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Zé Ricardo é o rei dos empates com Flamengo e Vasco, mas faz campanha de G5
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André Rocha

Com a vitória sobre o Cruzeiro no Mineirão, Zé Ricardo coloca o Vasco, antes convivendo com o risco do rebaixamento na volta à Série A, a uma vitória – contra a já rebaixada Ponte Preta em São Januário na última rodada – de se garantir no G-7 e com boas chances de ganhar uma colocação. Superando o rival Flamengo.

Exatamente o time que Zé Ricardo comandou na maioria das 34 partidas que disputou no Brasileiro em 2017. Em 19 jogos, foram sete vitórias, oito empates e quatro derrotas. 50,8% de aproveitamento. Marcou 27 gols, sofreu oito.

Assumiu o Vasco na 23ª rodada, sucedendo Milton Mendes. Assistiu à vitória cruzmaltina sobre o Fluminense no Maracanã com o time comandado por Valdir Bigode. Estreou no triunfo sobre o Grêmio em São Januário por 1 a 0 e depois construiu uma campanha de seis vitórias, sete empates e apenas duas derrotas – uma delas para o Corinthians com o polêmico gol de braço de Jô. Aproveitamento de 55,5%. 15 gols marcados, 12 sofridos.

No total, o rendimento do treinador é de 53% dos pontos. Se disputasse as três rodadas em que ficou de fora nos 16 dias em que esteve desempregado com a mesma média, hoje estaria com 58 pontos, cinco a mais do que as equipes que comandou. Na quinta colocação, acima do Cruzeiro e já garantido na Libertadores.

E poderia ser ainda melhor, não fossem os muitos empates. Quinze no total. É o treinador que mais empatou na competição, à frente de Abel Braga e os 13 no comando do Fluminense. Sofreu poucos gols, apenas 20. O Corinthians, defesa menos vazada do campeonato, levou 29. Mas também não foi às redes tantas vezes: 42 marcados. O Palmeiras tem o ataque mais positivo com 61. Mesmo considerando as três rodadas de “hiato”, são números muito simbólicos.

O desempenho mostra que o treinador do Vasco é um dos mais promissores do país. Antenado, flexível, sereno, bom gestor de grupo, querido por onde passa. Perfil para ir longe. Não deu o salto de qualidade que o Flamengo precisava em 2017 pelo alto investimento, mas o consagrado Reinaldo Rueda também não conseguiu. No time cruzmaltino mudou o patamar e as pretensões com segurança defensiva e regularidade.

O melhor treinador brasileiro, que está na seleção, já foi chamado de “EmpaTite”. Foi atrás de reciclagem, maior repertório ofensivo mantendo a organização sem a bola e se reinventou. Quem sabe Zé Ricardo não segue a mesma trilha?

 


Flamengo: a lenta agonia do time que não dá liga
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André Rocha

A derrota para o Coritiba no Couto Pereira foi mais uma típica do Flamengo no Brasileiro 2017: domina a posse de bola (65%), finaliza mais que o adversário – 11 a 5, 4 a 1 no alvo – mas não consegue traduzir em gols o controle do jogo.

As críticas sobre jogadores e o treinador Reinaldo Rueda giram em torno do comodismo, de aceitar a derrota com um discurso conformado, de uma apatia que se mistura à indiferença. Protestos com alguma razão, mas os problemas vão um pouco além disso.

O fato é que o time não dá liga. Ou seja, as características dos jogadores não combinam entre si, por mais que Zé Ricardo e depois Rueda tentassem e ainda tentem um encaixe.

É um efeito dominó. Everton Ribeiro foi contratado para ser o ponta articulador. O meia que sai do lado do campo para se movimentar às costas do volante, criar superioridade no meio e criar as jogadas. Mas para isso o ideal é que, como Ricardo Goulart fazia no Cruzeiro bicampeão brasileiro com o próprio Everton, o meia central no 4-2-3-1 que não se alterou com a mudança no comando técnico se aproxime mais do centroavante e se comporte como uma espécie de segundo atacante.

Diego Ribas não faz isso. Por costume, recua para ajudar na armação ou procura os lados do campo. Quando pisa na área sempre é mais útil, mas prefere voltar à intermediária. Pior: prende demais a bola, dá sempre um ou dois toques a mais e quase sempre atrasa a transição ofensiva. Tenta compensar com vontade, liderança positiva e qualidade nas cobranças de faltas e escanteios, mas coletivamente o saldo quase sempre é negativo.

Para aproveitar o espaço que o camisa sete deixa à direita, um lateral de velocidade daria uma opção interessante para buscar a linha de fundo. Não é Pará. Seria Rodinei, mas este tem sérios problemas de leitura de jogo e, principalmente, no posicionamento defensivo.

Porque os zagueiros, embora experientes e de bom nível técnico, são lentos. Para evitar os muitos gols sofridos nas costas da última linha no final do trabalho de Zé Ricardo, Rueda prefere os laterais com um posicionamento mais conservador.

Também para encaixar Cuéllar no meio-campo, à frente da retaguarda. Mas o colombiano, embora tenha bom passe, não é o organizador que o setor precisa nesta ideia de ser protagonista, jogar no campo adversário e controlar as partidas com posse de bola. Nem ele, nem Willian Arão, que eventualmente até acerta alguns passes em profundidade, mas tem como principal virtude a infiltração. O camisa cinco, porém, é um atleta que nitidamente se permite afetar pelas instabilidades do time e sente as cobranças. Sem contar a dispersão no trabalho defensivo.

