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Grêmio perde leveza “praiana”, Cruzeiro de Mano Menezes vence duelo tático
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André Rocha

Foto: Washington Alves/Light Press

Você já leu neste blog algumas vezes nos últimos meses elogios à naturalidade com que o Real Madrid de Zinedine Zidane propõe e executa sua maneira de jogar. No Brasil, sem nenhum tipo de comparação, quem chega mais perto disto é o Grêmio. Muito por conta do modelo já bem trabalhado e assimilado.

Em casa ou fora, a equipe de Renato Gaúcho costuma trabalhar a bola ou acelerar os contragolpes conforme a necessidade com um estilo fluido, leve. Mesmo com a vantagem depois da vitória por 1 a 0 em sua arena, foi o que se viu no primeiro tempo do Mineirão.

Lembrava a espontaneidade do confronto do ano passado na mesma fase da Copa do Brasil. Nos 2 a 0 no mesmo Mineirão. Sem Douglas distribuindo as jogadas e indo às redes, mas com Luan circulando e achando Barrios livre no lance chave que podia ter mudado a história do duelo. O paraguaio desperdiçou.

Mano Menezes tentou conter o volume de jogo gremista preenchendo o meio-campo. Henrique, Hudson e Robinho. Elber e Alisson nas pontas. Thiago Neves como “falso nove”. Talvez para ficar mais próximo da meta adversária. Ou preocupar os volantes Michel e Arthur e indefinir as ações da zaga sem Geromel e com Bressan ao lado de Kannemann.

Funcionou pouco porque Neves, mesmo com a inegável qualidade nas finalizações e sua capacidade criativa, não é jogador com leitura de jogo e de espaços para executar a função. Em muitos lances se enfiava como centroavante e ficava de costas para a defesa. Ainda assim, incomodou Marcelo Grohe com um chute perigoso.

Como Elber e Alisson são condutores de bola e não se projetam à frente ou em diagonal chamando lançamentos como Pedro Rocha costuma fazer do lado gaúcho, o Cruzeiro não tinha profundidade nas ações ofensivas. Ainda assim, teve mais posse de bola (54%) e finalizou seis vezes contra quatro.

E aí Renato Gaúcho, contaminado pela praga do “jogo para ganhar (ou classificar) e não jogar” e talvez preocupado com a responsabilidade que assumiu junto com a direção do clube de apostar tudo no mata-mata – Copa do Brasil e Libertadores – deixando o Brasileiro de lado, fez seu time perder a naturalidade e priorizar o resultado na segunda etapa.

Pecado capital. Mano trocou Elber por Raniel e ganhou mais presença física na frente, liberando Thiago Neves para chegar de trás. Mas o camisa trinta foi decisivo mesmo na cobrança de escanteio pela direita que encontrou Hudson para marcar o gol único da partida.

Renato não fez substituições conservadoras. Trocou Bressan por Bruno Rodrigo no final, mas antes mandou a campo Fernandinho e Everton nas vagas de Ramiro e Barrios para acelerar as transições ofensivas. O Grêmio, porém, não finalizou na segunda etapa. Foi dominado. O time mineiro repetiu as seis conclusões do primeiro tempo, mas desta vez apenas duas no alvo.

Podia ter definido a vaga com Raniel e Arrascaeta, que entrou na vaga de Alisson. Sobis substituiu Hudson nos últimos minutos para buscar uma pressão final ou bater pênalti. Abriu a série acertando, assim como Fernandinho.

Edilson e Everton acertaram as traves, Grohe pegou as cobranças de Robinho e Murilo. Arthur e Raniel foram precisos. No duelo dos talentos, Luan novamente falhou em um pênalti decisivo e a defesa de Fabio foi a senha para a festa depois que Thiago Neves deslocou Grohe.

Cruzeiro na decisão do torneio nacional. A sua sétima. Vai tentar superar novamente o Flamengo, como em 2003. Desta vez sem o timaço da tríplice coroa, a única da história – campeão estadual, brasileiro e da Copa do Brasil. Mas com  recuperação na temporada, enfim mostrando mais consistência no desempenho.

Méritos de Mano Menezes, que venceu o duelo tático quando Renato resolveu duelar na estratégia, no jogo mais denso e fez seu Grêmio perder as maiores virtudes: leveza e naturalidade. Como uma tarde de verão na praia que o ídolo gremista tanto ama.

A noite terminou pesada. Resta a obrigação de ir bem na Libertadores, objetivo maior e agora único. A menos que o Brasileiro volte a ser importante. Ainda que pareça tarde demais.

(Estatísticas: Footstats)

 


Real Madrid, Zidane e a nova era do futebol por demanda
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André Rocha

O Barcelona sofre tentando criar alternativas ao seu estilo de posse de bola após encontrar algumas boas respostas no auge do trio Messi-Suárez-Neymar em 2015, mas agora vivendo uma queda brusca. Pep Guardiola quebra a cabeça para adequar seus princípios de jogo outrora inegociáveis ao futebol jogado na Inglaterra. O Atlético de Madri de Simeone e José Mourinho com o Manchester United buscam alternativas para os momentos em que suas equipes precisam criar espaços porque têm a posse diante de equipes de menor investimento.

Jurgen Klopp e seu sucessor no Borussia Dortmund Thomas Tuchel tentaram encontrar a saída na intensidade máxima, nas transições contínuas baseadas no “gegenpressing”, mas penam com o mesmo problema que Marcelo Bielsa convive há pelo menos uma década: seus comandados não suportam tamanha a exigência física e mental.

O “futebol líquido”, conceito de Paco Seirul lo que consta no livro “Guardiola, a Metamorfose”, de Marti Perarnau e traduzido pela Editora Grande Área, ainda é algo fascinante no campo das ideias e provavelmente o veremos no futuro, com times fluidos, atacando e defendendo por todos os lados com ações mecanizadas, jogando de memória. Como alguém nascido no século 20, este que escreve ainda acredita que o talento é e será sempre fundamental.

