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Real Madrid é o novo gigante estudado e parado. Pochettino achou a fórmula
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André Rocha

O 5-3-1-1 do Tottenham que bloqueou as principais virtudes e explorou as deficiências de um Real Madrid no pior momento da temporada. Especialmente Dele Alli circulando às costas de Casemiro e se aproximando de Harry Kane (Tactical Pad).

Só os próximos jogos dirão se o Real Madrid teve sua confiança abalada pela derrota em Girona no Espanhol. Apenas o tempo é capaz de mostrar ou ao menos sugerir um ponto de virada quando uma grande equipe entra em seu ocaso, ou ao menos um período de oscilação.

Mas o fato é que o bicampeão europeu vive seu pior momento na temporada 2017/2018. Não só por ver o Barcelona disparar na liderança da liga nacional e a grande chance de terminar em segundo no Grupo H da Liga dos Campeões, mas principalmente pela queda de desempenho. Muito pela ausência de Carvajal que tirou força ofensiva pela direita.

Nada, porém, que tire o grande mérito do Tottenham na vitória por 3 a 1 sobre os merengues em Wembley. Porque o treinador argentino Mauricio Pochettino parece ter encontrado a fórmula para superar a equipe de Zidane. Acontece com todos os grandes times: são mapeados, dissecados e vencidos. É o ciclo do futebol. Inevitável com tantas informações disponíveis e profissionais competentes analisando e planejando.

Pochettino não abriu mão da marcação por zona. Nem impediu que o Real terminasse com 57% de posse, 84% de efetividade nos passes e dez finalizações na direção da meta de Hugo Lloris. Mas a distribuição de seus jogadores em campo e a boa execução do plano de jogo criaram muitos problemas para os espanhois.

A começar pela linha de cinco na defesa que virou “moda” na Inglaterra com o sucesso do Chelsea de Antonio Conte. Com os laterais Trippier e Davies bem abertos fechando as descidas dos laterais Achraf e Marcelo, as opções de Zidane no 4-3-1-2 habitual para esgarçar a retaguarda adversária. Também aproveitando o corredor às costas dos oponentes, especialmente Trippier contra Marcelo, como no lance do primeiro gol da partida – com o jogador da equipe inglesa impedido antes se servir Dele Alli.

Davinson Sánchez, Eric Dier, que recuou para a zaga com a saída de Alderweireld, lesionado, logo aos 23 minutos para a entrada de Sissoko, e Vertonghen no centro fechando as diagonais e infiltrações de Cristiano Ronaldo e Benzema, a dupla de ataque bem entrosada com o francês trabalhando para o atual melhor do mundo brilhar.

No meio, um losango não para espelhar o do Real, mas para frear a fluência no setor mais forte do Real Madrid. Harry Winks plantado à frente da defesa negando espaços para a flutuação de Isco. Sissoko marcava pela direita, na zona de Toni Kroos, e Eriksen bloqueava pela esquerda, por onde normalmente circula Luka Modric. Jogadores bem próximos para não deixar brechas.

O jovem e talentoso Dele Alli era a chave para transformar o trabalho sem a bola em transições ofensivas ultravelozes e letais. Porque o meia inglês dificultava a saída de bola rival e circulava às costas de Casemiro para se juntar a Harry Kane, o atacante único do 5-3-1-1 do time londrino. Procurando os lados para abrir espaços e infiltrar em diagonal. Levando vantagem seguida sobre Nacho e Sergio Ramos, a frágil e exposta dupla de zaga merengue.

Sete finalizações no alvo. Duas infiltrações de Alli, uma de Eriksen construíram os 3 a 0 que Cristiano Ronaldo diminuiu. Lloris fez boas defesas, até porque é difícil não ser ameaçado pelo (ainda) melhor time do mundo. Mas o Tottenham mostra para o mundo como bloquear as principais virtudes e explorar as dificuldades do gigante de Madrid.

Com a assinatura de Mauricio Pochettino. Para o Tottenham garantir a classificação e buscar pela principal competição de clubes do planeta o reconhecimento do bom trabalho a longo prazo realizado em Londres.

(Estatísticas: UEFA)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Os clichês do papelão do Real Madrid na derrota histórica em Girona
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André Rocha

Algumas explicações no futebol viram clichês porque passam a ser utilizadas para justificar qualquer contexto. Mas se transformaram num senso comum exatamente pela frequência com que acontecem. Devemos sempre evitar o simplismo, mas às vezes é tão nítido que se torna inevitável.

O Real Madrid entrou de “salto alto” em Girona, na Catalunha. Ou seja, com a fé de que construiria a vitória naturalmente, quando bem entendesse diante de um debutante na primeira divisão e já lutando para não ser rebaixado. Com titulares em campo, a melhor formação – exceto Casilla no lugar de Navas e Achraf no lugar de Carvajal. Pensando, porém, na viagem a Londres para encarar o Tottenham pela Liga dos Campeões, a grande meta na temporada.

A ponto de arriscar uma saída de bola inédita, com Isco se juntando a Modric e Kroos no auxílio aos zagueiros Varane e Sergio Ramos e mandando os laterais Achraf e Marcelo e também Casemiro ao campo de ataque. Quem qualifica o passe desde a defesa recua, os jogadores com mais força e velocidade se projetam.

Mas bastava um passe errado para o time da casa encontrar uma retaguarda totalmente desorganizada. Carimbou a trave duas vezes nos primeiros 45 minutos. Na primeira, enquanto o time lamentava, o contragolpe merengue encontrou Cristiano Ronaldo para a jogada característica pela esquerda: corte para dentro e chute forte. No rebote, gol de Isco.

