Blog do André Rocha

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Na estreia de Luxemburgo, a clara divisão entre jogo tático e o aleatório
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André Rocha

Vanderlei Luxemburgo comandou um treino no Sport para o jogo de volta, em casa, pela Copa do Brasil. Na prática, a única contribuição seria na motivação natural pela mudança no comando técnico. Não há como alterar o modelo de jogo em dois dias.

Por isso a nítida superioridade do Botafogo enquanto o jogo se desenvolveu mais no aspecto tático e estratégico que no psicológico. Mesmo com o sentido desfalque do suspenso Bruno Silva no meio-campo, Jair Ventura manteve a estrutura tática com João Paulo no lado direito e Aírton e Lindoso no centro da segunda linha.

Velocidade nos contragolpes. Até com Roger mais rápido que a lenta dupla Matheus Ferraz e Durval. Assim marcou o golaço no toque por cobertura. Também acelerou e passou para Pimpão marcar o gol absurdamente mal anulado, que podia ter definido a partida e o confronto. Nitidamente atrás da linha da bola.

O Sport adiantava as linhas num 4-2-3-1 que sofreu com um problema que vem desde os tempos de Eduardo Baptista: os ponteiros, no caso Everton Felipe e Rogério, recuam muito para fechar os flancos e deixam Diego Souza e André na frente, que não conseguem fazer a transição ofensiva ganhar velocidade. O time rubro-negro não tem fluência.

Piorou com a tola expulsão de Rogerio, repetindo a final da Copa do Nordeste. Luxemburgo, que tirou Everton Felipe e colocou Lenis ainda no primeiro tempo, preparava Marquinhos para a vaga do ponteiro e precisou esperar e mudar a substituição, tirando Fabricio, improvisado na lateral direita.

E aí veio o erro do Botafogo. Com vantagem no placar e um homem a mais, desconcentrou. Perdeu intensidade e vontade de contra-atacar. O Sport tentava pela obrigação, mas sem nenhuma coordenação. Até achar o gol com Durval na jogada aérea.

O jogo resolvido virou drama por entrar na aleatoriedade. O time visitante recuou demais, trocou Roger por Guilherme, que pecou pelo individualismo em dois contragolpes. O Sport, no grito da torcida, despejou bolas na área – foram 34 cruzamentos no total. Fez o goleiro Gatito Fernández trabalhar.

O Botafogo viveu no fio da navalha e só respirou nos acréscimos, com o nítido cansaço no gramado encharcado da equipe de Luxemburgo, que já notou que vai precisar subir a ladeira para tornar o Sport competitivo. Na disputa tática, o Botafogo sobrou. Mas deixou o jogo ser arrastado para a “loucura” e quase volta para casa sem a vaga nas quartas da Copa do Brasil.

Impressionante como acontece em todo mundo essa virada de chave na reta final das partidas. No Manchester United era chamado de “Fergie Time”. Quando a organização vai para o espaço e tudo fica na base da emoção. E aí não basta ser bem treinado.

Jogo dividido. Um a um. Obra do futebol tão plural e imprevisível.

(Estatísticas: Footstats)

 


Eles não podem errar! A dura transição do mercado de treinadores no Brasil
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André Rocha

Quando Zé Ricardo chamou Matheus Sávio para dar instruções enquanto a torcida do Flamengo no Serra Dourada pedia a entrada da joia Vinícius Júnior, o treinador sabia que corria riscos por suas convicções.

Afinal, se o time fosse eliminado da Copa do Brasil, independentemente do rendimento do jovem atacante, que entrou muito mal contra o San Lorenzo na traumática derrota na Libertadores, as chances de ser demitido cresceriam exponencialmente.

Mas Sávio, assim como contra o Atlético Mineiro no Maracanã, na estreia do Campeonato Brasileiro, colocou um cruzamento no fundo das redes do goleiro Felipe do Atlético-GO. O choro copioso do jogador foi sintomático. É muita pressão para quem ainda está no início de sua trajetória entre os profissionais.

O mesmo vale para os treinadores. No país do futebol de resultados, o comandante passa de “boa novidade” e “atualizado” para “estagiário” e “rolando lero” a cada semana. Mesmo que a sua equipe esteja organizada e o placar adverso tenha vindo por uma infelicidade na defesa ou chances perdidas na frente.

