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Trauma ou sede de revanche? Como será o Atlético de Simeone contra o Real?
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André Rocha

Foto: Denis Doyle (Getty Images)

O sorteio das semifinais da Liga dos Campeões promove o quarto encontro consecutivo entre Real e Atlético, o clássico de Madrid. Foram duas finais duríssimas, definidas em prorrogação e pênaltis. Mais um duelo pelas quartas-de final em 2015. 1 a 1 no Calderón, 1 a 0 para os merengues no Bernabéu.

O Atlético vem de três vitórias e um empate no Santiago Bernabéu pelo Espanhol. O retrospecto contra o rival na Era Simeone é de sete vitórias, seis empates e oito derrotas. Equilíbrio absoluto.

Agora a ida no Bernabéu e a definição no Calderón. Em tese, uma vantagem para o Atlético e um cenário nunca vivido pelo Real contra os colchoneros.

Taticamente, sem segredos. Real Madrid terá a bola, trocará passes no meio e buscará as infiltrações com os atacantes acelerando ou abrindo o jogo pelas laterais com Carvajal e Marcelo para furar as compactas linhas de quatro de Simeone que vai tentar controlar o jogo sem a bola esperando a chance de golpear com o talento e a rapidez de Griezmann.

A grande questão é como o Atlético vai se comportar em termos anímicos. Porque o retrospecto, no geral, é de jogos parelhos. Mas na Champions o rival sempre saiu comemorando. Quando os times entrarem em campo no Bernabéu valerá mais a invencibilidade dos visitantes ou o que foi vivido no duelo continental?

O Atlético será todo trauma, todo medo de sair novamente como o vencido ou todo valentia, todo sede de revanche com o “sangue nos olhos” tão cobrado por Simeone? Como será encarar de novo os algozes Sergio Ramos, Cristiano Ronaldo, Marcelo? Os clássicos pela liga espanhola terão peso nesta equação?

As respostas de Madrid virão a partir do dia 2 de maio. Mas se tivesse que investir as fichas, a aposta seria no Atlético. Se sair vivo do Bernabéu que conhece tão bem, a atmosfera do Calderón com Simeone regendo a massa pode fazer a diferença desta vez.

Para fazer a final em Cardiff, provavelmente, contra a Juventus. Favorita contra o Monaco pela chance de domar o time do jovem Kylian Mbappé como o irregular Manchester City de Guardiola e o traumatizado Borussia Dortmund não conseguiram. Sistema defensivo sólido para controlar e qualidade na frente para aproveitar os espaços cedidos pelo time de Leonardo Jardim.


A força mental e a confiança de que tudo vai dar certo do Real Madrid
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André Rocha

Se desta vez o sorteio da Liga dos Campeões não foi “generoso” colocando o Bayern de Munique de Carlo Ancelotti no caminho, o contexto acabou dando dois presentes para o Real Madrid no jogo de ida das quartas-de-final em Munique. Primeiro a ausência de Lewandowski, artilheiro da Bundesliga com 26 gols. Uma lesão no ombro tirou o centroavante e referência da equipe de Carlo Ancelotti.

Ainda assim, o time bávaro fez bom primeiro tempo. Com Arturo Vidal recuando próximo aos zagueiros para qualificar a saída de bola e acionando o lado direito como o setor forte. Porque os merengues se defendiam em duas linhas de quatro, com Bale voltando à direita e Toni Kroos abrindo pela esquerda. Mas o alemão era lento no movimento e deixava Marcelo sozinho contra Lahm e Robben.

Mesmo com Thomas Muller desconfortável no centro do ataque e uma atuação bem abaixo da média na temporada de Thiago Alcântara, havia volume e presença ofensiva. Vidal apareceu bem ao se antecipar a Nacho, substituto do lesionado Pepe na zaga, e acertar um “tiro” de cabeça que Keylor Navas não impediu.