Parecia que mais um clichê entraria em campo: time pequeno joga como nunca e perde como sempre para o grande, que sai com os três pontos mesmo sem tanto esforço. Foi a impressão do primeiro tempo.

O intervalo, porém, fez mal ao bicampeão europeu. Talvez pela orientação de administrar o resultado mantendo a baixa intensidade, dosando energias. Também a retaguarda mais mexida no lado direito pela saída de Varane para a entrada de Nacho.

Principalmente porque o Girona acreditou. A mudança significativa foi a eficiência no acabamento das jogadas. Primeiro com Stuani, após bela jogada individual de Pons. Depois com Portu, aparentemente impedido na conclusão de letra do chute cruzado do goleador uruguaio. Aos oito e 13 minutos. Virada em cinco minutos.

A senha para Zidane, na primeira partida depois de ser premiado pela FIFA como melhor treinador da temporada 2016/2017, arriscar substituições inusitadas: Lucas Vázquez e Asensio nas vagas de Achraf e Marcelo. Como alas, recuando Casemiro como um terceiro defensor.

Então entrou em campo o último chavão: a retranca do Gironi, recuando ainda mais as linhas da variação do 3-4-3 para o 5-4-1 de Pablo Machín, claramente inspirado em Antonio Conte no Chelsea. Mas defendendo mal, pela tensão de confirmar um feito outrora improvável.

O resultado: pressão descoordenada do favorito, a fibra e a entrega absoluta da “zebra” para administrar o triunfo histórico no primeiro confronto com o maior campeão espanhol. Logo no ápice da tensão na Catalunha. Por isso a festa de título no apito final.

Um vexame do Real Madrid, que relaxou após a sequência de conquistas. Principalmente no Espanhol. Contra o Tottenham é bem provável que seja bem diferente, pela cultura do clube de valorizar mais o torneio continental. Natural, humano. Não é a primeira nem a última equipe que perde um pouco da “fome” e passa a acreditar que as vitórias virão no “piloto automático e sofrem com isso.

Por isso virou clichê.

 

 


Se é momento para testes, por que não um Brasil à la Real Madrid?
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André Rocha

Foto: Ricardo Botelho (FolhaPress)

Para o jogo contra a Bolívia em La Paz na quinta-feira, Tite confirma a mudança forçada – Alex Sandro no lugar dos lesionados Marcelo e Filipe Luís na lateral esquerda – e uma por opção: Thiago Silva na vaga de Marquinhos, formando a zaga com Miranda.

A outra alteração em relação à última rodada das Eliminatórias é o retorno de Philippe Coutinho ao lado direito da linha de meias do 4-1-4-1 à frente de Casemiro. Com a saída de Willian, a mudança de perfil, como afirma o próprio treinador: “Tenho um mais vertical e agudo, que ataca os espaços (Willian), e outro mais construtor (Coutinho)”.

Coutinho constroi porque é meia. Dos bons. Mas costuma render melhor partindo da esquerda ou do centro. Na própria seleção, seus grandes momentos, incluindo o golaço sobre a Argentina, foi saindo do lado direito para circular às costas dos volantes adversários. Quando abre ainda fica desconfortável, não tem o timing para as combinações com Daniel Alves.

Tite deixa claro que sua convicção é na qualificação deste 4-1-4-1 até a Copa, com a variação do desenho tático para o 4-2-3-1 com Coutinho por dentro e Willian pela direita. Legítimo, até pelo pouco tempo de trabalho até aqui e menos ainda até o Mundial da Rússia.

Mas por que não um teste para ter um coelho na cartola, algo para surpreender os rivais que certamente depois de confirmarem suas vagas na Copa vão dissecar um dos candidatos ao título? E isto é possível sem mexer na formação titular.

O Real Madrid conquistou Espanhol e Liga dos Campeões na temporada europeia passada e cresceu na reta final quando Zinedine Zidane, sem o lesionado Gareth Bale, colocou Isco em seu lugar. Com isso mudou também o sistema: de um 4-3-3 rígido, com Casemiro na proteção e dois meio-campistas mais organizadores – Modric e Kroos – e o trio “BBC” na frente. para um 4-3-1-2 mais flexível, com ou sem a bola.

Porque Isco ganhou liberdade para circular e também permitiu que Cristiano Ronaldo não fosse nem centroavante, nem ponteiro, mas atacante numa dupla com Benzema. Trocando de lado, buscando as diagonais, tabelando. A  troca deu liberdade aos laterais Carvajal e Marcelo para apoiarem ao mesmo tempo, abrindo o sistema defensivo adversário.

Sem a bola, duas linhas de quatro. A do meio-campo bastante móvel,em função do posicionamento de Isco no retorno. Se ele volta pela direita, Casemiro e Modric fecham o meio e Kroos abre à esquerda; se retorna pela esquerda é Modric quem abre pela direita e Kroos se junta ao volante brasileiro no centro. Quando Isco recompõe centralizado, Casemiro se adianta na compactação e Modric e Kroos fecham os flancos.

O 4-3-1-2 com Isco se aproximando da dupla Cristiano Ronaldo-Benzema e voltando na recomposição formando uma linha de quatro móvel com Casemiro, Modric e Kroos, de acordo com o posicionamento do camisa 22 na recomposição (Tactical Pad).

