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Arquivo : Vasco

Na “Cidade Maravilhosa”, o ódio está em toda parte e não só em São Januário
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André Rocha

Muito já se falou e escreveu sobre o ocorrido em São Januário no sábado antes, durante e depois do clássico. Obviamente há a disputa política de um Vasco que há tempos necessita de uma terceira via forte além de Roberto Dinamite e Eurico Miranda.

Um clube que preferiu voltar ao passado com medo do futuro e que ainda não consegue vislumbrar um amanhã. Que acreditou que recuperaria protagonismo pelo simples retorno de um dirigente típico do século passado no futebol brasileiro. Com o rebaixamento veio o choque de realidade e, com ele, a exacerbação de uma cultura de ódio que é passada, intencionalmente ou não, ao torcedor cruzmaltino desde a infância.

Este blogueiro conhece porque vem de uma família de vascaínos e convive com vários desde sempre. O discurso é simples e direto: o Vasco é o clube popular de verdade e todos os seus títulos são conquistados com muito mérito, enquanto o rival Flamengo só tem a maior torcida do Brasil e construiu suas vitórias por ser protegido. Por CBF, Rede Globo, arbitragens…Em toda conquista há uma conspiração.

Algo que não faz o menor sentido, até porque todos os clubes cariocas historicamente já foram favorecidos por primeiro estarem na capital federal, em seguida pela proximidade geográfica da CBD, depois CBF. Antes mesmo da popularização dos aparelhos de televisão, a Rádio Nacional contribuiu para a formação de torcidas além da federação. Do Flamengo, sim. Mas também de Fluminense, Botafogo e do próprio Vasco.

Como todo trabalho de convencimento, algumas informações não são passadas porque desconstroem as teses de doutrinação.

Como a manobra no regulamento do Campeonato Brasileiro de 1974, primeiro conquistado pelo Vasco, para que a final contra o Cruzeiro que seria realizada no Mineirão pela melhor campanha do time celeste ao longo de todo o campeonato fosse transferida para o Maracanã. Na partida vencida pelo time carioca por 2 a 1, a arbitragem de Armando Marques é contestada até hoje pelos cruzeirenses por conta de um gol anulado do volante Zé Carlos aos 43 minutos do segundo tempo e o apito final sem nenhum acréscimo dentro de um jogo com muitas paralisações.

Também não revelam que alguns períodos vencedores do clube coincidem com a proximidade da CBD, comandada pelo Almirante Heleno Nunes de 1975 a 1980, vascaíno assumido e considerado responsável pela convocação de Roberto Dinamite para a Copa do Mundo de 1978 na Argentina. Também da CBF no final dos anos 1980, a ponto de Eurico Miranda ter sido o primeiro diretor de futebol da entidade no início da gestão de Ricardo Teixeira.

Ou a famosa aliança com a FERJ que vem desde os tempos de Eduardo Vianna, o Caixa D’água, e retomada agora com Rubens Lopes no retorno de Eurico Miranda à presidência. Períodos que coincidem com muitas conquistas do clube. Ou seja, ninguém tem telhado de vidro e história ilibada e sem manchas ou dúvidas. Infelizmente.

Mas o vascaíno é ensinado a odiar o Flamengo desde o berço, a vasculhar a história do rival em buscas de fatos reprováveis e frutos de conspirações. Por consequência, muitos sabem pouco da trajetória do próprio clube. A ponto de questionar o título carioca deste ano do Fla sem vencer nenhum turno, mas não saber – ou fazendo questão de esquecer – que a conquista estadual de 1982, tão celebrada sobre o multicampeão time de Zico, também foi construída sem ganhar a Taça Guanabara e a Taça Rio, mas por chegar ao triangular final pela melhor campanha geral. Questão de regulamento.

O clássico de sábado foi a gota de sangue num copo transbordando. O vascaíno percebe seu time de coração afundado por seguidas gestões incompetentes e irresponsáveis que ocasionaram três rebaixamentos no Brasileiro, as páginas mais vergonhosas de uma história gloriosa. O último sob o comando de um homem envelhecido, mas que faz questão de manter sua imagem de inquebrantável. E forte nos bastidores para afrontar o tal favorecimento ao rival.

No início houve um bicampeonato estadual e a sensação de que os tempos de rivalidade em igualdade de condições, ou aquela aliança vitoriosa com a federação carioca, tinham voltado. Mas a Série B em 2016 e a nítida mudança de patamar do Flamengo, com dívidas equacionadas, melhor estrutura e, numa cultura nacional sem fronteiras pela internet, rivalizando mais com os grandes paulistas e com o Atlético Mineiro do que com os tradicionais clubes locais fizeram explodir um ressentimento.