Mas houve o pecado capital em disputa tão parelha. O segundo “presente” que o Real recebeu: um pênalti inexistente contra, já que não houve toque no braço de Carvajal depois do chute de Ribéry. Vidal isolou. E o Bayern murchou já no final do primeiro tempo. O paradoxo do futebol: se o árbitro Nicola Rizzoli não tivesse errado talvez o time alemão não sentisse tanto a chance desperdiçada de fazer 2 a 0 e abrir vantagem confortável.

Voltou na segunda etapa desorientado. É possível que a falta de adversários à altura na Bundesliga atrapalhe nesses momentos de dificuldade. O  Real, porém, também voltou mais aceso, congestionando o setor esquerdo com Casemiro e Sergio Ramos atentos na cobertura.

Acima de tudo, a equipe de Zidane é muito forte mentalmente. Atual campeã do torneio, líder da liga espanhola. Não é um primor coletivamente, mas todos sabem o que precisam fazer: os laterais defendem e apoiam abertos para espaçar a marcação, os meio-campistas trabalham a bola, o trio de ataque acelera e se procura para tabelas. Futebol simples e eficiente, respaldado no talento.

Como é Cristiano Ronaldo, que apareceu e fez a diferença já aos dois minutos completando passe de Carvajal. Especialmente depois da expulsão de Javi Martínez, por duas faltas seguidas punidas com cartões, o que era uma oscilação emocional virou desmanche e o Real passeou.

Recuperou a posse de bola (terminou com 51%) e finalizou nada menos que 16 vezes em pouco mais de 45 minutos, contra duas do time da casa. O centésimo gol de Ronaldo na Champions podia ter vindo na conclusão que Neuer tirou com o braço lembrando uma manchete de vôlei.

Mas o português não perde a concentração e, segundos depois, finalizou de novo e a bola passou entre as pernas de Neuer. Cem gols em competições europeias de clubes – 98 na Champions e dois pela Supercopa. Fenômeno, mesmo sem um desempenho tão notável nesta edição quanto nas últimas.

Ainda houve um gol bem anulado de Sergio Ramos. Mas a virada em Munique parece ter definido o confronto. Porque o Real Madrid de Zidane tem qualidade e entrosamento, mas também a confiança de que tudo vai dar certo. É quase impossível que dê tudo tão errado no Santiago Bernabéu.

(Estatísticas: UEFA)

 


Real de Zidane aprendeu a jogar La Liga. Mas tem Griezmann no Bernabéu…
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André Rocha

O título da Liga dos Campeões é e será a grande lembrança para o Real Madrid da temporada 2015/2016. Ainda que a conquista tenha vindo sem um desempenho tão sólido, inferior ao da conquista de “La Décima”. Mas houve um feito relevante que acabou esquecido por não ter rendido taça.

Zidane sucedeu Rafa Benítez em 2016 e começou sua trajetória com cinco vitórias e dois empates. Na rodada seguinte, derrota. A única. Porque emendou nada menos que doze vitórias, inclusive por 2 a 1 sobre o Barcelona no Camp Nou. Ficou a um mísero ponto do time catalão, que faturou o bicampeonato.

Na atual temporada alcançou mais quatro triunfos. Com os 12, igualou as 16 vitórias seguidas do Barcelona comandado por Pep Guardiola na temporada 2010/2011. Na 31ª rodada, a liderança com 22 vitórias, seis empates e só duas derrotas. Tem um jogo a cumprir, fora de casa contra o Celta de Vigo.

Uma campanha espetacular com Zidane. Em 51 jogos, 39 vitórias, oito empates e quatro derrotas. Nada menos que 84% de aproveitamento. Definitivamente, o clube que nos últimos anos cresce no mata-mata e dispersa nos pontos corridos aprendeu a jogar a liga. Mas o título que não vem desde 2011/2012 está em risco.

Porque o Atlético de Madrid é uma pedra no sapato do time merengue. Por incrível que pareça, o derrotado em duas finais de Champions e que levou 3 a 0 no Vicente Calderón no turno, triplete de Cristiano Ronaldo, complica tudo no Santiago Bernabéu.

