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Você rejeitaria Tite depois da Copa do Mundo ou só vale para os “gringos”?
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André Rocha

Reinaldo Rueda conduziu mal a saída do Flamengo para comandar a seleção chilena. Agora não vem mais ao caso, mas, observando à distância, havia várias maneiras, em tese, de ser mais transparente com o clube brasileiro.

Só que o caso de mais um treinador sul-americano deixando o país para aceitar uma proposta de seleção, se juntando a Osório, que saiu do São Paulo para o México, e Bauza, do mesmo clube para a Argentina, está construindo uma imagem de que os técnicos estrangeiros não cumprem  contratos e usam o Brasil como “trampolim”.

O nome disso, sem meias palavras, é xenofobia. Um pouco de reserva de mercado por parte dos treinadores daqui, tema que volta sempre que surge uma oportunidade. No caso de Rueda, na chegada e na saída – será por ter “tomado” um emprego tão cobiçado como ser o treinador do time de maior torcida do país?

Muito também pela visão de que treinadores de outros países do continente nada tem a acrescentar por aqui, enfrentam a barreira do idioma e não apresentam grande vantagem nos aspectos táticos e estratégicos. Talvez pela falta de tempo para trabalhar num calendário inchado, com imediatismo, resultadismo e pressão desproporcional. Os que já estão aqui se acostumaram com o ciclo. Para o “forasteiro” requer mais tempo.

Simplesmente não faz sentido. Principalmente a acusação de não cumprirem contrato. Quem cumpre? Os clubes, que demitem por qualquer sequência de resultados ruins? Como esquecer da demissão de Jorge Fossati do Internacional classificado para a semifinal da Libertadores de 2010? Ou Ricardo Gareca do Palmeiras, Diego Aguirre do Atlético Mineiro e Paulo Bento do Cruzeiro? Nem é questão de discutir cada caso, mas os clubes não hesitaram na hora de descartar os profissionais.

Os treinadores brasileiros, que cansados de levar um pé no traseiro agora deixam os clubes por qualquer proposta mais vantajosa estão errados também? Como Guto Ferreira, da Chapecoense para o Bahia e deste para o Internacional? Ou Fernando Diniz, sem disputar um jogo sequer pelo Guarani e partindo para o Atlético Paranaense?

Sem contar os casos dos brasileiros que saíram para seleções. Como Joel Santana em 2008, deixando o Flamengo para comandar a África do Sul que seria anfitriã da Copa do Mundo dois anos depois. Se pensarmos em “seleções” mundiais como o Real Madrid, como esquecer Vanderlei Luxemburgo abandonando o Santos campeão brasileiro em 2004 para comandar o Real Madrid?

E Tite? Ele mesmo admite e pede perdão ao Corinthians por ter “deixado o clube na mão” no ano passado para comandar a seleção brasileira. Não deixa de ser o mesmo caso: treinador que encerra seu contrato com um clube para acertar com uma federação. No caso, a CBF, entidade que o próprio Tite via com reservas e assinou manifesto de repúdio às suas práticas. E como ficou o ano do então campeão brasileiro, que já havia sofrido um desmanche no início da temporada?

Questão de ponto de vista. Este que escreve até discordou na época da decisão do melhor treinador brasileiro, mas depois compreendeu que era a realização de um sonho. O contexto também mostrou que acabou sendo melhor para a seleção, já que o risco de ficar de fora do Mundial era real.

Mas se ele deixar a CBF ao final da Copa da Rússia você ficaria com um pé atrás ou mesmo rejeitaria no caso do seu time de coração fechar contrato com Tite por ele não ter cumprido o acordo com o Corinthians? Foi exatamente o mesmo caso de Bauza, que foi servir ao futebol do seu país. Ou a crítica só vale para os “gringos”?

Rueda foi mal no fim do ciclo do Flamengo, mas daí a generalizar e rotular o caráter de profissionais estrangeiros vai uma distância enorme. Do tamanho do preconceito de tantas vozes que estão gritando desde o anúncio da saída do colombiano. Tudo muito conveniente.


Corinthians, Grêmio ou a evolução? O que você quer do seu time em 2018?
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André Rocha

Com a volta ao trabalho dos times das Séries A e B, a temporada 2018 dá os primeiros passos no Brasil. Desta vez com um retrocesso em relação a 2017: apenas duas semanas de pré-temporada por conta da pausa para a Copa do Mundo.

A lógica grita mais do que nunca que os estaduais devem servir como um torneio preparatório. Para os envolvidos em Libertadores, uma competição para testes e ajustes. O problema é que quando chegam os clássicos as cidades vivem uma espécie de vertigem, valorizando além da conta as rivalidades locais. Em busca de um título que é tratado como nada ao final da temporada pelos grandes.

O Corinthians foi campeão paulista e brasileiro. Mas o contexto ajudou, já que o time não disputou o principal torneio do continente, teve uma eliminação prematura da Copa do Brasil e não deu tanta importância à Copa Sul-Americana. Passou o ano praticamente dedicado a uma competição apenas.

O que não tira os méritos de vencedor com uma identidade. Construída por Mano Menezes e Tite, resgatada por Fabio Carille. O pilar na organização defensiva e o trabalho com a bola buscando triangulações, ultrapassagens e os apoios, inclusive de Jô como pivô. Peça fundamental que vai para o Japão e cria uma necessidade inesperada de buscar outras soluções no ataque. Mas não tira o norte do futebol do clube. Há uma linha mestra.

Assim como no Grêmio de Renato Gaúcho. Da ideia de propor o jogo, trocar passes e acelerar no ataque para infiltrar. Aproveitando alicerces já construídos e dando o acabamento que terminou no tricampeonato sul-americano. Mas não foi suficiente para superar o Real Madrid no Mundial de Clubes. Porque do outro lado havia uma seleção intercontinental, mas também por seguir faltando algo por aqui.

O futebol jogado no país foi marcado pela evolução sem a bola. Os conceitos de compactação, bloqueio dos espaços, pressão no homem da bola com marcação adiantada ou não e coordenação dos setores com a concentração máxima buscando o erro zero já foram assimilados. Até porque desde Carlos Alberto Parreira em 1994, ou mesmo Zagallo em 1970, a máxima “se não levarmos gol nosso talento decide na frente” continua valendo.

