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Taça Guanabara não pode ser ilusão mais uma vez para o Flamengo
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André Rocha

Foram 33 cruzamentos em 90 minutos, mais os acréscimos. No vigésimo sétimo, o centro de Diego para Rever tocar e Kadu fazer contra. O gol para descomplicar um jogo em que o Boavista negou espaços com duas linhas de quatro  – Fellype Gabriel e Erick Flores voltando pelos lados com Pará e Renê.

O problema do Flamengo novamente foi a falta de jogadas mais criativas. Infiltrações em diagonal, tabelas por dentro. Difícil surpreender o adversário. Muito por causa de Diego. Parece perseguição, mas não é o caso. Inegável a importância do camisa dez pela liderança positiva, pela entrega absoluta, a concentração para auxiliar sem a bola na execução do 4-1-4-1. Em especial, a técnica nos cruzamentos e chutes, com bola rolando ou parada.

Mas repare que sempre que Diego recebe a bola e alguém se projeta para a jogada que vai furar as linhas de marcação o meia hesita. Domina, gira, dá mais um toque. Tempo suficiente para a marcação adversária se armar e só restar duas jogadas: abrir para um companheiro levantar a bola na área ou ele mesmo cruzar.

Para um time que planeja se instalar no campo de ataque e trabalhar a bola – terminou com 61,5% de posse – essa lentidão na circulação da bola na zona de decisão ou último terço atrapalha a criação de espaços. Não é o caso de barrar o camisa dez, mas tentar orientá-lo a soltar a bola mais rapidamente. Pode ajudá-lo, inclusive, na dura concorrência por uma vaga entre os 23 de Tite para a Copa do Mundo.

Em Cariacica, a tarde infeliz de Henrique Dourado até em jogadas simples complicou ainda mais. Mas pela disparidade entre as equipes , o time de Paulo César Carpegiani finalizou 20 vezes, cinco no alvo contra nenhuma do Boavista na direção da meta de César em um total de nove.

Com Rodinei e Vinícius Júnior, o time rubro-negro buscou mais o fundo na segunda etapa, ganhou velocidade pela direita e habilidade no um contra um do lado oposto. Com o cansaço do adversário a reta final foi de domínio absoluto e o segundo gol que definiu a conquista do primeiro turno do Carioca no lançamento de Everton Ribeiro que Vinícius Júnior raspou para tirar do goleiro Rafael.

21º título da Taça Guanabara e vaga garantida no quadrangular final do estadual. Mas não pode mais uma vez iludir pensando nas ambições do clube para a temporada, a começar pela disputa dura já na fase de grupos da Libertadores. Para a proposta de jogo de Carpegiani, nitidamente insatisfeito à beira do campo, há muito a evoluir. Na lógica do futebol brasileiro, os resultados ao menos ajudam a aumentar a confiança. Mas não bastam.

(Estatísticas: Footstats)

 


Sai Vizeu e chega Dourado no Flamengo. Afinal, a base é só para vender?
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André Rocha

Este blogueiro se lembra de ver Romário surgindo no Vasco em 1984 e Djalminha no Flamengo em 1990 nas preliminares do Maracanã. Era visível a ansiedade doa torcedores para vê-los nos profissionais e imaginando trajetórias de sucessos nos clubes. Um estreou nos profissionais em 1985 e foi negociado com o PSV em 1988, o outro subiu depois de ser o craque da Copa SP de 1990 e foi saído da Gávea em 1993.

Dois casos com desfechos bem diferentes, mas que em comum entregaram três anos de futebol no profissional a quem o revelou. Saíram, mas ao menos permitiram que o apaixonado pelo clube sonhasse com a possibilidade de construir uma história, mesmo não tão longa.

Hoje esse sonho é ilusão. O garoto surge antes mesmo do sub-20 já com a obsessão de jogar no exterior, os clubes europeus monitoram e contratam na primeira oportunidade. A única chance que resta é o comprador permitir que fique um tempo para ganhar cancha e minutos entre os adultos.

É o que acontece com Vinícius Júnior no Flamengo. Negociado com o Real Madrid e motivo de orgulho para os dirigentes porque o valor que receberam bancaria o orçamento das divisões de base por anos. Mas e o retorno técnico tão curto, com o jogador saindo aos 18 anos?

