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A falácia de que Diego é o meia criativo do Flamengo
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André Rocha

Diego Ribas chegou ao Flamengo em julho do ano passado. Recebido com festa no aeroporto, alcançou rapidamente a condição de ídolo com gol na estreia contra o Grêmio, mais cinco bolas nas redes adversárias, três passes para gols e participação importante na campanha que levou o time ao terceiro lugar, disputando o topo da tabela em bola parte do Brasileiro.

Com a camisa dez na Libertadores, foi fundamental nas duas vitórias em casa, contra San Lorenzo e Atlético-PR, e fez muita falta no fatídico jogo da eliminação no Nuevo Gasometro. Quando se lesionou era considerado o melhor jogador do torneio continental. No seu retorno de lesão, continua contribuindo com liderança positiva e técnica nas conclusões e nas bolas paradas em uma equipe que peca pela pouca contundência.

Desde que surgiu no Santos, Diego é um meia habilidoso e bom finalizador. Já foi criativo também, mas agora dentro de um cenário de jogo mais intenso, com pressão constante sobre quem tem a bola, linhas compactas e marcação por zona na maior parte do tempo, vem enfrentando problemas.

Porque tem o hábito de dominar, girar, dar mais um toque e só depois tomar a decisão do que fazer com a bola. Normalmente gasta segundos preciosos para a fluência do jogo. Por isso perdeu espaço na Europa e acabou retornando. Mas mesmo por aqui, com a evolução tática gradual, especialmente no trabalho sem a bola, ele sofre na construção de jogadas.

Compensa com experiência, muita preparação física e mental, entrega absoluta e inteligência para procurar os flancos e fugir do bloqueio mais forte. Ainda assim, são raros os passes de primeira. Mais ainda as bolas que os portugueses costumam chamar de “passes de morte”. Ou seja, aqueles que furam as linhas de marcação e encontram os companheiros nas melhores condições para finalizar.

Como Scarpa achou Wendel no gol que abriu o placar do Fla-Flu e na enfiada para Richarlison infiltrar e sofrer pênalti de Juan nos 2 a 2 no Maracanã. Diego foi às redes em um gol de “abafa”, com Everton impedido na origem do lance. Nos acréscimos, Trauco empatou em chute forte que contou com uma irregularidade no gramado para sair do alcance do goleiro Julio César.

Dentro das propostas de jogo, o Fluminense foi superior. Porque joga mais fácil e o Fla faz muita força para atacar. Normalmente a bola gira, roda de um lado para o outro até encontrar espaço num flanco para fazer o cruzamento. Um estilo monocórdico.

As tabelas e infiltrações que marcaram a equipe rubro-negra comandada por Zé Ricardo nos seus melhores momentos desapareceram com a queda de produção do meio-campista que tem o passe mais vertical: Willian Arão. Confirmado pelo próprio treinador. Tite convoca Diego para a seleção, porém admite que ele tem características diferentes das de Lucas Lima, seu concorrente, agora junto com Rodriguinho, por uma vaga no meio-campo.

O Santos empatou sem gols com a Ponte Preta no Pacaembu no sábado. Mas criou oportunidades mais cristalinas que o Flamengo na vitória sobre o mesmo adversário na estreia da Arena da Ilha no meio da semana. Porque Lucas Lima acertou passes verticais que Bruno Henrique, Kayke e Copete não aproveitaram. Já o Fla viveu de bolas alçadas e marcou seus gols em cruzamentos de Diego e Vinicius Júnior para Rever e Leandro Damião.

É pouco. O repertório empobreceu. Por isso a busca desde o ano passado de um meia que parta da ponta e auxilie na articulação. Alan Patrick e Mancuello não funcionaram, o clube trouxe Conca, uma incógnita no aspecto físico, e agora espera ter encontrado a solução em Everton Ribeiro. Este, sim, um meia da linhagem de Jadson, Scarpa, Lucas Lima. Do toque surpreendente.

É inegável o valor de Diego, que deve seguir no time que pena tanto para fazer gols. Mas parte da responsabilidade do Fla só ficar atrás do Atlético-MG como o time que mais cruza na competição – média de quase 28 por partida, cinco de Diego – é de seu meia mais valioso. Mesmo com a atenuante do período de inatividade e estar disputando apenas a sua quarta partida desde o início após o seu retorno, e reconhecendo que ele fica sobrecarregado pela indigência de ideias de seus companheiros no setor.

A questão central é que o problema não é recente. Como Diego consegue ser decisivo de outras formas acaba passando despercebido e alimenta a falácia de que é um meia criativo. Mas Zé Ricardo espera o melhor condicionamento de Conca e a estreia de Everton Ribeiro para tornar o Flamengo menos previsível e mais eficiente no restante da temporada.

(Estatísticas: Footstats)

 


Há 40 anos, a paciência foi de ouro para o Flamengo. Vale o mesmo agora
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André Rocha

Foto: Acervo O Globo

Em 1977, o estadual tinha o mesmo peso, ou até maior, que o campeonato brasileiro na temporada. O Flamengo tinha nova diretoria, com Márcio Braga em seu primeiro mandato no clube. Liderando a FAF – Frente Ampla pelo Flamengo. Na época vista por muitos rubro-negros como pessoas que entendiam muito de Direito, Televisão e Marketing, mas nada de futebol.

Contava também com uma geração promissora e um jovem treinador: Claudio Coutinho, em sua primeira experiência no comando de um time profissional. Mas que não conseguia um título desde o Carioca de 1974. Na final da Taça Guanabara de 1976, derrota nos pênaltis. Com Zico desperdiçando sua cobrança.

Bicampeonato da máquina do Fluminense armada por Francisco Horta. No ano seguinte, nova derrota na disputa das penalidades. No segundo turno. Como o Vasco vencera também o primeiro, ficou com o título. Desta vez, o vilão foi Tita, então um garoto com potencial que entrara exatamente para participar da disputa de pênaltis.

