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Real Madrid se sai melhor que o Liverpool nos clássicos antes de Kiev
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André Rocha

Havia muito em jogo para Real Madrid e Liverpool contra Barcelona e Chelsea, respectivamente, na reta final das ligas nacionais, impedindo que os times pudessem se dedicar exclusivamente à final da Liga dos Campeões no dia 26 em Kiev.

Para os Reds era a chance de confirmar a vaga na próxima edição do principal torneio do continente. No Stamford Bridge contra um adversário direto na Premier League. Já o time merengue entraria no Camp Nou com a missão de impedir o título espanhol invicto do rival Barcelona e ainda “carimbar” a despedida de Iniesta do clássico.

Tirando tudo que foi desnecessário no duelo entre os últimos campeões espanhois e europeus, desde o Real se recusando a recepcionar em campo o adversário que confirmou a conquista na rodada anterior até as brigas, chutes e pontapés que tiraram muito da beleza de um jogo sempre especial, não é absurdo dizer que a equipe de Zinedine Zidane deu mais uma demonstração de força.

Por iniciar pressionado pela dupla Messi-Suárez mais acesa que o habitual e pelo gol do uruguaio logo aos nove minutos em saída rápida bem engendrada com assistência de Sergi Roberto. Mas responder rapidamente com jogada coletiva ainda mais bela: calcanhar de Cristiano Ronaldo para Kroos, centro do alemão para Benzema preparar e o gênio português finalizar a obra que iniciou. O 25º do vice artilheiro da competição.

Real com uma “velha novidade” de Zidane: o trio “BBC”, fazendo a variação do 4-3-3 para as duas linhas de quatro sem a bola com o recuo de Gareth Bale pela direita. Na transição ofensiva, muita movimentação dos três, enchendo mais a área adversária. Ao menos por 45 minutos, já que Cristiano Ronaldo, por precaução, teve que sair no intervalo, substituído por Asensio.

Não só porque sentiu uma entrada dura, aparentemente maldosa, de Piqué justamente no lance do gol que empatou a disputa. Também por conta da pancadaria que tomou conta do jogo, muito mal conduzido pelo árbitro Alejandro José Hernandez, que culminou na expulsão de Sergi Roberto, que ingenuamente agrediu Marcelo na frente do juiz.

Desta vez o Real pode reclamar muito das decisões da arbitragem. Principalmente pela falta clara de Suárez na disputa com Varane que terminou no golaço de Messi quanto na falta dentro da área do Barça não menos nítida de Jordi Alba em Marcelo. Podia ter mudado o clássico e complicado a vida e a invencibilidade do time da casa muito mais que o golaço de Bale, completando assistência de Asensio. Foram 17 finalizações contra 11 do time blaugrana.

Mesmo com os 2 a 2, a força mental e a cultura de vitória se fizeram presentes. O desempenho geral também foi satisfatório. Confirmando algo que já virou senso comum: é difícil superar este Real Madrid em jogo grande.

O Liverpool também costuma crescer neste tipo de confronto, mas não foi o caso do duelo em Londres. Porque o time de Jurgen Klopp, ainda que mantenha a proposta ofensiva longe do Anfield Road, não consegue reproduzir o “arrastão” num ciclo de pressão pós-perda, acelerar a circulação da bola e acionar o seu trio de ataque.

Salah, Firmino e Mané também pagam um pouco o preço do sucesso e da visibilidade. Estão mais estudados e, consequentemente, vigiados em campo. Ainda mais contra o time de Antonio Conte com sua linha de cinco defensores e mais Kanté e Bakayoko na proteção.

Deram algum trabalho ao goleiro Courtois na primeira etapa, mas nos minutos finais apelaram para os muitos cruzamentos procurando Solanke, que entrou na vaga do lateral esquerdo Robertson, e o zagueiro Van Dijk, que se transformou em um segundo centroavante. Sem ideias, sem brilho. Os torcedores podem até desdenhar, mas quando os espaços diminuem o fato é que Philippe Coutinho faz muita falta aos Reds.

Assim como a equipe se ressente de uma maior solidez defensiva, especialmente pelo alto. No centro da direita, Giroud subiu mais que Lovren para marcar o gol único do duelo, ainda no primeiro tempo. Na ausência do lesionado Oxlade-Chamberlain, Klopp deixou Henderson no banco e arriscou uma formação com Alexander-Arnold formando o meio-campo com Wijnaldum e Milner e Clyne entrando na lateral direita. Podia ter sido melhor.

Apesar dos 68% de posse, foram apenas dez finalizações dos visitantes contra 12 dos Blues, que também foram superiores em desarmes e no jogo aéreo. Resultado coerente com o que foi a partida disputada com a intensidade típica do Campeonato Inglês.