Tudo executado com naturalidade e inteligência, como atua o time merengue, especialmente nos jogos grandes, decisivos. É uma equipe que se adapta às necessidades da disputa e sabe jogar com posse, instalado no campo de ataque, ou em transições ofensivas rápidas, aproveitando os espaços às costas da defesa do oponente.

Na seleção, Coutinho pode ser Isco, jogando solto, sem a obrigação de ficar ou partir do setor direito. Com isso se aproximaria mais da dupla Gabriel Jesus-Neymar, todos com autonomia para circular e procurar espaços para surpreender as retaguardas com tabelas, triangulações, infiltrações em diagonal dos atacantes.

Tite não gosta de tirar Neymar do setor esquerdo. De fato, é onde a estrela brasileira mais rende. Mas a liberdade para o talento nunca é improdutiva e as trocas com Gabriel Jesus, as diagonais mais curtas, mesmo saindo da esquerda, podem tornar o camisa dez ainda mais letal. Mais próximo da meta adversária.

Sem a bola, a lógica seria a mesma do atual bicampeão europeu: Coutinho se juntaria a Casemiro, Paulinho e Renato Augusto e a distribuição dos quatro na linha à frente da defesa se daria de acordo com o camisa onze, No caso da seleção poderia haver outra referência: o posicionamento de Paulinho e Renato Augusto, que costumam trocar muito. De lado e de função. Paulinho recua para usar seu poder de marcação. Já com Renato mais atrás o objetivo é ganhar um organizador e qualificar a saída de bola.

O meio-campo em losango na seleção teria a mesma dinâmica do Real Madrid, com Philippe Coutinho como meia de ligação e referência para a composição da segunda linha de quatro no momento defensivo. Na frente, Gabriel Jesus e Neymar com liberdade e nas laterais Daniel Alves e Marcelo aproveitando os corredores abertos (Tactical Pad).

Tite tem Casemiro e Marcelo, quando este voltar, para obter ainda mais detalhes sobre a execução. Sem contar que a referência continua sendo o seu amigo Carlo Ancelotti, já que a base do modelo de jogo, ainda que tenha amadurecido e se aprimorado, vem do italiano, que tinha Zidane como auxiliar em sua passagem pelo clube, de 2013 a 2015. Ou seja, não seria algo a surgir “do nada”.

Até porque o sistema não seria algo inédito para o comandante canarinho. Com outra dinâmica, o 4-4-2 com o meio-campo em losango já foi utilizado. O mais marcante no Internacional campeão da Copa Sul-Americana em 2008 e vice da Copa do Brasil no ano seguinte. Com Sandro ou Edinho plantado à frente da defesa, Magrão e Guiñazu pelos lados e D’Alessandro como “enganche”, articulando para a dupla Taison-Nilmar. Tempos de menos compactação e mais encaixes e perseguições individuais, mas ainda um 4-3-1-2.

Uma possibilidade, nada complexa. Algo para sair um pouco do plano original e da sua variação mais conhecida. Sem mudar a escalação ou afetar o entrosamento. Porém mexendo nas peças para ter uma alternativa. Por que não um Brasil à la Real Madrid?


Real Madrid, a “Lei de Guardiola” e o risco de repetir fiasco com Mourinho
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André Rocha

Foto: Getty Images

Pep Guardiola teve sua primeira experiência em um time de primeira divisão com o Barcelona na temporada 2008/2009. De lá para cá disputou oito ligas nacionais: quatro na Espanha, três na Alemanha e uma na Inglaterra. Mais um ano sabático em 2012/13. Venceu seis. Ou três quartos.

Mesmo que seus detratores relativizem tudo que o treinador venceu pela qualidade dos jogadores – talentos que ele ajudou a desenvolver ou evoluir e o maior exemplo é Lionel Messi – é um retrospecto impressionante para um profissional que ainda não completou dez anos de rodagem.

Por isso merece respeito sua tese de que “o título (da liga) se ganha nas oito últimas rodadas e se perde nas oito primeiras”.  Ainda que em várias delas, especialmente com o Bayern de Munique, seu time tenha vencido praticamente de ponta a ponta.

O Real Madrid de Zinedine  Zidane iniciou a temporada de forma primorosa, vencendo Barcelona e Manchester United e conquistando as Supercopas da Espanha e da Europa com sobras e jogando um futebol que conciliou arte e competitividade. Teve a bola contra os ingleses e no superclássico em Madrid e matou o time catalão nos contragolpes no Camp Nou. Sinalizava uma manutenção do domínio do país e no continente.

No entanto, os resultados nas cinco primeiras rodadas do Espanhol são decepcionantes: duas vitórias, dois empates e uma derrota, para o Real Betis de Quique Setién no Santiago Bernabéu. Em termos de desempenho, ao menos no único revés com a equipe mais completa, não houve queda acentuada. Faltou eficiência nas finalizações – foram 27, 12 de Cristiano Ronaldo e pelo menos três chances que o português não costuma desperdiçar.

Certamente Zidane não contava com tantos pontos perdidos, mas talvez o início menos intenso para voar no final da temporada faça parte do planejamento, com em 2016/17. Ou na recuperação em sua temporada de estreia, quando ficou a um mísero ponto do campeão Barça. A diferença é que quando assumiu sucedendo Rafa Benítez estava apenas dois pontos atrás dos blaugranas e a quatro do então líder Atlético de Madrid.

Agora são sete pontos. Distância considerável, ainda que com um ponto a menos em relação à fatídica jornada de 2012/2013. O ano do fiasco por conta do desgaste de José Mourinho com o elenco merengue que fez a equipe derrapar e o Barcelona, comandado por Tito Vilanova depois da saída de Guardiola, aproveitou para disparar e não perder mais. Terminou com 100 pontos, 15 a mais que o Real.