Depois da partida, o grupo se encontrou em um bar para demonstrar união, apoiar Tita e firmar um pacto de vitórias. Os conselheiros que tomaram conhecimento da reunião criticaram os jogadores, como se eles fossem indiferentes ao sofrimento da torcida, que pressionou por mudanças.

Agora é simples imaginar que era mais fácil apoiar aqueles jogadores talentosos. Na época, só Zico e alguns poucos foram poupados. Talvez hoje fossem lançados à fogueira como “amarelões”, “pipoqueiros” ou “time sem vergonha”. E lembre-se: o clube na época não tinha sequer um título nacional, mesmo antes de 1971.

A diretoria manteve elenco e treinador, avaliou o trabalho como bom e que era questão de tempo, tranquilidade para trabalhar e reforços pontuais para que os resultados aparecessem. O resto está na história como a fase mais vencedora e marcante do time mais popular do país.

Corte para 2017. Não há um Zico vestindo a camisa dez. Nem uma geração vinda da base tão talentosa. Mas está lá uma diretoria que revolucionou o clube, saneando finanças e mudando a imagem de mau pagador. Que pecou por decisões no futebol, algumas intempestivas, seguindo os humores da torcida.

Massa que hoje tem vários canais para se manifestar. Mas continua resultadista, imediatista, instável. Com três vitórias seguidas é o melhor time da galáxia; em caso de derrota, todos devem ser demitidos, do presidente ao funcionário mais humilde. Os surtos foram para as redes sociais. Do “cheirinho” ao “Fora todo mundo!”

A eliminação na Libertadores instaurou um clima de caos, logo depois da conquista estadual que criou uma ilusão de “melhor elenco do Brasil”, favoritíssimo a todos os títulos. A confiança se dissolveu e jogadores marcados, como Muralha, Rafael Vaz e Márcio Araújo passaram a errar demais.

O time segue organizado, mas não tem coragem para arriscar. Pior, joga com medo. De errar, de ser perseguido por uma turba insana. Isso tudo com desfalques, os últimos Trauco e Guerrero, a serviço da seleção peruana. Não há relativização de mais nada.

A derrota para o Sport com má atuação foi tratada como o fim dos tempos. A diferença em relação a do ano passado, na abertura do returno, foi um gol a mais do time pernambucano. Talvez com desempenho abaixo daquela vez. Mas o time disputava a liderança, então foi logo esquecida.

Agora há Donatti para voltar, Conca e Everton Ribeiro e Rhodolfo para estrear e ainda a possibilidade de contratar Geuvânio. Rafael Vaz foi barrado, agora Muralha perdeu a vaga para Thiago. Sobra Márcio Araújo, que segue jogando para compensar com velocidade as suas próprias limitações e a lentidão dos zagueiros e dos concorrentes na função.

Contra o Avaí, novamente faltou confiança. Mas mesmo na casa do adversário a equipe teve mais posse de bola (55%) e as mesmas dez finalizações do adversário na Ressacada. Uma a mais no alvo. Novamente sofreu um gol por falhas individuais – Leandro Damião que perdeu a bola, Juan que errou na tática de impedimento e deu condições a Romulo para abrir o placa.

Podia ter saído derrotado por conta do pênalti absurdo de Everton em Diego Tavares que a arbitragem confirmou, depois voltou atrás – mais um caso de acerto que deixou a nítida impressão de ter sido influenciado por uma interferência externa, de quem viu a imagem e notou que não houve a infração. Novo erro em uma regra que já devia ter sido alterada para minimizar os equívocos.

O Flamengo teve chances com Mancuello e Vinicius Júnior para ir às redes. Empatou com um golaço de bicicleta do mesmo Damião, que deixou a equipe em um dilema: se habituou, na ausência de Diego, a trabalhar ofensivamente a partir do pivô de Guerrero. Agora teve a volta do meia, que já mostrou mais desenvoltura, mas Damião tem dificuldades para dar sequência às jogadas. É atacante do último toque.

Zé Ricardo foi infeliz na troca de Vinicius Júnior, irregular entrando de início, por Filipe Vizeu. A equipe perdeu o lado direito, com e sem a bola. Tentou corrigir no final com Ederson na vaga de Damião. Mas teve a chance de uma vitória fora de casa. Com uma sequência que está por vir no Rio de Janeiro e um elenco mais encorpado em breve.

Ou seja, há lastro de evolução. O Flamengo de Zé Ricardo continua sendo uma equipe que perde pouco. Precisa de mais criatividade e efetividade na frente e segurança atrás. Questão de ajuste, algum tempo para treinar – inviável em junho, com rodadas de três em três dias – e peças mais qualificadas.

Acima de tudo, uma questão de paciência. Sem se deixar seduzir pela solução mais fácil: o “fato novo” que sempre é demitir o treinador. Às vezes funciona, como em 2007 na troca de Ney Franco por Joel Santana. Da zona de rebaixamento à vaga na Libertadores. Na maioria das vezes, porém, é uma solução de curtíssimo prazo. Dura o tempo da “chacoalhada” no elenco.

É a chance de fazer diferente. Não com conformismo, mas cobrando no tom certo. Sem apocalipse ou megalomania. Avaliando o trabalho e acertando internamente. Sem alarde, nem populismo. Há quatro décadas, a paciência foi de ouro para o Flamengo. Vale o mesmo agora.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Everton Ribeiro é o ponta articulador que o Flamengo procurava
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André Rocha

Foto: Divulgação Flamengo

“Pensando até no time em que atua nos Emirados Árabes (Al Ahli), ele pode atuar nas três posições atrás do centroavante num 4-2-3-1. Ou mesmo num 4-1-4-1, até porque ele foi lateral quando surgiu na base do Corinthians”.

