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Dorival Júnior, exclusivo: “Aqui se olha para o futebol sem enxergá-lo”
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André Rocha

Foto: Érico Leonan/saopaulofc.net

Um misto de alívio, esperança e preocupação norteou o papo com o treinador Dorival Júnior sobre o momento do São Paulo: time fora da zona de rebaixamento, mas sem o direito de perder a concentração na pausa de dez dias para a data FIFA. Margem de erro pequena, mas otimismo quanto à evolução da equipe, além do incômodo com o imediatismo e a cobrança excessiva por resultados.

BLOG – O São Paulo vem jogando uma vez por semana há algum tempo e agora tem pausa de dez dias – dois dias de folga e sete sessões de treinamentos. O time saiu da zona de rebaixamento depois de 13 rodadas. Qual o risco de um relaxamento ou desmobilização?

DORIVAL JÚNIOR – O cuidado maior deve ser na dosagem dos treinamentos. Se aumentar o volume de trabalho pode ser prejudicial, mas também não pode tirar o pé do acelerador. Equilibrar as informações diárias sobre a condição dos atletas com o feeling de tantas experiências parecidas. O importante é que não percamos competitividade nesta pausa.

BLOG – Sua equipe, até por necessidade, vai tentar propor o jogo no dia 11, em Belo Horizonte contra o Atlético Mineiro?

DORIVAL JÚNIOR – Nossa situação não permite celebrar esse alívio na tabela. Temos que respeitar as nossas características, mas também as particularidades do adversário. Não podemos nos comportar como “sparring”, precisamos pontuar. Será jogo de superação. Com segurança, mas sem deixar de ser agressivo.

BLOG – Como você avalia a evolução do São Paulo nos últimos jogos com uma formação sem um volante na proteção, com Petros à frente da defesa?

DORIVAL JÚNIOR – A aproximação dos setores está deixando os atletas mais confortáveis e já é possível arriscar movimentos diferentes, como dois dos atacantes voltando e os outros dois infiltrando na última linha do adversário. Estamos conseguindo confundir mais a marcação com a mobilidade de Lucas Fernandes, Marcos Guilherme, Cueva e Pratto. Tivemos alguma dificuldade na criação das jogadas contra o Sport, mas faz parte do processo.

Sem a bola, me agrada muito notar que eles estão mais interessados e preocupados com o trabalho defensivo. A colaboração de todos na compactação vem corrigindo um erro grave nos gols tomados, que era a equipe muito espaçada. Agora a última linha está mais protegida e também bem posicionada.

BLOG – Você é um treinador que preza muito a posse de bola e o estilo mais ofensivo. Como está vendo o Brasileiro com predomínio do jogo mais reativo? Mudou algo nas suas convicções?

DORIVAL JÚNIOR – É preocupante. Mas o que noto é que muitos dos que reclamam do futebol jogado no Brasil são os mesmos que cobram resultados imediatos.  É um assunto muito debatido, mas sem dados concretos. É algo que está incomodando, mas pode tirar da zona de conforto. Eu tenho conceitos e uma visão de futebol. Já venci e perdi propondo jogo ou reagindo à iniciativa do adversário. Não vou mudar. Para mim o futebol, na fase ofensiva, é posse de bola, deslocamentos, velocidade e infiltração.

BLOG – Mas você concorda que o dito “futebol moderno” chegou aqui primeiro pela dinâmica defensiva e ainda estamos atrasados na evolução da construção do jogo?

DORIVAL JÚNIOR – Concordo, mas esse desequilíbrio existe praticamente no mundo todo. O trabalho defensivo evoluiu demais. Antes era privilégio de Itália, Alemanha, Inglaterra…Na Alemanha houve primeiro uma mudança de mentalidade e depois a chegada do Guardiola. É uma nova escola de futebol.

Mas no mundo todo houve um acréscimo no jogo coletivo sem a bola, por pragmatismo, que não foi acompanhado pelo trabalho ofensivo. A única evolução foi a busca maior da amplitude no ataque com os pontas. É provável que as defesas prevaleçam sobre os ataques durante algum tempo. Cabe a nós, treinadores, complementarmos nosso trabalho e dar mais qualidade às ações de ataque.

BLOG – Então o futebol hoje está mais para Mourinho que Guardiola?

DORIVAL JÚNIOR – Foi uma transformação rápida, uma mudança por necessidade. Aproxima as linhas, marca por zona. Agora usando até cinco homens, exatamente para negar espaços no fundo do campo. Fecha o centro, induz o rival a abrir a jogada para interceptar o cruzamento. Houve mais inovações neste aspecto e mais times jogando desta maneira.

