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Botafogo pode ser boa referência tática para São Paulo de Ceni
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André Rocha

Era consenso nesta segunda-feira que o São Paulo vivia no Morumbi gelado uma daquelas noites indesejadas, nas quais garantir os três pontos é mais importante que jogar bem ou evoluir o modelo de jogo. Coisas do imediatismo do futebol brasileiro.

No caso do São Paulo, nem tanto. Não fosse Rogério Ceni o ídolo treinador novato, certamente já teria caído com as eliminações no Paulista, na Copa do Brasil e, especialmente, na Copa Sul-Americana, com o vexame diante do Defensia y Justicia no Morumbi.

Portanto, os 2 a o sobre o Avaí e os primeiro três pontos aliviam um tanto o ambiente para o clássico diante do Palmeiras, novamente no Morumbi. Mas o desempenho do tricolor na temporada deixa claro que há uma clara dissonância entre o que pretende Ceni e as características das melhores peças do elenco e até a condição anímica no clube.

O São Paulo não conquista um título relevante desde 2012, com a Sul-Americana. Para uma torcida exigente é tempo demais. Contando os reveses seguidos para os rivais, com o alento dos 3 a 1 sobre o Santos na Vila Belmiro, é difícil imaginar essa equipe com confiança para ser protagonista nas partidas, impondo seu modelo de jogo e acuando o adversário em jogos grandes da Série A.

Ceni começou com uma ideia de jogo ousada, com posse e pressão no campo de ataque. Depois tentou equilibrar para sofrer menos gols, chegou a utilizar um sistema com três zagueiros. Para um comandante escrevendo suas primeiras páginas na história do novo ofício, é natural oscilar, experimentar. A inquietação é até saudável.

Então fica a pergunta: por que não uma proposta mais reativa, baseada em bloqueio forte e velocidade na transição ofensiva? Se os zagueiros do elenco sofrem com a sombra de Lugano, ídolo sempre lembrado nas derrotas sem ele em campo, por que não efetivar o uruguaio, mas protegê-lo de forma adequada?

A referência pode ser o Botafogo de Jair Ventura. É mais confortável sem a bola, joga melhor em transição. Por necessidade, segura mais o lado direito com um lateral-zagueiro. No desenho tático, monta um losango no meio-campo que se desmembra em duas linhas de quatro no momento defensivo: um volante abre, o atacante de velocidade retorna do lado oposto e o “enganche” fica mais liberado à frente, próximo ao centroavante.

Pensando na formação utilizada na última partida, Buffarini poderia ficar mais preso, fazendo a cobertura por dentro de Lugano, que teria Rodrigo Caio ao lado e Jucilei na proteção da retaguarda. Junior Tavares seria o lateral apoiador pela esquerda. Do lado oposto, Thiago Mendes, que sofreu ontem uma torção no joelho e preocupa, compensaria o lateral mais preso apoiando mais aberto. Tem vigor e boa chegada à frente.

Cícero seria o jogador que fecharia o centro da segunda linha de quatro com Jucilei e trabalharia com passes longos, como o que achou Marcinho e deste para a finalização de Pratto no primeiro gol. Com isso, Cueva ficaria mais livre para criar, sem atuar como ponta articulador. O peruano já mostrou que rende melhor com liberdade de movimentação, pensando correndo. Sem a bola, ficaria mais próximo de Lucas Pratto.

Para a função do atacante de velocidade que joga de uma linha de fundo à outra, como Pimpão realiza no Botafogo, Luiz Araújo parece ser o mais indicado. Retorna, fecha o setor pela esquerda e busca as infiltrações em diagonal, sendo o alvo para os passes de Cueva e Cícero. É jovem, tem intensidade e chama passes em profundidade. Entrou na vaga de Marcinho e marcou o segundo gol.

O 4-3-1-2 que varia para as duas linhas de quatro sem a bola, inspirado no Botafogo: Thiago Mendes fecharia o lado direito e Luiz Araújo retornaria à esquerda, deixando Cueva mais próximo de Lucas Pratto. Buffarini ficaria mais fixo na lateral direita e Jucilei à frente da retaguarda para proteger o veterano Lugano (Tactical Pad).

O torcedor certamente vai criticar a formação sugerida no campinho, que serve apenas como referência. A fase do São Paulo é daquelas em que o jogador que não está em campo com frequência parece melhor que o titular. O que importa é a proposta de evoluir o desempenho coletivo para que as individualidades voltem a ser potencializadas.

