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Campanha campeã é maior que a bola jogada pela França pragmática
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André Rocha

Como esperado, o início de jogo em Luzhniki foi marcado pela tensão costumeira de uma final de Copa do Mundo e também pelo encaixe previsto dos desenhos táticos. França e Croácia marcando por zona, porém com duelos bem definidos. Especialmente no meio-campo: Kanté x Modric, Pogba x Rakitic e Griezmann x Brozovic. No 4-2-3-1 “torto” de Didier Deschamps, Matuidi esperava as descidas de Vrsaljko e auxiliava no combate a Modric. No 4-1-4-1 de Zlatko Dalic, Strinic até descia pela esquerda, mas tinha como maior preocupação a velocidade de Mbappé.

Mas os franceses encontravam dificuldade para acionar seu principal atacante. Recuavam as linhas, mas não encontravam espaços para acelerar. Muito pelos méritos do oponente. A Croácia adiantou as linhas, marcou e ocupou o campo de ataque e rodou a bola em busca de espaços.

Até Griezmann cavar uma falta inexistente. Na cobrança, Pogba, em posição legal, disputou com Mandzukic, que desviou marcando o primeiro gol contra em finais de Copa do Mundo. Os croatas teriam que subir a ladeira novamente. Mas a bola parada novamente ajudou na recuperação. Golaço de Perisic depois de limpar Kanté.

De novo a França recuou, novamente sofreu para encaixar um contragolpe. Outra vez foi salva pela bola parada. Pênalti de Perisic. Marcável como praticamente qualquer toque no braço segundo as novas e confusas orientações da FIFA para a arbitragem. O VAR entrou em cena e ajudou na interpretação de Nestor Pitana. Cobrança precisa de Griezmann.

A única finalização francesa em 45 minutos. Os croatas que tiveram 61% de posse tentaram sete vezes, só uma na direção da meta de Lloris. Nas redes. Primeiro tempo de superioridade croata.

Mas a França mais uma vez foi pragmática e letal. Coordenando melhor os contragolpes com o avanço e os sinais de desgaste físico e mental do adversário, acelerou pela direita com Mbappé, que serviu Pobga, meio-campista que iniciou a jogada com belo lançamento.

Depois a revelação da Copa, e também o craque para este que escreve, fez um gol de “ilusionista”. Mbappé posicionou o corpo para bater com efeito no ângulo esquerdo e acertou um chute rasteiro no canto direito de Subasic. Poderia ter fechado 4 a 1 como o Brasil de 1970 sobre a Itália. No entanto, Lloris vacilou e Mandzukic desviou para as redes. Mas certamente o atacante croata trocaria seus três gols pelo título mundial.

Que também é de Giroud. Virou titular por suas funções em campo: estatura nas disputas pelo alto na defesa e no ataque. Fundamental na Copa da bola parada. Também um pivô facilitando o trabalho de Mbappé e Griezmann. Forte e alto, empurra a defesa para trás e cria espaços às costas dos volantes para seus companheiros. Uma lição para quem parou no tempo e acha que o camisa nove só presta se fizer gol. Giroud não marcou nenhum e é o campeão.

A Croácia foi até o limite. Terminou com 61% de posse, 83% de efetividade nos passes contra apenas 74% dos fraceses. Finalizou 15 vezes contra oito – seis a três no alvo. Modric eleito melhor da Copa. Na decisão, porém, a Copa também foi da bola parada e da precisão técnica. Em disputas tão parelhas, o futebol não perdoa o “arame liso”.

França absoluta, mas com campanha melhor que o desempenho em campo. Maior que a bola jogada. Invencibilidade, vitórias em confrontos com os campeões Argentina e Uruguai. Superando a talentosa geração belga e goleando os croatas por 4 a 2. Sem prorrogação nem decisão por pênaltis.

Fica a impressão de que a obsessão pelo título depois da decepção em casa na Eurocopa em 2016 engessou um pouco a equipe. Pouca mobilidade ao atacar para garantir a organização na perda da bola, não desguarnecendo nenhum setor. Solidez defensiva para aumentar a competitividade.

Deu certo. E consagrou Deschamps, agora se juntando a Zagallo e Beckenbauer como os únicos campeões como jogador e treinador. Mesmo sem espetáculo, a missão foi cumprida.

(Estatisticas: FIFA)

 

 

 


Prévia tática de França x Croácia: quem sairá do “encaixe perfeito”?
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André Rocha

Pelo esforço absurdo de três prorrogações seguidas é impossível saber se Zlatko Dalic vai manter a formação titular da Croácia para a grande final. Mas também é improvável que algum jogador, a menos que esteja com uma lesão muscular grave por conta do esforço, queira ficar de fora do “filé” depois de roer o osso em 360 minutos, mais duas decisões por pênaltis.