BLOG – Qual a dificuldade de trabalhar conceitos de jogo em um elenco que mal se conhece, mexido, desentrosado e sofrendo enorme pressão para vencer e subir na classificação?

DORIVAL JÚNIOR – No Santos eu tive dois anos e pude trabalhar uma filosofia e ir encaixando algumas situações ao longo do tempo. Aqui eu preciso adaptar, dentro das minhas convicções. Não posso me dar ao luxo de arriscar muito, por tudo que você expôs na pergunta. Primeiro proteger, depois fazer os jogadores acreditarem na proposta.

BLOG – Você falou em “proteção”. E os muitos gols sofridos, especialmente no início do trabalho, que geraram muitas críticas?

DORIVAL JUNIOR – É questão de tempo de trabalho. Tem jogador que mal se conhece. Em outubro, quase no fim da temporada, muitos não completaram sequer uma dúzia de partidas pelo clube. É o Militão adaptado à lateral direita, vários problemas. Mas querem soluções rápidas. Aqui se olha o futebol sem enxergá-lo. São cobranças descabidas e uma visão deturpada em todos os segmentos.

BLOG – Ainda dentro deste tema, como é possível orientar o Pratto com essa ansiedade de dez rodadas sem marcar gols?

DORIVAL JÚNIOR – Internamente ele sabe da sua importância. É um cara coletivo, mas com ambições. O grupo vem administrando isso muito bem. Todos têm noção da sua contribuição na abertura de espaços, nos deslocamentos. Sua movimentação compensa a falta de gols. Como gestor procuro tranquilizá-lo, por mais que ele seja experiente. Mostrar que está no caminho correto e que as coisas vão acontecer naturalmente. E sua importância não é só dentro de campo, tem a liderança que contribui demais.

BLOG – O fato de termos o oitavo colocado separado do 18º por apenas quatro pontos ajuda por motivar a conseguir uma sequência de bons resultados e respirar aliviado ou é preocupante porque os jogos serão mais duros e qualquer vacilo significa a volta ao incômodo Z-4?

DORIVAL JÚNIOR – Em todas as edições do Brasileiro da Série A que disputei o returno foi bem mais disputado que o turno. É uma constante e este ano parece ainda mais dura a concorrência. Os jogos serão mais parelhos e essa distância mínima deixa tudo ainda mais complicado. Sem dúvida é a edição mais difícil que já disputei e será assim até a última rodada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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São Paulo 1×1 Corinthians – Empate que mistura frustração e preocupação
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André Rocha

A formação ofensiva do São Paulo no Morumbi encontrou sustentação no primeiro tempo pela lentidão do Corinthians nas transições ofensivas e se impôs pela movimentação do trio Lucas Fernandes-Cueva-Marcos Guilherme atrás de Pratto, mais as descidas dos meio-campistas Petros e Hernanes além do apoio de Junior Tavares que obrigava Romero, deslocado pela direita, a retornar muito para fechar o setor.

O líder do Brasileiro, com a escalação titular completa, mantinha a boa estrutura defensiva, mas sofria com os seguidos ataques de quem pressionava e recuperava a bola assim que a perdia. Já o tricolor paulista não tinha o mesmo problema. Chama a atenção a queda no desempenho corintiano. Perdeu intensidade, mobilidade e, consequentemente, confiança.

Primeira etapa de 55% de posse são-paulina, mas com média acima de 60% até os 27 minutos, quando Petros se apresentou para apoiar o quarteto ofensivo, recebeu pela direita e aparentemente tentou cruzar. O efeito na bola surpreendeu Cássio. A única finalização no alvo num universo de seis conclusões do time da casa e apenas duas dos visitantes.

São Paulo se impôs no primeiro tempo com mobilidade do quarteto ofensivo e o apoio de Hernanes e Petros, autor do gol tricolor. Corinthians sofrendo com a lentidão na saída para os contragolpes pela preocupação de Romero com as descidas de Junior Tavares (Tactical Pad).

Equilibrou um pouco com a entrada de Marquinhos Gabriel logo na volta do intervalo, substituindo um Jadson que perdeu sua maior virtude: a mobilidade para circular às costas dos volantes adversários e criar superioridade numérica no meio. Sem o camisa dez, Rodriguinho assumiu em definitivo a articulação das jogadas se apresentando mais como opção para os companheiros.

As substituições de Dorival Júnior não foram das mais felizes. Jucilei no lugar de Cueva e Denilson na vaga de Lucas Fernandes, lesionado, tiraram dinâmica ofensiva, intensidade na pressão no campo de ataque e o Corinthians ganhou espaço para atacar. Por isso a troca mais ousada de Carille: Clayson no lugar de Gabriel.