Palavras do treinador Zé Ricardo em entrevista a este blog quando perguntado sobre Everton Ribeiro. O questionamento não foi gratuito. O interesse do Flamengo já era público e havia a informação da negociação bem encaminhada por conta da então iminente venda de Vinícius Júnior para o Real Madrid. Ele só não veio antes porque não havia os recursos para gerar a proposta que convenceu os árabes – seis milhões de euros, cerca de 22 milhões de reais.

Anúncio oficial realizado, apresentação marcada para esta terça-feira, a questão agora é como encaixá-lo na equipe rubro-negra. Everton chega para preencher uma lacuna dentro da proposta de jogo de Zé Ricardo: o ponta articulador, ou o meia que joga aberto e parte do flanco para ajudar na armação das jogadas e criar superioridade numérica no meio-campo, circulando às costas dos volantes adversários.

Zé Ricardo tentou Alan Patrick, depois Mancuello. Sem sucesso, por isso a insistência com os pontas velocistas. Com a vinda de Conca, planejava um teste na função com Diego. Ambos já atuaram como meias pelos lados em outros clubes – o argentino no Fluminense em 2014 e o brasileiro no mesmo ano com Simeone pelo Atlético de Madri. Mas seria uma experiência com jogadores que nunca passaram uma temporada inteira desempenhando a função.

Everton Ribeiro foi o melhor jogador das edições 2013 e 2014 da Série A do Brasileiro pelo Cruzeiro atuando pela direita. Uma jogada forte do time mineiro era o movimento do meia para dentro, abrindo o corredor para a passagem em velocidade do jovem lateral Mayke. No Flamengo é possível até imaginar, por características, Rodinei fazendo essa combinação melhor que Pará, por ser mais rápido.

Everton Ribeiro em ação no Cruzeiro bicampeão brasileiro 2013/2014: meia aberto pela direita, cortando para dentro com o pé canhoto e abrindo o corredor para a passagem do jovem e rápido lateral Mayke (flagrante Sportv)

O mais provável é Everton formar o trio de meias atrás de Guerrero com Diego centralizado e o garoto Vinicius Júnior pela esquerda. A jóia das divisões de base vem mostrando maturidade, desenvoltura e ganhando minutos. Mesmo tão jovem, é disparado no elenco o mais próximo do ponteiro desejado: driblador e que busca a diagonal para finalizar.

A tendência é virar titular em breve, até pela exigência do Real Madrid de vê-lo em campo para chegar pronto na Espanha no ano que vem ou em 2019. A menos que Geuvânio seja mesmo contratado e se firme entre os titulares de imediato. Uma hipótese, por enquanto.

Everton Ribeiro deve atuar aberto pela direita num 4-2-3-1, usando seu pé canhoto para articular as jogadas com Diego e alimentar Guerrero. Do lado oposto, Vinicius Júnior seria o ponteiro das infiltrações em diagonal (Tactical Pad).

Mas Zé Ricardo, como ele mesmo afirmou, também pode encaixar Conca neste trio de meias, ainda que perca uma opção de velocidade, ou até mesmo em uma proposta ousada, mantendo Vinicius Júnior ou outro ponteiro e atuando num 4-1-4-1.

Improvável, até pela explicação do treinador quando já vislumbrava a equipe com Conca e Diego: um volante ficaria mais fixo na proteção da retaguarda e o outro sairia para um trabalho com o lateral pelo flanco, compensando a menor contribuição defensiva do meia criativo. Com apenas um volante poderia expor demais a última linha de defesa. Talvez uma alternativa para algumas partidas, dependendo da necessidade. Tudo vai depender da forma física dos atletas.

Um ofensivo 4-1-4-1 com Everton, Diego, Conca e Vinicius atrás de Guerrero. Uma alternativa para alguns jogos, por necessidade (Tactical Pad).

Eis o paradoxo que vive o comandante rubro-negro: a cobrança por resultados imediatos e a esperança do melhor cenário um pouco mais à frente: os três meias criativos em forma e a revelação do clube mais pronta para brilhar.

O Flamengo tem seis pontos na Série A, na segunda página da tabela, a quatro pontos dos líderes Chapecoense e Corinthians. Encara duas partidas fora de casa contra adversários próximos da zona de rebaixamento: Sport e Avaí. Há a chance de se recuperar na tabela com, no mínimo, quatro pontos. Mas duas derrotas podem desencadear uma crise que prejudicaria muito a sequência do trabalho.

Para complicar, junho é o mês das rodadas a cada três dias. Menos tempo para treinamentos e a necessidade de ajustar o time nas partidas de um campeonato mais que equilibrado. Um desafio, sem dúvida.

A boa notícia para Zé Ricardo é que ganha a peça que tanto queria. No setor ofensivo, ele nunca teve tanto talento à disposição.


Pelas circunstâncias, Botafogo ganha um ponto contra Flamengo “arame liso”
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André Rocha

A intensidade do Botafogo no primeiro tempo em Volta Redonda parecia uma clara tentativa de buscar o gol no início, aproveitando um Flamengo improvisado e com mais qualidade no banco que em campo, para depois administrar a vantagem dosando as energias e compensando o desgaste de viagem e jogo eliminatório no meio de semana pela Copa do Brasil.

Mesmo sem Camilo, Jair Ventura manteve a estrutura tática e a ideia de jogo com João Paulo mais adiantado e Matheus Fernandes no meio-campo. A equipe dobrava e pressionava a marcação pelos flancos e saía em velocidade.

O Flamengo sofria com Willian Arão totalmente perdido atuando aberto pela direita e Cuéllar responsável pela saída de bola com os zagueiros – Juan na vaga de Rafael Vaz – errando passes. Só melhorou um pouco a fluência quando Ederson, o meia central do 4-2-3-1, procurou o lado direito e deu opções de passe.

Muito pouco em um primeiro tempo muito fraco e contaminado pela rivalidade nada saudável fora de campo entre os clubes. O time alvinegro foi recuando as linhas, até por conta das lesões de Victor Luís e Aírton em lances com Arão, mas sem maldade do rubro-negro na do volante, bem mais séria. Entraram Gilson e Dudu Cearense, atrapalhando os planos do treinador.