Assim como o Botafogo, o São Paulo pode aproveitar a imagem de não favorito para surpreender os adversários. Vale recordar que na última fase vencedora do clube, o time de Muricy Ramalho também tinha uma proposta mais reativa e pragmática. Com Ceni na meta.

O treinador pode e deve considerar a hipótese de buscar o controle do jogo sem posse, não deixando espaços às costas de sua defesa lenta com marcação tão adiantada. Na grande vitória e melhor atuação da temporada, Luiz Araújo desmontou o sistema defensivo santista na velocidade. Talvez tenha sido o recado, não ouvido, que os ideais nobres e a ideia que o ambicioso e vencedor ex-goleiro tem para marcar sua nova carreira podem ficar para um outro momento.

Até porque Ceni e São Paulo estão num labirinto, reféns um do outro: se o técnico fracassar no clube em que tem identificação única, para onde ir depois? E como o clube pode saber se dispensar o ídolo será melhor, se não há um nome forte e de consenso disponível de mercado, nem a certeza que não haveria margem de evolução da equipe ao longo da temporada?

Rogério Ceni vai ficando e, dentro de sua realidade, tem um bom espelho a seguir. De desacreditado a um dos representantes brasileiros já garantidos nas oitavas-de-final da Libertadores. Superando desconfianças, o Botafogo chegou mais longe que se podia imaginar. Um bom norte para o São Paulo.

Basta ter a humildade de se colocar como o coadjuvante que pode surpreender. Este é o cenário. A decisão, de Ceni.


E se fosse um pênalti para o São Paulo? Às vezes não é só fair play
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André Rocha

A pergunta que fica em relação ao fair play do Rodrigo Caio no Majestoso, em uma disputa dentro da área são-paulina, é simples e direta:

E se fosse um pênalti a favor do próprio time com expulsão do adversário?

Nunca saberemos. Ou podemos saber já na semana que vem.

O que o blogueiro sabe, por essas andanças da vida conversando com gente do futebol, é que muitas vezes a decisão de “corrigir” o árbitro não é só questão de índole. Ser honesto ou não.

Pode ser de sobrevivência, com torcidas organizadas insanas e bélicas pegando na esquina, sem respeitar velho ou criança, quem só quis fazer o certo.

Pode ser de futuro profissional. Ou você acha que um dirigente-torcedor perdoaria um jogador por negar um pênalti contra o maior rival num jogo decisivo?

Pode ser por questões inimagináveis, como o ex-jogador, conhecido por sua conduta reta e íntegra, que disse que pensou em se acusar ao árbitro, mas lembrou que se o time não fosse campeão um colega que tinha acabado de subir para o profissional ficaria sem o prêmio que ajudaria a pagar o tratamento de câncer da mãe.

Porque sempre ficará martelando na cabeça a ideia de que a equipe de arbitragem, cada vez maior, está lá para identificar as penalidades.

Este que escreve faria o mesmo que o Rodrigo Caio, em qualquer situação. Mas, embora pareça simples, às vezes a vida pode ser bem complicada. Sem jogo limpo.

 


Análise tática: Ponte Preta e Corinthians desconstroem a “moda” do 4-1-4-1
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André Rocha

Com o sucesso da seleção brasileira sob o comando de Tite, veio a impressão de que o 4-1-4-1 se consolidaria como tendência no futebol brasileiro. Como um dia foi o 4-2-3-1.

Ponte Preta e Corinthians até utilizaram o desenho tático com um volante entre duas linhas de quatro e mais um atacante durante a campanha na fase de grupos do Paulista. Mas bastou chegar os confrontos mais importantes para os treinadores Gilson Kleina e Fabio Carille alterarem o sistema.

Agora são duas linhas de quatro sem a bola que deixam dois jogadores mais adiantados. Para pressionar a saída de bola do adversário, mas também servir como referência para a transição rápida do campo de defesa.

De maneiras distintas, porém. Nos surpreendentes 3 a 0 sobre o favorito Palmeiras no Moisés Lucarelli, a Ponte compactou bem as linhas e não deu refresco ao palmeirense que estivesse com a bola. Pressão para tomar rápido e acelerar buscando o artilheiro William Pottker e Clayson, que saiu da direita para formar uma dupla na frente e criar problemas circulando às costas de Felipe Melo.