Só que apenas o talento não é suficiente para furar este bloqueio que tem uma sofisticação sem precedentes no futebol mundial. Nasceu com José Mourinho para enfrentar Pepe Guardiola. Foi lapidado e aprimorado por Diego Simeone, Carlo Ancelotti, Massimiliano Allegri e outros. Não é fácil entrar.

Ainda mais em um jogo ainda pobre coletivamente no que se refere à criação de espaços. Porque aprendemos a jogar com a bola e tentando abrir no drible, no blefe, na finta. Individualmente. Basta ver como pensamos futebol. Ainda acreditamos no “time no papel”, da reunião de craques que funciona como mágica. Adoramos comparar jogador por posição, buscar O cara do time, do campeonato. Veneramos Messi por driblar e conduzir com incrível habilidade e muitos torcem o nariz para Cristiano Ronaldo por seu estilo mais vertical e objetivo.

Questão de cultura, de história. Acreditamos no gênio Garrincha com cognitivo baixo, mas que no campo entende tudo. Nosso garoto é estimulado a partir para cima. Repare no nosso futebol em campo. Ele é pouco associativo, colaborativo. Quem se apresenta quer a bola, sem entender muitas vezes que dar a opção facilita o companheiro na tomada de decisão. Mesmo que ele resolva tentar o drible.

Há uma vaidade intrínseca. O lateral desce querendo chegar ao fundo ou finalizar. Se o ponteiro não passar em duas ultrapassagens, na terceira ele não vai. Não importa se a jogada pessoal do outro pode terminar em gol. O meia que diz que seu orgulho é dar assistências porque quer os louros dos “80% do gol foi meu” e do “te consagrei”. O centroavante aceita a responsabilidade de ser o finalizador porque vai sair no portal de esportes que ele “deu um show” se for às redes. Ainda que tenha tocado pouco na bola além dos gols que marcou. O que importa é botar para dentro.

Nosso jogo é fragmentado, ainda indigente na ideia de que atacar é estar pronto para defender (perde e pressiona) e vice-versa. O resultado prático, na maioria das vezes, é a busca do gol que fura o muro através dos cruzamentos, com bola rolando ou parada. Basta uma equipe estar bem fechada para o que está atacando começar a levantar bolas na área.

Faltam ideias, como arrastar pacientemente o rival para um lado e surpreendê-lo na inversão rápida de lado. O toque curto e o deslocamento para cansar o oponente física e mentalmente. A quase sempre vaiada bola recuada para o goleiro com o intuito de tirar um pouco o rival da trincheira. Há pressa, um futebol que sente muito – tem que ter garra, fibra, ser guerreiro, deixar o sangue – e pensa pouco.

O que teremos em 2018? Times se baseando no Corinthians e, por tabela, no Cruzeiro de Mano Menezes com princípios muito semelhantes ou no Grêmio apostando mais na técnica e no protagonismo? Mais equipes verticais, pouco se importando com a posse e aproveitando os espaços às costas da defesa do time que ataca ou controlando o jogo com a bola, se instalando no campo rival e assumindo os riscos da proposta ofensiva?

Ou ainda a evolução disso, que é o futebol por demanda. Inteligente, sabendo responder a cada necessidade que o jogo apresenta. Sabendo atacar e reagir. Um híbrido de Corinthians e Grêmio que, obviamente, saem na frente por já terem percorrido parte do caminho. Ataque e defesa numa ação contínua. O futebol total inspirado nos grandes centros. O dinheiro a menos, os jogos a mais, a desordem administrativa e as mudanças nos elencos são problemas, sem dúvida. Mas não podem ser bengalas eternas.

O que você quer para o seu time? Apenas títulos, não importando como vence? Ou jogar bem transformando o desempenho em resultados torna a conquista mais prazerosa, como Tite vem mostrando na rediviva seleção brasileira, uma realidade ainda distante da nossa pelos craques atuando na Europa? Com talento e, principalmente, a leitura de jogo e dos espaços que faltam em nossos campos.

O mercado mais modesto da maioria dos clubes pode ser positivo, investindo em entrosamento, jogar de memória, afinar a sintonia. Para que nosso futebol entre definitivamente no século 21, defendendo e atacando. Com menos lacunas, ainda que só dentro de campo. Apesar de uma gestão amadora e politiqueira na CBF, nas federações e em quase todos os clubes. Não custa sonhar.


O futebol não tem culpa de ter envelhecido melhor do que nós
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André Rocha

Sim, este texto é sobre saudosismo. Esta sensação que sempre volta a cada derrota do futebol brasileiro, ainda mais quando a superioridade de quem vence é clara e incontestável. No caso, do Real Madrid no sábado pelo Mundial de Clubes.

O saudosismo no Brasil com o esporte bretão é aquele eterno “se eu não for o dono da bola e ganhar o jogo, não quero mais brincar!” Para muitos não é a saudade daquele futebol, mas das vitórias mais frequentes. O mau perdedor que não aceita que outro leve o troféu para casa, mesmo sendo melhor. Não quer voltar a superá-lo, mas que ele seja ruim como antes para ser batido com facilidade.

Mas na grande maioria dos casos, o saudosista tem mesmo é saudade de si mesmo e da vida que levava nos “bons tempos”. Ou seja, tem saudade de ir ao estádio com o pai que não está mais entre nós, de passar a semana só pensando no jogo e não nas contas para pagar ou onde estacionar o carro. Do seu vigor físico, da liberdade de namorar quem quisesse e de sair com os amigos sem hora para voltar para casa. Do olhar encantado do menino entrando no estádio pela primeira vez e na relação com o ídolo sem a maldade do mundo.

Dificilmente a saudade é do jogo em si. Até porque ele era mais ouvido do que visto, no caso dos que veneram o futebol da considerada “era de ouro” brasileira, nos 1960 e 1970. Talvez até 1982. Os jogos transmitidos ao vivo para a mesma cidade em que eram realizados passaram a ser mais frequentes no final dos anos 1980. Antes o ouvinte era escravo da descrição do narrador e sua equipe. E como eles mentiram para nós!

Não por maldade, mas necessidade. Se a partida estivesse desinteressante, sem emoção, o consumidor trocava de estação ou desligava o aparelho para só mais tarde se informar sobre o resultado. Então tome narração acelerada com a bola ainda na intermediária, chute que passou longe tratado como perigoso entre outras fantasias para dourar a pílula e manter os ouvidos atentos.