Estava claro que o segundo tempo seria complicado para o Bota. E foi. O time foi definhando fisicamente com o calor e um Flamengo que ganhou qualidade e intensidade com Diego e Vinicius Jr. nas vagas de Cuéllar e Ederson. Arão, o pior do primeiro tempo, melhorou um pouco voltando à sua função no meio.

No entanto, os comandados de Zé Ricardo esbarraram em um velho problema: a dificuldade em transformar oportunidades em gols. Guerrero duas vezes e Everton perderam chances cristalinas. Vinicius Júnior acertou o travessão em bela conclusão. Foram 17 finalizações rubro-negras, mas apenas três no alvo.

O Bota concluiu quatro, uma na direção da meta de Muralha. E podia ter saído com a vitória se Roger não perdesse gol feito. No final, o time “cascudo” fez tudo para ganhar tempo e conter a pressão do rival que foi para o abafa no final com Leandro Damião na vaga de Arão. Pelas circunstâncias, ponto ganho no Raulino de Oliveira.

O Flamengo tem lastro de evolução com Diego recuperando ritmo de competição e Vinicius Júnior ainda mais confiante – teve sua melhor atuação entre os profissionais. Ainda tem Conca para estrear e as peças que podem chegar. Mas é urgente ser mais eficiente e contundente no ataque.

Porque time “arame liso”, que cerca mas não fura, não pontua. Uma invencibilidade de três empates em quatro partidas é prejuízo.

(Estatísticas: Footstats)


Eles não podem errar! A dura transição do mercado de treinadores no Brasil
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André Rocha

Quando Zé Ricardo chamou Matheus Sávio para dar instruções enquanto a torcida do Flamengo no Serra Dourada pedia a entrada da joia Vinícius Júnior, o treinador sabia que corria riscos por suas convicções.

Afinal, se o time fosse eliminado da Copa do Brasil, independentemente do rendimento do jovem atacante, que entrou muito mal contra o San Lorenzo na traumática derrota na Libertadores, as chances de ser demitido cresceriam exponencialmente.

Mas Sávio, assim como contra o Atlético Mineiro no Maracanã, na estreia do Campeonato Brasileiro, colocou um cruzamento no fundo das redes do goleiro Felipe do Atlético-GO. O choro copioso do jogador foi sintomático. É muita pressão para quem ainda está no início de sua trajetória entre os profissionais.

O mesmo vale para os treinadores. No país do futebol de resultados, o comandante passa de “boa novidade” e “atualizado” para “estagiário” e “rolando lero” a cada semana. Mesmo que a sua equipe esteja organizada e o placar adverso tenha vindo por uma infelicidade na defesa ou chances perdidas na frente.

Ou até se eles se equivocarem, algo absolutamente natural. No mais imprevisível e caótico dos esportes, o que foi treinado baseado em observação e análise pode dar errado por uma noite ruim do atleta e aquela mudança aleatória, mais por conta da intuição, pode terminar em vitória. Para quem tem bagagem já é um desafio, imagine para novatos.

Eles simplesmente não podem errar. Seja Zé Ricardo, Roger Machado, Eduardo Baptista…Mesmo Jair Ventura, com enorme crédito no Botafogo, quando tentou mudar a maneira de jogar contra o Barcelona de Guayaquil no Estádio Nilton Santos e saiu derrotado as críticas vieram pesadas.

A transição no mercado de treinadores é dura. Depois dos 7 a 1 que mandaram Luiz Felipe Scolari para a China e da queda em desempenho e resultados de grifes como Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho e até Marcelo Oliveira, apesar dos títulos com Cruzeiro e Palmeiras, um buraco foi aberto para uma leva de profissionais com conceitos atualizados, vendo e pensando o futebol como é jogado nos grandes centros.

Um jogo mais coletivo e que trabalha com informações e gestão na comissão técnica. Menos com carisma e discursos motivacionais. Quando o resultado acontece, tudo isso é louvado. Se não, bate a saudade dos velhos nomes e de fórmulas antigas. Como se o que deu certo na década passada necessariamente dará em 2017.

O cenário é complexo. Dá para contar nos dedos de uma das mãos os treinadores do país que conseguem unir vivência como ex-jogador, conteúdo atual, sensibilidade na gestão de grupo e da comissão técnica. Ou seja, no auge da carreira. O melhor deles está na CBF.

Por conta de todas as dificuldades citadas, as experiências com estrangeiros não foram felizes – vide Diego Aguirre, Ricardo Gareca, Edgardo Bauza, Juan Carlos Osorio, entre outros. Quando estão começando a aprender o idioma para se comunicar já estão passando no RH e voltando para casa.

Simplesmente não há paciência, porque falta convicção para acreditar num projeto de longo prazo. Roger Machado e Zé Ricardo acharam que teriam um pouco mais de paz e respaldo para trabalhar por conta de conquistas nos estaduais. Mas basta uma sequência de resultados ruins e tudo é esquecido.

Ainda mais em clubes dos quais se espera muito. Pela capacidade de investimento e ilusão alimentada por departamentos de marketing e também por nós da imprensa, o torcedor passa a crer que seu time de coração conta com um elenco estelar e que basta o treinador distribuir certo as camisas e não atrapalhar para tudo acontecer.

Não é assim que funciona. Estar atualizado nas ideias e métodos ajuda a não ser surpreendido, a minimizar a aleatoriedade do jogo. Mas não garante nada. Muito menos onde não se valoriza filosofia e identidade, só o placar final e a conquista que vão gerar memes e zoações. Até tudo ser esquecido no próximo jogo.