Mas sem enfraquecer o setor “abandonado”. Porque Jadson abria para fechar a segunda linha e atacava por dentro, deixando o corredor para as descidas de Jeferson, substituto de Nino Paraíba. Para cima de Zé Roberto, que não contava com o suporte de Dudu.

O Palmeiras de Eduardo Baptista dá a impressão de que confia na posse de bola e no temor que pode causar no oponente por conta de seu elenco de alto nível para o futebol que se joga na América do Sul para não ser atacado.

Só que o time de Campinas atacou e contra-atacou. No ritmo de Fernando Bob, volante elegante que distribui o jogo e aparece na frente. Com Lucca, infiltrando em diagonal para receber linda assistência de Pottker e marcar o segundo gol aos nove.

Porque o primeiro não precisou nem de um minuto para acontecer, com Pottker. Uma blitz na área palmeirense até o desvio do goleador do Paulista ao lado do são-paulino Giberto, com nove. O terceiro com Jeferson após falha grotesca de Zé Roberto. Seis finalizações, cinco no alvo. Três gols. Tudo isso em 33 minutos.

As linhas de quatro da Ponte Preta com todos defendendo no próprio campo, inclusive Clayson e Pottker. Jadson abrindo para bloquear o lado direito e Fernando Bob na proteção da última linha (reprodução TV Globo).

O Corinthians precisou de 45, mais três de acréscimo, no Morumbi para se impor com as mesmas linhas de quatro que adiantaram Rodriguinho para desequilibrar. Primeiro no passe preciso para Jô marcar seu sexto gol na temporada, quatro em clássicos. Depois o chute que Renan Ribeiro não impediu que chegasse às redes no lance final da primeira etapa. Ambos em vacilos de Jucilei, muito lento para a função que exerce na proteção da retaguarda.

A equipe de Carille confia mais no posicionamento. Nem precisa pressionar tanto a bola, porque em seu próprio campo tem os espaços como referência. Permite até o controle da pelota, mas nega brechas ao rival, especialmente na última linha defensiva.

Fabio Carille dá mais liberdade a Rodriguinho no novo desenho tático corintiano. A última linha de defesa segue posicional atrás de outra com quatro jogadores para negar espaços aos adversários (reprodução Premiere).

Bola roubada, a saída em velocidade e em bloco para aproveitar os espaços deixados pelo tricolor que parecia acertar o sistema defensivo. Mas era só a fragilidade dos adversários mesmo.

Rogério Ceni vai sofrendo com a “síndrome do caderno em branco”. Toda experiência como treinador é a primeira. Não foi o primeiro clássico Majestoso, mas este vale vaga na decisão. E seu time falhou. Continua mal posicionado atrás. Só valeu pela honestidade de Rodrigo Caio na anulação do amarelo para Jô, que sequer tocou em Renan Ribeiro. Questão de índole.

No segundo tempo subiu a posse para 62%, fez Cássio trabalhar com oito finalizações contra uma e criou espaços e chances até para empatar. Só que não é fácil vazar o melhor sistema defensivo do país até aqui em 2017 e que deve confirmar em Itaquera a vaga na final estadual.

O Palmeiras diminuiu os estragos na segunda etapa em Campinas. Também porque a Ponte preferiu controlar o jogo sem a posse (terminou com 44%) e administrar ótima vantagem para a volta no Allianz Parque. Mas não irreversível.

Para a volta, a melhor receita parece a mesma da ida: marcar e jogar. Com as duas linhas de quatro que fizeram Corinthians e Ponte mais sólidos e objetivos. Desconstruindo a “moda” do 4-1-4-1. Quarenta anos depois do gol histórico de Basílio, podem fazer novamente a final do Paulista.

(Estatísticas: Footstats)

 


Para que servem mesmo os estaduais?
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André Rocha

Um dos argumentos em defesa dos estaduais é que dá a chance ao time de menor investimento de receber os grandes em seus estádios, movimentar a cidade e renovar as gerações de torcedores locais.

O Linense, com problemas no “Gilbertão”, aceitou jogar as duas partidas das quartas de final contra o São Paulo no Morumbi para faturar com a divisão da renda líquida das duas partidas. Também pensando no segundo semestre sem a certeza de ter uma competição para disputar.