Por isso Márcio Araújo acaba jogando mais do que deveria. Com Zé Ricardo e agora ganhando chances com Rueda em algumas partidas. No Couto Pereira, o gol de Cléber logo aos sete minutos fez com que a presença do volante se tornasse ainda mais desnecessária por sua nulidade na construção das jogadas. Só deixou o campo aos 13 minutos da segunda etapa. Joga porque defende melhor que Arão e protege a zaga sem velocidade. Romulo não justificou a contratação e o jovem Ronaldo, sem oportunidades, foi ganhar rodagem no Atlético-GO.

Na frente, outro problema: Guerrero não é o típico centroavante, que fica na área e finaliza com bom aproveitamento. O peruano sempre foi muito mais de circular e trabalhar coletivamente. No Fla se destaca pelo trabalho de pivô, por conta de todos os problemas do meio-campo na criação. Recua, faz a parede e procura os ponteiros. Muitas vezes não dá tempo de chegar na área. E dificilmente recebe a bola com chance clara de concluir com liberdade porque as jogadas não fluem, há poucas infiltrações em diagonal.

Porque os ponteiros não têm essa característica. Nem Berrío, agora lesionado, nem Everton. O ponta pela esquerda até vem aparecendo na área e já fez dez gols na temporada. Mas poderia ter feito bem mais se nas muitas vezes em que Guerrero recuou ele penetrasse no espaço certo. Não tem o hábito.

Assim como Filipe Vizeu, o substituto de Guerrero, parece não ter aprendido nas divisões de base a fazer a proteção da bola para a aproximação dos companheiros. Nem fazer a leitura do espaço que precisa atacar para chegar em melhores condições para finalizar. Não é o centroavante para a proposta rubro-negra. Por isso a improvisação de Lucas Paquetá, que não é exatamente um goleador e, apesar da luta, desperdiça oportunidades cristalinas como a que o goleiro Wilson salvou no primeiro tempo em Curitiba.

O encaixe mais promissor foi quando Rueda utilizou Orlando Berrío pela direita com Pará e Everton Ribeiro à esquerda. Se Trauco e Renê também não são laterais rápidos na chegada ao fundo, ao menos a movimentação do meia abria espaços para o deslocamento de Guerrero, que prefere buscar aquele setor e não faz o mesmo movimento à direita. Mas o colombiano teve grave lesão e só volta em 2018 e o peruano está suspenso por doping e também só deve retornar no ano que vem.

Todo esse cenário desfavorável, sem que os treinadores encontrem soluções, é que parece ser o responsável por esse desânimo que se vê em campo. Os jogadores percebem que não combinam entre si e se acomodam. Começa a se espalhar a ideia de “fazer o seu e, se não dá certo, a culpa não é sua”. A desclassificação na fase de grupos na Libertadores foi um golpe na confiança que vinha em alta com a boa campanha no Brasileiro do ano passado e o título estadual.

As críticas e protestos de torcida e parte da mídia, porém, são justas porque nos clássicos cariocas, por conta de uma mentalidade provinciana que impera no clube há algum tempo, aparece a indignação com a derrota. Algo fundamental quando as coisas não vão bem. Um nível mais alto de concentração, fibra e entrega para compensar os problemas. Em jogos “comuns”, ainda mais numa competição por pontos corridos e que nunca foi tratada como prioridade ao longo da temporada, volta a apatia.

Quem deve ser responsabilizado? Todos no clube, mas principalmente a direção. Por erros de planejamento, como ter apenas Alex Muralha e Thiago como goleiros em boa parte da temporada, escolha que acabou prejudicando demais o time na final da Copa do Brasil. Diego Alves chegou tarde.

Também por não perceber as necessidades reais da equipe e contratar Berrío, sendo que o pedido de Zé Ricardo tinha sido um ponteiro driblador e com bom poder de finalização para deixar o ataque menos “arame liso” – cerca, mas não fura – em jogos grandes ou confrontos mais parelhos.  Vinícius Júnior pode até vir a ser este atacante rápido, criativo e com boa finalização, mas é injusto cobrar de um menino de 17 anos, já negociado com o Real Madrid, que seja o pilar ofensivo de um time grande recheado de jogadores experientes e rodados.

O ambiente acaba se tornando um tanto permissivo e morno. Uma falsa sensação de estabilidade, sem grandes cobranças. Talvez por não ter entregado o seu melhor, a direção não se sinta confortável para exigir. Mesmo com salários em dia e melhor estrutura no CT. Vez ou outra ecoa uma voz dissonante, como Juan ou Everton Ribeiro, que na saída de campo no Couto Pereira reclamou que “todo jogo é assim”.

Rueda tem perfil mais administrador, não de ruptura, criativo, ousado para encontrar saídas. A impressão é de que vai tentar o título da Sul-Americana, mas já pensa em reestruturar o elenco para 2018 dentro do que pensa sobre futebol. A dúvida é se será suficiente. Nas coletivas diz não conseguir encontrar explicações para o mau momento. Será que enxerga?

Por tudo isso o Flamengo vive essa lenta agonia em 2017. Ainda com chances de conseguir pelo Brasileiro a vaga nas fases preliminares na Libertadores – insatisfatório diante de tanto investimento. Vivo na semifinal do torneio continental contra o Junior Barranquilla.

Mas que não desperta confiança. Porque os jogadores não combinam e parecem cansados fisicamente e sem força mental para buscar algo que não veio durante toda a temporada. Restam a frustração e a revolta da maior torcida do país. Um desperdício.