Sem contar a invenção de craques. Qualquer um que fizesse dois ou três bons jogos já era alçado a candidato a  convocação para a seleção brasileira. Para isto também havia um contexto: tirando os ídolos “nacionais”, como Pelé, Rivelino, Zico, Sócrates ou Falcão, normalmente os jogadores concediam mais entrevistas, em tempos sem coletivas definidas por assessores de imprensa, para os veículos que conheciam, para os repórteres que estavam acostumados a conversar. Então quanto mais convocados do Rio de Janeiro, melhor para as rádios da cidade. O mesmo valia para as paulistas, mineiras, gaúchas…

Hoje, com vários jogos antigos na íntegra espalhados pela internet, só é saudosista quem quer. Ou quem realmente acha que aquele jogo lento, violento, com bolas seguidas recuadas para o goleiro quando era permitido que eles segurassem com as mãos e com verdadeiros latifúndios para conduzir a bola era atraente.

Este que escreve tem 44 anos. Já viu e viveu muita coisa. E, obviamente, já foi um saudosista por todos estes motivos citados anteriormente. Mas que assim que pôde assistir aos jogos que apenas imaginou pelo rádio e viu os melhores momentos nos programas esportivos no dia seguinte simplesmente não teve como esconder a decepção.

Felizmente o futebol evoluiu e segue evoluindo. Como tudo no mundo. Mas como tudo que evolui fica mais complexo, multifacetado. Se aprimora em todos os aspectos e muitas vezes podem anular as forças por haver tanto conhecimento e preparo envolvidos.

Ainda assim, pode acreditar: ele nunca foi tão bom tecnicamente. Porque jogar sem espaços não é fácil. Dominar e passar rapidamente requer uma enorme destreza. Nunca saberemos se os craques geniais do passado conseguiriam brilhar hoje, até porque eles também seriam diferentes, mais bem preparados se quisessem ser atletas e não apenas jogadores.

O brasileiro ficou com essa imagem romântica da seleção de 1970, dos artistas que se reuniram para ensinar como se joga. Os cinco camisas dez aprumados por Zagallo que se entenderam como mágica, porque “craque se entende no olhar”.

A realidade, porém, foi bem diferente. Depois do fiasco em 1966, sendo engolidos física, técnica e taticamente pelos europeus – duvida? tem os jogos na Grande Rede! – a constatação era de que a seleção precisava se preparar melhor e se adequar ao novo ritmo do futebol mundial. Nascia a velha máxima “se igualarmos nos outros aspectos, venceremos na técnica e na habilidade”.

O Brasil de 1970 viajou com enorme antecedência, trabalhou muito e atropelou os adversários no segundo tempo sobrando fisicamente e matando nos contragolpes. A beleza dos lances nascia dos espaços gerados pela superioridade física no calor do México. Como dizia Johan Cruyff, “com espaços qualquer um joga futebol”. Com talento então…

Criou-se a mística do Brasil invencível apenas pela técnica e habilidade, esquecendo também que já fomos vanguarda na linha de quatro na defesa, na marcação por zona, no ponteiro que volta para defender…Fomos a referência.

Não somos mais, mesmo com a reabilitação da seleção com Tite. E não é porque Guardiola aprendeu a nos imitar – outra falácia que virou verdade por ser tão repetida. Simplesmente ficamos para trás, especialmente na leitura de jogo e no senso coletivo.

Isto, porém, não tornou o jogo pior, pelo contrário. É impressionante ver o goleiro brasileiro Ederson participando da construção de jogadas do Manchester City. Os movimentos dos laterais e pontas, alternando o ataque abertos ou por dentro. Meio-campistas como Iniesta, De Bruyne e Modric furando linhas compactas com passes precisos e verticais. Atacantes como Messi, Neymar, Hazard, Mbappé destruindo defesas com uma habilidade surreal. Ou Cristiano Ronaldo e sua quase perfeição nas finalizações. Todos fazendo melhor e mais rápido o que os craques de outrora faziam.

Mas é difícil de aceitar. Eles não são da época de menino ou jovem do senhor de hoje, que sabe dos esquemas e falcatruas que sempre existiram, mas em cifras menores que as atuais. Que não se conforma por ter estudado tanto e hoje trabalhar mais do que deveria para receber uma migalha perto dos salários milionários dos superastros. Que declara ódio ao futebol moderno, mas esquece que para o seu avô o jogo que ele venerava já não era como o de antigamente.

Quem viveu o amadorismo reclamou da virada para o profissionalismo. Quem viu Zizinho não achou graça em Pelé. Os súditos do Rei criticaram a geração “perdedora” de 1982, que desdenham até hoje da conquista de 1994 e os integrantes desta geração criticam os craques atuais por usarem chuteiras coloridas, tirarem selfies e ficarem conectados em seus celulares nos vestiários.

A tese de que se não fosse o êxodo teríamos esquadrões no país e dominaríamos como no passado também é questionável. É duro, mas quem dá as cartas hoje e nos últimos dez anos são um argentino e um português. Neymar é o terceiro, ainda bem distante. A arte também está mais lá do que cá. E temos que agradecer pelo avanço na tecnologia nos permitir assistir tudo isso semanalmente. A evolução…

O tempo passou. E o futebol não tem culpa de ter envelhecido melhor que nós. Se reinventando, encontrando novas soluções para driblar novos problemas e seguir como o esporte mais apaixonante do planeta. Sem traumas, sem olhar para trás com amargura ou arrependimento. Vivendo e curtindo o hoje, que sempre é melhor que ontem. Que tenhamos maturidade para aprender com eles. O futebol e o tempo.


Se fosse só dinheiro, Palmeiras ou Flamengo estariam no lugar do Grêmio
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André Rocha

Transformação curiosa ocorreu depois do apito final do Mundial de Clubes em Abu Dhabi. Os mesmos que viam o Grêmio com condições de jogar de igual para igual e vencer o Real Madrid, que nas comparações posição por posição – algo cada vez mais sem sentido em um futebol cada vez mais coletivo – faziam projeções equilibradas (6×6, incluindo Renato Gaúcho melhor treinador que Zidane), de repente passaram a questionar o abismo de qualidade entre os clubes da Europa e os demais e sugerir até a mudança na fórmula de disputa da competição.