Fruto exatamente da nossa estrutura federativa que incha os torneios regionais e não se preocupa em permitir que todos os clubes tenham uma divisão a disputar, ainda que regionalizada numa fase inicial.

Uma escolha que abre um precedente perigoso. Se o jogo tiver apelo para o grande e certeza de estádio cheio, o clube de menor investimento pode fazer barganha com algo que faz parte da essência da competição:  a chance de vencer em seus domínios.

Outro argumento para a manutenção desse elefante branco no calendário nacional é a emoção dos clássicos, reforçando as rivalidades e garantindo confrontos que podem não acontecer nos campeonatos nacionais.

Pois o esdrúxulo regulamento do Carioca pode fazer com que as semifinais da Taça Rio signifiquem absolutamente nada para os clubes, sem influenciar na classificação final que define os semifinalistas do campeonato. Basta que Vasco e Botafogo confirmem suas vagas no fim de semana. Inclusive a ordem das equipes não seria alterada.

Isso sem contar o absurdo do Fluminense vencer também o segundo turno e não ser declarado o campeão. O tricolor já declarou que a Copa Sul-Americana é prioridade, Flamengo e Botafogo estão envolvidos com Libertadores e o Vasco só não tem outra competição para dar mais importância porque foi eliminado da Copa do Brasil pelo Vitória. Só resta a busca do tricampeonato como prêmio de consolação.

Em 2017 o estadual não tem servido nem para dar uma ilusão de força ao time grande rebaixado à Série B. O Internacional conseguiu a “proeza” de se classificar em sétimo na primeira fase do campeonato gaúcho.

Pode até conquistar o hepta no mata-mata, até porque o Grêmio prioriza a Libertadores, mas a equipe de Antonio Carlos Zago comandada em campo por D’Alessandro não transmite a mínima confiança para seu torcedor. Nem forçando muito a barra dá para se enganar.

Para que servem mesmo os estaduais?


Análise tática – São Paulo 1×1 Corinthians: a última linha e o terço final
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André Rocha

A arbitragem comandada por Vinicius Furlan no Morumbi foi pluripatética, embora menos que a do clássico carioca no Mané Garrincha. Mas o Majestoso reforçou impressões sobre os times neste início de temporada, mesmo com desfalques importantes.

A começar pela fragilidade defensiva do São Paulo de Rogério Ceni que já virou clichê – agora são surreais 20 gols sofridos em 10 partidas no estadual. O duelo com o arquirrival se colocou como um desafio para enfim não ter a meta vazada. O treinador tentou proteger com Jucilei mais plantado, Cícero recuado para garantir mais posse (terminou com 59%) e controle com volante passador.

Velocidade e intensidade no quarteto ofensivo. Tanto para pressionar no momento da perda da bola quanto para acelerar. Thiago Mendes e Wellington Nem alternando entre o lado direito e o centro, Gilberto na referência e Luiz Araújo pela esquerda. Faltou mais visão de jogo e o toque fácil. Também a conclusão precisa do melhor ataque da competição com 24 gols. Desta vez faltou Cueva. E Pratto.

Quando Nem, centralizado, acertou a assistência que fura a defesa, Luiz Araújo parou em Cássio no escanteio que Maicon colocou nas redes e comemorou provocando a torcida corintiana.

Mas depois falhou grosseiramente no posicionamento no gol de Jô. Nem cobriu Araruna no combate a Arana, nem ficou no centro da área junto com Rodrigo Caio na disputa com o centroavante do oponente. Ainda criou uma indefinição para o companheiro de zaga, que não sabia se saía em Rodriguinho ou ficava no centroavante. Nem ao menos se manteve num setor em que pudesse interceptar o cruzamento. Numa zona “morta”, assistiu ao empate e viu seu time murchar.

Maicon não cobriu Araruna, nem interceptou o cruzamento. Ainda criou uma indefinição para Rodrigo Caio – sair em Rodriguinho ou ficar em Jô? Na falha da última linha, o gol corintiano (reprodução TV Globo).

O Corinthians só não aproveitou para construir a virada porque segue sem criatividade e mobilidade na frente com a bola em movimento. Até houve mais revezamento, com os jovens Maycon e Pedrinho trocando de lado, Jadson e Rodriguinho circulando. Mas sem aquele deslocamento que gera superioridade numérica, as triangulações e a infiltração do terço final.