Foi o que se viu em São Januário, com bombas atiradas no campo, relatos de agressões a policiais mulheres, jornalistas e proibição de filmagem da festa da pequena torcida rubro-negra após a vitória por 1 a 0. Um triste cenário que retrata o desespero por ver um dos clubes mais tradicionais do país se apequenando por buscar sua grandeza de volta pelo caminho errado.

Equivocado e falimentar também o Rio de Janeiro depois da falsa bonança pelos investimentos para os Jogos Olímpicos. Associado aos escândalos na Petrobrás e à redução de arrecadação dos royalties do petróleo desencadeou na maior crise da história da cidade e do estado.

Como diz o velho ditado,”em casa que não tem pão todos gritam e ninguém tem razão”. Assim como em São Januário, onde há crise existe ódio. E na dita “Cidade Maravilhosa” ele está em toda parte.

De quem se acha vítima de um golpe eleitoral. No país, a nível estadual e também municipal. Enganado por políticos, presos ou soltos. Cidadãos que só querem os recursos surrupiados repatriados para estancar a sangria nos cofres públicos e salvar a dignidade de quem trabalhou e trabalha, mas no fim do mês está sem salário.

Do desemprego pelas portas fechadas. Seja porque não há dinheiro ou paz em locais sitiados pelo tráfico de drogas. A violência desmedida que aprisiona e revolta. Sem paz até nos shopping centers que eram o último refúgio. Cenário capaz de relativizar até as belezas naturais e os cartões postais. O Rio da zona sul, sempre privilegiada, que também revolta os que moram no subúrbio e na baixada fluminense.

Para responder à violência, só a truculência. Espalha-se, então, o fascismo e o preconceito como resposta. Não por acaso é o reduto eleitoral do deputado que quer ser presidente defendendo ditadura militar e lembrando com saudades de torturadores. Representante de quem detesta as diferenças e defende a segregação até na praia, antes o mais democrático dos símbolos cariocas. Junto com o Maracanã, outro gigante esquecido e afundado nesta lama fétida de corrupção e descaso.

Este é o Rio de Janeiro da cultura do ódio. Diário, cravado no cotidiano. Em toda parte. O que eclodiu em São Januário foi apenas uma faceta dele. Da cidade que continua linda como no verso de Gilberto Gil. Mas chora e se rebela com quem a mira com mais interesses escusos que carinho e cuidado. Uma pena.


Everton Ribeiro, a diferença no típico clássico da cultura do mal jogar
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André Rocha

O clássico em São Januário já seria naturalmente prejudicado pelos problemas das equipes antes e durante o jogo. Flamengo perdeu Rever pouco antes da partida por um problema gástrico, depois Rhodolfo lesionado. Entrou Léo Duarte, jovem que ganhou poucas oportunidades e entrou numa gelada. Não complicou e também saiu por contusão após levar entrada de Luis Fabiano na disputa que terminou no gol de Yago Pikachu bem anulado.

O time rubro-negro terminou a partida com Romulo improvisado e Rafael Vaz na zaga. Zé Ricardo também perdeu Guerrero, que deu lugar a Leandro Damião.

Milton Mendes ficou sem Douglas, seu melhor meio-campista, suspenso. Depois o substituto Bruno Paulista, também lesionado e substituído por Andrey. Desde o início, o time da casa apostou em um jogo físico, com marcação pressionada e parando com faltas seguidas. O Flamengo não conseguia sair pela já conhecida falta de criatividade da equipe. Apelou 13 vezes para o cruzamento.

O resultado foi um primeiro tempo sofrível. Os visitantes com 57% de posse, mas apenas três finalizações. A única no alvo em 45 minutos de Paolo Guerrero que, mesmo sem o zagueiro Rodrigo a pertubá-lo, novamente não foi feliz no clássico. O Vasco cometeu 14 faltas, dez a mais que o rival. Acertou oito desarmes contra seis.

Para quem pensa que clássico não é jogo para a prática de bom futebol e sim de rivalidade à flor da pele deve ter sido agradável. Na prática foi de sangrar as retinas.