Jupp Heynckes, em seu último ato como treinador, iniciou um processo de combinação de estilos com o Bayern de Munique campeão de tudo em 2013. Segunda equipe com mais posse de bola na Europa que pulverizou a primeira, o Barcelona, com 7 a 0 no placar agregado da semifinal da Liga dos Campeões com média de 40% de tempo com a bola.

No ano seguinte, Carlo Ancelotti ensaiou a melhor solução com o Real Madrid campeão de “La Decima”: um time híbrido, que se adapta bem ao ataque posicional, mas se for preciso acelera e é letal nos contragolpes. Mas naquele momento faltava entrosamento e um pouco de flexibilidade do trio BBC – Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo – um tanto duro, rígido, com a única variação do sistema tático: do 4-3-3 para o 4-4-2 com o recuo de Bale pela direita.

Zinedine Zidane assumiu em sua primeira oportunidade como treinador do time principal dos merengues resgatando as ideias do italiano, de quem era auxiliar técnico. Com a conquista da Liga dos Campeões e a possibilidade de planejar a temporada, foi amadurecendo, consolidando e aprimorando conceitos e agora parece chegar a algo novo. Mas não tanto assim.

Desde sempre times como Real Madrid jogam no campo de ataque na maioria das partidas. Cultura do clube, exigência da torcida, expectativa do adversário, da mídia, de todos. Apenas em alguns jogos, em contextos especiais, ou só quando constroi a vantagem no placar é permitido recuar linhas e jogar em contragolpes.

Só que dentro da dicotomia do futebol mundial nos últimos oito anos ou você era propositivo e ficava com a bola, ou reativo e explorava os espaços cedidos por quem decidia controlar o jogo com a posse. Com os estilos cada vez mais estudados, quem apresentava uma das ideias como filosofia quase imutável sofria quando precisava variar a proposta ou era surpreendido.

Como equipes pressionando a saída de bola do Barça e explorando os espaços às costas das retaguardas de Guardiola. Ou times dando a bola aos comandados de Mourinho e Simeone e explorando suas dificuldades.

O Real Madrid atual é mutante, “camaleão”. Se adapta ao que quer para o jogo ou ao que o adversário propõe. E pode mudar durante o jogo. Porque tem jogadores capazes de virar a chave sem que o treinador precise fazer alterações.

Carvajal e Marcelo podem jogar abertos no campo de ataque ou posicionados numa linha de quatro com Varane e Sergio Ramos, atentos na cobertura e no confronto direto com os atacantes do oponente se expostos ou fixos atrás, prontos também para o jogo aéreo, ofensivo ou defensivo.

No meio, Casemiro, Modric e Kroos. Se é preciso de requinte na saída de bola pressionada, o alemão recua para qualificar os passes, curtos ou longos. Se a necessidade é de proteção e imposição física lá está Casemiro, outra peça importante nas jogadas pelo alto. E se o jogo requer dinâmica, presença de área a área, acelerando ou cadenciando, Modric é completo. Versátil.

Isco foi o toque de Zidane para tornar tudo ainda mais fluido e mutável. É meia no 4-3-1-2, mas também é ponta fazendo dupla com o lateral. Indo e voltando. Se recua pela direita, Modric e Casemiro centralizam e Kroos fecha o lado esquerdo. Se volta à esquerda, Modric abre e Kroos fecha. Sempre em duas linhas de quatro.

Para liberar Cristiano Ronaldo e Benzema, que circulam por todos os setores do ataque. Ou Bale, que parece aceitar a reserva porque sabe que vai jogar muitas vezes. Zidane roda o elenco com naturalidade. Na temporada passada definindo titulares e reservas e mandando a campo dentro de um planejamento. De olho na meritocracia. Assim Isco virou titular.

Desta forma já começou a temporada 2017/2018 com dois títulos, num total de sete desde o início de 2016. Matando o Manchester United na Supercopa da Europa ficando com a bola. Depois encaminhou a Supercopa da Espanha com os 3 a 1 sobre o rival Barcelona jogando em transições rápidas e definiu o confronto com 2 a 0 no primeiro tempo e maior posse de bola que o time blaugrana pela primeira vez em nove anos.

Porque o jogo pedia. Basta ter leitura e inteligência e serenidade para tomar as melhores decisões, individuais ou coletivas. Capacidade de resolver problemas. Com bola rolando ou parada. Por baixo ou pelo alto. Entender a lógica da disputa e a melhor forma de superar o rival e construir vitórias e títulos com naturalidade.

Tudo sem abrir mão de conceitos atuais: compactação, pressão, preenchimento e ataque de espaços, jogo posicional, profundidade, amplitude, mobilidade. Temperados com mentalidade vencedora e confiança. Zidane não nasceu sabendo, nem é mágico. Mas sempre privilegiando a precisão técnica e em alguns momentos até deixando o adversário jogar. Como era num tempo distante que às vezes retorna em insights nesse vai e volta na linha do tempo.

Este é o Real Madrid de Zidane. O bicampeão europeu, líder de uma nova era do esporte que volta um pouco atrás para ser pragmático sem perder a leveza. Ofensivo e reativo, de acordo com o “freguês”. Dentro ou fora de casa. Nada mais simples e moderno, como ver a sua série favorita ou o time de coração na TV de casa ou em um dispositivo móvel. Como quiser e quando for possível.

Jogo de ataque e defesa descarnado de idealizações ou romantismos. É o futebol por demanda.


Real Madrid lembra o Zidane jogador. Faz tudo parecer tão fácil
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André Rocha

Ao longo desta década é comum analisar qualquer equipe partindo da seguinte pergunta: é um time que propõe o jogo ou é reativo? Dicotomia criada e alimentada por Pep Guardiola e José Mourinho, os dois grandes ícones das transformações recentes no esporte.

O Real Madrid de Zidane, porém, entrega uma nova resposta: os dois. Depende das circunstâncias, do contexto. Pode alternar as duas ideias na mesma partida. Ataca e defende. Futebol “in natura”.

Tudo muito simples, natural, com leveza. Lembra o meia francês fazendo tudo parecer tão fácil. Como vencer o rival Barcelona no Bernabéu sem o suspenso Cristiano Ronaldo e colocando Casemiro, Isco e Bale no banco. Saindo do 4-3-1-2 para o 4-3-3/4-1-4-1 com Lucas Vázquez e Asensio nas pontas, Kovacic novamente perseguindo Messi e Modric voltando à equipe com todo seu repertório, agora vestindo a camisa dez e alinhado a um Toni Kroos mais conectado. Muita mobilidade das peças.

