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Croácia é um belo “case de caos”. Mas não deve ser exemplo mesmo que vença
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André Rocha

Foto: Yuri Cortez/AFP

O último título mundial do Brasil em 2002 foi um curioso caso, talvez único, no qual a conquista ficou parecendo a consolidação de um trabalho que vinha do título em 1994, passando pelo vice quatro anos depois. Mas a trajetória de fato foi caótica: Vanderlei Luxemburgo, Candinho e Emerson Leão até chegar a Luiz Felipe Scolari.

Sofrimento nas Eliminatórias, vergonha na Copa América contra Honduras. Tudo deu certo mesmo apenas na Ásia – com seus percalços, como a estreia contra a Turquia vencida no pênalti “mandrake” sobre Luisão e nas oitavas, quando a arbitragem também interferiu no triunfo sobre a Bélgica.

Curiosamente, depois do título veio um período de esperança e prosperidade. Amadurecimento de Kaká e Adriano Imperador, surgimento de Robinho e Diego no Santos campeão brasileiro ainda naquele ano. Com Parreira no comando, títulos da Copa América, Copa das Confederações e liderança nas Eliminatórias. A queda pós ascensão veio logo no Mundial na Alemanha.

Depois o Brasil não mais se impôs. Com ciclo completo de Dunga em 2010, os nas mudanças de Mano Menezes para Felipão em 2014 e agora saindo de Dunga para Tite. Pelas mais variadas circunstâncias, inclusive a aleatoriedade em jogos eliminatórios.

A classificação da Croácia para a final contra a França despertou aqui e ali uma tese bastante presente em nosso país: planejamento e organização não garantem sucesso, que se resume ao título. Ainda mais em tempos de Flamengo e Palmeiras equacionando dívidas e sem conseguir alcançar os troféus desejados justamente no momento em que os investimentos aumentaram.

Devia ser óbvio defender uma linha de trabalho com ideias claras e objetivos bem definidos. Que no futebol não pode ser atrelada tão diretamente a algo sem controle como o resultado final. Muito menos em uma Copa do Mundo. Torneio que conta com sorteio e chaveamentos. No qual a ordem de adversários e as circunstâncias são totalmente aleatórias. Premia o melhor daquele mês, não necessariamente o do ciclo inteiro.

O trabalho sério é para garantir a competitividade. Sair de um papel de coadjuvante, desclassificado na primeira fase, para brigar no topo ou no mais próximo disto. Assim foi com Espanha, França, Alemanha e Bélgica. Assim pensa o Brasil ao vislumbrar mais quatro anos com Tite.

Porque a Croácia pode até ser campeã mundial. Mas correu sérios riscos de ficar de fora da Copa. Quando contratou Zlatko Dalic às pressas depois de demitir Ante Cacic precisava vencer a Ucrânia fora de casa para ir à repescagem, já que a Islândia garantira o primeiro lugar do grupo na eliminatória. Conseguiu um 2 a 0. A ventura no sorteio com a Grécia. O resto é história.

Que podia nem ter chegado a Rússia. Como aconteceu com Itália e Holanda. Uma renegou a formação de talentos, a outra encontra-se presa numa escola de futebol que tanto ofereceu ao mundo, mas parou no tempo. Risco que o Brasil correu com Dunga. Agora é fácil dizer que independentemente do treinador o país sempre vai à Copa. Era sexto colocado, atrás do Chile, bicampeão da Copa América que não se repaginou após a saída de Jorge Sampaoli e o espasmo com Pizzi na conquista do torneio Centenário nos Estados Unidos e ficou fora.

A Croácia é um “case de caos” para virar filme. Admirar a força mental dos jogadores, invejar a presença de meio-campistas talentosos como Modric e Rakitic e reconhecer a capacidade de mobilização e trabalhar no improviso de Dalic, que chega a seu 14º jogo no comando da seleção em uma final. Mas não pode servir de exemplo.

Melhor a França, que manteve o contestado Didier Deschamps depois do decepcionante revés em casa na final da Eurocopa contra Portugal e, sem tantos tempos extras e sofrimento, também está na decisão de domingo. Com favoritismo pelo menor desgaste e por contar com um trabalho mais consolidado.

Carrega, porém, o peso da responsabilidade de vencer. Exatamente o que sangra tantas equipes. Os croatas não têm absolutamente nada a perder. A campanha já é histórica, superando a geração de 1998. O cansaço já é um álibi até em caso de derrota por goleada. Se num último esforço conseguirem a vitória serão heróis eternos de um país.

