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As entrelinhas do acerto do Vasco com Milton Mendes
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André Rocha

No sábado à tarde, Eurico Miranda atendeu a ligação deste blogueiro sem disfarçar a irritação ao responder sobre o interesse do clube na contratação do técnico Milton Mendes.

“Não confirmo nada”, foi a resposta seca. O feeling de quem conhece há décadas o modus operandi do presidente vascaíno era de que o vazamento contrariou o dirigente e o anúncio era questão de tempo.

Com a confirmação de forma oficial no dia seguinte, depois do empate sem gols com o Botafogo no Engenhão, a escolha do novo técnico deixa algumas mensagens nas entrelinhas.

A primeira é que Vanderlei Luxemburgo, nome que surgiu com força e parecia o preferido da torcida pelo que se ouvia nas ruas e notava nas redes sociais e enquetes em portais, não desperta mais tanta confiança.

Primeiro porque nas entrevistas e participações em programas de TV suas declarações de que o futebol continua o mesmo, sem novidades ou evolução no jogo em si, impressionam qualquer um que acompanhe minimamente o que se faz no mundo todo, especialmente nos grandes centros.

Em segundo lugar, e principalmente, há sempre a dúvida: será que o treinador consagrado de outrora vai aceitar trabalhar apenas no campo ou vai dar pitaco em questões administrativas, na estrutura e tomar a frente em negociações de jogadores?

Para um centralizador como Eurico, este pode ter sido o fator decisivo para descartar Luxemburgo. Mais do que o conflito CLT x multa contratual na parte burocrática ou declarações polêmicas do técnico contra a FERJ quando trabalhou no Flamengo.

A escolha de Milton Mendes, que iniciou a carreira de jogador no Vasco, certamente passa pela identificação com o clube, tão valorizada por Eurico, mas também por uma característica do novo comandante: costuma dar respostas rápidas em seus trabalhos. Assim foi no Atlético Paranaense e especialmente no Santa Cruz.

Assumiu em março de 2016, emendou nove vitórias e sete empates, conquistou Copa do Nordeste e Pernambucano, chegou a liderar o Brasileiro nas primeiras rodadas. Ganhou respeito por seu discurso otimista, a elegância no trato com a imprensa e os métodos modernos.

Exige setores compactos e organização, independentemente da escalação com jogadores mais ofensivos ou marcadores. No Vasco deve partir de duas linhas de quatro dando liberdade a Nenê e Luis Fabiano, a estrelas do elenco. Como fez no Santinha com Grafite.

Depois a queda foi vertiginosa, deixando o time pernambucano na zona de rebaixamento, da qual não saiu mais. Preocupante em um trabalho a longo prazo. Mas Eurico quer uma recuperação a ponto de ainda conquistar o Carioca.

Tricampeonato estadual que seria a marca da sua volta ao clube. Ainda que manchada por um rebaixamento. E hoje, olhando o cenário nacional, as pretensões cruzmaltinas para o segundo semestre seriam apenas de se manter na Série A.

É o maior desafio da carreira de Milton, sem dúvida. Por isso não deixa de ser uma enorme incógnita. Até porque a torcida, impaciente com Cristóvão Borges, esperava um técnico tarimbado e com currículo respeitável para lidar com um elenco experiente. Mas pode dar certo.

O que deixa um rastro de dúvida é a influência de Carlos Leite nas decisões do clube. Negociou Luxemburgo e fechou com Milton, ambos agenciados pelo empresário. A contratação de Cristóvão Borges também teve sua indicação.

Por mais que não haja provas e sempre se parta da presunção da inocência, fica no ar a pergunta: será que os jogadores de Carlos também não terão preferência na montagem do elenco e até na escalação do time titular?

Questões que começam a ser respondidas na prática por Milton Mendes a partir da sua apresentação oficial marcada para hoje, segunda-feira, em São Januário. Eliminado da Copa do Brasil e precisando de pontos na Taça Rio para disputar a fase final do Carioca, o Vasco precisa reagir rápido. Para isso contratou o técnico certo, ao menos na teoria.

Mas como será o amanhã?

 


O melhor que você, torcedor consciente, pode fazer pelo seu time de coração
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André Rocha

Este texto não é para quem se relaciona com seu clube apenas no momento de alta, fica sabendo do resultado pela internet e só quer espalhar memes nas redes sociais e zoar o vizinho ou o colega de trabalho no dia seguinte, mas mal sabe a escalação.