Entre os motivos apresentados, o mais presente é o poderio financeiro. Inegável, obviamente. Mas a própria temporada no Brasil mostrou que futebol não se faz só com dinheiro. Se fosse assim, Palmeiras ou Flamengo, que também disputaram a Libertadores, estaria no lugar do Grêmio. Nem é preciso apelar para a frieza dos números para provar a distância nos valores das receitas. E se colocarmos no bolo os demais clubes sul-americanos a vantagem é ainda maior. Mas só voltamos a vencer agora, depois de três anos sequer chegando à decisão.

Há muita competência na supremacia recente na Europa de Barcelona e Real Madrid. Passa por Messi e Cristiano Ronaldo, mas não só eles. São clubes que sabem vender sua marca para o mundo, construir uma identidade. A ponto de conquistar a preferência de jovens como Vinicius Júnior em detalhes como a força do time no videogame. Se outro time iguala a proposta, o menino prefere os gigantes espanhois.

Porque construíram times que estão entre os melhores da história dos clubes. Mas também já torraram muito dinheiro sem conseguir formar uma equipe competitiva. Basta lembrar o Real galáctico do início do século, ou mesmo o do primeiro ano da Era Cristiano Ronaldo, que não conseguiu superar as oitavas de final da Liga dos Campeões.

A resposta precisa vir no campo. Mesmo nesta fase gloriosa da dupla, em 2014 falharam na liga nacional e viram o Atlético de Madri campeão espanhol. Assim como o Bayern de Munique, soberano na Alemanha, viu o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp ser bicampeão com orçamento bem inferior. Para não falar do Leicester City na Inglaterra no ano passado.

Por mais que o Grêmio tenha mostrado um futebol ofensivo e atual em 2017, ainda é um mero rascunho diante das equipes mais qualificadas do planeta. O Real, com a cabeça no Barcelona e freio de mão puxado, conseguia numa rápida ação de perder e pressionar retomar com facilidade. A circulação da bola é mais inteligente, fluida. Há mais leitura de jogo coletivo. Basta ver Modric em campo. A bola mal saiu de seus pés e o croata já se transforma em opção de passe no espaço certo.

Aqui a visão é ainda simplista: quem tem dinheiro compra os melhores e vence. Uma noção de futebol fragmentada e muito focada no individual. Só se falou na atuação ruim de Luan. Mas sua movimentação entre as linhas defensivas do adversário por aqui é mais facilmente bloqueada por quem está acostumado a enfrentar Messi, Neymar, De Bruyne e outros craques.

Por isso e tantos outros motivos o Kashima Antlers foi um adversário mais perigoso para o Real Madrid no ano passado. Vitória por 4 a 2, mas só na prorrogação. Arthur fez falta ao Grêmio, sim. Mas nunca saberemos se ele seria outro a sentir os efeitos deste abismo, ainda mais no setor de Casemiro, Modric, Kroos e Isco.

Nosso último título mundial veio pela feliz coincidência de termos o Corinthians de Tite, time mais sólido e organizado desta década, enfrentando o Chelsea que não era o melhor europeu nem quando venceu a Liga dos Campeões, estava em declínio sob o comando de Rafa Benítez e, ainda assim, fez do goleiro Cássio o melhor em campo. Méritos inegáveis dos brasileiros, mas o contexto há cinco anos ajudou.

Não adianta pregar ódio ao futebol moderno, ao menos dentro de campo. O esporte se transformou e não há como fugir. Precisamos evoluir na mentalidade, ter humildade. Não rir do nível técnico de outras ligas, especialmente a francesa, quando a nossa é desprezada pelo mundo. Por mais eurocentrista que seja o povo do Velho Continente, é ridículo que eles saibam tão pouco do Grêmio tricampeão sul-americano.

Que os clubes peitem a CBF, que só quer saber de vender a imagem da seleção brasileira. Que os profissionais se qualifiquem, aceitem que precisam aprender e não podem mais deixar tudo por conta do talento individual. Que os times criem uma identidade e a desenvolvam desde as divisões de base.  Que tomemos decisões mais técnicas e menos políticas e manchadas por corrupção em todos os níveis. Mais meritocracia e menos grife na hora de contratar. E, principalmente, que deixemos esse mimimi “ah, eles são ricos e nós os pobres neste mundo injusto e cruel!”

Ninguém vai revogar a Lei Bosman e dificilmente o real valerá mais que o euro ou o dólar. Ainda assim, podemos fazer melhor, sermos mais competitivos. Dar trabalho e não passar a vergonha de apenas uma finalização gremista na decisão do Mundial com o Real em ritmo de treino na maior parte do tempo. É muito pouco.

Não adianta encher a boca para falar dos cinco títulos em Copas do Mundo e esquecer que a grandeza do futebol de um país se mede pela força de seus clubes. A nós, jornalistas, cabe a tarefa de cobrar e conscientizar e não jogar para a galera um mundo fantasioso de “eles não são isso tudo!” e “isso aqui é Brasil!” É sedutor falar ou escrever o que o torcedor quer ouvir/ler, mas em nada contribui para o desenvolvimento do esporte.

Que o passeio do Real não seja minimizado pelo placar magro. O Grêmio teve dignidade, mas jogou mal. Porque o adversário é superior e não deixou, mas também porque as ideias para fazer melhor ainda são pobres. Não é só dinheiro, definitivamente. Só não vê quem não quer.


É hora do “vai e vem” do mercado! Você conhece as carências do seu time?
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André Rocha

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Se o leitor clicou neste post guiado pelo título ou até pela foto acima do Alexandre Mattos, ávido por informações sobre as possíveis chegadas e saídas de seu time de coração e até com uma hipotética formação titular…desculpe, este texto não é para você.

A temporada 2017 no Brasil vai chegando ao fim com apenas Flamengo e Grêmio ainda envolvidos em competições internacionais. Os demais times das principais divisões do país já planejam e até contratam pensando em 2018. Muitas especulações, algumas cavadas de empresários e negócios fechados movimentam o mercado e o noticiário.

Se o ano anterior foi ruim é natural que o torcedor viva a ansiedade pela contratação de reforços. Muitos anseiam até uma total reformulação se os resultados e o desempenho estiveram longe de agradar até os menos exigentes. Outros tantos até tiram sarro do rival se seu time contrata e os rivais não.