Os mesmos 100% de aproveitamento em cinco partidas, com gols de Messi em profusão. A mesma fome culé depois de perder o título na temporada anterior. Agora talvez pese um certo relaxamento madridista após tantas conquistas. Ou o foco, até pela cultura do clube, no tricampeonato inédito da Liga dos Campeões.

Seja como for, o inicio é preocupante e precisa de recuperação já a partir do jogo contra o Alavés fora de casa neste sábado. Para não valer a “Lei de Guardiola” e o Barcelona nem precise das oito últimas rodadas para confirmar seu 25º título nacional e se aproximar mais do grande rival, que ostenta a marca de 33 troféus. A conferir.


Grêmio perde leveza “praiana”, Cruzeiro de Mano Menezes vence duelo tático
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André Rocha

Foto: Washington Alves/Light Press

Você já leu neste blog algumas vezes nos últimos meses elogios à naturalidade com que o Real Madrid de Zinedine Zidane propõe e executa sua maneira de jogar. No Brasil, sem nenhum tipo de comparação, quem chega mais perto disto é o Grêmio. Muito por conta do modelo já bem trabalhado e assimilado.

Em casa ou fora, a equipe de Renato Gaúcho costuma trabalhar a bola ou acelerar os contragolpes conforme a necessidade com um estilo fluido, leve. Mesmo com a vantagem depois da vitória por 1 a 0 em sua arena, foi o que se viu no primeiro tempo do Mineirão.

Lembrava a espontaneidade do confronto do ano passado na mesma fase da Copa do Brasil. Nos 2 a 0 no mesmo Mineirão. Sem Douglas distribuindo as jogadas e indo às redes, mas com Luan circulando e achando Barrios livre no lance chave que podia ter mudado a história do duelo. O paraguaio desperdiçou.

Mano Menezes tentou conter o volume de jogo gremista preenchendo o meio-campo. Henrique, Hudson e Robinho. Elber e Alisson nas pontas. Thiago Neves como “falso nove”. Talvez para ficar mais próximo da meta adversária. Ou preocupar os volantes Michel e Arthur e indefinir as ações da zaga sem Geromel e com Bressan ao lado de Kannemann.

Funcionou pouco porque Neves, mesmo com a inegável qualidade nas finalizações e sua capacidade criativa, não é jogador com leitura de jogo e de espaços para executar a função. Em muitos lances se enfiava como centroavante e ficava de costas para a defesa. Ainda assim, incomodou Marcelo Grohe com um chute perigoso.

Como Elber e Alisson são condutores de bola e não se projetam à frente ou em diagonal chamando lançamentos como Pedro Rocha costuma fazer do lado gaúcho, o Cruzeiro não tinha profundidade nas ações ofensivas. Ainda assim, teve mais posse de bola (54%) e finalizou seis vezes contra quatro.

E aí Renato Gaúcho, contaminado pela praga do “jogo para ganhar (ou classificar) e não jogar” e talvez preocupado com a responsabilidade que assumiu junto com a direção do clube de apostar tudo no mata-mata – Copa do Brasil e Libertadores – deixando o Brasileiro de lado, fez seu time perder a naturalidade e priorizar o resultado na segunda etapa.

Pecado capital. Mano trocou Elber por Raniel e ganhou mais presença física na frente, liberando Thiago Neves para chegar de trás. Mas o camisa trinta foi decisivo mesmo na cobrança de escanteio pela direita que encontrou Hudson para marcar o gol único da partida.

Renato não fez substituições conservadoras. Trocou Bressan por Bruno Rodrigo no final, mas antes mandou a campo Fernandinho e Everton nas vagas de Ramiro e Barrios para acelerar as transições ofensivas. O Grêmio, porém, não finalizou na segunda etapa. Foi dominado. O time mineiro repetiu as seis conclusões do primeiro tempo, mas desta vez apenas duas no alvo.

Podia ter definido a vaga com Raniel e Arrascaeta, que entrou na vaga de Alisson. Sobis substituiu Hudson nos últimos minutos para buscar uma pressão final ou bater pênalti. Abriu a série acertando, assim como Fernandinho.

Edilson e Everton acertaram as traves, Grohe pegou as cobranças de Robinho e Murilo. Arthur e Raniel foram precisos. No duelo dos talentos, Luan novamente falhou em um pênalti decisivo e a defesa de Fabio foi a senha para a festa depois que Thiago Neves deslocou Grohe.

Cruzeiro na decisão do torneio nacional. A sua sétima. Vai tentar superar novamente o Flamengo, como em 2003. Desta vez sem o timaço da tríplice coroa, a única da história – campeão estadual, brasileiro e da Copa do Brasil. Mas com  recuperação na temporada, enfim mostrando mais consistência no desempenho.

Méritos de Mano Menezes, que venceu o duelo tático quando Renato resolveu duelar na estratégia, no jogo mais denso e fez seu Grêmio perder as maiores virtudes: leveza e naturalidade. Como uma tarde de verão na praia que o ídolo gremista tanto ama.

A noite terminou pesada. Resta a obrigação de ir bem na Libertadores, objetivo maior e agora único. A menos que o Brasileiro volte a ser importante. Ainda que pareça tarde demais.