Por ora, Dorival Júnior é o sobrevivente na Série A, comandando o Santos desde julho de 2015. Já Ney Franco foi demitido do Sport depois de perder a Copa do Nordeste para o Bahia com menos de dois meses de trabalho. Treinadores com rodagem de mais de uma década. Paulo Autuori, com mais de quarenta anos à beira do campo, cansou. “A rotina consome”, explicou. Vai ser gestor no Atlético-PR e abre espaço para Eduardo Baptista.

Paciência não significa ser permissivo e deixar de cobrar o desempenho que chega ao resultado. Os profissionais são bem remunerados para isso. O ponto nevrálgico é o imediatismo, a incapacidade de observar um lastro de evolução, vislumbrar um futuro melhor. Tudo ainda se resume à tentativa e erro. Até acertar. Para ontem.

Enquanto isso, segue a roda vida, a máquina de moer técnicos. Zé Ricardo escapou no gol de Matheus Sávio. Quem será o próximo?


Zé Ricardo, exclusivo: “Meta no Brasileiro é tornar Flamengo mais criativo”
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André Rocha

De campeão da Copa São Paulo a técnico interino, de efetivado à vaga direta na Libertadores pelo Brasileiro que não vinha desde o título em 2009. Agora campeão carioca. Com o empate sem gols contra o Atlético-GO pela Copa do Brasil utilizando um time repleto de reservas, são 65 partidas. 37 vitórias, 17 empates e 11 derrotas. 65% de aproveitamento.

Mais que números, Zé Ricardo entrega desempenho de um Flamengo difícil de ser batido. Organizado e concentrado. Que levanta taça mesmo sem Diego, a principal estrela. Não se acomoda e, mirando o Campeonato Brasileiro que começa no fim de semana,  já pensa mais à frente, quando Conca estiver pronto. “Nosso primeiro pensamento é tornar o time mais criativo”.

Confira a entrevista exclusiva com o treinador, que fala também de Márcio Araújo como exemplo de força mental, aproveitamento da base, cabeça fervilhando de ideias e o que vê de bom no futebol pelo mundo. Inclusive confessando sua torcida na final da Liga dos Campeões entre Real Madrid e Juventus.

 

BLOG – Zé, é absurdo afirmar que a marca da trajetória do Flamengo sob seu comando, culminando com o título carioca, é a força mental – do técnico novato para lidar com pressão, do Marcio Araújo suportando as críticas, de todos para compensar a ausência do Diego, etc.?

ZÉ RICARDO – A concentração é nosso mantra. Eu nem preciso lembrar muito, os próprios atletas se cobram, porque todos se precisam. O jogador precisa saber o que fazer em qualquer circunstância, inclusive a mais inesperada.

Sobre o Márcio Araújo, sem dúvida é um exemplo para todos nós. A personalidade dele é impressionante! Não liga para críticas e elogios e faz isso sem esforço. É totalmente focado no campo. Quando o Rômulo chegou, eu disse ao Márcio que não era para barrá-lo. Com o Diego sendo convocado, eu imaginava trabalhar com os dois, mais o Willian Arão. Era uma possibilidade e aconteceu.

BLOG – E a utilização dos laterais Rodinei e Trauco em funções diferentes, também gerou pressão por usar quatro jogadores da mesma posição?

ZÉ RICARDO – O importante é ter convicção. Pelas características, eles se encaixam bem nessas funções e abrem espaço, por exemplo, para o Renê ganhar seqüência na lateral. Como o Marcelo Cirino estava para sair para o Internacional, e depois acabou saindo, trabalhei com o Rodinei como externo pela direita já no primeiro jogo oficial, contra o Boavista.

Mas tem que acreditar muito nos atletas, confiar. Porque é difícil passar pelas cobranças de quem não compreende a diferença entre posição e função. E eu sei que se não tivesse conseguido os resultados talvez eu não estivesse aqui hoje como técnico do Flamengo. Mas, assim como o Márcio, eu procuro agir com convicção para ter a consciência tranquila.

BLOG – O Márcio Araújo tem se arriscado mais à frente, fazendo inversões de jogo com passes longos. Isto é mais confiança ou treinamento?

ZÉ RICARDO – É trabalho. Um complemento desde a pré-temporada para a saída de bola não ser sempre curta. Também queria um passe mais profundo de trás para acionar a velocidade do Berrío, fazer o colombiano acelerar. Ele trabalhou e ganhou confiança. Antes era o passe de segurança, até para se preservar. Hoje ele já se projeta à frente dos outros dois meio-campistas. Como diz o Bielsa, com treinamento e confiança, dá para fazer tudo em termos táticos e estratégicos.

BLOG – Dá para encaixar o Diego na volta dele num 4-1-4-1, sem retornar ao 4-2-3-1?

ZÉ RICARDO – Perfeitamente. A opção de colocar Diego mais avançado foi para aproveitar todo seu potencial mais próximo do Guerrero. Conversei com ele para entrar na área, fazer gols. Mas é uma questão de conscientizar na fase sem posse de bola, no trabalho defensivo, e isso ele faz muito bem. Também pode ajudar na saída de bola, atuando mais recuado, na mesma linha do Arão.

BLOG – No início da temporada, você encaixou Mancuello como um meia atuando pela ponta visando preparar a equipe para receber Conca. Com a lesão de Diego, você voltou aos ponteiros velocistas. Qual o plano para quando tiver todos disponíveis? Ainda há o propósito de escalar Diego e Conca juntos?

ZÉ RICARDO – É o nosso primeiro e principal pensamento. A meta no Brasileiro é tornar o time mais criativo no último terço, quebrar as linhas de marcação. Coloquei, sim, o Mancuello pensando no Conca, também porque a concorrência no meio-campo era bem dura para ele. Foi até bem pelo lado. Depois foi para o meio, agora está machucado.

Com Diego e Conca disponíveis, eu tenho diversas possibilidades, a cabeça até fervilha (risos). Se o Conca jogar pelo lado direito, eu posso compor com Pará e Arão fechando em um trabalho mais forte de cobertura. Mas também posso abrir o Diego pela esquerda, com Berrío à direita e Conca centralizado, mais solto. Aí o Márcio junto com o Trauco fechariam mais o setor. O Diego já atuou assim, inclusive no Atlético de Madri, com o Simeone. São ideias, os treinamentos e jogos é que vão mostrar a melhor forma de aproveitar todo esse potencial.

