galo de Cuca que Levir herdou e manteve a intensidade no topo. Mas torna o time mais imprevisível e eficiente. Dorival caiu com uma vitória e três derrotas. Com Levir são oito triunfos, três empates e apenas um revés. 75% de aproveitamento que só ficaria atrás do líder Corinthians. Não é pouco.

 

(Estatísticas: Footstats)


Levir Culpi pode ser o “Renato Gaúcho” de Dorival Júnior no Santos
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André Rocha

Estrear técnico num período sem tempo para treinamentos, com partidas a cada três dias, é sempre uma missão inglória. Não foi diferente para Levir Culpi que recebeu de Elano o Santos de Dorival Júnior.

No clássico da Vila Belmiro, foi possível ver uma equipe mais atenta, intensa e buscando um jogo mais vertical – na vitória sobre o Atlético-PR já havia chamado atenção a efetividade. Nem sinal da posse estéril de vários momentos da temporada.

Mas a proposta de não ser tão protagonista, definindo mais rapidamente a jogada tem efeitos colaterais, como a pressão palmeirense no segundo tempo que transformou Vanderlei no melhor jogador em campo. Triunfo com arbitragem polêmica no gol de Kayke em disputa com Edu Dracena  Impressão de falta do atacante no zagueiro, que reclamou de infração sobre ele também no segundo tempo, mas na área santista.

Passe de Jean Motta, improvisado novamente na lateral esquerda e sofreu na defesa com os seguidos ataques palmeirenses. Faltou também mais mobilidade de Lucas Lima, vigiado pelo volante Thiago Santos. O 4-2-3-1 mantido por Levir teve problemas de compactação.

O Santos terminou com 49% de posse, apenas oito finalizações contra 14 do rival – cinco a oito no alvo. Por outro lado, foram 29 desarmes certos contra 16. Uma clara mudança de perfil e de postura.

Primeira vitória em clássicos na temporada. De um alvinegro praiano que pode viver experiência parecida com a do Grêmio. Assim como Roger Machado, Dorival Júnior deixa um estilo assimilado num trabalho de quase dois anos, porém desgastado.

Levir não é o maior ídolo do Santos, como Renato Portaluppi no time gaúcho. Mas sua visão de futebol e gestão de vestiário podem trazer ao time um complemento às práticas do antecessor. Alternando a valorização do controle da bola com mais rapidez na transição ofensiva, contundência no ataque e o modo Levir de lidar com todos: direto e franco, sem os laços que Dorival construiu naturalmente pelo tempo de convivência. A concorrência vai ficar mais aberta. o ambiente mais competitivo.

Em junho será difícil ver uma mudança mais significativa, pela sequência de jogos. Por ora, importante é pontuar para mudar o patamar na disputa. Com os nove pontos nas últimas três rodadas, já se aproximou do G-4. Sem alarde, o atual vice-campeão pode voltar a brigar no topo. Com Levir como o “Renato Gaúcho” da Vila Belmiro.

(Estatisticas: Footstats) 


Caiu o “sobrevivente” Dorival Júnior. Afinal, tem hora certa para terminar?
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André Rocha

Assistindo ao clássico paulista em Itaquera, em determinado momento, ainda com o jogo empatado sem gols, veio à mente a seguinte conclusão: “Dorival Júnior não consegue tirar mais nada desse Santos”.

Impressionava como a proposta de jogo baseada em posse de bola tinha se tornado previsível, enfadonha. Sem Lucas Lima também perdia lucidez e rapidez de execução, mesmo considerando a queda de rendimento do meia. Algo precisava ser feito.

A troca no comando técnico foi a primeira opção no meu raciocínio solto, no livre pensar. Logo recriminado pela razão. Afinal, era o trabalho mais longo entre as equipes da Série A. Um “sobrevivente”. E tudo que cobramos é tempo para o treinador implementar seu modelo de jogo e fazer sua equipe jogar “de memória”.