(Estatísticas: Footstats)

 


Real Madrid, Zidane e a nova era do futebol por demanda
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André Rocha

O Barcelona sofre tentando criar alternativas ao seu estilo de posse de bola após encontrar algumas boas respostas no auge do trio Messi-Suárez-Neymar em 2015, mas agora vivendo uma queda brusca. Pep Guardiola quebra a cabeça para adequar seus princípios de jogo outrora inegociáveis ao futebol jogado na Inglaterra. O Atlético de Madri de Simeone e José Mourinho com o Manchester United buscam alternativas para os momentos em que suas equipes precisam criar espaços porque têm a posse diante de equipes de menor investimento.

Jurgen Klopp e seu sucessor no Borussia Dortmund Thomas Tuchel tentaram encontrar a saída na intensidade máxima, nas transições contínuas baseadas no “gegenpressing”, mas penam com o mesmo problema que Marcelo Bielsa convive há pelo menos uma década: seus comandados não suportam tamanha a exigência física e mental.

O “futebol líquido”, conceito de Paco Seirul lo que consta no livro “Guardiola, a Metamorfose”, de Marti Perarnau e traduzido pela Editora Grande Área, ainda é algo fascinante no campo das ideias e provavelmente o veremos no futuro, com times fluidos, atacando e defendendo por todos os lados com ações mecanizadas, jogando de memória. Como alguém nascido no século 20, este que escreve ainda acredita que o talento é e será sempre fundamental.

Jupp Heynckes, em seu último ato como treinador, iniciou um processo de combinação de estilos com o Bayern de Munique campeão de tudo em 2013. Segunda equipe com mais posse de bola na Europa que pulverizou a primeira, o Barcelona, com 7 a 0 no placar agregado da semifinal da Liga dos Campeões com média de 40% de tempo com a bola.

No ano seguinte, Carlo Ancelotti ensaiou a melhor solução com o Real Madrid campeão de “La Decima”: um time híbrido, que se adapta bem ao ataque posicional, mas se for preciso acelera e é letal nos contragolpes. Mas naquele momento faltava entrosamento e um pouco de flexibilidade do trio BBC – Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo – um tanto duro, rígido, com a única variação do sistema tático: do 4-3-3 para o 4-4-2 com o recuo de Bale pela direita.

Zinedine Zidane assumiu em sua primeira oportunidade como treinador do time principal dos merengues resgatando as ideias do italiano, de quem era auxiliar técnico. Com a conquista da Liga dos Campeões e a possibilidade de planejar a temporada, foi amadurecendo, consolidando e aprimorando conceitos e agora parece chegar a algo novo. Mas não tanto assim.

Desde sempre times como Real Madrid jogam no campo de ataque na maioria das partidas. Cultura do clube, exigência da torcida, expectativa do adversário, da mídia, de todos. Apenas em alguns jogos, em contextos especiais, ou só quando constroi a vantagem no placar é permitido recuar linhas e jogar em contragolpes.

Só que dentro da dicotomia do futebol mundial nos últimos oito anos ou você era propositivo e ficava com a bola, ou reativo e explorava os espaços cedidos por quem decidia controlar o jogo com a posse. Com os estilos cada vez mais estudados, quem apresentava uma das ideias como filosofia quase imutável sofria quando precisava variar a proposta ou era surpreendido.

Como equipes pressionando a saída de bola do Barça e explorando os espaços às costas das retaguardas de Guardiola. Ou times dando a bola aos comandados de Mourinho e Simeone e explorando suas dificuldades.

O Real Madrid atual é mutante, “camaleão”. Se adapta ao que quer para o jogo ou ao que o adversário propõe. E pode mudar durante o jogo. Porque tem jogadores capazes de virar a chave sem que o treinador precise fazer alterações.

Carvajal e Marcelo podem jogar abertos no campo de ataque ou posicionados numa linha de quatro com Varane e Sergio Ramos, atentos na cobertura e no confronto direto com os atacantes do oponente se expostos ou fixos atrás, prontos também para o jogo aéreo, ofensivo ou defensivo.

No meio, Casemiro, Modric e Kroos. Se é preciso de requinte na saída de bola pressionada, o alemão recua para qualificar os passes, curtos ou longos. Se a necessidade é de proteção e imposição física lá está Casemiro, outra peça importante nas jogadas pelo alto. E se o jogo requer dinâmica, presença de área a área, acelerando ou cadenciando, Modric é completo. Versátil.

Isco foi o toque de Zidane para tornar tudo ainda mais fluido e mutável. É meia no 4-3-1-2, mas também é ponta fazendo dupla com o lateral. Indo e voltando. Se recua pela direita, Modric e Casemiro centralizam e Kroos fecha o lado esquerdo. Se volta à esquerda, Modric abre e Kroos fecha. Sempre em duas linhas de quatro.

Para liberar Cristiano Ronaldo e Benzema, que circulam por todos os setores do ataque. Ou Bale, que parece aceitar a reserva porque sabe que vai jogar muitas vezes. Zidane roda o elenco com naturalidade. Na temporada passada definindo titulares e reservas e mandando a campo dentro de um planejamento. De olho na meritocracia. Assim Isco virou titular.

Desta forma já começou a temporada 2017/2018 com dois títulos, num total de sete desde o início de 2016. Matando o Manchester United na Supercopa da Europa ficando com a bola. Depois encaminhou a Supercopa da Espanha com os 3 a 1 sobre o rival Barcelona jogando em transições rápidas e definiu o confronto com 2 a 0 no primeiro tempo e maior posse de bola que o time blaugrana pela primeira vez em nove anos.