Ou até se eles se equivocarem, algo absolutamente natural. No mais imprevisível e caótico dos esportes, o que foi treinado baseado em observação e análise pode dar errado por uma noite ruim do atleta e aquela mudança aleatória, mais por conta da intuição, pode terminar em vitória. Para quem tem bagagem já é um desafio, imagine para novatos.

Eles simplesmente não podem errar. Seja Zé Ricardo, Roger Machado, Eduardo Baptista…Mesmo Jair Ventura, com enorme crédito no Botafogo, quando tentou mudar a maneira de jogar contra o Barcelona de Guayaquil no Estádio Nilton Santos e saiu derrotado as críticas vieram pesadas.

A transição no mercado de treinadores é dura. Depois dos 7 a 1 que mandaram Luiz Felipe Scolari para a China e da queda em desempenho e resultados de grifes como Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho e até Marcelo Oliveira, apesar dos títulos com Cruzeiro e Palmeiras, um buraco foi aberto para uma leva de profissionais com conceitos atualizados, vendo e pensando o futebol como é jogado nos grandes centros.

Um jogo mais coletivo e que trabalha com informações e gestão na comissão técnica. Menos com carisma e discursos motivacionais. Quando o resultado acontece, tudo isso é louvado. Se não, bate a saudade dos velhos nomes e de fórmulas antigas. Como se o que deu certo na década passada necessariamente dará em 2017.

O cenário é complexo. Dá para contar nos dedos de uma das mãos os treinadores do país que conseguem unir vivência como ex-jogador, conteúdo atual, sensibilidade na gestão de grupo e da comissão técnica. Ou seja, no auge da carreira. O melhor deles está na CBF.

Por conta de todas as dificuldades citadas, as experiências com estrangeiros não foram felizes – vide Diego Aguirre, Ricardo Gareca, Edgardo Bauza, Juan Carlos Osorio, entre outros. Quando estão começando a aprender o idioma para se comunicar já estão passando no RH e voltando para casa.

Simplesmente não há paciência, porque falta convicção para acreditar num projeto de longo prazo. Roger Machado e Zé Ricardo acharam que teriam um pouco mais de paz e respaldo para trabalhar por conta de conquistas nos estaduais. Mas basta uma sequência de resultados ruins e tudo é esquecido.

Ainda mais em clubes dos quais se espera muito. Pela capacidade de investimento e ilusão alimentada por departamentos de marketing e também por nós da imprensa, o torcedor passa a crer que seu time de coração conta com um elenco estelar e que basta o treinador distribuir certo as camisas e não atrapalhar para tudo acontecer.

Não é assim que funciona. Estar atualizado nas ideias e métodos ajuda a não ser surpreendido, a minimizar a aleatoriedade do jogo. Mas não garante nada. Muito menos onde não se valoriza filosofia e identidade, só o placar final e a conquista que vão gerar memes e zoações. Até tudo ser esquecido no próximo jogo.

Por ora, Dorival Júnior é o sobrevivente na Série A, comandando o Santos desde julho de 2015. Já Ney Franco foi demitido do Sport depois de perder a Copa do Nordeste para o Bahia com menos de dois meses de trabalho. Treinadores com rodagem de mais de uma década. Paulo Autuori, com mais de quarenta anos à beira do campo, cansou. “A rotina consome”, explicou. Vai ser gestor no Atlético-PR e abre espaço para Eduardo Baptista.

Paciência não significa ser permissivo e deixar de cobrar o desempenho que chega ao resultado. Os profissionais são bem remunerados para isso. O ponto nevrálgico é o imediatismo, a incapacidade de observar um lastro de evolução, vislumbrar um futuro melhor. Tudo ainda se resume à tentativa e erro. Até acertar. Para ontem.

Enquanto isso, segue a roda vida, a máquina de moer técnicos. Zé Ricardo escapou no gol de Matheus Sávio. Quem será o próximo?


Uma pena, Flamengo! Não por 1987, mas por se rebaixar tanto desde então
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André Rocha

O Flamengo fez tudo certo em 1987. Foi campeão da Copa União, principal torneio do futebol brasileiro daquele ano. Competição organizada e viável financeiramente, mostrando que quando os clubes se unem são capazes de fazer muito.