Agora é obrigatório vencer o Brighton em Anfield para chegar aos 75 pontos e garantir ao menos a quarta colocação. A menos que venha a apoteose na Ucrânia com o sexto título da Champions. Depois de onze anos sem chegar a uma decisão e treze da última conquista.

Missão que já era complicada por enfrentar o atual bicampeão e maior vencedor da história. Depois dos clássicos fica a impressão de que a tarefa ficou ainda mais difícil.

(Estatísticas: Whoscored.com)

 


Goleada na última final de Iniesta também sinaliza Barcelona do futuro
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André Rocha

O Barcelona vencer a Copa do Rei não é nenhuma novidade, nem título a celebrar tanto assim, considerando o nível que o clube alcançou na década. Nas últimas dez edições foram seis conquistas, quatro consecutivas em um total de trinta. O maior vencedor do torneio.

Ainda na ressaca da surpreendente e até vexatória eliminação na Liga dos Campeões para a Roma, considerando as prateleiras bem separadas entre os clubes no cenário europeu, a conquista vale mais pelo simbolismo de ser a última decisão de Iniesta com a camisa blaugrana antes da mais que provável partida em direção ao futebol chinês.

Mas se os 5 a 0 sobre o Sevilla no Wanda Metropolitano, em Madri, reverenciam o passado com um dos últimos atos de seu camisa oito histórico, chegando a 31 títulos pelo clube, também sinalizam o futuro.

O primeiro gol foi simbólico. Com o adversário adiantando a marcação desde a área do Barça, o goleiro Cillessen, titular no torneio enquanto Ter Stegen joga nas outras competições, não fez a bola circular desde a defesa dentro da proposta tradicional do jogo de posição. Sem trocas de passes até o time se instalar no campo do oponente.

Lançamento direto para Philippe Coutinho, novamente pela direita, explorando os espaços às costas da defesa avançada do rival para arrancar e servir Luis Suárez. Jogada simples, objetiva e inteligente. Para que aumentar a margem de erro perto da sua própria meta se é possível chegar ao gol na mesma ação?

O resto foi consequência, com o Sevilla deixando um verdadeiro latifúndio às costas de Banega e N’Zonzi que Messi, Coutinho e Iniesta aproveitaram, cada um com um gol. Do argentino completando linda assistência de calcanhar de Jordi Alba, do brasileiro cobrando pênalti que sofreu e Messi cedeu generosamente. O mais belo do meia veterano, tabelando com Messi. Lembrando o “velho” Barça lá da Era Guardiola. Mas que precisa se adaptar aos novos tempos.

Para isso conta com Suárez, o centroavante que  dá profundidade aos ataques. Chama lançamentos e está sempre pronto para receber as “pifadas” de Messi. Intenso até a medula. Dois gols que encaminharam a goleada.

Agora a missão é confirmar o “doblete”, fazer um bom superclássico contra o Real Madrid e tentar o título espanhol invicto. Para o treinador Ernesto Valverde é a chance de deixar a impressão de uma primeira temporada positiva no clube, apesar das críticas justas ao comportamento coletivo ao longo da temporada, especialmente na noite trágica na capital italiana.

Sem Iniesta e com Coutinho, em sua primeira conquista no novo clube, resta montar um Barcelona mais parecido com o rival Real Madrid que vem sobrando na Europa: adaptável, mutante. Capaz de se impor dentro de uma disputa que privilegie a técnica ou mais física ou de velocidade. Com Messi cada vez mais passador e “ritmista” na reta final da carreira, necessitando de jogadores rápidos e fortes ao redor como contraponto.

Vale a comemoração de mais um título numa era vencedora. Especialmente pela imagem de Iniesta erguendo a taça. Mas é preciso refletir, porque a régua criada pela própria excelência não aceita apenas a supremacia no país. Para voltar a vencer a Champions a velha escola não é mais suficiente. Deve ir com o eterno camisa oito.

O primeiro gol na final da Copa do Rei é um bom indício do que o futuro reserva ao Barça.


O que é Lionel Messi?
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André Rocha

O Chelsea de Antonio Conte fez o que pôde. Lutou, executou bem a transição do 5-4-1 sem a bola para o 3-4-3 para o ataque, muitas vezes empurrou as linhas do Barcelona para trás no Camp Nou. Criou chances, pode reclamar de um pênalti de Piqué sobre Marcos Alonso no primeiro tempo e lamentar a falta de concentração no início do jogo.