Na temporada passada, a única derrota do Real Madrid sob o comando de Zidane na liga espanhola. A rigor, foi o que tirou o título. Ainda que Zidane tivesse jogado a toalha da disputa e focado na Champions. Mas foi vencendo, vencendo…e quase chegou.

Agora o Real vinha de 14 jogos de invencibilidade e os colchoneros chegavam ao Bernabéu com cinco vitórias consecutivas. Duelo fundamental para o Atlético tentar uma última arrancada em busca do título que faturou em 2014 e o Real garantir a vantagem antes do superclássico no próximo final de semana.

Os visitantes começaram surpreendendo atacando o lado de Marcelo com Ferreira Carrasco e forçando os erros de passe do rival com marcação agressiva. Mas logo se recolheu nas duas linhas de quatro, porém recuando muito os atacantes Griezmann e Fernando Torres.

Com isso perdia a capacidade de construir os contragolpes com bolas longas às costas da defesa. O Real avançou as linhas e passou a jogar como gosta: trabalhando os passes no meio com Casemiro, Modric e Kroos para acelerar na frente com o trio BBC ou pelos flancos com Carvajal e Marcelo.

Controlou com 56% de posse, finalizou seis vezes contra cinco. Mas quatro no alvo contra apenas um do Atlético. A melhor com Cristiano Ronaldo tirando do alcance de Oblak, mas o zagueiro Savic salvando de cabeça sobre a linha.

Para ir às redes na segunda etapa, foi preciso apelar para a grande arma do time de Zidane: as jogadas aéreas com bola parada. São 25 gols desta forma na temporada. Na 11ª assistência de Toni Kroos, o gol de cabeça do zagueiro….Não, desta vez não foi de Sergio Ramos. Belo golpe de cabeça de Pepe, que saiu lesionado após choque com Toni Kroos.

Por incrível que pareça, o milionário Real Madrid de Florentino Pérez piorou com as substituições: Além de Nacho na vaga do zagueiro luso-brasileiro, Lucas Vázquez e Isco substituíram Bale e Kroos. Perdeu volume e controle.

Simeone ganhou mobilidade entre a defesa e o meio-campo do adversário com duas substituições: Correa na vaga de Saúl Níguez e Thomas no lugar de Ferando Torres. Na flutuação do argentino às costas de Modric e fora do alcance de Casemiro, o passe para Griezmann, adiantado como centroavante, empatar. Sim, o “carrasco” da derrota na temporada passada.

Agora são três vitórias e o empate em 1 a 1 no Bernabéu nos últimos quatro jogos. O “freguês” na Liga dos Campeões e que sofre com o rival quando joga em seus domínios pode ajudar o Barcelona novamente.

O trio MSN e seus companheiros agora só dependem de si para buscar o tricampeonato. Se vencerem o Málaga igualam na liderança com 72 pontos. Se superarem os merengues em Madrid,  ultrapassam e nem dependem mais do jogo a menos do Real, já que o critério de desempate é o confronto direto.

E aí pouco valerá o aproveitamento fantástico de Zidane como treinador na liga. Porque tem o Atlético e Griezmann pelo caminho…


Quartas da Champions: duelos de gigantes e entre semelhantes
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André Rocha

ATLÉTICO DE MADRID x LEICESTER CITY – Dureza para os dois times. Para o Atlético porque entra como favorito absoluto, obrigado a propor jogo e dar o contragolpe. Para o Leicester também, já que será azarão, mas não tanto como se encarasse um gigante como Bayern, Barcelona e Real Madrid.

Interessante para ver essa versão do time de Simeone, que ocupa o campo de ataque e valoriza mais a posse de bola no ritmo de Saúl Ñíguez, mas sem deixar de ser compacto e concentrado, diante do campeão inglês que só joga em velocidade, vai entregar tudo no trabalho defensivo para definir em casa com o melhor de Vardy e Mahrez.

FAVORITO – Atlético de Madrid

BORUSSIA DORTMUND x MONACO – Duelo de intensidade máxima e vocação ofensiva, com times se arriscando dentro e fora de casa. Porém sem tanto controle de jogo. Ou seja, quem abrir vantagem na ida sofrerá se quiser administrá-la na volta.