É para você que consome futebol, ainda que priorize o time de coração. Que paga TV por assinatura, pay-per-view, é sócio-torcedor, interage nas redes sociais e tenta participar da vida do clube, mesmo que à distância.

No ano da graça de 2017, o melhor que o torcedor pode fazer por sua paixão é mais do que alimentar os cofres do clube.

Durante anos, décadas, você foi ensinado que o torcedor de verdade é aquele apaixonado, irracional, de amor incondicional. Que sofre, berra, pede a saida do técnico “burro” e, se preciso, patrulha até o que o craque do seu time faz na folga. Também foi passado ao fanático um “manual” de explicações para a boa e a má fase do seu time.

Do “time sem vergonha” ao “time de guerreiros”. Do “técnico retranqueiro” ao “paizão da família”. Do “apagão” à “torcida que carregou nas costas”. Do “grupo na mão do treinador” aos “vagabundos que quebram na noite”.

Nada lhe ensinaram sobre tática e estratégia. Ou apenas o superficial, como “time que não tem craques só ganha na tática”, mas nunca explicaram muito bem o que seria isso. Porque sabem que é mais fácil capturar pelo emocional. Convencer que se você gritar o time vai correr e vencer. Mas se perde em casa com estádio lotado explicam que a equipe “sentiu o peso do jogo” ou “caiu no oba oba da torcida”.

Por isso, se você quer cobrar de dirigente, treinador ou atleta é preciso algo fundamental em qualquer área da vida: conhecimento.

Para não cair na fácil tentação, por exemplo, de exigir uma goleada do Palmeiras sobre o Jorge Wilstermann no Allianz Parque. Porque sim. Porque o Palmeiras gastou muito e é obrigado a atropelar o pobre boliviano na Libertadores.

Sem compreender que o time de Eduardo Baptista passa por uma transição de modelo de jogo e que se acostumou com Cuca a definir rapidamente a jogada. E contra uma linha de cinco bem treinada, o que não necessita de grandes craques ou um técnico de ponta da Europa, é preciso rodar a bola, trabalhar as jogadas.

Inclusive recuar para o goleiro com o intuito de abrir espaços, tirar um pouco o 5-4-1 do oponente do próprio campo. Mas te ensinaram a vaiar essa prática porque “é anti-jogo”, “coisa de time pequeno que não quer jogar”. Então que fique tentando a esmo, despejando bolas na área até conseguir com o gol de Mina nos acréscimos. Esmurrando a ponta da faca “porque sofrido é mais gostoso”. Será?

Vivemos outros tempos, felizmente. Antes os bolivianos chegavam aqui ingênuos, sem informação de nada. Para perder de pouco. Agora na internet você acha todos os movimentos que uma linha de cinco atrás precisa fazer para fechar os espaços. É óbvio que o técnico Roberto Mosquera conhecia as virtudes e defeitos de Dudu, Borja, Felipe Melo, Guerra, Mina, Tchê Tchê…

Assim como Zé Ricardo sabia que o Flamengo precisava da velocidade e da boa leitura defensiva de Marcio Araújo para limitar os movimentos de Diego Buonanotte, o meia argentino que faz a Universidad Católica jogar.

Escalou três volantes de ofício, sim. Mas só o contestado camisa oito à frente da defesa, com Romulo quase na linha de Diego e Willian Arão mais aberto pela direita. A velha confusão entre posição e função. Foi “covarde”, “jogou com medo”? Como, se finalizou 15 vezes contra 11 dos donos da casa.

O problema foi a eficiência nas finalizações. Paolo Guerrero, centroavante e artilheiro rubro-negro na temporada, teve seis chances. Três dentro da área. Nenhuma nas redes em um jogo parelho de Libertadores fora de casa.

Santiago “El Tanque” Silva teve duas. Uma na bola mal recuada por Rafael Vaz que parou em Muralha. Na segunda, aproveitou um erro de marcação coletiva – Pará não podia estar com o centroavante bem mais alto – e definiu o jogo.

Berrío, tão aclamado pelo torcedor pela velocidade de “The Flash”, entrou para deixar a equipe, em tese, mais ofensiva antes mesmo do gol sofrido. Errou tudo que tentou e ainda foi expulso por uma bobagem. Será que a culpa foi mesmo do técnico Zé Ricardo?

Para criticar é preciso conhecer, entender. O ex-jogador e colunista Tostão costuma dizer que o futebol é tão caótico e imprevisível que você pode falar a maior bobagem do mundo e ela acontecer no campo. Sem dúvida. E por isso estamos aqui refletindo sobre o esporte mais arrebatador desde sempre.