Mas logo em seguida, já com a partida encerrada em dois a zero para o então líder Corinthians, que perderia novamente esta condição no saldo de gols para a impressionante Chapecoense que alcançou o mesmo placar no Mineirão sobre o mesmo Cruzeiro que a eliminara da Copa do Brasil na quinta-feira, veio a reflexão:

Afinal, qual é o momento de se dar por encerrado o ciclo de um treinador? Costumamos dizer que é, no mínimo, uma temporada. Dorival já estava chegando a dois anos. Qual era a margem de evolução? Apesar da campanha invicta na Libertadores, em um grupo fraquíssimo, parecia claro que a equipe não alcançava e dificilmente alcançaria um bom rendimento.

Também por causa do equívoco do comandante santista ao se deixar seduzir pela ideia da formação do time “cascudo” para o torneio continental. A contratação de Leandro Donizete sempre pareceu um ato contrário aos princípios de Dorival e até à história vitoriosa do Santos. Virando as costas para as divisões de base, ainda que a safra atual não seja das mais talentosas. Contratando um volante obsoleto, mas com liderança e “pegada”.

Na realidade do futebol brasileiro, a queda no desempenho em 2017 só se sustentaria com um passado recente de conquistas relevantes. Não foi o caso. Apenas um estadual e a frustração em 2015 com a perda da vaga que parecia certa na Libertadores, via Copa do Brasil ou Brasileiro. Recuperada com a campanha sólida no ano seguinte e a segunda colocação. Impressionante pelas muitas perdas por lesões, negociações, convocações. Faltou, porém, a taça importante para respaldar a paciência.

Porque em qualquer ramo é preciso apresentar resultados que são consequência do bom desempenho. Ou ao menos um rendimento que sugira momentos melhores no futuro. Se não for assim, o que cobrar? Como avaliar? Onde estará o mérito?

É a pergunta que se faz ao observar o Arsenal mantendo Arsene Wenger por mais dois anos. Vai chegar a 23 no comando do time londrino. Mudou o estilo e a história do clube, merece todas as homenagens. Mas a realidade é que entrega menos desempenho e resultados a cada temporada. Cada vez mais irregular e sem conquistas relevantes além das copas nacionais.

A consequência é que os Gunners saíram da rota de grandes contratações, mesmo as promessas, do futebol mundial. Um Vinicius Júnior, por exemplo, não se empolgaria com uma proposta de Wenger. Porque ele tem 16 e há 13 o Arsenal não vence uma Premier League e desta vez nem a classificação para a Liga dos Campeões veio como consolo. E quando os concorrentes fraquejaram na temporada passada, quem aproveitou foi o Leicester City.

Ou seja, a insistência vem sendo nociva ao clube. Qual a margem de crescimento? Imaginar o Arsenal campeão com Wenger é tão improvável quando o Leicester ganhar com Claudio Ranieri. Só uma incrível conjunção dos astros. Muito pouco para a história do clube. Já passou da hora de trocar e o Arsenal parece perdido. Como quem empurra um casamento esfacelado por comodismo e pelo medo do desconhecido.

Por aqui exageram no imediatismo, nas contratações e demissões sem convicção. Mas às vezes funcionam. Como no Grêmio de Renato Gaúcho, que recebeu um time de Roger Machado com muitas virtudes e alguns problemas. O maior ídolo do clube chegou com seu carisma e inteligência para acertar o vestiário, ajustar o que estava errado e hoje o clube celebra o título da Copa do Brasil, a volta à Libertadores e o futebol mais interessante do país no último mês.  Conseguiria com a manutenção de Roger? Nunca saberemos.

O que a experiência de vida diz é que a mudança pode ser muito saudável. Para o casal que se permite tentar ser mais feliz com novos parceiros. Para um livro que necessita de um segundo olhar, como as editoras costumam fazer nas revisões de textos – porque às vezes os olhos estão “viciados” e deixam passar alguns erros. Natural, humano.