(Estatísticas: Footstats)


Zé Ricardo sendo Mannarino no Vasco que já pensa em “G-7”
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André Rocha

José Ricardo Mannarino sempre que pode assume o italiano do sobrenome no futebol. Na visão mais clichê da escola tetracampeã mundial: privilegia a defesa.

Não que despreze o futebol bem jogado. No Flamengo campeão da Copinha em 2016 posicionava o técnico volante Ronaldo solitário à frente da defesa, quatro meias com características ofensivas se aproximando de Filipe Vizeu. Mas todos com função sem a bola. No fundo, o que o treinador preza é a organização.

A marca do Vasco que venceu o Botafogo no Maracanã e alcança o segundo triunfo consecutivo. Em seis jogos, 61% de aproveitamento e derrota apenas para o Corinthians com o gol polêmico de Jô. Um dos quatro sofridos. Dois empates, vitórias com vantagem mínima que fazem a equipe dormir na oitava posição. Com o G-6 podendo ganhar mais uma vaga pelo Brasileiro por conta da boa campanha do Cruzeiro campeão da Copa do Brasil, é possível sonhar.

Foi o clássico em que pela primeira vez o time comandado por Zé Ricardo teve menos posse de bola que o Botafogo de Jair Ventura – terminou com 39%. Sem a obrigação de protagonismo que carregava no Flamengo. Cedeu espaços, compactou setores na execução do 4-2-3-1 que dá liberdade a Nenê mais próximo de Thalles, substituto do argentino Andrés Rios, suspenso pela expulsão contra o Avaí.

Mais uma vez, destaque para o surpreendente Wellington. Volante tratado inicialmente como o “Márcio Araújo do Vasco”, apresenta dinâmica bem diferente. Participa da construção das jogadas com passes simples, porém certos, e ainda aparece na frente para finalizar. Como no chute na trave direita de Gatito Fernández no primeiro tempo.

Zé Ricardo perdeu Wagner, que com Nenê e Mateus Vital garantem mobilidade no trio de meias. Mas como todos tendem a procurar o setor esquerdo, o corredor do lado oposto fica aberto para o apoio de Madson. O lateral ganhou companhia com a entrada de Yago Pikachu. Na esquerda, Ramon guarda mais sua posição e só desce com segurança.

Concentração e coordenação dos setores para controlar espaços e equilibrar as ações contra qualquer equipe. Jogo definido no detalhe, em lances discutíveis na sequência e que geraram polêmica depois de Nenê colocar nas redes e explodir a massa vascaína. Este que escreve não viu pênalti no toque de Madson que pegou na coxa antes de acertar o braço na disputa com Pimpão. No gol, a impressão depois de rever é de que o toque do meia foi no peito. Dificil para a arbitragem.

De novo faltou contundência ao Botafogo. Das 16 finalizações, apenas duas no alvo. Também criatividade, mesmo com João Paulo e Marcus Vinicius se juntando a Bruno Silva na articulação. O Vasco contribuiu com desempenho coletivo sem a bola e boas atuações de Breno, Anderson Martins e Jean. Defesa forte, como quer seu treinador.

Porque no Vasco, Zé Ricardo pode ser Zé Ricardo. Na essência. Mais Mannarino do que nunca.

(Estatísticas: Footstats)

 


Como o Flamengo pode esperar resultados diferentes de escolhas semelhantes?
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André Rocha

O Flamengo do empate sem gols na Arena Condá não teve desta vez os elos fracos que costumam comprometer o desempenho coletivo com falhas individuais. A escalação foi bastante coerente, considerando as últimas partidas sob o comando de Reinaldo Rueda.

O problema não foi a falta de entrega em campo ou fibra. Até porque esse time costuma se abater quando sofre um gol e não foi o caso em Chapecó, apesar das boas oportunidades da equipe catarinense no segundo tempo. Principalmente depois da entrada do equatoriano Penilla que deitou e rolou sobre Rodinei.

O velho clichê “Queremos raça!” gritado nas arquibancadas nem sempre é a solução para todos os problemas. Muitas vezes o time não é “sem vergonha”, ainda que não seja um exemplo de superação ou garra. O jogo é que não flui, por uma série de fatores.

Como as características dos jogadores que não combinam. Quem vê o lado direito com Rodinei e Berrío, dois velocistas sem grande leitura de jogo e senso coletivo, percebe que a presença de Everton Ribeiro como ponta articulador daria ao setor a qualidade no passe e o deslocamento para o lateral ultrapassar.

Mas para isso é necessário que Diego, o meia central do 4-2-3-1 rubro-negro, se apresente para tabelas rápidas ou infiltre no espaço certo. Como, por exemplo, Ricardo Goulart fazia com perfeição no Cruzeiro bicampeão brasileiro. Mas o camisa dez, ao menos na numeração da Copa Sul-Americana, prefere recuar para tentar organizar o jogo a usar o seu bom poder de finalização.

Mesmo com o meio-campo mais qualificado depois da efetivação de Cuéllar e Willian Arão à frente da defesa. A saída de bola ficou mais limpa e poderia encontrar Diego adiantado, perto da zona de decisão. Com essa dinâmica dos meias criativos o ataque podia, enfim, depender menos do trabalho de pivô de Paolo Guerrero.