Uma das possibilidades na cabeça de Zé Ricardo: Diego aberto pela esquerda, Conca mais livre no centro e Márcio Araújo dando suporte defensivo ao meia que mudaria de função para o encaixe do argentino vindo de longa inatividade. Tudo para dar mais criatividade ao setor ofensivo (Tactical Pad).

BLOG – Sei que você não fala em jogadores que não fazem parte do elenco que comanda, então farei uma pergunta genérica: quando você pensa em Everton Ribeiro num time qualquer, o visualiza na mesma função executada no Cruzeiro – ponta articulador pela direita jogando com pé invertido, o canhoto?

ZÉ RICARDO – Pensando até no time em que atua nos Emirados Árabes (Al Ahli), ele pode atuar nas três posições atrás do centroavante num 4-2-3-1. Ou mesmo num 4-1-4-1, até porque ele foi lateral quando surgiu na base do Corinthians.

BLOG – Se você tiver três meias de qualidade técnica, em plena forma, pode até abrir mão dos ponteiros?

ZÉ RICARDO – Como disse, tudo depende dos treinamentos, dos jogos, até das características dos adversários. Na base eu trabalhei com Cafu, Matheus Sávio e Paquetá atrás do Vizeu. Nenhum velocista típico. Você pode perder de um lado, mas ganhar de outro.

BLOG – Você reconhece que se tivesse Conca desde o início da temporada para testar durante o Carioca seria mais fácil do que tentar encaixá-lo agora, com Brasileiro e jogos decisivos em Libertadores e Copa do Brasil, caso o time se classifique?

ZÉ RICARDO – É óbvio. Mas foi uma oportunidade de mercado, contar com um jogador que dispensa maiores explicações sobre seu potencial técnico. Eu sei que haverá pressão. Eu vi pessoas exigindo a escalação do Ederson assim que o Diego se lesionou. Coloquei contra o Atlético-GO e todo mundo viu a dificuldade, natural pela falta de ritmo de jogo.

O Conca vai passar pelo mesmo, é quase um ano sem jogar. Felizmente a conquista do Carioca tira um pouco do peso das cobranças e há mais tranqüilidade e confiança para trabalhar e fazer testes, mesmo em meio a jogos tão duros. Mas isto acontece em toda temporada. O Brasileiro nem começou e tivemos cinco partidas decisivas em 15 dias!

BLOG – Eu tenho a impressão de que você, por conviver com todas essas pressões tendo subido há pouco das divisões de base como treinador, tem uma cautela até excessiva com os jovens que comandou, com temor que se queimem por conta de uma atuação ruim. Estou errado?

ZÉ RICARDO – Não. Eu reconheço o cuidado, que às vezes passa até do ponto. Me preocupo com a pressão. Porque há torcedores e jornalistas que têm uma paciência maior com quem vem da base. Mas também existem outros que acham que o garoto tem que dar resposta imediata e não é assim que funciona. Não dá para lançar todos ao mesmo tempo.

BLOG – Para finalizar, o que tem chamado sua atenção no futebol mundial?

ZÉ RICARDO – Ah, a Juventus! Como bom italiano (risos). Sem dúvida terá minha torcida na final da Liga dos Campeões. Nos meus estudos e observações noto que cada vez mais os times têm duas formas de controlar o jogo: pela posse ou pelo espaço. Contra o Barcelona no Camp Nou, eles negaram o meio para o adversário trabalhar, fecharam até com seis na última linha e não deram brecha. Mas também sabem ficar com a bola, se necessário. Aliás, esta é a maior mudança do futebol atual, porque culturalmente o italiano prioriza muito a defesa.

Me chama atenção também a intensidade do futebol alemão, a posse dos espanhóis, que admiro muito, e o 5-4-1 mais “duro” do Chelsea, que se sustenta muito na frente com o Diego Costa, que retém bem a bola e é ótimo finalizador.

 


Carille, Zé Ricardo, Roger, Beto Campos: o legado de Tite nos estaduais
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André Rocha

Objetivamente, nenhum dos quatro treinadores que conquistaram os títulos estaduais em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul utilizou o 4-1-4-1 que virou o desenho tático “de cabeceira” de Tite no Corinthians campeão brasileiro de 2015 e agora na seleção brasileira.

Mas as ideias de Adenor Leonardo Bacchi estão lá. As mais marcantes: última linha de defesa posicional no Corinthians de Fabio Carille, ex-auxiliar de Tite. O jogo apoiado, baseado em triangulações pelos lados do campo, mesmo sem tantas incursões por dentro dos ponteiros, no Flamengo de Zé Ricardo, outro que sempre cita o técnico 100% com a seleção brasileira como inspiração.

No Atlético Mineiro de Roger, a capacidade de se adaptar às circunstâncias, propondo ou sendo mais reativo, encaixando um terceiro volante para liberar Elias e tentando dar pausas ao “Galo Doido”. Por fim, um Beto Campos no supreendente Novo Hamburgo que sempre cita o técnico da seleção como referência e faz sua equipe se defender bem, mas também não abdicar do jogo.

Nos quatro discursos, sempre a palavra “mágica”: desempenho. E outra quase tão importante: concentração. Entrar focado nos movimentos coletivos para o time não se espaçar. Força mental para se adequar às dificuldades e ao contexto dos jogos. Ter sempre um norte: jogar bem sempre será o melhor caminho para conseguir vitórias e títulos.

Com méritos, sem atalhos ou subterfúgios, jogando ao natural. Equilibrando ataque e defesa. Entregando mais que só o resultado. Falando do jogo em si, transmitindo conceitos, abertos ao novo. Cada um à sua maneira.

