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As lições da coletiva de Vagner Mancini em Itaquera
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André Rocha

Vagner Mancini cometeu três erros na coletiva depois do jogo em que o seu Vitória tirou a invencibilidade de 34 partidas do Corinthians em Itaquera:

O primeiro ao insinuar que o colega Felipe Garrafa, da Rádio Bandeirantes, seria corintiano por uma informação equivocada, de fato. Mas mesmo que seja não justifica o erro na análise das estatísticas da partida. Depois por afirmar que o jornalista tem que ser imparcial, algo que não existe. Todos temos nossas convicções, princípios, paixões e influências do meio. Nossa missão é ter isenção, na análise, opinião ou informação. E terceiro e último, embora seja direito dele, ao encerrar a entrevista tirando o direito de outros repórteres fazerem questionamentos, por conta de sua indignação.

No mais, foi perfeito e suas colocações fazem refletir. Ao analisar o jogo, enumerar as oportunidades do time baiano e dar luz a um dado fundamental e que muitas vezes é distorcido ou mal interpretado: a chance clara de gol. Ou seja, a jogada construída ou originada na falha do adversário que permite a conclusão em posição privilegiada, com liberdade e clara condição de ir às redes.

Porque é natural que o Corinthians em sua casa e na liderança absoluta do Brasileiro jogue no campo de ataque, fique com a bola – chegou a ter 75% e terminou com 65%, segundo o Footstats – e ronde a área. Neste cenário é óbvio que as finalizações acontecerão. Foram 14 no total, cinco na direção da meta de Fernando Miguel. A missão do oponente é impedir a jogada trabalhada que encontre alguém livre para marcar.

Foi o que o time paulista fez contra Grêmio e Palmeiras como visitante, o próprio tricolor gaúcho diante do Flamengo na Ilha do Governador e tantos outros nesta edição do Brasileiro que tem premiado quem não fica com a bola. A rigor, o Vitória só permitiu duas cabeçadas com liberdade: de Balbuena e Jô, uma em cada tempo. As demais sempre tinha um jogador de vermelho e preto para dificultar. É o que chamamos de controle de espaços.

Mancini acertou também ao afirmar que o Corinthians não jogou mal. Talvez tenha faltado mais mobilidade e triangulações, prejudicadas pela ausência de Jadson ou de um meia jogando na ponta para circular e dificultar o bloqueio. Com Romero e Clayson a equipe de Fabio Carille ficou engessada. Talvez as duas semanas sem jogos, ao menos neste retorno, tenham mais prejudicado que auxiliado.

Melhor para o adversário na zona de rebaixamento, mas em recuperação. Que cresce ao se fechar com duas linhas de quatro e acelerar com Tréllez, autor do gol único da partida, e Neilton, que fez a assistência, porém perdeu chance cristalina na segunda etapa à frente de Cássio. O Vitória também pode reclamar de gol mal anulado do zagueiro Kanu na segunda etapa. O mesmo que chutou Jô em pênalti ignorado pela arbitragem comandada por Eduardo Tomaz de Aquino.

Mas o treinador visitante foi preciso mesmo ao tocar o dedo numa ferida de todos nós: o hábito de analisar o jogo sob a ótica de apenas uma equipe. A mais forte, popular. A que dá mais audiência, gera mais cliques. Ou a local, tantas vezes desprezando o futebol jogado em outra praças. Por mais que se possa considerar indefensável uma derrota do líder do campeonato em sua casa para um time na zona de rebaixamento, os méritos do rival não podem ser esquecidos.

Muito menos menosprezados. Ninguém vai a Itaquera enfrentar o Corinthians de peito aberto, atacando e deixando jogar, ofertando espaços generosos. Imagine uma equipe de capacidade de investimento bem inferior e com dificuldades no campeonato. O Vitória traçou sua estratégia, executou e foi mais feliz. Se vencesse por 2 a 0 não seria nenhum absurdo.

Jogou bem dentro de sua proposta. É dever esclarecer mais uma vez que o que se condena como jogar mal é a pobreza de ideias e de repertório das equipes que podem entregar mais. Ou absurdos como times fortes abrirem mão de atacar em seus estádios, exagerando no pragmatismo.

O Corinthians pagou pelo status que sua própria competência o fez alcançar. Antes estava em um pelotão secundário de favoritos, agora é o grande candidato ao título. Natural ser mais estudado e motivar mais os adversários a batê-lo.

O Vitória conseguiu o que tantos desejavam por suas virtudes. Não “jogou por uma bola”, assim como o Corinthians não “massacrou”. Mancini mandou bem dentro e fora de campo. Que fique a lição para quem quiser aprender.