Ninguém calcula. E acha natural que agora o Flamengo negocie o atacante Vizeu, 20 anos, com a Udinese e contrate o rodado Henrique Dourado, 28, para a mesma função.

Sim, há um cálculo compreensível nesta combinação. Até junho o elenco terá Vizeu e Dourado, além do garoto Lincoln, como centroavantes e depois Paolo Guerrero, caso renove o contrato que vai até agosto, retorna de suspensão no lugar do atleta negociado que parte para a Itália.

Mas não parece loucura o clube vender o jovem promissor para trazer um jogador mais velho que pelas oscilações na carreira não passa de uma grande incógnita? É uma inversão de valores ou este que escreve quer uma utopia?

É óbvio que existe a possibilidade de Vizeu bater, voltar e não vingar como jogador em alto nível e o “Ceifador” empilhar gols e ganhar títulos no novo clube. No futebol tudo pode. Mas cabe a reflexão sobre as divisões de base: é só formar para vender mesmo? Tipo exportação e cada vez mais cedo?

O Santos resistiu com Neymar. Surgiu em 2009, partiu para Barcelona quatro anos depois deixando uma Copa do Brasil e a terceira Libertadores na sala de troféus. Se a negociação não deu o retorno esperado por questões legais, ao menos em campo a resposta foi ótima. Vizeu não é Neymar, talvez nem Vinicius Jr. chegue ao mesmo patamar, mas a lógica teria que ser a mesma.

Se a vontade do jogador tem que prevalecer, por que não buscar um plano de carreira que convença o garoto a ficar mais um pouco? Ou falta vontade para alimentar a criatividade e o único alvo são as cifras?

O futebol evolui e se torna mais complexo em todos os seus aspectos, mas essa nova ordem nacional de vender o jovem para contratar o experiente sempre vai soar muito estranha. Um paradoxo. Desta vez foi o Flamengo. Quem será o próximo?

 


Vitórias com a garotada dão respaldo ao trabalho correto do Flamengo
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André Rocha

Foto: Antônio Scorza/Agência O Globo

Não há como garantir uma temporada bem sucedida do Flamengo em 2018. É até provável que com Paulo César Carpegiani no comando o time titular siga com as mesmas dificuldades do ano passado. Principalmente por ter um grupo de jogadores para privilegiar o jogo mais direto, de contragolpes, e não dentro da proposta do clube de propor o jogo no campo de ataque com posse de bola.

Mas uma coisa é inegável: o início de temporada é correto no planejamento e tem conseguido um saldo positivo na execução. O elenco voltou às atividades no dia 13 de janeiro com estreia no Carioca marcada para o dia 17.

A solução foi utilizar a garotada sub-20 e aos poucos inserir os profissionais já dando minutos em ritmo de competição. Uma escolha arriscada pelo resultadismo característico do nosso futebol, ainda mais com a urgência da maior torcida do país e a repercussão de tudo que acontece na Gávea e no Ninho do Urubu. O São Paulo estreou com derrota poupando os titulares e a pressão começou cedo.

Mas os meninos responderam bem, em desempenho e resultado. Na Copa São Paulo, chegando à final contra o São paulo, e nos primeiros jogos do estadual. Três vitórias, quatro gols marcados e nenhum sofrido. Ainda que Volta Redonda, Cabofriense e Bangu não sejam parâmetro de avaliação, ser testado com visibilidade dá “casca” aos garotos.

Também aumentaram a confiança de Vinicius Júnior. Já com cinco gols no profissional ao ir às redes diante da Cabofriense, novamente na Arena da Ilha. A joia do Real Madrid ainda a serviço do Fla também serviu Lincoln no gol da vitória sobre o Bangu após bela jogada individual. Na partida que marcou o retorno do jovem de maior destaque em 2017: Lucas Paquetá.

Léo Duarte voltou muito bem na zaga, Jean Lucas vai ganhando cancha, Ronaldo retornou com o espaço que tanto pediu antes de partir para o Atlético-GO. E ainda Lucas Silva, Vítor Gabriel, Klébinho, Thuler, o goleiro Gabriel Batista…Todos aproveitando o estadual para consolidar um dos momentos decisivos na carreira de qualquer jogador: a transição da base para o profissional.