Vieram então as duas primeiras finalizações no alvo depois de 168 minutos – 90 no empate sem gols contra o Racing que custou a eliminação na Copa Sul-Americana. Primeiro Romero e depois Clayson, no rebote vencendo Sidão. Jogada de Rodriguinho pela direita aproveitando vacilo de Junior Tavares.

Corinthians ocupou o campo de ataque com Marquinhos Gabriel e Clayson nas vagas de Jadson e Gabriel, aproveitando espaços cedidos pelo rival que perdeu dinâmica com Jucilei e Denilson substituindo Cueva e Lucas Fernandes (Tactical Pad).

Com o empate, a inversão da confiança, não aproveitada por Carille, que tirou Romero e colocou Camacho para recompor o meio. Perdeu agressividade.

A senha para uma pressão final de quem mais precisava. E Jucilei, que fez o São Paulo perder força no meio, quase virou o heroi e fez valer a “lei do ex” em bela cabeçada para defesa espetacular de Cássio. Ao total, foram 12 finalizações do tricolor, uma a mais que o rival – seis a três no alvo.

O time da casa no clássico para mais de 60 mil presentes terminou com 52% de posse. Equilíbrio nos números, mas a frustração do São Paulo é maior pelo desempenho nos 90 minutos e porque os três pontos, dentro do contexto da fuga do rebaixamento, eram essenciais. Na matemática e no ânimo. De novo falhou.

O Corinthians sai no lucro, mas precisa aproveitar o tempo livre para recuperação e treinos visando resgatar o trabalho coletivo dos melhores momentos na temporada através do desempenho das individualidades. No “Majestoso” houve tempo e espaço para a reação. Mas quem ostenta a liderança absoluta do Brasileiro não pode produzir tão pouco. Preocupante.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Pânico do Galo com dois homens a mais é retrato do futebol brasileiro
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André Rocha

Aos 33 minutos do segundo tempo, a expulsão de Willian deixou o Palmeiras com dois homens a menos contra o Atlético Mineiro no Independência. O time da casa já estava com vantagem numérica desde os 40 da primeira etapa com o cartão vermelho apresentado por Leandro Vuaden a Luan Garcia.

A ideia do post não é se ater às decisões do árbitro no confuso 1 a 1 de sábado, com três pênaltis além das duas expulsões e outros lances polêmicos, mas às consequências dentro do jogo. Com um homem a mais, o Galo já vinha encontrando dificuldades e se livrou de sofrer o segundo gol quando Victor pegou a cobrança de pênalti de Deyverson.

Quando o cenário do final da partida apresentou a obrigação de atacar para se impor sobre oito jogadores plantados na própria área protegendo o goleiro Fernando Prass, o time mineiro entrou em pânico. Passou a errar passes seguidos, se afobar chutando de fora da área e levantar bolas a esmo, muitas delas na intermediária.

Para desespero do treinador Rogerio Micale, no comando da equipe há pouco mais de dois meses. Era possível fazer a leitura labial e entender que seus gritos eram para girar a bola até criar o espaço para a infiltração. Em vão, ainda que a forceps tenha criado algumas oportunidades e pudesse até sair com a vitória. Ou derrota, no contragolpe cedido que Moisés, já exausto, não conseguiu aproveitar.

A postura do Galo no final da partida é um retrato do futebol atual praticado no Brasil. No qual ter a bola e a obrigação, pelo contexto da partida, de atacar e propor o jogo é um problema. Quase um fardo. Ou o maior risco de sair derrotado.

As razões são muitas. Desde o pouco tempo para treinar pelo calendário insano que também exige um revezamento maior no elenco e compromete o entrosamento, passando pelas constantes mudanças por conta de uma janela de transferências que parece nunca acabar e a pouca paciência com o trabalho dos treinadores. Pressão absurda por resultados imediatos, ainda mais de elencos montados com altíssimo investimento, como os de Palmeiras e Atlético-MG.

Assim como a percepção de que o futebol jogado nos grandes centros chegou aqui primeiro pela defesa. O trabalho sem a bola que ganhou um salto de evolução com a aproximação das linhas, a participação de todos, a perda da vergonha de recuar os dez homens atrás da linha da bola, a preocupação em congestionar a zona de criação para a infiltração. Também a pressão no campo adversário para dificultar a construção das jogadas desde o seu início.

Como criar espaços em um jogo tão apressado, que vaia a bola atrasada para o goleiro ou os passes trocados pelos zagueiros para tirar o rival do próprio campo? Um sistema defensivo bem posicionado e com movimentos coordenados não é tão difícil de ser treinado e exige um trabalho mais sofisticado de quem tem a bola.