Arame liso, pecho frio, elos fracos. Roteiro do Flamengo segue o mesmo
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André Rocha

Para quem não acompanha este que escreve nas redes sociais e está chegando agora ao blog, segue um “glossário” para os termos citados no título do post:

Arame liso – Cerca, mas não fura. Não machuca ninguém. O Flamengo segue com um ataque que precisa de muitas oportunidades para ir às redes. Na derrota por 2 a 0 para o Vitória na Arena da Ilha do Governador, Vizeu, substituto do lesionado Guerrero, perdeu duas chances claras na primeira etapa, ainda com empate sem gols. Para uma equipe pressionada e sem confiança, não sair na frente e trazer a torcida para perto foi fatal.

Pecho frio – Termo muito usado na Argentina. Peito frio. Ou time que se abate nas dificuldades, não encontra forças para se recuperar. Nos jogos mais equilibrados este perfil menos guerreiro, que aceita a derrota sem a indignação própria dos grandes times, faz diferença. É anímico. E fica claro inclusive nas entrevistas do treinador Zé Ricardo e dos jogadores. Conformismo.

Elos fracos – Jogadores que erram seguidamente e comprometem a equipe. Muralha, Rafael Vaz, Rodinei, Márcio Araújo…A lista é extensa, e torna ainda mais questionável a ideia de que o elenco é forte, um dos melhores do país. Novo revés por falhas individuais. Willian Arão, escalado na função de Márcio Araújo, errou feio no passe, Yago não perdoou e acertou no ângulo de Diego Alves. Depois Rever vacilou na disputa com Tréllez e cometeu pênalti. Duvidoso, mas marcável. A cobrança perfeita de Neilton resolveu o jogo.

Neste cenário, pouco adianta a mudança de nomes, embora a saída de Márcio Araújo tenha melhorado a construção das jogadas desde a defesa e fez a equipe circular mais a bola, sem apelar para os cruzamentos aleatórios. A impressão é de que Cuéllar seria mais apto à função que Arão. Assim como Berrío mostrou quando entrou que é mais útil que Geuvânio vindo de lesão.

Arriscar para sair da mesmice, buscar evolução sem se render à mediocridade habitual é sempre saudável. Mas como se impor quando o domínio não se traduz em gols, os erros individuais desmontam o sistema defensivo e a equipe não encontra forças para reagir? O Vitória, mais organizado e confiante depois da chegada de Vágner Mancini, foi apenas mais um a aproveitar, também por seus próprios méritos.

O roteiro de fracasso do Flamengo continua intacto. A nau do futebol do clube parece à deriva. Mesmo com chances de título ainda na Copa do Brasil e na Sul-Americana, qualquer mudança de rota parece tardia. Porque os defeitos seguem os mesmos. Há tempos.


O time de Vagner Mancini por trás da simbólica liderança da Chapecoense
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André Rocha

Exatos seis meses depois da tragédia na Colômbia, a Chapecoense que emergiu entre os escombros chega à liderança do Brasileiro. Algo nunca alcançado pelo clube, nem com os que partiram pela irresponsabilidade assassina e suicida de um piloto de avião.

Chegar ao topo da tabela neste momento significa bem pouco para a sequência do campeonato. Ano passado, como já dito e redito por aqui e por aí, Internacional e Santa Cruz dividiam a primeira colocação após três partidas e acabaram rebaixados.

Para a equipe catarinense, porém, tem todo o simbolismo de reconstrução. Se a filosofia do clube não mudou, e nada indica que tenha se alterado, a meta continuará a mesma: manter-se na Série A e, se possível, melhorar a posição em relação a 2016 – 11ª colocação.

Analisando o desempenho da equipe montada do zero por Vagner Mancini, o objetivo é plenamente possível de ser alcançado. Porque a Chape é competitiva. Mostrou isso no título estadual e na campanha da Libertadores, que no campo terminou em vaga. Uma noite ruim em Medellín pela Recopa contra o Atlético Nacional, mas que pode ser tratada como uma oscilação natural. Até por tudo que envolveu as partidas, inclusive emocionalmente.

A Chapecoense atua com linhas próximas, em um 4-3-3/4-1-4-1 que nunca abdica de jogar. Tem Apodi ainda voando pela direita, mas não como um ala. Mancini tem conseguido convencê-lo a ser um lateral, primeiro defendendo e depois apoiando. O mesmo com Reinaldo do lado oposto.

Os laterais têm o suporte nos momentos ofensivo e também defensivo dos ponteiros Rossi e Arthur Caike e dos meias Luiz e Antonio e Seijas, substituto do lesionado João Pedro, lateral improvisado no meio-campo. Na proteção, saída de bola e também chegada à frente, Andrei Girotto. O trio de meio-campistas alternam nas funções de defesa e ataque.

Retaguarda que ganhou zaga nova com Victor Ramos e Luiz Otávio, este envolvido na eliminação da Libertadores por escalação irregular, mas vem mostrando segurança atrás e aproveitando sua estatura (1,94) para se apresentar na área adversária como opção para as muitas jogadas aéreas da equipe, inclusive em cobranças de lateral.