O peruano precisa recuar sempre e aparece ou se desloca menos para buscar a finalização. Serve mais do que é abastecido. Abre na ponta e quando chega na área a jogada é previsivel. Porque os ponteiros Berrío e Everton não surpreendem, com exceção do drible do colombiano que resolveu a semifinal da Copa do Brasil.

Torneio, aliás, que há algum tempo vem norteando a montagem do time titular. Por isso Everton Ribeiro perdeu espaço. Mas Berrío não pode, por isto, ser considerado intocável, absoluto.

Uma jogada eventual que parece garantir uma sobrevida entre os que ganham mais minutos, além do fato de ter trabalhado com o treinador no Atlético Nacional. A produção, porém, não é consistente. Muitos erros técnicos ou na leitura das jogadas.

O resultado final é um time travado, com um ou outro lampejo. Porque parece pronto para os contragolpes, mas pelo peso da camisa e por conta da badalação  (exagerada) do  elenco, se coloca como protagonista nas partidas, se instala no campo de ataque e troca passes. Mas sem espaços não consegue acelerar. Um paradoxo.

Por isso o ataque “arame liso”, que cerca mas sofre para furar a defesa do oponente. Sem criatividade e contundência. Exatamente pela falta de ideias. Talvez intimidadas pela necessidade de vitórias e títulos. Era assim com Zé Ricardo, segue com Rueda, que sabia que precisava dar uma resposta imediata no desempenho para obter vitórias a curto prazo.

Mas como obter resultados diferentes com escolhas semelhantes? Com uma ou outra mudança, por necessidade ou convicção do novo treinador, a essência é a mesma, principalmente nas ações ofensivas. O fluxo de passes segue muito parecido quando se aproxima da área adversária. Ainda a bola que gira, perde tempo com Diego que sempre prende, no mínimo, um segundo a mais. Passa por Guerrero, chega a Arão até parar no flanco, mesmo que cruzando, na média, menos que nos tempos de Zé Ricardo.

Deficiências já conhecidas e não corrigidas. Hora de fugir das explicações de sempre e encontrar novas soluções a tempo de salvar o ano em que o orçamento permitiu mais investimentos no futebol. Fechar 2017 apenas com um título estadual será bem pouco para quem gasta tanto.


Flamengo com Rueda: sem “mágica”, só o impacto da mudança. Por enquanto
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André Rocha

Três vitórias, um empate. Nenhum gol sofrido. Classificação para a final da Copa do Brasil. Não há como negar que o saldo do início do trabalho de Reinaldo Rueda no Flamengo é bem positivo.

Só que a análise tendo como base apenas resultados e números frios carregam algumas convicções um tanto distorcidas. A maior delas de que houve uma transformação “mágica” no modelo de jogo em duas semanas, sem tempo para treinamentos, com duas partidas a cada sete dias, sendo uma com time praticamente reserva. Apenas no papo e no carisma.

É preciso primeiro analisar o contexto. A saída de Zé Ricardo marcou o fim de um período de desgaste absurdo, com o treinador sendo questionado em praticamente todas as suas decisões, jogadores perseguidos e problemas claros, evidentes, porém não corrigidos.

Tudo isso com um clássico estadual valendo vaga na decisão de um grande torneio nacional. Reinaldo Rueda chegou com aval de boa parte da torcida, que inclusive fez campanha para a sua contratação nas redes sociais. Ou seja, a mobilização estava construída.

Efeito imediato: atletas que não vinham ganhando oportunidades renovaram o ânimo, titulares absolutos temendo perder espaço voltaram a se concentrar. Todos atentos, com um objetivo a curtíssimo prazo e sem terra arrasada, já que o trabalho de Zé Ricardo, se analisado no todo, deixou ao menos uma ideia de como aproveitar melhor as peças do elenco.

Nem que seja por seus erros. O experiente Rueda já tinha a solução para a grande discordância do torcedor com o comandante anterior: Márcio Araújo. O colombiano conhecia bem Cuéllar, havia indicado o compatriota ao Atlético Nacional e a mudança foi natural.

Rafael Vaz foi aproveitado apenas na lateral-esquerda contra o Atlético-GO. Outro elo fraco no banco. Alex Muralha, que iniciou a primeira partida da semifinal da Copa do Brasil acabou expulso e deixou a vaga para Thiago. No Brasileiro, Diego Alves é absoluto. Mais um problema resolvido.

Para corrigir as deficiências no trabalho defensivo, soluções simples: acabou com a saída de bola “lavolpiana”, com zagueiros abrindo, volante recuando e laterais se projetando e se expondo demais no caso de perder a bola. Agora a equipe sai com jogadores mais próximos, de forma cuidadosa. Willian Arão recua com Cuéllar para dar opção.

Os laterais apoiam alternadamente. Com a lesão de Renê e a falta de confiança em Trauco depois da atuação catastrófica na derrota para o Atlético Mineiro que Rueda assistiu no estádio em Belo Horizonte, a efetivação de Pará foi o símbolo dessa busca por mais segurança.

Rodinei também adota posicionamento mais conservador pela direita. Mas as dificuldades ainda estão lá, como olhar a bola e esquecer o atacante na disputa com Guilherme no início da segunda semifinal no Maracanã. Um gol do Botafogo podia ter mudado a história do confronto.

Ofensivamente, a estrutura da equipe titular, até pela impossibilidade de escalar Everton Ribeiro e Geuvânio na Copa do Brasil, se manteve como nos tempos de Zé Ricardo: quarteto ofensivo do 4-2-3-1 com Diego centralizado atrás de Guerrero e dois ponteiros. Um Berrío confiante com a chegada do treinador com quem ganhou tudo no Atlético Nacional e Everton do lado oposto.

