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Copa e maturidade fazem PSG de Tuchel inverter status entre Neymar e Mbappé
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André Rocha

Quando Mbappé foi anunciado no PSG, este blog projetou o time francês ainda jogando em função de Neymar, mais experiente e afirmado no cenário mundial. Ao jovem que explodiu no Monaco restaria um posicionamento de relevância no ataque da equipe, porém com maior sacrifício tático.

Sem comparações, mas a expectativa era que simbolicamente Neymar seria Messi. Ou seja, o ponta articulador partindo do flanco para criar e finalizar, com total liberdade. Já a joia francesa seria o Neymar do Barcelona: coadjuvante de luxo, o ponteiro do lado oposto que acelera e busca as infiltrações em diagonal. Mas também com a responsabilidade de voltar e formar com o tripé de meio-campo uma segunda linha de quatro para bloquear as ações ofensivas dos adversários.

Justamente a opção do treinador Unai Emery na maior parte da temporada. Neymar solto com Cavani à frente, Mbappé se juntando à dupla, mas com maior entrega no trabalho coletivo. A contratação mais cara da história como a estrela, o garoto prodígio servindo de fiel escudeiro.

O reflexo nos números é inegável: Neymar marcou 19 gols e serviu 13 assistências em 20 aparições na liga francesa. Na Liga dos Campeões foram sete jogos, seis gols e três assistências. Desempenho excepcional prejudicado pela lesão no pé que fez o brasileiro retornar praticamente na Copa do Mundo.

Mbappé disputou 27 partidas (três saindo do banco de reservas), marcou 13 e entregou oito passes para gols na Ligue 1 e nos oito jogos que o Paris Saint-Geirman disputou na Champions anotou quatro gols e três assistências. Estatísticas respeitáveis para um atacante de 19 anos, mas bem inferiores ao seu companheiro e ''tutor'' no vestiário de estrelas do campeão francês e também das Copas da França e da Liga Francesa.

Mas veio a Copa do Mundo…França campeã e Mbappé como destaque e tendo a melhor atuação justamente na vitória mais simbólica dos Bleus na Rússia – 4 a 3 na Argentina pelas oitavas de final, com dois gols e desempenho fantástico, ''varrendo'' a defesa albiceleste com velocidade e técnica. Anotou quatro gols, inclusive na final contra a Croácia, e, para este que escreve, foi o melhor do Mundial.

Já Neymar, em que pese o tempo de inatividade, não teve o mesmo brilho nem conseguiu evitar a eliminação da seleção brasileira para a Bélgica nas quartas. Dois gols e uma assistência em cinco partidas. Ainda desgastou terrivelmente sua imagem por simulações de faltas e contusões e rodou o mundo piadas com o hábito de rolar no gramado e fazer caras e bocas quando sofre as infrações (ou não).

Na volta ao clube, um novo comandante: Thomas Tuchel. Com 45 anos e fama de ''inventivo'', chegou valorizando todas as estrelas do elenco, elogiando muito Neymar. Com paciência, mas firmeza, mobiliza o grupo de jogadores, diminui as rusgas do brasileiro com Cavani e muda a mentalidade da equipe para a disputa da Champions, prioridade máxima na temporada.

O espírito ficou claro na vitória sobre o Liverpool na penúltima rodada da fase de grupos que praticamente garantiu a vaga no mata-mata em um grupo complicado que acabou jogando o bom Napoli de Carlo Ancelotti para a Liga Europa. Muita fibra, vibração e entrega para conquistar o único resultado que não complicaria a classificação. Nem a surpreendente eliminação na Copa da Liga para o Guingamp com derrota de virada por 2 a 1 muda essa impressão, até porque a ''vingança'' veio na Ligue 1 com uma goleada implacável: 9 a 0 e o time jogando sério o tempo todo, como um rolo compressor.

Nos dois triunfos simbólicos e em outras partidas da temporada fica bem clara uma mudança de status que se reflete no campo: agora é Mbappé quem joga livre na frente com Cavani e Neymar se sacrifica um pouco mais pelo time. Sem a bola, o camisa dez retorna e compõe uma segunda linha de quatro com Di María do lado oposto e Marquinhos ou Daniel Alves e Verratti no centro. No início da jornada 2018/19 chegou a atuar por dentro, como um ''enganche''. Mas sempre municiando Mbappé.

Os números novamente apresentam as consequências do posicionamento em campo. Neymar segue com ótimo desempenho: 13 gols e seis assistências na liga. Na Champions foi às redes cinco vezes e serviu dois passes decisivos em seis partidas. Mas a joia francesa deu um salto, especialmente no campeonato por pontos corridos. São 17 gols e cinco assistências. No torneio continental, curiosamente, serviu mais que foi às redes: quatro assistências, três bolas nas redes adversárias.

É claro que a confiança com o título mundial e a melhor ambientação com os companheiros contribuíram significativamente para o progresso de Mbappé. Mas o posicionamento mais adiantado, com liberdade para procurar os lados e infiltrar em diagonal ou muitas vezes até ser a referência do ataque, com Cavani recuando para colaborar defensivamente quando o time recua as linhas para jogar em rápidas transições ofensivas, também colaborou para a evolução.

Até por temperamento, Neymar segue dando as cartas no vestiário e ajuda o companheiro a se soltar ainda mais. Mas o status mudou claramente: Mbappé é a estrela ascendente, com segurança e, principalmente, maturidade para desequilibrar e decidir nos momentos-chave. O brasileiro segue fundamental, mas terá que recuperar terreno em jogos grandes para voltar a ser o protagonista. Justamente o que o motivou a trocar Barcelona por Paris.