É preciso se movimentar para abrir a brecha e o companheiro aparecer nela no tempo certo. Saber o momento de arriscar o drible que desequilibra. Leitura de jogo. Para isso é preciso inteligência e também sintonia, jogar de memória, se entender no olhar. Só vem com a repetição. Difícil com o entra e sai de peças. Não por acaso o São Paulo de Dorival Júnior, que contratou dezoito jogadores e também o treinador, sofre mais que os outros e a meta que restou em 2017 é escapar do rebaixamento que parece cada vez mais palpável.

Mas o líder Corinthians, ainda absoluto e com boa vantagem, também pena quando tem a bola. Fabio Carille tem time base definido, resgata conceitos dos tempos de Tite e mesmo com a maioria dos titulares tendo atuado sob o comando do atual treinador da seleção brasileira, o fato de ter se tornado o time a ser batido fez com que os adversários estudassem mais os movimentos ofensivos e se concentrassem em bloqueá-los.

Enfrentar o melhor time do campeonato também permite jogar em contragolpes, mesmo em casa. Assim o Santos venceu na Vila Belmiro. Porque os espaços se oferecem para os velocistas que não conseguem pensar quando se deparam com uma parede. Resta levantar a bola na área para arrancar um gol. Ou apostar na bola parada. É pouco. Falta repertório, ousadia. Ideias.

Não por acaso em 73% dos jogos quem fica mais tempo com a bola não vence. Por isso o Galo penou e perdeu a oportunidade de conseguir três pontos e se aproximar do G-6. Segundo o Footstats, terminou a partida com 62% de posse, 20 finalizações. Mas apenas sete no alvo e poucas chances cristalinas. Foi às redes na cobrança de pênalti de Fabio Santos. Efetuou 33 cruzamentos.

Criou pouco porque se livrou da bola. E no final é comum o discurso de que fizeram tudo que foi possível. “Massacramos, mas não deu”. Como se ficar com a posse sem criar nada de concreto representasse alguma superioridade real.

Um engano recorrente que empobrece ainda mais o nosso jogo tão sofrido. Há qualidade, mas ela está sufocada. Sem espaço, tempo, paciência, treino e coragem fica quase impossível. É mais fácil esperar o contragolpe. Ou o acaso proteger.


No clássico da desordem, Palmeiras respira e São Paulo agoniza sem soluções
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André Rocha

O time de Cuca mostrou as virtudes e defeitos habituais na temporada. Erros defensivos pela desorganização provocada pelas perseguições individuais. Ficou claro no gol de Marcos Guilherme, quando Pratto aproveitou a retaguarda esburacada para dar assistência, antes do acidente com Hernanes que o tirou do campo na ambulância.

Entrou Gilberto e o São Paulo perdeu força. O Palmeiras reagiu pela persistência, por não desistir, pela inquietação de seu treinador usando as peças disponíveis. Jogada de Michel Bastos, gol de Willian, autor do segundo em finalização de fora. Virada rápida desconstruída por Hernanes, o único lúcido no tricolor paulista. Mas que não pode resolver tudo na jogada individual ou nas finalizações precisas.

Porque o “Soberano” é um clube à deriva. Pela irresponsabilidade de entregar um dos gigantes brasileiros à própria sorte com jogadores e treinador ainda se conhecendo em agosto, num balcão de compra e venda que parece não ter fim. E não consegue resolver um problema grave desde o início da temporada: a falta de um goleiro confiável.

Sidão teve mais uma chance e novamente mostrou a insegurança capaz de minar as forças e a confiança de qualquer um. Mesmo que Dorival Júnior tente organizar sua equipe num 4-1-4-1 que tem momentos de compactação e setores bem coordenados. Só que elos fracos como os  laterais Buffarini e Edimar acabam comprometendo qualquer esforço coletivo e períodos de domínio na partida, com chances cristalinas desperdiçadas – a de Rodrigo Caio na segunda etapa simplesmente inacreditável.

Duas jogadas pela esquerda, o terceiro gol com Keno, substituto de Bruno Henrique para tornar o time ainda mais ofensivo, e o golpe final com Hyoran, reserva pouco utilizado desde que chegou ao Palmeiras. Jogada iniciada com um lançamento precioso de Tchê Tchê para Willian servir o companheiro.

O “Bigode” foi o personagem da vitória fundamental e justa no Allianz Parque: o mandante teve 54% de posse, desarmou corretamente 21 vezes contra dez e finalizou 24 vezes contra nove do rival – dez a quatro no alvo. Para o Alviverde se recolocar na disputa das primeiras posições da tabela e aliviar o ambiente de crise. Nem precisou de tanto para vencer um “Choque-Rei” marcado pela desorganização dos times.