Outra mudança básica atendendo a pedidos, ou porque saltava aos olhos mesmo: reduzir o número de cruzamentos. A equipe rubro-negra retomou a ideia de trabalhar mais as jogadas com triangulações pelos flancos. Rodinei, Berrío e Arão pela direita; Pará, Everton e Diego à esquerda. De mais de quarenta caiu para 25 na média.

Se ganhou as infiltrações do redivivo Arão e não depende mais tanto do pivô de Guerrero, Diego continua com dificuldades para fazer o jogo fluir mais rápido. Apesar dos gols contra Botafogo e Atlético-PR, o meia segue atrasando boa parte das ações ofensivas ao dominar, girar, dar mais um toque e só então soltar a bola. Quando não é desarmado pela marcação pressionada do adversário. Mesmo respeitando as características do jogador é algo a ser minimizado, ao menos.

Ou seja, não há mágica. Elenco motivado, torcida apoiando, um grande treinador dando seus toques e efetuando correções para erros grosseiros. Como um segundo olhar na revisão de um texto ou a opinião de alguém de fora de um problema. Sem transformações, porém. Por enquanto.

Para usar o exemplo mais impressionante dos últimos doze meses, Tite conseguiu vitórias fundamentais no início do trabalho na seleção brasileira, mas o salto de desempenho veio na sequência, depois de um período maior de observação e análise e mais sessões de treinamentos.

Sem a intenção de comparar currículos e contextos, cabe lembrar as cinco vitórias seguidas do Flamengo sob o comando de Vanderlei Luxemburgo em 2014 e as seis de Oswaldo de Oliveira no ano seguinte para ilustrar e reforçar a ideia de que o impacto de uma mudança no comando técnico pode ser algo efêmero, circunstancial. Movido mais pela motivação e que pode ser diluído se o trabalho não for consistente.

A mobilização continua com a primeira final da Copa do Brasil contra o Cruzeiro no dia sete de setembro, os confrontos com a Chapecoense na Sul-Americana e até mesmo o pequeno sopro de esperança no Brasileiro com as derrotas do líder Corinthians.

Cabe a Rueda seguir trabalhando para adicionar conteúdo, afinar a sintonia com os comandados e, enfim, estabelecer sua filosofia de jogo. Consolidar uma evolução. O início já se mostra promissor. Mas é só um começo, sem magia ou milagre.


O golaço e o recado de Ramon na vitória para iniciar novo ciclo no Vasco
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André Rocha

Zé Ricardo estava no camarote, Valdir Bigode à beira do campo no comando interino. Um Vasco diferente com Nenê jogando mais solto no 4-2-3-1, Wagner pela esquerda e a surpresa: o argentino Andrés Rios no centro do ataque.

É possível atribuir a boa atuação cruzmaltina na vitória sobre o Fluminense por 1 a 0 à motivação natural pela mudança de treinador. Reservas que se motivam, titulares que não querem perder o lugar. Todos mais atentos e dispostos.

E o principal, dentro do contexto do Brasileiro: pôde jogar sem propor, ficar com a bola e ocupar o campo de ataque. Tarefa de um Fluminense em tese favorito antes da bola rolar, porém sem ideias para criar espaços. Armado por Abel Braga num 4-3-3 que tentava acelerar pelos flancos com os laterais Lucas e Léo se juntando a Wellington Silva e Gustavo Scarpa, que se alternavam nas pontas.

O problema era o meio-campo muito “duro”, sem um passe diferente ou a condução com qualidade. Seja de Orejuela ou Wendel. Muito menos de Marlon Freitas, que junto com Lucas falharam ao deixar espaços para Ramon acertar um chutaço no ângulo de Julio Cesar.

Lateral vascaíno que na entrevista na saída para o intervalo foi certeiro ao ressaltar a necessidade de jogar futebol com mais naturalidade. Talvez fosse uma alfinetada ou indireta para Milton Mendes, mas numa análise macro do que se joga no país é algo fundamental e urgente. Fala-se muito em intensidade, garra, entrega, compactação sem bola, mas pouco em qualidade técnica.

O que novamente faltou ao Flu na segunda etapa. Abel empilhou atacantes: Peu, Matheus Alessandro e Romarinho nas vagas de Marlon Freitas, Lucas e Wendel. Mas só aos 36 minutos o artilheiro Henrique Dourado apareceu com bela jogada, mas finalização pífia. Sintomático em uma atuação decepcionante para quem vinha em recuperação no campeonato.

Do outro lado, Rios foi boa surpresa fazendo interessante trabalho de pivô e dando sequência às jogadas. Algo para Zé Ricardo considerar como opção para a formatação do ataque. Mesmo desperdiçando oportunidades com Guilherme Costa e Paulinho, os substitutos de Wagner e Nenê, o desempenho foi seguro. Sem maiores sustos.

Mais uma derrota de quem teve a posse, ainda que a diferença tenha sido pequena (52%). O Vasco foi mais objetivo, finalizou 19 vezes, dez a mais que o rival. E 24 desarmes certos, o dobro do Flu. Entrega e organização, com a simplicidade de Valdir Bigode. Boa herança para o novo treinador.

Vida nova para o Vasco, que terminou o clássico na primeira página da tabela. Graças ao golaço de Ramon. Que os recados do lateral dentro e fora de campo tenham sido bem entendidos por um Vasco que pode jogar mais e terminar 2017 sem sustos.