Dembelé e Aubameyang contra Bernardo Silva e Mbappé. Thomas Tuchel versus Leonardo Jardim. Confronto sem a pompa dos duelos de gigantes, mas que promete demais. Muitos gols. Time alemão leva pequena vantagem pela cancha maior na competição.

FAVORITO – Borussia Dortmund

BAYERN DE MUNIQUE X REAL MADRID – Simplesmente 16 títulos em campo. Carlo Ancelotti, o mentor e campeão de “la decima”, contra Zidane, o aprendiz e atual vencedor. Dois times com camisa e experiência. Mas é difícil imaginar alguma novidade tática, já que são treinadores mais administradores que construtores.

Mesmo que a marcação individual tenha ficado para trás, é impossível não imaginar duelos como Bale x Alaba e a luta no meio-campo com Casemiro, Modric, Kroos de um lado; Xabi Alonso, Vidal e Thiago Alcântara do outro. Mais Robben contra Marcelo. Quem controlar a posse não leva vantagem necessariamente. Aposta na “sede” dos bávaros de recuperar o domínio europeu e no retrospecto positivo no confronto.

FAVORITO – Bayern de Munique

BARCELONA X JUVENTUS – A reedição da final da temporada 2014/15. Mas desta vez com o time catalão sem a consistência da última conquista e a equipe que domina a Itália há tempos mais cascuda e querendo revanche da decisão no Estádio Olímpico de Berlim.

A Juve parece ter uma formação mais equilibrada, com Mandzukic sendo o centroavante que infiltra pela esquerda para se juntar a Higuaín e Dybala no centro e receber as bolas de Cuadrado e Daniel Alves, que conhece muito bem o adversário. Mas o Barça, apesar das oscilações e dos problemas defensivos, tem o tridente genial e a sensação de que pode tudo depois dos 6 a 1 sobre o PSG.

FAVORITO – Barcelona

 

 


Futebol não é só tática! Na alma, Sevilla encerra a invencibilidade do Real
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André Rocha

Zidane surpreendeu ao mandar a campo pela primeira vez o seu Real Madrid com três zagueiros. Ou uma linha de cinco atrás, tendência recente com o sucesso do Chelsea de Antonio Conte na Premier League.

A lógica é simples: se o adversário trabalha a bola para encontrar espaços, infiltrar nos últimos vinte metros e finalizar, por que não ter mais jogadores para evitar a jogada mais importante? A receita de Mourinho e tantos outros treinadores para parar Barcelona e as equipes de Guardiola ou qualquer time que queira a bola.

Como o Sevilla de Jorge Sampaoli, que é equipe de posse, linhas adiantadas e circulação de bola com tabelas e triangulações no ritmo do redivivo Nasri, que, junto com N’Zonzi, afundou Ganso no banco. Até encontrar as diagonais em velocidade de Ben Yedder, artilheiro da equipe, e Vitolo. Atacantes abertos que encontram parcerias nos flancos com os laterais Mariano e Escudero. Proposta ofensiva.

A resposta merengue foi Nacho entrando na zaga com Varane e Sergio Ramos. Carvajal e Marcelo eram alas no ataque e quase pontas quando o Real Madrid avançava a marcação e pressionava no campo de ataque. Sem a bola, formavam o cinturão de proteção da meta de Keylor Navas com o suporte de Casemiro, preciso nos desarmes.

O time visitante e líder do Espanhol não se incomodava em perder o meio-campo e deixar o mandante controlar a posse (56% no primeiro tempo). A ideia era evitar a ação ofensiva trabalhada que cria a oportunidade cristalina, o adversário na cara do gol.

Conseguiu na primeira etapa. O momento mais perigoso foi com N’Zonzi em cobrança de escanteio. Já o Real, nos contragolpes às costas de Mariano, teve duas espetadas de Cristiano Ronaldo e Benzema. Só faltou a conclusão precisa para coroar o jogo controlado.