Este que escreve lembra de, nos longínquos anos 1980, separar as folhas que ficaram em branco no caderno escolar para simular o time do ano seguinte com todos os nomes especulados. Era excitante, embora na maioria das vezes acabasse decepcionado no fim do ano e recomeçasse o ciclo. O velho duelo expectativa x realidade.

A vivência de toda esta roda vida em anos de janela, no entanto, vai construindo algumas convicções ao longo do processo. E também gera alguns questionamentos. O principal deles: afinal, qual é a carência do seu time?

É um goleiro seguro ou um trabalho defensivo organizado e com participação de todos para que o jogador da posição, mesmo o que lá está e não vem agradando, não seja obrigado a tantas intervenções e quando for exigido ter companheiros para dificultar a finalização? Será que nas próprias “canteras” um arqueiro não está sendo preparado com um jogo melhor com os pés, mais adequado à dinâmica atual?

A prioridade deve ser investir em laterais que funcionaram em outras equipes porque o trabalho coletivo os beneficiava tanto na fase defensiva, amparados por ponteiros que compactavam os setores e zagueiros rápidos na cobertura, e na ofensiva, com apoios para tabelas, ultrapassagens e infiltrações, o que não quer dizer que renderão numa mudança de ares, ou trabalhar melhor os que estão no clube?

Trazer zagueiros é tão importante ou fundamental mesmo é preparar melhor os defensores com conceitos como bola coberta x descoberta, posição corporal, posicionamento, noção de espaços, tomada de decisão, entre outros dentro de uma função das mais complexas?

Volantes que marcam e jogam são raros no mercado e quem tem não abre mão. Vale pagar caro ou entrosar melhor e estimular a qualidade no passe dos meio-campistas e afinar a sintonia com a última linha defensiva? Eles têm que ser rápidos e intensos ou mais ligados à função de cadenciar o jogo e qualificar a saída de bola?

Meias criativos e que pisam na área também custam uma fortuna. Muitas vezes suas características encaixam melhor nos times em que estão, mas não servem para o seu. Vale investir apenas na grife e na crença de que “os talentos se entendem” ou “craque que é craque joga em qualquer lugar”?

Vale o mesmo para atacantes, os mais valiosos. Aquele centroavante que empilhou gols no ano anterior serve para o meu time ou o encaixe na dinâmica ofensiva será complicada e o seu estilo pode até atrapalhar o desempenho individual e coletivo? Ou pior, se o treinador tiver que colocá-lo na reserva em benefício da equipe a estrela vai rachar o vestiário?

Qual a proposta de jogo do treinador? O elenco tem peças que se adequem a ela? A contratação do novo comandante se sustenta em convicções do que o clube quer ou foi apenas guiada pela grife ou pelo “vai que dá certo”? E se não der, virá outro com as mesmas ideias para seguir o que estava sendo feito com aquele grupo de jogadores, dentro de uma mesma filosofia, ou o nome da vez, ainda que com visão de futebol diametralmente oposta?

E as divisões de base? Quais jogadores estão prontos para fazer a transição para os profissionais com segurança, ganhando minutos aos poucos até se afirmar no elenco ou mesmo entre os titulares? O clube conta com profissionais competentes para este momento tão importante na vida do jovem atleta e da agremiação que investiu nele por tanto tempo?

Muitas perguntas que devem ser feitas antes de ir ao mercado. No ano em que Grêmio, Corinthians e Cruzeiro venceram mostrando identidades bem claras, essa roleta russa de compra e venda na base da paixão e do feeling, sem um diagnóstico preciso e lúcido soa como um duro recomeço. Correndo todos os riscos, sem algo para se sustentar. Como caminhar na total escuridão, entregue à própria sorte.

Partir de uma base é sempre o melhor início. Ataque ao mercado só em caso de terra arrasada. Ou de desmanche como o Corinthians de Tite no início de 2016. Definir filosofia que se adeque aos jogadores que já estão no clube e aos que estão subindo do sub-20. Contratações pontuais. Aproveitar o entrosamento em campo e no vestiário que já existe. Parece o melhor caminho.

Por isso, se seu time de coração for o mais citado no noticiário de contratações/vendas, desconfie. Não comemore, salvo raras exceções. Normalmente há algo muito errado na condução do futebol do clube. Se você é sócio-torcedor ou mesmo se tem acesso apenas pelas mídias sociais cobre, fiscalize e proteste, se for o caso.

Só não se empolgue com o “vai e vém” tão valorizado nesta época, mas que na maioria das vezes não leva a lugar algum. Se você chegou até aqui na leitura, o blogueiro espera sinceramente que reflita a respeito.

A foto do Mattos? Ora, ninguém nos últimos tempos foi tão feliz e midiático ou tão questionado e perseguido, apesar das conquistas recentes, com as indas e vindas de jogadores quanto o diretor de futebol do Palmeiras. Já foi ídolo e vilão. Ninguém simboliza melhor este período. A prova viva do perde-ganha desta estratégia.


O passeio do Liverpool e o recado de Coutinho para Tite
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André Rocha

Tite estava no Metalist Stadium para ver nove brasileiros e mais Ismaily em campo na vitória do Shakhtar Donetsk sobre o Manchester City por 2 a 1 que garantiu o time ucraniano nas oitavas da Liga dos Campeões.

Mas podia ter testemunhado in loco o espetáculo do Liverpool nos 7 a 0 sobre o Spartak Moscow em Anfield, com os Reds voltando ao mata-mata do principal torneio de clubes do mundo.

Três gols de Philippe Coutinho, o primeiro de pênalti. Camisa dez e faixa de capitão pela primeira vez, mesmo com os rumores cada vez mais fortes de sua saída do clube. Mais que isso, ditando o ritmo e desequilibrando. Armando e finalizando. Marcando e jogando no 4-1-4-1 de Jurgen Klopp que varia naturalmente para o 4-2-3-1 com os movimentos naturais de seu camisa dez.

Mais um sinal de que seu talento pode ser ainda melhor aproveitado do que na função de ponta articulador na seleção. Partindo da direita, nem tão confortável assim. Seu grande momento foi no golaço sobre a Argentina. Recebendo no centro, às costas dos volantes rivais e arrancando pela meia esquerda para cortar para dentro e bater de direita.