Se o sonho é ganhar a Bola de Ouro, Neymar ganhou um ''inimigo íntimo''. O desafio é fazer com que essa disputa seja leal, sem prejudicar o rendimento coletivo. Até aqui vem funcionando, com os dois trocando muitos passes e comemorando juntos os gols. E Cavani sem reclamar do papel menor.

Todos parecem saber o lugar em campo e o valor do que entregam. Entenderam a nova ''hierarquia''. Méritos também de Tuchel.


São Paulo goleia com pragmatismo, depois beleza. Jardine vence 1ª “final”
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André Rocha

André Jardine já entendeu que precisa de resultados para não ser fritado rapidamente no São Paulo em um clima hostil para um jovem treinador – torcida impaciente, parte da imprensa já ''sugerindo'' a troca por um nome mais experiente e necessidade de desempenho imediato pelos compromissos na primeira fase da Libertadores. Vai se manter jogo a jogo, vitória a vitória.

A solução, então, é trabalhar conceitos quando for possível treinar e ter cartas na manga para simplificar processos e usar ''atalhos'' para chegar ao gol. A solução encontrada na virada sobre o Mirassol por 4 a 1 no Pacaembu foi a jogada aérea com bola parada. Uma cabeçada letal em cada tempo.

Cobrança de escanteio pela esquerda de Nenê, gol de Anderson Martins para empatar depois do gol contra de Bruno Peres que parecia o prenúncio de uma tragédia já no primeiro ato. No mesmo lado, Reinaldo bateu falta e Pablo marcou em sua primeira partida oficial.

Com a equipe mais tranquila e confiante, o tricolor pôde trabalhar a bola, Hudson preencher o espaço que havia entre os volantes e Nenê na execução do 4-2-3-1 com a ausência de Hernanes por não estar inscrito no BID a tempo e o jogo, enfim, fluiu naturalmente. Cobrança de falta de Nenê no travessão. O próprio camisa dez conduziu até servir Reinaldo no terceiro.

O que parecia dramático ganhou um toque de espetáculo com belas jogadas e números de goleada no chutaço de Hudson no ângulo do jovem goleiro Matheus Aurélio. Um minuto antes do volante sair aplaudido para a entrada de Liziero. Outro clima no estádio e em campo.

Com um a mais depois da expulsão de Leandro Amaro foi possível ''treinar'', já que a equipe praticamente não teve pré-temporada por conta da viagem para a Flórida. Um luxo para quem terá que ser competitivo já em fevereiro contra o Talleres.

É possível investir em mais infiltrações em diagonal dos ponteiros Helinho e Everton, alternando com os laterais Bruno Peres e Reinaldo nas investidas abertos ou atacando os espaços por dentro. Com os deslocamentos de Pablo, muitas vezes falta presença física na área adversária para receber os cruzamentos. O trabalho pelo centro também não precisa depender tanto de Nenê.

O meia veterano inclusive pode abrir o leque de opções para Jardine. Em partidas que seja preciso mais criatividade e passe qualificado, Nenê e Hernanes podem atuar no meio à frente de apenas um volante. O camisa dez é alternativa também como ponta articulador, saindo do flanco e circulando às costas do meio-campo adversário e se juntando ao ''Profeta'' para articular.

Questões para pensar e testar. Fundamental é seguir vencendo para ir a Argentina com confiança. No segundo mês de 2019 o São Paulo já tem decisão. Na prática, são várias finais para Jardine. A primeira foi vencida.

O cenário não dá brechas para oscilações. Uma insanidade em começo de temporada. Mas parece que o treinador já entendeu e acrescentou pragmatismo ao seu repertório. Faz bem.


Para que serve o “estive lá” do ex-boleiro se o futebol não é mais o mesmo?
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André Rocha

O desafio dos dez anos (#10YearsChallenge) movimenta as redes sociais há dias, com famosos e anônimos postando fotos recentes em comparação a 2009. E se pudéssemos fazer o mesmo com o futebol, como seria?

Em 2009, o Barcelona de Pep Guardiola ainda estava em sua primeira temporada, embora muito bem sucedida com a tríplice coroa. Mourinho não tinha adotado as linhas de handebol na defesa da Internazionale como resposta defensiva à proposta do catalão. Jurgen Klopp, também em seu primeiro ano no Borussia Dortmund, apenas ensaiava o ''gegenpressing'' e o estilo agressivo, com o pé cravado no acelerador, que vem marcando sua carreira.

No Brasil, o jogo era ainda mais espaçado e lento, menos intenso. Neymar era só um menino marcando seus primeiros gols como profissional no Santos. Dunga vivia na seleção brasileira o seu melhor momento, com uma posse de bola às vezes burocrática, mas quando chegava ao trio Kaká-Robinho-Luís Fabiano com espaços para acelerar unia beleza e eficiência. Júlio César era o melhor goleiro do mundo.

Tite comandava o Internacional no ano do seu centenário. Campeão gaúcho, vice da Copa do Brasil. Depois venceria tudo com o Corinthians e, mesmo assim, em 2014 foi para a Europa estudar, buscar reciclagem. Unir experiência e novos conceitos. Deu o salto na carreira para realizar o sonho de comandar o Brasil numa Copa do Mundo. Pode chegar à segunda.

Além disso, as medidas dos gramados ainda não estavam padronizadas em 105 m x 68m. Não existia o VAR, nem a maioria das novas orientações da FIFA que norteiam as arbitragens. A bola também era diferente. Ou seja, era outro futebol se não reduzirmos o esporte ao clichê dos ''onze homens correndo atrás de uma bola''.

Agora imaginemos as diferenças em relação ao que se jogava nas décadas anteriores. No século passado. Sem a internet com banda larga e Wi-Fi para popularizá-la e virar o mundo pelo avesso. Algo que os jovens hoje sequer conseguem imaginar. Um recurso que mudou tudo também no futebol. Na análise, no jornalismo, na formação e preparação de atletas, na relação com a mídia.