Melhorou na segunda etapa graças à postura mais ofensiva do Fla, que tinha o jogador desequilibrante: Everton Ribeiro. Meia que partia da direita para articular as jogadas e encontrou espaços às costas dos volantes reservas do adversário. Primeiro deixou Diego na cara do gol e o meia finalizou pessimamente.

No minutos seguinte acertou linda jogada pela direita e, como um ponteiro, centrou com o pé “ruim, o direito, na cabeça de Everton. Gol único de uma partida que voltou a cair o nível pela pressão vascaína sem qualidade e organização e o time rubro-negro preocupado em proteger a zaga fragilizada.

Apareceu então o segundo melhor homem em campo: o contestado Márcio Araújo, preciso nas coberturas, antecipações e desarmes. Fundamental para impedir a chance cristalina do Vasco, que finalizou nove vezes, mas apenas uma na direção da meta que Thiago evitou com bela defesa.

No total, 34 faltas. 21 do Vasco e 13 do Fla. No apito final, a revolta dos torcedores vascaínos com atos de violência que devem resultar numa punição ao clube com perda de mandos de campo. Mais uma cena comum num Rio de Janeiro falido em todos os sentidos.

O esporte novamente ficou em segundo plano. Na visão comum por aqui de que o clássico tem que ser mais brigado que jogado. Mais sentido que pensado. Mais truculento que disputado. Típico da cultura do mal jogar.

Não deixa de ser um paradoxo que Everton Ribeiro, o jogador mais cerebral em campo, tenha sido a diferença. Às vezes a qualidade prevalece.

(Estatísticas: Footstats)


Botafogo: a eficiência volta ao G-6 do Brasileiro. Emblemático
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André Rocha

O Botafogo saiu do “favoritismo” ao rebaixamento para a vaga na Libertadores em 2016 com as alterações no torneio sul-americano. Um marco de mudança de patamar com Jair Ventura.

Em 2017, por necessidade, teve que praticamente descartar o estadual para se dedicar às fases preliminares da Libertadores contra Colo Colo e Olimpia e depois a uma disputa duríssima no Grupo 1 com o campeão Atlético Nacional, mais Barcelona de Guayaquil e Estudiantes. Sem refresco.

Em junho ainda não comemorou títulos, mas segue vivo na competição continental, na Copa do Brasil e agora volta ao G-6 da Série A, onde tudo começou.

Com 3 a 1 sobre o Vasco no Nilton Santos. Construído no primeiro tempo com 44% de posse de bola, três finalizações contra dez do adversário. Duas no alvo. As de Roger e Victor Luis que venceram Martín Silva. No primeiro, passe precioso de canhota do destro Bruno Silva. De novo o volante-meia pela direita, chave tática do modelo de jogo que vai se afirmando sem maiores variações.

Explorando com o lateral Arnaldo o setor esquerdo vascaíno que ficou mais frágil sem a bola com a entrada de Nenê. Mas com o camisa dez também criou problemas para a retaguarda alvinegra, que cedeu apenas uma chance clara a Luis Fabiano.

Botafogo forte pela direita com Bruno Silva ocupando o setor e contando com auxílio do lateral Arnaldo para cima de Henrique que não teve o devido suporte de Nenê. Time de Jair Ventura novamente foi eficiente (Tactical Pad).

No segundo tempo, Milton Mendes trocou Pikachu pelo jovem Paulo Vítor e inverteu o lado de Nenê para melhorar a dinâmica da equipe com e sem a bola. O Botafogo respondeu invertendo o lado forte. Aproximou Victor Luis, Pimpão e João Paulo e seguiu explorando o setor vascaíno em que Nenê colabora menos na recomposição.

Mas foi novamente pela direita que o Botafogo criou uma jogada de gol: passe por cima de João Paulo, Bruno Silva infiltrou, a zaga rebateu e Roger marcou o seu segundo batendo de primeira. Na sequência, bastou administrar controlando os espaços sem a bola, com um ou outro susto e o gol de Caio Monteiro, que entrou na vaga de Mateus Vital.

Sem sofrimento, porém. Mesmo terminando com 40% de posse, seis finalizações contra 16. Três no alvo, mantendo o aproveitamento da primeira etapa. Nada menos que 26 desarmes certos do alvinegro e 11 do Vasco. Uma típica vitória da equipe de Jair Ventura.

Depois de quatro anos sem enfrentar o Vasco pelo sobe e desce dos clubes, mais do cruzmaltino, o Botafogo vai mostrando que trabalhou certo para transformar suas aspirações. Com gestão no clube, no futebol e em seu estádio. Lembrando as glórias do passado, como na homenagem aos campeões cariocas de 1989, encerrando um jejum de 21 anos sem conquistas.