Revés sintomático para um São Paulo em desespero. Vítima de decisões equivocadas há algum tempo, mas bem mais graves em 2017. Desmanchar e remontar elenco ao longo do Brasileiro é algo criminoso. O resultado é uma lenta agonia que parece cada vez mais sem soluções.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Foco, tempo e até desespero devem nortear segundo turno do Brasileirão
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André Rocha

O Corinthians está com o Brasileiro nas mãos. Até aqui, pelo menos, é aquele caso em que tudo conspira a favor. Inclusive a pausa entre um turno e outro para recuperar e treinar a equipe por conta da viagem da Chapecoense. Com Grêmio, Santos e Flamengo envolvidos em outras competições e Palmeiras na ressaca da eliminação da Libertadores com 14 pontos atrás que podem virar 17, o atual líder disparado pode até se planejar para buscar também o título da Sul-Americana.

Competição que ainda envolve outros cinco brasileiros. Com dois confrontos nacionais  – Sport x Ponte Preta e Flamengo x Chapecoense – que podem reduzir a quarto para as quartas de final. Mesmo número de times na disputa das semifinais da Copa do Brasil. Um a mais que nas quartas da Libertadores.

Dez times dividindo atenções, outros dez disputando somente o Brasileiro. Com apenas quatro rodadas de dezenove no meio da semana. Parece claro que o foco e o tempo para treinar têm grandes chances de fazer a diferença e até superar o nível técnico e tático das equipes.

Sem contar o desespero. Aquele que, pela dificuldade na tabela, torna o adversário difícil de ser batido. Sim, a fuga do Z-4. Que parece ter o Atlético-GO condenado, mas ainda matematicamente vivo, dependendo de uma arrancada que hoje soa improvável. Um olhar mais atento à tabela, porém, revela que o Fluminense, disputando a Sul-Americana, está apenas cinco pontos à frente da Chapecoense, 17ª colocada e com um jogo a menos.

Qualquer vacilo será fatal. É onde mora a esperança são-paulina. Mesmo com todos os equívocos e com a equipe oscilando até psicologicamente, há qualidade, especialmente de Hernanes desequilibrando nas últimas vitórias, e agora tempo para se preparar. O que Dorival Júnior mais precisava. E nada mais para distrair. Uma sequência de bons resultados e pode até sobrar uma vaga na Sul-Americana.

A disputa pelas seis primeiras colocações ganha novos postulantes, como os Atléticos, mineiro e paranaense. Os únicos junto com o Palmeiras entre os onze primeiros com foco absoluto na Série A. Uma vantagem considerável em meio a tanto equilíbrio, com exceção do Corinthians.

A Primeira Liga não deu certo pelo servilismo dos clubes à CBF e agora se encontra soterrada pelos demais torneios. Para muitos será um engodo, um problema de logística. Hoje soa como um prêmio de consolação, uma taça para não deixar 2017 de mãos abanando. Vale menos que o estadual.

O maior desafio, sem dúvida, é o do Botafogo. Com elenco não tão robusto, um clássico carioca no torneio nacional e um duelo brasileiro na Libertadores contra o Grêmio, uma das melhores equipes do país. A um ponto do G-6, que seria a garantia de volta ao torneio continental independentemente do desempenho no mata-mata. Mas a seis da zona de rebaixamento, o que exige um certo cuidado.

Neste cenário, o returno reserva alguns jogos que serão esvaziados pela utilização de reservas e outros que podem ganhar contornos épicos, com times até com tempo para se preparar, mas tão envolvidos emocionalmente que não resistirão ao maldito “jogo para ganhar e não para jogar”. Valendo a vida. Para quem gosta de emoção e não torce o nariz para a fórmula de pontos corridos será um prato cheio.

Se nos dois extremos da tabela os destinos de Corinthians e Atlético-GO parecem selados, todo o resto carrega suas dúvidas e um contexto construído jogo a jogo. Dependente de outras competições, que agora contemplam toda temporada. Vejamos o que o novo calendário reservará à nossa liga neste primeiro ano.


Dorival Júnior vai penar com um São Paulo sem confiança e entrosamento
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André Rocha

Dorival Júnior resgatou o gosto pela posse de bola do trabalho de Rogério Ceni, em especial no início. O novo treinador quer um São Paulo protagonista, propondo o jogo. Mas está difícil. Porque são nove partidas sem vitória e time afundado na zona de rebaixamento, o que naturalmente abala a confiança.