Não há dono da verdade neste jogo, mas há tendências. E a análise mais coerente dos fatos. O que é bem diferente de opinião. Não é tão simples dizer que jogou bem ou mal sem o mínimo de base. E o resultado não pode definir a questão e ser o norte da análise, que por aqui quase sempre é feita de trás para frente. Perdeu? Quem é o culpado, por que errou? Se venceu vão achar o heroi, as explicações para a boa fase. Mesmo que tenha conquistado os três pontos jogando muito mal.

Quer ver sua visão respeitada? Tente observar e entender melhor o que acontece em campo. Porque é ele que norteia todo o resto. Bastidores, gestão financeira, política. Tudo. Para reclamar é preciso saber.

Outro dia este blogueiro entrou num Uber e foi reconhecido pelo motorista. Vascaíno, logo começou a reclamar do trabalho de Cristóvão Borges. Mas chamando o treinador de “muito retranqueiro”. Como havia escrito sobre no dia anterior, expliquei que o problema era exatamente o contrário: o time se adianta, não pressiona quem está com a bola e deixa a retaguarda totalmente exposta. Lembrei um ou dois lances do empate com o Macaé no Engenhão e ele me deu razão. Continuou protestando, mas agora por um motivo mais justo.

Torcedor, estamos na era da informação. Não deixe mais colocarem você numa redoma de ignorância voluntária reclamando e cobrando da mesma forma que seu pai e avô. Procure bons canais de informação, mas também de análise. Que mostre o que acontece realmente nas quatro linhas. Temos ótimas referências no assunto que, felizmente, são as exceções à regra.

O bom técnico se recicla, o jogador se atualiza, mesmo que na marra, por necessidade. O formador de opinião também precisa. Por que não o torcedor que quer ser parte do processo?

Sem populismo, apelação. Também sem essa relação cliente/fornecedor muito presente hoje no jornalismo esportivo: o comentarista diz o que o torcedor quer ouvir. Elogio na vitória e crítica na derrota. Sem contexto. Até para ter paz nas redes sociais cada vez mais bélicas. Exatamente por causa do desconhecimento incentivado por quem deveria esclarecer.

Fuja dessa cilada secular. Não se deixe enganar por quem acha que você não sabe pensar, só sentir. Entenda para cobrar e ajudar seu time de verdade. É bom tirar sarro do rival e explodir de alegria no estádio. Mas melhor ainda é quando se sabe o que está dizendo.

 

 


Técnico que não defende é indefensável
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André Rocha

Crédito da foto: André Fabiano (Estadão)

O adversário do Vasco no Engenhão era o Macaé, que no primeiro turno não somou nenhum ponto e foi às redes apenas três vezes em cinco partidas. A bola ronda a área cruzmaltina até o centro da esquerda e o atacante Hudson, livre na pequena área, chegar atrasado.

Um lance corriqueiro em qualquer partida, independentemente do nível das equipes. A menos que o time de menor investimento recupere a bola sem que o oponente, em tese, mais poderoso consiga tocá-la, retrabalhe a jogada, volte ao lado esquerdo, saia o cruzamento e a conclusão sem marcação. Do mesmo Hudson.

O gol de empate do Macaé nos 2 a 2 com o Vasco é o exemplo mais cristalino das fragilidades defensivas das equipes comandadas por Cristóvão Borges. É também o mais alto grito de alerta para que isso seja corrigido. Mesmo que seja preciso recorrer ao método mais arcaico da marcação individual.

Antes o problema era de execução. Cristóvão quer sua defesa avançada, acompanhando o meio e o ataque numa marcação a partir do ataque. Depois de um período sem comandar equipes após a estreia na função pelo Vasco, o treinador chegou ao Bahia falando em novos métodos, novas ideias.

Mas tanto no tricolor baiano quanto em seus outros trabalhos – Fluminense, Flamengo, Atlético-PR, Corinthians e agora no retorno ao Vasco – a dificuldade maior era fazer seus jogadores entenderem a necessidade de pressão constante sobre o adversário com a bola para “quebrar” o passe e não surpreender a última linha de bloqueio.

Virou um problema crônico que mina seus trabalhos e a carreira estaciona sem conquistas ou uma campanha sólida, com exceção de 2011 com o Vasco. Acumula vexames e goleadas, a pior para o América de Natal em 2014 por 5 a 2 no Maracanã, decretando a eliminação da Copa do Brasil ainda na terceira fase.