Mas o que fazer quando Messi entra em campo descansado, depois de 10 dias sem jogar, motivado pelo nascimento do terceiro filho e, por isto, inspirado como poucas vezes se viu?

Ernesto Valverde ajudou escalando Dembelé de início e voltando à sua ideia do início da temporada: 4-4-2 com o atacante abrindo o campo pela direita e Jordi Alba fazendo o mesmo à esquerda contando com a cobertura de Umtiti. Sergi Roberto mais contido na lateral direita e Busquets mais fixo na proteção. Peças mais bem distribuídas em campo, características combinadas de um modo mais justo.

E mais espaço para Messi circular. Pela direita para marcar o primeiro depois de passe de Suárez e do lado oposto para a fantástica arrancada ganhando de Fábregas, driblando Christensen e Azpilicueta para servir Dembelé no segundo. Também o terceiro em transição rápida e novo passe de Suárez. Dois chutes entre as pernas de Courtois.

Um gol logo aos três minutos para descomplicar, outros dois em saídas rápidas. Típico do Barcelona mais pragmático que controlou o jogo com a bola – terminou com 53% de posse e 86% de efetividade nos passes –  e concentrado defensivamente para não facilitar a vida dos Blues nem cair na armadilha de outras eliminações: ter a posse e ser surpreendido nos espaços às costas da defesa.

Foram oito finalizações, sete no alvo. Três nas redes. O Chelsea tentou treze vezes e acertou duas. Duas nas traves de Ter Stegen. 3 a 0 foi cruel. Mas o Barcelona foi letal.

Mantém a escola, porém foca mais no resultado. Organização defensiva, inteligência…e bola para Messi. 100 gols na Liga dos Campeões. Arte, objetividade. Construção e acabamento. O argentino tem domínio de todos os processos de um jogo.

A pergunta não é mais quem é Lionel Messi, mas o que é esse gênio da história do futebol.

(Estatísticas: Footstats)


Messi 600 e histórico! Mas dependência do Barcelona já passa do ponto
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André Rocha

O jogo decisivo da temporada para o Atlético de Madri reforça a impressão de que o modelo de Diego Simeone está desgastado depois de sete temporadas.

No Camp Nou, repetiu a estratégia de sempre contra o Barcelona: adianta linhas e pressiona saída de bola. Se o adversário ultrapassa esse bloqueio, se recolhe em duas linhas de quatro compactas para negar espaços, principalmente para Messi.

Mas com cinco pontos atrás na tabela era preciso mais e o time visitante não entregou. Só no segundo tempo, perdendo por 1 a 0, partiu para o desespero mantendo o 4-4-2, porém com Correa na ponta direita e Gameiro fazendo dupla com Diego Costa.

E Griezmann…Depois de sete gols nas últimas duas partidas era de se esperar mais do francês. Assumir o protagonismo, tentar algo diferente. Mas o camisa sete foi o atacante com liberdade atrás de Diego Costa e depois o ponteiro pela esquerda. A rigor, nada produziu.

Melhor para o Barcelona pragmático de Ernesto Valverde. Treinador que voltou a sacrificar Philippe Coutinho de início pela direita na linha de meio-campo. Só inverteu de lado por causa da lesão de Iniesta ainda no primeiro tempo.

Paulinho estava no banco, mas entrou…André Gomes. O blogueiro já desistiu de entender. Não melhora a produção pelo flanco, com ou sem a bola. É lento, tanto para buscar espaços às costas da defesa quanto para fazer a bola circular. Um corpo estranho em campo. Com Suárez lutando, mas pouco inspirado na luta contra Giménez e Godín, sobrou para Messi.

Qualquer time no planeta dependeria do argentino. Na história do esporte poucas equipes não teriam o genial camisa dez como seu maior destaque. Mas este Barcelona tem passado do ponto. Não é por acaso que é o artilheiro da liga espanhola com 24 gols e líder também em assistências, com doze.

Messi recua para organizar e distribuir. Se avança e encontra espaços entre a defesa e o meio do adversário parte para a decisão da jogada. Ou arranca e serve o último passe, ou toca rápido e aparece na área para finalizar.

Ou tenta resolver tudo sozinho. No clássico que encaminha o título espanhol foi o que aconteceu. Buscou a jogada individual, sofreu a falta e cobrou com a precisão que só aumenta. Terceiro gol seguido desta forma, tirando do alcance do ótimo goleiro Oblak.

O 600º gol na carreira em partidas oficiais. Histórico. Mas ele não é super homem, embora pareça um extraterrestre. Muito menos com 30 anos. Não dá para depender tanto, ainda que o talento transborde.