Para piorar, o desentrosamento de um elenco muito mexido, com entradas e saídas de atletas. Na Arena Condá, o primeiro tempo de domínio, especialmente nas jogadas pela esquerda com aproximação de Junior Tavares, Jonatan Gómez e Cueva, não conseguiu proporcionar uma oportunidade cristalina. Porque a jogada pelo flanco sempre fugia de Lucas Pratto e Wellington Nem, exatamente pela falta de sintonia. O cruzamento era impreciso ou o atacante estava mal posicionado para finalizar.

Pouco ou nada adianta a posse sempre acima dos 65%. Ou até atrapalha, pois dá ao adversário o conforto de jogar posicionado atrás e saindo em transições ofensivas rápidas aproveitando espaços em uma retaguarda adiantada. Time sem confiança, erra o passe e está exposto.

Foi o que aconteceu na segunda etapa, principalmente depois do gol de Tulio de Melo na jogada aérea, ainda uma opção ofensiva interessante na Chapecoense agora comandada por Vinicius Eutrópio. Mesmo sentindo os desfalques, especialmente do forte lado esquerdo com Reinaldo e Arthur Caike, o 4-1-4-1 encontrou em Apodi do lado oposto a melhor saída em velocidade.

Dorival Júnior trocou Wellington Nem, Cueva e Petros, colocando Marcinho, Lucas Fernandes e Denilson. Mas era uma equipe nitidamente insegura, com medo de errar e evitando o passe diferente para as infiltrações. A bola rodava, rodava e nada acontecia.

Até o erro, a bola retomada e o chute preciso de Lucas Marques. A 15ª finalização da equipe mais objetiva para decretar os 2 a 0. Resultado que redime a Chape, que respira se afastando do Z-4. O São Paulo sofre, Dorival Júnior vai penar para implementar seus conceitos em elenco tão heterogêneo e ainda se conhecendo, com o primeiro turno se aproximando do fim.

O desafio só aumenta.

(Estatísticas: Footstats)


Rogério Ceni sabia, ou devia saber…
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André Rocha

Rogério Ceni sabia, ou devia saber…

Que a carga de responsabilidade seria imensa. Que no futebol brasileiro que mais sente do que pensa ele seria cobrado como o ídolo-bandeira-goleiro e não um treinador iniciante. Que não teriam tanta paciência assim. Que seriam capazes da calhordice de esperar o São Paulo entrar na zona de rebaixamento do Brasileiro e usarem como álibi para uma demissão.

Que o período de estudos na Europa poderia não ser suficiente para chegar com conceitos sólidos e métodos definidos para colocá-los em prática de imediato. Que jogar com a intensidade máxima desejada no nosso calendário é praticamente impossível. Que a antipatia que cultivou ao longo do tempo por defender incondicionalmente o clube, sempre com certa arrogância, faria parte da imprensa não ser tão paciente com ele.

Que sua “tropa de choque” de jornalistas-torcedores/fãs não seria capaz de blindagem eterna. Que a diretoria, ainda nos tempos de Carlos Miguel Aidar, já tinha irritado Juan Carlos Osorio com a compra e venda de jogadores durante o Brasileiro.

Que podia fraquejar em suas convicções e jogar mais por resultados que desempenho, como tantos outros treinadores com que trabalhou fizeram – ou foram obrigados a fazer. Que a torcida teria carinho e paciência até o limite, mas não para sempre. Que nossa cultura é imediatista e pode moer até as carnes mais nobres. Até as sagradas.

Rogério Ceni sabia, ou devia saber, que a chance de dar errado era enorme. Que o mercado de treinadores praticamente se fecha para ele no Brasil. Que para ser diretor ou ocupar outro cargo no tricolor do Morumbi só com a troca na direção. Ou talvez ele mesmo sendo presidente. Que o sonho era ambicioso.

Mas acabou. Rogério Ceni sabia, ou devia saber, que ser mito na meta não credencia ninguém à onipotência e à onisciência. Não é licença para todas as funções no futebol. Pena ter descoberto, ou constatado, da pior maneira.


Rogério Ceni e São Paulo: reféns um do outro
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André Rocha

Já está virando rotina: na saída do estádio, jogadores do São Paulo são hostilizados, também dirigentes e o presidente Leco. Só o treinador continua preservado.

Comandante do time eliminado no Paulista, na Copa do Brasil, na Sul-Americana – vexatoriamente contra o minúsculo argentino Defensa y Justicia – e está na última posição antes do Z-4 no Brasileiro. Apenas 52% de aproveitamento na temporada, incluindo os jogos contra pequenos no estadual que costumam mascarar os números.

Tudo isto em um dos clubes mais vencedores do país que vive uma seca de conquistas desde 2012. Qualquer profissional em sua primeira experiência na carreira já teria sido defenestrado e, se morasse na mesma cidade, não sairia na rua sem ser ofendido. Menos Rogério Ceni.