No presente, um time eficiente que de novo está na zona de classificação para a Libertadores. Mais emblemático impossível.

(Estatísticas: Footstats)

 


O recado de Milton Mendes pelo posicionamento de Nenê na vitória do Vasco
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André Rocha

O Vasco sofreu mais que deveria em São Januário. Com queda de luz, truculência da polícia e a turbulência política. Também com as oportunidades do Avaí, que finalizou onze vezes e fez de Martín Silva um dos melhores em campo.

Mas dentro da meta inicial, ainda que não assumida publicamente para não criar atrito com o presidente, de se manter na Série A, os três pontos contra um adversário direto foram fundamentais. Também confirmam o mando de campo como trunfo para pontuar e continuar longe do Z-4.

Um detalhe tático, porém, funciona como um recado do treinador Milton Mendes: Nenê foi mantido na equipe depois de atuar como atacante na vaga de Luís Fabiano na derrota para a Chapecoense. Mas com um novo posicionamento, não como o meia central atrás do atacante, sem maiores responsabilidades no trabalho sem a bola.

O camisa dez atuou pela esquerda na execução do 4-2-3-1, com Mateus Vital mantido em sua função nas últimas partidas. Obviamente o meia veterano não tem vigor físico para fazer a ida e volta com a intensidade exigida pelo flanco. A compensação era feita com o lateral Henrique menos agudo e o volante mais fixo – Jean, depois Wellington – auxiliando o zagueiro Paulão na cobertura.

Nenê retornava até a intermediária – com bem mais entrega do que quando atua solto na frente – e ficava pronto para a saída nos contragolpes. Por ali criou toda a jogada do gol único, marcado por Yago Pikachu. Só com a desvantagem no placar o lateral direito do time catarinense, Leandro Silva, passou a se aventurar mais no campo de ataque.

Criou problemas porque o jovem Douglas, que vem atuando mais adiantado como meia nas partidas fora de casa, deixou um buraco na intermediária na recomposição por não retornar para se alinhar a Wellington na proteção da retaguarda e gerou superioridade numérica do oponente da intermediária em direção à área vascaína.

Problema compensado pelos 21 desarmes corretos, contra 11 do Avaí, além das boas defesas de Martín Silva. Milton Mendes trocou Pikachu e Vital, que pecou em alguns momentos pelo individualismo, por Manga Escobar e Andrezinho. Manteve Nenê, mesmo cansado, até o final.

Um claro aviso do comandante, dividido em dois: a prioridade é o trabalho coletivo e não a formação de um time que jogue em função de suas estrelas; quem entender e se sacrificar pela equipe, independentemente de status, “grife” ou salário, terá mais oportunidades.

Milton erra e acerta, como todos os treinadores. Talvez precise ousar mais como visitante. Mas na parelha Série A, o foco na competitividade pode ser um bom norte para desta vez evitar o “bate-e-volta” ao inferno da segunda divisão.

(Estatísticas: Footstats)

 


Início do Corinthians é de quem pode terminar muito bem
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André Rocha

Os 13 pontos em quinze possíveis no início do Brasileiro, igualando a campanha do título de 2011, podem funcionar como curiosidade e um agente motivador.

Mas o que vale mesmo para o Corinthians é que o roteiro deste começo vem sendo o melhor possível. As circunstâncias colocaram no caminho cinco adversários acessíveis. O melhor deles na abertura do campeonato, quando não há muita noção do que está por vir.

Depois do duro empate em Itaquera com a Chapecoense, líder até o início da quinta rodada, triunfos sobre Vitória, Atlético-GO, Santos e agora os 5 a 2 sobre o Vasco em São Januário. 100% de aproveitamento como visitante. Três times que vão lutar para se manter na Série A e o clássico com um rival combalido, na despedida de Dorival Júnior.

Oponentes que permitem uma evolução gradual, sem abalo na confiança depois de um título paulista contrastando com a eliminação precoce na Copa do Brasil para o Internacional. Fabio Carille trabalha para acrescentar criatividade e contundência à equipe organizada defensivamente, identidade construída por Mano Menezes e Tite.

Ainda difícil quando é preciso criar espaços, mas que já flui melhor quando o adversário os cede. Como o Vasco, que criou problemas e aproveitou a desconcentração geral no início da segunda etapa e a fragilidade de Pablo nas disputas com Luis Fabiano para empatar o jogo.