Abrindo oito pontos no topo da tabela, mais a vantagem no confronto direto, é o momento de descansar um pouco Messi. Administrar a liderança na liga e focar na Champions. Mas principalmente buscar soluções ofensivas para não viver de seu craque maior. A inversão de bola para Jordi Alba já está manjada pelos rivais. Sobra muito pouco.

Valverde tem que abrir o leque. Ou rezar para o maior jogador da história do Barcelona seguir fazendo seus milagres. Até quando ele aguenta?

 

 


O primeiro gol de Philippe Coutinho pelo Barcelona, com a “benção” de Messi
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André Rocha

Ernesto Valverde precisou de 45 minutos para perceber que o futebol coletivo do Barcelona era prejudicado pela nulidade de André Gomes jogando aberto pela direita na linha de meio-campo. Por isso sua equipe teve problemas no primeiro tempo no Estádio Mestalla pela semifinal da Copa do Rei.

Também porque o Valencia, necessitando reverter desvantagem de 1 a 0 construída no Camp Nou, se arriscou com o brasileiro naturalizado espanhol Rodrigo Moreno atuando como uma espécie de “falso nove” tentando alimentar Zaza e Vietto na frente. Dinâmica que dificultava a saída de Jordi Alba para atacar pela esquerda com a cobertura de Umtiti e Busquets centralizado na proteção.

A retaguarda sofria e os ataques pela direita eram previsíveis, dependentes do apoio de Sergi Roberto e das aparições de Messi no setor. Faltou fluência ofensiva, mesmo com o controle da posse de bola – importante para administrar a vantagem no confronto.

Tudo mudou em três minutos com Philippe Coutinho em campo na vaga do português na volta do intervalo. Ainda que o brasileiro não se sinta confortável pela direita, no primeiro ataque apareceu na segunda trave para completar centro de Suárez pela esquerda e encaminhar a classificação do Barça para a 10ª final do torneio em 13 anos. Primeiro gol pelo novo clube. Já sendo decisivo.

Interessante notar que até Paulinho entrar no lugar de Iniesta e Coutinho enfim ser deslocado para o lado esquerdo, Messi novamente usou toda sua leitura de jogo para permitir que o camisa 14 saísse da direita para circular pelo centro às costas dos volantes adversários, como faz na seleção. Exatamente no espaço em que o gênio argentino gosta de atuar.

Para gerar o espaço, Messi ficava aberto pela direita recebendo e acionando os companheiros. De certa forma também descansando em campo. Mas dando uma prova de que entende a importância do talentoso meia brasileiro no elenco de Valverde. Uma espécie de aval do craque do time.

Depois bastou ao Barcelona seguir controlando o jogo com posse e sofrendo apenas um ataque mais contundente, com Cillessen fazendo grande defesa. No final, falha do zagueiro Gabriel Paulista, mais uma assistência de Suárez e gol de Rakitic. Ainda houve tempo para estreia de Yerri Mina entrando no lugar de Piqué.

Com vaga na decisão da Copa nacional e o título espanhol bem encaminhado pela larga vantagem na liderança, o Barça pode concentrar todos os esforços no duelo com o Chelsea pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Favoritismo natural pelo bom momento contrastando com a séria crise no time inglês, mas a história mostra que costuma ser um duelo perigoso.

Mais ainda sem a opção de Coutinho, ainda que no banco. Resta ao brasileiro seguir seu processo de adaptação ao novo clube. Com gols e a “benção” de Lionel Messi.


Coutinho pela direita, um dos problemas do Barcelona em virada dramática
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André Rocha

Ernesto Valverde deve ter feito duas anotações sobre o primeiro tempo da virada por 2 a 1 no Camp Nou sobre o Alavés:

A primeira e a mais definitiva: nunca mais reunir numa partida em casa quatro típicos jogadores de meio-campo como Rakitic, Paulinho, o estreante na liga espanhola Philippe Coutinho e Iniesta, sem um ponteiro mais agudo como Dembelé e utilizando laterais que não abrem o campo e pouco buscam o fundo do campo, como Semedo e Digne.

Por isso as trocas nas laterais já no intervalo: Sergi Roberto e Jordi Alba entraram e esgarçaram a marcação do adversário. O equívoco da formação inicial criou uma limitação nas ações de ataque e abriu o time no lance do gol de Guidetti. Porque ao perceber que ninguém acelerava buscando o fundo do campo, Umtiti resolveu se aventurar na frente, mas com o Barça instalado no campo do oponente. Bola perdida, contragolpe letal no passe de Ibai Goméz e finalização atrapalhada, porém feliz do camisa dez.