Partindo do 4-1-4-1 da semifinal e da melhor atuação da seleção na Copa, os 3 a 0 sobre a Argentina, e do 4-2-3-1 da França que ganhou corpo desde a vitória sobre o Peru com Matuidi pela esquerda mais compondo o meio que formando o quarteto ofensivo, temos uma espécie de “encaixe perfeito” das equipes. Tanto no desenho tático quanto nas características dos atletas.

Ainda que Kanté e Brozovic tenham perseguido Messi em muitos momentos dos jogos, o volante do Chelsea tenha feito o mesmo com De Bruyne e Pogba sofrido com Fellaini na semifinal, França e Croácia marcam essencialmente por zona. Mas, de acordo com o posicionamento básico, os jogadores de cada setor acabam se encontrando e duelando ao longo da partida.

Ambas contam com laterais que não são brilhantes, mas equilibram bem as funções de ataque e defesa e se adequam caso precisem guardar posição ou descer pelo corredor. No embate de domingo é bem provável que Strinic fique mais atento à movimentação de Mbappé e Vrsaljko apoie mais, já que não há um atacante agudo pelo seu setor.

No meio-campo, os duelos mais prováveis são Kanté x Modric, Pogba x Rakitic e Griezmann x Brozovic. Pavard espera Perisic e Hernández faz o mesmo contra Rébic. Os zagueiros Lovren e Vida cuidam de Giroud e Varane e Umtiti ficam atentos aos movimentos de Mandzukic.

É óbvio que o futebol não acontece numa imagem estática como no campinho abaixo. Mas mesmo com o dinamismo da disputa, uma palavra será chave para desequilibrar o oponente: mobilidade.

Os franceses têm guardado mais o posicionamento, talvez pelo temor de serem pegos com as linhas desorganizadas na perda da bola. Um desperdício, já que este 4-2-3-1 “torto” tem como principal arma ofensiva o deslocamento de outros jogadores para o lado em que há um volante ou meia e não um ponteiro. Ou seja, o espaço deixado por Matuidi poderia ser melhor explorado por Griezmann, Giroud ou até mesmo Mbappé invertendo o flanco. Nos jogos apenas o lateral Hernández se projeta pela esquerda. Uma inversão entre Griezmann e Mbappé também pode ser interessante para deixar o jovem atacante do PSG mais solto para aproveitar na velocidade o trabalho de pivô de Giroud.

Já a Croácia na execução de seu modelo permite apenas como surpresa a inversão dos pontas Rébic e Perisic que buscam as diagonais aproveitando o espaço deixado pelo móvel Mandzukic, que sabe atuar como referência ou pelo lado. Modric e Rakitic também costumam trocar o posicionamento por dentro, de acordo com as características dos volantes adversários.

As estatísticas apontam a Croácia com maior posse de bola e efetividade nos passes, mas é a quarta que mais utiliza os cruzamentos, média de 26 por jogo – potencializada, logicamente, pelas prorrogações que disputou. Luka Modric é o meia que mais acerta passes e vai encontrar Kanté, o líder absoluto de desarmes e interceptações. Mbappé é o finalista que mais acerta dribles, Griezmann o que mais finaliza. Rakitic está no topo entre os que mais acertam inversões de jogo, fundamentais para desarticular sistemas defensivos organizados como o do oponente.

A França sofreu apenas quatro gols em 540 minutos – três da Argentina e um, de pênalti, da Austrália na estreia. A Croácia cinco em 630 – um de pênalti da Islândia (com time repleto de reservas), Dinamarca, em cobrança de lateral na área, e Inglaterra (falta), dois da Rússia, o de Mário Fernandes na típica jogada de bola parada que gerou tantos gols neste Mundial. A previsão, não o desejo, é de uma final com poucos gols, definida no detalhe, na precisão técnica. Talvez até mais uma prorrogação para os croatas.

A resistência física deve ser um fator preponderante. Didier Deschamps pode optar por uma proposta de maior intensidade na pressão pós perda da bola, velocidade na transição ofensiva para desgastar ainda mais o adversário, que tende a aproveitar seus talentosos meio-campistas para adicionar pausas ao ritmo do jogo que façam a equipe respirar e acelerar no momento certo.