Dorival e Santos descruzam seus caminhos. O profissional não deve ficar muito tempo desempregado por sua notória competência. Triste por resultar em um cenário no qual apenas Flamengo e Atlético-GO tenham seus treinadores há mais de um ano. Talvez toda a cadeia produtiva do nosso futebol esteja acostumada com isso – dirigente, jogadores, imprensa e os próprios técnicos. Por isso o pensamento automático do blogueiro. É provável que estejamos todos errados.

Mas se entender com o tempo nunca é fácil. Sempre haverá o “se” em forma de incerteza. Porque a convicção que não vira teimosia é virtude rara, dos sábios e maduros. Quem sabe um dia chegaremos lá?


Cruzeiro tem treinador, elenco e lastro para ser forte nos pontos corridos
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André Rocha

Na Vila Belmiro, passe de Ramon Ábila para Thiago Neves dar a vitória sobre o Santos. Ambos saindo do banco de reservas. Vitória para deixar o Cruzeiro com sete pontos em três rodadas.

Amostragem pequena para 38 jogos. Incógnita ainda maior pelo revés no Mineiro para o rival Atlético e a decepção na Sul-Americana, eliminado nos pênaltis pelo Nacional do Paraguai. Confiança sempre conta. Ainda que o time só tenha sofrido três derrotas no ano.

Mas é inegável que o Cruzeiro tem um considerável lastro de evolução para ser forte nos pontos corridos. Mano Menezes pode armar uma equipe segura atrás e propondo o jogo, como foi em Santos no primeiro tempo. Com a variação do 4-3-1-2 para o 4-2-3-1 utilizada por Botafogo e Grêmio – resgate da seleção brasileira em 2010, com Dunga e Jorginho.

Hudson foi o volante executando a função de meia à direita. A solução é interessante para aproveitar o apoio do lateral – Lucas Romero, no caso. Também fechar o lado forte adversário, como Zeca e Bruno Henrique no Santos. A movimentação deixa um espaço para as infiltrações no setor do centroavante e do meia central ou até de um dos volantes, para mexer com a marcação adversária. Por ali caíram Arrascaeta, Rafael Marques e Henrique, eventualmente.

O time celeste teve volume de jogo, maior posse e acerto de passes. Atacou também pela esquerda com Alisson e Diogo Barbosa. Faltou precisão, porém. Dez finalizações, nenhuma no alvo. Na segunda etapa, Thiago Neves finalizou quatro, acertou duas. Uma decidiu a partida. Não pode ser reserva.

Considerando que time base é utopia no futebol brasileiro de campeonato rolando em datas FIFA, suspensões, lesões, desgaste e, no caso do Cruzeiro, ainda a Copa do Brasil a disputar, o importante é contar com opções em um elenco homogêneo. Mano Menezes tem. A lamentar, Dedé de novo convivendo com lesões. Ainda que Caicedo tenha entrado bem.

É óbvio que na competição por pontos corridos há jogos grandes, decisivos. Mas sem o matar ou morrer. Premiando a regularidade e a consistência, mesmo com algumas tardes e noites ruins. O São Paulo tenso da estreia, o Sport de Ney Franco focado na final da Copa do Nordeste e o Santos hesitante na temporada ainda não são parâmetros para avaliar a real capacidade de crescimento do Cruzeiro

Mas pontuar em dois jogos fora e um em casa, sem perder e sofrendo apenas um gol, é sempre relevante.

(Estatísticas: Footstats)

 


Viva a “Velha Guarda”! Abelão e Renato Gaúcho na liderança do Brasileiro
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André Rocha

Foto: Divulgação Grêmio.

São apenas duas rodadas e a última incompleta, ainda faltando São Paulo x Avaí no Morumbi. A história mostra que qualquer posicionamento inicial na tabela de classificação significa muito pouco. Em 2016, Internacional e Santa Cruz chegaram a disputar a liderança da Série A, para terminarem rebaixados.

Mas não deixa de ser simbólico que Fluminense e Grêmio, comandados por Abel Braga e Renato Gaúcho, exceções à renovação no mercado de treinadores do país, sejam os únicos com 100% de aproveitamento e, por isso, ocupem a liderança – vantagem para o tricolor gaúcho pelo saldo de gols.