Na estreia da Taça Rio no Engenhão, a impressão era de que os jogadores do Vasco não sabiam se deviam sair para o bote ou guardar o posicionamento. Na dúvida ficaram passivamente assistindo à troca de passes de uma equipe bem mais limitada.

O segundo gol, de Rafinha, parecia contragolpe de final dos antigos coletivos de 90 minutos, com jogadores já cansados e se poupando. Marquinho arrancou com toda liberdade até servir o companheiro à frente de Martín Silva.

O Macaé concluiu, no total, 13 vezes no jogo. Seis no alvo. Teve pelo menos mais três oportunidades claras. Com apenas 46% de posse. A menos que haja um sério problema na gestão de grupo e os atletas estejam dispersos ou inconformados, não se justifica um trabalho defensivo tão frouxo.

Triste para o Vasco, logo na estreia tão aguardada de Luis Fabiano. A equipe saiu na frente com belo gol de Nenê e depois foi atrás do empate muito mais na fibra que na organização e conseguiu com Rodrigo, no rebote da finalização do novo camisa nove.

Muito pouco. E não há prazer nenhum na crítica a Cristóvão, que é uma figura sempre educada, solícita e atenciosa. Mas é preciso definir um caminho.

As melhores equipes do mundo sabem alternar a marcação adiantada e no próprio campo de acordo com a necessidade e a qualidade do rival. É possível também se defender ficando com a bola ou até desprezando a posse, mas compactando muito bem os setores e jogando em transições ofensivas rápidas.

Como dito antes, se está difícil transmitir orientações complexas, por que não partir para o mais simples e básico? “Cada um pega o seu” e vejamos o que acontece. Depois tentar gradativamente inserir conceitos mais atuais. Só não pode seguir como está.

Por mais que a nossa cultura futebolística mais tradicional seja ofensiva, de jogo bonito, o futebol brasileiro sempre se valeu de consistência no trabalho sem a bola para se impor. Não por acaso aderimos à linha de quatro atrás em 1958 e na Copa de 1970 o escrete canarinho tenha inaugurado, na prática, os conceitos de execução do 4-5-1, deixando apenas Tostão no ataque da lendária equipe de Zagallo.

A história também mostra que é possível aprender e se reinventar. Telê Santana, acusado de expor demais a fantástica seleção de 1982, na Copa do Mundo seguinte, no México, apareceu com os volantes Elzo e Alemão. À frente da retaguarda que ganhou mais consistência com os laterais Josimar e Branco, mais precavidos no apoio que os talentosos Leandro e Junior quatro anos antes na Espanha.

No São Paulo bicampeão da Libertadores e intercontinental em 1992/93, comandou equipes que encantavam na frente, porém sempre tinham um Pintado ou Dinho para “limpar os trilhos” e liberar laterais e até um dos zagueiros. Mas apoiando de forma alternada.

No mesmo tricolor paulista, Rogério Ceni vai penando em seu primeiro trabalho com a defesa mais vazada do Campeonato Paulista, junto com a do Linense – inacreditáveis 17 gols sofridos em oito partidas. Mas parece ser muito mais uma questão de ajuste na marcação agressiva que o treinador novato prefere e também minimizar os erros individuais, inclusive dos goleiros Sidão e Denis. Por estar no início de sua trajetória no comando técnico, Ceni ganha o benefício da dúvida.

Com Cristóvão não é mais possível. Passou do tempo de corrigir a rota. Porque técnico que não defende é indefensável.

(Estatísticas: Footstats)

 


Flamengo na final da Taça GB com controle de jogo, mas podia ter goleado
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André Rocha

Os menos de dez mil pagantes nas semifinais da Taça Guanabara em Volta Redonda e Xerém, com toda a relativização da ausência do Maracanã e inviabilidade do Engenhão, é o símbolo da falência do campeonato carioca e da crise em que se enfiou a sede das Olimpíadas há menos de seis meses.

No Raulino de Oliveira, o início teve o roteiro de praticamente todos os grandes clássicos brasileiros nos últimos tempos: jogadores mais preocupados em mostrar truculência, pressionar arbitragem para mostrar ao torcedor e ao adversário que está “pilhado”. Só esquecem de jogar futebol.

O Flamengo, com trabalho consolidado e vantagem do empate, entrou primeiro na disputa tática e técnica. Com calma, trocou passes desde a defesa para sair da marcação adiantada do Vasco de Cristóvão Borges que só tinha uma jogada: Kelvin para cima de Trauco, cortando para dentro e batendo de canhota.