O palpite do blog é vitória francesa. Em 120 minutos. Porque a Croácia mentalmente é dura de se curvar, mesmo com os músculos extenuados. Só que desta vez encontrará um rival que foi implacável até aqui com as fragilidades e oscilações de quem cruzou o seu caminho. Na Copa da força mental é um trunfo para definir quem leva a taça para casa.

França no 4-2-3-1 que deve ter mais mobilidade de Griezmann, Mbappé e Giroud aproveitando o espaço à esquerda deixado pelo recuo de Matuidi; Croácia no 4-1-4-1 com os ponteiros Rebic e Perisic invertendo o posicionamento e Modric e Rakitic tentando ditar o ritmo contra Kanté e Pogba. Nos sistemas que encaixam, a mobilidade pode fazer a diferença (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)


Croácia é um belo “case de caos”. Mas não deve ser exemplo mesmo que vença
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André Rocha

Foto: Yuri Cortez/AFP

O último título mundial do Brasil em 2002 foi um curioso caso, talvez único, no qual a conquista ficou parecendo a consolidação de um trabalho que vinha do título em 1994, passando pelo vice quatro anos depois. Mas a trajetória de fato foi caótica: Vanderlei Luxemburgo, Candinho e Emerson Leão até chegar a Luiz Felipe Scolari.

Sofrimento nas Eliminatórias, vergonha na Copa América contra Honduras. Tudo deu certo mesmo apenas na Ásia – com seus percalços, como a estreia contra a Turquia vencida no pênalti “mandrake” sobre Luisão e nas oitavas, quando a arbitragem também interferiu no triunfo sobre a Bélgica.

Curiosamente, depois do título veio um período de esperança e prosperidade. Amadurecimento de Kaká e Adriano Imperador, surgimento de Robinho e Diego no Santos campeão brasileiro ainda naquele ano. Com Parreira no comando, títulos da Copa América, Copa das Confederações e liderança nas Eliminatórias. A queda pós ascensão veio logo no Mundial na Alemanha.

Depois o Brasil não mais se impôs. Com ciclo completo de Dunga em 2010, os nas mudanças de Mano Menezes para Felipão em 2014 e agora saindo de Dunga para Tite. Pelas mais variadas circunstâncias, inclusive a aleatoriedade em jogos eliminatórios.

A classificação da Croácia para a final contra a França despertou aqui e ali uma tese bastante presente em nosso país: planejamento e organização não garantem sucesso, que se resume ao título. Ainda mais em tempos de Flamengo e Palmeiras equacionando dívidas e sem conseguir alcançar os troféus desejados justamente no momento em que os investimentos aumentaram.

Devia ser óbvio defender uma linha de trabalho com ideias claras e objetivos bem definidos. Que no futebol não pode ser atrelada tão diretamente a algo sem controle como o resultado final. Muito menos em uma Copa do Mundo. Torneio que conta com sorteio e chaveamentos. No qual a ordem de adversários e as circunstâncias são totalmente aleatórias. Premia o melhor daquele mês, não necessariamente o do ciclo inteiro.

O trabalho sério é para garantir a competitividade. Sair de um papel de coadjuvante, desclassificado na primeira fase, para brigar no topo ou no mais próximo disto. Assim foi com Espanha, França, Alemanha e Bélgica. Assim pensa o Brasil ao vislumbrar mais quatro anos com Tite.

Porque a Croácia pode até ser campeã mundial. Mas correu sérios riscos de ficar de fora da Copa. Quando contratou Zlatko Dalic às pressas depois de demitir Ante Cacic precisava vencer a Ucrânia fora de casa para ir à repescagem, já que a Islândia garantira o primeiro lugar do grupo na eliminatória. Conseguiu um 2 a 0. A ventura no sorteio com a Grécia. O resto é história.

Que podia nem ter chegado a Rússia. Como aconteceu com Itália e Holanda. Uma renegou a formação de talentos, a outra encontra-se presa numa escola de futebol que tanto ofereceu ao mundo, mas parou no tempo. Risco que o Brasil correu com Dunga. Agora é fácil dizer que independentemente do treinador o país sempre vai à Copa. Era sexto colocado, atrás do Chile, bicampeão da Copa América que não se repaginou após a saída de Jorge Sampaoli e o espasmo com Pizzi na conquista do torneio Centenário nos Estados Unidos e ficou fora.

A Croácia é um “case de caos” para virar filme. Admirar a força mental dos jogadores, invejar a presença de meio-campistas talentosos como Modric e Rakitic e reconhecer a capacidade de mobilização e trabalhar no improviso de Dalic, que chega a seu 14º jogo no comando da seleção em uma final. Mas não pode servir de exemplo.