Com tudo isso, a pergunta simples e direta é: objetivamente, qual a vantagem de quem jogou nos anos 1970, 80, 90 ou mesmo na primeira metade da década de 2000 em relação aos jornalistas na hora de analisar uma partida em 2019?

A resposta é óbvia: nenhuma. Ou só contar os ''causos'' de sua época. Ou fazer o torcedor que viu jogar deixar de zapear e parar no canal de esportes para vê-lo. Porque simplesmente não pode existir vantagem da prática se o jogo – intensidade, espaços, dinâmica, arbitragem, medidas dos campos, bola, material esportivo, etc. – é completamente diferente.

Por isso soa cada vez mais ridícula a falácia lógica do apelo à autoridade. Algo que normalmente surge quando o ex-boleiro não tem mais argumentos para debater e apela para o surrado, mas ainda tratado como carta na manga, ''eu estive lá''. E daí? Esteve quando? Para que serve esta experiência hoje se tudo mudou?

São poucos os que jogaram e hoje comentam futebol, falando ou escrevendo, que saem dos clichês e análises baseadas no senso comum. Tostão é a melhor das exceções. Vez ou outra pode dar vazão a um certo saudosismo, especialmente em relação à seleção brasileira de 1970, mas seus textos revelam um observador humilde, que procura estar atento às transformações do esporte. Valoriza o novo e respeita a análise de quem não jogou profissionalmente.

Infelizmente a grande maioria se comporta, de forma velada ou não, como Vanderlei Luxemburgo: ''nada mudou, nós fazíamos o mesmo há quatro décadas, mas com nomes diferentes''. Uma visão estanque, muito diferente da dinâmica do tempo. Em muitos casos para manter o status quo. Para continuar relevante. Felizmente alguns se tocam e buscam a atualização. Outros preferem alimentar a saudade do passado e agradar o público apenas da sua faixa etária em diante.

É claro que também há jornalistas com o mesmo perfil. O texto não é uma defesa de classe, muito menos de reserva de mercado. A presença de quem praticou o esporte é importante, contanto que ele não olhe para o campo hoje e veja o jogo do seu tempo. Uma ilusão de ótica.

Instagram, Twitter e Facebook seguem com muitas fotos de 2019 e 2009. Quem pensa que nada muda deveria fazer essa experiência. Certamente levaria um susto. Ou uma boa surpresa para fazer a cabeça sair do passado que não volta. Esteve lá? Agora não está mais.

Falcão disse que parar é a ''primeira morte'' do jogador. Se a volta ao esporte é pela mídia, que a nova vida seja feliz, curiosa, com brilho nos olhos. Sem a amargura de quem sempre vê tudo no mesmo lugar. Que bom que não é assim.


Com Goulart, Palmeiras consolida ideia de dois times fortes na temporada
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André Rocha

Foto: Divulgação Palmeiras

O Palmeiras vive aquele período mágico no qual já tem um elenco forte e vencedor, só necessita de contratações pontuais e, também por conta da solidez financeira, muitos jogadores querem vestir a camisa do clube e participar desse momento de conquistas.

Mas desta vez a ida ao mercado foi um pouco mais voraz. Zé Rafael, Arthur Cabral, Carlos Eduardo, Felipe Pires, Matheus Fernandes e agora Ricardo Goulart. Sem contar a contratação de Mayke, que estava emprestado pelo Cruzeiro, e o retorno de empréstimo de atletas como Raphael Veiga e Fabiano.

O cenário no Brasil é de mercado aberto durante praticamente todo o ano, mas o Palmeiras acertou ao tomar a iniciativa desde o final de 2018 e definir a grande maioria das contratações ainda na pré-temporada. Quanto mais rápido o atleta estiver ambientado ao clube, à cidade, aos companheiros e ao modelo de jogo da equipe, melhor. Algumas agremiações esperam demais e o jogador acaba chegando no olho do furacão, com jogos em sequência, sem tempo para treinar e já pressionado por resultados imediatos.

A proposta é clara: consolidar a ideia de contar com dois times fortes na temporada. Primeiro Paulista e Libertadores, depois pontos corridos (Brasileiro) e mata-mata (Copa do Brasil e o torneio continental). Elenco farto e equilibrado, de qualidade equivalente em todas as posições e funções. Nas entrevistas, Luiz Felipe Scolari tem usado muito a palavra ''característica''. Com razão. É a chave para atender as demandas que podem surgir na temporada. O objetivo é repetir 2018 e disputar todos os títulos, porém com mais conquistas que o Brasileiro. A obsessão pela Libertadores é evidente.

Com Carlos Eduardo a ideia é ter velocidade na transição, um jogador que possa ser referência para lançamentos quando o time estiver pressionado. Um desafogo. Zé Rafael chega para adicionar técnica ao meio-campo. Pode também atuar como ponta articulador partindo da esquerda, assim como Gustavo Scarpa do lado oposto. Matheus Fernandes vem para que Felipe Melo, Thiago Santos e Bruno Henrique não precisem ficar se revezando na função de volante ou Moisés seja obrigado a recuar. Arthur Cabral pode atuar pelos lados ou disputar posição com Borja e Deyverson no centro do ataque.

Já Ricardo Goulart é jogador para fazer a equipe subir ainda mais o patamar no país e no continente. Não é meia de organização. Funciona mais como uma espécie de ''ponta de lança'' moderno. Atua como meia central num 4-2-3-1, mas faz praticamente uma dupla com o centroavante. Tem excelente leitura de espaços e ótima finalização. Marcou 102 gols em três temporadas na China.