Início avassalador afogando os cinco defensores adversários na saída de bola, dominando o meio-campo e a posse de bola, pela primeira vez no confronto direto desde 2008. Criando cinco boas chances e colocando duas nas redes: chutaço de Asensio (mais um!) e Benzema completando jogada de Marcelo. Um passeio, mesmo concedendo espaços ao Barça.

O time merengue impõe sua excelência, mas também deixa jogar em alguns momentos. Messi e Suárez acertaram as traves no segundo tempo em ritmo de treino. Muito mais a ver com a confiança sobrando em um lado e faltando demais no outro. O que só escancara o abismo entre os momentos dos gigantes da Espanha. Maior que os 5 a 1 no agregado que deram o título da Supercopa da Espanha.

O Real aposta na manutenção do elenco e do trabalho, investindo na base, no melhor aproveitamento das peças do elenco. Mesmo perdendo Danilo, Pepe, James Rodríguez e Morata. Sem pressa e escolhendo bem antes de buscar reposição. Dar minutos a Theo Hernández e Dani Ceballos. Seguir com a gestão do elenco de forma serena, com a confiança de jovens e veteranos.

Tudo tão descomplicado em contraste com os desencontros do lado blaugrana. O drama de um conflito entre seu estilo e a capacidade de competir. De La Masia vendida para o mundo como fábrica de talentos, mas indo ao mercado buscar qualidade duvidosa em comparação com a excelência dos melhores momentos.

O Real Madrid aprendeu a lição e lidera uma nova era no esporte. Time inteligente, que ataca e defende com talento, precisão técnica e mente tranquila para tomar as melhores decisões. Ganhar sete títulos em praticamente duas temporadas, considerando que a atual está só no início e o treinador assumiu no meio da 2015/2016.

Tudo tão fácil como um passe de Zidane.


Real Madrid é o melhor time do mundo. Vence Barcelona e “apito caseiro”
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André Rocha

Zidane não tinha Modric, suspenso. Mesmo assim, deixou Cristiano Ronaldo no banco seguindo à risca a programação pensando em toda a temporada. Era um superclássico pela Supercopa da Espanha no Camp Nou.

Mas a confiança do Real Madrid é tão alta, a sintonia entre atletas e o treinador tão fina que o desempenho não cai. Ainda que Zidane tenha optado por uma solução defensiva pouco convencional: Kovacic seguindo Messi por todo o campo. Ou melhor, na faixa cada vez mais limitada de atuação do argentino: em quase todos os lances, partindo da meia direita para o centro conduzindo a bola ou soltando de primeira. Por isso funcionou na maior parte do tempo, embora tenha extenuado o croata.

Se na terça-feira o time merengue jogou confortavelmente e se impôs com posse de bola e ocupando o campo de ataque, o rendimento atuando fechado e saindo em velocidade não caiu. Porque o Real Madrid é uma equipe completa, versátil, inteligente. O melhor time do mundo.

Rapidamente percebeu que o lado direito com Carvajal era para se defender contra Jordi Alba e Iniesta, nem tanto Deloufeu, o substituto de Neymar. Já o esquerdo foi aproveitado para atacar com Marcelo, Isco e Benzema, especialmente na segunda etapa, pelos espaços deixados por Vidal e a lenta cobertura de Piqué.

Personagem do jogo pelo gol contra completando cruzamento de Marcelo. Depois foi vencido por Cristiano Ronaldo e Asensio nos gols que fecharam os 3 a 1.

Sim, Cristiano Ronaldo entrou aos 13 do segundo tempo na vaga de Benzema e, mais que nunca, foi objetivo e letal. Foi às redes em gol anulado por impedimento duvidoso, já que Vidal parecia dar condições. Questão de centímetros. Depois em contragolpe de manual finalizado de forma primorosa, no ângulo de Ter Stegen.

No final, chutaço de Asensio, que entrou no lugar de Kovacic. Substituição corajosa de Zidane, que manteve a capacidade de fazer as transições ofensivas sem perder a compactação em duas linhas. O Real jogou fácil e podia ter goleado.

Mesmo sofrendo naturalmente diante de uma equipe entrosada, em seu estádio e ainda com ataque poderoso. Mas que, a rigor, mesmo com o incrível gol perdido por Sergio Busquets e outras oportunidades, só foi às redes num pênalti absurdamente mal marcado. Keylor Navas disputa com Suárez num contato natural e o uruguaio se atira ao perceber que não chegará na bola.

Messi cobrou e empatou. Houve uma pressão logo na sequência, mas o Real se organizou, voltou a ficar em vantagem e ampliou mesmo com um homem a menos. Outra decisão bizarra do árbitro Ricardo Bengoetxea ao mostrar o segundo cartão amarelo para Cristiano Ronaldo por uma simulação de pênalti – já havia recebido o primeiro ao tirar a camisa na comemoração. Não houve a falta, nem o atacante se atirou. Lance normal. Só não justifica o empurrão do atacante no apitador, por mais bizarra que tenha sido a atuação deste.

Ainda assim, os 3 a 1 confirmam o momento fantástico da equipe de Zidane e encaminham mais um título, que deve ser celebrado no Santiago Bernabéu. Independentemente da formação, do desenho tático e da proposta de jogo, ninguém está jogando mais que o Real Madrid no planeta.

Fica claro que o Barcelona de Ernesto Valverde vai precisar ir ao mercado e contar com mais desempenho de Messi para voltar a equilibrar as forças. Nem com a ajuda dos erros do “apito caseiro” conseguiu igualar a disputa.


A pobreza do “Mourinhobol” e a mentalidade vencedora do Real de Zidane
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André Rocha

Zinedine Zidane deixou no banco Cristiano Ronaldo, voltando de férias depois da participação na Copa das Confederações. Colocou Bale em seu lugar e manteve a equipe campeã espanhola e da Liga dos Campeões para a disputa da Supercopa da Europa na Macedônia. Com Isco novamente fazendo a ligação do meio com o ataque.