Na maior parte do jogo, porém, assumiu o papel de dono da casa, adiantou as linhas e sofreu com a rapidez na transição ofensiva deste incrível Jô e mais Clayson, Jadson e Marquinhos Gabriel, com suporte de Maycon. Depois Clayton, autor dos dois últimos gols. Compensando as ausências de Fagner, Rodriguinho e Romero no absurdo que é jogar em datas FIFA.

Corinthians que já varia naturalmente do 4-1-4-1 para o 4-2-3-1 com o movimento do meia mais adiantado, ora se aproximando de Jô, ora se alinhando a Maycon na construção. Com saída pelos dois lados, por Fagner e Guilherme Arana. Que triangula, movimenta Jadson. Cria e finaliza mais e melhor. Ganha opções, que entram no time em alta, sem pressão.

Em um campeonato equilibrado, no qual a trinca de favoritos antes da bola rolar ocupam as três posições logo acima da zona de rebaixamento – Flamengo, Atlético-MG e Palmeiras -, pontuar nas primeiras rodadas sempre é melhor. Aumenta a confiança, dá leveza ao ambiente.

Nada garante em 38 rodadas e falar em junho do título no final do ano, ainda com Copa Sul-Americana a disputar, é utopia. Mas avaliando potencial e margem de evolução, um começo forte pode, sim, terminar muito bem para a equipe de Fabio Carille.

 


Os méritos (e a estrela) de Cuca na volta ao Palmeiras
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André Rocha

Enfrentar em casa o combalido Vasco voltando à Série A era o melhor dos cenários para a volta de Cuca na estreia do campeão Palmeiras no Brasileiro.

Melhor ainda quando marca os gols em momentos decisivos da partida: logo no início, aos seis minutos, no pênalti tolo de Jomar sobre Dudu que Jean converteu. No final da primeira etapa, quando o Vasco havia equilibrado a disputa e Guerra aproveitou rebote de Martín Silva em chute de Jean. O terceiro no primeiro ataque da segunda etapa, com Borja. Quarto e último na reta final, em novo pênalti do desastroso Jomar sobre Dudu e outro gol de Borja.

Não é justo, porém, atribuir apenas à sorte a construção do placar. Longe disso. O primeiro mérito de Cuca foi resgatar rapidamente a intensidade, desde o primeiro toque na bola com jogada ensaiada em ligação direta. Bem ao seu estilo.

Com a recuperação do Vasco, com o jovem Douglas ditando o rimo no meio-campo, mas muito sacrifício da equipe sem a bola para compensar a participação nula de Nenê e Luis Fabiano, o comandante alviverde trocou o posicionamento de Jean e Tchê Tchê.

Este saiu do trio de meio-campistas no 4-3-3 que variava para o 4-2-3-1 com o avanço de Guerra e foi para a lateral direita. Dentro da marcação individual planejada, Jean cuidaria de Douglas.

Não deu tão certo na parte defensiva. Mas na frente confundiu a marcação cruzmaltina e, na troca, Tchê Tchê passou, Jean se projetou para finalizar e Guerra aproveitar no segundo. No terceiro, jogada de Tchê Tchê como lateral e gol de Borja.

Cuca foi perfeito ao dar confiança ao atacante colombiano, criticado pelo alto investimento e baixo desempenho até aqui. Começou errando lances bobos. Com espaços para acelerar, cresceu naturalmente. Dois gols e o carinho do treinador para enfim dar a resposta esperada.

Assim como Dudu, mantido capitão com Cuca. O melhor em campo partindo da esquerda para desarticular o bloqueio adversário. Dois pênaltis sofridos, duas chances desperdiçadas. Mas voltando a desequilibrar. Não é por acaso. Técnico e craque do time construíram uma relação de confiança mútua.

O primeiro tempo deve ser o norte do Vasco para o Brasileiro. Finalizou nove vezes contra seis do Palmeiras. Boa chance com Pikachu em lançamento primoroso de Douglas. Gol perdido pelo jovem volante no erro de Jean na saída de bola. No final da primeira etapa, poderia ter mudado o jogo. O problema é ser competitivo e ter velocidade na transição ofensiva com dois veteranos na frente.

O Palmeiras de Cuca repete os 4 a 0 do ano passado na estreia  – em 2016 a vítima foi o Atlético-PR. O elenco está mais rico, mas desta vez há uma Libertadores para dividir atenções. Ainda assim, o status de favorito se reforça. Pelos méritos e também pela estrela de Cuca, que faz clube e torcida acreditarem mais na própria força.