Ainda na primeira etapa, Zé Ricardo voltou ao 4-2-3-1 com pontas velocistas depois da saída de Mancuello, com desconforto muscular, e a entrada de Gabriel. A equipe ainda se sente mais confortável desta forma e cresceu no jogo até o pênalti sobre Everton. Falha da dupla de zaga cruzmaltina: Rodrigo deu condições errando a tática de impedimento, Luan chegou depois do atacante rubro-negro e o toque desequilibrou. Cobrança corajosa e precisa de Diego.

O segundo tempo teve Cristóvão demorando a mexer e fazendo errado. Douglas Luiz era um dos melhores do Vasco em campo e saiu para a entrada de Guilherme, recuando Wagner. O meio-campo fez água e passou a sobrar espaços para o adversário, também pela nítida queda física do time.

Com Berrío na vaga de Everton e depois Filipe Vizeu no lugar de Guerrero, o Flamengo empilhou chances aproveitando os espaços generosos. A mais bela jogada com Diego, Guerrero e conclusão de Willian Arão por cima. Foram nove finalizações, pelo menos três oportunidades claras, mais o chute na trave de Diego. Não conseguiu ampliar, porém.

Em um cenário de nove jogos sem vencer o arquirrival, o risco de sofrer o empate e recolocar o adversário no jogo foi desnecessário. Cristóvão ainda tentou com Muriqui e Escudero. Mas Nenê se arrastava em campo e Rever e Rafael Vaz cortaram todas as tentativas. O Vasco precisa de tempo para igualar todos fisicamente e adquirir um mínimo de entrosamento – e ainda falta entrar Luis Fabiano e Bruno Paulista.

O Fla de Zé Ricardo quebra a sequência de insucessos no clássico e se apresenta como uma equipe consciente e fria. Mas podia ter goleado. Em confrontos mais parelhos, como na final do primeiro turno contra o Fluminense, a falta de contundência pode pesar.

Ainda assim, o trabalho sério no futebol é um ponto de contraste com o combalido futebol carioca. Por isso leva o favoritismo para o Fla-Flu.

(Estatísticas: Footstats)


Flu tem quarteto promissor; Vasco de Cristóvão precisa partir do básico
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André Rocha

Fluminense foi envolvente com o quarteto Scarpa, Sornoza, Douglas e Wellington entre Orejuela e Henrique Dourado e aproveitou os muitos espaços deixados por um Vasco envelhecido e sem intensidade para executar o plano de jogo de Cristóvão Borges (Tactical Pad).

Fluminense foi envolvente com o quarteto Scarpa, Sornoza, Douglas e Wellington entre Orejuela e Henrique Dourado e aproveitou os muitos espaços deixados por um Vasco envelhecido e sem intensidade para executar o plano de jogo de Cristóvão Borges (Tactical Pad).

Desde que foi anunciado, Abel Braga fala de caráter em toda entrevista. Algo que deveria ser básico em qualquer profissão. Ainda assim, sem qualidade adianta bem pouco. A boa notícia para os tricolores é que entre o volante equatoriano Orejuela e o centroavante Henrique Dourado o novo Fluminense tem um quarteto com um potencial imenso: Gustavo Scarpa, Sornoza, Douglas e Wellington.

No Engenhão diante de um Vasco ainda envelhecido e deixando espaços demais com a combinação marcação frouxa mais defesa adiantada que Cristóvão Borges não consegue corrigir em suas equipes, isso ficou ainda mais nítido.

Especialmente pela direita, com Scarpa trabalhando pela canhota e fazendo triangulações com Sornoza, meia equatoriano que já muda de patamar o meio do Flu, e Lucas contra o solitário Henrique. Assim saiu a jogada do gol de Henrique Dourado, o segundo da equipe ainda na primeira etapa.

O primeiro foi de Wellington, que pela esquerda buscava os dribles para dentro procurando a diagonal e, mesmo errando em algumas decisões entre passar, chutar ou tentar a vitória pessoal, estava no lugar certo para completar no rebote de jogada entre Dourado e Douglas.

A missão de Abel Braga é ajustar a compactação dos setores, tanto na pressão no campo de ataque quanto na recomposição. Em vários momentos houve um buraco entre os quatro defensores e Orejuela e o quinteto ofensivo.