E não foram vitórias fáceis, sobre equipes sem maiores aspirações na temporada. O Flu superou Santos no Maracanã e Atlético Mineiro no Independência; o Grêmio venceu o Botafogo em casa e o Atlético Paranaense na Arena da Baixada. Quatro times disputando Libertadores, todos classificados para as oitavas-de-final do torneio continental.

O fato de não pertencerem à escola “atualizada” de técnicos não impede que suas equipes apresentem um futebol moderno. Abel Braga não permite que suas equipes mudem a ideia de jogo quando atuam fora de casa. Em Belo Horizonte, o Fluminense nunca abdicou do ataque, mesmo diante do volume do time da casa.

Fez 2 a 0 no primeiro tempo com as armas de sempre: velocidade pelos flancos, troca de passes com bola no chão no meio-campo, que ganhou Gustavo Scarpa como ponta articulador para auxiliar Sornoza e Wendel, mais o trabalho de pivô de Henrique Dourado, autor do primeiro gol e artilheiro do campeonato com três e da assistência para Richarlison ampliar de cabeça.

Depois sofreu pressão na segunda etapa e resistiu com a bela atuação do jovem zagueiro Nogueira. Sem dinheiro para reforços, a diretoria tricolor convenceu Abel a usar a garotada e vem funcionando. A falta de um elenco mais robusto vem sendo compensando pelas surpresas oriundas de Xerém.

Já Renato Portaluppi fez o Grêmio ressurgir depois da frustração no Estadual, tratado como prioridade mesmo disputando Libertadores – motivado, é claro, pela fragilidade do grupo do time gaúcho no torneio continental.

Arthur foi um achado no meio-campo, com bons passes, poder de marcação e aparições no ataque com qualidade, como no golaço sobre o próprio Fluminense pela Copa do Brasil, após tabelar com Luan e Barrios. Dupla de ataque que vai se afinando no 4-2-3-1 que cada vez mais se trasforma em 4-4-2. Autores dos gols em Curitiba.

Com Ramiro mais meio-campista pela direita apoiando o redivivo Léo Moura e Pedro Rocha mais intenso e vertical, buscando as diagonais a partir do lado esquerdo. O sistema defensivo comandado por Geromel que faz marcação individual, mas novamente Renato consegue que seus comandados estejam tão preparados física e mentalmente que compensem com muito vigor físico.

No duelo pela Copa do Brasil, vantagem de Renato Gaúcho em Porto Alegre. 3 a 1 de virada na melhor partida da quarta-feira, porém um tanto eclipsada por outros confrontos do próprio torneio e, especialmente, pela Libertadores.

Não esperem dos dois treinadores discursos rebuscados, com os termos atualizados dentro da ciência esportiva. Talvez terminem bem longe da disputa pelo título nas 36 rodadas restantes. Em campo, porém, a resposta é mais que positiva no que o esporte tem de eterno: quem joga bem sempre estará mais perto da vitória, por mais caótico que seja o jogo em si.

A diversidade sempre é bem vinda, a experiência nunca deve ser desprezada. Ainda mais quando vem acoplada ao carisma que conquista e convence. Abelão e Renato na ponta de um Brasileiro no ano da graça de 2017. Viva a “Velha Guarda”!


Santos parece ter regredido. Ponte ensina como não ser um time engessado
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André Rocha

Ponte Preta forte pela direita para cima do improvisado Jean Mota, o que prendeu Thiago Maia no meio e isolou Lucas Lima na armação das jogadas. Santos engessado no 4-2-3-1, Ponte mais móvel e criativa no 4-1-4-1. Muito pela agilidade de William Pottker na frente (Tactical Pad).

Segundo o Footstats, o Santos teve 64% de posse de bola no Moisés Lucarelli, mas só finalizou quatro vezes, metade na direção da meta de Aranha. A Ponte Preta concluiu 12, o triplo. Podia ter construído um placar mais confortável para a volta das quartas de final do Paulista.