(Estatísticas: Footstats)


Fluminense mostra com se administra uma vantagem de empate: atacando!
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André Rocha

Abel Braga avisou na coletiva depois da vitória sobre o Goiás pela Copa do Brasil que o seu time não abriria mão de suas características. Natural para quem marcara 51 vezesem 23 partidas antes da semifinal estadual – o ataque mais efetivo do país em 2017.

Mesmo com vantagem do empate pela melhor campanha no Carioca. Apesar do desgaste no meio da semana, enquanto o rival focaria na única competição em que ainda estava envolvido no primeiro semestre.

O Fluminense partiu para o ataque no Maracanã. No 4-3-3 habitual, com toque fácil no meio-campo que ganhou dinamismo com o jovem Wendel se juntando aos equatorianos Sornoza e Orejuela. Mas desequilibra os rivais acelerando pelos flancos com os laterais Lucas e Léo apoiando os ponteiros. Desta vez com Richarlison pela direita e Wellington Silva à esquerda.

A postura ofensiva complicou o Vasco que novamente se posicionou atrás com duas linhas de quatro para deixar Nenê e Luís Fabiano sem funções de marcação. Só que os ponteiros Yago Pikachu e Guilherme Costa, a novidade na vaga de Andrezinho, precisavam voltar muito na recomposição e ainda tinham que ser as referências de velocidade para os contragolpes.

Não funcionou. Melhorou quando a equipe cruzmaltina passou a fazer um jogo mais direto, investindo em ligações diretas e bolas paradas. Assim criou as três melhores chances da primeira etapa, com Gilberto, Nenê e Luís Fabiano.

Escancarando o efeito colateral da vocação ofensiva do Flu: a exposição da última linha da retaguarda, que sofre no combate direto aos atacantes. Também porque tem volume, mas controla pouco o jogo. Terminou o primeiro tempo com 57% de posse, porém muito mais pela iniciativa e a ideia de propor o jogo. Mas sempre com pé no acelerador.

Intensidade fundamental para resolver o jogo na segunda etapa. Assim como na vitória sobre o Goiás, a jogada aérea foi fundamental. No primeiro gol, de Richarlison, que encaminhou a vitória. Ainda mais seguido da expulsão do mais que promissor Douglas Luiz, 18 anos. Envolvido pelo meio do Flu, perdeu a cabeça com sequência de dribles abusados de Wellington.

O árbitro Rodrigo Nunes de Sá exagerou na expulsão, podia ter mostrado o amarelo. Até porque minutos depois Nenê entrou de forma ainda mais truculenta no ponta do Flu e não levou o vermelho.

Mas o Flu nem precisou da vantagem de mais um homem em campo. A disputa se resolveu com o golaço de letra de Wellington, em rara incursão pela direita, após linda jogada de Lucas.

O gol de cabeça de Léo em novo cruzamento na bola parada foi o golpe final no Vasco que mostrou a fragilidade do seu elenco ao buscar a reação com Manga Escobar, mais um ponta que é veloz, mas tem enormes dificuldades nos fundamentos. Ou seja, produz quase nada de útil.

Pior ainda é testemunhar a forma física de Thalles. Chocante ver um atacante promissor tão acima do peso a ponto de ser percebido no visual, de longe.

Ao Vasco resta o Brasileiro. Hoje é difícil vislumbrar aspiração maior que a manutenção na Série A do Brasileiro. Os jogos contra um Fluminense rápido e envolvente deixaram bem nítidas as limitações para uma disputa em alto nível.

O time de Abel é o favorito, pelo desempenho, ao título carioca. Também pela dedicação de Flamengo e Botafogo à Libertadores. Na semifinal, deu uma aula de como administrar uma vantagem de empate: nem pensando nela. Finalizando 16 vezes contra nove do Vasco.

Atacando e impondo seu estilo, sem apego ao resultado. Que sirva de exemplo.

(Estatísticas: Footstats)

 


Vasco cumpre metade da rota para o tri. Não jogar pode ser uma vantagem
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André Rocha

Você leu AQUI que o fato de não estar envolvido em outras competições, embora não fosse o cenário desejado pelo clube, poderia ser um trunfo para o Vasco na reta final do Carioca.