A grande questão a resolver é que os garotos, por características, também precisam de espaço para acelerar, não trabalham com toques rápidos e deslocamentos para abrir defesas mais fechadas. Algo a ser trabalhado por titulares e reservas, já que o time, em qualquer competição, entrará com a responsabilidade de atacar na maioria das partidas.

A boa notícia para Carpegiani é que o treinador ganha opções. Se o titular não corresponder já terá um jovem menos verde para lançar num jogo maior, em um momento mais importante da temporada. O torcedor conhece, sabe o que esperar. A “grife” sem desempenho ganha uma sombra real que pode minimizar a ida do clube mais tímida ao mercado até aqui.

Como deve ser. Como é tradição nos momentos mais vencedores do Flamengo. As vitórias dão respaldo ao técnico, aos meninos e tranquilidade aos titulares na volta, já pensando em Libertadores. Não assegura o sucesso, mas já é um bom início.

 


Palmeiras e Flamengo, decepções em 2017 com caminhos opostos no novo ano
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André Rocha

Para o tamanho do investimento e a expectativa gerada, Palmeiras e Flamengo tiveram desempenho e resultados decepcionantes em 2017. Por mais que se compreenda que não basta ter dinheiro para construir um bom time de futebol, em nenhum momento as equipes apresentaram rendimento que as colocassem como favoritas na prática aos títulos que disputaram. Especialmente a Libertadores, tratada como prioridade. Apesar do vice brasileiro do alviverde e da Copa do Brasil pelos rubro-negros.

Portanto, o fim da temporada deveria servir para reflexões e ajustes na rota para o novo ano. Por força das circunstâncias, os clubes acabaram tomando caminhos opostos.

O Palmeiras agiu rápido. Manteve o interino Alberto Valentim até o fim da competição nacional, mas, antes disto, anunciou Roger Machado como treinador e começou o planejamento. Desta vez sem loucuras. Manutenção da base e reforços nas carências detectadas: laterais com Marcos Rocha e Diogo Barbosa e articulação com Lucas Lima.

O elenco ainda não se apresentou, mas é possível vislumbrar, dentro da visão do novo comandante, o Palmeiras num 4-2-3-1 com um meio-campista fazendo o lado direito da linha de meias. Como Giuliano no Grêmio e Elias no Atlético Mineiro. Para este que escreve Tchê Tchê seria interessante, por já ter atuado na lateral e a possibilidade de formar boa dupla com Marcos Rocha.

Do lado oposto, Dudu seria o ponteiro mais vertical, buscando as infiltrações em diagonal para se aproximar do centroavante que pode ser Borja, até porque todo treinador que chega fica tentado a buscar uma solução para a contratação milionária que não vingou antes dele. Deyverson e Willian seriam opções.

Na zaga quem estiver melhor faz dupla com Mina, ao menos até o meio do ano. Na frente da defesa, Moisés deve ser recuado para que Lucas Lima atue na função em que se sente mais confortável. Mais fixo na proteção, Felipe Melo e Bruno Henrique devem disputar a titularidade em uma proposta baseada em protagonismo pela posse de bola, setores próximos e movimentação ofensiva.

Tudo ainda numa análise baseada em hipóteses, mas que já deixa claro que o time paulista pode até não conseguir resultados melhores e as conquistas esperadas. Desta vez, porém, o trabalho foi feito de forma mais racional e o grupo de jogadores parece mais homogêneo. Inclusive com as chegadas de Weverton e Emerson Santos. A melhor notícia é ter praticamente tudo definido na reapresentação.

Eis o dilema do Flamengo, que fechou 2017 em 13 de dezembro, perdendo a final da Copa Sul-Americana. Desde então convive desconfortavelmente com a indefinição do treinador Reinaldo Rueda, que ainda não confirmou se fica no clube em meio a sondagens e propostas de clubes e seleções sul-americanas.

Rueda tem o direito de resolver seu futuro com calma, mesmo com contrato em vigor. O problema mais grave é a insegurança da direção do clube no momento de contratar ou dispensar. Pode perder o timing na ida ao mercado.

Ainda que a base seja mantida, por convicção ou necessidade. A informação oficial é de que, no momento, só há cinco milhões de reais disponíveis para contratações. Os nomes de Zeca e Pablo surgem no noticiário como bem encaminhados, mas tudo parece em suspenso.

