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A França difícil de bater e ser batida está na final
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André Rocha

A única vitória francesa por mais de um gol até aqui na Copa do Mundo foi sobre o Uruguai nas quartas. Dois a zero graças à fantástica defesa de Lloris no primeiro tempo e à falha grotesca de Muslera na segunda etapa aceitando chute de Griezmann.

Sim, o placar de 4 a 3 contra a Argentina foi um tanto mentiroso. Na melhor atuação da equipe de Didier Deschamps, a seleção de Messi virou para 2 a 1 sem controle do jogo e marcou no final diminuindo para um gol a grande distância na bola jogada. Graças a Mbappé na grande atuação individual da Copa.

A França é essencialmente competitiva. O 4-2-3-1 com Matuidi como “ponta volante” pela esquerda deu liga contra o Peru e foi se assentando em um modelo de jogo sem grande controle através da posse. Organização defensiva e paciência para acelerar com Pogba conduzindo, Griezmann tocando rápido e fácil e Mbappé disparando.

Giroud é o pivô, o facilitador para os demais. Com força e estatura empurra a linha de defesa para trás e cria espaços às costas dos volantes. Se desloca e trabalha sem bola. Reforça o jogo aéreo. Chega à final sem gols, mas com utilidade.

A França não tem tanta fluidez e parece se preocupar mais com a organização ofensiva. Se movimenta pouco quando desce para não se descoordenar na volta. O espaço deixado por Matuidi só vem sendo aproveitado pelas descidas do lateral Lucas Hernández. Griezmann flutua pouco por ali, Mbappé também podia aparecer mais.

A antítese da Bélgica versátil, móvel e mutante. Sem o suspenso Meunier, Roberto Martínez colocou Dembele no meio-campo e posicionou Chadli pela direita, defendendo como lateral e atacando bem aberto. Do lado oposto, Vertonghen era lateral sem a bola e o zagueiro pela esquerda em um trio quando a equipe descia em bloco. Hazard abria o campo como ponta esquerda.

Em números, um 3-2-4-1 atacando e um 4-2-3-1 na recomposição que se movia de acordo com a perseguição de Fellaini a Pogba. A França respondia com Kanté ligado em De Bruyne partindo da direita, mas com liberdade.

Desta vez Lukaku foi centroavante. E sofreu contra a melhor zaga do Mundial na Rússia: Varane impecável na técnica e posicionamento e Umtiti implacável no vigor e na velocidade. Também no deslocamento e no movimento de ataque à bola para completar escanteio de Griezmann. De novo a bola parada decidindo.

Gol único e decisivo. Apesar da luta de Hazard e da pressão belga. A França negou espaços, mas não foi fulminante nos contragolpes. Com apenas 40% de posse, finalizou 19 vezes. Só cinco no alvo. Porque não cria chances cristalinas. Falta a jogada diferente com mais frequência. Há potencial, mas na prática acontece poucas vezes.

Também não cede. Os belgas rodaram a bola, mas a concentração defensiva dos Bleus permitiu apenas nove conclusões. Três na direção da meta de Lloris. Sofrimento só no início da semifinal em São Petersburgo e na pressão final, incluindo a defesa do arqueiro francês em chute de Witsel.

Beleza só no giro com calcanhar de Mbappé para o chute de Giroud. A França encarnou o papel da favorita pragmática que não quer desperdiçar a chance do título, o segundo da história. Depois do vice da Eurocopa em casa.

É time duro de bater no rival, mas ainda mais difícil de ser batido. Por isto está na final. A terceira da França nos últimos seis mundiais. Uma potência que merece respeito.

(Estatísticas: FIFA)


França não perdoa instabilidade dos sul-americanos. Uruguai foi o terceiro
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André Rocha

Primeiro foi o Peru, que jogou melhor na soma dos 90 minutos, mas pagou com a eliminação na fase de grupos pelo ataque “arame liso”. A Argentina alternou ritmos e humores, errou na formação inicial com Messi como “falso nove” e sem presença física no ataque. as fragilidades defensivas cobraram o preço contra Mbappé.

O Uruguai nitidamente entrou com a confiança abalada pela ausência de Cavani – no banco de reservas, mas claramente sem condições, tanto que não entrou em campo. Stuani entrou para dar o primeiro combate a Kanté e auxiliar o meio-campo na execução do 4-3-1-2 que Óscar Tabárez repetiu no duelo nas quartas-de final. Mas com Suárez muito isolado, praticamente sem chances contra Varane e Umtiti.

Jogo grande, três títulos mundiais em campo. A França também não estava tão confortável. Quanto maior a responsabilidade, mais temor de errar e, com isso, a perda da naturalidade em campo. Os franceses rodavam a bola, com Tolisso no lugar do suspenso Matuidi no mesmo 4-2-3-1 com um “ponta volante” pela esquerda. Mas arriscavam pouco.

58% de posse no primeiro tempo e 80% de efetividade nos passes. Mas a rigor o trabalho ofensivo se limitava a trocar passes, abrir no flanco e levantar na área procurando Giroud. Para variar, descomplicou na bola parada com Varane. Cáceres também foi preciso no golpe de cabeça do outro lado. A diferença foi a defesa portentosa de Lloris. A mais emblemática da Copa até aqui. Uma das quatro finalizações no alvo da Celeste num total de sete. Uma a mais que os Bleus. A única na direção de Muslera entrou.