Porque o time de Dorival Júnior parece ter regredido na execução de seu modelo de jogo. É engessado, previsível. Sem Zeca e com Jean Mota improvisado na lateral esquerda, precisou prender Thiago Maia ao lado de Renato à frente da defesa para conter os avanços de Nino Paraíba se juntando a Clayson e Jadson pela direita no 4-1-4-1 armado por Gilson Kleina.

Com isso, isolou Lucas Lima na articulação. Também porque Vitor Bueno parece ter esquecido que é meia de formação e, empolgado pelos gols marcados desde que se firmou como titular, só quer ficar na frente para buscar a diagonal e finalizar. Não colabora na articulação, circulando para mexer com a marcação adversária.

O Santos só saiu da mesmice quando inverteu os pontas e Bruno Henrique foi para o lado direito. Assim criou para Ricardo Oliveira. À esquerda, Vitor Bueno também apareceu e o time quase empatou.

A Ponte marcou seu gol no primeiro tempo. Atacando pela direita. Belo passe para a infiltração de Nino Paraíba, que serviu William Pottker para marcar seu oitavo gol. Agora é artilheiro isolado do estadual. Goleador que não fica fixo entre os zagueiros. Procura os flancos, abre espaços, induz as diagonais dos pontas Clayson e Lucca e chama a aproximação dos meias Jadson e Elton.

Entre as linhas de quatro, Fernando Bob protege a defesa e distribui o jogo com classe e precisão. Coisa que Renato não conseguiu fazer por outro problema que indica uma involução do alvinegro praiano: a saída de bola.

Agora com os laterais Victor Ferraz e Jean Mota com um posicionamento mais conservador, sem o recuo de Renato e os zagueiros Lucas Veríssimo e David Braz abrindo. Provavelmente para não desorganizar a frágil defesa na perda da bola e transição ofensiva do adversário.

Só que, paradoxalmente, com um meia na lateral esquerda como Jean Mota, a equipe perdeu o trabalho dos laterais por dentro que confundia a marcação e desafogava Lucas Lima. Resultado prático: time mais lento e sem alternativas.

Melhorou a dinâmica no segundo tempo com Kayke e Rafael Longuine – Copete entrou na vaga de Vitor Bueno no intervalo. Mas nada substancial. O jogo não flui, está travado pelas próprias dificuldades santistas.

Já Kleina manteve seu time inquieto. Primeiro com Pottker recuando para jogar à direita e dando mais liberdade para Clayson. Depois, com os veteranos Renato Cajá, em sua quarta passagem pelo clube campineiro, e Wendel, se repaginou num 4-3-1-2, com Cajá mais solto e os atacantes abertos. Mesmo com a saída de Pottker lesionado para a entrada de Lins.

Uma aula de como não se acomodar nem facilitar a vida do oponente. Sem a bola, intensidade e 15 desarmes corretos contra oito. Teve a chance de ampliar, mas ficou no 1 a 0 que parece pouco para o domínio e o controle do jogo.

Pode sofrer no Pacaembu. Principalmente se o Santos aprender e resgatar virtudes que parecem esquecidas em 2017.


Vinícius Júnior não pode ser Neymar. Porque Santos não é Flamengo
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André Rocha

Quando o Flamengo foi eliminado pelo Corinthians nas quartas-de-final da Copa SP – com Vinicius Júnior, joia da base e destaque do time nas fases anteriores, desperdiçando duas chances claras – este que escreve viu no Twitter comentários nesta linha: “Fomos enganados pelo novo Negueba”.

Também foi possível pescar na rua a seguinte observação de um senhor, na casa dos 50 anos: “O garoto até que é habilidoso, mas nunca será um Adílio”.

Vinicius Júnior tem 16 anos, foi artilheiro e craque do Sul-Americano sub-17. Entre os profissionais que trabalham com base – treinadores, auxiliares, observadores, jornalistas – é praticamente uma unanimidade: o menino é um fenômeno, com potencial para no futuro concorrer aos principais prêmios individuais. Não por acaso, Barcelona, Real Madrid e outros gigantes europeus estão atentos aos seus movimentos.