A segunda etapa começou com intensidade máxima do time de Sampaoli, muita movimentação e uma bola roubada que virou contragolpe e Ben Yedder, pela primeira vez com espaços às costas de Nacho, parou em Navas.

Taticamente, porém, o Real seguia dono do plano mais bem executado. Logo ameaçou em dois contragolpes até o pênalti do goleiro Sergio Rico em Carvajal, após vacilo de Escudero. Confusão, catimba, provocação de Vitolo, mas nada impediu que Cristiano Ronaldo cobrasse com a precisão costumeira.

Zidane trocou o exausto Kroos por Kovacic. Poderia ter tirado Benzema e colocado Morata para ganhar fôlego nos contragolpes, mas o controle era do Real. Mesmo com Sampaoli arriscando tudo com Sarabia no lugar de Iborra, mas para abrir à direita e enviar Ben Yedder para se juntar no centro do ataque a Jovetic, que substituiu Franco Vázquez.

O Sevilla se mandou, correu riscos com os lentos zagueiros Pareja e Rami contra Cristiano Ronaldo. Mas futebol não é só tática ou estratégia. É também alma, fibra e atmosfera no estádio. E o Ramón Sánchez-Pijzuán ferveu no gol contra de Sergio Ramos, vaiado o jogo todo pelas provocações na Copa do Rei e ainda por conta da saída conturbada do clube. Na bola parada, quando o “abafa” era a única saída.

Com o Real tonto vendo o herói de tantas conquistas recentes com gols nos últimos minutos desta vez ser o vilão e acuado pelos gritos vindo das arquibancadas e pela entrega dos jogadores dentro, veio a virada no chute de Jovetic que Navas espalmou para dentro.

Sim, Sampaoli foi feliz ao colocar presença física na área adversária para ter mais chances de finalizar. Mas isso qualquer treinador faria. Fazer o óbvio às vezes é mérito também.

Zidane provavelmente será responsabilizado pela primeira derrota após 40 jogos. Talvez um técnico mais vivido fizesse o time parar o jogo, quem sabe com trocas no final para ganhar tempo. Porém na estratégia ele acertou mais que errou no duelo contra um dos melhores treinadores do planeta, que rapidamente já faz o Sevilla mudar de patamar no país e no continente.

Mas o futebol é espetacular por essas histórias errantes, sem roteiro definido. Instável, emocionante, imprevisível. Que deixa tudo em suspense, em aberto. Como ficou o Espanhol com o Sevilla voltando à vice-liderança e trazendo o Barça para perto do Real Madrid. Temos um campeonato.

(Estatísticas: Whoscored.com)

 


Por que os europeus nunca vacilam na semifinal do Mundial
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André Rocha

A vantagem financeira é abissal e cristalina, mas dinheiro não é tudo. Tanto que muitos gigantes milionários tropeçam diante de nanicos em suas ligas.

O Real Madrid, sem Gareth Bale e poupando Sergio Ramos, teve dificuldades nos 90 minutos diante de um América do México bem organizado por Ricardo La Volpe. Com cinco na última linha de defesa, mas sem abdicar do jogo. Mais uma prova de que retranca não tem relação direta com sistema tático.

O time de Zidane, seguro e pragmático, soube girar a bola com paciência, sofrer sem desespero e esperar a brecha até a jogada de Cristiano Ronaldo, Modric, a assistência de Kroos e o belo gol de Benzema que descomplicou o jogo já nos acréscimos de um primeiro tempo de 58% de posse merengue e dez finalizações contra cinco dos mexicanos.

Segunda etapa de controle para dosar as energias, mesmo com alguns sustos pelo ímpeto do América, defendendo invencibilidade de 16 jogos. Zidane fechou sua equipe em duas linhas de quatro com James e Morata nas vagas de Kroos e Benzema e aguardou o melhor momento para o contragolpe letal.

Veio nos acréscimos com o primeiro gol de Cristiano Ronaldo no Mundial com a camisa do Real, em nova confusão da arbitragem com o auxilio do vídeo. Mas nem precisava.