Com Casemiro, Modric e Kroos ajudaram o Real Madrid a jogar fácil. Nada revolucionário nos conceitos. Zidane quer aproximação, troca de passes, movimentação e simplicidade. E explora a grande virtude da equipe merengue: a qualidade na execução das jogadas. Precisão. Mesmo com erros incomuns, mas compreensíveis para um início de temporada. Como Kroos errar feio numa saída de bola.

Contra o Manchester United de José Mourinho assumiu naturalmente o protagonismo, ocupou o campo de ataque e com os avanços de Carvajal, que busca mais o fundo em velocidade que Marcelo do lado oposto, fez Lingard recuar como lateral formando com Valencia, Lindelof, Smalling e Darmian uma linha de cinco na defesa.

Acabou superado pela infiltração de Casemiro, impedido por centímetros ao receber passe de Carvajal para abrir o placar. Ampliou na bela combinação de Bale e Isco, que tocou na saída do goleiro De Gea. Toques rápidos e objetivos.

O United permitia que o Real tivesse a bola, mas as transições em velocidade criaram problema para o sistema defensivo espaçado do time espanhol por conta da proposta ofensiva e do condicionamento físico ainda em evolução no fim da pré-temporada.

Rashford, que entrou na vaga de Lingard, e Lukaku, grande contratação da temporada, perderam chances cristalinas. O atacante belga ao menos aproveitou o rebote de Keylor Navas para diminuir e ao menos criar a expectativa de reação.

Mas um time com tamanho poder de investimento não pode recorrer a Fellaini e um jogo físico e limitado às bolas aéreas em um jogo grande. Um “Mourinhobol” que pode até funcionar, mas é um enorme desperdício.

O Real, mesmo cansado, teve chances de matar o jogo nos contragolpes com Lucas Vázquez, Cristiano Ronaldo e Asensio. Mas nem foi preciso, porque controlou a partida aproveitando a pobreza do repertório dos Red Devils.

Também usando algo subjetivo, mas que no caso da equipe de Zidane fica bem nítido, quase palpável: a mentalidade vencedora. A certeza de que é melhor e pode ganhar. Por isso soma mais um título, sua quarta Supercopa europeia. O primeiro ato de um time pronto para seguir fazendo história.

 


Chelsea e Real Madrid: estratégias diferentes para inspirar times do Brasil
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André Rocha

Antes de qualquer ponderação é preciso explicar o óbvio, quase desenhar: a intenção do texto não é comparar a qualidade dos elencos dos milionários clubes da Inglaterra e da Espanha. Apenas as estratégias na gestão dos elencos. Mas também entendendo que é possível fazer uma proporcionalidade entre a capacidade dos clubes brasileiros citados e o nível do futebol jogado no país.

O Chelsea fez uma temporada 2015/16 para esquecer e não se classificou sequer para a Liga Europa. A prioridade absoluta era a Premier League, com as copas nacionais em paralelo da forma como os ingleses as vêm tratando nos últimos anos: escala reservas e só busca o título se não tiver algo mais importante em disputa. Ou seja, o que o tem restado ao Arsenal de Arsene Wenger.

A estratégia de Antonio Conte foi clara: depois de encontrar a formação com melhor relação desempenho/resultado, insistiu com ela e rodou bem pouco o elenco. Com a repetição de jogos e semanas livres para os treinos que funcionam mais como “polimento” após uma pré-temporada mais forte e longa que as do Brasil, a variação do 5-4-1 para o 3-4-3 ganhou ainda mais fluência. Os atletas passaram a executar as jogadas de memória, sem pensar muito e a equipe sobrou no Inglês.

Já vem sendo o trunfo do Corinthians na temporada. Equipe que ganhou corpo no Estadual, mas vacilou na Copa do Brasil com a eliminação para o Internacional. A arrancada espetacular no início do Brasileiro já sinaliza que a Sul-Americana, consequência da temporada irregular em 2016, ficará em segundo plano. A menos que abra uma vantagem na competição nacional tão confortável que permita inverter a lógica e poupar para um duelo decisivo no torneio continental.

O Real Madrid queria voltar a vencer o Espanhol depois de cinco anos e quebrar a hegemonia do rival Barcelona. Mas sem perder de vista a Liga dos Campeões, historicamente um alvo de conquista do maior campeão do torneio. A solução de Zinedine Zidane, depois de observar o desgaste de seus jogadores na temporada anterior, especialmente da estrela Cristiano Ronaldo foi simples, até um tanto antiquada: definir titulares e reservas. Treinar, condicionar e entrosar para que ambos estivessem prontos quando necessário.

Mas sem tapar os olhos para o desempenho e praticar a meritocracia. Tanto que Isco virou titular e Gareth Bale iniciou a decisão da Liga dos Campeões no seu País de Gales no banco. As partidas em que a equipe reserva seria utilizada foram definidas dentro de um planejamento, não necessariamente na partida do Espanhol que antecedia um duelo importante pela Champions.

O resultado: as duas taças em Madrid e todos voando no fim da temporada. Os titulares pelo descanso e os suplentes pela motivação e por conta do ritmo de competição. A dosagem certa para o futebol atual, que exige do atleta um enorme esforço mental – concentração absoluta para as tomadas de decisão corretas – e físico, com um aumento exponencial nas ações de alta intensidade – em especial os piques curtos para dar opção e receber a bola ou pressionar o adversário.

Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro, pelo alto investimento em seus elencos e, por conta disso, não podendo descartar nenhuma competição na temporada, podem pensar em algo parecido. Envolvidos em três campeonatos, se tentarem insistir com os titulares em todos haverá esgotamento e desvantagem contra adversários que não estão na mesma maratona de jogos a cada três dias.

Já com equipes mistas, poupando apenas aqueles que os exames apontam próximos de estourar os músculos, o entrosamento sempre fica comprometido. Os famosos rodízios não têm dado muito resultado prático por conta da falta de sintonia entre os setores muito alterados.