Tudo muito previsível. Piorou com a entrada de Leo Jabá, atacante que parece involuir cada vez que aparece entre os titulares. Já Pedrinho merece mais oportunidades, mesmo perdendo algumas disputas no físico. O time visitante finalizou dez vezes, seis no alvo. Sem chances cristalinas, porém.

Corinthians no último terço: mesmo com os jogadores da linha de meias trocando de posição, o time é previsível no ataque, isolando Jô (reprodução TV Globo).

Mais uma vez, diante do maior volume do adversário, o que garantiu o time de Fabio Carille foi a última linha de defesa bem posicionada. Apesar de um ou outro vacilo de Léo Príncipe, que entrou na vaga de Fagner. Sem os movimentos assimilados, se complicou em algumas coberturas por dentro. Balbuena teve que compensar saindo de sua posição.

Mesmo com espaços às costas do meio-campo por conta de falhas de Gabriel na proteção, o quarteto ofensivo são-paulino teve dificuldades de infiltrar na última linha corintiana quase sempre bem posicionada (reprodução TV Globo).

Mas mesmo com algumas dificuldades de Gabriel na proteção, a defesa conseguiu conter os lances mais agudos. Só não tem os melhores números do Paulista por conta de falhas individuais, como a de Cássio no gol de Maicon. Bem diferente da desorganização são-paulina.

A impressão é de que Ceni pensa futebol com a sua equipe adiantada, fazendo pressão e forçando a ligação direta do rival. Se este consegue transpor esse cerco no próprio campo, tudo fica por conta da rapidez, da qualidade e da intuição de seus defensores. Por isso sofre na última linha.

Sò não penou mais porque o Corinthians tem dificuldades no terço final do campo. Na zona de decisão, onde é preciso ter ideias. Mesmo diante de um sistema defensivo tão caótico. Não por acaso tem média de um gol marcado por jogo na temporada. Ajuda a explicar o 1 a 1. Empate entre os diferentes.

(Estatísticas: Footstats)

 


Fiasco do Brasil sub-20. A inteligência vale mais que “alegria nas pernas”
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André Rocha

O maior pecado do técnico Rogério Micale na eliminação brasileira do Sul-Americano no Equador com o empate sem gols contra a Colômbia foi tentar se manter fiel às suas convicções de jogo apoiado, valorizando a posse de bola, sem considerar o contexto: gramados ruins na primeira fase e, principalmente, as características dos jogadores – mais velocidade e força que técnica e raciocínio.

Talvez tenha faltado mais do rubro-negro Lucas Paquetá, maior esperança na organização e criação. Mas é bem provável que o fiasco brasileiro tenha sido novamente uma mera consequência de seu próprio ciclo nas divisões de base.

Desde sempre o que o menino bom de bola ouve é “filho, pega a bola, parte para cima e resolve o problema da sua família”. Depois de um tempo, se confirmar o potencial, o empresário é incluído no pacote de dependentes. O aprendizado inicial é tentar resolver na individualidade para se destacar na multidão.

A questão é que por mais que os profissionais da base estejam se qualificando na preparação dos garotos, a nossa mentalidade atrapalha. Olhamos para um time e sempre buscamos “o cara”, aquele que chama a responsabilidade, que faz a diferença, que decide sozinho. Não vale ser coadjuvante. A velha visão do “patrão” e “empregado”.

Só que no futebol atual, por mais que se tenha Messi, Cristiano Ronaldo, Suárez, Neymar, Ibrahimovich, Hazard e outros talentos desequilibrantes, “o cara” é cada vez mais o time. A ideia de jogo que vai potencializar e fazer aparecer o jogador diferente.

Por isso a necessidade de uma leitura de jogo cada vez mais precisa. A exata noção da importância de cada um no funcionamento do modelo de jogo. Saber que passar e se deslocar oferecendo opção ao companheiro vai ser mais importante que o drible em dois terços do campo. Só no último, mais próximo do gol, a vitória pessoal será essencial para furar as linhas de marcação cada vez mais compactas.

Saber o que fazer também ajuda a não se desesperar na hora da dificuldade. Era nítida a tensão dos meninos da seleção sub-20 por conta dos problemas graves na construção do jogo apoiado que Micale exige. Porque o garoto, culturalmente, é cobrado para decidir sozinho. Habilidade ou força e velocidade, rompendo as defesas. Vencendo as dificuldades na marra ou no jeitinho que é só nosso.