Porque o Real, assim como os europeus que chegaram a todas as decisão do Mundial Interclubes desde 2005, jogou ao natural, como uma partida qualquer. Sem a tensão que os sul-americanos carregam – um misto de medo do vexame, preocupação com a estreia, expectativa altíssima que só aumenta a ansiedade.

Foi assim desde o São Paulo em 2005 nos 3 a 2 contra o Al-Ittihad até a dura derrota do Atlético Nacional para o Kashima Antlers. Passando pelos reveses de Internacional e Atlético Mineiro contra Mazembe e Raja Casablanca. Quase sempre o emocional prejudicando por um certo superdimensionamento da disputa.

Não acontece com os campeões da Liga dos Campeões. Não que eles desprezem o torneio – o Real poupou peças na vitória por 3 a 2 sobre o La Coruña pelo Espanhol antes da viagem. Mas pelo posicionamento do Mundial no meio da temporada no Velho Continente, o peso é diferente.

Para os sul-americanos em geral é o fecho de ouro de um ano vencedor, muitas vezes com uma preparação longa demais, com prioridade total e até desprezando outras competições. O europeu não vai largar sua liga ou a Champions por isso.

Vem funcionando e o Real, que ampliou sua série invicta para 35 jogos, está em mais uma decisão. A segunda no novo formato. Em 2014 superou o argentino San Lorenzo, agora enfrentará o campeão japonês. Outra escola, outra atmosfera diante do anfitrião. Mas o mesmo favoritismo do continente que venceu oito em onze edições. Sem fraquejar na semifinal por deixar acontecer naturalmente.

Se tudo der errado na final de domingo será histórico, até um vexame. Mas não o fim dos tempos em Madrid.

(Estatísticas: Real Madrid)


Real 2×2 Dortmund – Mais um jogaço didático para técnicos brasileiros
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André Rocha

O colega Mauro Cezar Pereira levantou a bola na ESPN Brasil e Tostão reforçou em sua coluna na Folha de São Paulo. Na entressafra de treinadores no Brasil é salutar para jovens e experientes a atenção ao que acontece nos principais centros do planeta.

Como os 3 a 1 do Chelsea sobre o City em Manchester no sábado pela Premier League. Mais interessante tática e até tecnicamente que o superclássico na Espanha entre Barcelona e Real Madrid.

No encerramento da fase de grupos da melhor competição de clubes do mundo, o empate entre Real Madrid e Borussia Dortmund no Santiago Bernabéu foi mais um bom exemplo de uma disputa em alta velocidade, muita intensidade e variações táticas.

A começar pelo avanço do lateral Schemlzer como ala pela esquerda e deixando Bartra aberto na cobertura e Piszczek mais plantado à direita, quase como um terceiro zagueiro. A ideia era aproveitar a organização defensiva do Real em duas linhas de quatro para criar superioridade numérica no meio com Schurrle, em tese o meia aberto à esquerda, centralizando para junto com Gonzalo Castro e Weigl fazer três contra dois diante de Casemiro e Modric. Criar o “homem livre”.

Mas havia um efeito colateral: Schmelzer avançava, não era tão efetivo na frente e na transição defensiva do time alemão abria um buraco pela esquerda que Bartra chegava tarde na cobertura e por ali passavam Lucas Vázquez ou James Rodríguez, Cristiano Ronaldo e Carvajal, que serviu Benzema no primeiro gol do jogo.

Equipes pressionando a saída de bola, jogando com setores próximos e acelerando para surpreender. Jogo aberto no primeiro tempo com posse de bola dividida e cinco finalizações para cada lado, mas quatro na direção da meta de Weindenfeller e apenas duas no alvo do Dortmund.

Mesma toada na volta do intervalo, com o time merengue pressionando o jovem Julian Weigl, que qualifica os passes na saída da defesa. Ora com Modric, ora com James.