Espaços que o Vasco aproveitou melhor na segunda etapa com Guilherme e Ederson pelos flancos nas vagas dos improdutivos Escudero e Éder Luís. Um pouco mais de intensidade e também o relaxamento natural do Flu dosando energias em um início de temporada que já teve vitória por 3 a 2 sobre o Criciúma pela Primeira Liga na terça-feira.

Ficaria mais complicado para os tricolores se o time cruzmaltino tivesse sido mais eficiente nas finalizações e não deixasse sua retaguarda escancarada para os contragolpes. Quando Abel trocou Sornoza por Luiz Fernando, que foi fazer dupla com Orejuela na proteção, e Wellington por Marcos Junior, o Flu recuperou consistência.

Fez o terceiro na jogada de Scarpa para Marcos Júnior contra apenas um defensor que o atacante substituto colocou por cima de Martín Silva. Podia ter marcado o fim da invencibilidade de 23 partidas do Vasco no Carioca com uma goleada histórica. Mas o desempenho no início já é animador e ainda tem Richarlison para voltar da seleção sub-20.

Quanto ao time de Cristóvão, é preciso partir do básico. Aguardar o retorno de Douglas, também na sub-20, fechar com Luis Fabiano, como prometido pelo presidente Eurico Miranda, e pensar em um modelo de jogo viável para um elenco repleto de veteranos.

Diante de um adversário veloz e com talento na frente, o Vasco foi presa fácil. É cedo, mas preocupa.

(Estatísticas: Footstats)


As primeiras impressões de Corinthians e Vasco em 2017
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André Rocha

Para o time paulista valeu mais a observação do primeiro tempo, com a formação titular utilizando as peças disponíveis no Torneio da Flórida. E o que se viu foi a equipe de Fabio Carille com os movimentos do 4-1-4-1 inspirado em Tite mais assimilados, fluindo naturalmente.

Talvez pela preocupação de se manter organizado e os jogadores agrupados por ser um início de trabalho para evitar maior desgaste ficou a impressão de um time um tanto engessado, sem a mobilidade necessária, especialmente de Jô na frente.

Quando os ponteiros Romero e Marlone se procuraram no centro saiu o segundo gol numa tabela. O mesmo na primeira bola que foi às redes no jogo, quando os meias pelo centro à frente do volante Gabriel trocaram passes e no toque de calcanhar de Rodriguinho, Camacho saiu na cara de Martín Silva.

Porque o Vasco na segunda aparição sob o comando de Cristóvão Borges já demonstrou, na prática, os problemas defensivos da proposta de jogo do treinador: linhas próximas, defesa adiantada, mas sem pressão e diminuição de espaços diante do homem da bola. Muita liberdade nos gols corintianos. Já havia acontecido nos 2 a 1 sobre o Barcelona de Guaiaquil.

Um contraponto ao desempenho interessante na frente, com mais mobilidade e rapidez: Evander, Guilherme e Eder Luís se juntando a Nenê na articulação procurando Thalles. Bem superior à experiência com Escudero e Muriqui totalmente fora de sintonia na estreia.

Mas o gol saiu em ação individual, um chute espetacular com efeito de Eder Luis acertando o ângulo de Cássio. Para dar moral ao atacante veterano que terá em Wagner mais um concorrente no quarteto ou quinteto ofensivo que Cristóvão pretende armar.

Segunda etapa com as muitas substituições que quase sempre descaracterizam a disputa, mas valem paraa observação dos treinadores.  Do quarteto Giovanni Augusto, Guilherme, Marquinhos Gabriel e Kazim por Carille. Os dois últimos protagonistas dos dois gols, um servindo ao outro, que consolidaram a goleada por 4 a 1.

Cristóvão viu um melhor entendimento entre Escudero, Ederson, Pikachu e Andrezinho. O técnico mexeu bastante, mas sem a opção de trocar todo time na volta do intervalo, como fez a equipe paulista. Mas, de novo, quando atacado de forma mais aguda mostrou as mesmas dificuldades defensivas. Algo para o comandante refletir e, principalmente, corrigir.

Clima de amistoso, Corinthians na final. Mas valeu mesmo para notar os rascunhos e as primeiras impressões sobre os times na temporada. A conclusão óbvia: há muito trabalho pela frente.


Neste Natal, troque o “pacotão de reforços” pela boa gestão do futebol
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André Rocha

Para muitos torcedores esta é a melhor época do ano. Seu time de coração está invicto, porque não joga, e sonha com os reforços especulados aqui e ali, inclusive novo treinador. Mas não tem dinheiro para gastar.