Melhor a França, que manteve o contestado Didier Deschamps depois do decepcionante revés em casa na final da Eurocopa contra Portugal e, sem tantos tempos extras e sofrimento, também está na decisão de domingo. Com favoritismo pelo menor desgaste e por contar com um trabalho mais consolidado.

Carrega, porém, o peso da responsabilidade de vencer. Exatamente o que sangra tantas equipes. Os croatas não têm absolutamente nada a perder. A campanha já é histórica, superando a geração de 1998. O cansaço já é um álibi até em caso de derrota por goleada. Se num último esforço conseguirem a vitória serão heróis eternos de um país.

Posição cômoda na Copa do Mundo da força mental. Mas até chegar lá esbarrou em muitas variáveis que podiam fazer tudo dar errado. Sem contar que é uma geração que não deve deixar legado para 2022. Porque há talento, sorte e muita fibra. Mas pouco trabalho e estrutura pensando a longo prazo. É a exceção à regra, como o Brasil da “Família Scolari” há 16 anos. Não pode ser referência para ninguém.


Croácia prova que jogo eliminatório se decide com talento e força mental
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André Rocha

O golaço de falta de Trippier logo aos quatro minutos podia ter desmanchado de vez a Croácia que vinha de duas prorrogações e teria que subir a ladeira em Moscou. Numa semifinal de Copa do Mundo e diante de uma Inglaterra com mais tradição, descanso e que costuma desgastar o adversário com seu jogo físico e de velocidade.

A primeira etapa teve a equipe de Zlatko Dalic com 52% de posse e seis finalizações contra quatro. Mas controle da Inglaterra com bom posicionamento da última linha de defesa do 5-3-2 e a movimentação de Kane, recuando para deixar Sterling mais avançado para os contragolpes e alternando com os meias Lingard e Dele Alli.

A dinâmica criava uma indefinição em Brozovic, o volante entre as duas linhas de quatro na volta do 4-1-4-1 que dá mais liberdade a Rakitic e Modric. Com um estilo vertical, a Inglaterra de Gareth Southgate teve a bola do segundo gol com Kane entrando pela esquerda e acertando a trave depois de finalizar e Subasic defender.

A impressão era de que não faria tanta falta, já que com a passagem do tempo o desgaste pesaria para os croatas. Os ingleses controlavam os espaços e tentavam acelerar nos contragolpes. Mas com muitos erros técnicos que não criavam a chance clara para finalizar. A Croácia foi adiantando as linhas e rodando a bola. Mas também não havia ideias ou a jogada diferente.

Até Perisic começar a encontrar brechas entre Trippier e Walker, logo o lateral que foi para a zaga com o intuito de deixar o trio de zagueiros mais móvel e rápido na cobertura. Walker hesitou, Perisic se antecipou e empatou, completando centro de Rakitic.

Os ingleses acusaram o golpe, passaram a errar além da conta e perder agressividade na marcação. Fizeram a Croácia acreditar e colocar o talento no jogo. Modric e Rakitic tomaram conta do meio-campo. Dalic não fez nenhuma substituição nos 90 minutos.

Guardou tudo para a prorrogação. Quatro substituições e toda a alma e personalidade. Alimentada a cada erro inglês, mesmo com Rashford, Rose, Dier e, no desespero, Vardy na vaga de Walker. Porque a Croácia tinha virado com Mandzukic. Mesmo exausto e com câimbras, aproveitou mais um vacilo da defesa inglesa na cobertura. Com participação de Perisic.

Nos minutos finais, os croatas sobraram fisicamente. Com Corluka, Badelj, Pivaric e Kramaric em campo. Estratégia arriscada que podia ter falhado na segunda etapa do tempo normal, mas que teve a chance de render mais um gol se Kramaric tivesse visto o inesgotável Perisic livre no contragolpe final. Foram 22 finalizações, o dobro dos ingleses, que só finalizaram no alvo com o gol de Trippier. Muito pouco em 12o minutos.

A Croácia teve qualidade e fé inquebrantável de que era possível. Armas poderosas em uma partida eliminatória com tanto em jogo. Por isto fará uma final histórica, consagrando a melhor e maior geração do país, superando 1998. Com 90 minutos a mais de futebol e suor na Copa em relação à França. Mas como duvidar de quem parece crer que tudo pode?

A Inglaterra pode e deve seguir investindo em um trabalho que tem tudo para dar frutos. Com esta e as próximas gerações, campeãs mundial sub-17 e sub-20. Só que agora é hora de Modric, Rakitic, Perisic, Mandzukic, Subasic e uma nação inteira.

(Estatísticas: FIFA)


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