No estilo simples e direto de Felipão, vai aproveitar a parede do atacante de referência nas bolas longas para receber e infiltrar. Forte também no jogo aéreo para completar as jogadas pelos flancos. O treinador conhece bem o potencial de Goulart dos tempos de Guangzhou Evergrande.

Se Dudu e o clube não resistirem às investidas do futebol chinês, Goulart também pode assumir a bronca de ser o líder técnico, a referência do Palmeiras. Em recuperação de lesão, só deve estrear em março, na Libertadores. Será uma opção com características diferentes das de Moisés, Lucas Lima, Guerra e Raphael Veiga.

A tendência é que Felipão defina dois times e faça alterações por meritocracia – como foi a mudança na zaga, com Luan e Gustavo Gómez virando titulares na reta final do Brasileiro – e também pelo contexto do jogo. Cabe ao treinador e à comissão técnica manter todos mobilizados e trabalhar as variações, inclusive cumprindo a promessa de trabalhar mais a bola em determinados momentos para evitar o bate-volta que desgasta física e mentalmente.

O treinador não quer sofrer nem improvisar por conta de lesões e suspensões, como aconteceu no empate contra o Flamengo no Maracanã pelo returno, nem com as ausências forçadas nas datas FIFA. A meta é ser competitivo sempre, inclusive com boas opções no banco em todas as partidas.

As perspectivas são as melhores. O Palmeiras foi ao mercado com agilidade e inteligência. Um mérito, mesmo considerando que a fase é mais de oferta que procura. Todos querem jogar no campeão brasileiro. A boa notícia para os 30 atletas que devem formar o elenco é que a grande maioria terá bons minutos na temporada para mostrar seu valor.


Por que Ganso pode ser o “elo perdido” no Fluminense de Fernando Diniz
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André Rocha

Foto: Getty Images

Este blog não costuma abordar sondagens ou negociações ainda não concretizadas, mas vai aproveitar o gancho do interesse do Fluminense em Paulo Henrique Ganso – e vice-versa, segundo o diretor de futebol Paulo Angioni, com o alto salário do jogador como grande obstáculo – para analisar as possibilidades do time agora comandado por Fernando Diniz.

Segundo informações de bastidores, Diniz está mais calmo e paciente na gestão de pessoas. Ótima notícia para os tricolores, porque foi o que prejudicou e minou seus trabalhos a médio prazo. Mas segue com princípios de jogo inegociáveis, como imposição pela posse de bola e linhas avançadas.

O treinador parte do saudável estímulo ao aspecto lúdico do jogo e ao gosto pela bola que existe em cada atleta desde menino. Mas no Athletico esbarrou em um conflito de difícil solução: o descasamento de sua proposta de jogo com as características dos jogadores. Zagueiros lentos para jogar com a defesa adiantada e meias e atacantes mais adaptados a um jogo de transições ofensivas em velocidade e pouco afeitos ao trabalho coletivo para criar espaços no campo ofensivo.

Com uma ideia de jogo mais flexivel, o auxiliar Tiago Nunes conseguiu uma campanha de recuperação no Brasileiro e o título da Copa Sul-Americana que levou o clube à fase de grupos da Libertadores 2019. A insistência da direção com Diniz e dele com seu modelo de jogo poderiam ter custado caro ao time paranaense – talvez um catastrófico rebaixamento, já que o técnico entregou o time em penúltimo lugar e apenas 25% de aproveitamento na competição.

Considerando suas declarações na pré-temporada e os conceitos trabalhados nos treinamentos, as convicções de Diniz seguem intactas. Mas o Flu tende a enfrentar os mesmos problemas de adaptação dos jogadores aos ideais do novo comandante.

A zaga com Digão e Ibañez talvez tenha menos problemas que Thiago Heleno e Paulo André, já que se garante mais nas coberturas rápidas e terá Aírton na proteção e os laterais Ezequiel ou Gilberto e Marlon, se bem orientados, atentos à composição da linha de quatro atrás. Mas com a bola, a formação aventada até aqui deve encontrar dificuldades para a troca paciente de passes e mobilidade para abrir as brechas para as infiltrações.

Bruno Silva se destacou no Botafogo de Jair Ventura atacando os espaços e chegando na área para finalizar em contragolpes. Está longe de ser um meio-campista que se destaca pelo passe. Na frente, Mateus Gonçalves, ex-Sport, também é jogador de dinâmica diferente, de definir rapidamente a jogada. Assim como os atacantes Luciano, Everaldo e Yoni González, este contratado ao Junior Barranquilla. Aceleração pura!

Há opções no elenco de passadores trabalhando entre as intermediárias: Daniel, cria da base de Xerém, tem perfil organizador, assim como Caio Henrique, que se destacou no Paraná e pode ser cedido por empréstimo pelo Atlético de Madrid. Mas não são meias para assumir a armação e, principalmente, ditar o ritmo. Acelerar e cadenciar. Recuar para construir trocando com Bruno Silva, mas também aparecer na frente com o toque diferente.

É aí que entra PH Ganso. Mesmo entregando pouco na tão sonhada e, até aqui, mal sucedida experiência na Europa. Em 18 jogos oficiais pelo Sevilla marcou quatro gols; no Amiens, 12 partidas e apenas dois passes decisivos. Muito pouco. Há sérias dúvidas sobre sua capacidade de jogar em alta intensidade. Pelo estilo e por conta de problemas físicos ao longo da carreira. Por isso o interesse de clubes com maior poder de investimento não passou de sondagem.

No Fluminense, porém, é possível render. Porque é um time para Ganso vestir a dez e chamar de seu. E sem aspirações de grandes títulos, ao menos em tese. Ele seria a grande estrela da equipe carioca e um interlocutor técnico de Fernando Diniz em campo. Para municiar um ataque que pode ter o retorno de Pedro em março.