Posição cômoda na Copa do Mundo da força mental. Mas até chegar lá esbarrou em muitas variáveis que podiam fazer tudo dar errado. Sem contar que é uma geração que não deve deixar legado para 2022. Porque há talento, sorte e muita fibra. Mas pouco trabalho e estrutura pensando a longo prazo. É a exceção à regra, como o Brasil da “Família Scolari” há 16 anos. Não pode ser referência para ninguém.


Neymar é o Brasil das contradições e do pensamento binário
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André Rocha

Foto: Pascal Guyot/ AFP

Neymar é individualista. Mas também é um dos que mais servem passes para gols no futebol jogado na Europa. Neymar só quer saber de ser o melhor do mundo. No entanto, aceitou ser coadjuvante de Messi no Barcelona e, mesmo voando na reta final da Liga dos Campeões, viu o argentino conquistar sua quinta Bola de Ouro em 2015. E aplaudiu.

Neymar tem vida social agitada, vai e volta o namoro com a atriz global. Mas também faz declaração de amor em público. Neymar queima sua imagem com provocações desnecessárias em campo e negociações, digamos, “complexas” do seu pai envolvendo seu nome. Ainda assim, é um dos mais requisitados para a publicidade. Vende o que quiser.

Neymar é contradição pura. Pode chutar ou xingar um adversário por quase nada em um jogo e abraçá-lo depois de levar entrada duríssima, como fez com o sérvio Ljajic. Na partida em que marca gol chora no gramado. Quando perde várias chances deixa o campo sorrindo e mandando beijos. Com os mesmos 2 a 0 no placar.

A impossibilidade de definir Neymar e encaixá-lo num estereótipo é o que mais incomoda quem o critica. Ou elogia. Quem vê seu narcisismo midiático tende a aproximá-lo de Cristiano Ronaldo. Mas ele é amigo de Messi. Se é marrento e não solta a bola, como era querido por todos no Barcelona, time com filosofia mais coletiva do mundo no qual, se alguém tiver que brilhar será o gênio argentino?

O PSG fez Neymar dar alguns passos atrás e hoje lembrar mais o garoto do Santos que tinha que resolver tudo na individualidade que o craque maduro e solidário do Barcelona. Aquele que voou no início da Era Tite na seleção brasileira. Fazendo gols ou dando assistências. Nos últimos tempos passou a prender um pouco mais a bola. Contra a Sérvia, sem reclamações e provocações. Fominha só no final, buscando seu gol com o placar tranquilo.

Neymar são vários. Como cada um de nós, só que com milhões de olhos o stalkeando no Instagram e nos sites sobre celebridades. Sendo dissecado à distância. Para muitos um deus, para outros tantos tudo de pior. No país do “Fla-Flu” e do pensamento binário, onde você é zero ou é um, ter muitas facetas é um problema sério.

Às vezes Neymar parece não ligar e estar alheio a tudo que o cerca. Mas sabe do que falam e escrevem. Parece desdenhar, mas vez ou outra muda o comportamento de acordo com críticas e elogios. É confuso, controverso. Dizem que não tem carisma e é antipático, mas nunca deixa de ser notícia. Até pelo que não fez. Tudo parece tão fake que bem que pode ser verdade.

Neymar é “ame-o ou deixe-o”. É vencer querendo mais mandar um “chupa” para os haters do que celebrar o próprio feito. É no carinho e na porrada. “100% Jesus” ou “Vão ter que me engolir”. Neymar é o Brasil. Deixem o menino-homem brincar. Mas com moderação.


O Brasil da concentração cumpre sua missão. Nesta Copa do Mundo não é pouco
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André Rocha

Marcelo sentiu com dez minutos e o Brasil perdeu outro lateral e mais uma liderança, técnica e no vestiário. Seria um baque para qualquer equipe do mundo, até para o Real Madrid tricampeão europeu e melhor time do planeta.

Entrou Filipe Luís e, apesar de mostrar novamente dificuldades na transição e na construção ofensiva no primeiro tempo, uma coisa saltava aos olhos: a impressionante concentração, especialmente da dupla Thiago Silva-Miranda. Mas também da recomposição no 4-1-4-1, ainda que Neymar não retornasse pela esquerda e deixasse Filipe sozinho com suporte do Casemiro e a cobertura de Miranda.

Controle do jogo até Philippe Coutinho encaixar um passe primoroso para Paulinho às costas de Sergej. Gabriel Jesus atraiu os zagueiros na jogada e ao longo da partida se destacou pela dedicação no trabalho coletivo. Inclusive na volta pela esquerda.