Pode acontecer mais vezes. Com Willian entrando pela direita para abrir o campo e dar opção de busca da linha de fundo ou das diagonais em velocidade. Coutinho substituiria Renato Augusto ou Paulinho no 4-1-4-1/4-2-3-1.

Se Tite quiser testar um novo sistema,a formação considerada titular pode até ser mantida. Mas com Coutinho de “enganche” num 4-3-1-2 à la Real Madrid, como já abordado neste blog. Não centralizado o tempo todo facilitando a marcação, mas procurando os flancos, como Isco faz no time merengue. Inclusive o esquerdo, sem conflitar com Neymar, que se mexeria mais como atacante. Mobilidade para confundir a marcação adversárias. Algo a se pensar.

Certeza mesmo é de que o Brasil não pode abrir mão do dez do Liverpool que é onze na seleção e pode ser ainda mais na equipe de Tite. Mais um recado foi dado em Anfield.


Suíça, Costa Rica e Sérvia: Brasil pode encarar três ferrolhos. Um perigo!
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André Rocha

Acabou a ansiedade e tantas simulações neste mundo apressado que precisa inventar pautas o tempo todo. Agora é o que vale!

O Brasil fugiu de Inglaterra, que caiu no Grupo G com a Bélgica, e Espanha, adversário de Portugal no Grupo B. Não temos exatamente um “grupo da morte”, ainda que Islândia, Croácia e Nigéria não sejam adversários tranquilos para a Argentina no Grupo D.

Suíça, Costa Rica e Sérvia. O Brasil naturalmente é o favorito à primeira colocação do Grupo E. Mas pode ter problemas na primeira fase do Mundial da Rússia.

Duas seleções europeias que não devem abrir mão de forte compactação e, muito provavelmente, uma linha de cinco defensores. Ou armar linhas de quatro e recuar os meias pelos flancos reunindo seis homens protegendo as próprias metas. Já a Costa Rica desde o último Mundial costuma atuar com três zagueiros, mais dois alas que recuam como laterais. Serão três ferrolhos. Ninguém vai se abrir. Ou talvez só a Sérvia, por necessidade, na última partida.

Um problema para a seleção de Tite, que gosta de espaços para trabalhar e sofreu para infiltrar na linha de cinco da Inglaterra. Com Neymar conduzindo demais, Coutinho saindo da direita em direção à zona de maior pressão, Gabriel Jesus voltando para fazer pivô, laterais talentosos (Daniel Alves e Marcelo), mas apoiando muito por dentro e sem buscar a linha de fundo com velocidade. Apenas Paulinho buscava o espaço às costas da defesa. Algo a ser trabalhado até lá.

Costa Rica de Keylor Navas, Suíça de Xhaka e Shaqiri e Sérvia de Matic. Em termos de qualidade individual e tradição, não é nada preocupante. Mas nunca o esporte foi tão coletivo e focado em ocupação e criação de espaços. Jogar com a responsabilidade de se instalar no campo de ataque é uma responsabilidade grande. E um perigo!

Por ora são as possíveis previsões. Mais que isso é adivinhação. Que dirá tentar imaginar adversários nas oitavas, quartas. O futebol está cada vez mais nivelado, com jogos duros. Imaginar apenas os favoritos se classificando chega a ser ingênuo. Ainda mais num Mundial em que Itália, Holanda e Chile ficaram de fora.

Mais prudente seguir o clichê e pensar jogo a jogo. Ou melhor, priorizar a preparação para melhorar o desempenho e crescer na hora certa.


Tite vê Neymar mais completo no PSG: “não mudou, mas agregou qualidades”
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André Rocha

Foto: divulgação CBF

Não é fácil falar com Tite. Nunca foi simples conseguir um minuto do treinador da seleção brasileira, ainda mais com Copa do Mundo se aproximando. Seja Zagallo, Dunga, Felipão…

Com Adenor Leonardo Bacchi, a demanda fica ainda maior pelo sucesso no trabalho de recuperação e de resgate da autoestima do futebol cinco vezes campeão do mundo pós 7 a 1. Na impossibilidade de uma exclusiva, que este blogueiro conseguiu por duas vezes nos tempos de Corinthians, e na dificuldade até de um contato por e-mail, tão frequente nos últimos seis anos, surgiu a chance de tentar ao menos uma pergunta.

Foi no Footlink, evento promovido no Rio de Janeiro por Paulo Angioni e Eduardo Barroca, aos quais agradeço pelo convite. O tema era preparação de seleções para a Copa do Mundo. Estiveram presentes também Sebastião Lazaroni, técnico da seleção na Copa de 1990, e Reinaldo Rueda, atual treinador do Flamengo e que comandou Honduras em 2010 e Equador no último Mundial.

As perguntas do público presente eram enviadas por e-mail para um endereço indicado pela organização. Tive a sorte do colega Gilmar Ferreira, mediador do debate, selecionar o meu questionamento a Tite – também enviei perguntas aos outros dois, mas minha expectativa era pela resposta do atual técnico do escrete canarinho.

Reproduzo aqui a questão enviada: você diz que trabalha baseado no que os jogadores fazem em seus clubes. Mas como fazer quando o jogador muda de time e de função? Sim, me refiro ao Neymar – ponta no Barcelona e agora mais articulador e condutor de bola no PSG.

O resumo da resposta de Tite: “Neymar mudou, mas agregou qualidades. Ele pode trabalhar por dentro, mas também ser usado do lado. Continua forte no um contra um e está mais completo. Vai trazer tudo isso para a seleção”.

O blogueiro não discorda da resposta inteligente do treinador. Mas viu com preocupação Neymar buscando a bola demais no empate com a Inglaterra em Wembley. Diante de linhas defensivas bem posicionadas, o camisa dez exagerou um pouco na condução e praticamente não chegou a fundo. Afunilou as ações ofensivas, exatamente para a região mais congestionada e com mais pressão.

Como Marcelo não apoia tão aberto, e Tite ressaltou em seu momento de exposição no evento esta diferença em relação à maneira de atuar do lateral do Real Madrid, o Brasil não conseguiu abrir o jogo, espaçar a retaguarda inglesa e sofreu para criar oportunidades, especialmente na primeira etapa.