Em campo, a qualidade e versatilidade saltam aos olhos: o menino rende nas pontas, na articulação e até jogando como referência. É habilidoso, inventivo, preciso nos fundamentos e tem leitura de jogo. Serve tão bem quanto finaliza. Forte também na bola parada.

Por isso já desperta uma enorme curiosidade e, por conta da carência de um talento deste quilate no ataque do time principal, especialmente nas pontas, já há um lobby pela utilização do atacante pelo técnico Zé Ricardo.

O Flamengo trata com cuidado. Vinicius não está inscrito nem no Estadual, nem na fase de grupos da Libertadores. Mas o clube também vive um dilema: tem contrato até 2019, tenta prorrogá-lo por mais um ano, mas se demorar muito a utilizá-lo pode vê-lo partir sem entregar todo seu talento entre os adultos.

A grande questão é que o rubro-negro tem certas particularidades: a primeira é contar com a maior torcida do país e tudo que acontece de bom e ruim ganhar uma repercussão imensa. E dentro do imediatismo do nosso futebol, a urgência é amplificada também. Com toda essa expectativa, qualquer jovem talentoso pode ser execrado se errar em um jogo importante. E o erro é parte do processo de amadurecimento.

Por outro lado, se entrar brilhando a euforia pode deslumbrar, desviar o foco. O assédio aumenta exponencialmente e pode distrair até a boa cabeça que Vinicius demonstra ter. É preciso cuidado.

E lembrar que até o maior ídolo do clube não se afirmou imediatamente. Zico estreou no profissional em 1971, com 18 anos, voltou à base e só foi se consolidar aos 21 anos, ganhando o Carioca e sendo Bola de Ouro da Placar. A geração mais vencedora do clube, sem querer, também cria dificuldades.

Porque o Flamengo segue à espera do novo messias que conduzirá o time novamente ao titulo da Libertadores e à hegemonia nacional. Todo garoto que surge é comparado a Zico, Junior, Leandro, Andrade e Adílio. Como Vinicius pelo senhor que ouvi na rua. Essa nostalgia, essa régua tão alta na exigência já custou a carreira de muita gente boa formada na Gávea. Inclusive Negueba, citado no início deste texto. De “alegria nas pernas” a “peladeiro”.

As comparações são inevitáveis também entre Vinícius Júnior e Neymar, que coloca o “Jr.” na camisa e inspirou o menino a fazer o mesmo. Alguns até avaliam o rubro-negro acima do santista, na mesma idade, em capacidade de desequilibrar.

Só que Neymar surgiu inserido em outro contexto. O Santos reverencia Pelé, campeão mundial aos 17 anos pela seleção e multicampeão pelo clube, mas sem tanto saudosismo. Porque existiu a geração de Pita e Juary, a de Diego e Robinho e em 2010 explodiu a de Neymar e Ganso. Com Robinho, que poderia ser um parâmetro de comparação, de volta a Santos e aceitando ser coadjuvante, no campo, das duas jovens estrelas nas conquistas da Copa do Brasil e do Paulista.

A repercussão é diferente, a cobrança também. Por ter dado certo outras vezes, quando surge um garoto talentoso ele ganha carinho e confiança para se desenvolver. Está no DNA do alvinegro praiano o apoio aos “Meninos da Vila”. Se errar a crítica virá, mas não tão pesada. Sem massacre.

Por isso Vinícius Júnior pode conquistar na próxima década os prêmios que hoje Messi e Cristiano Ronaldo negam a Neymar e a qualquer terráqueo que jogue futebol. Mas certamente construirá sua trajetória de maneira bem diferente do atual camisa onze do Barcelona.

Porque Santos e Flamengo são gigantes vencedores do Brasil, mas têm diferenças cruciais. Na história, na quantidade de gente envolvida em suas coisas. Especialmente no trato com os garotos. Por isso a cautela com Vinícius precisa ser triplicada. Até excessiva. Para evitar um novo erro que seria cruel para o clube e para o futebol brasileiro.