É possível pensar numa estrutura com Diego Alves na meta, Réver e Juan na zaga, Cuéllar no meio-campo, as incógnitas Diego Ribas e Everton Ribeiro na articulação, Lucas Paquetá e Vinícius Júnior pedindo passagem nas pontas do 4-2-3-1 e outra grande questão: quando Paolo Guerrero poderá retornar ao time? Sem ele, suspenso por doping até maio, Filipe Vizeu e Lincoln parecem verdes para assumir a responsabilidade no ataque.

Ainda assim, segue como um time que pode ser forte com Rueda ou outro treinador que consiga combinar melhor as características dos jogadores e fazer o time deixar de ser dependente das jogadas pelos flancos e dos muitos cruzamentos. É preciso sair do dilema de se obrigar a propor o jogo como filosofia – pela tradição do clube, exigência da torcida e por conta do investimento realizado – e ter atletas com estilo mais reativo, que necessitam do espaço para criar. A impressão é de que o Fla precisa de ruptura, um giro de 180 graus, e Rueda tem um estilo mais administrador, que faz ajustes sem alterar o modelo de jogo.

Em meio aos altos e baixos naturais no calendário brasileiro, ainda mais com uma Copa do Mundo no meio, trabalhar certo em janeiro não garante felicidade em dezembro, mas ajuda bastante. O Palmeiras sai na frente com inteligência e agilidade. Perder tempo era tudo que o Flamengo não precisava para começar 2018.

 


O que falta ao Flamengo para vencer além das fronteiras do Rio de Janeiro
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André Rocha

Mais uma vez em 2017 o Flamengo deixou uma vitória escapar por pequenos detalhes que fazem diferença, especialmente numa decisão.

Seja o problema crônico de não ter um jogo coletivo bem elaborado, com triangulações, ultrapassagens, trabalho de pivô…O time, com Zé Ricardo ou Rueda, vive fundamentalmente das jogadas aéreas. Com bola parada ou rolando. Foi assim com Réver em Avellaneda e de novo com Lucas Paquetá depois de uma cobrança de falta de Diego. Mais um gol do jovem atacante em decisão, assim como foi na ida contra o Cruzeiro na Copa do Brasil.

O “arame liso” também se fez presente no Maracanã. 56% de posse, 18 finalizações. Mas só três no alvo. Exatamente porque o time não cria a jogada surpreendente que facilita a vida de quem vai concluir. E quando Everton apareceu na frente de Campaña o chute não foi preciso. Numa final o time que precisa finalizar, em média, oito vezes para ir às redes vai sofrer mais. Cerca, mas para furar é difícil.

Com tantas dificuldades para ser contundente na frente, as falhas defensivas costumam custar caro. O pênalti de Cuéllar sobre Meza que Barco converteu para empatar e garantir o 17º título internacional do “Rei de Copas” foi um tanto duvidoso, mas não resta dúvida que o volante colombiano foi imprudente na disputa. Podia ter sido pior, se Juan não tivesse salvado falha grotesca de Réver que terminou na cavadinha de Gigliotti e o salto espetacular do zagueiro veterano.

O mais do mesmo seguiu com a falta de criatividade de Diego. O camisa dez não dá fluência às jogadas, sequer arrisca um passe rápido e vertical que fura a defesa, mesmo quando os companheiros dão opção. Só aparece na bola parada. E não tem a leitura para perceber que seria mais útil entrando na área para finalizar. Recua, prende a bola, atrasa a transição ofensiva e quase sempre toca de lado, para os laterais levantarem na área adversária. Um elo fraco rubro-negro ao longo da temporada. Impressiona como ainda tem o nome aventado para a lista final de Tite para a Copa do Mundo na Rússia.

O Fla do elenco milionário e experiente nos últimos minutos dependeu de Vinicius Júnior, Paquetá, Vizeu e Lincoln. Com Everton Ribeiro, principal contratação para a temporada, se arrastando e errando jogadas primárias. Uma prova de que a ida ao mercado não foi das mais felizes. O departamento de futebol segue devendo.

O Independiente foi melhor coletivamente nos 180 minutos e a mentalidade vencedora ajudou a construir os 3 a 2 agregado que garantiu o segundo troféu do torneio continental. Para o Flamengo restou novamente a frustração. Termina o ano apenas com a conquista do Carioca. Simbólico para mostrar que a reestruturação financeira e o maior poder de investimento não mudaram o patamar nos cenários nacional e internacional. O clube segue como o maior vencedor no estado, na competição menos relevante na temporada. E só.