Tudo para conseguir um contrato na Europa e sair daqui jogando bola e aprender lá a fazer o jogo. Coletivo. Discurso comum entre os novos e os ex-boleiros. Às vezes surge um Gabriel Jesus, talentoso e inteligente praticamente na mesma proporção que se encaixa rápido em qualquer lugar – Palmeiras, seleção olímpica, principal, Manchester City. Mas é exceção.

Não é acaso a nossa maior carência em alto nível: os meio-campistas cerebrais, que jogam de área a área e ditam o ritmo. Fazem o jogo coletivo acontecer. Como estimular o menino se o mais rápido, o mais forte e o mais driblador é que vão ganhar os holofotes e as melhores oportunidades?

A visão do futuro não é apocalíptica e há avanços nos métodos de treinamento nas divisões de base do país. Também há mais competições para colocar tudo em prática. Não parece a hora de defenestrar Micale e voltar a encher a CBF de ex-boleiros sem formação e preparo.

O problema maior do processo segue sendo a transição e a afirmação dos mais promissores no profissional. Muito porque o empresário e a família querem que o craque sub chegue com banca entre os adultos. Ou só passe por lá em busca do sonho maior: a independência financeira nos centros mais rentáveis.

David Neres já entrou no time principal do São Paulo com status de estrela e, no meio do Sul-Americano, foi vendido ao Ajax. Difícil imaginar a cabeça do garoto para seguir no torneio de base com a primeira grande meta cumprida. Seleção principal, Copa do Mundo? Lá na frente e se for conveniente.

Uma busca individual em uma visão pouco coletiva. De mundo, que passa pela educação formal, em casa e entra no campo. Em um futebol de alto nível cada vez mais associativo, de união de forças, combinação de características. Um paradoxo.

Por isso a inconstância, a irregularidade de alternar um título mundial sub-2o em 2011, um vice em 2015 e duas eliminações no Sul-Americano, em 2013 e agora. Um sinal de que está na hora de começar a privilegiar a inteligência em campo. Ela vale bem mais que “alegria nas pernas”.


Pratto e Borja, dois perfis de centroavante que ainda funcionam
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André Rocha

Lucas Pratto queria jogar e não ser reserva de Fred no Galo, o São Paulo precisava de um centroavante mais qualificado que Chávez e Gilberto e ganhou espaço no orçamento com a venda de David Neres para o Ajax. O Atlético Mineiro também precisava de um alívio na folha salarial. Ótima oportunidade para as três partes.

O Palmeiras tinha dinheiro para investir, mas não um nome para repor Gabriel Jesus à altura e fazer o elenco efetivamente mudar de patamar, já que antes as aquisições apenas compensavam a perda da maior estrela para o Manchester City. Agora tem Miguel Borja, do Atlético Nacional campeão da Libertadores.

O argentino e o colombiano são contratações de impacto no mercado nacional porque são perfis de centroavante que ainda funcionam num cenário em que o jogador fixo entre os zagueiros hoje é mais referência para a defesa adversária do que para o próprio ataque.

Pratto é versátil, sabe recuar para jogar entre as linhas, já atuou como atacante atrás do centroavante em Genoa e Vélez Sarsfield. Tem timing e estatura para o jogo físico e aéreo na área adversária, é bom na pressão no campo adversário, sabe abrir espaços e tem bom passe vertical para infiltração em diagonal dos ponteiros. Características muito úteis para a proposta de jogo de Ceni. Sem contar a liderança e a fibra para cativar uma torcida que anda carente de ídolos além do treinador.

Já Borja tem características parecidas com as de Gabriel Jesus. Sai para os lados, tem velocidade para contragolpes, mas também presença física na área e recursos técnicos como finalizador. Personalidade e contundência em jogos grandes,técnica, agilidade, explosão. Para ajudar, o entrosamento com Guerra. Uma ascensão surpreendente aos 24 anos depois de uma carreira errante, com muitos empréstimos e vindo do Cortuluá para ser decisivo na conquista da Libertadores do Atlético Nacional.

Nos dois casos a tendência é ter encaixe imediato, sem maiores problemas de adaptação. O São Paulo fica mais forte e pode acelerar a assimilação das ideias do técnico para ficar competitivo mais rapidamente. Já o Palmeiras consolida sua condição de favorito à conquista da Libertadores. Tem todas as ferramentas para formar o time mais forte do continente.