Para os cariocas menos jovens, como este que escreve, era a época de comprar o velho “Jornal dos Sports” e sonhar folheando as páginas rosas com contratações bombásticas, como o alemão Schuster no Fluminense ou Maradona no Flamengo. Quando não previam a montagem de uma “SeleVasco” ou “SuperFogão”, com seis ou sete nomes de peso. Tempos de muitos chutes para manter as vendagens dos periódicos.

Hoje a apuração jornalística é muito mais responsável, embora haja um aventureiro aqui e ali. Mas o apaixonado por seu clube mantém o hábito de aguardar ansiosamente pelas negociações, tentar imaginar a nova equipe com os nomes aventados.

Só que o tal “pacotão de reforços” quase invariavelmente significa que a direção errou feio e montou um elenco fraco. Também indica que os jovens vindo da base não são confiáveis ou falta coragem e sensibilidade para lançá-los no tempo correto.

O presente certo para a torcida neste e em qualquer Natal é a boa gestão do futebol. Estrutura montada em todo o departamento, profissionais capacitados e cientes da cultura e das peculiaridades do clube. Sem centralizar tudo na figura do treinador, que cada vez mais precisa delegar poderes. Ainda que a decisão final do que vai para o campo tenha que ser dele.

No elenco, base mantida com reforços nas posições carentes. Mas isto com avaliação serena e profissional, sem se levar pela paixão imediatista da torcida. Talvez o jogador que irritou as arquibancadas só precise de uma pré-temporada para se alinhar fisicamente aos outros. Ou apenas de tempo de adaptação, sem a insanidade que é chegar, se apresentar na terça e na quinta estar em campo para a estreia no meio de uma competição, entrando direto na máquina de moer carnes e cérebros.

Para rechear o elenco, jovens promissores. De preferência aqueles que já treinaram ou tiveram suas oportunidades entrando poucos minutos. Sem cobrança de protagonismo, amadurecendo o corpo e a mente para a etapa mais importante da carreira. Mas bem formado, nos conceitos do jogo, nas valências físicas e psicologicamente.

Tudo isso requer trabalho sério e não entregar as divisões de base a ex-jogadores por gratidão. Felizmente a mentalidade está mudando e o sucesso de Rogério Micale na Olimpíada e a ascensão de Zé Ricardo no Flamengo são bons exemplos de que o nível está bem mais alto.

Se tudo caminha dentro do planejado, a melhor manchete nos portais de esportes na internet – em tempos de queda nas vendas dos jornais impressos que não souberam se reinventar, inclusive o extinto “Jornal dos Sports” – é que o trabalho segue seu curso.

Sem necessidade de guinadas radicais ou postura agressiva no mercado apenas para agradar a torcida. Ou os empresários dos jogadores, com comissões para lá e para cá. A história mostra que raramente funciona e deixa um rastro de dívidas que em algum momento cobra seu preço.

Que o Natal seja feliz para os que creem. Com esperanças renovadas pelo que está por vir, baseadas na consciência tranquila de quem sabe onde está e aonde quer chegar. Que assim seja!

PS: #ForçaChape

 


Qual será o Vasco de 2017? Fim do ciclo maldito ou mais um “bate e volta”?
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André Rocha

O primeiro tempo do Vasco no Maracanã com 56 mil pagantes foi triste. Um time desesperado, previsível na frente com bolas esticadas para Nenê ou levantadas para Thalles. Na retaguarda, pernas presas pelo medo de protagonizar o maior vexame da história do clube. O Ceará bem armado por Sergio Soares marcou com Eduardo e teve chance de ampliar.

Segunda etapa no “abafa” e dois gols de Thalles para virar, muito mais pela tranqüilidade por conta do resultado adverso do Náutico contra o Oeste do que pela entrada de Eder Luís no lugar de Diguinho e a reorganização num 4-2-3-1.

Alguns sustos, como o incrível gol perdido por Wescley,  e a queda física costumeira nos últimos vinte minutos. Mas acesso garantido. Em terceiro, com a derrota do Bahia para o campeão Atlético Goianense. Apesar do péssimo desempenho no returno, o Vasco sempre esteve no G-4. Não dá para dizer que foi injusto. Mas é pouco. Saldo final do trabalho de Jorginho é negativo, mesmo com título estadual invicto.

Agora é definir as metas para o futebol. O Botafogo deste ano pode ser boa referência: sem ilusões, começando com o objetivo de se manter na primeira divisão nacional e buscando algo maior se corresponder em campo. É proibido se empolgar com campanha no Carioca.