Papo com Dorival Júnior: jogar com qualidade, mas guerrear na Libertadores
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André Rocha

Dorival_Junior

O Santos teve momentos de espetáculo nos 6 a 2 sobre o Linense na estreia do Paulista na Vila Belmiro. Sinais do amadurecimento da proposta de Dorival Júnior, que sempre acreditou em um futebol bem jogado, mas estudou para aperfeiçoar seus métodos e o próprio modelo de jogo.

Depois de uma sessão de treinamentos na semana que mais gosta – “cheia”, capaz de recuperar e trabalhar para recuperar os jogadores -, ele atendeu gentilmente ao blog para falar de suas ideias e ideais.

BLOG – O Santos faz o jogo posicional (o Caio Gondo explica AQUI), valorizando posse de bola, saída da defesa com qualidade e trocando passes no campo adversário. Raridade, ainda, no Brasil. De onde vem essa convicção se no país a maioria dos times vencedores atua de forma diferente?

DORIVAL JÚNIOR – Isso veio de uma necessidade minha ao ver o futebol brasileiro com o jogo tão descompactado, com muitos espaços entre os setores, ligações diretas dos zagueiros para se livrar da bola. Incomodava demais, não sentia prazer assistindo.

BLOG – Seu time joga com os laterais Victor Ferraz e Zeca atacando por dentro. Guardiola trabalhava assim no Bayern de Munique e agora, eventualmente, no Manchester City. Qual é a vantagem?

DORIVAL JÚNIOR – Na verdade eles flutuam, ora abertos, ora fechando. A vantagem é dificultar a marcação do adversário, porque eu posso recuar os jogadores de meio-campo para participar da saída de bola com bom passe, os pontas abrem e eles infiltram por dentro. É difícil de marcar, principalmente quando eles entram na área. O importante é que os movimentos estejam sincronizados, com reação rápida à mudança de comportamento. Perdeu a bola, já pressiona para retomá-la.

BLOG – Como você convence os jogadores, muitos deles acostumados com uma ideia diferente – marcação individual, zagueiros muito próximos da própria área para “fechar a casinha”? Não há conflito?

DORIVAL JÚNIOR – Vou responder usando o exemplo dos goleiros: eu não precisei pedir ao preparador deles que trabalhassem mais com os pés. Eles mesmos sentiram necessidade e hoje eu tenho o Vanderlei que antes completava três passes certos e agora acerta 27, já chegou a 33 em um jogo.

BLOG – As estatísticas ajudam?

DORIVAL JÚNIOR – Números, gráficos, imagens de outras equipes no mundo. Ações, passes, acertos, erros. Os jogadores entendem e eles mesmos criam desafios e metas entre eles. Querem saber o que fizeram de certo e errado. Nós mudamos o aquecimento, trocamos alguns trabalhos. É gratificante ver a mudança.

BLOG – Do que você mais se orgulha em todo esse processo?

DORIVAL JÚNIOR – 90% dos nossos gols são de jogadas trabalhadas. Dificilmente temos um gol “achado”. Procuramos manter a velocidade no ataque, que é fundamental. Na defesa melhoramos o desempenho nas jogadas aéreas com bola parada. No Brasileiro sofremos 11 gols de bolas paradas, sendo três de pênalti. Melhoramos os números fora de casa e fomos protagonistas, propusemos o jogo na grande maioria das partidas do Brasileiro.

BLOG – Ninguém joga todas as partidas da temporada da mesma forma. Tem o clássico mais duro, o time com desvantagem numérica por expulsão, o adversário que se impõe em casa…Há um “Plano B” para essa sua filosofia?

DORIVAL JÚNIOR – O modelo não é e nem pode ser imutável. Em alguns jogos teremos que nos resguardar. Mas essa nossa proposta já foi testada em várias partidas, dentro ou fora de casa. Nós perdemos para o Atlético-PR fora com Yuri na zaga e controlando o jogo, acabamos sofrendo o gol em bola parada. Por outro lado, já vencemos com gol do Vitor Bueno iniciado com um passe vertical do Lucas Veríssimo. Eu prefiro investir na qualidade.