Parece mais racional definir antes e escolher as partidas mais acessíveis. Não como o Grêmio fez, poupando contra Sport e Palmeiras fora de casa porque tinha jogos considerados prioritários no meio da semana. Pontos jogados fora que hoje fazem falta na luta para se aproximar do líder Corinthians.

É lógico que sempre é mais inteligente deixar alguns titulares no banco para alguma eventualidade. Mas mesmo concentrando e fazendo parte da logística da partida, não deixa de ser um repouso para pernas e mentes. Em clubes tão pressionados por conquistas é um alívio. Cobrar presença em todos os jogos para justificar os altos salários parece pouco inteligente. Porque o atleta não está cansado a ponto de não poder exercer seu ofício. A ausência é apenas para que ele mantenha o alto rendimento. Não são máquinas.

Já passou da hora dos clubes brasileiros deixarem de se preocupar tanto com decisões políticas, pautadas por reações de torcida e imprensa. Não há como controlar os resultados, por isso planejar para minimizar os equívocos parece sempre a melhor escolha. Inclusive surpresas agradáveis podem acontecer. Como os titulares do Real Madrid derrotados pelo Barcelona no Santiago Bernabéu, mas não deixando o rival se aproximar da liderança exatamente pelos pontos conquistados pelos reservas, inclusive em jogos longe de Madri.

Ninguém por aqui conta com uma seleção mundial no elenco. Mas o Brasileiro também não tem o nível do Espanhol – as competições internacionais mostram que Barça e Real não sobram por falta de rivais à altura, mas por estarem numa prateleira acima no futebol mundial pela competência dentro de campo.

Com a disputa ainda no primeiro turno é possível corrigir a rota e definir o planejamento. O Corinthians parece cada vez mais consciente que o “modo Chelsea” é o norte a seguir, mantendo a base e investindo em recuperação e treinamentos pensando no Brasileiro.

Já os que gastaram para rechear seus elencos precisam definir um caminho para não correrem o risco de terminar 2017 sem taças importantes para ostentar. O Real de Zidane ganhou a Espanha e a Europa com inteligência. É possível fazer parecido, mesmo sem tanto talento disponível.

 

 


“O problema é quando se tem a bola” – Futebol atual é jogo de espaços
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André Rocha

A frase entre aspas do título deste post é de um treinador campeão brasileiro, cujo nome não será revelado para não criar qualquer estigma ou rótulo. Até porque havia um contexto dentro da entrevista. Mas a ideia era clara.

Ter a posse de bola é aumentar a probabilidade de errar e dar chances ao adversário. Na saída de bola, com zagueiros que não foram ensinados a iniciar a construção das jogadas e acabaram na posição pela estatura e vigor físico. Em um centro futebolístico que predomina financeiramente no continente, mas não conta com excelência técnica na maioria das posições e funções.

No qual a torcida não tem paciência para jogadas trabalhadas, vaia bola recuada para o goleiro com a proposta de criar espaços e, na ansiedade e imediatismo típicos da nossa cultura, exige que a ação ofensiva seja finalizada o quanto antes.

Por isso a bola de segurança pelos lados. Porque se há a perda, o contragolpe do oponente não se inicia em uma zona perigosa. O ataque só passa pelo centro para virar o lado saindo da pressão ou procurando um pivô, mas já no último terço do campo. Muitos cruzamentos, com bola parada ou rolando. A margem de erro é menor.

Como cobrar mais de treinadores trocados a cada três meses, ameaçados a cada três derrotas? Responsabilizados por problemas técnicos de seus atletas desde a base e sem tempo para treiná-los com jogos a cada três dias? Neste cenário pragmático é melhor mesmo não ter a bola e esperar o vacilo do outro lado.

A vitória do Botafogo sobre o Nacional uruguaio no Parque Central foi simbólica. Porque a equipe da casa, que também se sente mais confortável jogando em transições velozes, precisava trabalhar as ações ofensivas para infiltrar, construir o resultado para administrar na partida de volta.

Encontrou, porém, uma equipe brasileira novamente bem coordenada defensivamente, com concentração e entrega. Também sorte, já que no toque de Victor Luís na própria área com o braço muito aberto, em lance duvidoso para as novas recomendações da FIFA, a arbitragem não se deixou levar pelo mando de campo. Sem contar a falha grotesca do zagueiro Emerson Silva que Silveira não aproveitou à frente de Gatito Fernández. O erro quando teve a bola.

No contragolpe, inversão de Pimpão para Bruno Silva e bola na rede com o toque meio sem querer de João Paulo, meia que deixou Camilo no banco pelo maior poder de marcação e dinâmica mais alinhada à proposta do treinador Jair Ventura. Triunfo com 40% de posse e oito finalizações, quatro no alvo. Contra 17 do Nacional, mas só duas na direção da meta de Gatito. Sem ideias, os uruguaios efetuaram 41 cruzamentos. O Bota cometeu 26 faltas contra 14 e acertou 17 desarmes, o Nacional só 12. Espírito de competição.

O resultado facilita o trabalho para a volta no Estádio Nílton Santos. Porque o Botafogo, mesmo em casa e provavelmente com a torcida apoiando, deve manter sua ideia pragmática de jogo. O questionamento inevitável é: como será quando a equipe precisar sair para o jogo por necessidade? As derrotas para Barcelona de Guayaquil e Avaí no Rio de Janeiro entregam respostas preocupantes.

Jogar como “azarão” é mais simples. O discurso motivacional do treinador vai na linha do “Davi x Golias”, os comandados entram mais concentrados e nenhuma pressão. Há espaços para atacar e menor cobrança sobre o erro.

Não só no Brasil. Nos grandes centros a lógica é a mesma. Com Leicester City e Chelsea vencendo as últimas edições da Premier League sem dar muita importância para a posse de bola. O Barcelona eliminado na Liga dos Campeões por Atlético de Madri e Juventus e ainda levando 4 a 0 do PSG. Os rivais sempre jogando a isca: “Me ataque, fique com a bola e te golpeio em seus pontos fracos”. Pep Guardiola no Manchester City também sofreu e vai tentando aprender e se adequar à dinâmica do futebol jogado na Inglaterra.