(Estatísticas: Footstats)


Zé Ricardo é mais um que cai no conto do estadual, a ilusão do Flamengo
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André Rocha

No on e no off da entrevista que Zé Ricardo concedeu a este blog antes da estreia no Brasileiro (leia AQUI), ficou claro que o jovem treinador sentia mais confiança no próprio trabalho depois da conquista do Campeonato Carioca.

O papo foi entremeado por colocações como “agora posso arriscar mais” e “depois do título tenho mais respaldo”. A que mais chamou atenção, porém, foi a de que dormiu mal durante as semanas que antecederam os clássicos contra o Fluminense e “ainda tinha o jogo contra a Universidad Católica”.

Hoje, com a distância do olhar, é impossível, guardando todas as proporções, não lembrar da despedida de Joel Santana em 2008. Um jogo eliminatório de oitavas de final da Libertadores tratado como um amistoso festivo pela conquista do estadual e de lamento pela saída do treinador que iria para a África do Sul. O América do México e Cabañas tornaram aquela noite de triste memória para os flamenguistas.

De novo a prioridade, ainda que intuitiva, que o Flamengo dá ao Carioca. Um torneio irrelevante na análise da temporada que no calor da disputa ganha importância desmedida. Talvez pela rivalidade criada na cidade, que naturalmente é mais forte de Vasco, Botafogo e Fluminense contra o rubro-negro. Ou por encarar como uma chance de título mais palpável e imediata, ainda mais agora com a Libertadores sendo decidida apenas no final do ano. Ou simplesmente algo cultural.

Zé Ricardo se sentiu aliviado pelo primeiro título da carreira. Mas exatamente uma semana depois da entrevista viria o golpe mais duro e inesperado: a derrota para o San Lorenzo em Buenos Aires combinada com a vitória do Atlético Paranaense no Chile sobre a Universidad Católica que decretou a eliminação da Libertadores ainda na fase de grupos.

Algo que não passava pela cabeça do técnico porque considerava que seus atletas também haviam tirado um peso das costas com o título. Já fazia planos com Conca, talvez Everton Ribeiro. Voos mais altos. Tudo desabou naquela noite no Nuevo Gasometro. Para não voltar mais.

Campanha decepcionante no primeiro turno do Brasileiro, duas classificações suadas e cercadas de críticas pelo desempenho contra Atlético-GO e Santos na Copa do Brasil e o consolo da Sul-Americana apenas começando contra o Palestino, algoz no ano passado. A única surpresa desagradável de um 2016 em que Zé Ricardo surgiu como uma boa nova na Gávea, sucedendo Muricy Ramalho e organizando uma equipe que parecia perdida.

Assim como agora dá a impressão de estar sem rumo. Contratações importantes no meio da temporada, sem tempo para treinar e ganhar entrosamento. Também não podem colaborar na Copa do Brasil, competição em tese com mais chances de título por já estar na fase semifinal. Não estão inscritos. Chegaram tarde.

A conclusão a que se pode chegar é que, sem perceber, o Flamengo se prepara mesmo é para a disputa do estadual. Porque é na pré-temporada que as contratações do segundo semestre do ano anterior têm tempo para se preparar. E na fase decisiva o clube se mobiliza tratando todo resto como secundário.

O trabalho de Zé Ricardo pereceu nesta ilusão. Assim como Ney Franco há dez anos. Campeão carioca, eliminado pelo Defensor nas oitavas do torneio sul-americano e depois perdendo o emprego por uma sequência ruim no Brasileiro. Para Joel voltar, construir uma fantástica arrancada que terminou com a improvável vaga na Libertadores. Até a noite de Cabañas.

Os nomes aventados para a sucessão não empolgam: Jorginho, Paulo César Carpegiani..ou tentar demover Roger Machado da decisão de não mais trabalhar no Brasil em 2017. Arriscar um treinador estrangeiro como Reinaldo Rueda, atual campeão da Libertadores com o Atlético Nacional. Ou mesmo efetivar novamente Jayme de Almeida na esperança de repetir 2013 na Copa do Brasil.

De qualquer forma, a trajetória de Zé Ricardo não tinha mais como prosseguir. Não por pressão de torcida ou apenas pelos resultados. Mas por não entregar o básico em qualquer avaliação de um profissional: margem de evolução. Perdeu conteúdo e confiança. Sem chance de recuperação.

Porque em maio foi mais um treinador do Fla a cair no conto do estadual. Um engano que trava o clube na busca de protagonismo no cenário nacional e sul-americano.


Arame liso, pecho frio, elos fracos. Roteiro do Flamengo segue o mesmo
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André Rocha

Para quem não acompanha este que escreve nas redes sociais e está chegando agora ao blog, segue um “glossário” para os termos citados no título do post:

Arame liso – Cerca, mas não fura. Não machuca ninguém. O Flamengo segue com um ataque que precisa de muitas oportunidades para ir às redes. Na derrota por 2 a 0 para o Vitória na Arena da Ilha do Governador, Vizeu, substituto do lesionado Guerrero, perdeu duas chances claras na primeira etapa, ainda com empate sem gols. Para uma equipe pressionada e sem confiança, não sair na frente e trazer a torcida para perto foi fatal.