Goleiro uruguaio que foi o personagem da segunda etapa. Ele e Griezmann. Primeiro uma tentativa de drible do goleiro que o atacante desarmou, mas a bola foi para a linha de fundo. Depois o frango que definiu a vaga nas semifinais com os 2 a 0. Sem precisar desta vez do brilho de Mbappé. Porque a França não tem perdoado a instabilidade dos sul-americanos na Rússia.

Não faltou suor, nem fibra. Mas erraram e oscilaram mais que os franceses. Se o Brasil passar pela Bélgica, a vice-campeã europeia só não enfrentará a Colômbia entre os classificados pela América do Sul. Uma coincidência que até aqui tem sido feliz para a seleção de Didier Deschamps.

(Estatísticas: Footstats)


Real Madrid tem vivência em finais. Liverpool precisa “enlouquecer” em Kiev
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André Rocha

Carvajal, Varane, Sergio Ramos, Marcelo, Modric, Isco, Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo. Nove jogadores que estiveram em campo na primeira final de Liga dos Campeões do Real Madrid na década. Estádio da Luz, Lisboa, há exatos quatro anos.

Nove que sofreram e transformaram o alívio do golpe salvador de Sergio Ramos no último ataque na apoteose dos três gols na prorrogação sobre o Atlético de Madri e o êxtase de “La Decima” para o maior ganhador do torneio.

Em 2018, os nove estão entre os relacionados para a decisão contra o Liverpool em Kiev. Buscando o tricampeonato depois das conquistas em 2016 e 2017. A quarta final em cinco edições. Conhecem o clima, a diferença de mata-mata para jogo único, a expectativa, o batalhão de jornalistas, os olhos do mundo.

Contam também com algo fundamental: apenas experiências vitoriosas como referências para tentar repetir o feito e entrar definitivamente para a história como os primeiros tricampeões da era Champions. Igualando o lendário Bayern de Munique de Franz Beckenbauer e Gerd Muller, os últimos a ganhar a Europa três vezes seguidas.

Não é pouco. Muito menos algo para ser tratado de forma blasé, como se já estivessem fartos de levantar taças. A mentalidade vencedora do Real Madrid na Champions impressiona. E pode ser o grande trunfo na Ucrânia. Decisões são resolvidas na maioria das vezes com força mental e qualidade individual. Como a maioria dos onze duelos em 180 minutos ou mais de mata-mata deste time sob o comando de Zinedine Zidane. Sofrendo e saindo de situações difíceis com frieza e eficiência.

Em meio à tanta tensão, a confiança ajuda mais que qualquer vantagem tática que pode surgir no confronto. Os 4 a 1 sobre a Juventus em Cardiff foram a grande prova do rolo compressor que o Real Madrid pode se tornar quando a qualidade técnica e o entrosamento encontram o melhor cenário psicológico do duelo.

Tudo que o Liverpool precisa evitar. Se entrar aceitando a condição de “zebra”, apesar do que representa a camisa cinco vezes campeã, a chance de sucumbir é enorme. Até pela inexperiência em finais de todos, desde Jurgen Klopp até Mohamed Salah, artilheiro e candidato ao prêmio de melhor da temporada.

A solução? A mesma dos melhores momentos na temporada: pé fundo no acelerador. O “gegenpressing” de Klopp no volume máximo. Perde e pressiona com fúria por todo o campo. Como se não houvesse amanhã. Assumindo os riscos de um oponente com a técnica do Real se livrar e chegar com igualdade ou superioridade numérica no ataque.

Mas com boas chances também de recuperar e acionar rapidamente o tridente Salah-Firmino-Mané. De intensa movimentação do brasileiro que vai buscar as costas de Casemiro para acionar seus companheiros entrando em diagonal, nos espaços entre Carvajal e Varane ou Sergio Ramos e Marcelo. Defesa que não vem demonstrando a segurança de outros momentos desta trajetória vencedora recente. Pode causar estragos.

No “jogo mental” da decisão, o melhor cenário para os Reds é tirar o favorito do conforto de jogar como protagonista. Os vividos madridistas estão acostumados a encontrar medo nos olhares do outro lado do campo. O que farão se encontrarem fome, fúria e uma vontade inquebrantável de deixar a vida no campo em busca da glória? Ainda mais considerando que o Real vêm de sustos em casa contra Juventus e Bayern de Munique, quando foi dominado e podia ter sido eliminado.

Não será fácil para Klopp convencer seus comandados a deixarem o comportamento padrão de respeito, estudo, aprumar os nervos nos primeiros minutos. Ou a sedutora ideia de dar a bola ao Real e esperar os espaços aparecerem para seu ataque rápido e demolidor. Mas o Liverpool já fez isso antes e o desempenho caiu absurdamente. Inclusive com alguns riscos, como o primeiro tempo na volta em Manchester contra o City e a segunda etapa contra a Roma no Estádio Olímpico.

Diante do bicampeão do continente qualquer vacilo em 90 minutos pode ser letal. Melhor “enlouquecer” e, se tudo der errado, ser lembrado pela coragem de tentar fazer diferente. E para isto ninguém é melhor que Klopp, o “maluco beleza”, o Nigel Mansell do futebol. Capaz de transfomar Kiev num “hospício” e fazer história. Alguém duvida?


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