Competição que o clube valoriza na gestão Eurico Miranda, que puxou o tradicional grito de “Casaca!” até na classificação com empate sem gols contra o Flamengo na semifinal do returno. Rubro-negro que jogaria na quarta-feira contra o Atlético Paranaense pela Libertadores.

No Engenhão, a conquista da Taça Rio com a vitória no Engenhão sobre um Botafogo repleto de reservas comandado por um Jair Ventura que voltou da Colômbia para comandar o time e depois partir rumo ao Equador para a sequência do torneio continental, prioridade desde o início da temporada.

Faz diferença o foco total em uma competição. Ainda que seja a menos relevante na hora da avaliação ao fim da temporada. O Vasco de Milton Mendes vai ganhando corpo, com melhor coordenação no trabalho defensivo, aproximando duas linhas de quatro e dando liberdade para Nenê criar e acionar Luis Fabiano. Ou seja, faz o simples.

A cereja do bolo até aqui é o futebol do jovem Douglas Luiz. 18 anos, meio-campista que joga de área a área, autor do primeiro gol. Mesmo não finalizando tão bem, algo para aprimorar no trabalho diário. Ajuda Jean na proteção da defesa, desafoga Nenê e os ponteiros na criação.

Outra promessa da base que pode ser mais aproveitada é Guilherme Costa. Entrou, adicionou habilidade e criação onde Pikachu e Andrezinho pouco acrescentaram. Ainda provocou a expulsão de Marcelo Conceição que ajudou a construir o triunfo consolidado com o primeiro gol de Luis Fabiano com a camisa cruzmaltina, completando passe de Manga Escobar.

A conquista, embora nada signifique em termos esportivos, ajuda financeiramente e transfere confiança para a equipe remodelada pelo novo técnico. Na semifinal que vale, contra o Fluminense, mesmo com o rival levando a vantagem do empate, o Vasco chega mais forte que no final da fase de grupos.

Também porque o tricolor é mais um adversário envolvido em outra competição durante a semana. Pega o Goiás no Maracanã pela Copa do Brasil precisando vencer. Mesmo sem viagem, há a logística, o desgaste, foco no clássico só a partir da quinta-feira, possibilidade de desfalque por lesão. Enquanto o time de Milton Mendes concentra esforços, não dispersa.

O Vasco não é o favorito ao título regional. Nem é absurdo ser considerado, pelo desempenho, a quarta força carioca. Precisa de ajustes e reforços para o Brasileiro. Certamente sua torcida adoraria estar disputando ao menos Sul-Americana e Copa do Brasil.

No Carioca, porém, o contexto favorece. A primeira metade da rota do tri foi cumprida, ganhando taça e moral. Por incrível que pareça, no futebol atual cada vez mais intenso e que exige tanto de corpo e mente, não jogar pode ser uma vantagem.

 


Vasco pode buscar tri carioca no “vácuo” do calendário dos rivais
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André Rocha

A imagem de Milton Mendes gritando e discutindo com Nenê à beira do campo em Moça Bonita na vitória por 2 a 0 sobre o Nova Iguaçu reflete a tensão do treinador que já percebeu que será complicado impor suas ideias, como pressão na saída de bola e muita velocidade na transição ofensiva.

Pelas características e por conta da faixa etária das duas estrelas do elenco, o Vasco tende a ser uma equipe que se recolhe em duas linhas de quatro, deixa Nenê solto circulando atrás de Luís Fabiano. Mas tem soluções interessantes, como Kelvin ou Yago Pikachu fazendo dupla com Gilberto pela direita – ainda que o melhor ponteiro seja o jovem Guilherme Costa, voltando de lesão.

Outro garoto que entrou e tomou conta do meio-campo é Douglas Luiz. Joga de área a área e viabiliza a execução do 4-4-1-1. Até pela presença de Andrezinho, poupado nesta última rodada, como um ponteiro articulador. O Vasco de hoje circula mais a bola que o dos tempos de Jorginho.

Mas ainda depende muito da criatividade e da precisão nos cruzamentos, com bola parada ou rolando, de Nenê. Assistências para Rafael Marques e Pikachu nos gols da vitória. O camisa dez reclama de Douglas, discute com Milton Mendes…mas resolve.

Seja como for, o Vasco pode crescer no Carioca, única competição a disputar até o início do Brasileiro. Buscando um tricampeonato. Importante para o presidente Eurico Miranda, que contratou Milton Mendes exatamente para obter uma resposta rápida do time.