É inspirador ver os pilares de Tite se espalhando entre os treinadores no futebol brasileiro. Nos quatro principais estaduais, o legado do melhor do país terminou em taças.


Flamengo passa com louvor por seu “batismo de fogo” na Libertadores
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André Rocha

O futebol é dinâmico. O Botafogo, que conseguiu sua classificação para a fase de grupos da Libertadores em duas etapas, foi considerado um time com vantagem por ter passado por disputas eliminatórias bem duras.

Mas no momento de confirmar a classificação no Grupo 1, hesitou no Engenhão contra o Barcelona de Guayaquil. A derrota por 2 a 0 não é nenhuma tragédia, mas abalou a imagem de time sólido mentalmente e fortíssimo em casa.

Já o Flamengo vem sendo consistente em desempenho dentro de casa e fora. Mas só pontua no Maracanã. A terceira partida com estádio lotado, porém, era decisiva. Com os surpreendentes 3 a 0 do San Lorenzo sobre o Atlético Paranaense na Arena da Baixada, não conseguir os três pontos significaria levar a decisão para a última rodada exatamente contra os argentinos. Fora de casa.

Foi o “batismo de fogo” do Flamengo, que nas últimas edições do torneio continental costumava se complicar em jogos com estas características. Também se dispersava quando as partidas se alternavam com decisões estaduais, priorizando a disputa regional.

Não desta vez. Torcida e time sintonizados no clima de final. Cientes da dificuldade diante da Universidad Católica que era organizada no 4-2-3-1 e com bons valores individuais, como Fuenzalida, Buonanotte, Kalinski. Mais Santiago “El Taque” Silva na frente.

Cabia ao Flamengo atacar com paciência e sem perder a concentração defensiva, grande virtude na vitória sobre o Fluminense na primeira final estadual. No primeiro tempo, alguma afobação e um dilema na execução do 4-1-4-1 proposto por Zé Ricardo: Guerrero era o único jogador capaz de um passe diferente quando recuava para articular. Mas também é o finalizador mais eficiente do quinteto ofensivo.

Sacrificado, o peruano não se escondeu. Pelo contrário. Das 23 finalizações, tentou nada menos que 13. Na primeira etapa, porém, a única oportunidade cristalina foi completando passe de Willian Arão e chutou em cima do goleiro Toselli. A mais clara, no entanto, foi de Fuenzalida infiltrando livre entre Rafael Vaz e Trauco.

No segundo tempo, a surpresa com Rodinei na vaga do apagado Mancuello, que desta vez não tem desculpa pelo mau rendimento. Foi escalado na função para a qual foi contratado no início de 2016 e não deu sequência às jogadas.

Com cinco minutos, golaço de canhota do lateral reserva transformado em ponteiro. Rodinei seguiu voando pela direita, fazendo dupla com Pará. Gabriel, centralizado, mesmo com todas as suas limitações, confundiu a marcação adversária circulando às costas dos volantes. Mas novamente faltou contundência para matar o jogo.

Pagou com a única finalização de Santiago Silva no jogo. Cabeceando entre Rever e Vaz. Em três conclusões do centroavante nas duas partidas entre as equipes, dois gols. Silêncio no Maracanã, massa preocupada, time tenso.

Entrou em cena Guerrero, para marcar exatamente na finalização mais complicada: com o marcador em cima, o chute cruzado entre as pernas do defensor e no canto de Toselli. Depois de onze tentativas. Haveria mais uma, no final, bloqueada.

Mas a vitória a esta altura já estava definida pelo gol de Trauco. Lateral que virou meia de novo, com a entrada de Renê no lugar de Gabriel. Mas centralizado, porque aparentava cansaço e Everton seguiu recompondo no setor esquerdo que a Católica atacava seguidamente.

Gol de perseverança, na sequência de chutes que podia ter virado um passe para Arão livre. Mas a conclusão de direita entrou e resolveu a questão da penúltima rodada. Não garante a classificação e envolve até um certo risco, já que a derrota na Argentina combinada com a vitória atleticana no Chile elimina o time carioca.

A rigor, um time que finalizou 40 vezes no campeonato, média de oito por jogo, já deveria estar com a vaga garantida, 100% de aproveitamento. Ainda falta contundência, que pode fazer falta mais à frente na temporada.

Mas valeu pela liderança do Grupo 4 e, principalmente, por seu simbolismo. Por não se entregar nem se desesperar depois do empate. Por manter o foco na competição que é prioridade em 2017.

Pelas mudanças do treinador que, mesmo questionáveis para quem não entende a diferença entre posição e função, deram certo na prática. Sem Diego, Donatti, Romulo e Berrío. Fora Conca. Com bela atuação de Marcio Araújo na proteção da retaguarda.

Na prova mais difícil até aqui, o Flamengo passou com louvor.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


No primeiro ato, vitória da concentração defensiva absoluta do Flamengo
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André Rocha

Os 3 a 3 da final da Taça Guanabara, com derrota nos pênaltis, deixou claro para o Flamengo que enfrentar o jovem Fluminense de Abel Braga, time de intensidade, volume de jogo e ímpeto ofensivo, exigiria concentração absoluta no trabalho defensivo.

O resultado prático no Maracanã foi o Fla de Zé Ricardo novamente no 4-1-4-1, desta vez com Berrío pela direita na vaga de Gabriel. Depois Rômulo sairia com lesão no joelho para a entrada de Mancuello que, por características e limitações físicas, por vezes ficava mais adiantado, com a equipe voltando ao 4-2-3-1.

Primeiro tempo de controle da posse e postura ofensiva, com Willian Arão atento à saída de bola do jovem Wendel, bloqueando as descidas de Lucas, que se manda sem posição física e deixa o volante Orejuela guardando sua posição. Muita atenção no cerco aos pontas Richarlison e  Wellington Silva e Márcio Araújo ágil no auxílio aos zagueiros e ligado nos movimentos de Sornoza.