Porque o jogo pedia. Basta ter leitura e inteligência e serenidade para tomar as melhores decisões, individuais ou coletivas. Capacidade de resolver problemas. Com bola rolando ou parada. Por baixo ou pelo alto. Entender a lógica da disputa e a melhor forma de superar o rival e construir vitórias e títulos com naturalidade.

Tudo sem abrir mão de conceitos atuais: compactação, pressão, preenchimento e ataque de espaços, jogo posicional, profundidade, amplitude, mobilidade. Temperados com mentalidade vencedora e confiança. Zidane não nasceu sabendo, nem é mágico. Mas sempre privilegiando a precisão técnica e em alguns momentos até deixando o adversário jogar. Como era num tempo distante que às vezes retorna em insights nesse vai e volta na linha do tempo.

Este é o Real Madrid de Zidane. O bicampeão europeu, líder de uma nova era do esporte que volta um pouco atrás para ser pragmático sem perder a leveza. Ofensivo e reativo, de acordo com o “freguês”. Dentro ou fora de casa. Nada mais simples e moderno, como ver a sua série favorita ou o time de coração na TV de casa ou em um dispositivo móvel. Como quiser e quando for possível.

Jogo de ataque e defesa descarnado de idealizações ou romantismos. É o futebol por demanda.


Real Madrid lembra o Zidane jogador. Faz tudo parecer tão fácil
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André Rocha

Ao longo desta década é comum analisar qualquer equipe partindo da seguinte pergunta: é um time que propõe o jogo ou é reativo? Dicotomia criada e alimentada por Pep Guardiola e José Mourinho, os dois grandes ícones das transformações recentes no esporte.

O Real Madrid de Zidane, porém, entrega uma nova resposta: os dois. Depende das circunstâncias, do contexto. Pode alternar as duas ideias na mesma partida. Ataca e defende. Futebol “in natura”.

Tudo muito simples, natural, com leveza. Lembra o meia francês fazendo tudo parecer tão fácil. Como vencer o rival Barcelona no Bernabéu sem o suspenso Cristiano Ronaldo e colocando Casemiro, Isco e Bale no banco. Saindo do 4-3-1-2 para o 4-3-3/4-1-4-1 com Lucas Vázquez e Asensio nas pontas, Kovacic novamente perseguindo Messi e Modric voltando à equipe com todo seu repertório, agora vestindo a camisa dez e alinhado a um Toni Kroos mais conectado. Muita mobilidade das peças.

Início avassalador afogando os cinco defensores adversários na saída de bola, dominando o meio-campo e a posse de bola, pela primeira vez no confronto direto desde 2008. Criando cinco boas chances e colocando duas nas redes: chutaço de Asensio (mais um!) e Benzema completando jogada de Marcelo. Um passeio, mesmo concedendo espaços ao Barça.

O time merengue impõe sua excelência, mas também deixa jogar em alguns momentos. Messi e Suárez acertaram as traves no segundo tempo em ritmo de treino. Muito mais a ver com a confiança sobrando em um lado e faltando demais no outro. O que só escancara o abismo entre os momentos dos gigantes da Espanha. Maior que os 5 a 1 no agregado que deram o título da Supercopa da Espanha.

O Real aposta na manutenção do elenco e do trabalho, investindo na base, no melhor aproveitamento das peças do elenco. Mesmo perdendo Danilo, Pepe, James Rodríguez e Morata. Sem pressa e escolhendo bem antes de buscar reposição. Dar minutos a Theo Hernández e Dani Ceballos. Seguir com a gestão do elenco de forma serena, com a confiança de jovens e veteranos.

Tudo tão descomplicado em contraste com os desencontros do lado blaugrana. O drama de um conflito entre seu estilo e a capacidade de competir. De La Masia vendida para o mundo como fábrica de talentos, mas indo ao mercado buscar qualidade duvidosa em comparação com a excelência dos melhores momentos.

O Real Madrid aprendeu a lição e lidera uma nova era no esporte. Time inteligente, que ataca e defende com talento, precisão técnica e mente tranquila para tomar as melhores decisões. Ganhar sete títulos em praticamente duas temporadas, considerando que a atual está só no início e o treinador assumiu no meio da 2015/2016.

Tudo tão fácil como um passe de Zidane.


Real Madrid é o melhor time do mundo. Vence Barcelona e “apito caseiro”
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André Rocha

Zidane não tinha Modric, suspenso. Mesmo assim, deixou Cristiano Ronaldo no banco seguindo à risca a programação pensando em toda a temporada. Era um superclássico pela Supercopa da Espanha no Camp Nou.

Mas a confiança do Real Madrid é tão alta, a sintonia entre atletas e o treinador tão fina que o desempenho não cai. Ainda que Zidane tenha optado por uma solução defensiva pouco convencional: Kovacic seguindo Messi por todo o campo. Ou melhor, na faixa cada vez mais limitada de atuação do argentino: em quase todos os lances, partindo da meia direita para o centro conduzindo a bola ou soltando de primeira. Por isso funcionou na maior parte do tempo, embora tenha extenuado o croata.

Se na terça-feira o time merengue jogou confortavelmente e se impôs com posse de bola e ocupando o campo de ataque, o rendimento atuando fechado e saindo em velocidade não caiu. Porque o Real Madrid é uma equipe completa, versátil, inteligente. O melhor time do mundo.