BLOG – Como se adapta uma proposta de jogo inspirada nos grandes times da Europa, com temperatura amena e gramados impecáveis, à nossa realidade com calor e alguns campos impraticáveis?

DORIVAL JÚNIOR – É uma dificuldade mesmo, principalmente nos estaduais. Não há padronização e alguns ficam bem prejudicados pelas chuvas que são muito freqüentes nesta época do ano. Sem contar o calendário. Mas o Santos tem respondido muito bem. O maior problema é quando não há tempo para treinar, só recuperar os atletas.

BLOG – Na Libertadores a ideia é manter a proposta dentro e fora de casa?

DORIVAL JÚNIOR – Não vamos mudar, mesmo considerando que é outro nível, outra maneira de jogar, muitas vezes com arbitragem passiva, permitindo a violência. Vamos jogar, mas saber guerrear também, se for preciso.


Leitura de jogo: o maior obstáculo para Gabigol ganhar espaço na Inter
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André Rocha

gabigol inter

Muito já se debateu sobre as dificuldades e as poucas oportunidades de Gabriel Barbosa, o Gabigol, na Internazionale. Talvez uma negociação precipitada para um jovem de 20 anos. Ou o erro foi na escolha da equipe, que tem Icardi como titular absoluto no ataque.

Mas a própria observação de que o brasileiro concorre com o jogador mais avançado do 4-2-3-1 do técnico Stefano Pioli já mostra a visão que o clube tem do jogador. Mesmo se destacando no Santos como um ponteiro canhoto pela direita que busca o centro para se juntar ao centroavante e finalizar, o encaixe possível no momento é na frente.

Exatamente por conta da maior dificuldade que Gabigol apresentou ao se deparar com defesas compactas que trabalham com marcação por zona em um nível mais alto que o futebol apresentado por aqui: leitura de jogo.

Em resumo, a capacidade de resolver em campo que espaço ocupar ou atacar, a maneira de se desmarcar, o trabalho coletivo procurando os companheiros para tabelas e triangulações, a compreensão da hora de driblar, passar ou finalizar na zona de decisão, próximo ou dentro da área adversária.

A final olímpica no Maracanã é um bom exemplo. Mesmo descontando a tensão pela responsabilidade de conquistar o sonhado ouro em casa, Gabigol participou pouco do jogo trabalhando aberto pela direita. Teve mérito na entrega para cumprir a função tática na recomposição, mas penou diante dos setores bem coordenados da Alemanha, com pressão na bola e coberturas.

Não por acaso, quando Tite precisou definir o ataque para a estreia já decisiva nas Eliminatórias contra o Equador em Quito, Gabigol foi descartado e depois não teve mais chances. As lacunas no entendimento do jogo pesaram.

Por isso hoje é visto em Milão como um homem para ficar mais à frente e usar sua boa capacidade de finalização. Jogador de velocidade e um ou dois toques na bola. Sem muito trabalho de pivô. Participar menos, porém de forma decisiva. A má notícia é que para isso a Inter já tem Icardi e com muito mais eficiência – está entre os 10 maiores artilheiros da temporada, com 15 gols.

Gabigol é garoto, tem potencial e tempo para amadurecer e aprender, mesmo considerando que esta leitura de jogo deveria ter sido estimulada e desenvolvida na base santista. As comparações com Gabriel Jesus ou quem quer que seja sempre serão injustas, porque cada um tem seu tempo.

As críticas e ironias, se bem aproveitadas, podem servir de motivação. Mas com humildade, entendendo o processo. Também inteligência para concluir que agora voltar ao Brasil não ajudará na evolução. Melhor ficar na Europa para aprender e mudar de patamar.

Saber ler o jogo dentro e fora de campo para estar preparado quando a oportunidade chegar. Não veio na eliminação da Copa da Itália para a Lazio. Mesmo sem Icardi em campo. É hora de engolir sapo e amassar barro para lá na frente ter uma história mais bonita para contar.