Hora de se recuperar financeiramente e na política buscar uma terceira solução, fora dos grupos de Roberto Dinamite e Eurico Miranda. Gestão mais moderna e profissional. É urgente!

Não pode sair da memória de quem toma decisões em São Januário a imagem da torcida gritando “Oeste!” pela vitória do time paulista sobre o Náutico no momento em que a tragédia pareceu mais próxima. Também o alívio e o protesto no apito final. Emblemático. Não pode mais acontecer.

Qual será o Vasco em 2017? O do fim do ciclo maldito ou de mais um “bate e volta” na Série B para punir novamente a falta de visão que mira mais o passado que vislumbra o futuro?


Vasco quis recorde, agora vive risco. 2014 pode não ter sido fundo do poço
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André Rocha

Este blogueiro estava a trabalho no Maracanã em 2014 e testemunhou a vaia estrondosa do estádio lotado que “celebrou” o retorno do Vasco à Série A após o empate em 1 a 1 com o Icasa apresentando péssimo futebol. Na saída, foi possível ouvir de um torcedor: “esse é o fundo do poço, pior não pode ficar”.

A má ou péssima notícia é que pode. Em 2014, o Vasco terminou em terceiro lugar na segunda divisão com 63 pontos. Campanha irregular, que começou com Adilson Batista e terminou sob o comando de Joel Santana, com pouquíssimos momentos de desempenho minimamente condizente com a grandeza do clube.

Desta vez a meta inicial, depois da recuperação tardia em 2015 com bom futebol, o título carioca invicto e o ótimo início na competição nacional, era bater o recorde do Corinthians em 2008: 25 vitórias, dez empates e só três derrotas. No fim do turno, já com quatro reveses, o parâmetro para o time comandado por Jorginho já era a campanha do título em 2009. Iguais com 39 pontos.

Agora, depois de uma jornada pluripatética no returno, com sete derrotas em 18 jogos e com 62 pontos na quarta colocação, um empate com o Ceará, que igualaria a pontuação há dois anos, pode não ser suficiente para continuar à frente do Náutico, quinto colocado.

O risco maior é a eletricidade do estádio lotado jogar contra o time que, mesmo experiente, pode ser atormentado pela tensão quase insuportável. E o discurso da equipe de Sergio Soares, na nona colocação, é de complicar para fazer história como o responsável pela manutenção de um grande na segunda divisão por mais um ano. Algo inédito na fórmula de pontos corridos.

O Vasco carrega um favoritismo natural e lógico. Mas é real o risco de uma tragédia que nem o torcedor da saída do Maracanã naquela noite de 2014 poderia imaginar. Será que ele estará de volta no sábado para tentar ajudar a evitar o maior vexame da história cruzmaltina?


O esforço hercúleo que o Vasco faz para se complicar
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André Rocha

E aconteceu o improvável antes da bola rolar na Série B. O time que fez campanha de primeira página na tabela no returno e só caiu pelo seu passivo, foi campeão carioca invicto com autoridade diante de três equipes da primeira divisão e que começou absoluto e pensando em bater recordes em sua terceira viagem ao inferno…conseguiu se complicar.

Primeiro percebeu que não conseguiria ser tão absoluto assim, depois se acomodou com o pensamento mágico que seria campeão apenas com camisa, valores individuais e eficiência na bola parada.

E foi parando. Jogando cada vez menos, também pelo desgaste com tantas viagens de um elenco envelhecido. A Copa do Brasil deixou de ser meta com a eliminação para o Santos. Só restou a obrigação. Que deixou de ser a taça para 0 G-4. Que terminou num returno pluripatético.

Sem um desempenho mínimo, o cenário inimaginável: na última rodada precisa vencer o Ceará em casa. Porque se empatar e o Náutico, também em seus domínios, conseguir os três pontos diante do Oeste perde a quarta vaga pelo número de vitórias. Um jogo que deveria ser protocolar ganha um peso de decisão, com uma tensão que exigirá demais mentalmente.

O Vasco errou mais que as previsões de todos nós, analistas. Talvez tenhamos exagerado nos elogios em maio. Mas o time cruzmaltino fez e faz um esforço imenso, hercúleo para se complicar em novembro. Onze derrotas em 37 rodadas na segunda divisão!

E o presidente que disse que com ele o clube nunca seria rebaixado agora corre um risco real de não subir. Surreal.