Na final da Liga Europa, José Mourinho armou seu Manchester United para aproveitar os espaços deixados pelo Ajax com seu ataque posicional típico do futebol holandês. Marcação encaixada, bote no zagueiro colombiano Davinson Sánchez, elo fraco nos passes, e contragolpe rápido. Força no jogo aéreo e mais uma taça continental para o treinador português.

O mundo é do Real Madrid comandado por Zidane porque é um time talentoso e inteligente. Sabe jogar com a bola pela qualidade individual que possui. Por ser um gigante, em 90% das partidas na temporada entra como favorito e precisa se arriscar. Mas faz por necessidade, não filosofia ou convicção. E se abre o placar o jogo reativo volta a ser a ideia principal. Assim como a Juventus, finalista derrotada na Champions, é um time “camaleão”, que muda de acordo com o que se apresenta. Para isso precisa de jogadores completos, inclusive na leitura de jogo. Saber acelerar e cadenciar, dosar a intensidade.

Não por acaso o predomínio recente de Cristiano Ronaldo sobre Messi nas premiações individuais. Consequência das conquistas coletivas. O português é mais prático, simples e vertical. Decide com um toque. Para brilhar, o argentino precisa construir em um Barcelona cada vez mais mapeado e estudado. Missão complicada.

Porque quem trata a posse como obsessão ou filosofia, dentro ou fora de casa e independentemente do contexto está sendo obrigado a mudar. No futebol tão estudado de hoje, a equipe abre mão do fator surpresa. Instala-se no campo de ataque, gira a bola em busca de espaços e os cede atrás, por consequência. Cabe ao rival negar as brechas para infiltrações, com o cada vez mais utilizado sistema com cinco homens na última linha de defesa, e explorar os pontos falhos, que sempre existem.

Na costumeira variação do 4-3-1-2 para duas linhas de quatro bem compactas, o Botafogo venceu em Montevidéu. Mais uma vez sem fazer questão da posse. No futebol, ela cada vez mais vai perdendo sua importância. A referência é o espaço. O “jogar sem bola” aproxima das vitórias.  Paradoxal, não?

E a frase do técnico, que soou absurda há alguns anos, mostra-se visionária. Mas qual será o impacto no futuro do esporte? Felizmente ele é cíclico, por isso tão apaixonante. Logo virá uma resposta. Tomara…

(Estatísticas: Footstats)

 


Real Madrid de Cristiano Ronaldo entra para o grupo dos grandes esquadrões
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André Rocha

É uma equipe que não encanta. Não revoluciona taticamente, embora sinalize o futuro como um time “camaleão” – vence dominando a posse de bola, no contragolpe ou na bola parada. Ainda que Zinedine Zidane tenha arrumado o time com uma atualização do 4-3-1-2 que se fecha em duas linhas de quatro com Isco alternando pelos flancos.

Mas não dá para negar: o Real Madrid de Cristiano Ronaldo entra no grupo dos grandes esquadrões. Aqueles históricos, lembrados daqui a vinte, trinta…cinquenta anos!  São três títulos da principal competição de clubes do planeta em quatro edições. Na que perdeu chegou nas semifinais. Se voltarmos um pouco mais, esteve entre os quatro melhores da Europa também em 2011, 2012 e 2013.

A referência, porém, é a partir de “La Décima” em 2014. Afinal, de lá para cá o time mudou muito pouco. Saíram Casillas, Xabi Alonso e Di María, Coentrão perdeu a vaga para Marcelo, Pepe se lesionou. Mas a base é a mesma. De Carlo Ancelotti para o seu ex-auxiliar Zidane. Com um esquecível e lamentável Rafa Benítez de “hiato”.

Mantendo a proposta de jogo e a gestão de vestiário. Com calma, dando leveza, sem tantas cobranças nos aspectos táticos e estratégicos. Ataca num 4-3-3 ou 4-3-1-2, defende em duas linhas de quatro. Futebol simples, com força mental e aproveitando a qualidade individual.

Com dois toques pessoais do “Zizou”: Casemiro na proteção e ainda aparecendo na frente para ir às redes, como no gol fundamental nos 4 a 1 sobre a Juventus em Cardiff. E a gestão do elenco, descansando titulares importantes para a equipe voar no final da temporada. A superioridade física no segundo tempo da final foi clara, depois do domínio da equipe italiana e o golaço de empate com Mandzukic na primeira etapa.

Acima de todos, o incrível Cristiano Ronaldo. Já uma lenda. Nas três conquistas foi o artilheiro absoluto da competição continental. Agora fechou a fase de grupos com apenas dois. No mata-mata, contra Bayern de Munique e Atlético de Madri, nada menos que oito. Na grande final, mais dois, superando os onze de Messi. 600 na carreira, 105 na Liga dos Campeões. Com o conquistado pelo Manchester United em 2008, são quatro conquistas. Primeiro a marcar gols em três decisões. Artilheiro absoluto, quinta Bola de Ouro garantida. Maior jogador da história do Real Madrid. Repito: melhor finalizador que este blogueiro viu ao vivo, superando Romário, Ronaldo, Van Basten. Todos.

Vamos aos feitos da equipe merengue: primeiro bicampeão da Era Champions League. A Juventus só tinha sofrido três gols em 12 jogos. O Real enfiou quatro na decisão, com Asensio fechando a goleada no final. Foi às redes nos últimos 65 jogos.

É histórico. Um time que marca época, ainda que não tenha um estilo particularíssimo como o Barcelona. Não encanta, mas vence com talento, pragmatismo e força mental. Eram nove ligas do clube, agora são doze. Graças a Zidane, Marcelo, Sergio Ramos, Casemiro, Modric, Isco…E a este impressionante Cristiano Ronaldo. Um gênio do nosso tempo.


Juventus x Real Madrid: os camaleões atrás da orelhuda
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André Rocha

Quando José Mourinho e Pep Guardiola polarizaram o futebol mundial no início da década, em especial nos duelos entre Real Madrid e Barcelona, criou-se também uma dicotomia: posse de bola x jogo reativo. Ainda que Lionel Messi tenha definido o superclássico espanhol pela semifinal da Liga dos Campeões 2010/2011 em um contragolpe e o time merengue comandado pelo português tenha batido o recorde de pontos no Espanhol na temporada seguinte atropelando os adversários.