Time com Jorginho, Leonardo, Zinho e Bebeto que seriam campeões mundiais em 1994 pela seleção; com Leandro, Andrade e Zico do maior time que o clube já teve. Do goleiro Zé Carlos, terceiro goleiro na Copa de 1990. Do Edinho de três Copas do Mundo (1978, 1982 e 1986). De Renato Gaúcho, destaque maior do time comandado por Carlinhos, um dos grandes treinadores da história do Flamengo. Também selecionável. Mais Aílton, multicampeão pelo próprio Fla, mais Flu, Grêmio, Botafogo…

Depois enfrentou o status quo, não roeu a corda. Se a CBF admitiu que não tinha competência para organizar o campeonato brasileiro e os clubes assumiram a bronca, não fazia sentido devolver à entidade o bom produto que criaram. Muito menos se submeter às mudanças impostas no regulamento – antes da bola rolar, diga-se.

Grande também foi o Internacional, vice-campeão que poderia ter visto no cruzamento dos módulos uma chance de título e disputa da Libertadores, mas não recuou na fidelidade ao Clube dos Treze. Porque era a chance de tomar para si as decisões e minar as forças da estrutura federativa do nosso futebol.

Os clubes falharam. O Flamengo pecou ao se rebaixar com um comportamento de cordeirinho, suplicando e se humilhando diante da CBF para obter uma equiparação. Ou dividir o título nacional com o Sport, que ao longo do tempo passou a tratar a disputa legítima por seu direito conquistado como questão de honra, uma guerra regional contra o “eixo do mal”.

A Copa União foi uma das conquistas mais simbólicas do Flamengo. De virtualmente eliminado a campeão superando a equipe de melhor campanha, o Atlético Mineiro de Telê Santana, primeiro tirando a invencibilidade no Maracanã e depois vencendo no Mineirão em uma das maiores partidas já disputadas num estádio do país cinco vezes campeão do mundo. Um título com a marca do “Deixou chegar…”

A taça não precisa mudar de nome para ganhar valor. Pode continuar sendo Copa União para carregar suas lembranças. Não depende de uma das muitas canetadas que reescrevem a história de acordo com a conveniência de seus caciques.

O Flamengo apelou. Desceu ao nível dos dirigentes que ainda circulam por aí e na época garantiram unidade e o título do rubro-negro carioca, mas depois, por clubismo, bairrismo ou outros interesses, como uma ridícula Taça de Bolinhas, rasgaram os próprios princípios.

Não precisava. Que pena, Flamengo! Não por 1987, mas pela humilhação desde então. Até hoje, no  recurso derradeiro atrás de um título que já é seu. Que seja o último, para não ficar ainda mais feio. Porque há trinta anos foi tudo lindo.

 


Argel e Muricy: futebol de resultados pouco oferece além do placar final
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André Rocha

O Internacional de Argel Fucks saiu vaiado do Beira-Rio depois do pênalti perdido por Paulão – ou defendido pelo goleiro Danilo, o melhor da Chapecoense – até deixar o campo. Pouco ou nada valeram os 61% de posse de bola e as onze finalizações.

Porque na necessidade de propor o jogo e diante de uma resistência maior que as equipes de menor investimento do Rio Grande do Sul, a bola circulou mais entre os jogadores da última linha de defesa e o volante Fernando Bob. Time jovem, campeão gaúcho, promissor. Mas sem ideias, sem gols. À imagem e semelhança de seu treinador. Sem vitória na estreia do Brasileiro.

Muricy Ramalho foi taxativo no Raulino de Oliveira depois do triunfo sobre o Sport: “Nós fomos ousados em muitos jogos e perdemos todos. Todo mundo acha bonito como o Flamengo joga, e jogam nos nossos erros. Agora não. Agora vamos jogar para ganhar.”

Ou seja, toda a filosofia inspirada no Barcelona vendida pelo técnico depois de voltar da Europa e comprada pelo Flamengo como solução não existe mais. O 4-3-3 com posse de bola e busca de protagonismo e uma nova estética deu lugar a um time mais reativo e pragmático.

Decisão legítima. Nos casos de Leicester City na Premier League e Atlético de Madri na Liga dos Campeões, por exemplo, a proposta é totalmente compreensível pelo contexto, enfrentando gigantes com orçamentos quase ilimitados. Aí é preciso se doar até a última gota de suor, além das forças. Vencer é o grande feito. Sem complexo de vira-latas. Se fosse a Chapecoense ou o Audax por aqui a lógica seria a mesma.