Pecho frio – Termo muito usado na Argentina. Peito frio. Ou time que se abate nas dificuldades, não encontra forças para se recuperar. Nos jogos mais equilibrados este perfil menos guerreiro, que aceita a derrota sem a indignação própria dos grandes times, faz diferença. É anímico. E fica claro inclusive nas entrevistas do treinador Zé Ricardo e dos jogadores. Conformismo.

Elos fracos – Jogadores que erram seguidamente e comprometem a equipe. Muralha, Rafael Vaz, Rodinei, Márcio Araújo…A lista é extensa, e torna ainda mais questionável a ideia de que o elenco é forte, um dos melhores do país. Novo revés por falhas individuais. Willian Arão, escalado na função de Márcio Araújo, errou feio no passe, Yago não perdoou e acertou no ângulo de Diego Alves. Depois Rever vacilou na disputa com Tréllez e cometeu pênalti. Duvidoso, mas marcável. A cobrança perfeita de Neilton resolveu o jogo.

Neste cenário, pouco adianta a mudança de nomes, embora a saída de Márcio Araújo tenha melhorado a construção das jogadas desde a defesa e fez a equipe circular mais a bola, sem apelar para os cruzamentos aleatórios. A impressão é de que Cuéllar seria mais apto à função que Arão. Assim como Berrío mostrou quando entrou que é mais útil que Geuvânio vindo de lesão.

Arriscar para sair da mesmice, buscar evolução sem se render à mediocridade habitual é sempre saudável. Mas como se impor quando o domínio não se traduz em gols, os erros individuais desmontam o sistema defensivo e a equipe não encontra forças para reagir? O Vitória, mais organizado e confiante depois da chegada de Vágner Mancini, foi apenas mais um a aproveitar, também por seus próprios méritos.

O roteiro de fracasso do Flamengo continua intacto. A nau do futebol do clube parece à deriva. Mesmo com chances de título ainda na Copa do Brasil e na Sul-Americana, qualquer mudança de rota parece tardia. Porque os defeitos seguem os mesmos. Há tempos.


Problemas do Flamengo desconcentram Corinthians em jogo maluco. Empate ruim
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André Rocha

Antes de qualquer análise da disputa em si, é dever ressaltar o erro grotesco, imperdoável da equipe de arbitragem liderada por Ricardo Marques Ribeiro no gol absurdamente mal anulado do Corinthians. Jô recebe passe de Maycon três metros (!) atrás da linha da bola.

Ainda que o mesmo Jô tenha aberto o placar logo em seguida aproveitando passe de Balbuena, o crônico erro de posicionamento da defesa rubro-negra permitindo a infiltração e o estreante Diego Alves mal colocado, não dá para dizer que o mandante não foi prejudicado.

Porque o Flamengo se abateu tanto por ter permitido a finalização na primeira jogada bem coordenada pelo adversário que teria se desmanchado se o gol tivesse sido validado. Difícil prever o que aconteceria na sequência.

Mas também não dá para descartar a hipótese do líder do campeonato ter antecipado a postura conservadora, confiando na capacidade de controlar os espaços e de negar as finalizações com os movimentos perfeitos da última linha de defesa.

Futebol é louco e apaixonante pelas surpresas que reserva conforme o jogo anda. O Flamengo sem ideias e evolução, com Márcio Araújo inoperante na fase ofensiva, com direito a uma finalização bizarra com total liberdade, e Diego girando, prendendo a bola e travando o jogo novamente.

O Corinthians repousou no resultado, acomodado pelas fragilidades do oponente, perdendo força na saída para os contragolpes depois da troca de Marquinhos Gabriel, lesionado, por Giovanni Augusto. Especialmente sentindo falta de Romero, que ataca os espaços certos em velocidade. Clayson se esforçou, mas não conseguiu manter o desempenho. Rodriguinho, o meia central atrás do centroavante no 4-2-3-1, novamente ficou devendo.

No segundo tempo, as entradas de Willian Arão e Berrío nas vagas de Cuéllar e Trauco distribuíram melhor o Flamengo em campo. Everton ocupava todo flanco esquerdo e seu xará, o Ribeiro, se juntava a Diego e Guerrero no centro para articular e rondar a área corintiana.

Sim, mais uma vez o time de Zé Ricardo exagerou nos cruzamentos. Foram 41 no total. No 30º saiu o belo gol de Rever com assistência de Juan, que antes obrigara Cássio a uma defesaça. Mas a grande oportunidade foi em jogada bem trabalhada com bola no chão, em velocidade, passando por Berrío, Guerrero e Arão. Diego, porém, errou feio na finalização, perdendo gol feito. Mais uma atuação bem abaixo da média do meia. Mas só saiu com dores na mão para a entrada de Vinicius Júnior.

O jogo ficou aberto com o Corinthians tentando atacar para sair do sufoco. Mas desta vez a descoordenação dos setores não permitiu que os substitutos Pedrinho e Camacho fizessem subir o desempenho pelo aspecto físico. Ainda assim, a chance da vitória caiu nos pés de Jô em novo chute cruzado, mas desta vez Diego Alves estava bem posicionado. Na sequência, pixotada de Pedro Henrique, o elo fraco na defesa corintiana, e bola no travessão.

O empate deixa a impressão, mais uma vez, de que o Flamengo tem potencial para render muito mais em termos coletivos. Na segunda etapa, foi quem fez o melhor time da competição mais sofrer e ver sua invencibilidade de fato em risco. Teve 55% de posse e finalizou 15 vezes, mas só duas no alvo contra nove do Corinthians, três na direção da meta de Diego Alves.