Rapidamente percebeu que o lado direito com Carvajal era para se defender contra Jordi Alba e Iniesta, nem tanto Deloufeu, o substituto de Neymar. Já o esquerdo foi aproveitado para atacar com Marcelo, Isco e Benzema, especialmente na segunda etapa, pelos espaços deixados por Vidal e a lenta cobertura de Piqué.

Personagem do jogo pelo gol contra completando cruzamento de Marcelo. Depois foi vencido por Cristiano Ronaldo e Asensio nos gols que fecharam os 3 a 1.

Sim, Cristiano Ronaldo entrou aos 13 do segundo tempo na vaga de Benzema e, mais que nunca, foi objetivo e letal. Foi às redes em gol anulado por impedimento duvidoso, já que Vidal parecia dar condições. Questão de centímetros. Depois em contragolpe de manual finalizado de forma primorosa, no ângulo de Ter Stegen.

No final, chutaço de Asensio, que entrou no lugar de Kovacic. Substituição corajosa de Zidane, que manteve a capacidade de fazer as transições ofensivas sem perder a compactação em duas linhas. O Real jogou fácil e podia ter goleado.

Mesmo sofrendo naturalmente diante de uma equipe entrosada, em seu estádio e ainda com ataque poderoso. Mas que, a rigor, mesmo com o incrível gol perdido por Sergio Busquets e outras oportunidades, só foi às redes num pênalti absurdamente mal marcado. Keylor Navas disputa com Suárez num contato natural e o uruguaio se atira ao perceber que não chegará na bola.

Messi cobrou e empatou. Houve uma pressão logo na sequência, mas o Real se organizou, voltou a ficar em vantagem e ampliou mesmo com um homem a menos. Outra decisão bizarra do árbitro Ricardo Bengoetxea ao mostrar o segundo cartão amarelo para Cristiano Ronaldo por uma simulação de pênalti – já havia recebido o primeiro ao tirar a camisa na comemoração. Não houve a falta, nem o atacante se atirou. Lance normal. Só não justifica o empurrão do atacante no apitador, por mais bizarra que tenha sido a atuação deste.

Ainda assim, os 3 a 1 confirmam o momento fantástico da equipe de Zidane e encaminham mais um título, que deve ser celebrado no Santiago Bernabéu. Independentemente da formação, do desenho tático e da proposta de jogo, ninguém está jogando mais que o Real Madrid no planeta.

Fica claro que o Barcelona de Ernesto Valverde vai precisar ir ao mercado e contar com mais desempenho de Messi para voltar a equilibrar as forças. Nem com a ajuda dos erros do “apito caseiro” conseguiu igualar a disputa.


A pobreza do “Mourinhobol” e a mentalidade vencedora do Real de Zidane
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André Rocha

Zinedine Zidane deixou no banco Cristiano Ronaldo, voltando de férias depois da participação na Copa das Confederações. Colocou Bale em seu lugar e manteve a equipe campeã espanhola e da Liga dos Campeões para a disputa da Supercopa da Europa na Macedônia. Com Isco novamente fazendo a ligação do meio com o ataque.

Com Casemiro, Modric e Kroos ajudaram o Real Madrid a jogar fácil. Nada revolucionário nos conceitos. Zidane quer aproximação, troca de passes, movimentação e simplicidade. E explora a grande virtude da equipe merengue: a qualidade na execução das jogadas. Precisão. Mesmo com erros incomuns, mas compreensíveis para um início de temporada. Como Kroos errar feio numa saída de bola.

Contra o Manchester United de José Mourinho assumiu naturalmente o protagonismo, ocupou o campo de ataque e com os avanços de Carvajal, que busca mais o fundo em velocidade que Marcelo do lado oposto, fez Lingard recuar como lateral formando com Valencia, Lindelof, Smalling e Darmian uma linha de cinco na defesa.

Acabou superado pela infiltração de Casemiro, impedido por centímetros ao receber passe de Carvajal para abrir o placar. Ampliou na bela combinação de Bale e Isco, que tocou na saída do goleiro De Gea. Toques rápidos e objetivos.

O United permitia que o Real tivesse a bola, mas as transições em velocidade criaram problema para o sistema defensivo espaçado do time espanhol por conta da proposta ofensiva e do condicionamento físico ainda em evolução no fim da pré-temporada.

Rashford, que entrou na vaga de Lingard, e Lukaku, grande contratação da temporada, perderam chances cristalinas. O atacante belga ao menos aproveitou o rebote de Keylor Navas para diminuir e ao menos criar a expectativa de reação.

Mas um time com tamanho poder de investimento não pode recorrer a Fellaini e um jogo físico e limitado às bolas aéreas em um jogo grande. Um “Mourinhobol” que pode até funcionar, mas é um enorme desperdício.

O Real, mesmo cansado, teve chances de matar o jogo nos contragolpes com Lucas Vázquez, Cristiano Ronaldo e Asensio. Mas nem foi preciso, porque controlou a partida aproveitando a pobreza do repertório dos Red Devils.

Também usando algo subjetivo, mas que no caso da equipe de Zidane fica bem nítido, quase palpável: a mentalidade vencedora. A certeza de que é melhor e pode ganhar. Por isso soma mais um título, sua quarta Supercopa europeia. O primeiro ato de um time pronto para seguir fazendo história.

 


Chelsea e Real Madrid: estratégias diferentes para inspirar times do Brasil
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André Rocha

Antes de qualquer ponderação é preciso explicar o óbvio, quase desenhar: a intenção do texto não é comparar a qualidade dos elencos dos milionários clubes da Inglaterra e da Espanha. Apenas as estratégias na gestão dos elencos. Mas também entendendo que é possível fazer uma proporcionalidade entre a capacidade dos clubes brasileiros citados e o nível do futebol jogado no país.