Sem garantias, mas com ótimos indícios.

 


São Paulo não perdeu para qualquer um e ideias de Ceni precisam de tempo
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André Rocha

Por maior que Rogério Ceni seja para o São Paulo, sua história como técnico é uma página em branco que começa a ser escrita.

Talvez fosse mais simples começar em uma equipe menor ou nas divisões de base. Já que resolveu começar no clube que o tem como maior ídolo, a proposta de jogo poderia ser mais simples, partindo do básico para o mais complexo.

Mas Ceni é ambicioso, como sempre foi na carreira como goleiro-artilheiro. Quer muito e já. O São Paulo resolveu investir no projeto e agora vai precisar de paciência, mesmo em um cenário de seca de títulos e ansiedade do torcedor.

Porque não é fácil se colocar como protagonista nas partidas. Adiantar linhas, trocar passes, empurrar o adversário para trás, criar espaços. É uma escolha que, como qualquer outra, corre riscos. Ainda mais num início de trabalho.

Pior ainda quando encara uma equipe organizada por um treinador que não abre mão de jogar. O Audax de Fernando Diniz qualifica a saída de bola com o recuo de Pedro Carmona e Léo Arthur e envolve na frente com muita movimentação do trio ofensivo e laterais espetados, chegando à frente com velocidade e muita gente.

Letal para Douglas e Buffarini perdidos pela esquerda e expostos pela lenta recomposição. Muito por conta da qualidade do adversário para sair da defesa para o ataque. Porque a premissa da proposta de Ceni é pressionar na frente para quebrar o passe. Coisa que Chávez, Luiz Araújo, Cueva e Wellington Nem, depois Cícero, não conseguiram.

Só com o recuo natural do Audax depois de abrir 2 a 0 em oito minutos com Marquinho e Carmona é que o tricolor paulista ganhou volume e poder de reação. Com Cícero na vaga de Nem, a bola passou a transitar mais pelo meio e encontrou Chávez duas vezes para empatar.

Na segunda etapa a diferença foi a competência da equipe de Fernando Diniz na bola parada com o gol de Felipe Rodrigues. O São Paulo reagiu com João Schmidt na vaga de Douglas, com Rodrigo Caio recuando para a zaga.

Depois Gilberto entrou na vaga de Chávez e aí Ceni teve que abrir mão de sua ideia e partir para uma espécie de “Muricybol” dos seus tempos de tricampeão brasileiro, despejando bolas na área adversária. Muito pelo cansaço de sempre correr atrás do resultado.

Também porque é preciso refletir sobre o contexto brasileiro na hora de pensar num modelo de jogo. O calor e os gramados desgastam mais quem joga na base de pressão e movimentação para criar espaços. Intensidade, porém com pausas de controle de jogo com posse de bola e uma marcação mais compacta no próprio campo.

O São Paulo foi superior na posse (55%) e teve mais que o dobro de finalizações – 27  a 12, dez a sete no alvo. Mas morreu no pênalti em Gabriel Leite que Carmona converteu. De qualquer forma, os 4 a 2 na Arena Barueri não são o fim do mundo, nem razão para Rogério Ceni mudar tudo e rasgar sua proposta, que não é simples. A fase é de aprendizado. Do time em relação à nova forma de jogar e do treinador na nova função. Precisa de tempo.

Acima de tudo, fazer algo tão raro por estas bandas: reconhecer os méritos do vencedor. O Audax foi superior e Fernando Diniz é um técnico mais pronto, que vai aprendendo com os erros sem abrir mão de sua filosofia. Em um país menos conservador quando o assunto é futebol já teria oportunidade num clube de maior investimento.

O São Paulo acreditou em Ceni. Só que a fase dos milagres na meta fazem parte do passado. O comandante ainda não está pronto.

(Estatísticas: Footstats)

 

 

 

 

 


Alexandre Pato no futebol chinês confirma falta de ambição no campo
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André Rocha

Pato China

Alexandre Pato surgiu no Internacional em 2006 aos 17 anos como um fenômeno, a ponto do técnico Abel Braga esconder os treinos com o objetivo de prepará-lo para entrar voando nos profissionais, surpreender os adversários e também evitar uma negociação precoce.