Quem sabe não é o estímulo que falta ao jogador de 29 anos? O mesmo que não correspondeu às expectativas, mesmo as mais realistas, que não colocavam o camisa dez do Santos campeão paulista e da Copa do Brasil 2010 como mais promissor que Neymar.

O ideal seria que Fernando Diniz fosse mais pragmático e cedesse ao futebol por demanda. Mas seu espírito é de Cilinho, Telê Santana, Marcelo Bielsa e Quique Setién. Que ao menos seja ''louco'' apenas nas ideias e não no trato com os jogadores.

Se receber Ganso e der respaldo e responsabilidade, o meia talentoso pode ser a peça que falta na montagem do novo Fluminense. Uma espécie de ''elo perdido''. Será?

Uma formação possível do Fluminense de Fernando Diniz com a hipotética presença de Paulo Henrique Ganso: linhas adiantadas, zagueiros na cobertura dos laterais, Aírton fechando por dentro, Ganso recuando para qualificar a construção das jogadas e Bruno Silva infiltrando e se juntando ao trio ofensivo de mais rapidez e intensidade que lucidez na criação de espaços. Algo a ser pensado pelo treinador até o retorno de Pedro (Tactical Pad).


De Gea, Pogba, 6ª vitória. United de Solksjaer faz história “à brasileira”
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André Rocha

O Brasil faz parte da história de Ole Gunnar Solksjaer como jogador. Duas vitórias sobre a seleção brasileira, a segunda na Copa do Mundo de 1998 por 2 a 1. Em 2006, voltou a vestir a camisa de seu país em novo confronto com o Brasil. Empate por 1 a 1 e manutenção da invencibilidade contra o futebol cinco vezes campeão do mundo em quatro confrontos na história.

Agora é treinador do Manchester United, sucedendo José Mourinho. Assumiu sem nenhum alarde, pompa ou circunstância. Mas ao seu jeito vai construindo um ótimo início de trabalho. Histórico, com 100% de aproveitamento nos seis primeiros jogos – cinco vitórias pela Premier League, outra na Copa da Inglaterra. Nem as lendas Alex Ferguson e Matt Busby conseguiram tal feito.

O triunfo em Wembley sobre o Tottenham é o maior e mais emblemático até aqui. Pelo jogaço, por ser o primeiro contra um grande e também pela afirmação de um estilo de comando que, pela urgência e considerando o contexto, acabou apresentando características de treinadores brasileiros.

A começar pela gestão de elenco. Mesmo com a ressalva de que qualquer coisa seria melhor que a terra arrasada de Mourinho, saindo de um clima insuportável pra algo mais leve. Partindo do resgate de Paul Pogba, maior contratação da história do clube e o grande talento do elenco, que vivia às turras com o treinador português e assistiu a algumas derrotas do banco de reservas.

O resultado: em seis partidas, são quatro gols e cinco assistências do meio-campista francês. A última em um lançamento primoroso para Rashford infiltrar em diagonal pela direita e bater cruzado para marcar o gol único da partida. Em um típico contragolpe dos Red Devils nos tempos de Mourinho, dentro de um primeiro tempo de apenas 40% de posse e cinco finalizações contra sete dos Spurs, mas acertando a direção da meta de Lloris por cinco vezes. Eficiência.

Também aproveitando a saída de Sissoko, lesionado ainda na primeira etapa. Lamela entrou e Mauricio Pochettino só conseguiu acertar o posicionamento do meio-campo na volta do intervalo, saindo do 4-3-1-2 para o 4-2-3-1 com o recuo de Eriksen e o meia argentino se juntando a Son e Dele Alli atrás de Harry Kane. E Solksjaer respondeu como um treinador brasileiro, reorganizando sua equipe em função do adversário.

De início saindo do 4-2-3-1 das últimas partidas e armando um 4-3-3 com Lingard centralizado e ajudando no combate a Winks, volante que inicia a construção das jogadas do Tottenham. Tudo para dar liberdade a Pogba, que mesmo com espírito renovado continua pouco intenso sem a bola. Também explorando com Rashford e Martial as costas dos ofensivos laterais Trippier e Davies.

Na segunda etapa, a equipe retornou ao sistema original, voltando a posicionar Rashford na frente, soltar Pogba, que quase ampliou em jogada pessoal e Lingard e Martial voltando pelos flancos formando com Matic e Herrera a segunda linha de quatro. De novo uma estratégia ''à brasileira'': encaixar a marcação, definir duelos individuais e fazer perseguições longas, porém com muita entrega e concentração.

Mas com falhas e também méritos do Tottenham, que trabalhava a bola, invertia da esquerda para Trippier e chegava à área do United com muita gente. Rondou a área e finalizou muito! Foram 16 no segundo tempo, onze no alvo. Todas defendidas por De Gea. Outra atuação individual espetacular. Disparado o melhor em campo para garantir o resultado que faz o maior campeão inglês voltar a sonhar com a quarta vaga na Liga dos Campeões.

É bem provável que Solksjaer não conheça os métodos brasileiros de comando técnico no futebol, mas vai se estabelecendo como ''fato novo'' – olha o Brasil de novo! Mobiliza o grupo, tira o melhor de seus talentos, arma o time em função de suas individualidades e usa os resultados para ganhar moral. Competência ou sorte? O tempo vai mostrar, especialmente quando chegar fevereiro e o duelo com o PSG pela Liga dos Campeões.