Falta dar o salto de competitividade em alto nível. Ser forte e vencedor além das fronteiras do Rio de Janeiro deve ser a prioridade para 2018. A começar por priorizar a Libertadores e deixar um pouco de lado o campeonato tão valorizado em abril, maio…e esquecido no final da temporada. O ano foi de fracassos. Não tapar o sol com a peneira é um bom primeiro passo.

(Estatísticas: Footstats)


No Fla-Flu insano e continental, segue o mais forte nos clássicos cariocas
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André Rocha

O Fluminense se impôs no início com uma mudança tática que confundiu a marcação do rival: Marcos Júnior formando dupla de ataque com Henrique Dourado num 4-3-1-2 com Gustavo Scarpa centralizado. Por isso Trauco largou o seu setor para disputar com o meia tricolor e Lucas apareceu livre para abrir o placar.

Diego cumpriu sua melhor atuação com a camisa do Flamengo. Nem tanto pelo belo gol de falta que empatou o jogo pela primeira vez, mas pela movimentação mais inteligente, alguns toques de primeiro. Principalmente pela intensidade que colocou em cada lance.

Conduziu um time aguerrido como só se vê em clássicos estaduais. Principalmente os de caráter decisivo. Ainda mais em uma competição internacional. Mesmo quando Renato Chaves aproveitou vacilos de Filipe Vizeu e Willian Arão, um em cada tempo, para construir em cabeçadas uma vantagem de 3 a 1 difícil para um time que é pouco contundente – ou “arame liso” – e sem grande poder de reação (“pecho frio”) conseguir reverter.

Mas não num Fla-Flu. Assim foi na final da Taça Guanabara, perdida nos pênaltis muito pelo “fator Muralha”. De novo um 3 a 3. Outro jogo doido, um tanto aleatório. Reação que começou a ser gestada na entrada de Vinicius Júnior na vaga de Trauco. Everton foi para a lateral esquerda e a joia que fez o Real Madrid encher os cofres rubro-negros iniciou pela esquerda a jogada do gol de Vizeu, com bela assistência de calcanhar de Everton Ribeiro.

O suficiente para preocupar a empolgada torcida tricolor e reanimar a do Fla no Maracanã. Reinaldo Rueda colocou Paquetá na vaga de Cuéllar, que desta vez não foi bem. Vinicius Júnior foi para a ponta direita, Everton Ribeiro centralizou se juntando a Diego, Arão ficou na proteção à defesa que tinha Rafael Vaz no lugar de Juan, lesionado, e Paquetá se posicionou pela esquerda, mas abrindo todo o corredor para Everton. Nada muito organizado, mas com uma fibra que contagiou os torcedores.

Até a redenção de Arão. Um jogador que muitas vezes peca por dispersão e baixa intensidade, mas com presença de área importante para decretar os 3 a 3 que o Flu de Abel Braga não teve forças para mudar a história de mais uma eliminação em competições sul-americanas. Elenco jovem e limitado. Com Romarinho, Wendel e Pedro nas vagas de Marcos Júnior, Sornoza e Douglas, só restou a luta.

Pouco diante da experiência dos rubro-negros, que ganharam o tempo que puderam, especialmente Diego Alves. No último lance, Diego deixou de consagrar sua boa atuação completando em cima do xará Cavalieri bela assistência de Vinicius Júnior. O personagem a incendiar e mudar o Fla-Flu.

Que o Flamengo aprenda a repetir em duelos interestaduais no Brasileiro e internacionais na Sul-Americana, a partir da semifinal diante do Junior Barranquilla, a coragem, a entrega e a força mental que apresentou no clássico estadual. Deixar para trás de vez esse provincianismo de fazer questão de se impor apenas contra os rivais locais. Campeão carioca invicto, sem perder com os titulares em todas as competições, eliminando o Botafogo na semifinal da Copa do Brasil.

Algo que faz parte da cultura do futebol e que carrega o seu prazer e orgulho. Mas é pouco para o tamanho do investimento do clube e da paixão de sua gente.