O tempo mostrou que o radicalismo nos conceitos de jogo podem criar dilemas complicados. Como o Bayern de Munique de Guardiola tentando jogar no campo de ataque e deixando espaços para o trio MSN do Barça no auge em 2015. Ou o Chelsea de Mourinho, no mesmo ano, pagando pela cautela excessiva, em casa e com um homem a mais, contra o PSG pelas oitavas de final da Champions.

O primeiro campeão europeu a sinalizar que a flexibilidade na proposta de jogo seria a melhor solução foi o Bayern de Jupp Heynckes em 2012/13. A equipe que faturou a tríplice coroa podia atacar com fúria e volume, mas também com paciência. Na temporada, só o Barcelona de Tito Vilanova/Jordi Roura, sucessores de Guardiola, teve mais posse. No duelo entre os dois, o time bávaro pulverizou o catalão com 7 a 0 no agregado e média de 40% do tempo com a bola. Contragolpe na veia. Quando foi preciso.

O Real Madrid de Carlo Ancelotti de “La Décima” em 2014 e a Juventus finalista em 2015 também se mostraram equipes “híbridas”. Saindo de trás com a classe de Xabi Alonso e Pirlo, mas sabendo acelerar na frente com o trio “BBC” nos merengues e colocar intensidade com Vidal, Tevez e Morata.

Agora, espanhois e italianos se encontram na final do principal torneio de clubes do planeta atingindo a excelência na proposta de se adaptar conforme a necessidade. Ser um time “camaleão”. Ambos sabem trabalhar com posse para abrir defesas fechadas – embora não estejam entre as cinco melhores no controle da bola nesta edição do torneio continental. Mas se preciso abrem ferrolhos no jogo aéreo, com bola parada ou rolando. Também ficam confortáveis jogando em contra-ataques.

Para a decisão em Cardiff, a dúvida é quem tomará a iniciativa de início, propondo o jogo e adiantando a marcação. Talvez o Real Madrid, seguro e confiante por ser o atual campeão e ter a mesma base com duas conquistas nas últimas três temporadas. Também por ser o melhor ataque, com 32 gols, e a equipe que mais finaliza, a segunda que mais acerta passes (88% de efetividade).

Provavelmente com Isco sendo o “enganche” do 4-3-1-2 montado na ausência do lesionado Gareth Bale e que deu tão certo que deve manter o galês no banco, mesmo numa final disputada em seu país. A mudança trouxe mobilidade na frente e desafogo para o meio-campo. O meia circula às costas dos volantes adversários nas ações ofensivas e retorna por um dos lados na recomposição formando duas linhas de quatro. Se pela direita, Modric e Casemiro fecham o centro e Toni Kroos abre à esquerda. Se Isco inverte o lado, é Modric a abrir à direita e Casemiro e Kroos ficam no meio.

Deve ser esta a opção de Zinedine Zidane. Modric, mais rápido, fecha a subida de Alex Sandro enquanto Carvajal fecha a diagonal de Mandzukic em busca da zona de conclusão fazendo dupla com Higuaín. Isco volta, mas nem tanto, contra Barzagli e Marcelo se encontra no setor com Daniel Alves.

Porque a Juventus de Massimiliano Allegri, que sofreu apenas três gols em 12 partidas, deve repetir a ideia vencedora na semifinal da UCL em 2014/15: duas linhas de quatro bem compactas. Pelas características e dentro do contexto, podem ter cinco defensores. Com Barzagli por dentro e Daniel Alves como lateral. Para evitar a circulação de Isco, vigiar as descidas dos laterais Carvajal e Marcelo e não ser surpreendida pela mobilidade de Benzema e Cristiano Ronaldo na nova configuração do ataque, em dupla.

Na transição ofensiva, caberá a Pjanic o primeiro passe e a Dybala o último. O argentino tende a procurar mais o lado direito para trabalhar com a canhota e dar suporte a Daniel Alves. Mesmo na marcação por zona padrão da Europa, Casemiro terá a função de negar espaços ao meia que atua mais solto, próximo a Higuaín.

Atenção na bola parada. O Real tem Kroos em faltas laterais e escanteios buscando Sergio Ramos e Cristiano Ronaldo nas cobranças diretas. A Vecchia Signora conta com Pjanic, Daniel Alves e Dybala. Na área adversária, Bonucci, Chiellini, Mandzukic e Higuaín. Junto com o Bayern de Munique, são os três times que mais completam cruzamentos no torneio. Assim a Champions pode ser definida.

A Juventus tem mais “fome”, mas a pressão de dar uma Liga dos Campeões ao mito Buffon e de não falhar na nona final, depois de apenas dois títulos em oito decisões, pode jogar contra. Mesmo com tanta experiência e o supercampeão Daniel Alves do lado italiano.

Já o Real Madrid entra mais relaxado. A obrigação era “La Decima”, depois de 12 anos sem sequer alcançar uma final. É o maior e atual campeão, já venceu a liga espanhola, que era a conquista que faltava depois de cinco anos. Pode encher de confiança, mas também arrancar o “sangue nos olhos” e a indignação com a derrota que constroem os campeões.

Não há favorito no duelo de camaleões atrás da orelhuda. Mas o blogueiro se permite um palpite, sem muita convicção: a Juventus leva desta vez. Talvez nos pênaltis.

Real Madrid no 4-3-1-2 com Isco tentando circular às costas dos volantes e retornando pela esquerda, com Modrc do outro lado fechando a segunda linha de quatro. Juventus novamente deve alternar o 4-4-2 e o 5-3-2 com Barzagli lateral ou zagueiro e Daniel Alves fazendo o corredor pela direita. Na esquerda, Mandzukic volta na recomposição e busca a diagonal para se juntar a Dybala e Higuaín (Tactical Pad).