(Estatísticas: BBC)


Flamengo volta da Flórida com título, mas também uma ameaça silenciosa
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André Rocha

A celebração de Abel Braga no apito final da vitória do Flamengo por 1 a 0 sobre o Eintracht Frankfurt era nitidamente de alívio. Na nossa cultura resultadista, a conquista, mesmo meramente simbólica de um torneio de pré-temporada, era importante para não ressuscitar o ''cheirinho'' e baixar a moral de um grupo abatido por reveses seguidos.

Valeu pelo intercâmbio, pela chance de jogar em igualdade contra equipes europeias em meio de temporada. Mas não há dúvida de que a preparação em si ficou prejudicada e, mesmo com a obsessão por títulos em curtíssimo prazo da nova diretoria do clube, ao menos este início de Carioca deve ser tratado como continuação do período de testes e treinamentos.

Abel Braga repetiu praticamente o time titular que encerrou 2018 com Dorival Júnior e gostou mais do que viu no empate em 2 a 2 com o Ajax que no triunfo sobre o time alemão. Na segunda partida, muitos contragolpes desperdiçados (ainda o ''arame liso''), erros técnicos típicos de início de temporada e alguns momentos de displicência diante de um oponente com dez homens em toda segunda etapa. Os reservas pecaram pelo desentrosamento, mas compensaram com a vontade natural de quem busca seguir no elenco com chances de entrar em campo nas partidas oficiais.

Gabigol e Arrascaeta estão no Rio de Janeiro treinando. A direção ainda busca zagueiro e lateral. Fica a impressão de que é preciso buscar um líder para dar identidade à equipe e orientar os companheiros em campo, numa espécie de ''eco'' para os gritos de Abel. Por isso o interesse em Dedé, Kannemann, Miranda e Rafinha.

Mas há uma função em campo que parece relegada a segundo plano e não é considerada uma carência do elenco: o volante ofensivo, de infiltração. Objetivamente só há Willian Arão. Na expectativa de contar com Bruno Henrique, do Santos, Abel projeta uma equipe no 4-1-4-1 com dois pontas rápidos e Everton Ribeiro e Arrascaeta por dentro e à frente de Cuéllar.

E se não funcionar e faltar intensidade na dupla de meias? Qual o plano B? Apenas Arão, sem um substituto do mesmo nível ou até um jogador mais técnico e eficiente para ganhar a posição? Abel deu chances a Ronaldo e Jean Lucas, atuando mais à frente de Piris da Motta entre os reservas. Os garotos até atuaram bem, um mais organizador e o outro aparecendo na área para finalizar mal, mas tirar a bola da direção do goleiro adversário no gol da vitória.

Mas hoje nenhum dos três se apresenta como uma opção confiável no mais alto nível do futebol jogado no Brasil e no continente. Certamente Abel Braga traz do seu último trabalho, no Fluminense, a experiência de dar oportunidades a muitos jovens, por conta das dificuldades financeiras do tricolor. Saudável, até para equilibrar a média de idade do elenco. Mas especificamente para a função que se convencionou chamar de ''segundo volante'', o Flamengo está carente.

Se Everton Ribeiro – ou até Diego Ribas, caso renove o contrato – não funcionar como o meia ao lado de Arrascaeta, o time pode não atingir o nível esperado. É bom lembrar que com Dorival a equipe rendeu mais no 4-2-3-1, desfazendo o 4-1-4-1 dos tempos de Mauricio Barbieri.

Algo a se pensar já na viagem de volta. O perigo é Abel, olhando só o resultado inicial e as novas aquisições, achar que está tudo bem. Não parece. Eis a ameaça silenciosa no Flamengo para as primeiras disputas de 2019.


Para Alecsandro, “falso nove” é uma mentira. O que diz a história do jogo?
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André Rocha

– Camisa nove pra mim tem que fazer gol. Quem veste esse número é o cara mais próximo ao gol. Quando isso não acontece e o treinador arma o jogo para isso acontecer, vai dar errado. Está se usando falso nove, isso não existe. Ou cara é nove ou não é. Vou confessar uma coisa, os treinadores têm medo de dizer que estão sem centroavante, estão jogando com meia e falam que estão com falso nove. Os treinadores não falam para a imprensa não pegar no pé, tudo mentira. O camisa nove tá em falta, o falso tem um monte por aí.

Palavras de Alecsandro, centroavante de 37 anos, em sua primeira entrevista como jogador do São Bento. Filho de Lela, irmão de Richarlison, com passagem por Atlético Mineiro, Vasco, Internacional, Flamengo e Palmeiras. Talvez incomodado com a perda de espaço ao longo do tempo. Quem sabe embalado pelo senso comum – seguido por muita gente boa, boleiro ou não – que está até em música: ''o centroavante é o mais importante''.

Foi tantas vezes, com Romário, Ronaldo, Careca, Van Basten, Gerd Muller, Hugo Sánchez e muitos outros que eternizaram a função, que Dadá Maravilha chamava de profissão junto com a do goleiro. Ainda decisivo no país. Desde Edmundo em 1997, o artilheiro do Brasileiro, ou um deles quando o posto de goleador máximo era dividido, jogava como centroavante: Romário, Adhemar, Guilherme, Viola, Magno Alves, Luís Fabiano, Dimba, Washington, Souza, Josiel, Keirrison, Kléber Pereira, Adriano, Diego Tardelli, Jonas, Borges, Fred, Éderson, Ricardo Oliveira, Jô, Henrique Dourado e Gabriel Barbosa. O próprio Edmundo jogou mais adiantado que Evair naquele Vasco.

Fundamental em vários momentos, mas não obrigatório como ele faz parecer. E a história do jogo mostra vários exemplos de jogadores que desequilibraram atuando como ''falso nove''. Ou seja, no centro do ataque, mas com liberdade de movimentação, caindo pelos lados,  circulando entre a defesa e o meio-campo do adversário ou recuando e abrindo espaços para as infiltrações dos companheiros. Craques ou não que contribuíram significativamente para a evolução do esporte.