Porque Neymar deixou de ser um ponteiro que recebe pela esquerda e parte para a jogada pessoal para chegar ao fundo ou infiltrar em diagonal e servir Messi e Suárez para se transformar praticamente num meia no PSG que recua e tenta armar as jogadas para Mbappé e Cavani. Como previsto neste blog, no time de Unai Emery o brasileiro é mais Messi e Mbappé é mais Neymar na equipe francesa.

Neymar mudou, sim. E levou essa alteração na movimentação em campo para a seleção. Só que na equipe de Tite o ponta articulador que sai do flanco para o centro é Philippe Coutinho, não Neymar. Com isso perdeu um pouco a infiltração letal do camisa dez, assim como o drible de ponta que abre as defesas.

Preocupante, mas com soluções. Ou resgatar essa dinâmica de atacante pelo flanco do início do trabalho de Tite na seleção, especialmente no período de treinamentos para a Copa na Rússia. Ou mudar o time. Com Willian, que tem mais características de ponteiro pela direita, Neymar pode circular mais sem que o ataque perca amplitude e profundidade. Questão de ajuste.

Valeu mesmo foi a chance de fazer ao menos uma pergunta a um dos homens mais requisitados e midiáticos do país. Algo que deve ficar ainda mais concorrido até junho de 2018.

 


Roger é aposta no Palmeiras. No Brasil todos são, até Guardiola seria
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André Rocha

O Palmeiras sondou Abel Braga, pensou em Jair Ventura como terceira opção. Mas fechou com Roger Machado. Três perfis completamente diferentes. O experiente, bom gestor de vestiário que acredita num time ofensivo mesmo correndo riscos; o jovem que fez bom trabalho num cenário de baixo investimento e montando uma equipe reativa que o clube paulista, em tese, não quer; o construtor de times antenado, mas que ainda não demonstrou ter atingido a maturidade ou não teve o tempo necessário para desenvolver um trabalho longo e consistente.

O presidente Mauricio Galiotte diz que não tem chance de errar em 2018, já que este ano trabalhou numa ideia de Palmeiras com Eduardo Baptista, inclusive em contratações, e já em maio trouxe o campeão brasileiro Cuca de volta com uma proposta de futebol totalmente diferente. Termina com o interino Alberto Valentim, que ainda precisa definir um caminha a seguir.

Mas é difícil acreditar em algum raciocínio além da escolha da “grife” ou do pensamento mágico de que se deu certo em um clube consequentemente será ainda mais bem sucedido em outro com maior capacidade de investimento. É assim que dirigente pensa futebol no Brasil. Exatamente porque a grande maioria não entende.

Por isso o absurdo de dispensar treinador por má campanha em estadual. Porque o resultado é o norte. Simples assim. Quer algo mais sem nexo do que esperar uma derrota para dispensar o profissional no qual não se confia mais?O futebol permite vencer trabalhando mal e perder mesmo num caminho promissor. O desempenho é possível controlar, o resultado não. Há o adversário, a arbitragem, o imponderável, a falha individual que compromete a boa atuação coletiva. O óbvio que parece esquecido.

Todo treinador é aposta no Brasil. Qualquer um. Até Guardiola seria. Porque quem assina o cheque não sabe exatamente o que quer. Ou melhor, sabe. Quer todos os títulos no final do ano. Legítimo. O problema é desconsiderar o caminho. Qual o estilo que pretendo? Os jogadores do elenco se encaixam melhor em qual filosofia? O meu clube tem uma identidade?

Quem pensou antes ou descobriu meio ao acaso tem conseguido transformar desempenho em resultado. O Corinthians campeão brasileiro mais uma vez com uma linha desde Mano Menezes em 2008 chegando ao auge com Tite, mesmo com hiatos nas passagens de Adilson Baptista, Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira.

O Grêmio com uma proposta gestada no clube e desenvolvida por Roger Machado em 2015. No campo e na estrutura do pensar futebol, com o investimento na análise de desempenho. No ano seguinte, o desgaste na gestão de vestiário, um problema crônico da defesa nas jogadas aéreas com bola parada.

Chegou Renato Gaúcho, mais vivido e ídolo maior dos gremistas. Inteligente, manteve a ideia de futebol, ajustou, trouxe os jogadores para perto e está a um empate do título da Libertadores após a conquista da Copa do Brasil no ano passado. Jogando o melhor futebol do país. Um construiu, o outro fez o polimento e aparou as arestas. Méritos de ambos.

O Palmeiras precisa construir. Difícil fazer qualquer previsão porque o treinador foi contratado antes do fim da temporada exatamente para ajudar na montagem do elenco, contratações e dispensas. Quanto à ideia de modelo de jogo, o próprio Roger pode ter refletido, estudado e alterado um ou outro ponto. Mudar para aprimorar.

A incoerência é planejar a temporada e correr risco de demissão em dois meses. Porque o conselheiro quer dar pitaco, o empresário do jogador exige a titularidade, o atacante famoso contratado pela “oportunidade de mercado” não tem as características que combinam com as dos companheiros. Mas tem que jogar, senão vira crise.

E é neste momento que a imprensa merece um parágrafo, ou alguns, em especial. A histeria, o pensamento imediatista e, principalmente, a ignorância sobre os processos no futebol constroem uma massa crítica que destrói qualquer trabalho.

Porque crise dá audiência. Mudança de treinador também. Surgem as especulações, os lobbies, a busca do furo da contratação. A troca é mais notícia que a manutenção e o trabalho paciente, contínuo, de constante aprimoramento. O torcedor se interessa, liga a TV, o rádio, clica nas notícias na internet. Faz a roda da mídia girar. E dane-se se trava as do clube.

Há os decanos que defendem os técnicos amigos de longa data, que atendem o telefone diretamente sem precisar passar por assessoria de imprensa. Assim como existem os novatos radicais que menosprezam todos os veteranos e defendem o novo sem um critério além do conhecimento dos novos métodos de treinamento e das táticas e estratégias mais atuais, ainda que a aplicação na prática não seja das mais eficientes. O “raiz” e o “catedrático”. O pensamento binário no país do Fla-Flu.

Então temos um ciclo: treinador chega com status de popstar, salvador e cria-se o clima de esperança. A estreia é cercada de enorme expectativa, ainda que com poucos dias de trabalho. Se apenas o impacto da mudança melhora o ambiente e surgem as primeiras vitórias já tem o “dedo” do novo comandante. Quando vem a oscilação natural imediatamente surge no noticiário a sequência macabra: “sinal amarelo ou de alerta”, “balança”, “prestigiado”…demitido.