Porque os desfalques pesaram na equipe de Fabio Carille e os problemas rubro-negros nitidamente desconcentraram os donos da casa em Itaquera. Jogo maluco, com altos e baixos. Ações e respostas inesperadas. Um erro capital da arbitragem. Um ponto para cada lado que não satisfaz ninguém.

(Estatísticas: Footstats)


Botafogo x Flamengo: caminhos opostos que se cruzam na semifinal nacional
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André Rocha

Um time que, ao menos em tese, pode tudo no futebol brasileiro. Mas que parece não fazer muita questão, ou não saber muito bem como chegar ao topo. Outro que constrói suas vitórias e só tem chance de ir longe exatamente por querer muito.

O Flamengo do elenco milionário, ainda que não possa escalar as contratações mais recentes na Copa do Brasil. O Botafogo dos recursos limitados, perdendo peças e se virando com o que tem. Os rubro-negros que venceram o Carioca e estão fora da Libertadores. Alvinegros que pelejaram no torneio continental desde as fases preliminares e, por isso, foram obrigados a priorizá-lo, deixando o estadual um pouco de lado.

A equipe de Jair Ventura achou no gol de Joel Carli logo aos quatro minutos de jogo no Nilton Santos a solução para não ser obrigado a propor o jogo e fugir da maneira de atuar com a qual se sente mais confortável. Início com intensidade, marcação no campo de ataque e apoio da torcida para sair na frente o mais rápido possível.

Deu certo. Ainda mais contra um Atlético Mineiro exposto, que adiantou as linhas, teve 62% de posse e efetuou 34 cruzamentos. Mas de 11 finalizações apenas duas foram na direção da meta de Jefferson. Já o Botafogo teve 22 desarmes corretos contra apenas oito do oponente e acertou quatro finalizações no alvo, num total de dez.

Assim construiu os 3 a 0 com gols de Roger e Gilson, um em cada tempo, já perto do final para não dar chances de reação ao adversário. Até quando vai às redes o time parece fazer na hora certa, sabendo o que quer.

O Flamengo também deu essa impressão, ao abrir o placar cedo na Vila Belmiro com o gol de Berrío completando belo passe de Diego – mais um que ele encaixa com precisão em contragolpe, com espaço. Mas, ao contrário de Jair Ventura, Zè Ricardo não consegue compensar coletivamente as limitações de seus comandados.

Ou dos que escolhe, como a inexplicável opção pelo retorno de Alex Muralha no gol, deixando Thiago no banco. Como se os 2 a 0 da Arena da Ilha não fossem reversíveis. Ou a Copa do Brasil, já nas quartas de final, fosse um torneio menos importante para um time que está 12 pontos atrás do líder Corinthians no Brasileiro.

Mesmo fazendo o segundo gol com Guerreiro no início da segunda etapa, após sofrer o empate com Bruno Henrique e ter corrido o risco de levar a virada no pênalti assinalado por Leandro Vuaden e depois invalidado com a ajuda do quarto árbitro, que observou que Rever tocou na bola na disputa com Bruno Henrique, o Flamengo conseguiu se complicar.

Porque a reunião de elos fracos sempre pode comprometer, ou ao menos complicar. Rafael Vaz vacilou e cedeu escanteio bobo, empate com Copete. Márcio Araújo perdeu duas disputas na proteção da retaguarda, a bola sobrou para Victor Ferraz marcar 3 a 2 e fazer a remontada parecer possível no modo “briga de rua” do time de Levir Culpi. Jogo aberto com 29 finalizações – 16 do Santos e 13 do Fla.

A noite na Vila Belmiro só não foi histórica para o alvinegro praiano pelo cansaço de quem sempre teve que subir a ladeira na partida e porque o gol de Copete, em nova hesitação de Muralha, saiu no último minuto dos quatro de acréscimo. No 39º cruzamento na área do time carioca, que perdeu força nos contragolpes com a entrada de mais um elo fraco: Gabriel. Com Mancuello e Vinicius Júnior no banco. A vaga veio mesmo no gol “qualificado”. Ou por não ter sido vazado no Rio de Janeiro. Com Thiago na meta.

Mesmo classificado, o Flamengo novamente deixou o campo num jogo eliminatório exalando fragilidade, sem transmitir a mínima confiança. O que os argentinos chamam de “pecho frio”. Exatamente o contrário do “cascudo” Botafogo. De Jefferson que voltou com autoridade à meta, de Matheus Fernandes, 19 anos com a serenidade de um veterano no meio-campo. Do Roger da bela história de vida com Giulia, sua filha deficiente visual. Do incansável Pimpão.

De uma força mental que parece inabalável no mata-mata. Na semifinal da Copa do Brasil e com classificação encaminhada para as quartas da Libertadores. Subindo e descendo no Brasileiro, mas com campanha digna, na disputa do G-6. Sem recursos generosos, sem holofotes. Mas com aquilo que é difícil definir e, na falta de um nome, chamam de alma.

O que o Flamengo vai precisar tirar de onde até agora não se viu para chegar à sua sétima final de Copa do Brasil. Porque, até pela rivalidade fortalecida recentemente nos bastidores, o Botafogo vai deixar tudo em campo nas duas partidas. E não é pouco.

Os caminhos opostos vão se cruzar no clássico carioca que vale vaga numa decisão nacional. No papel há um favorito. No espírito, outro. Como balanços e relatórios de finanças não entram em campo, o Bota hoje parece mais forte.

(Estatísticas: Footstats)