Ofensivamente, jogo pelos flancos, com os pontas Berrío e Everton buscando as diagonais e Mancuello e Arão se aproximando de Guerrero. Passes simples, jogadores próximos e encontrando soluções diante da pressão dos adversários sobre o oponente com a bola. Aproveitando nos primeiros 45 minutos o nítido nervosismo dos garotos tricolores em uma final.

Nas jogadas aéreas, forte do Flu nos jogos mais duros, atuações esplêndidas de Réver, Rafael Vaz e Guerrero, o mais sacrificado na execução do modelo de jogo sem Diego. Precisando recuar para ser o armador, fazer o pivô, disputar com os zagueiros adversários nas ligações diretas e ainda acelerar os contragolpes, especialmente na segunda etapa.

Porque o Flamengo que sofre para ir às redes ganhou de presente no primeiro tempo a furada grotesca de Renato Chaves que Everton não desperdiçou. Gol único de uma vitória construída por um trabalho coletivo que é mérito do quase sempre contestado Zé Ricardo. Equipe que soube sofrer, mas criou  alguns contragolpes que Leandro Damião e Matheus Sávio, substitutos de Guerrero e Berrío, não aproveitaram.

É evidente que a final está aberta, até pelo jogo decisivo do Flamengo na quarta-feira pela Libertadores contra a Universidad Católica. Porque a concentração defensiva terá peso ainda maior. No primeiro ato de noventa minutos da final carioca foi a diferença.


“Três volantes”, “retranca”? Vitória do Flamengo chuta longe os clichês
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André Rocha

O 4-1-4-1 montado por Zé Ricardo sem Diego: Márcio Araújo na proteção da defesa e força pelas laterais com triangulações. Mais efetivo pela esquerda, atacando o lado fragilizado do Botafogo no habitual 4-3-1-2 que se desmembra em duas linhas de quatro sem a bola (Tactical Pad).

A semana inteira de preparação do Flamengo foi de expectativa para a solução que Zé Ricardo encontraria para repor o lesionado Diego. Ao sinalizar a entrada de Rômulo, surgiu a velha confusão de conceitos. Misturando função e posição.

“Três volantes”, “Flamengo vai jogar pelo empate”, “técnico retranqueiro”. Foi o debate que se viu e ouviu sobre o time rubro-negro antes da bola rolar. Até pela vantagem de empate na semifinal do Carioca por conta da melhor campanha.

No Maracanã molhado pela chuva, o que se viu foi o time “cauteloso” propondo o jogo. No 4-1-4-1, desenho tático “de cabeceira” de Zé Ricardo, desmanchado pela presença de Diego, típico meia central de um 4-2-3-1.

Trabalhando a bola, adiantando as linhas e apertando a marcação no campo adversário. Se não tinha o meia criativo, fazia as jogadas pelos flancos com triangulações. À direita, Pará, Arão e Gabriel; pela esquerda, Trauco, Romulo e Everton.

Guerrero voltava para fazer o pivô e distribuir as jogadas. Complicando um Botafogo que nitidamente buscou dosar energias no primeiro tempo para compensar o desgaste da viagem ao Equador e apenas um dia de treinamento para o clássico.

Só que tinha problemas além do cansaço, em função dos desfalques. Especialmente no meio-campo: Aírton, ainda lesionado, e Bruno Silva, suspenso pela estúpida expulsão depois do apito final da inútil decisão da Taça Rio. Fora Montillo.

Na lateral direita, mais uma improvisação: o volante Fernandes, que se juntava a João Paulo, o volante-meia do 4-3-1-2 armado por Jair Ventura que abria à direita para formar a linha de quatro no meio. Deixando Rodrigo Pimpão pela esquerda. Pelo contexto, parecia mais razoável inverter seu melhor ponteiro e atacar o setor mais forte do Fla, o esquerdo.

Acabou defendendo mal e o Flamengo teve o controle do jogo. Nem tanto nos números do primeiro tempo – 51% de posse e as mesmas cinco finalizações do rival, três a zero no alvo. Mas principalmente por sempre parecer mais próximo do gol.

Mas bolas nas redes só na segunda etapa. Com Guerrero, chegando aos nove no Carioca. Participando da construção pela esquerda e aparecendo para completar o corte errado de Victor Luís e abrir o placar. Depois a cobrança de pênalti segura e forte no meio do gol com o campo molhado.

A chance mais cristalina para o peruano acabou sendo desperdiçada em jogada de Pará para Berrío, substituto de Romulo, e passe para o chute fraco de Guerrero. De novo faltou ao Flamengo em um jogo grande a contundência no ataque para construir a vitória com mais autoridade.

O pênalti tolo de Rever sofrido e bem cobrado por Sassá, que entrara na vaga de Roger, transferiu uma emoção ao final do jogo, com o Botafogo, mesmo exausto, se lançando ao ataque, que não reflete o que foi a semifinal.

Posse de bola praticamente dividida, Flamengo finalizando 13 vezes, uma a mais que o Bota. Seis, porém, na direção da meta de Gatito Fernández contra apenas duas do alvinegro. O time de Zé Ricardo não foi brilhante, mas também não era com Diego em campo na maioria dos jogos. Em nenhum momento, porém, jogou fechado, especulando, dando a bola ao rival.

Com três volantes de ofício, mas na prática apenas um: Márcio Araújo, que cumpriu boa atuação. A tendência é manter o desenho tático e a proposta para a decisão. Um Fla-Flu que não valia o título regional desde 1995. Numa final em dois jogos como agora, desde 1991.

Pelo desempenho na temporada, o tricolor parece mais forte. E o Flamengo ainda tem um jogo decisivo contra o Atlético-PR na quarta, antes da primeira decisão. Favorito ou não, é improvável que o time de Zé Ricardo se acovarde no clássico. Com ou sem volantes, chutando pra longe os clichês.

(Estatísticas: Footstats)