Porque no Brasil, mais uma vez, se confunde o ídolo e o iniciante. O mito e o inexperiente. É assim na carreira de treinador, dirigente, comentarista. “Ah, ele sabe tudo de futebol!” Será? Em qualquer função?

Rogério Ceni começou fiel às suas ideias e ideais. Depois, como mesmo disse, descobriu que os números que valem para a maioria da torcida e da imprensa são os do placar final. Hoje sua equipe não tem cara. É um Frankenstein das ideias de suas referências: Sampaoli, Osorio, Muricy, Autuori…

Deixou de ser envolvente e intensa no ataque, mas não ganhou solidez defensiva a ponto de se tornar mais competitiva. Vive de espasmos, com momentos mais longos de posse estéril e linhas espaçadas.

Personalidade forte e exigente, não lida bem com os equívocos de seus atletas. Também tem dificuldades de reconhecer seus erros e os méritos dos adversários. Nas coletivas parece viver em um mundo paralelo, de derrotas e empates sempre injustos.

A pior notícia para ele é que começando pelo clube com o qual é mais identificado, uma saída fecharia as portas para praticamente todos os times grandes do país. Até pela imagem que construiu, muito fiel ao São Paulo e pouco simpática aos demais, não só aos rivais locais.

A questão interna é ter coragem de demitir o maior ídolo. De novo a mistura das funções. Há dois enormes complicadores: não existe um nome de consenso disponível do mercado e, como Ceni é principiante, não há uma referência anterior para identificar a possibilidade ou não de crescimento no médio/longo prazo. Ou seja, um enorme ponto de interrogação.

O São Paulo segue contratando, dispensando, testando. Fazendo a parelha Série A brasileira de laboratório. À espera da fórmula mágica. Ou de um milagre. O clube é refém de seu técnico-mito, que não tem outra opção a não ser tentar até o limite. Qual será?


Botafogo pode ser boa referência tática para São Paulo de Ceni
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André Rocha

Era consenso nesta segunda-feira que o São Paulo vivia no Morumbi gelado uma daquelas noites indesejadas, nas quais garantir os três pontos é mais importante que jogar bem ou evoluir o modelo de jogo. Coisas do imediatismo do futebol brasileiro.

No caso do São Paulo, nem tanto. Não fosse Rogério Ceni o ídolo treinador novato, certamente já teria caído com as eliminações no Paulista, na Copa do Brasil e, especialmente, na Copa Sul-Americana, com o vexame diante do Defensia y Justicia no Morumbi.

Portanto, os 2 a o sobre o Avaí e os primeiro três pontos aliviam um tanto o ambiente para o clássico diante do Palmeiras, novamente no Morumbi. Mas o desempenho do tricolor na temporada deixa claro que há uma clara dissonância entre o que pretende Ceni e as características das melhores peças do elenco e até a condição anímica no clube.

O São Paulo não conquista um título relevante desde 2012, com a Sul-Americana. Para uma torcida exigente é tempo demais. Contando os reveses seguidos para os rivais, com o alento dos 3 a 1 sobre o Santos na Vila Belmiro, é difícil imaginar essa equipe com confiança para ser protagonista nas partidas, impondo seu modelo de jogo e acuando o adversário em jogos grandes da Série A.

Ceni começou com uma ideia de jogo ousada, com posse e pressão no campo de ataque. Depois tentou equilibrar para sofrer menos gols, chegou a utilizar um sistema com três zagueiros. Para um comandante escrevendo suas primeiras páginas na história do novo ofício, é natural oscilar, experimentar. A inquietação é até saudável.

Então fica a pergunta: por que não uma proposta mais reativa, baseada em bloqueio forte e velocidade na transição ofensiva? Se os zagueiros do elenco sofrem com a sombra de Lugano, ídolo sempre lembrado nas derrotas sem ele em campo, por que não efetivar o uruguaio, mas protegê-lo de forma adequada?

A referência pode ser o Botafogo de Jair Ventura. É mais confortável sem a bola, joga melhor em transição. Por necessidade, segura mais o lado direito com um lateral-zagueiro. No desenho tático, monta um losango no meio-campo que se desmembra em duas linhas de quatro no momento defensivo: um volante abre, o atacante de velocidade retorna do lado oposto e o “enganche” fica mais liberado à frente, próximo ao centroavante.

Pensando na formação utilizada na última partida, Buffarini poderia ficar mais preso, fazendo a cobertura por dentro de Lugano, que teria Rodrigo Caio ao lado e Jucilei na proteção da retaguarda. Junior Tavares seria o lateral apoiador pela esquerda. Do lado oposto, Thiago Mendes, que sofreu ontem uma torção no joelho e preocupa, compensaria o lateral mais preso apoiando mais aberto. Tem vigor e boa chegada à frente.