Na frente, Wellington Paulista trabalha como pivô, abre espaços e também se aproveita das jogadas pelos flancos para fazer seus gols. Marcou o segundo no Brasileiro nos 2 a 0 sobre o Avaí na Arena Condá, que continua sendo um trunfo para somar pontos. No ano, o aproveitamento em casa é de 70%.

A atuação mais consistente, porém, foi na estreia contra o Corinthians em Itaquera. Negou espaços, finalizou o triplo (15 a 5), mesmo com menos posse de bola. Poderia ter vencido uma das equipes que também somam sete pontos em nove possíveis e só perde no saldo de gols.

Uma prova de força e referência para a Chape seguir com seu estilo prático e objetivo, trabalhando jogo a jogo e só subindo a meta quando a inicial for alcançada. O campo vem mostrando que o clube acertou ao não aceitar proteção contra o rebaixamento. Também houve critério e cuidado para recusar as “ofertas” de clubes que só queriam se livrar de jogadores pouco úteis.

Quem chegou mostra comprometimento com a causa esportiva. Mas a Chapecoense não é só honra e garra. Tem uma equipe bem montada, ciente de suas fraquezas e, por isso, focada no trabalho coletivo para se colocar entre os grandes. Méritos de Vagner Mancini.

O 4-3-3/4-1-4-1 da Chapecoense de Vagner Mancini com linhas compactas, mobilidade na frente, apoio dos laterais e trabalho dos meio-campistas que defendem e atacam alternando funções (Tactical Pad).


Novo Palmeiras sofre com a bola parada: o jogo dentro do jogo
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André Rocha

O propósito maior do jogo na Arena Condá estava fora das quatro linhas e o simbolismo da partida tirou até o espírito de competição que surge naturalmente, mesmo em um amistoso. Felipe Melo ilustrou bem ao afirmar que perdeu a concentração ao ver uma criança chorando. Ainda mais ele, que esteve tão distante geograficamente da tragédia e todos os seus desdobramentos.

Mas de tudo que foi possível observar nos 2 a 2 entre Chapecoense e Palmeiras, além do novo time do clube catarinense jogando com fibra e entrega impressionantes e o potencial de Raphael Veiga e Vitinho, sem contar a afirmação da qualidade de Tchê Tchê no novo 4-1-4-1 palmeirense, chamou atenção o desempenho dos times na bola parada.

Mesmo descontando o fato do campeão brasileiro estar sem Mina e Vitor Hugo, sua zaga titular, e Eduardo Baptista ter pouquíssimo tempo de trabalho, saltou aos olhos as falhas defensivas. Não só nos gols de Douglas Grolli e Amaral, mas em praticamente todas as disputas pelo alto.

Compreensível também a ênfase da Chape nesta jogada. Afinal, com um time novo e, consequentemente desentrosado, este tipo de recurso seria uma arma interessante para Vágner Mancini.

Porque a bola parada é um jogo dentro do jogo de futebol. Tem outro posicionamento, outra dinâmica. A ponto dos treinadores tratarem como um quinto momento, além do defensivo, do ofensivo, da transição defensiva – o que você faz assim que perde a bola – e da transição ofensiva – a ação imediata assim que a recupera.

Jogada decisiva, cheia de detalhes. Capaz de igualar forças das equipes, até compensar desvantagem numérica. Depende mais de movimentos coordenados do que do talento do cobrador e dos companheiros na área para concluir.

Quantas finais ou disputas cercadas de expectativas entre times e seleções já foram dissecadas previamente com sistemas táticos, modelos de jogo, estatísticas dos jogadores e, no final, se resolveram numa bola parada? O Real Madrid de Sergio Ramos que o diga.

Eduardo Baptista é treinador detalhista, minucioso. Inclusive neste tipo de jogada. Certamente percebeu a deficiência e vai trabalhar para corrigi-la. Porque ela ajuda a derrubar treinador.

O problema crônico no Flamengo minou os trabalhos de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira em 2015. No ano passado, Roger Machado no Grêmio foi o caso mais marcante. Houve problema de gestão de vestiário, mas, no campo, os muitos gols sofridos em jogadas aéreas nas faltas laterais e escanteios empurraram o bom treinador para fora do comando técnico do time gaúcho.

Renato Gaúcho chegou, fez o simples e, com marcações individuais bem definidas, resolveu o problema. Como Cuca adotava a mesma prática no Palmeiras, com bola rolando ou parada, cabe a Eduardo Baptista perceber se os jogadores se adaptam melhor ao bloqueio por zona ou ao tradicional “cada um pega o seu”.

Há tempo para isso. O foco absoluto é na Libertadores, que começa em março. Até lá, com time completo, trabalho e conversa é possível acertar o Palmeiras em todos os detalhes para começar a competir em alto nível, fazendo jus ao poder de investimento do clube.


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