Para dois gigantes brasileiros, na disputa nacional é pouco. Uma opção do jogo, sim. Só perde o direito de pedir tempo para implementar um modelo, um padrão. O futebol de resultados é fast-food, imediatista. Precisa aceitar, como efeito colateral, a roda viva e a avaliação jogo a jogo do trabalho do treinador. Tem que lidar com as vaias no empate e na derrota. Sem ideologia ou algo mais subjetivo.

Exatamente porque tem pouco a oferecer além do placar final.

(Estatísticas: Footstats)


Quem entende o São Paulo? Como prever a última vaga no G-4?
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André Rocha

O São Paulo de Milton Cruz ajudou a decidir o sexto título brasileiro do rival Corinthians com virada vibrante por 4 a 2 sobre o Atlético-MG no Morumbi. Com os três pontos, a volta ao G-4. Imaginava-se um time aceso e concentrado na Arena do campeão contra os reservas de ressaca.

6 a 1. A maior humilhação já sofrida por um grande em clássicos. Nem os 7 a 1 do próprio Corinthians no Santos em 2005 ou o mesmo placar – fatídico! – em 1994 do Fluminense sobre o Botafogo numa fase final de Estadual. Muito menos a vitória dos reservas do Botafogo de Joel Santana sobre o Flamengo de Romário e Sávio no Carioca de 1997. Multiplique por seis. Ou mais.

Bola parada, novo show de Danilo como “falso nove”, assim como na estreia da fase de grupos da Libertadores. Atropelamento que nem as ausências de Rogério Ceni e Paulo Henrique Ganso, citadas pelo técnico interino, ainda zonzo na coletiva pós massacre, conseguem justificar. Nada explica.

Como entender o tricolor do Morumbi em 2015? No caos político, administrativo e financeiro, ainda luta por vaga na Libertadores. Aliás, permaneceu em quarto lugar, mesmo com a tragédia. E tem chances concretas! Recebe o Figueirense no Morumbi e sai na última rodada contra o Goiás, talvez já rebaixado.

Sim, a goleada foi de perder o chão. Mas os 6 a 2 no agregado para o Santos na Copa do Brasil também pareciam fazer o time perder o rumo de casa. Na volta ao Brasileiro, 3 a 0 no Sport embalado com Paulo Roberto Falcão. Sem contar outras derrotas e vitórias absolutamente improváveis – como o revés para os reservas do Ceará no Morumbi pela Copa do Brasil e o triunfo em Porto Alegre sobre o embalado Grêmio, ambos por 2 a 1.

É possível juntar os cacos e ainda alcançar o objetivo. Também pelo contexto e por conta da instabilidade dos concorrentes. Santos que dividia bem as atenções entre Brasileiro e Copa do Brasil e jogava em ambas o futebol mais vistoso do país, agora resolveu priorizar a decisão do torneio contra o Palmeiras e virou um grande ponto de interrogação.

Perdeu a “cultura” da vitória? A temporada está pesando e foi obrigado a optar, com chances de recuperar o rendimento na decisão? Usar time misto ou reserva em São Januário diante do Vasco ainda vivo para fugir do Z-4 significa praticamente abrir mão dos três pontos e da vaga na Libertadores via Brasileiro, apostando tudo na outra competição. E se ficar sem a taça?

Difícil racionalizar. Tão complicado quanto prever o que o Internacional pode conseguir nas duas últimas rodadas. A tabela não é das mais desafiadoras: Fluminense de “férias” no Maracanã e definindo em casa contra um Cruzeiro que esfriou a arrancada com Mano Menezes e já planeja o ano que vem.

A vitória no Gre-Nal não vingou os 5 a 0 do turno, mas renova esperanças. Boa atuação coletiva, com muita intensidade e pressão no campo adversário, além da fibra de Rodrigo Dourado na jogada pela direita que terminou em assistência para o gol da vitória, marcado por Vitinho. De novo a combinação juventude + experiência pode dar certo.

Mas como garantir? A instabilidade começa pelo técnico Argel Fucks. Sanguíneo, explosivo. As notícias de Porto Alegre garantem que está fora para 2016 e o relacionamento com o elenco não é dos mais saudáveis. Tudo para dar errado, mas pode terminar em Libertadores, como o “tapa-buraco” Mário Sérgio em 2009 que por um gol de Angelim no Maracanã sobre os reservas do rival Grêmio não acabou campeão brasileiro. Vai saber…

E quem pode compreender? O São Paulo e os demais, incluindo o Sport ainda com chances matemáticas, que oscilam insanamente. Menos o Corinthians absoluto. Mesmo com os reservas.


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