Cícero seria o jogador que fecharia o centro da segunda linha de quatro com Jucilei e trabalharia com passes longos, como o que achou Marcinho e deste para a finalização de Pratto no primeiro gol. Com isso, Cueva ficaria mais livre para criar, sem atuar como ponta articulador. O peruano já mostrou que rende melhor com liberdade de movimentação, pensando correndo. Sem a bola, ficaria mais próximo de Lucas Pratto.

Para a função do atacante de velocidade que joga de uma linha de fundo à outra, como Pimpão realiza no Botafogo, Luiz Araújo parece ser o mais indicado. Retorna, fecha o setor pela esquerda e busca as infiltrações em diagonal, sendo o alvo para os passes de Cueva e Cícero. É jovem, tem intensidade e chama passes em profundidade. Entrou na vaga de Marcinho e marcou o segundo gol.

O 4-3-1-2 que varia para as duas linhas de quatro sem a bola, inspirado no Botafogo: Thiago Mendes fecharia o lado direito e Luiz Araújo retornaria à esquerda, deixando Cueva mais próximo de Lucas Pratto. Buffarini ficaria mais fixo na lateral direita e Jucilei à frente da retaguarda para proteger o veterano Lugano (Tactical Pad).

O torcedor certamente vai criticar a formação sugerida no campinho, que serve apenas como referência. A fase do São Paulo é daquelas em que o jogador que não está em campo com frequência parece melhor que o titular. O que importa é a proposta de evoluir o desempenho coletivo para que as individualidades voltem a ser potencializadas.

Assim como o Botafogo, o São Paulo pode aproveitar a imagem de não favorito para surpreender os adversários. Vale recordar que na última fase vencedora do clube, o time de Muricy Ramalho também tinha uma proposta mais reativa e pragmática. Com Ceni na meta.

O treinador pode e deve considerar a hipótese de buscar o controle do jogo sem posse, não deixando espaços às costas de sua defesa lenta com marcação tão adiantada. Na grande vitória e melhor atuação da temporada, Luiz Araújo desmontou o sistema defensivo santista na velocidade. Talvez tenha sido o recado, não ouvido, que os ideais nobres e a ideia que o ambicioso e vencedor ex-goleiro tem para marcar sua nova carreira podem ficar para um outro momento.

Até porque Ceni e São Paulo estão num labirinto, reféns um do outro: se o técnico fracassar no clube em que tem identificação única, para onde ir depois? E como o clube pode saber se dispensar o ídolo será melhor, se não há um nome forte e de consenso disponível de mercado, nem a certeza que não haveria margem de evolução da equipe ao longo da temporada?

Rogério Ceni vai ficando e, dentro de sua realidade, tem um bom espelho a seguir. De desacreditado a um dos representantes brasileiros já garantidos nas oitavas-de-final da Libertadores. Superando desconfianças, o Botafogo chegou mais longe que se podia imaginar. Um bom norte para o São Paulo.

Basta ter a humildade de se colocar como o coadjuvante que pode surpreender. Este é o cenário. A decisão, de Ceni.


E se fosse um pênalti para o São Paulo? Às vezes não é só fair play
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André Rocha

A pergunta que fica em relação ao fair play do Rodrigo Caio no Majestoso, em uma disputa dentro da área são-paulina, é simples e direta:

E se fosse um pênalti a favor do próprio time com expulsão do adversário?

Nunca saberemos. Ou podemos saber já na semana que vem.

O que o blogueiro sabe, por essas andanças da vida conversando com gente do futebol, é que muitas vezes a decisão de “corrigir” o árbitro não é só questão de índole. Ser honesto ou não.

Pode ser de sobrevivência, com torcidas organizadas insanas e bélicas pegando na esquina, sem respeitar velho ou criança, quem só quis fazer o certo.

Pode ser de futuro profissional. Ou você acha que um dirigente-torcedor perdoaria um jogador por negar um pênalti contra o maior rival num jogo decisivo?

Pode ser por questões inimagináveis, como o ex-jogador, conhecido por sua conduta reta e íntegra, que disse que pensou em se acusar ao árbitro, mas lembrou que se o time não fosse campeão um colega que tinha acabado de subir para o profissional ficaria sem o prêmio que ajudaria a pagar o tratamento de câncer da mãe.

Porque sempre ficará martelando na cabeça a ideia de que a equipe de arbitragem, cada vez maior, está lá para identificar as penalidades.

Este que escreve faria o mesmo que o Rodrigo Caio, em qualquer situação. Mas, embora pareça simples, às vezes a vida pode ser bem complicada. Sem jogo limpo.