Everton Ribeiro é o ponta articulador que o Flamengo procurava
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André Rocha

Foto: Divulgação Flamengo

“Pensando até no time em que atua nos Emirados Árabes (Al Ahli), ele pode atuar nas três posições atrás do centroavante num 4-2-3-1. Ou mesmo num 4-1-4-1, até porque ele foi lateral quando surgiu na base do Corinthians”.

Palavras do treinador Zé Ricardo em entrevista a este blog quando perguntado sobre Everton Ribeiro. O questionamento não foi gratuito. O interesse do Flamengo já era público e havia a informação da negociação bem encaminhada por conta da então iminente venda de Vinícius Júnior para o Real Madrid. Ele só não veio antes porque não havia os recursos para gerar a proposta que convenceu os árabes – seis milhões de euros, cerca de 22 milhões de reais.

Anúncio oficial realizado, apresentação marcada para esta terça-feira, a questão agora é como encaixá-lo na equipe rubro-negra. Everton chega para preencher uma lacuna dentro da proposta de jogo de Zé Ricardo: o ponta articulador, ou o meia que joga aberto e parte do flanco para ajudar na armação das jogadas e criar superioridade numérica no meio-campo, circulando às costas dos volantes adversários.

Zé Ricardo tentou Alan Patrick, depois Mancuello. Sem sucesso, por isso a insistência com os pontas velocistas. Com a vinda de Conca, planejava um teste na função com Diego. Ambos já atuaram como meias pelos lados em outros clubes – o argentino no Fluminense em 2014 e o brasileiro no mesmo ano com Simeone pelo Atlético de Madri. Mas seria uma experiência com jogadores que nunca passaram uma temporada inteira desempenhando a função.

Everton Ribeiro foi o melhor jogador das edições 2013 e 2014 da Série A do Brasileiro pelo Cruzeiro atuando pela direita. Uma jogada forte do time mineiro era o movimento do meia para dentro, abrindo o corredor para a passagem em velocidade do jovem lateral Mayke. No Flamengo é possível até imaginar, por características, Rodinei fazendo essa combinação melhor que Pará, por ser mais rápido.

Everton Ribeiro em ação no Cruzeiro bicampeão brasileiro 2013/2014: meia aberto pela direita, cortando para dentro com o pé canhoto e abrindo o corredor para a passagem do jovem e rápido lateral Mayke (flagrante Sportv)

O mais provável é Everton formar o trio de meias atrás de Guerrero com Diego centralizado e o garoto Vinicius Júnior pela esquerda. A jóia das divisões de base vem mostrando maturidade, desenvoltura e ganhando minutos. Mesmo tão jovem, é disparado no elenco o mais próximo do ponteiro desejado: driblador e que busca a diagonal para finalizar.

A tendência é virar titular em breve, até pela exigência do Real Madrid de vê-lo em campo para chegar pronto na Espanha no ano que vem ou em 2019. A menos que Geuvânio seja mesmo contratado e se firme entre os titulares de imediato. Uma hipótese, por enquanto.

Everton Ribeiro deve atuar aberto pela direita num 4-2-3-1, usando seu pé canhoto para articular as jogadas com Diego e alimentar Guerrero. Do lado oposto, Vinicius Júnior seria o ponteiro das infiltrações em diagonal (Tactical Pad).

Mas Zé Ricardo, como ele mesmo afirmou, também pode encaixar Conca neste trio de meias, ainda que perca uma opção de velocidade, ou até mesmo em uma proposta ousada, mantendo Vinicius Júnior ou outro ponteiro e atuando num 4-1-4-1.

Improvável, até pela explicação do treinador quando já vislumbrava a equipe com Conca e Diego: um volante ficaria mais fixo na proteção da retaguarda e o outro sairia para um trabalho com o lateral pelo flanco, compensando a menor contribuição defensiva do meia criativo. Com apenas um volante poderia expor demais a última linha de defesa. Talvez uma alternativa para algumas partidas, dependendo da necessidade. Tudo vai depender da forma física dos atletas.

Um ofensivo 4-1-4-1 com Everton, Diego, Conca e Vinicius atrás de Guerrero. Uma alternativa para alguns jogos, por necessidade (Tactical Pad).

Eis o paradoxo que vive o comandante rubro-negro: a cobrança por resultados imediatos e a esperança do melhor cenário um pouco mais à frente: os três meias criativos em forma e a revelação do clube mais pronta para brilhar.