(Estatísticas: UEFA)

 


Real Madrid campeão! A revolução de simplicidade e discrição de Zidane
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André Rocha

Zinedine Zidane assumiu o Real Madrid no início de 2016, salvando a pele de Florentino Pérez, que emendou duas decisões para lá de controversas: demitir Carlo Ancelotti mais pela frustração de ver o Barcelona faturar a tríplice coroa do que propriamente por uma avaliação do trabalho do treinador italiano que comandou o time que conquistou a sonhada “La Decima”.

Pior ainda foi trazer Rafa Benítez, em baixa na carreira, para liderar seu elenco estelar. Não podia dar certo, até por não se identificar com o clube e ter a petulância de tentar ensinar jogadores como Cristiano Ronaldo e Toni Kroos a bater na bola, se intrometendo até nos gestos técnicos dos atletas.

Algo que Zidane, um dos maiores e mais técnicos jogadores da história, poderia se aventurar a impor. Pelo contrário. Transmitiu confiança, usou o respeito que desperta sem fazer força para deixar o ambiente mais leve, trouxe as lideranças para perto. Na gestão do grupo, também manteve todos motivados, mudou de patamar jogadores como Lucas Vázquez. Investiu no condicionamento físico.

Na parte tática e estratégica, começou resgatando as ideias de Ancelotti, de quem era auxiliar. Variação do 4-3-3 para o 4-4-2 sem a bola. Com a má fase de James Rodríguez e a dificuldade de encontrar o meia para atacar centralizado, na articulação, e voltar pela esquerda, além dos problemas defensivos, fez o simples mais uma vez: plantou Casemiro na proteção da defesa e deu liberdade a Kroos.

Trabalhando jogo a jogo, descansando quem precisava e valorizando os substitutos sem lamentar as ausências foi arrumando a casa. Realista, jogou a toalha na liga na derrota para o Atlético de Madrid no Santiago Bernabéu. Paradoxalmente, o foco na Champions e a sensação de “o que vier é lucro” ajudou a construir um retrospecto de 12 vitórias seguidas, inclusive os 2 a 1 sobre o Barcelona no Camp Nou.

Campanha que manteve a confiança alta e ajudou a pavimentar o 11º título da Liga dos Campeões. Conquista que pode ser atribuída um tanto à sorte por conta dos cruzamentos menos complicados que os rivais e superar o Atlético novamente, desta vez nos pênaltis. Sem muito brilho, mas fazendo história.

Para a temporada 2016/17, o aprimoramento das virtudes: elenco mais forte, com Morata e Asensio formando uma equipe reserva capaz de manter a competitividade enquanto descansa os titulares. E atento ao desempenho para fazer ajustes por meritocracia.

Isco foi o beneficiado pelo senso de justiça na reta final. Voando nas vitórias dos reservas e entrando bem quando solicitado, virou titular na vaga de Bale, em uma nova alteração tática. Do 4-3-3 para o 4-3-1-2, com o meia atuando como “enganche” à frente de Modric e Kroos e deixando Cristiano Ronaldo praticamente como um atacante próximo à área adversária, com liberdade de movimentação.

Poupado em nove partidas na liga, o português estava pronto para ser decisivo na reta final do campeonato nacional e do torneio continental. Se antes o genial finalizador tentava duelar com Messi nos números, agora entendeu que as taças são mais importantes que as bolas na rede. Até porque ele sempre será o artilheiro e a estrela da equipe, mesmo sem jogar todas.

O resultado prático é uma campanha memorável no Espanhol: 29 vitórias, seis empates, apenas três derrotas. 82% de aproveitamento. O ataque mais positivo e a defesa menos vazada são do Barcelona. Mas nos pontos foi soberano durante toda a liga.

Futebol prático e simples, respeitando as características dos jogadores. Os laterais Carvajal e Marcelo abrem o campo, ainda que o brasileiro infiltre muito por dentro, quase como meia. O meio-campo marca e joga, com Kroos e Modric alternando passes longos e curtos e qualificando a saída desde a defesa auxiliando Casemiro. Na frente, o trabalho de coadjuvante de Benzema e o poder de decisão de Cristiano Ronaldo. Se necessário, há a qualidade na reposição para manter desempenho e a média na conquista de pontos.

Um time “camaleão”, que joga com posse de bola ou nas transições velozes, sem deixar de valorizar o momento das jogadas aéreas com bola parada. Algo lógico quando se tem a precisão de Kroos e a fantástica presença na área adversária do já lendário Sergio Ramos.

Acima de tudo, respeitando a história do clube. Porque o torcedor madridista não quer exatamente espetáculo. Exige vitórias, mas que de preferência sejam construídas com futebol ofensivo e liberdade para os craques “galácticos” contratados a peso de ouro colocarem o talento a serviço da equipe. Sem amarras táticas. Com mentalidade vencedora.

Título confirmado fora de casa nos 2 a 0 sobre o Málaga. Um gol de Cristiano Ronaldo em contragolpe letal, outro de Benzema na bola parada sempre tão eficiente. Mais simbólico, impossível. Completando 64 partidas consecutivas fazendo gols. Pela primeira vez com campanha mais efetiva em pontos fora de casa do que no Bernabéu: 47 x 46.

Nada muito inovador, embora moderno. Zidane respeita as características e as qualidades dos jogadores. Não tenta ser a estrela mais reluzente e midiática. Valoriza o jogo, o futebol em todas as suas vertentes. Se Zidane revolucionou o Real Madrid, foi pela discrição e simplicidade.

Agora parte para o ato final e mais importante: nova final de Champions, desta vez contra a Juventus em Cardiff. Decisão sem favoritos, até pelo tempo que ambos terão para se preparar e com a confiança das ligas conquistadas. Agora com o Real enfrentando os cruzamentos mais complicados: Napoli, Bayern de Munique e Atlético de Madrid.

A Juventus tem mais “fome”, já que o título europeu não vem desde 1996. Já o Real carrega a “casca” de uma base que disputou duas finais recentes. Se vier a décima segunda, todos os holofotes estarão sobre Cristiano Ronaldo e sua quinta Bola de Ouro.

No banco, aplaudindo os protagonistas, o grande mentor. O Zidane que em campo fazia tudo parecer tão trivial e agora, na beira do gramado, trabalha com o mesmo semblante tranquilo de quem sabe o que quer.