Desde Matthias Sindelar do Wunderteam da Áustria dos anos 1930, passando por Nandor Hidegkuti da Hungria de 1954, Alfredo Di Stéfano no Real Madrid multicampeão dos anos 1960, Johan Cruyff no Ajax, Barcelona e na seleção holandesa nos anos 1970. Saindo da posição mais adiantada sem a bola para circular por todo o campo. Armando, marcando, atacando o espaço certo. Pensando o jogo.

No Brasil, a segunda metade dos anos 1980 apresentou um exemplo clássico de adaptação para passagem de bastão. Roberto Dinamite, maior artilheiro da história do campeonato brasileiro com 190 gols, recuou no centro do ataque do Vasco comandado por Antonio Lopes para servir um jovem centroavante adaptado à ponta esquerda: Romário. O Baixinho, em início de carreira, aprimorou as infiltrações em diagonal que o consagrariam ao longo da carreira para receber os passes do camisa dez cruzmaltino.

Inspiração para Vanderlei Luxemburgo, que trabalhou como auxiliar de Lopes em outros clubes, na década seguinte adaptar Evair, que tinha Dinamite como grande ídolo, para atrair a marcação dos zagueiros e acionar Edmundo e Edilson, depois Rivaldo, infiltrando em diagonal no Palmeiras bicampeão paulista e brasileiro em 1993 e 1994.

Outro time ainda mais vencedor foi o São Paulo de Telê Santana. Bicampeão da Libertadores e Mundial. Quem era o centroavante num ataque com Cafu, Raí, Palhinha e Muller? Sem contar o Brasil de 1970, considerado o maior time de todos os tempos, com Tostão também adaptado ao centro do ataque. Aproveitando a experiência no Cruzeiro que atuava com dois pontas abertos e o ''ponta de lança'' revezando com Dirceu Lopes na chegada à área adversária. Na seleção de Zagallo, procurava o lado esquerdo deixando o centro para as infiltrações de Pelé ou as diagonais de Jairzinho partindo da ponta direita.

Chegar na área como elemento surpresa e não a referência do ataque, mas também dos defensores. Foi o que consagrou todos eles. Também o que fez o futebol de Messi explodir no Barcelona de Pep Guardiola, especialmente na temporada 2010/11. O gênio argentino trabalhava entre linhas, recuava para trabalhar com Busquets, Xavi e Iniesta – formando o que provavelmente foi o melhor ''losango'' de meio-campo em todos os tempos – e aparecia na área para finalizar ou servia os pontas Pedro e Villa. Time que só não repetiu a tríplice coroa de 2008/09 por causa de um gol do Real Madrid na prorrogação da final da Copa do Rei.

De Cristiano Ronaldo, outro que é referência técnica de qualquer ataque que faça parte, mas precisa de um parceiro mais fixo na área adversária para fazer o ''trabalho sujo''. Na Juventus é Mandzukic que luta com os zagueiros e fica no centro para o português se desmarcar da ponta para dentro e finalizar. Mais um caso em que o centroavante não é a estrela.

Com linhas de marcação compactas, concentração defensiva e muita análise de desempenho em clubes e seleções, o jogador mais estático, o centroavante ''raiz'' tende a encontrar mais dificuldades. O time fica mais previsível e os companheiros induzidos a alimentar aquele que só aparece quando vai às redes. A função vai se transformando com Lewandowski, Diego Costa, Harry Kane, Luis Suárez e Edinson Cavani. Todos móveis e inseridos num trabalho mais coletivo.

Até Mohamed Salah vai se aprumando na função no Liverpool de Jurgen Klopp. Antes um atacante de lado, explora a velocidade, intensidade e capacidade de se deslocar e abrir espaços para que o ataque ganhe versatilidade e mais um elemento. Agora um quarteto que pode ter Shaqiri, Wijnaldum ou Keita junto com Mané e Firmino, que cresce quando recua como meia, mas também se destacava…como ''falso nove''.

No Paulista que o ''Alecgol'' vai disputar, o atual campeão Corinthians encontrou o melhor encaixe no torneio e na temporada alternando Jadson e Rodriguinho na frente. Uma espécie de 4-2-4 sem referência ou o tipico homem-gol.

Alecsandro está na reta final da carreira como jogador. Se quiser se manter no meio do futebol é melhor abrir um pouco a mente e aceitar uma verdade inexorável deste esporte que tanto amamos: há várias formas de jogar e vencer. Muitas verdades e poucas mentiras. Sem dogmas, nem preconceitos.

 


São Paulo de Jardine precisa de paciência e respaldo. Terá?
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André Rocha

A Flórida Cup só vale pela rara oportunidade no calendário brasileiro de intercâmbio com equipes europeias, mesmo não sendo de primeiro nível como o Eintracht Frankfurt. Porque quebrar a pré-temporada que já é curta e entrar em campo com cinco dias de trabalho contra times em pleno ritmo de competição na nossa cultura resultadista cria riscos desnecessários.

Pior ainda para um São Paulo pressionado e cercado de desconfianças. Ver o rival Palmeiras ser campeão brasileiro com um estilo mais simples, jogo direto e comandado pelo veterano Felipão e investir no jovem treinador André Jardine que acredita em valorização da posse, saída sem rifar a bola e trabalha conceitos do jogo de posição com elenco menos qualificado deixa a impressão de que o clube vai na contramão. Mesmo agindo rápido no mercado para começar o ciclo com um elenco mais completo.