O Dortmund minimizou os danos na retaguarda definindo uma linha de quatro com Schmelzer mais fixo. O Real respondeu mais forte pela esquerda, com as descidas de Marcelo e as trocas dos ponteiros. Jogada pelo setor, outro gol de Benzema. Jogo definido? Nem tanto.

Porque Zidane trocou o esgotado Modric por Toni Kroos, vindo de longa inatividade e sobrecarregando Casemiro, um dos melhores em campo. Thomas Tuchel melhorou a produção na frente com Emre More no lugar de Schurrle e Marco Reus na vaga de Pulisic. Dembélé foi para o lado direito, onde rende mais que centralizado. Depois Sebastian Rode substituiu Castro e reoxigenou o meio.

Mas o grande acréscimo na frente foi Reus, que seria titular absoluto não fosse a infelicidade de lesões seguidas. Um dos mais talentosos atacantes da Europa. Pelo centro, passou a dividir as atenções da marcação com Aubameyang e o Dortmund cresceu, mesmo correndo riscos. Inclusive um incrível gol perdido por Cristiano Ronaldo, que não consegue chegar aos 96 gols na Champions.

Gol de Aubameyang, empate no final com Reus. O Real tentou um abafa com Morata, que entrou no lugar de Benzema, e Cristiano Ronaldo na área rival. Jogaço de quinze finalizações contra doze, equilíbrio na posse. Grandes defesas de Weindenfeller e Keylor Navas.

Os times fazem história. O Real Madrid de Zidane aumenta a invencibilidade para 34 partidas e iguala a marca da temporada 1988/89. Com a segunda colocação, foge de Bayern de Munique e Manchester City. As bolinhas do sorteio costumam ser generosas com o time de Madrid.

Já o Dortmund alcança o recorde de gols numa fase de grupos da Liga dos Campeões: 21 gols em seis partidas, média superior a três por partida. Ajudaram a construir a liderança do grupo.

Sanha ofensiva, variações táticas, dois grandes times do continente e do planeta. Material obrigatório para observação e estudo. Para seguir antenado, sem “vanguarda” apenas no discurso.

(Estatísticas: UEFA)


Entreguem duas (ou quatro) Bolas de Ouro a Cristiano Ronaldo
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André Rocha

Uma pela temporada 2015/2016, com o titulo da Champions e a conquista da Eurocopa, já estava garantida para Cristiano Ronaldo.

Mas marcar os três gols da vitória sobre o quase sempre sólido Atlético de Madrid de Simeone no Vicente Calderón – na última edição do clássico, ao menos no Espanhol, é digno de outro prêmio. E como estamos em novembro, seriam duas Bolas de Ouro.

Agora com a France Football e a FIFA separando as premiações, é possível que ele receba mesmo as duas. Então seriam quatro. Sim, é uma hipérbole, mas com fundo de verdade.

Para completar o feito incrível, agora o português é o maior artilheiro do clássico de Madrid, com 18 gols. Sem contar os 32 tripletes pela liga espanhola. Números cada vez mais impressionantes de um finalizador ímpar. Na história do esporte.

Mérito também de Zidane, que perde peças do tamanho de Casemiro e Toni Kroos no meio-campo, e vai reinventando o time dentro do 4-3-3 que tem problemas coletivos, mas mantém a capacidade de competir. Só uma derrota em 32 partidas sob o comando do francês.

Pode não ser plástico, mas funciona. Como Cristiano Ronaldo. Eficiente. No Calderón com atuação digna do que ele representa para o futebol atual, com seus 31 anos: o melhor centroavante do mundo. Que merece todos os prêmios em 2016. Que já tem a eternidade.


As primeiras impressões do Sevilla de Sampaoli e a vocação do Real Madrid
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André Rocha

Paulo Henrique Ganso não estreou. Sequer foi relacionado. Mas nas primeiras impressões já foi possível perceber as ideias de Jorge Sampaoli no Sevilla que decidiu a Supercopa da Europa em Trondheim, Noruega.