Neymar foi maduro. Sem se jogar e reclamar, prendendo a bola apenas com o jogo decidido, buscando seu gol. Ainda cobrou escanteio na cabeça de Thiago Silva no gol que fechou os 2 a 0. Boa atuação, ainda que não no nível que pode render. Às vezes dá a impressão de ser subaproveitado muito aberto pela esquerda.

Mas preocupante mesmo foi o momento de instabilidade no segundo tempo. A materialização do mantra “saber sofrer” de Tite. A Sérvia explorou pouco uma jogada que poderia ter sido muito perigosa: ataque pela direita atraindo Filipe Luís e fazendo a linha de defesa acompanhar para o cruzamento encontrar o gigante Mitrovic contra Fagner, muito mais baixo. Ameaçou apenas uma vez. Mas o volume construído pelos sérvios, dominando rebotes, rondando a área e finalizando quatro vezes seguidas, podia ter causado mais danos.

O segundo gol e a troca de Paulinho por Fernandinho resolveram o problema. Depois foi rodar a bola com Renato Augusto na vaga de Coutinho e subir o número de finalizações para 14 contra 9 – seis no alvo contra apenas duas do adversário. Fruto da concentração defensiva.

Entre as seleções com três partidas é a que menos concedeu finalizações e a segunda que mais intercepta. É líder nos dribles certos, segundo nas finalizações, terceiro em passes certos e quarto na posse de bola. Nos números é a seleção mais equilibrada do Mundial até aqui, ainda que não tenha os 100% de aproveitamento do Uruguai.

Com o empate por 2 a 2 entre Suíça e Costa Rica, a liderança do Grupo E foi conquistada com relativa e surpreendente tranquilidade para o cenário perigoso antes da última rodada. Missão cumprida.

Mas também nada garante. O México cumpriu uma das melhores atuações coletivas deste Mundial na estreia contra a Alemanha. Só que oscila demais sob o comando de Juan Carlos Osório. Derrota por 3 a 0 para a Suécia com uma atuação decepcionante, sem a estabilidade defensiva e a velocidade e a intensidade de Lozano pela esquerda. Contra o Brasil, porém, volta à confortável condição de “zebra”.

Porque a seleção de Tite mostrou força, mesmo ainda precisando de ajustes e consistência nos 90 minutos. Sem ufanismo, o copo parece meio cheio. Na imprevisibilidade da fase de grupos o Brasil foi seguro. Nesta Copa de gigantes sofrendo e a campeã Alemanha indo para casa, não é pouco.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Suíça, Costa Rica e Sérvia: Brasil pode encarar três ferrolhos. Um perigo!
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André Rocha

Acabou a ansiedade e tantas simulações neste mundo apressado que precisa inventar pautas o tempo todo. Agora é o que vale!

O Brasil fugiu de Inglaterra, que caiu no Grupo G com a Bélgica, e Espanha, adversário de Portugal no Grupo B. Não temos exatamente um “grupo da morte”, ainda que Islândia, Croácia e Nigéria não sejam adversários tranquilos para a Argentina no Grupo D.

Suíça, Costa Rica e Sérvia. O Brasil naturalmente é o favorito à primeira colocação do Grupo E. Mas pode ter problemas na primeira fase do Mundial da Rússia.

Duas seleções europeias que não devem abrir mão de forte compactação e, muito provavelmente, uma linha de cinco defensores. Ou armar linhas de quatro e recuar os meias pelos flancos reunindo seis homens protegendo as próprias metas. Já a Costa Rica desde o último Mundial costuma atuar com três zagueiros, mais dois alas que recuam como laterais. Serão três ferrolhos. Ninguém vai se abrir. Ou talvez só a Sérvia, por necessidade, na última partida.

Um problema para a seleção de Tite, que gosta de espaços para trabalhar e sofreu para infiltrar na linha de cinco da Inglaterra. Com Neymar conduzindo demais, Coutinho saindo da direita em direção à zona de maior pressão, Gabriel Jesus voltando para fazer pivô, laterais talentosos (Daniel Alves e Marcelo), mas apoiando muito por dentro e sem buscar a linha de fundo com velocidade. Apenas Paulinho buscava o espaço às costas da defesa. Algo a ser trabalhado até lá.

Costa Rica de Keylor Navas, Suíça de Xhaka e Shaqiri e Sérvia de Matic. Em termos de qualidade individual e tradição, não é nada preocupante. Mas nunca o esporte foi tão coletivo e focado em ocupação e criação de espaços. Jogar com a responsabilidade de se instalar no campo de ataque é uma responsabilidade grande. E um perigo!