Não há trabalho que se sustente na espetacularização e na pressa. É óbvio que nem todos têm garantia de qualidade a longo prazo. Ainda mais quando falta convicção desde a contratação. O ideal é avaliar dia a dia dentro de uma projeção de, no mínimo, 12 meses. Desempenho, convivência com os comandados, competência da comissão técnica na solução de problemas. Se algo vai muito mal e impede a evolução esperada, aí sim é momento de trocar.

O parâmetro não pode ser apenas o placar final das partidas. Não é justo porque não há como interferir diretamente. Nem o melhor do mundo. Aliás, é patético que no Brasil se coloque as dificuldades impostas por um sistema ineficiente como critério de avaliação: “quero ver o Guardiola aqui com orçamento limitado, jogo em cima de jogo, gramados ruins e pressão de torcida, imprensa e dirigente”. Por isso ele não vem e talvez nunca virá. Porque o melhor quer as melhores condições. É assim no mundo todo, em qualquer profissão.

Mas por aqui pensam diferente. Ou não pensam, querem apenas vencer. Roger Machado é mais uma incógnita num cenário caótico. Boa sorte, porque vai precisar…

 


Falta um pouco de Tite em Klopp no Liverpool de Coutinho e Firmino
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André Rocha

Philippe Coutinho tem cinco gols e quatro assistências na temporada 2017/2018. Roberto Firmino foi às redes oito vezes e também serviu passes para gols de companheiros por quatro vezes. Só não são os grandes destaques individuais do Liverpool porque o egípcio Mohamed Salah vive momento mágico, já marcando 13 vezes e somando três assistências. É o artilheiro do Campeonato Inglês com nove.

Os brasileiros contribuem efetivamente para que os Reds só sejam superados pelo Paris Saint-Germain de Neymar, Mbappé e Cavani na Liga dos Campeões como ataque mais efetivo – 17 a 16, em cinco partidas – e fiquem atrás apenas dos times de Manchester na Premier League: marcou 24, enquanto o City de Pep Guardiola foi às redes 40 vezes e o United de José Mourinho 27.  Em 12 rodadas. É também a equipe que mais finaliza na competição nacional.

O quarteto ofensivo ainda conta com o senegalês Sadio Mané – quatro gols e três assistências em dez jogos, depois de cumprir suspensão de três jogos na PL e sofrer lesão que o deixou de fora por cinco partidas. Dos 40 gols marcados nas duas competições, eles são responsáveis por 30. Ou 75%.

Só não garantiram matematicamente a classificação antecipada para as oitavas de final do torneio continental e uma posição acima da quinta colocação atual no Inglês – ocupando a zona de classificação para a Liga Europa porque supera Arsenal e Burnley com os mesmos 22 pontos por conta do saldo de gols – pelo fraco desempenho do sistema defensivo.

Na Premier League, são 17 sofridos. A mais vazada entre os sete primeiros. Na Liga dos Campeões, apenas seis. Mas um mau sinal: o Sevilla, rival mais competitivo do Grupo E, fez cinco. Nos dois empates entre as equipes.

O último em 3 a 3 no Estádio Ramón Sánchez Pizjuán. Resultado que poderia ser considerado satisfatório como visitante. Mas não depois de abrir 3 a 0 em trinta minutos e ceder o empate na segunda etapa. Firmino marcou dois e serviu Mané. Jogo de 20 finalizações, dez para cada equipe. Sete no alvo dos visitantes, cinco dos anfitriões que ainda carimbaram a trave do goleiro Loris Karius uma vez.

Por que o Liverpool sofre tanto sem a bola? Uma das explicações seria as limitações dos jogadores da última linha de defesa – em Sevilla formada por Joe Gomez, Lovren, Klavan e Moreno, apesar do lateral espanhol ser um dos líderes em assistências da Champions com três passes para gols. Ou a proteção insuficiente da dupla Henderson-Wijnaldum. Mas vai um pouco além.

Passa pela visão de futebol do treinador alemão Jurgen Klopp. Figura carismática, instigante. Com eletricidade e paixão à beira do campo. Comandante que popularizou o “gegenpressing”, que nada mais é que um trabalho de pressão intensa e obsessiva sobre o adversário logo após a perda da bola, ainda no campo de ataque. Acredita em futebol no volume máximo.

Mas sem o minimo controle. Mesmo considerando o contexto de jogo ultraveloz não só da liga inglesa, mas também da alemã que conquistou duas vezes com o Borussia Dortmund. Um jogo de bate e volta, no estilo “briga de rua”. Sem adaptações, mesmo completando dois anos na Inglaterra em outubro. Na prática vem exaurindo sos atletas, física e mentalmente, além de expor demais o time.

Coutinho e Firmino devem sentir a falta de um pouco de Tite no clube. Não só pelos cinco gols sofridos pela seleção brasileira sob comando do treinador em 17 partidas, apenas três em 12 jogos oficiais pelas Eliminatórias. Mas principalmente pela busca do equilíbrio entre as ações de ataque e defesa, além, é claro, dos os companheiros mais qualificados na retaguarda verde e amarela.

Também a ideia de controlar o jogo, ora com a posse da bola, ora fechando os espaços e esperando o momento certo de atacar e definir as partidas. O Liverpool troca golpes o tempo todo. É capaz de surrar o Arsenal por 4 a 0 em Anfield Road na terceira rodada da Premier League e, no jogo seguinte pelo Inglês, ser atropelado pelo City no Etihad Stadium por 5 a 0.

Tem a terceira melhor média de posse da liga, empatado com o Arsenal e atrás de City e Tottenham, mas é muito mais pelo volume e por pressionar e recuperar rapidamente, em especial contra equipes de menor investimento, do que pela capacidade de dominar o oponente.

Aleatório demais. Aqui não há a intenção de comparar os treinadores em qualidade, mas realçando as diferenças de características e personalidades. Fica claro, porém, que falta uma pitada, ou uma mão cheia, de Tite em Jurgen Klopp. Por isso o time de Coutinho e Firmino não decola, na Inglaterra e na Europa.

(Estatísticas: UEFA e WhoScored)