Ainda mais pelo fato dos rivais estarem envolvidos em competições sul-americanas. A semifinal da Taça Rio nada vale objetivamente, mas pode transferir confiança em caso de vitória sobre o Flamengo – ou empate, já que a primeira colocação no grupo deu a vantagem que foi do rival na mesma semifinal da Taça Guanabara. O rubro-negro também terá semana livre, mas com atenções voltadas para o jogo contra o Atlético-PR no dia 12 de abril no Maracanã. Zé Ricardo novamente poupará titulares?

Na outra semifinal, o Botafogo encara um Fluminense que enfrenta na quarta o Liverpool do Uruguai pela Copa Sul-Americana, também no Maracanã. O alvinegro terá semana livre e vantagem do empate. Mas caso chegue à final no dia 16 terá um problema logístico: enfrenta Atlético Nacional e Barcelona de Guayaquil fora de casa na Libertadores nos dias 13 e 20 de abril. Poderia chegar ao Equador com antecedência para se preparar, mas terá que voltar ao Rio. Ou jogar com os reservas que não viajarem e estão inscritos no Carioca.

O título do segundo turno para o Vasco pode ter o simbolismo de uma recuperação na temporada. E ganhar moral para a semifinal da fase final do estadual. O duelo é com o Fluminense, no dia 23. Aí, sim, com o tricolor livre, sem compromissos pela Sul-Americana, já que o jogo de volta é só no dia 10 de maio. Confronto dificílimo, até pela vantagem do empate do Flu em jogo único.

Mas se chegar à decisão contra Flamengo ou Botafogo, nos dias 30 de abril e 7 de maio, novamente terá semanas livres para treinar enquanto o rubro-negro encara o Atlético-PR fora de casa no dia 26 e o Universidad Católica no Rio de Janeiro no dia 3. Já o Botafogo tem confronto com o Barcelona de Guayaquil no dia 2 de maio. Exatamente no meio das finais.

Milton Mendes trabalha para o Vasco evoluir e buscar o tri carioca por seus próprios méritos. Mas no vácuo do calendário dos rivais “continentais” o cruzmaltino pode se fortalecer na disputa pelo título.

 


Para que servem mesmo os estaduais?
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André Rocha

Um dos argumentos em defesa dos estaduais é que dá a chance ao time de menor investimento de receber os grandes em seus estádios, movimentar a cidade e renovar as gerações de torcedores locais.

O Linense, com problemas no “Gilbertão”, aceitou jogar as duas partidas das quartas de final contra o São Paulo no Morumbi para faturar com a divisão da renda líquida das duas partidas. Também pensando no segundo semestre sem a certeza de ter uma competição para disputar.

Fruto exatamente da nossa estrutura federativa que incha os torneios regionais e não se preocupa em permitir que todos os clubes tenham uma divisão a disputar, ainda que regionalizada numa fase inicial.

Uma escolha que abre um precedente perigoso. Se o jogo tiver apelo para o grande e certeza de estádio cheio, o clube de menor investimento pode fazer barganha com algo que faz parte da essência da competição:  a chance de vencer em seus domínios.

Outro argumento para a manutenção desse elefante branco no calendário nacional é a emoção dos clássicos, reforçando as rivalidades e garantindo confrontos que podem não acontecer nos campeonatos nacionais.

Pois o esdrúxulo regulamento do Carioca pode fazer com que as semifinais da Taça Rio signifiquem absolutamente nada para os clubes, sem influenciar na classificação final que define os semifinalistas do campeonato. Basta que Vasco e Botafogo confirmem suas vagas no fim de semana. Inclusive a ordem das equipes não seria alterada.

Isso sem contar o absurdo do Fluminense vencer também o segundo turno e não ser declarado o campeão. O tricolor já declarou que a Copa Sul-Americana é prioridade, Flamengo e Botafogo estão envolvidos com Libertadores e o Vasco só não tem outra competição para dar mais importância porque foi eliminado da Copa do Brasil pelo Vitória. Só resta a busca do tricampeonato como prêmio de consolação.

Em 2017 o estadual não tem servido nem para dar uma ilusão de força ao time grande rebaixado à Série B. O Internacional conseguiu a “proeza” de se classificar em sétimo na primeira fase do campeonato gaúcho.

Pode até conquistar o hepta no mata-mata, até porque o Grêmio prioriza a Libertadores, mas a equipe de Antonio Carlos Zago comandada em campo por D’Alessandro não transmite a mínima confiança para seu torcedor. Nem forçando muito a barra dá para se enganar.

Para que servem mesmo os estaduais?