O Barcelona também travou pelo desentrosamento, mas principalmente pelo desconforto de Coutinho atuando pela direita. A impressão é de que Valverde não viu um jogo do brasileiro na seleção comandada por Tite. Em tese, ele é o ponta direita em um 4-1-4-1, mas sempre se sai melhor quando deixa o setor para circular às costas dos volantes adversários e seu futebol explode quando parte da esquerda para dentro buscando a finalização ou o passe.

Por isso Tite já testou Willian aberto na ponta e Coutinho por dentro, algo que deve ser pensado com carinho principalmente para a primeira fase da Copa do Mundo na Rússia contra adversários bem fechados. Ainda mais com Neymar conduzindo cada vez mais a bola e muitas vezes buscando o jogo por dentro.

Considerando que Valverde já disse algumas vezes que Messi tem liberdade para jogar onde bem entender é possível concluir que o gênio argentino, ao notar os problemas do novo companheiro para ocupar o setor, passou a circular mais pela direita, lembrando seus tempos de ponta articulador no auge do trio MSN. Tudo para consertar uma escalação bastante infeliz.

Na segunda etapa, com outros laterais e depois Paco Alcacer na vaga de Coutinho, que jogou 65 minutos como planejado, o time blaugrana pressionou e virou com gols de seus artilheiros: Suárez completando jogada fantástica de Iniesta pela esquerda e Messi cobrando falta. Bela vitória também pela boa atuação do Alavés, que teve a chance de sair para o intervalo com vantagem mais ampla.

É natural oscilar coletivamente e ficou claro que Busquets faz falta na proteção da retaguarda, mais pelo posicionamento do que pela capacidade de desarmar. Mas atacar sem abrir o campo e insistir com Coutinho pela direita provavelmente foram opções que Valverde riscou de seu caderno. Rodar o elenco é saudável se as características dos jogadores combinarem e eles estiverem bem posicionados.

Não foi o caso da noite em Barcelona que era de festa e virou drama, mas com final feliz.


Nos 500 jogos de Guardiola, o mais importante não são os números e títulos
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André Rocha

Pegando carona no levantamento dos colegas portugueses de “A Bola” sobre os 500 jogos de Guardiola como treinador, o último na vitória sobre o Bristol City por 3 a 2 que garantiu o Manchester City na final da Copa da Liga Inglesa, vale uma reflexão sobre a relevância do treinador catalão.

Os números, de fato, impressionam. São 368 vitórias, 78 empates e 54 derrotas. Marcou 1249 gols, sofreu 381. 18 títulos – 11 com o Barcelona, sete com o Bayern de Munique.

Para quem olha apenas o aproveitamento em oito temporadas e meia já é possível colocá-lo entre os melhores da história. Ainda que, de fato, tenha faltado ao menos uma conquista da Liga dos Campeões com o Bayern.

No entanto, o que torna Guardiola um treinador para a história é sua interferência no jogo. O esporte se transformou com o seu Barcelona e a evolução do comportamento de seus adversários para enfrentá-lo.

É isto que faz Rinus Michels vencer quase invariavelmente as eleições de melhor treinador de todos os tempos. Seu trabalho mais marcante, a Holanda de 1974, foi justamente o que não terminou com título. Mas a revolução de conceitos foi levada ao Barcelona por Johan Cruyff e Guardiola atualizou combinando com outros princípios de jogo.

Pressão, posse de bola, superioridade numérica, busca do homem livre. Time ataca preparado para roubar a bola assim que a perde e se defende pronto para sair em velocidade com mais jogadores que o adversário.

“Ladrão de ideias”. Sempre aberto ao aprendizado, se questionando. Em constante mutação para ser melhor e mais competitivo. Inquieto, inventivo. Genial.

Como qualquer profissional acerta e erra. Assume a responsabilidade pela eliminação do Bayern para o Real Madrid na semifinal da Liga dos Campeões 2013/14 ao ceder generosos espaços para Cristiano Ronaldo e o jogo de contragolpe de Carlo Ancelotti.

Algumas vezes se arriscou demais, como diante do Barcelona no Camp Nou, também na semifinal do torneio continental na temporada seguinte. Mesmo com muitos desfalques, começou com três defensores no mano a mano contra Messi, Suárez e Neymar para ter superioridade no meio-campo.  Corrigiu a insanidade ainda no primeiro tempo, mas seguiu buscando o ataque até ser punido pelo gênio argentino. Aquele mesmo que de um ponteiro habilidoso virou um craque completo nas mãos de Pep.

Melhorar atletas e equipes, eis o grande mérito de Guardiola mal compreendido, especialmente no Brasil. Terra das soluções fáceis, onde muitos tratam o treinador como um mero distribuidor de camisas em elencos milionários. O “engenheiro de obra pronta”.