A começar pela posse de bola, que nos 90 minutos sempre rondou os 65%. Saída com passes rasteiros, ora com os zagueiros Pareja e Carriço abertos e um dos volantes, N’Zonzi ou Iborra, recuando para qualificar o passe. Ou Kolodziejczak, escalado na lateral, voltando na linha dos defensores e o meia Vitolo espetando como ala.

Variações para priorizar a construção com o time descendo em bloco. Para o início do trabalho, a missão é transformar o controle da bola em volume de jogo. A rigor, o atual bicampeão da Liga Europa finalizou pouco.

O Real Madrid foi mais efetivo, mesmo com a formação mais alternativa que Zinedine Zidane mandou a campo e deixou os titulares Modric e Benzema no banco, mais James Rodríguez. Pepe e Cristiano Ronaldo ainda não estão prontos. Destaque para Marco Asensio. Não só pelo golaço que abriu o placar, mas pelo estilo do meia de 20 anos revelado pelo Mallorca.

Aberto pela esquerda no 4-1-4-1,  permitia que Marcelo apoiasse mais por dentro e ajudasse Kovacic e Isco na articulação. Pela direita, Lucas Vázquez fazia boa dupla com Carvajal. O time merengue não tinha a bola, porém era mais vertical e eficiente.

Sevilla de Jorge Sampaoli com variações na saída de bola, triangulações pelos flancos, porém menos efetivo que o Real Madrid com formação inicial alternativa, no mesmo 4-1-4-1 do final da temporada passada, com força pela esquerda com Asensio aberto e Marcelo apoiando por dentro em vários momentos (Tactical Pad).

Sevilla de Jorge Sampaoli com variações na saída de bola, triangulações pelos flancos, porém menos efetivo que o Real Madrid com formação inicial alternativa, no mesmo 4-1-4-1 do final da temporada passada, com força pela esquerda com Asensio aberto e Marcelo apoiando por dentro em vários momentos (Tactical Pad).

Mas o Sevilla, com paciência e rondando a área rival, empatou com o argentino Franco Vázquez ainda no primeiro tempo. Virada na segunda etapa com a cobrança de pênalti do ucraniano Konoplyanka, que entrou na vaga de Vietto e o ataque ficou sem uma referência na frente. Também perdeu um homem, com a expulsão de Kolodziejczak.

Vitolo virou lateral de vez e Sampaoli simplificou com um 4-4-1 básico, com Rami na zaga e Kranevitter no meio-campo. Mas ainda com sua filosofia: bola no chão, triangulações pelos flancos e sem abrir mão do ataque. Jogo controlado e título próximo.

Não fosse o Real do outro lado, já com Modric, Benzema e James em campo. Não fosse Sergio Ramos na área do oponente aos 48 minutos. Outro empate salvador na cabeça do zagueiro no lance derradeiro do tempo normal.

Lembrou Lisboa em 2014. O Sevilla, porém, não se desmanchou mentalmente como o Atlético de Madrid na prorrogação. Diminuiu a posse, recuou as linhas por conta do cansaço. Mas com organização e intensidade. Teve gol anulado de Sergio Ramos em lance discutível com Rami. Caminhava para os pênaltis.

Não fosse o Real Madrid, maior da Europa. Não tivesse Carvajal um vigor físico absurdo para a arrancada que abriu todos os caminhos pela direita até vencer o goleiro Rico. No final do tempo extra.

A segunda conquista como técnico de Zidane. O terceiro título do torneio para o clube. Venceu todas neste século – 2002 e 2014. Porque levar para casa taças continentais parece a vocação do Real.

Na prorrogação, o Sevilla se fechou num 4-4-1 e o Real Madrid, com Modric, Benzema e James Rodríguez, ocupou o campo de ataque e garantiu o título da Supercopa da Europa com o golaço de Carvajal (Tactical Pad).

No final do tempo extra e na prorrogação, o Sevilla se fechou num 4-4-1 e o Real Madrid, com Modric, Benzema e James Rodríguez, ocupou o campo de ataque e garantiu o título da Supercopa da Europa com o golaço de Carvajal (Tactical Pad).