O Flamengo tem seis pontos na Série A, na segunda página da tabela, a quatro pontos dos líderes Chapecoense e Corinthians. Encara duas partidas fora de casa contra adversários próximos da zona de rebaixamento: Sport e Avaí. Há a chance de se recuperar na tabela com, no mínimo, quatro pontos. Mas duas derrotas podem desencadear uma crise que prejudicaria muito a sequência do trabalho.

Para complicar, junho é o mês das rodadas a cada três dias. Menos tempo para treinamentos e a necessidade de ajustar o time nas partidas de um campeonato mais que equilibrado. Um desafio, sem dúvida.

A boa notícia para Zé Ricardo é que ganha a peça que tanto queria. No setor ofensivo, ele nunca teve tanto talento à disposição.


Pelas circunstâncias, Botafogo ganha um ponto contra Flamengo “arame liso”
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André Rocha

A intensidade do Botafogo no primeiro tempo em Volta Redonda parecia uma clara tentativa de buscar o gol no início, aproveitando um Flamengo improvisado e com mais qualidade no banco que em campo, para depois administrar a vantagem dosando as energias e compensando o desgaste de viagem e jogo eliminatório no meio de semana pela Copa do Brasil.

Mesmo sem Camilo, Jair Ventura manteve a estrutura tática e a ideia de jogo com João Paulo mais adiantado e Matheus Fernandes no meio-campo. A equipe dobrava e pressionava a marcação pelos flancos e saía em velocidade.

O Flamengo sofria com Willian Arão totalmente perdido atuando aberto pela direita e Cuéllar responsável pela saída de bola com os zagueiros – Juan na vaga de Rafael Vaz – errando passes. Só melhorou um pouco a fluência quando Ederson, o meia central do 4-2-3-1, procurou o lado direito e deu opções de passe.

Muito pouco em um primeiro tempo muito fraco e contaminado pela rivalidade nada saudável fora de campo entre os clubes. O time alvinegro foi recuando as linhas, até por conta das lesões de Victor Luís e Aírton em lances com Arão, mas sem maldade do rubro-negro na do volante, bem mais séria. Entraram Gilson e Dudu Cearense, atrapalhando os planos do treinador.

Estava claro que o segundo tempo seria complicado para o Bota. E foi. O time foi definhando fisicamente com o calor e um Flamengo que ganhou qualidade e intensidade com Diego e Vinicius Jr. nas vagas de Cuéllar e Ederson. Arão, o pior do primeiro tempo, melhorou um pouco voltando à sua função no meio.

No entanto, os comandados de Zé Ricardo esbarraram em um velho problema: a dificuldade em transformar oportunidades em gols. Guerrero duas vezes e Everton perderam chances cristalinas. Vinicius Júnior acertou o travessão em bela conclusão. Foram 17 finalizações rubro-negras, mas apenas três no alvo.

O Bota concluiu quatro, uma na direção da meta de Muralha. E podia ter saído com a vitória se Roger não perdesse gol feito. No final, o time “cascudo” fez tudo para ganhar tempo e conter a pressão do rival que foi para o abafa no final com Leandro Damião na vaga de Arão. Pelas circunstâncias, ponto ganho no Raulino de Oliveira.

O Flamengo tem lastro de evolução com Diego recuperando ritmo de competição e Vinicius Júnior ainda mais confiante – teve sua melhor atuação entre os profissionais. Ainda tem Conca para estrear e as peças que podem chegar. Mas é urgente ser mais eficiente e contundente no ataque.

Porque time “arame liso”, que cerca mas não fura, não pontua. Uma invencibilidade de três empates em quatro partidas é prejuízo.

(Estatísticas: Footstats)


Vinícius Júnior não pode ser Neymar. Porque Santos não é Flamengo
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André Rocha

Quando o Flamengo foi eliminado pelo Corinthians nas quartas-de-final da Copa SP – com Vinicius Júnior, joia da base e destaque do time nas fases anteriores, desperdiçando duas chances claras – este que escreve viu no Twitter comentários nesta linha: “Fomos enganados pelo novo Negueba”.

Também foi possível pescar na rua a seguinte observação de um senhor, na casa dos 50 anos: “O garoto até que é habilidoso, mas nunca será um Adílio”.