Tudo que Guardiola não é. Basta olhar para o campo. No atual City, a base titular tem apenas duas novidades: Ederson e Walker. Peças importantes, sem dúvida. Mas é clara a evolução como equipe. Comandados assimilando melhor o estilo proposto e o comandante aprendendo com eles, com a Premier League. Jogo a jogo.

Partida a partida, Guardiola construiu um fantástico retrospecto. Conquistado treino a treino, a cada estudo de adversário, a cada partida que assiste e tenta aprender algo e aplicar no seu trabalho. Para ele, o Barcelona histórico já é passado. Quantos treinadores não se fixariam naquela fórmula tentando repetí-la para sempre desconsiderando os contextos e, principalmente, a ideia de que tudo evolui, se recombina e vira outra coisa.

Por isso é o melhor do seu tempo. Por isso conquistou o direito de buscar as melhores condições para exercer o seu ofício. Não a visão torta de muitos que dizem que só vão respeitá-lo no dia em que vencer num clube menos abastado e poderoso – e é claro que muitos, se um dia isto acontecer, inventarão outro “desafio” para atestar sua competência.

Alguém imagina um cirurgião renomado aceitando operar alguém num ambiente inóspito para mostrar que é mesmo bom no que faz ou um chef consagrado preparando um prato sofisticado numa cozinha suja e sem a devida aparelhagem?

Para o mundo, Guardiola ganhou esse status por conquistar a tríplice coroa em sua primeira temporada na nova função. Pelos impressionantes 78,8% de aproveitamento na carreira. Na prática, porém, ele é o melhor por estar em constante aprimoramento. Ao reciclar a si mesmo, reinventa o próprio futebol. Eis o mais importante, não os títulos e os números.

Que venham mais quinhentos jogos revolucionando o esporte bretão com o toque catalão.

 


Com goleada sobre o Betis, Valverde rasga de vez o “Manual Barcelona”
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André Rocha

O Barcelona já venceu ou construiu goleadas utilizando os contra-ataques. Segundo o site Whoscored.com, o time catalão terminou o jogo em Sevilla com 51% de posse. Ou seja, ainda que com vantagem mínima teve o controle da bola.

Mas nenhuma vitória foi tão emblemática como os 5 a 0 no Estádio Benito Villamarín para mostrar que o time de Ernesto Valverde, mesmo com a base de Luis Enrique e alguns remanescentes da Era Guardiola, pensa e executa futebol diferente do que ficou conhecido como a “Escola Barça”.

Um primeiro tempo sofrendo com a marcação adiantada e com muita pressão do time da casa e dificuldade para chegar ao ataque. Segunda etapa matadora com quatro gols de contragolpes. O primeiro de Rakitic, aproveitando passe em profundidade de Luis Suárez.

Depois o croata retribuiria a assistência no terceiro, com um belo cruzamento da direita para finalização ainda mais bela do camisa nove uruguaio, que fecharia a goleada aproveitando arrancada e passe de Messi.

O gênio argentino mais uma vez cresceu com os espaços cedidos pelo adversário. Dois gols, além da assistência que fechou a goleada – a nona na liga espanhola. O primeiro gol foi o maior símbolo desta mudança de mentalidade: bola roubada por Sergio Busquets e o camisa cinco, que costuma ser um jogador de controle de jogo com o passe mais horizontal, de lado, acionou diretamente Messi. Vertical, simples e objetivo, como a conclusão do artilheiro da competição com 19 gols.

Messi faria o terceiro em outro contragolpe, do jeito que gosta: recebendo na meia direita com espaço para limpar os marcadores até encontrar o melhor ângulo para o chute. Se o craque da equipe é ainda mais desequilibrante com espaços, por que forçar sempre um jogo de posição que instala o adversário no seu próprio campo para justamente negar essas brechas?

Um Barcelona do 4-4-2 mais “duro”, com uma segunda linha que teve Sergi Roberto mais adiantado aberto à direita, com Semedo ocupando a lateral, Rakitic e Busquets no centro e André Gomes pela esquerda. Pragmático para superar um rival complicado da maneira que era mais viável. Sem imposição de filosofia. O comportamento foi de acordo com a demanda.

Assim abre 11 pontos sobre o vice-líder Atlético de Madri. Desta forma pode dar um nó na cabeça de Antonio Conte para o duelo com o Chelsea pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Porque o confronto ataque x defesa que parecia previsível e puniu o Barça de Guardiola contra os mesmos Blues em 2012 deve ganhar outras nuances.

Ernesto Valverde rasga de vez o “Manual Barcelona” e cria um problema para os adversários: ninguém mais sabe o que esperar do time de Messi e Suárez.