O Chelsea fez uma temporada 2015/16 para esquecer e não se classificou sequer para a Liga Europa. A prioridade absoluta era a Premier League, com as copas nacionais em paralelo da forma como os ingleses as vêm tratando nos últimos anos: escala reservas e só busca o título se não tiver algo mais importante em disputa. Ou seja, o que o tem restado ao Arsenal de Arsene Wenger.

A estratégia de Antonio Conte foi clara: depois de encontrar a formação com melhor relação desempenho/resultado, insistiu com ela e rodou bem pouco o elenco. Com a repetição de jogos e semanas livres para os treinos que funcionam mais como “polimento” após uma pré-temporada mais forte e longa que as do Brasil, a variação do 5-4-1 para o 3-4-3 ganhou ainda mais fluência. Os atletas passaram a executar as jogadas de memória, sem pensar muito e a equipe sobrou no Inglês.

Já vem sendo o trunfo do Corinthians na temporada. Equipe que ganhou corpo no Estadual, mas vacilou na Copa do Brasil com a eliminação para o Internacional. A arrancada espetacular no início do Brasileiro já sinaliza que a Sul-Americana, consequência da temporada irregular em 2016, ficará em segundo plano. A menos que abra uma vantagem na competição nacional tão confortável que permita inverter a lógica e poupar para um duelo decisivo no torneio continental.

O Real Madrid queria voltar a vencer o Espanhol depois de cinco anos e quebrar a hegemonia do rival Barcelona. Mas sem perder de vista a Liga dos Campeões, historicamente um alvo de conquista do maior campeão do torneio. A solução de Zinedine Zidane, depois de observar o desgaste de seus jogadores na temporada anterior, especialmente da estrela Cristiano Ronaldo foi simples, até um tanto antiquada: definir titulares e reservas. Treinar, condicionar e entrosar para que ambos estivessem prontos quando necessário.

Mas sem tapar os olhos para o desempenho e praticar a meritocracia. Tanto que Isco virou titular e Gareth Bale iniciou a decisão da Liga dos Campeões no seu País de Gales no banco. As partidas em que a equipe reserva seria utilizada foram definidas dentro de um planejamento, não necessariamente na partida do Espanhol que antecedia um duelo importante pela Champions.

O resultado: as duas taças em Madrid e todos voando no fim da temporada. Os titulares pelo descanso e os suplentes pela motivação e por conta do ritmo de competição. A dosagem certa para o futebol atual, que exige do atleta um enorme esforço mental – concentração absoluta para as tomadas de decisão corretas – e físico, com um aumento exponencial nas ações de alta intensidade – em especial os piques curtos para dar opção e receber a bola ou pressionar o adversário.

Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro, pelo alto investimento em seus elencos e, por conta disso, não podendo descartar nenhuma competição na temporada, podem pensar em algo parecido. Envolvidos em três campeonatos, se tentarem insistir com os titulares em todos haverá esgotamento e desvantagem contra adversários que não estão na mesma maratona de jogos a cada três dias.

Já com equipes mistas, poupando apenas aqueles que os exames apontam próximos de estourar os músculos, o entrosamento sempre fica comprometido. Os famosos rodízios não têm dado muito resultado prático por conta da falta de sintonia entre os setores muito alterados.

Parece mais racional definir antes e escolher as partidas mais acessíveis. Não como o Grêmio fez, poupando contra Sport e Palmeiras fora de casa porque tinha jogos considerados prioritários no meio da semana. Pontos jogados fora que hoje fazem falta na luta para se aproximar do líder Corinthians.

É lógico que sempre é mais inteligente deixar alguns titulares no banco para alguma eventualidade. Mas mesmo concentrando e fazendo parte da logística da partida, não deixa de ser um repouso para pernas e mentes. Em clubes tão pressionados por conquistas é um alívio. Cobrar presença em todos os jogos para justificar os altos salários parece pouco inteligente. Porque o atleta não está cansado a ponto de não poder exercer seu ofício. A ausência é apenas para que ele mantenha o alto rendimento. Não são máquinas.

Já passou da hora dos clubes brasileiros deixarem de se preocupar tanto com decisões políticas, pautadas por reações de torcida e imprensa. Não há como controlar os resultados, por isso planejar para minimizar os equívocos parece sempre a melhor escolha. Inclusive surpresas agradáveis podem acontecer. Como os titulares do Real Madrid derrotados pelo Barcelona no Santiago Bernabéu, mas não deixando o rival se aproximar da liderança exatamente pelos pontos conquistados pelos reservas, inclusive em jogos longe de Madri.

Ninguém por aqui conta com uma seleção mundial no elenco. Mas o Brasileiro também não tem o nível do Espanhol – as competições internacionais mostram que Barça e Real não sobram por falta de rivais à altura, mas por estarem numa prateleira acima no futebol mundial pela competência dentro de campo.

Com a disputa ainda no primeiro turno é possível corrigir a rota e definir o planejamento. O Corinthians parece cada vez mais consciente que o “modo Chelsea” é o norte a seguir, mantendo a base e investindo em recuperação e treinamentos pensando no Brasileiro.

Já os que gastaram para rechear seus elencos precisam definir um caminho para não correrem o risco de terminar 2017 sem taças importantes para ostentar. O Real de Zidane ganhou a Espanha e a Europa com inteligência. É possível fazer parecido, mesmo sem tanto talento disponível.