Por ora são as possíveis previsões. Mais que isso é adivinhação. Que dirá tentar imaginar adversários nas oitavas, quartas. O futebol está cada vez mais nivelado, com jogos duros. Imaginar apenas os favoritos se classificando chega a ser ingênuo. Ainda mais num Mundial em que Itália, Holanda e Chile ficaram de fora.

Mais prudente seguir o clichê e pensar jogo a jogo. Ou melhor, priorizar a preparação para melhorar o desempenho e crescer na hora certa.


Brasil na Copa! Agora é encarar gigantes, mas também retrancas “handebol”
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André Rocha

A vitória do Peru sobre o Uruguai por 2 a 1 de virada garantiu matematicamente o que estava claro no campo: o Brasil estará na Copa do Mundo da Rússia.

Com a confirmação oficial, o discurso de Tite é experimentar jogadores, manter a concorrência em alto nível por vagas não só no time titular, mas no grupo de 23 até a convocação final. Também medir forças com as principais seleções europeias em amistosos.

Importante para o próprio treinador ganhar cancha em grandes duelos internacionais além do continente. Ainda que os europeus tratem os jogos que não valem três pontos com menos seriedade, rodem o elenco e não se importem tanto com o resultado final.

Mas há um teste tão fundamental quanto os grandes clássicos mundiais para esta seleção brasileira: enfrentar uma retranca típica desta era do futebol moderno. A criada por José Mourinho para conter o Barcelona de Guardiola. Alguns chamam de “ônibus” na frente da própria área. Este que escreve prefere tratar como “handebol”. Leia mais AQUI.

Foi vista com frequência na última Eurocopa e criou problemas para grandes seleções. Uma linha de cinco na defesa, outra de quatro no meio. Mas tão próximas que em alguns momentos era possível ver sete ou até os nove fechando os espaços para a infiltração do adversário. Como o momento defensivo do handebol, obviamente com outra dinâmica e um campo maior para cobrir.

O exemplo mais radical foi a Irlanda do Norte que deu trabalho à campeã mundial e então favorita Alemanha. A linha de cinco se estreitava e permitia que os meias pelos lados também recuassem praticamente como laterais, formando uma barreira de sete homens que os favoritos abriram à forceps no gol único de Mario Gómez.

Flagrante da linha de sete defensores da Irlanda do Norte para conter o ataque alemão na fase de grupos da Eurocopa 2016. Lembra o handebol (reprodução Sportv).

Por que será importante para o Brasil de Tite? Ora, com o favoritismo que pode aumentar caso seja bem sucedido nos amistosos, os oponentes não terão vergonha de se retrancar. Mesmo os mais tradicionais. E certamente numa fase de grupos ou até nas oitavas-de-final não será surpresa ter pelo menos dois adversários adotando esta prática.

Para abrir esse ferrolho, o posicionamento dos jogadores é tão importante quanto o drible, a movimentação e a inventividade na criação de espaços. No 4-1-4-1 de Tite, Philippe Coutinho e Neymar são pontas que procuram o meio para tabelas e triangulações. Os laterais, Daniel Alves e Marcelo, que poderiam abrir bem e esgarçar a marcação também tendem a centralizar. Para furar a linha de handebol fica mais complicado.

A Austrália, adversária no amistoso que será disputado em junho, costuma atuar com três zagueiros. Mas vale o teste contra uma seleção da Europa. País de Gales, de Gareth Bale, chegou à semifinal da Euro se defendendo com cinco na última linha e recuando até o seu grande craque para negar espaços. Pode ser um rival interessante. Sérvia também joga com cinco atrás. A própria Irlanda do Norte.

A Itália venceu ontem a Holanda de virada em Amsterdã por 2 a 1 com Zappacosta, Rugani, Bonucci, Romagnoli e Darmian à frente do jovem goleiro Donnarumma. Mais De Rossi na proteção. Uma experiência do técnico Giampiero Ventura seguindo a linha de seu antecessor Antonio Conte, sensação na Premier League atuando no 5-4-1 quando não tem a bola. Se mantiver a ideia pode ser um confronto ainda mais importante, pois combinaria peso da camisa e um teste para o ataque brasileiro.

A linha de cinco, mais dois jogadores no apoio, da Itália na virada sobre a Holanda. Se Gianpiero Ventura mantiver a estrutura, pode ser teste interessante para a seleção brasileira (reprodução ESPN Brasil).

Antenado ao que acontece no futebol mundial e detalhista como é Tite, certamente a retranca “handebol” está no seu radar. Porque os adversários nas Eliminatórias até tentaram se fechar contra o Brasil, mas não com essa proposta mais radical.

Como Neymar e seus companheiros vão se comportar? Temos praticamente um ano para descobrir até a bola rolar na Rússia.


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