É questão de convicção para ser paciente e dar respaldo. Porque a falta de sintonia entre o novo goleiro Tiago Volpi e Bruno Peres na saída de bola, com erro que terminou no pênalti de Reinaldo sobre Willems convertido pelo croata Rebic é, em tese, mais que compreensível e até natural. Sem contar o mérito da equipe alemã, bem coordenada na execução de um 3-5-2 típico, na organização da pressão no campo adversário.

Mas o fato é que os titulares saíram derrotados em 45 minutos. No segundo tempo com reservas, arrancada de Liziero, passe para Diego Souza pela esquerda e assistência para Nenê empatar. Gol na transição ofensiva com velocidade. O camisa dez mais aberto à direita, uma opção para o início da temporada. Interessante, se o meia veterano colaborar sem a bola e se movimentar abrindo o corredor. Pode tornar o time menos engessado e previsível.

Em ritmo de treino, o Eintracht achou a vitória por 2 a 1 em uma saída rápida pela esquerda, mas que parecia não dar em nada. Terminou no gol contra de Igor Vinicius, outra novidade na lateral direita. Valeu pela movimentação de todos, incluindo Léo Pelé e Willian Farias, e a chance de observação, mesmo com todas as ressalvas de um cenário com atletas voltando de férias há pouquíssimo tempo.

No nosso imediatismo sem muitos parâmetros de análise além do placar final, se diante do Ajax ainda nos Estados Unidos o resultado também não vier muitos já ligarão o ''sinal de alerta'' pensando na estreia do Paulista e, principalmente, no confronto eliminatório com o Talleres pela Libertadores.

Não é simples reincorporar Hernanes no centro da articulação de um 4-2-3-1, muito menos adaptar o móvel Pablo no centro do ataque dentro de um modelo de jogo que pede infiltrações em diagonal dos ponteiros Helinho e Everton. Questão de treino, assimilação das ideias, repetição. Tudo que uma viagem para a América do Norte e amistosos precoces não oferecem. Típico caso em que o compromisso comercial pode ser bastante inconveniente.

O São Paulo paga para ver, não segue o senso comum de ''fazer o simples''. Ao menos por enquanto. Jardine precisa de tempo e avaliação justa da margem de evolução. No nosso universo insano e paranoico parece um privilégio. Terá chance?


Zé Ricardo, exclusivo: “Teremos trabalho para repor as perdas no Botafogo”
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André Rocha

Foto: Dudu Macedo/FotoArena/Estadão Conteúdo

O saldo da temporada 2018 pode ser considerado positivo para o Botafogo. Campeão estadual com Alberto Valentim, garantiu vaga na Sul-Americana com a nona colocação, sem os sustos que Vasco e Fluminense passaram para assegurar permanência na Série A. Fruto do trabalho de Zé Ricardo, que assumiu em agosto, o time oscilou naturalmente e se recuperou na sequência de cinco vitórias e um empate entre a 32ª e a penúltima rodada. Talvez o melhor momento do Alvinegro no ano.

Mas 2019 chega apresentando novo desafio de reformulação, com perdas importantes e busca de reposição dentro da realidade do clube no mercado. Em entrevista exclusiva, o treinador lamenta as mudanças e as dificuldades financeiras, mas busca caminhos para manter o nível de rendimento nas competições. Comenta também sobre sua passagem pelo curso da CBF (Licença PRO) e a interação com técnicos consagrados.

BLOG – O que esperar do Botafogo em 2019 com elenco tão mexido?

ZÉ RICARDO – O Botafogo terminou o ano passado com uma ''cara'' e jogando um bom futebol. Certamente iriam aparecer propostas para alguns jogadores e outros, naturalmente iriam sair por movimentos do mercado. Com as dificuldades financeiras que o clube passa, temos que mostrar criatividade para remontar o elenco e continuar performando. Acredito numa equipe competitiva e com muito espirito coletivo. Pode demorar um pouco, mas dessa forma esperamos alcançar rendimento e, consequentemente resultados.

BLOG – O modelo de jogo, que ganhou encaixe na reta final do Brasileiro, vai mudar em função das alterações no grupo de jogadores?

ZÉ RICARDO – Certamente teremos que observar o rendimento que terão os novos atletas e aqueles que deverão ter mais minutos em campo, mas buscaremos manter aquilo que estávamos construindo no trimestre final de 2018.

BLOG – Qual impacto na gestão do grupo com perdas de liderança como Jefferson, Igor Rabello e Rodrigo Lindoso?

ZÉ RICARDO – Muito grande! Três atletas com tempo de clube, líderes (cada qual com seu perfil) e que faziam parte de um ''corpo'' da equipe. É lógico que teremos trabalho para repor as perdas, mas entendemos que isso faz parte do futebol brasileiro e, com algumas exceções, as equipes conseguem não manter por muito tempo seus jogadores de destaque.

BLOG – Você começou no Flamengo precisando propor jogo, mas sempre ressaltou a necessidade de um sistema defensivo forte. No Vasco e Botafogo, pela diferença na capacidade de investimento, seus times puderam atuar mais vezes na base das transições. Como você se sente mais confortável?

ZÉ RICARDO – Cada elenco tem seu perfil e cada clube tem o seu estilo e história e necessidades (momento). Levando esses aspectos em consideração é que busco sempre o equilíbrio das equipes que trabalho.

BLOG – Para terminar, como foi a interação com os colegas no curso da CBF agora no final do ano – Tite, Mano, Dunga e outros? O que você leva para o seu trabalho nesta temporada?

ZÉ RICARDO – Foi uma troca fantástica! Imagine que em determinado momento estávamos todos reunidos junto com Tite, Mano, Dunga, Falcão e Parreira (esses dois últimos como palestrantes) numa mesma sala, trocando experiências e informações. Além disso, uma turma muito interativa que fez com que o tempo do curso passasse de forma rápida e agradável.