Campeão mundial de clubes e da Recopa Sul-Americana, foi parar no Milan em 2007 e no ano seguinte estreou com gol na seleção brasileira principal. A impressão era que com a depressão de Adriano pela perda do pai, o talentoso atacante seria o herdeiro genuíno da linhagem Careca-Romário-Ronaldo.

As seguidas lesões na Itália reforçavam a imagem de uma vitima de problemas físicos ou simplesmente falta de sorte. Mas com a plena recuperação no Corinthians em 2013 e a tão sonhada sequência de jogos, ficou claro o maior obstáculo para Pato se tornar o que se esperava dele: a falta de ambição no campo, competindo.

Saiu escorraçado do Corinthians e, no São Paulo, quando vivia o melhor momento sob o comando de Juan Carlos Osorio, a insatisfação e o desejo de retornar ao futebol europeu. A ideia era coerente: se antes o problema eram as contusões, agora, inteiro e mais maduro, chegava a hora de brilhar.

Conseguiu a volta no Chelsea de Guus Hiddink, numa fase de transição e pouco tempo para mostrar seu trabalho. Não passou de um reserva conformado. Volta frustrante ao Corinthians, sabendo que não entraria em campo. Então caiu do céu a oportunidade: o forte Villareal, que disputa vaga na Champions e tenta complicar a vida dos favoritos Barcelona e Real Madrid no Espanhol.

Mesmo coadjuvante do companheiro de ataque Sansone, o desempenho era satisfatório numa grande liga. Em 23 jogos, seis gols e quatro assistências. Com 27 anos era o momento de evoluir e se afirmar de vez, ainda que um retorno à seleção com Tite no comando parecesse improvável.

E Pato vai para China, atrás de uma proposta milionária…Legítimo. Cada profissional sabe de seus projetos e padrões de vida. Talvez haja mesmo preconceito deste que escreve com a liga asiática emergente, ainda que as contratações sejam cada vez mais respeitáveis.

Mas para quem afirmava a vontade de jogar entre os melhores e havia recusado, ainda no Corinthians, proposta semelhante do mesmo Tianjin Quianjian no ano passado, a decisão não deixa de ser contraditória.

Indecifrável como o próprio Pato. Sempre feliz e tranquilo nas declarações, mas de carreira errante, incerta. Ou com a certeza de que ele suas ambições não estão no campo de jogo. Só aumenta a decepção de quem imaginava surgir uma estrela em 2007.

Talvez o espanto (e o erro) esteja nos olhos de quem não viu um grande monstro do nosso futebol se criar. Pena.

 


FIFA? Quem deve contar sua própria história é o clube
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André Rocha

Quem sabe o valor de vencer o primeiro torneio internacional depois do Maracanazo em 1950 é o Palmeiras. Enfiar 3 a 0 no poderoso Liverpool ou superar o “Dream Team” do Barcelona com Cruyff no comando e Guardiola em campo são feitos que nenhum agente externo saberá medir tão bem quanto Flamengo e São Paulo. Os nomes de Copa Rio e Copa Toyota são meros detalhes.

A FIFA é a entidade máxima do futebol e o que ela determina é a versão oficial. Ponto. Daí a ter credibilidade para definir se uma conquista é válida ou não vai uma distância bem grande. Um abismo.

O equívoco dos clubes é ficar buscando equiparações, trazendo para o século 21 um contexto que pertence àquela época e precisa ser lembrado. A FIFA na Era João Havelange não se importava em organizar um Mundial de clubes simplesmente porque estava mais preocupada em fazer política junto aos países, no universo de seleções, para se manter no poder.

Com a mudança do lado da força para os clubes globais e milionários passou a ser interessante a criação do torneio. Mesmo que os europeus sigam tratando como um engodo, um problema no planejamento da temporada.

Cabe ao clube valorizar os ídolos do passado, explicar a relevância de uma disputa que não existe no calendário atual, mas naqueles anos, com todas as suas particularidades, valia para definir qual o melhor time do planeta. E daí se para a FIFA não era importante?

Ela não tem o poder de apagar os livros e arquivos. Nem deveria ser alvo de súplicas para equiparar o que não tem paralelo. O título já tem o seu valor, com ou sem “beija mão” na entidade. O que foi conquistado não pode virar chacota, “título por fax”. Não é justo com quem suou em campo, nem com quem lotou o estádio e comemorou no final. Não precisa de chancela. Porque se ela não vem é como se a taça nada valesse desde sempre.

Quem deve contar sua própria história é o clube.