Vinicius Júnior tem 16 anos, foi artilheiro e craque do Sul-Americano sub-17. Entre os profissionais que trabalham com base – treinadores, auxiliares, observadores, jornalistas – é praticamente uma unanimidade: o menino é um fenômeno, com potencial para no futuro concorrer aos principais prêmios individuais. Não por acaso, Barcelona, Real Madrid e outros gigantes europeus estão atentos aos seus movimentos.

Em campo, a qualidade e versatilidade saltam aos olhos: o menino rende nas pontas, na articulação e até jogando como referência. É habilidoso, inventivo, preciso nos fundamentos e tem leitura de jogo. Serve tão bem quanto finaliza. Forte também na bola parada.

Por isso já desperta uma enorme curiosidade e, por conta da carência de um talento deste quilate no ataque do time principal, especialmente nas pontas, já há um lobby pela utilização do atacante pelo técnico Zé Ricardo.

O Flamengo trata com cuidado. Vinicius não está inscrito nem no Estadual, nem na fase de grupos da Libertadores. Mas o clube também vive um dilema: tem contrato até 2019, tenta prorrogá-lo por mais um ano, mas se demorar muito a utilizá-lo pode vê-lo partir sem entregar todo seu talento entre os adultos.

A grande questão é que o rubro-negro tem certas particularidades: a primeira é contar com a maior torcida do país e tudo que acontece de bom e ruim ganhar uma repercussão imensa. E dentro do imediatismo do nosso futebol, a urgência é amplificada também. Com toda essa expectativa, qualquer jovem talentoso pode ser execrado se errar em um jogo importante. E o erro é parte do processo de amadurecimento.

Por outro lado, se entrar brilhando a euforia pode deslumbrar, desviar o foco. O assédio aumenta exponencialmente e pode distrair até a boa cabeça que Vinicius demonstra ter. É preciso cuidado.

E lembrar que até o maior ídolo do clube não se afirmou imediatamente. Zico estreou no profissional em 1971, com 18 anos, voltou à base e só foi se consolidar aos 21 anos, ganhando o Carioca e sendo Bola de Ouro da Placar. A geração mais vencedora do clube, sem querer, também cria dificuldades.

Porque o Flamengo segue à espera do novo messias que conduzirá o time novamente ao titulo da Libertadores e à hegemonia nacional. Todo garoto que surge é comparado a Zico, Junior, Leandro, Andrade e Adílio. Como Vinicius pelo senhor que ouvi na rua. Essa nostalgia, essa régua tão alta na exigência já custou a carreira de muita gente boa formada na Gávea. Inclusive Negueba, citado no início deste texto. De “alegria nas pernas” a “peladeiro”.

As comparações são inevitáveis também entre Vinícius Júnior e Neymar, que coloca o “Jr.” na camisa e inspirou o menino a fazer o mesmo. Alguns até avaliam o rubro-negro acima do santista, na mesma idade, em capacidade de desequilibrar.

Só que Neymar surgiu inserido em outro contexto. O Santos reverencia Pelé, campeão mundial aos 17 anos pela seleção e multicampeão pelo clube, mas sem tanto saudosismo. Porque existiu a geração de Pita e Juary, a de Diego e Robinho e em 2010 explodiu a de Neymar e Ganso. Com Robinho, que poderia ser um parâmetro de comparação, de volta a Santos e aceitando ser coadjuvante, no campo, das duas jovens estrelas nas conquistas da Copa do Brasil e do Paulista.

A repercussão é diferente, a cobrança também. Por ter dado certo outras vezes, quando surge um garoto talentoso ele ganha carinho e confiança para se desenvolver. Está no DNA do alvinegro praiano o apoio aos “Meninos da Vila”. Se errar a crítica virá, mas não tão pesada. Sem massacre.

Por isso Vinícius Júnior pode conquistar na próxima década os prêmios que hoje Messi e Cristiano Ronaldo negam a Neymar e a qualquer terráqueo que jogue futebol. Mas certamente construirá sua trajetória de maneira bem diferente do atual camisa onze do Barcelona.

Porque Santos e Flamengo são gigantes vencedores do Brasil, mas têm diferenças cruciais. Na história, na quantidade de gente envolvida em suas coisas. Especialmente no trato com os garotos. Por isso a cautela com Vinícius precisa ser triplicada. Até excessiva. Para evitar um novo erro que seria cruel para o clube e para o futebol brasileiro.


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