O que o Cruzeiro ganha e perde com Fred
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André Rocha

Foto: Divulgação/Cruzeiro

A melhor versão da seleção brasileira com Mano Menezes foi sem um atacante na referência. Neymar abrindo espaços para Hulk, Kaká e Oscar. Fred foi preterido e agradeceu aos céus quando o treinador foi demitido e Luiz Felipe Scolari assumiu em 2013. Criticou publicamente o ex-comandante do escrete canarinho. Para terminar em quarto lugar na Copa do Mundo no Brasil no ano seguinte. Com Fred titular nos 7 a 1. A última partida dele com a camisa verde e amarela.

Se a polêmica que nasceu com o anúncio do retorno do centroavante ao clube depois de 13 anos para ser comandado por Mano Menezes já foi encerrada pelos dois em entrevistas, a questão no campo segue gerando dúvidas.

Porque o Cruzeiro ganha, mas também perde com a presença de Fred no ataque. Na temporada 2017, os melhores momentos do time celeste foram sem um típico camisa nove na frente. Na conquista da Copa do Brasil com Sóbis ou Raniel na reta final depois da saída de Ramón Ábila; no Brasileiro usando a dupla Thiago Neves-De Arrascaeta alternando no centro do ataque, mas com mobilidade, trocando com os ponteiros Rafinha, Alisson e Elber, além de Robinho, mais articulador.

Mano diz que seu time criava, mas não era contundente. No Brasileiro, a equipe mineira marcou 47 gols em 38 rodadas, foi apenas o 10º ataque mais efetivo. O artilheiro foi Thiago Neves com 11 gols em 33 partidas. Um a menos que Fred em 30. Atacante que precisou de menos que cinco tentativas para ir às redes. O Cruzeiro terminou com 11, a quinta pior equipe na relação gols/finalizações. Mesmo sendo o segundo colocado no total de conclusões, só atrás do Flamengo.

Portanto, na principal competição nacional, com números mais consistentes em 38 rodadas, mesmo considerando que o time priorizou a Copa do Brasil e teve um relaxamento natural depois do título, a necessidade de contratar um atacante mais definidor ficou clara. No popular, o time foi “arame liso”: cercava, porém não feria os rivais.

Mas a questão central é: a equipe vai seguir criando e tendo fluência ofensiva com um camisa nove mais fixo? Porque Fred será referência do ataque, mas também para a defesa adversária. Tem 34 anos e a mobilidade nunca foi sua maior virtude.

Mano sabe bem disso e já sinalizou a mudança no estilo de sua equipe: “Muitas vezes no ano passado, o Cruzeiro precisou de um jogador mais de movimentação porque precisa construir a jogada. Então, se nós contratamos um jogador que é um 9, vamos ter que construir a jogada diferente para esse jogador”, explicou o treinador na coletiva da reapresentação do elenco.

Mais do que nunca, futebol é um jogo de espaços. As equipes atuam em não mais que 25 metros. O atacante precisa se mexer para abrir brechas na retaguarda do oponente e dar opção para receber e finalizar com o time no ataque. Também necessita de velocidade para receber às costas da defesa em contragolpes. O Cruzeiro de Mano gosta de se fechar compacto guardando a própria área, com os ponteiros bastante recuados. Quando a bola é roubada e o adversário pressiona, a rapidez do jogador mais adiantado é fundamental.

Basta notar a dinâmica das referências da função nos principais clubes: Suárez, Cristiano Ronaldo, Cavani, Lewandowski, Diego Costa, Lukaku, Morata, Aguero, Gabriel Jesus, Roberto Firmino…Todos finalizadores, mas que chamam lançamentos. Assim como Jô, campeão e artilheiro no Corinthians. Também participativos com e sem a bola.

Não dá mais para contar com um centroavante que seja o responsável apenas pelo último toque. A tendência é que ele faça o time travar ou, no mínimo, ser mais previsível, principalmente nos jogos grandes. Os pontas e meias trabalham para ele finalizar, sem grandes variações. Até porque os companheiros muitas vezes se acomodam com a presença de alguém que assume a responsabilidade pelos gols. O Cruzeiro, assim como aconteceu com o Atlético Mineiro nas duas últimas temporadas, pode perder em dinâmica e trabalho coletivo. Mesmo com Bruno Silva e David, em tese, acrescentando força e rapidez ao setor ofensivo.

Mas ganha, além de um grande artilheiro, um rosto, uma liderança. O jogador midiático, o procurado para entrevistas depois dos jogos. O personagem que pode chamar o foco para si e poupar um companheiro menos calejado para suportar críticas. Com vivência em Libertadores. Para a gestão de vestiário é importante.

Obviamente se a sintonia com Mano seguir afinada como nas entrevistas antes de começar a rotina desgastante física e mentalmente na temporada. Fred deve ficar no banco ou até de fora em alguns jogos para administrar o fôlego e não estourar os músculos. Como será o diálogo como o treinador de personalidade forte para definir a dosagem? A conferir.

A parceria pode dar certo, é claro. Motivado, em paz e com uma equipe bem ajustada, Fred tem condições de ainda ser bem útil no futebol brasileiro. Mas o Cruzeiro de Mano terá que lidar com as perdas e ganhos dessa mudança importante em seu ataque para 2018.

(Estatísticas: Footstats)


Messi decide o superclássico tocando ou não na bola. Zidane foi infeliz
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André Rocha

A opção por Kovacic no lugar de Isco pode ter algo relativo à questão física do meia espanhol, mas remete muito mais às vitórias do Real sobre o Barcelona pela Supercopa da Espanha. A missão do croata era clara: ajudar Casemiro a fechar os caminhos de Messi.

Já o plano geral dos donos da casa era claro, para diminuir a desvantagem na tabela: adiantar a marcação e sufocar um Barça sem  referência de velocidade nas transições ofensivas. Um desafogo. Por isso o sufoco não transformado em vantagem no placar porque Cristiano Ronaldo furou dentro da área, depois finalizou bem e Ter Stegen salvou e Benzema se antecipou a Vermaelen no centro de Marcelo, mas a bola pegou na trave.

O visitante no Santiago Bernabéu só chegou ao ataque na combinação Messi-Paulinho. Primeiro passe por cima do argentino para o brasileiro fazer Keylor Navas trabalhar, depois o camisa dez, num raro momento pela esquerda, chegando ao fundo e cruzando para o volante-meia cabecear e o goleiro costa-riquenho pegar.

Barcelona também com duas linhas de quatro, mas com Paulinho um pouco mais solto para infiltrar e se juntar a Suárez, com Messi organizando. Rakitic e Iniesta fechando os lados, mas também criando por dentro e deixando os flancos para Sergi Roberto e Jordi Alba.

Primeiro tempo de 52% de posse do time merengue e nove finalizações contra quatro – duas no alvo para cada lado. A equipe de Zidane também cometeu mais faltas: nove contra duas. Muita intensidade na marcação fechando duas linhas de quatro com Modric e Kroos bloqueando os lados sem a bola e construindo por dentro, deixando a tarefa de abrir o campo para os laterais Carvajal e Marcelo.

O jogo mudou na segunda etapa em um lance simbólico para o clássico. Busquets recebeu a bola e Modric ficou no meio do caminho, deixando as costas para o compatriota Rakitic. Kovacic ficou com Messi e abriu-se um clarão. O camisa quatro blaugrana disparou sem marcação. Bola na direita, assistência de Sergi Roberto e gol de Luis Suárez. Sem Messi tocar na bola. A preocupação com o camisa dez nunca é exagerada, mas, se Zidane não errou, desta vez foi infeliz na escolha dos jogadores.

Benzema, em especial. Já passou da hora de pensar em Bale ou Asensio para acompanhar Cristiano Ronaldo na frente. Não adianta ter movimentação inteligente se na hora de concluir vem falhando miseravelmente. Sem gols a chance de mudar o jogo contra si sempre aumenta.

Com espaços entre as linhas, Messi apareceu. Para servir Suárez em novo contragolpe que terminou com Carvajal negando como “goleiro” o gol de cabeça de Paulinho no rebote. Pênalti, vermelho para o lateral e o 25º gol de Messi, 15º no Bernabéu. O maior artilheiro do clássico mais visto pelo mundo, especialmente na Ásia.

Com as substituições, o Barcelona controlou o jogo (terminou com 54% de posse), criou ainda mais nos contragolpes e conseguiu se salvar dos momentos de pressão madridista com Asensio e Bale, mas sofrendo com um homem a menos. Ainda mais com o desgaste da viagem a Abu Dhabi para a disputa do Mundial de Clubes.

No final, Messi deixou a bola sair pela lateral, a arbitragem ignorou e o argentino foi até o fundo, depois de passar com facilidade por Marcelo, para servir Aleix Vidal, substituto de Sergi Roberto. Na última das 17 finalizações do líder absoluto, agora com 14 pontos de vantagem sobre o maior rival – um jogo a mais.

Zidane temeu Messi e não estava equivocado. Mas pagou para ver e saiu caro. Porque o gênio pode ser decisivo tocando ou não na bola.